Qual o intuito do Sr. Andrea Tornielli ao atacar os Arautos do Evangelho? Criar um cisma na Igreja?

São Paulo – Brasil (Sexta-feira, 16-06-2017, Gaudium Press) Quem lê os artigos e livros do prestigioso vaticanista, Sr. Andrea Tornielli, pode regozijar-se com a recordação da figura pitoresca de um camaleão. Assim, suas publicações registram uma arguta capacidade de adaptar-se ao ambiente em que se encontra, para desenvolver a sua atividade: soube sorrir para João Paulo II, afagar o pontificado de Bento XVI e, ao mesmo tempo, preteri-lo discretamente, quando já andava de braços dados com Francisco…

Recentemente, o Sr. Tornielli publicou um artigo polêmico no blog Vatican Insider, do jornal La Stampa: “Arautos, a doutrina secreta: ‘Correa incentiva a morte do Papa'”. Considerando a conhecida característica camaleônica do articulista, duas questões despontam a partir desta publicação: quais são as suas pretensões? Para que ambiente ele antecipa uma adaptação?

É interessante observar que o autor ressuscita, através do mencionado artigo, antigas, muito antigas, denúncias contra o Professor Plinio Corrêa de Oliveira, relativas à veneração que muitos lhe prestavam em vida, bem como à devoção privada a sua mãe, D. Lucília. Agora, Mons. João Scognamiglio Clá Dias, fundador dos Arautos do Evangelho, é alvo dos mesmos ataques. Essas são acusações obsoletas, todas respondidas e devidamente refutadas conforme os ditames da mais estrita doutrina católica.

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Timeo hominem unius libri. É bem o que os leitores da imprensa católica são inclinados a concluir nestes momentos, sobre o conhecimento do Sr. Tornielli a respeito do tema de seu artigo: estudioso de um só livro causa temor. O que não fica nada bem para um articulista desse porte… Vejamos por que.

Em primeiro lugar, poderíamos sugerir ao Sr. Tornielli voltar um pouco ao passado da instituição, por ele tão veementemente atacada, e deitar alguma atenção a uma obra publicada em 1985 – Servitudo ex Caritate – com o parecer do eminente teólogo Pe. Victorino Rodríguez y Rodríguez, OP. Nesse estudo, nunca replicado, o assunto da Sagrada Escravidão a Jesus, pelas mãos de Maria, bem como os vínculos espirituais entre o Prof. Plinio e seus discípulos, que ele menciona em seu artigo, foram completamente esclarecidos para o passado, para o presente e para o futuro.

E por que não ler, também, o livro Dona Lucilia, de 1995, com prefácio laudatório do Pe. Antonio Royo Marín, OP, reeditado em parceria com a Libreria Editrice Vaticana em 2013, também em língua italiana? Sua leitura teria sido suficiente para compreender que os fundamentos da devoção a esta grande dama brasileira estão baseados em sua vida de ilibada virtude e no bimilenar costume da Santa Igreja. Permita-nos dizer-lhe, Sr. Tornielli, que talvez seja conveniente rever as suas anotações do tempo de catecismo, pois antes mesmo de alguém ser canonizado, pede a Santa Madre Igreja que seja reconhecida sua fama de santidade.

E quanto à devoção a Dr. Plinio? Se lhe interessarem dados mais atuais, convidamos o Sr. Tornielli a fazer um dedicado estudo a uma obra recentíssima, de 2016, publicada em cinco volumes também pela Libreria Editrice Vaticana, com mais de 100 mil coleções impressas, sob o título O dom de sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira. Nesse trabalho encontram-se detalhadas as origens históricas e o embasamento teológico desse tema, tratado de forma tão tendenciosa em seu artigo.

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É verdade que surgiu, entretanto, diante do Sr. Tornielli, uma grande e insólita novidade: um vídeo privado, divulgado fora do contexto e superado pelo tempo, pois é velho de um ano e meio. Sendo ele de uso restrito da instituição, foi, entretanto, obtido de forma ilegal por um homem apaixonado no desafeto à TFP e aos Arautos – ele mesmo ex-membro da TFP -, casado com uma senhora, ex-membro da Opus Dei, que ocupam ponderada parte de seu tempo em atacar as entidades às quais pertenceram. Nesta fonte que o influente Sr. Tornielli foi buscar sua informação imparcial…

