O capítulo VI do Evangelho de São João: a Eucaristia

Almejamos apontar neste artigo como o Evangelista São João mostra, em seu sexto capítulo, a verdadeira interpretação sobre a Presença Real de Cristo na Eucaristia. Esta é efetiva, Cristo assim o quis, e o relato do quarto Evangelista não deixa margens à outras interpretações. As palavras do Mestre não podem ser metáforas e ainda a reação dos que estavam presentes na cena confirma o sentido verdadeiro, como veremos.

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São João Evangelista, por Giovanni Bonsi – Museu Amedeo Lia, La Spezia, Itália

São João foi, segundo consta na Tradição, o último a escrever seu Evangelho. De fato, foi somente por volta do ano 90 que ele relatou os feitos da vida do Senhor. Dentre os diversos motivos que o levaram a escrevê-los há um que se destaca: já naquela época começaram ímpias fomentações de heresias sobre a Pessoa de Jesus. Deste modo, em seu sexto capítulo, trata ele especificamente da Santíssima Eucaristia, precavendo a Igreja contra os futuros desvios dos hereges. É de se notar que São João é o único dos Evangelistas a não relatar a instituição da Santíssima Eucaristia. Vemos, entretanto, em sua narração um profundo zelo em explicar a doutrina acerca da transubstanciação. Com efeito, nos elucida GRAIL e ROGUET: “É um fato: João não narrou a instituição da Eucaristia […]. Mais afastado das necessidades da catequese, o IVº evangelho está mais preocupado com a síntese doutrinal”.[1]

É de fé que a Eucaristia foi verdadeiramente instituída por Nosso Senhor. No capítulo VI de São João vemos o Salvador nos prometendo seu próprio Corpo e Sangue como alimento e bebida espiritual. No Sacramento da Eucaristia há um autêntico sacrifício, que anuncia a morte de Cristo e renova, incruentamente, a imolação do Calvário, cujo valor expiatório apaga os crimes dos homens; trata-se de um Sacramento que contém realmente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo.

É curioso o fato de que muitas pessoas que entendem as passagens das Escrituras no sentido literal, “ao pé da letra”, não vêem nas palavras de Nosso Senhor o sentido literal e óbvio por Ele proferido. Ao contrário, relegam-nas à um estilo figurativo, simbólico ou até alegórico.

Contudo basta analisar um pouco mais a fundo este capítulo para percebermos claramente as intenções do Mestre, sua referência clara e direta a seu próprio Corpo e Sangue. Vejamos, no próprio texto, o sentido evidente das palavras:

“Eu sou o pão da vida. Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram. Este é o pão que desceu do céu, para que aquele que dele comer não morra. Eu sou o pão vivo, que desceu do céu. Quem comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que eu darei é a minha carne para a salvação do mundo. Disputavam, pois, entre si os judeus, dizendo: Como pode este dar-nos a comer a sua carne? Jesus disse-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. O que come a minha carne e bebe o meu sangue, tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida. O que come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em Mim e Eu nele.(Jo 6, 48-56).

 

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Última Ceia – Igreja dos Santos Mártires, Málaga, Espanha

É impressionante verificar como, por assim dizer, Ele reitera várias vezes a afirmação de que é realmente a carne e o sangue d’Ele. Não é possível enxergar uma mera metáfora nestas asseverações.

Metáfora, de fato, não pode ser, pois Nosso Senhor não procura atenuar suas declarações, mesmo sabendo que está “escandalizando” os outros. No versículo 52 os judeus confirmam que entenderam literalmente os sentidos das palavras: “Disputavam, pois, entre si os judeus, dizendo: Como pode este dar-nos a comer a sua carne?” Contudo, o divino Mestre não os corrige pelo que entenderam, mas ainda afirma algo mais ousado: “Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (53).

As metáforas que encontramos nas Escrituras sobre carne e sangue não se prestam a comprar com esta passagem, não há outra interpretação a ser dada, senão a que ensinou Jesus Cristo.

Outro ponto a se considerar é o “escândalo” causado nos circunstantes. Mesmo diante da apostasia destes, Nosso Senhor não se retrai, é mais ousado, e ainda prova a fé dos que permanecem, mostrando que é realmente um ponto crucial quando se trata da Eucaristia: “Desde então muitos dos seus discípulos voltaram atrás, e já não andavam com Ele. Por isso Jesus disse aos doze: Quereis vós também retirar-vos?” (6, 67-68). Ele não procura se desculpar nem atenuar suas afirmações. É patente que se não fossem afirmações literais Ele teria persuadido os discípulos a ficarem, entretanto isto não se deu, o Divino Mestre vira muitos dos que o seguiam nesta ocasião O abandonarem e nem assim Ele se retratou. Aos que permanecem é exigido uma fé profunda, como nos explica HUGON:

“A última parte do capítulo acaba por confirmar a interpretação literal. A multidão murmura, numerosos discípulos se retiram, pois eles acharam muito dura esta linguagem. O Mestre, cuja bondade, entretanto, é inesgotável, não tenta segurá-los, explicando-lhes que suas parábolas têm somente um sentido metafórico e não possuem nada que os possa espantar; ao contrário, Ele insiste e conclui que a fé é necessária a qualquer um que queira compreendê-lo.”[2]

Desta maneira vimos, sucintamente, como realmente, em seu sexto capítulo, São João quis mostrar como a Eucaristia é realmente o Corpo e o Sangue do Divino Salvador, e que não é possível dar outra interpretação às palavras de Cristo. Isto é um mistério de nossa fé. Por mais que não o compreendamos inteiramente devemos depositar plena confiança nas palavras do Divino Mestre.

Pe. Michel Six, EP

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Adoração ao Santíssimo Sacramento, capela privada dos Arautos do Evangelho

Bibliografia

Bíblia Sagrada. 43ª ed. São Paulo : Edições Paulinas, 1987.

HUGON, Édouard. La Sainte Eucharistie. 4ªed. Paris : Pierre Téqui, 1922.

VV. AA., Initiation Théologique. Vol. IV. Paris: Éditions du Cerf, 1956.

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[1] Il est un fait: Jean n’a pas rapporté l’intitution de l’eucharistie […]. Plus éloigné des nécessités de la catéchèse, le Ivème évangile est plus préocupé de synthèse doctrinale. (Cf. GRAIL, A.; ROGUET; A.-M., O.P., In Initiation Théologique. Vol. IV. Paris : Éditions du Cerf, 1956. P. 506-507).

[2] La dernière partie du chapitre achève de confirmer l’interpretation littérale. La foule murmure, de nombreux disciples se retirent, parce qu’ils ont trouvé trop dur ce langage. La Maître, dont la bonté cependant est inépuisable, n’essaie pas de les retenir en leur expliquant que ses paroles n’ont qu’une portée métaphorique et n’offrent rien qui doive les étonner ; au contraire, il insiste et il conclut que la foi est nécessaire à quiconque veut le comprendre. (Cf. HUGON, 1922, p. 54-55).

Por que o incenso é utilizado na liturgia católica?

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Não queimo! Assim respondeu uma multidão incontável de mártires ante o tribunal romano. Bastava pôr um punhado de incenso numa pira incandescente que ardia em honra a um ídolo ou à estátua do imperador. Tão simples gesto, uns poucos grãos de incenso eram suficientes para conter a ira dos perseguidores e louvar os deuses. Mas aqueles heróis da Fé, testemunhando seu amor a Cristo, preferiram morrer a cultuar os ídolos, a vida eterna a uns grãos de incenso.