Trata-se do registro de uma reunião de clérigos, reservada, que não implicou em nenhuma mudança de rumos nos Arautos do Evangelho, seja em seu relacionamento para com a Sagrada Hierarquia e a sociedade civil, seja na atuação com a imensa quantidade de aderentes do movimento. O objetivo do encontro registrado era, simplesmente, intercambiar impressões a respeito de determinados fenômenos preternaturais, num ambiente de amena e distendida intimidade. Mãos criminosas, ainda desconhecidas, resolveram divulgar seu conteúdo de forma malévola e inconsequente para um público que não tem, em sua grande maioria, conhecimentos teológicos suficientes para fazer a respeito do seu conteúdo um juízo aprofundado. Não era difícil, assim, criar confusão em suas mentes. Por outro lado, essas mesmas mãos não se interessaram, naturalmente, em divulgar as conclusões dessas análises.

Ora, por que o Sr. Tornielli não procurou os Arautos para obter um esclarecimento? Bem poderíamos dizer: timeo hominem unius factionis, tememos os homens da meia verdade, os homens parciais, aqueles que não sabem e não querem ouvir as duas partes.

Estará o Sr. Andrea Tornielli agindo sozinho? Isso não sabemos…

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Mas podemos afirmar, analisado o artigo do renomado vaticanista e as circunstâncias mencionadas, a cega contribuição que ele está oferecendo no sentido de destruir aquela tão sonhada unidade que os Padres do Concílio Vaticano II quiseram levar adiante e que concretizaram três grandes homens: São João Paulo II, Bento XVI e Mons. João Clá. Eis um modo de arruinar a doutrina de um Concílio Ecumênico, e a dedicada ação de dois papas – um ainda vivo e entre nós – e de um Fundador, de quem um Prefeito da Congregação para os Religiosos, Cardeal Franc Rodé, disse ser a Igreja devedora!

Cui prodest? A quem aproveita esta atitude? O mundo católico está certamente perplexo: desta vez o camaleão apresenta tons tão surreais que, feitas as devidas ponderações, ainda continua suscitando perguntas acerca de suas variadas novas colorações:

– A quem representa o Sr. Andrea Tornielli?

– Pretende ele provocar um cisma na Igreja?

– Com que intenções?

Por fim, esclarecidas as inverdades e distorções, fazemos-lhe um convite para retornar às vias de um jornalismo culto, sério e ético. Os Arautos do Evangelho consagram a São José, padroeiro da Igreja, a própria defesa, na certeza de não serem desamparados pelo pai virginal de Jesus e castíssimo esposo de Maria. Sem prejuízo dos próprios direitos, estão eles dispostos a sempre acolher com benevolência a retratação dos caluniadores e a perdoa-los sinceramente, pois não guardam qualquer ressentimento.

Arautos do Evangelho

Príncipes do universo: onde foram criados?

Cristo Ressurrecto cercado pelos Santos Anjos
Cristo Ressurrecto cercado pelos Santos Anjos

Aos Anjos Deus quis confiar o governo da natureza corpórea. Uns governam diretamente a matéria, outros comandam os Anjos que a governam, de acordo com aquilo que eles contemplam em Deus.

Esse princípio serve-nos de base para compreendermos o lugar onde eles foram criados. “Os Anjos, devendo governar toda a natureza corpórea, foram criados no corpo supremo (Céu), seja este denominado de Empíreo ou de outra forma. Chama-se aqui Céu não ao firmamento visível, mas ao empíreo […], assim dito não pelo ardor,[1] mas pelo esplendor, o qual logo que foi criado se encheu de Anjos”.[2]

Existe uma razão muito bela que se pode apresentar para defender essa tese: “os Anjos foram criados num lugar corpóreo para mostrar a relação que têm com a natureza corpórea, e que pela sua virtude, têm contato com os corpos”.[3] Ou seja, os Anjos foram criados no Céu Empíreo, local material, a fim de mostrar sua superioridade sobre a matéria.

 

Uma semente preciosa na natureza angélica

Por sua infinita misericórdia, Deus criou as criaturas racionais, Anjos e homens, para serem partícipes da natureza divina, através da Graça.[4] Contudo, contemplando este universo tão misterioso para nós, surge um problema: os Anjos foram criados já em Graça, ou seja, desde o primeiro momento de sua existência? Ou eles a receberam depois?

“São Tomás, seguido nesta opinião por Escoto e Suarez, admite que todos os Anjos foram elevados ao estado de Graça antes do momento de sua prova, pois sem a Graça Habitual eles não poderiam merecer a bem-aventurança sobrenatural (a visão beatífica que tiveram depois da prova) Esses três doutores concordam ainda em dizer que o mais provável é que todos os Anjos tenham recebido a Graça Habitual no instante mesmo de sua criação, como diz Santo Agostinho.[5] Então, os principais mistérios sobrenaturais foram-lhes revelados na obscuridade da fé e não na visão clarividente. Enfim, os três doutores concordam também em dizer que após a prova os Anjos bons foram definitivamente confirmados em Graça e obtiveram a visão beatífica (a Graça transformou-se em Glória), enquanto os maus se obstinaram no mal”.[6]

Mesmo para nós, que vivemos numa sociedade modernizada e industrializada, distantes no tempo e no espaço da vida campestre, não é surpresa saber que os vegetais contêm sementes, seu princípio de reprodução.

O que acontece às sementes, se lhes são propiciadas as condições adequadas? Frutificam! Ora, ensina a Teologia que a Graça é semente de Glória. Ou seja, a Graça é um princípio de vida que desabrochará, na eternidade, na Visão Beatífica. “A Graça, está para a beatitude (Visão Beatífica) como a razão seminal (semente) está para o efeito natural; por onde, na Escritura, a Graça é chamada de semente de Deus”.[7]

Assim, se os Anjos obtiveram a Visão Beatífica depois de passarem pela prova, e frutificaram na frondosa árvore da beatitude, foi porque desde o primeiro instante de sua criação tinham já a semente, ou seja, a Graça.

 

A imensidão do exército divino

O Apóstolo virgem, São João, quando foi arrebatado em visão, na ilha de Patmos, narrou o que viu nos céus: “Na minha visão ouvi também, ao redor do trono, dos Animais e dos Anciãos, a voz de muitos Anjos, em número de miríades de miríades e de milhares de milhares, bradando em alta voz: Digno é o Cordeiro imolado de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a glória, a honra e o louvor” (Ap 5, 11-12). E de modo semelhante, o virginal Daniel, o homem fiel a Deus no meio do mundo pagão de Nínive, pôde ver o ambiente da corte celestial em torno do trono de Deus: “Milhares e milhares O serviam, dezenas de milhares O assistiam!” (Dan 7, 10).

Essas frases da Escritura Sagrada revelam-nos que devemos acreditar com viva fé que os Anjos existem em número incalculável, excedendo de muito toda e qualquer ideia que tenhamos de multidão material. Dionísio Areopagita afirma que os “exércitos das inteligências superiores, ultrapassam toda a capacidade de medir ‘fraca e limitada’ das coisas materiais”.[8]

Todos conhecemos a parábola do Divino Mestre sobre a ovelha perdida: um pastor fiel e dedicado, imagem do Divino Pastor, que ao perder uma ovelha, deixa as outras noventa e nove pastando, e vai atrás da que se extraviou. Linda imagem do amor que Nosso Senhor Jesus Cristo devota a cada um de nós. Entretanto, não conterá ela algum outro significado?

“Os exegetas e doutores da Igreja interpretam com um simbolismo todo especial aquela passagem evangélica, quando Nosso Senhor diz: ‘Há mais alegria no Céu por um pecador que se converte do que noventa e nove justos que perseveram’ (Mt 15, 7). Noventa e nove por cento representam o mundo angélico que perseverou, e a humanidade está representada por ‘um’. Ou seja, a proporção entre a humanidade e os Anjos que perseveraram, é de ‘um’ para ‘noventa e nove’. Imaginem a quantidade de Anjos que existe… é incalculável!”[9]

A razão teológica é simples. No Pão de Açúcar, por exemplo, privilégio de nossa terra brasileira, pode-se perceber facilmente o imenso volume das rochas, símbolo da grandeza da bondade do povo. Por seu enorme tamanho, poder-se-ia dizer que é o rochedo perfeito.

Deus, ao criar o Universo, teve em vista a perfeição, pois sendo Ele Absoluto e Perfeito, seria absurdo pensar que fizesse algo mal feito. E, segundo a razão divina, tanto mais algo é perfeito, quanto mais em excesso foi criado. E, assim como “nos corpos o excesso se realiza pela grandeza”, tome-se como exemplo um Himalaia, ou o Pão de Açúcar cujo excesso se verifica no tamanho, “assim, nos seres incorpóreos, pode-se realizar pela multidão”.[10]

Mons. João Clá Dias assim explica essa realidade, inspirando-se no Doutor Angélico: “Estando mais próximos de Deus, tinha de ser que o número de Anjos fosse maior do que a quantidade de matéria. Então, o número de Anjos é maior do que o dos astros, por exemplo. O número dos Anjos é incontável”.[11]

“Os Anjos em relação aos homens são como um tapete. O tapete tem aquelas franjas nas extremidades. As franjas representam a humanidade, enquanto o tapete, os Anjos. Uma quantidade de Anjos…!”[12]

 

Onde estão os Anjos?