Desde há muito, quase desde sempre, o incenso foi usado no culto divino. Essa composição de resina com ervas aromáticas, que quando lançada ao fogo se consome e exala agradável perfume, é símbolo da alma que se oferece a Deus em sacrifício de suave odor. Deste modo, oferecer incenso a Deus é reconhecer seu domínio sobre nós e sobre toda a criação, sua majestade e o direito que Ele tem de nossa vassalagem.

Assim, no Antigo Testamento, os judeus ofereciam a Javé um culto no altar do incenso (Cf Ex 30,1-10.34-38) e acrescentavam a determinadas oblações um pouco de incenso (Cf Lv 2,1.15). A tradição católica viu no incenso que um dos Magos ofertou ao Rei Menino no Natal (Cf Mt 2,11) um sinal de que aquele homem reconhecia em Jesus a divindade.[1] E a Igreja, ao realizar o Santo Sacrifício do Altar, oferece incenso, pois adora oculto nas espécies do pão e do vinho consagrados o verdadeiro Filho de Deus.

O incenso é também símbolo das orações dos justos, como descreve o Apocalipse, o livro da Liturgia Celeste: “Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, outro Anjo veio postar-se junto ao altar, com um turíbulo de ouro na mão. Foi-lhe dada grande quantidade de incenso, para que o oferecesse com as orações de todos os santos, no altar de ouro que está adiante do trono. E da mão do Anjo, a fumaça do incenso com as orações dos santos subiu diante de Deus” (Ap 8,1-4).

Mais um significado: a glória de Deus. Quando vemos a fumaça do incenso envolvendo o recinto sagrado, associamo-la à nuvem que encheu a Tenda da Reunião ao ser consagrada por Moisés, porque a glória de Deus se fez presente: “A nuvem cobriu a Tenda de Reunião e a glória do Senhor encheu o Tabernáculo. Moisés não pôde entrar na Tenda de Reunião, porque a nuvem pairava sobre ela, e a glória do Senhor enchia o Tabernáculo” (Ex 40, 34-35). O mesmo aconteceu na dedicação do Templo: “Quando os sacerdotes saíram do lugar santo, a nuvem encheu o Templo do Senhor, de modo tal que os sacerdotes não puderam continuar suas funções, por causa da nuvem: a glória do Senhor enchia o Templo do Senhor” (1Rs 8,10-11).

Simbolizando assim a glória de Deus, o incenso também manifesta a união que se estabelece na Liturgia entre a Igreja terrestre e a Jerusalém Celeste, onde os Anjos e os nossos irmãos, os Bem-aventurados, louvam a Deus sem cessar e vivem envoltos em sua glória.

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São esses os motivos pelos quais na celebração eucarística, pode-se incensar o Altar, a Cruz, o Evangelho, as oferendas, o Sacerdote, a assembléia e, sobretudo, o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo sacramentalmente presente pela Consagração. A bênção do incenso para o rito sacro é um sacramental; a incensação em forma de cruz simboliza o Sacrifício da Cruz, e a das oferendas em forma circular, a total pertença das ofertas a Deus, retirando-as do uso profano. Ademais, o incenso é usado nas Bênçãos do Santíssimo, nas Vésperas Cantadas, nas exéquias e em outras bênçãos de lugares e objetos sagrados, como os sinos.

Na dedicação de uma igreja, depois de ungido o Altar é posto sobre ele um braseiro para queimar incenso, simbolizando que o sacrifício de Cristo, realizado ali na Missa, sobe ao Pai Eterno como suave fragrância, e com ele as orações dos fiéis. A coluna de incenso que então se levanta recorda a coluna de nuvem que acompanhou os filhos de Israel no deserto depois da saída do Egito (Cf Ex 13,21-22). Todo o espaço da igreja é incensado, pois tornou-se uma casa de oração, e também os fiéis, por serem “templos vivos de Deus” (Cf 1Cor 3,16-17; Ef 2,22).

Cerimônia de Dedicação da basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, dos Arautos do Evangelho. São Paulo, Brasil
Cerimônia de Dedicação da basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, dos Arautos do Evangelho. São Paulo, Brasil

Caro leitor, quando estivermos em uma igreja e nos virmos circundados pelo incenso e penetrados de seu perfume, lembremo-nos: estamos em um lugar sagrado, é o momento de nos oferecermos a Deus em sacrifício como o incenso que é queimado e de elevarmos nossa prece, para que, como a fumaça, ela suba ao Céu em agradável odor.

 

Luís Filipe Defanti

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[1]“[…] por entender que Ele era de natureza divina e celestial, ofertaram incenso perfumado, forma de oração verdadeira, oferecida como suave odor do Espírito Santo”. ANÔNIMO. Obra incompleta sobre o Evangelho de Mateus, 2: PG 56, 642.

O Pão vivo que desceu do Céu

Adoração ao Santíssimo Sacramento. Basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, dos Arautos do Evangelho, São Paulo - Brasil
Adoração ao Santíssimo Sacramento. Basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, dos Arautos do Evangelho, São Paulo – Brasil

Ao subir para o Céus, Jesus não poderia nos ter deixado um presente maior do que a Eucaristia. Que de mais precioso que seu próprio Corpo e Sangue, Alma e Divindade? Sim, na Santa Hóstia Jesus está realmente presente, tal como em sua vida terrena, mas oculto sob os véus do pão e do vinho. Que milagre, que grande mistério!

De fato, a inteligência humana nunca chegaria a cogitar algo ao mesmo tempo tão impossível e tão singelo: Deus e Homem verdadeiro escondido na aparência de alimento, sempre à nossa disposição, como remédio do corpo e da alma.

Mas porque escondido? Por que Ele quer ser procurado pelo seus filhos e filhas. Está ávido de ser visitado, de ser recebido no sacramento da comunhão.

E é isso que a Solenidade de Corpus Christi comemora a cada ano, desde 1264, quando foi instituída pelo Papa Urbano IV, através da Bula Transiturus de hoc mundo. Essa festa “deveria marcar os tempos futuros da Igreja, tendo como finalidade cantar a Jesus Eucarístico, agradecendo-Lhe solenemente pro ter querido ficar conosco até o fim dos séculos sob as espécies de pão e vinho. Nada mais adequado do que a Igreja comemorar esse dom incomparável.” (João S. Clás Dias, EP)

O culto e a devoção à Santíssima Eucaristia foi crescendo paulatinamente ao longo dos séculos da vida da Igreja. Logo nos primeiros tempos Ela era recordada na Quinta-Feira Santa – como aliás o é até nossos dias – mas com um certo tom de tristeza, pois naquela noite o Salvador foi traído por um de seus discípulos e entregue nas mãos daqueles que o matariam.

Mais tarde, já na Idade Média, essa devoção foi ganhando espaço na vida dos fieis e da própria Igreja, e além da celebração da Santa Missa, começaram outros movimentos de louvor a Jesus Hóstia. “O último impulso veio das visões de Santa Juliana de Monte Cornillon, uma freira agostiniana belga, a quem Jesus pediu a instituição de uma festa anual para agradecer o sacramento da Eucaristia. A religiosa transmitiu esse pedido ao arcediago de Liége, o qual, sendo eleito Papa 31 anos depois, adotou o nome de Urbano IV. Pouco depois esse Pontífice instituía a festa de Corpus Christi, que acabou por se tornar um dos pontos culminantes do ano litúrgico em toda a Cristandade.” (João S. Clás Dias, EP)

Com efeito, em 1263, um sacerdote de nome Pedro, originário de Praga, viajava para Roma, e no caminho começaram a lhe assaltar tentações violentas contra a crença na presença real de Jesus na Eucaristia, porém ele não se deixava vencer por tal pensamento. Em determinado momento ele chegou à cidade de Bolsena, distante uns 120 Km de Roma, e decidiu ali fazer uma pausa, e aproveitou para celebrar a Santa Missa, para fortalecer sua fé acometida por essas horríveis tentações.