Quem não gostaria de estar em vários lugares ao mesmo tempo? Num lindo parque, no trabalho, na escola, tudo de uma só vez? Pois bem, será que os Anjos têm esse poder? Para começar, onde está um Anjo? Se ele é espírito, poder-se-á dizer que está neste ou naquele lugar, como se falássemos de algo material?

O Doutor Angélico assim responde à pergunta: “Pela aplicação da virtude angélica a algum lugar, diz-se que o Anjo está em um lugar corpóreo”.[13] Em outras palavras, o Anjo está onde ele atua.

Mas, o exemplo facilita a compreensão da teoria. Ouçamos a explicação dada por Mons. João Clá: “Como podemos nós dizer que um Anjo está numa casa, numa tenda, que o Anjo está numa árvore, que o Anjo está… como é que eu posso dizer: ‘um Anjo está em tal lugar?’ Sabemos que o Anjo está neste ou naquele lugar desde que se possa dizer que o Anjo está agindo nesse lugar. Onde o Anjo age, ali está ele. Então, ao contrário do que se passa com a matéria, pela qual diz-se que ‘uma sala contém todos os que estão dentro’, se fosse um Anjo que estivesse agindo na sala, dever-se-ia dizer: ‘o Anjo contém a sala’. Porque o Anjo está com toda a sala debaixo do seu domínio; então diz-se: ‘a sala está sob o domínio dos Anjos.’ Onde está o Anjo? Está na sala. Onde está a sala? No Anjo. Porque a sala é contida pelo Anjo”.[14]

Ora, se eles têm tal superioridade sobre a matéria poder-se-ia pensar que eles também a possuem sobre o lugar. Então, se eles estão agindo sobre várias coisas ao mesmo tempo, estão simultaneamente em vários lugares?

“Somente Deus tem virtude e essência infinitas, pelas quais atinge os seres em toda a parte. Porém, os Anjos as possuem finitas, não podendo atingir todos os seres, mas somente um determinado. Por onde, o Anjo, estando num lugar, pela aplicação de sua virtude a esse lugar, segue-se que não está em toda a parte, nem em muitos lugares, mas num somente”.[15] Porém, a velocidade com que ele passa de um a outro campo de ação é a de um puro espírito, ou seja, a velocidade do pensamento. É o que poderia dar a impressão de agir em vários lugares simultaneamente, dada a rapidez fulgurante com que pode deslocar-se. Em certo momento o Anjo pode estar num lugar e no instante seguinte, do outro lado do mundo. Para o Anjo não existe distância.

 

Extraído de “A Criação e os Anjos” da coleção Conheça sua Fé

 

[1] Empíreo, pela etimologia grega quer dizer “de fogo”. Por Céu Empíreo entende a Teologia o lugar material para onde os bem-aventurados irão após a ressurreição. Por mais que não seja uma verdade de Fé a existência do Céu Empíreo (material, físico), é tradição admitida pela Teologia. A verdade de Fé nessa matéria restringe-se à crença na Bem-aventurança, visão da glória de Deus, que se dá não pelo lugar, mas pelo estado dos justos.

[2] São Tomás de Aquino. Suma Teológica. I, q. 61, a. 4.

[3] São Tomás de Aquino. Suma Teológica. I, q. 61, a. 4, ad 1.

[4] A Graça é uma participação criada na vida incriada de Deus. A Graça é um dom divino, uma qualidade sobrenatural infundida por Deus nas almas, tanto dos homens quanto dos Anjos, divinizado-os.

[5] Cf Santo Agostinho. De civitate Dei. 1. 12, c. 9.

[6] Reginauld Garrigou-Lagrange. La synthese thomiste. Paris: Desclée de Brouwer, 1950, p. 269. Tradução nossa; Cf São Tomás de Aquino. Suma Teológica. I, q. 62, a. 3, resp.

[7] Idem.

[8] Dionísio, apud São Tomás de Aquino. Suma Teológica. I, q. 50, a. 3, resp.