Corporal no qual foi envolvida a Hóstia milagrosa. Catedral de Orvieto - Itália
Corporal no qual foi envolvida a Hóstia milagrosa. Catedral de Orvieto – Itália

Contudo, quanto mais ele procurava afastar esse pensamento incrédulo, mais fortes eles voltavam à sua mente. Isso intensificou-se de modo especial no momento da Consagração do pão. Nesse momento, o sacerdote olhou para a Hóstia e viu gotejarem gotas de sangue! Sua emoção foi imensa. A torturante dúvida à qual ele não queria dar ouvidos desfez-se e voou como o pó da terra batido pelo vento.

Passados os primeiros momentos de forte comoção, Pedro decidiu continuar sua viagem a Roma e contar ao Papa o ocorrido. Urbano IV o recebeu e escutou atentamente todos os detalhes de tão impressionante milagre. Em seguida ordenou que fosse averiguada a sua veracidade, a qual tendo sido comprovada colocou em marcha uma procissão à frente da qual se encontrava o Servo dos servos de Deus. Tendo chegado à cidade de Orvieto (que se encontra a 20 Km de Bolsena) veio-lhe ao encontro outra procissão com a Hóstia milagrosa, toda embebida em sangue e envolta num corporal.

Ali mesmo em Orvieto, Urbano IV decidiu instituir a celebração de uma festa em honra ao Santíssimo Sacramento, a qual conhecemos até hoje como Festa de Corpus Christi. Não se sabe se por uma dessas sobrenaturais coincidências – que nunca são acasos – ou se faziam parte da comitiva que acompanhava o Papa, encontravam-se na mesma cidade dois dos maiores teólogos de todos os tempos: São Tomás de Aquino e São Boaventura. O Papa, então, os convocou – bem como a outros teólogos – e lhes pediu que compusessem uma sequência[1] para a Missa da festa.

Terminado o prazo combinado, todos eles compareceram diante do Sumo Pontífice para apresentarem suas composições. O primeiro deles foi São Tomás de Aquino, que começou a ler o Lauda Sion. Apenas terminada a leitura, todos os presentes, e em primeiro lugar São Boaventura, rasgaram suas redações e aplaudiram a magnífica obra prima, verdadeira síntese teológica sobre a Eucaristia, tão lindo que deixamos suas palavras encerrarem esse artigo:

Afresco representando o encontro do Papa Urbano IV com a Hóstia milagrosa. Catedral de Orvieto - Itália
Afresco representando o encontro do Papa Urbano IV com a Hóstia milagrosa. Catedral de Orvieto – Itália

Louva Sião, o Salvador, louva o guia e pastor com hinos e cânticos.

Tanto quanto possas, ouses tu louvá-lo, porque está acima de todo o louvor e nunca o louvarás condignamente.

É-nos hoje proposto um tema especial de louvor: o pão vivo que dá a vida.

É Ele que na mesa da sagrada ceia foi distribuído aos doze, como na verdade o cremos.

Seja o louvor pleno, retumbante, que ele seja alegre e cheio de brilhante júbilo da alma.

Porque celebramos o dia solene que nos recorda a instituição deste banquete.

Na mesa do novo Rei, a páscoa da nova lei põe fim à páscoa antiga.

O rito novo rejeita o velho, a realidade dissipa as sombras como o dia dissipa a noite.

O que o Senhor fez na Ceia, nos mandou fazê-lo em memória sua.

E nós, instruídos por suas ordens sagradas, consagramos o pão e o vinho em hóstia de salvação.

É dogma de fé para os cristãos que o pão se converte na carne e o vinho no sangue do Salvador.

O que não compreende nem vês, uma Fé vigorosa te assegura, elevando-te acima da ordem natural.

Debaixo de espécies diferentes, aparências e não realidades, ocultam-se realidades sublimes.

A carne é alimento e o sangue é bebida; todavia debaixo de cada uma das espécies Cristo está totalmente.

E quem o recebe não o parte nem divide, mas recebe-o todo inteiro.

Quer o recebam mil, quer um só, todos recebem o mesmo, nem recebendo-o podem consumi-lo.

Recebem-no os bons e os maus igualmente, todos recebem o mesmo, porém com efeitos diversos: os bons para a vida e os maus para a morte.

Morte para os maus e vida para os bons: vede como são diferentes os efeitos que produz o mesmo alimento.

Quando a hóstia é dividida não vaciles, mas recorda que o Senhor encontra-se todo debaixo do fragmento, quanto na hóstia inteira.

Nenhuma divisão pode violar as substâncias: apenas os sinais do pão, que vês com os olhos da carne, foram divididos! Nem o estado, nem as dimensões do Corpo de Cristo são alteradas.

Eis o pão dos Anjos que se torna alimento dos peregrinos: verdadeiramente é o pão dos filhos de Deus que não deve ser lançado aos cães.

As figuras o simbolizam: é Isaac que se imola, o cordeiro que se destina à Páscoa, o maná dado a nossos pais.

Bom Pastor, pão verdadeiro, de nós tende piedade. Sustentai-nos, defendei-nos, fazei-nos na terra dos vivos contemplar o Bem supremo.

Ó Vós que tudo o sabeis e tudo o podeis, que nos alimentais nesta vida mortal, admiti-nos no Céu, à vossa mesa e fazei-nos co-herdeiros na companhia dos que habitam a cidade santa.

Procissão do Santíssimo Sacramento no Colégio Internacional Arautos do Evangelho, São Paulo - Brasil
Procissão do Santíssimo Sacramento no Colégio Internacional Arautos do Evangelho, São Paulo – Brasil

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[1] Sequentia, ou em português sequência, é um termo latino usado para designar um trecho de canto gregoriano cantado durante a Santa Missa. Por muitos séculos foi cantado antes da leitura do Evangelho, mas, com a reforma da liturgia em 1970, a sequentia foi levada para antes do aleluia. Atualmente ela só utilizada em Missas mais festivas, como a Solenidade de Corpus Christi, Páscoa, Pentecostes, entre outras.

A Mãe de Deus deveria ter sido concebida com a plenitude de graças?

Nossa Senhora das Graças
Nossa Senhora das Graças, Basílica de Nossa Senhora de Fátima, Arautos do Evangelho. São Paulo – Brasil

Luz tênue, igreja praticamente vazia, poucos ruídos. É fim de tarde na católica cidade de Granada. No recinto sagrado, nota-se que ainda há um sacerdote no confessionário, à disposição de alguém desejoso de ver purificada sua alma.

Enquanto ele termina a última oração de seu breviário, um jovenzinho se acerca, e, como de costume naquela varonil nação, ajoelha-se cara-a-cara com o ministro de Deus. Não havia dúvida, o rapaz queria confessar-se.

Espanha foi um dos países que mais batalhou por defender a proclamação do Dogma da Imaculada Conceição, e, por isso, para o padre testificar a qualidade da devoção mariana na alma do penitente, logo que este se ajoelha, diz o sacerdote: “¡Ave María puríssima!” ao que se deve responder: “¡Sin pecado concebida!”.

Sabia o rapaz a bela resposta, e assim não hesitou em dizê-la… Mas o frade, olhando-o com exigência, afirmou: “¡No! Contésteme: ‘¡En Gracia concebida!’”.

Esse pequeno episódio revela uma grande verdade teológica: que Cristo tenha purificado sua Mãe Santíssima do Pecado Original, sabemos pelos lábios do Beato Pio IX, quando proclamou o Dogma da Imaculada Conceição, pela Bula Ineffabilis Deus, em 8 de Dezembro de 1854. Contudo, o “aspecto negativo” – por assim dizer – do Dogma é ter sido concebida sem pecado. Há o aspecto positivo do mesmo, ou seja, que Maria Santíssima foi concebida em Graça. De maneira que desde o primeiro instante de sua existência, o Espírito Santo escolheu Maria como Templo para habitar, enriquecendo-a com os seus dons, virtudes e carismas.

Entretanto, Cristo não Se contentou apenas com isso. Como se fosse pouco, fez com que Maria Santíssima tivesse tal plenitude de graças já no primeiro instante de sua concepção, que superasse a plenitude de graças de todos os Anjos e Santos reunidos. Essa doutrina, que o renomado dominicano espanhol Pe. Antonio Royo Marín qualifica como “completamente certa em Teologia”, tem suas provas nas Sagradas Escrituras, no Magistério e na especulação teológica. É seguindo os ensinamentos desse teólogo, o qual se apoia na doutrina de São Tomás, que contemplaremos essa bela verdade.[1]

Tal verdade é insinuada nas páginas sagradas quando o Arcanjo São Gabriel saúda a Virgem: “Ave Maria, cheia de Graça” (Lc 1,28). O ser “cheia”, “plena” de Graça, não admite restrição no tempo, de modo que o Anjo quisesse dizer que naquele momento estava Ela repleta de graças, mas não antes nem depois.

Se apelarmos ao Magistério, na mesma definição do Bem-aventurado Pio IX sobre a Imaculada Conceição, encontramos essas palavras tão significativas: “[Deus] tão maravilhosamente cumulou-A da abundância de todos os celestiais carismas, tirada do tesouro da divindade, muito acima dos anjos e santos, [que Ela] manifestasse tal plenitude de inocência e santidade que não se concebe de nenhum modo maior depois de Deus…”[2]

Mas, abeberando-nos das fontes escriturísticas, e das definições do Magistério, encontramos belíssimas razões teológicas de conveniência para que Maria Santíssima fosse cumulada de graças desde o primeiro instante.

Sede da Sabedoria
Nossa Senhora Sede da Sabedoria

São Tomás argumenta dizendo que quanto mais algo se aproxima do princípio de uma ordem, tanto mais terá uma participação e semelhança com aquele princípio. Exemplifiquemos: quanto mais nos aproximamos do fogo, princípio do calor, tanto mais nos esquentaremos. Assim também acontece com a ordem sobrenatural: quanto mais nos aproximemos de Deus, tanto mais participaremos de seus dons. Ora, quem mais próximo de Deus, que Aquela que foi Mãe de Deus, dando ao Verbo a natureza humana para que Ele se encarnasse? Ademais, Nossa Senhora portou em si a Cristo, o qual teve a plenitude de graças, pois era o próprio autor da Graça. Maria Santíssima foi a Mãe do Autor da Graça, e por isso Ela foi cumulada e cheia de Graça, cuja plenitude supera a de todas as demais criaturas.[3]

Caso alguém objetasse que Ela não esteve unida a Cristo desde seu primeiro instante de existência, alegaríamos que isso não importa quanto à posse de tal plenitude, pois a Virgem estava predestinada desde toda a eternidade para ser Mãe de Cristo.[4]

Por que podemos afirmar que a plenitude de Graça em Maria, é maior que a dos Anjos e dos Santos reunidos? A razão é simples: a Graça é feito do amor de Deus. Ora, Maria Santíssima foi amada desde o primeiro instante de sua concepção, mais que os Anjos e Santos, visto que só a Ela foi concedida a graça de ser Mãe de Deus. Logo, essa plenitude de Graça é maior que a de todas outras criaturas.

É evidente que a plenitude de Graça em Maria não foi idêntica à plenitude de Graça de seu Filho, pois Ele é o Autor da Graça. Cristo tinha a plenitude absoluta, e Maria a tinha de modo relativo, ou seja, por estar intimamente unida a seu Divino Filho. Destarte, a Santíssima Virgem sempre estava cheia de Graça, e sempre crescendo em Graça, pois Deus lhe aumentava a capacidade. Já sobre isso o Rei Davi profetizava acerca de sua Filha e de sua Mãe: “Seu vigor aumenta à medida que avançam…” (Sl 83,8). Dizem os teólogos, que inclusive durante o sono Maria Santíssima aumentava em Graça, pois possuía a ciência infusa, a qual, mesmo durante o repouso, trabalhava santamente.

O Doutor Angélico ao tratar da plenitude de Graça em Nossa Senhora, faz uma distinção esclarecedora: Maria teve uma plenitude inicial, no momento de sua concepção: era plena; teve a plenitude perfectiva, quando se operou n’Ela a Encarnação do Verbo, aumentando claramente a Graça Santificante; e por fim, tem Ela a plenitude final, na eternidade.[5] Cumpre dizer que esse privilégio de ter a plenitude inicial, com exceção de Cristo seu Filho, somente Ela teve.

Assim sendo, quão bela, santa e perfeita morada preparou Cristo Senhor para Si: impossível mais perfeita. Deus esgotou sua capacidade de perfeição em uma criatura, de maneira que Maria transcende os outros santos, como o Céu transcende a Terra. Maria Santíssima é a montanha preferida na qual Deus quis erigir sua habitação: “Montes escarpados, por que invejais a montanha que Deus escolheu para morar, para nela estabelecer uma habitação eterna?” (Sl 67).

 

Pe. Felipe Garcia Lopez Ria, EP

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[1] ROYO MARIN, Antonio. Jesucristo y la vida Cristiana. Madrid: BAC, 1960. p.224-227.

[2] PIO IX. Ineffabilis Deus. 8 de Dezembro de 1854. AAS 1/1,597s; (DH 2800).

[3] Cf. III, q.27, a.5. resp.

[4] “Deus inefável… elegeu e ordenou para seu Filho Unigênito, desde o princípio e antes de todos os séculos, uma Mãe…” (PIO IX. Ineffabilis Deus. Loc.cit.)

[5] S.Th. III, q.27. a.5. ad 2.

Os entrechoques do Divino Apologeta

Jesus com os fariseus
Jesus com os fariseus – Catedral de Saint-Gatien, Tours (França)

Percorrendo o Evangelho salta-nos aos olhos constantemente, o entrechoque de duas mentalidades: a Divina com a humana, resultando daí uma verdadeira e Divina Apologia. Durante sua vida publica, o Divino Mestre teve que combater contra um terrível erro que se difundia e infiltrava entre o povo eleito, e talvez, poderíamos dizer que tenha sido este o paradigma da ação do mal: o farisaísmo. Entrechoque tal que, como sabemos, culminou na perseguição do Redentor, e por fim na sua própria morte.

Nos ensina a doutrina católica que estando o homem no Paraíso, sua inteligência era governada e iluminada pela graça, de tal modo que – se Adão permanecesse fiel – lhe seria impossível cair em qualquer erro, por pequeno que fosse. Porém, após haver cometido o pecado, tanto Adão, como toda sua posteridade, tornou-se propensa a toda espécie de desvios, criando assim doutrinas falsas que justificam seu modo errado de viver. Sendo esta uma das razões, pelas quais, Deus envia seus Servos e Profetas: para defenderem a sua Verdadeira Doutrina contra os erros que facilmente surgem nas mais variadas épocas históricas.

Se analisarmos o Antigo Testamento, nele veremos fatos que demonstram o quanto é necessário haver homens santos que guiem o povo no caminho da verdade e da retidão. Deste modo, por mais que a história da Apologética tenha seu início nos primeiros séculos do Cristianismo, bem poderíamos denominar esses varões Providenciais – enviados por Deus no Antigo Testamento – de “Proto-Apologetas”, título próprio àqueles que defendem a doutrina, contra as heresias e desvios de seu tempo.

Os Patriarcas, homens de virtude excelsa, personalidade robusta, Fé inquebrantável, autênticas imagens de Deus para aqueles rudes homens ainda não banhados pelo Preciosíssimo Sangue do Salvador, foram, à sua maneira, apologetas; posteriormente, Deus se faz representar pela linhagem espiritual dos doze Juízes, e a seguir, pelos homens da dinastia real que permaneceram fiéis. Todos eles tiveram de enfrentar a opinião pública dominante. Alguns como Josias, que “fez desaparecer as abominações da terra dos israelitas e impôs a todos que lá se encontravam que servissem o Senhor, seu Deus” (2Cr 34,33); e também Ezequias, o qual destruiu os lugares altos e fez cessar a idolatria que se alastrava no meio do Povo eleito (2Rs 18, 3-4). No entanto, “Deus se manifestou de maneira mais esplendorosa através dos Profetas, varões ígneos que invectivavam e ameaçavam aqueles dentre o povo que se desviavam da sã doutrina ou deturpavam a verdadeira Religião”. (CLÁ DIAS, 2005, p. 17-18) Sem embargo, Patriarcas, Juízes, Reis e Profetas não foram senão prefiguras d’Aquele que é o “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6): Jesus Cristo, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Segundo nos ensina São Paulo, Nosso Senhor veio ao mundo na “plenitude dos tempos”. (Gl 4, 4) Essa “plenitude” pode ser entendida de vários modos, um dos quais, o ápice da decadência da humanidade, mas sobretudo dentro do próprio Povo eleito. Assim sendo, “o Verbo se fez carne” (Jo 1, 14) essencialmente para redimir o gênero humano, reatando assim, os laços entre o Criador e a criatura, e ademais, fazendo extraordinárias revelações jamais imaginadas até então. Ora, Ele “veio para o que era seu, e os seus não o receberam”. (Jo 1, 11) Tais revelações foram rejeitadas por muitos de seus contemporâneos, dando origem a um entrechoque continuo de duas mentalidades: a da “graça e verdade” e o “seguimento deturpado da Lei de Moisés”, denominado por diversos autores como: farisaísmo.

Os fariseus dedicavam sua maior atenção às questões relativas à observância das leis de pureza ritual, aquelas estabelecidas para o culto, e passaram a marcar a vida em todas as ações quotidianas, tornando-as ritualizadas. Para o fariseu, “a justiça era mera aparência, e a limpeza ritual praticamente substituía a santidade interior” (HERRERA ORIA, 1959). Após recompilarem uma série de tradições e modos de se cumprir a lei, passaram a dar maior importância a esse “Torah oral”, do que propriamente à Lei verdadeira, ou seja, o Torah ou Pentateuco. Por este motivo, os fariseus tinham o delírio de serem meticulosos na observância das pequenas normas sociais e religiosas de maneira a criarem 613 preceitos (FRANZERO Apud HERRERA ORIA, 1954), que deveriam ser observados por todos. Normas muitas vezes ridículas, como por exemplo, se era lícito comer o ovo que uma galinha tinha posto em dia de sábado.

Eis porque Nosso Senhor os repreende, afirmando que eles “impunham pesados fardos nas costas dos outros sem que eles os movessem nem com um só dedo” (Mt 23, 4), e os censurava, como nos relata São Marcos: “Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens. […] Na realidade, invalidais o mandamento de Deus para estabelecer a vossa tradição”. (Mc 7, 7-8)

Segue o Divino Mestre com outra repreensão: “Ai de vós, guias cegos!” (Mt 23, 16) Isso por quê? Porque foram eles os mais ferrenhos opositores do Reino de Deus trazido pelo Salvador. Devido à grande influência que exerciam sobre o povo, haviam incutido neste uma mentalidade errada a respeito do Messias, apresentando-O como implantador de um reino estável para os judeus, e que os elevaria à supremacia sobre os demais povos. Idéia esta, triunfalista e de cunho marcadamente político e que, infelizmente, desenvolvera-se entre o Povo eleito durante séculos por influências farisaicas. (CLÁ DIAS, 2005)

No entanto, a fama de Jesus se propagava rapidamente, devido à magnitude dos numerosos milagres que realizava. Por esta razão, os fariseus imploravam ao Divino Mestre uma declaração taxativa se era ou não o Messias. Pergunta de si razoável porém, cheia de maldade, porque mesmo que Jesus lhes respondesse de forma afirmativa, eles não acreditariam, pois sua Divina figura contrariava a concepção errada que eles haviam criado para si. No fundo, isso era feito para apanhá-Lo em algum dito supostamente blásfemo, para assim terem oportunidade de prendê-Lo, “entretanto, ao Salvador ninguém engana. Quantas vezes, ao longo da História da Igreja, ímpios e hereges se serviriam dos mesmos pretextos daqueles fariseus”. (CLÁ DIAS, 2007, p.13) Pelo fato de não quererem entendê-Lo, não se deixaram enlevar pelo Messias como Ele realmente é; pois, desejavam que o Messias se adaptasse a eles como eram, com seus caprichos e delírios. “De nada adiantaram todos os milagres, pregações, nem mesmo a manifestação das virtudes de Jesus para dissolver o egoísmo pétreo daqueles incrédulos fariseus!” (CLÁ DIAS, 2007, p 13)

Como se explica a sanha de ódio contra o Divino Salvador? Teria Ele cometido algum delito? Será que Ele veio abolir a Lei de Moisés?

Não! Jesus mesmo declara, após o Sermão da Montanha, o qual segundo Santo Agostinho contém a síntese das doutrinas e estilo de vida trazidos por Nosso Senhor: “não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas. Não vim para os abolir, mas sim para levá-los à perfeição”. (Mt 5, 17) No entanto, os fariseus rejeitaram este convite ad maiorem, preferindo permanecer aferrados aos conceitos antigos.

Mesmo diante da dolorosa caminhada rumo ao Calvário, Jesus não hesita. Toma sua cruz e vai ao encontro da morte como “manso cordeiro levado ao matadouro”. (Is 53,7) Não houve e não haverá na História martírio que possa igualar-se ao que se submeteu Nosso Senhor Jesus Cristo. Sendo “Mártir dos mártires, Mártir por excelência, comprou com seu Sangue adorável a perseverança de todos aqueles que, nos séculos futuros, haveriam de trilhar as vias do holocausto, entregando suas vidas em defesa da Verdade.” (CORREA DE OLIVEIRA, 1977)

E assim, o Divino Apologeta testemunhou com seu próprio Sangue a Verdade que durante toda sua vida terrena ensinou e defendeu.

Cristo Crucificado
Cristo Crucificado. Igreja dos Arautos do Evangelho, São Paulo.

 

REFERÊNCIAS

BIBLIA SAGRADA. Tradução dos Monges de Maredsous. 36. ed. São Paulo: Ave-Maria, 2002.

CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A imagem sacra pode expressar muito mais que as palavras. Arautos do Evangelho. São Paulo: Agosto,n 44, p.16-19, 2005.

______. O fariseu e a pecadora. Arautos do Evangelho. São Paulo: Junho, n 30, p.6-11, 2004.

______. Joio, mostarda, fermento e o Reino. Arautos do Evangelho. São Paulo: Julho,n 43, p.6-11, 2005.

______. Somos todos ovelhas de Jesus? Arautos do Evangelho. São Paulo: Abril,n 64, 10-17, 2007.

FLÁVIO JOSEFO. História dos Hebreus. Tradução do Pe. Vicente Pedroso. São Paulo: Américas, 1956, v 7.

HERRERA ORIA, A. La palabra de Cristo. 2. ed. Madrid: BAC, 1959, v 6.

______. La palabra de Cristo. Madrid: BAC, 1954, v 3.

CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferencia sobre a Paixão de Jesus. São Paulo: Auditório São Miguel, 16 mar 1977.

SANTO AGOSTINHO. Sobre o sermão do Senhor na Montanha. Campo Grande: Edições Santo Tomás, 2003.

Mãe do Bom Conselho

A pintura, aplicada sobre delgada crosta de reboco, de trin­te e um centímetros de largura por quarenta e dois centímetros e meio de altura,[1] retrata Maria Santíssima com inefável e materna ternura, amparando em seus braços o Menino Jesus, ambos enci­mados por um singelo arco-íris. As cores do afresco são suaves, e finos os traços dos admiráveis semblantes.

Capela onde se encontra o afresco da Mãe do Bom conselho, Genazzano, Itália
Capela onde se encontra o afresco da Mãe do Bom conselho, Genazzano, Itália

“O magnum Mysterium!” — canta a Igreja no responsório das Matinas de Natal. Deus e Homem, hipostaticamente uni­dos! Seriedade e doçura, majestade e candura maravilhosamen­te expressas na fisionomia de uma criança.

Analise-se mais detidamente este quadro do Divino Infan­te. O nariz sem sinuosidades lembra a suprema retidão d’Aquele que é o Sol de Justiça. Seus olhos comunicativos, ligeiramente amendoados, de um castanho suave e luminoso, com certo matiz de verde, irradiam paz, ilimitada bondade, infinita sabedoria.

Detalhe dos olhos do Menino Jesus
Detalhe dos olhos e do nariz do Menino Jesus

Atrai agradavelmente a vista sua túnica vermelho-ocre, em cuja gola se destacam bordados harmoniosos e enigmáticos. Me­ro ornato? Ou quiçá alguma palavra em idioma desconhecido, alusiva à sua missão?

Num gesto de intenso afeto, transbordante de amor, Ele envolve com a mão direita o nobre e delicado pescoço de sua Mãe, enquanto com a esquerda segura energicamente a parte superior do vestido d’Ela, como a dizer: “Sois toda minha!” É tão categórico esse comovedor e divino amplexo, que sua vista direita parece levemente desviada da linha normal, pela ênfase com que Ele estreita sua face à de sua Mãe Santíssima.

Detalhe da mão do Menino Jesus
Detalhe da mão do Menino Jesus

Sem deixar de exprimir em nada a fisionomia própria de uma criança, o Divino Infante não denota, entretanto, a me­nor superficialidade, tão característica dessa fase da vida. Pelo contrário, como um oceano de seriedade, transparece n’Ele to­da a profundidade e amplitude do entendimento, toda a força da vontade, toda a elevação e nobreza do sentir. E tem a mais alta consciência do que representa sua Mãe, do paraíso inte­rior que Ela Lhe oferece.

Jesus Menino contempla, num olhar abarcativo, o passado, o presente e o futuro. Analisa toda a obra da criação, em toda a sua variedade e esplendor. Vê a revolta de Lúcifer e o proelium magnum — a grande peleja na qual São Miguel precipita no inferno satanás e os outros espíritos rebeldes.

"Jesus Menino contempla, num olhar abarcativo, o passado, o presente e o futuro"
“Jesus Menino contempla, num olhar abarcativo, o passado, o presente e o futuro”

Depois da prova dos Anjos, considera a prova dos homens. Pondera o pecado de Adão e Eva, com todas as suas consequên­cias: a ruptura da aliança entre o Criador e a criatura, a necessi­dade da redenção do gênero humano. A desobediência ofende­ra a Deus em sua majestade infinita. Era preciso que o resgate fosse feito por quem tivesse mérito igualmente infinito. Eis aí a divina missão do Menino Jesus: redimir a humanidade, estabe­lecer a Nova Aliança, em perfeita conformidade com os desíg­nios do Padre Eterno: “Eu desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou” (Jo 6, 38).

Qual novo Isaac, Jesus deseja ardente e plenamente obe­decer — não foi o pecado de nossos primeiros pais precisamen­te a desobediência? Resoluto e amoroso, assume o holocaus­to, apesar da dolorosa antevisão da pergunta que Lhe poderia aflorar aos lábios no Horto das Oliveiras, repetindo as palavras proféticas do salmista: “Quæ utilitas in sanguine meo?” — Que vantagem virá do meu sangue?” (Sl 29, 10).

Não obstante essas considerações, o Divino Infante quer manifestar aqui todo o seu comprazimento, toda a sua felicidade em estar no colo de sua Mãe Santíssima, como a indicar a ne­cessidade de recorrer a Ela em todas as borrascas e sofrimentos desta vida, a fim de haurir a força e a coragem indispensáveis para seguir “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6).

Por sua atitude, o Menino Deus parece dizer a cada um: “Se queres algo de Mim, pede-o por meio de minha Mãe e se­rás atendido”. O quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano bem poderia estar aureolado com as palavras “Mediação Universal de Maria”, pois o próprio Deus humanado quis encontrar proteção e amparo nos braços virginais de sua Mãe Santíssima.

O Menino pressiona levemente sua face contra o rosto de sua Mãe, e d’Ela recebe inefável manifestação de afeto, vene­ração e ternura, representada com especial acerto pelo grau de inclinação de ambas as cabeças, pelo modo como se olham.

"O Menino pressiona levemente sua face contra o rosto de sua Mãe"
“O Menino pressiona levemente sua face contra o rosto de sua Mãe”

Ó mistérios dessa união, que fizeram exclamar a São Ber­nardo: “Maravilha-te com estas duas coisas e considera qual é causa de maior admiração: se a benigníssima mercê do Filho ou a excelentíssima dignidade de tal Mãe. De ambos os lados está o pasmo, de ambos o prodígio. Que Deus obedeça a uma Mulher, é humildade sem igual, e que uma Mulher tenha autoridade para mandar em Deus, é excelência sem igual”. [2]

Seria intenção do artista simbolizar a grandeza e a profun­didade da misteriosa união entre Mãe e Filho — união arque­típica neles, Maria e Jesus — pintando as faces tão juntas? Ao analisar os traços fisionômicos da Senhora do Bom Conselho — o rosado da face, a configuração retilínea do nariz, a inclinação do pescoço, a cor dos cabelos tendente ao dourado, o arqueado das sobrancelhas — percebe-se que Ela é a Mãe de um Filho que fisicamente muito se Lhe assemelha.

Então, por que pintar tão juntos Maria e Jesus Menino? É porque o Filho é o próprio Criador da excelsa Mãe. E a Mãe — a mais perfeita das criaturas — levou nas suas entranhas vir­ginais o Divino Infante.

A Mãe, em altíssimo ato de adoração ao Filho, procuran­do como que adivinhar o que se passa em seu interior, considera ao mesmo tempo o fiel que a seus pés se ajoelha e, como Media­neira de todas as graças, acolhe sua prece e a apresenta a Deus Nosso Senhor.

Jamais teve alguém em seus braços tesouro de igual valor: infinito…! Entretanto, quem foi mais desejosa do que Nossa Se­nhora de atrair outros para compartilharem de seu tesouro?

É infinito o caleidoscópio de paradoxos que a considera­ção do relacionamento entre Nossa Senhora e seu Divino Filho, nesse afresco, sugere.

Há nessa união de Mãe e Filho uma intimidade e uma profundidade que surpreendem e atraem. A união de alma, re­fletida no olhar que um e outro trocam entre si, gera em ambos uma tranquilidade e uma imobilidade no afeto que Lhes parece fazer sentir a bem-aventurada delícia desse mútuo entendimen­to, desse mútuo estar juntos!

Mas, ao mesmo tempo, esse profundo, calmo, sério e ín­timo olhar não é excludente. O fiel sente-se atraído a entrar no aconchego e na serenidade desse olhar. Mãe e Filho se dispõem a receber com bondade o fiel devoto à procura de socorro, mi­sericórdia ou amparo. O aconchego sacral que ambas as fisiono­mias irradiam faz com que o fiel se sinta entendido e amado nos aspectos mais nobres e elevados de sua alma.

Leitor, abandona por um momento o texto e contempla uma vez mais — e agora detidamente — a foto do afresco, e deixa-te penetrar pela celestial atmosfera que Mãe e Filho criam.

"É infinito o caleidoscópio de paradoxos entre Nossa Senhora e seu Divino Filho"
“É infinito o caleidoscópio de paradoxos entre Nossa Senhora e seu Divino Filho”

Por certo perceberás que, para além de suas qualida­des pictóricas e artísticas, dessas duas fisionomias como que se evolam certas graças de presença de Nossa Senhora e do Menino Jesus, às quais bem poucos conseguem resistir. Sen­tirás que graças sensíveis batem à porta de tua alma, ou já a adentram, trazendo consigo uma paz repousante e um repouso pacificador. Ora é a fisionomia da Mãe, ora o olhar do Filho, ora o afresco no seu conjunto que te dará ânimo em meio às situações difíceis, que te consolará durante os sofrimentos, que te acalmará nas aflições, que te dará confiança nas angústias, coragem na hora de avançar, prudência ao ter que recuar; que, por fim, fará descer do Céu o milagre até ti, quando todos os recursos humanos se tiverem esgotado.

Venerando a sagrada efígie, vêm-nos à mente as palavras de Santo Afonso de Ligório, grande devoto da Mãe do Bom Conselho, habituado a sempre trabalhar tendo diante de si, so­bre a mesa, uma estampa da Virgem de Genazzano:

“Ó soberana Princesa! Do imenso oceano de vossa bele­za, se originaram, como rios a partir de sua fonte, a beleza e a graça de todas as criaturas: o mar aprendeu a arredondar suas ondas e a fazer passear majestosamente suas vagas de cristal, vendo os vossos cabelos dourados, os quais, caracolados encan­tadoramente, caem sobre vossos ombros e sobre vosso pescoço de marfim. As fontes transparentes e seus claros reservatórios aprenderam o repouso e a calma, vendo a serenidade de vos­sa bela fronte e de vossa agradável fisionomia. O arco-íris, tão charmoso quando faz luzir suas mais belas cores, intuiu como se dobrar graciosamente para melhor dardejar os raios de sua luz, contemplando o contorno de vossas sobrancelhas. A estrela da manhã e a estrela vespertina são duas brilhantes faíscas de vos­sos belos olhos. O lírio radiante de alvura e a rosa avermelhada tomaram emprestadas suas vivas cores de vossa fisionomia. A púrpura e os corais parecem invejar o vivo colorido de vossos lábios. O leite mais saboroso e o mel mais doce procedem de vossa boca. O jasmim odorífero e a rosa perfumada de Damasco foram embalsamados pelo vosso sopro. […] Em uma palavra, ó Maria, todas as belezas criadas não são senão uma sombra e uma débil imagem de vossa beleza.

Portanto, eu não me espanto, ó soberana Princesa, de que a terra e o Céu se coloquem sob vossos pés; pois Vós sois tão grande que, pondo-Vos sobre eles, Vós os enriqueceis e eles se alegram em poder oscular a planta de vossos pés. […]

Ó Maria, belo céu resplandecente de graça e de beleza, sois firmamento mais vasto que o Céu Empíreo, pois o próprio Deus, cuja imensidade o universo não podia conter, escondeu-se em vos­so seio!” [3]

Beneficia-te dessas graças que são derramadas com maternal abundância, com magnificên­cia de Rainha, sobre todos aqueles que, piedosa e confiantemen­te, sabem pronunciar as excelsas palavras: Ó Mãe do Bom Conse­lho, rogai por nós!

Ó Mãe do Bom Conse­lho, rogai por nós!
Ó Mãe do Bom Conse­lho, rogai por nós!

Extratos do livro Mãe do Bom Conselho, escrito por Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, Fundador dos Arautos do Evangelho. (CLÁ DIAS, João S. Mãe do Bom Conselho. 3. ed. São Paulo: Lumen Sapientiae, 2016, p. 25-34).

____________________________________

[1] ADDEO, Agostino Felice. Apparitionis Imaginis Beatae Mariae Virginis a Bono Consilio Documenta. Vaticanus: Typis Polyglottis Vaticanis, 1947. Excerptum ex Analecta Augustiniana, v.20, jan. 1945/dez. 1946, p. 118. Essas medidas referem-se à superfície visível do afresco, pois tanto a moldura quanto o altar cobrem a exten­são total da pintura.

[2] BERNARDO DE CLARAVAL, Santo. Sermones de Tempore: De laudibus Virginis Matris, Hom. I, n. 7 (PL 183, 60).

[3]   AFONSO MARIA DE LIGÓRIO, Santo. Acclamations à Marie: Gloires de Marie II. In: OEuvres Complètes. 2. ed. Tournai: Casterman, 1880, v. 8, p. 247-249.

Nossa Senhora, canal das graças do Espírito Santo

Pentecostes

Maria Santíssima estava predestinada desde toda eternidade a ser mãe de Deus. E por isso mesmo, no momento em que foi concebida no ventre de Santa Ana, não apenas ficou preservada da mancha original como recebeu a plenitude do Espírito Santo num grau mais elevado do que todos os Anjos e santos reunidos.

Entretanto, no momento em que Ela disse sim às palavras do Anjo e que o Verbo se fez carne e habitou entre nós, essa plenitude atingiu um píncaro inimaginável. Não podia haver dignidade maior entre as meras criaturas que ser elevada a Mãe de Deus, participando do plano hipostático. Foi através d’Ela que a Obra da Redenção se tornou possível, porque Deus assim o quis. Sua grandeza exigia uma perfeição digna, de certo modo, do Criador. Daí a palavra dum Santo: “Só Deus pode conceder o cabedal de graças depositado na Divina Mãe no dia Encarnação” (São Bernardino de Sena).

Essa santidade de Maria – ó prodígio – crescia a cada instante de sua vida, de modo especial nos momentos cruciais da vida de seu Filho, a Paixão e Ressurreição de Jesus.

Que virtudes admiráveis Maria praticou ao longo da dolorosa Paixão do Redentor. Ela, a melhor de todas as mães, amando com todo ardor de seu Coração Imaculado o melhor de todos os filhos, que Ela concebeu por obra do Espírito Santo, que Ela maternalmente gerou no tempo e na carne, que Ela amamentou e cuidou com tanta solicitude, e que Ela, em união com o Pai Celeste, se dispôs a oferecer pela humanidade pecadora. Mas Ela não assistiu isso de longe. Acompanhou com coragem a Via Dolorosa, e ficou de pé junto a Cruz de Jesus. Quanta força, quanta virtude, quanta santidade não precisaria ter essa alma?!

Momento talvez ainda mais cruel ainda estava por chegar: após o sepultamento do corpo de Jesus, que vazio Ela deve ter sentido. Seu Filho não estava mais no mundo. Muitas pessoas sabem o que é perder um filho e podem imaginar melhor o que Maria deve ter sofrido nessa ocasião. Porém, sua Fé inabalável na Ressurreição sustentou sozinha a Igreja nascente por três longos dias.

Todo esse sofrimento foi largamente recompensado por ocasião da descida do Espírito Santo sobre Ela e os Apóstolos reunidos no Cenáculo. Mais uma vez sua plenitude de graças crescia de modo magnífico. “No dia de Pentecostes, diz um grande servo de Deus, o Espírito Santo desceu primeiro sobre a Divina Mãe e difundiu-Se depois entre os Apóstolos sob a forma de línguas de fogo. O Ministério Apostólico, de fato, destinado a comunicar a graça, deveria receber seu último aperfeiçoamento pelo canal d’Aquela que é a sua despenseira. Seja como for, os Apóstolos deveram sem dúvida às preces de sua amada Soberana, e às suas próprias disposições, a plenitude da sabedoria e santidade que receberam nesse grande dia.” (Pe. Luís Bronchain, C. SS. R., Meditações para todos os dias do ano.)

Tendo-A como modelo e intercessora, rogamos que Ela prepare nossos corações para serem uma digna morada do Divino Paráclito! Para isso, trabalhemos com Ela para unir em nós a inocência à penitência, o temor de Deus à confiança n’Ele, a humildade à grandeza de alma, e a delicadeza de consciência à generosidade do sacrifício. Esforcemo-nos com Maria para subir a Deus pelos diversos graus do recolhimento, da pureza de coração e da oração contínua.

Segundo Santo Ildefonso, assim como o fogo penetra o ferro e o abrasa, conferindo as propriedades próprias ao mesmo fogo, assim o Espírito Santificador se apoderou da Alma de Maria e Lhe transmitiu seus dons e concedeu a Ela o poder de os transmitir a quem Ela quiser; basta-Lhe pois inclinar-Se a nós para encher-nos do mesmo Espírito. “Todos os dons, virtudes e graças, diz São Bernardino de Sena, são dispensados pelas mãos de Maria a quem Ela quer, quando e como quer”. Ora, Ela quer cumular-nos de favores mais do que nós poderíamos desejar receber. Deixemos as portas de nossos corações abertas para que Ela possa tomar posse e nos encher dos dons do Espírito Santo.

Nossa-Senhora-Fatima

 

 

Jesus está realmente presente na Eucaristia? De que maneira?

Consagração da Eucaristia

 

Almejamos apontar neste trabalho como o Evangelista São João mostra, em seu sexto capítulo, a verdadeira interpretação sobre a Presença Real de Cristo na Eucaristia. Esta é efetiva, Cristo assim o quis, e o relato do quarto Evangelista não deixa margens a outras interpretações. As palavras do Mestre não podem ser metáforas e ainda a reação dos que estavam presentes na cena confirma o sentido verdadeiro, como veremos.

São João foi, segundo consta na Tradição, o último a escrever seu Evangelho. De fato somente por volta do ano 90 é que ele relatou os feitos da vida do Senhor. Dentre os diversos motivos que o levaram a escrevê-los foi que, já naquela época, começavam fomentações heréticas. Deste modo, em seu sexto capítulo, trata ele especificamente sobre a Santíssima Eucaristia, já prevendo futuros desvios por parte dos hereges.

É de fé que a Eucaristia foi verdadeiramente instituída por Nosso Senhor. No capítulo VI de São João vemos o Salvador nos prometendo seu próprio Corpo e Sangue, como alimento e bebida espiritual. E no Sacramento da Eucaristia há um autêntico sacrifício, que anuncia a morte de Cristo e renova, de forma incruenta, a imolação do Calvário, cujo valor expiatório apaga os crimes dos homens; trata-se de um Sacramento que contém realmente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo.

Comenta-nos Hugon que: “a instituição da Eucaristia por Nosso Senhor não tinha sido posta em dúvida antes do século XIX. Os protestantes, originariamente, esforçavam-se por tirar das palavras de Cristo seu sentido literal, e de explicar que a Eucaristia é somente a figura do Corpo e do Sangue; eles não contestaram nem a autenticidade da narração evangélica, nem a instituição divina da Eucaristia como símbolo”.[1]

É de se levar em consideração que os mesmos protestantes que tomam tantas passagens das Escrituras no sentido literal, ao “pé da letra”, não vêem nas próprias palavras de Nosso Senhor, neste sexto capítulo, o sentido literal óbvio por Ele proferido. Ao contrário, relégam-nas a um estilo figurativo, simbólico ou até alegórico.

Entretanto basta analisar um pouco mais a fundo este capítulo que veremos claramente as intenções do Mestre, e sua referência clara e direta a seu próprio Corpo e Sangue.

Primeiramente vejamos, no próprio texto, o sentido literal e óbvio das palavras:

 

“Eu sou o pão da vida. Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram. Este é o pão que desceu do céu, para que não morra todo aquele que dele comer. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo. A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne? Então Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim” (Jo 6, 48-57).

 

É impressionante verificar como Jesus repete várias vezes a afirmação de que é realmente a carne e o sangue d’Ele. Assim, não é possível sustentar que seja mera metáfora o que encontramos nesses ditos.

Metáfora, de fato, não pode ser, pois Nosso Senhor não procura atenuar suas declarações, mesmo sabendo que está “escandalizando” os outros. No versículo 52 os judeus confirmam que entenderam literalmente os sentidos das palavras: “A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne?” Contudo, o divino Mestre não os corrige pelo que entenderam, mas ainda afirma algo mais ousado: “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos” (Jo 6, 53).

Outro ponto a se considerar é o “escândalo” causado nos circunstantes. Mesmo diante da apostasia destes, Nosso Senhor não se retrai, é mais ousado, e ainda prova a fé dos que permanecem, mostrando que este é realmente um ponto crucial, quando se trata sobre a Eucaristia: “Desde então, muitos dos seus discípulos se retiraram e já não andavam com ele. Então Jesus perguntou aos Doze: Quereis vós também retirar-vos?” (Jo 6, 66-67). Ele não procura se desculpar, não atenua suas afirmações. É patente que se não fossem afirmações literais, Ele teria persuadido os discípulos a ficarem, entretanto isto não aconteceu.

Não é possível dar outra interpretação às palavras de Cristo.

Pe. Michel Six, EP

[1] L’institution de l’Eucharistie par Notre-Seigneur n’avait pas été mise en doute avant le XIX ème siècle. Les protestants de l’origine s’efforçaient d’enlever aux paroles du Christ leur sens littéral et d’expliquer que l’Eucharistie n’est que la figure du corps et du sang; ils ne contestaient ni l’authenticité du récit évangélique ni l’institution divine de l’Eucharistie comme symbole (Cf. HUGON, La Sainte Eucharistie. Paris : Pierre Téqui, 1916).

 

Santissimo