[9] João Scognamiglio Clá Dias. Catecismo explicado. São Paulo, 16 maio 2002. Curso de Formação. (Arquivo ITTA-IFAT). Diz Cornélio A Lápide: “Nas noventa e nove ovelhas, os santos Padres encontram os Anjos que perseveraram; na ovelha perdida, eles encontram o gênero humano” (Abbé Barbier. Les Trésors de Cornelius a Lapide). “A tradição das Escrituras nos revela de modo claro que inumeráveis são para nós as formações entre as quais se ordenam as essências celestiais […], que ultrapassam a ordem débil e limitada dos números materiais em uso entre nós” (Dionísio. De coelesti hierarchia, 14).

[10] Cf São Tomás de Aquino. Suma Teológica. I, q. 50, a. 3, resp.

[11] João Scognamiglio Clá Dias. Catecismo explicado. São Paulo, 16 maio 2002. Curso de Formação. (Arquivo ITTA-IFAT).

[12] Idem.

[13] São Tomás de Aquino. Suma Teológica. I, q. 52, a. 1, resp.

[14] João Scognamiglio Clá Dias. Catecismo explicado. São Paulo, 16 maio 2002. Curso de Formação. (Arquivo ITTA-IFAT).

[15] São Tomás de Aquino. Suma Teológica. I, q. 52, a. 2, resp.

Reflexão para Quarta-feira de Cinzas

Lembra-te que és pó e que ao pó voltarás
Lembra-te que és pó e que ao pó voltarás

“Lembra-te que és pó e que ao pó voltarás”. (cf. Gn 3, 19) Ao mesmo tempo que pronuncia esta frase, o sacerdote traça em nossa fronte uma Cruz. Assim iniciamos a Quaresma, 40 dias de oração e penitência que precedem a maior celebração católica: Paixão e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

De fato, na Quarta-feira de Cinzas a Igreja nos convida à mudança de vida, uma conversão, abandonando tudo aquilo que nos afasta de Deus, ou seja o pecado, e a abraçarmos a prática das virtudes, dos mandamentos divinos.

A imposição das cinzas simboliza que tudo nessa vida é passageiro, e que devemos nos concentrar em alcançar aquilo que não passará nunca: a bem-aventurança eterna.

Por isso, aconselha-nos a Igreja um dia de jejum e abstinência, para nos ajudar a mortificar a carne e elevar o espírito às realidades celestes, as quais muitas vezes deixamos de lado. Entretanto, essa mortificação corporal também é um símbolo de algo maior e mais profundo, a mortificação da alma.

Com efeito, existem outras formas de jejum muito mais agradáveis a Deus do que a do alimento, por exemplo, o jejum das palavras. Quantas pessoas passam o dia todo falando de si mesmas, de suas qualidades, ou até mesmo de seus problemas… Que tal aproveitar esse período da Quaresma para mortificar o orgulho e a vaidade?

Outras não falam de si, mas sim dos outros, mas são sempre críticas, maledicências e muitas vezes até calúnia… A Quaresma pode ser uma excelente ocasião para ressaltarmos em público as qualidades dos outros.

Isso sem dúvida exige esforço e paciência consigo mesmo, pois mudanças como essas não se fazem do dia para a noite. Mas cumpre começar logo, e Deus nos ajudará.

Sendo Mãe, a Igreja ao mesmo tempo que nos pede um sacrifício – pequeno em comparação com o que Jesus sofreu por nós – Ela nos promete nesse período uma assistência especial do Espírito Santo. Basta darmos o primeiro passo, derramarmos a primeira gota de sangue, e quando menos esperarmos teremos alcançado a cura de um vício, de um defeito que há muito tempo carregávamos. É uma das coisas que podemos oferecer a Deus nesta Quaresma.

À imagem de Deus

Criação de Adão e Eva por Jacob Bouttats. Museu de Navarra - Pamplona - Espanhã
Criação de Adão e Eva por Jacob Bouttats. Museu de Navarra – Pamplona – Espanhã

Consta no próprio Gênesis que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1, 26-27). Porém, como nos explica ROYO MARÍN: “o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. No entanto, esta imagem divina não é unívoca e perfeita, mas analógica e imperfeita”.

De fato, encontramos em São Tomás: “Como diz Santo Agostinho, ‘onde existe imagem, há certamente semelhança, mas onde há semelhança, não existe com certeza imagem’. Por onde se vê que a semelhança pertence à razão de imagem, e que imagem acrescenta alguma coisa à razão de semelhança, a saber, que é reproduzida de outro: com efeito, chamamos imagem pelo fato de se fazer à imitação de outra coisa; por isso, um ovo, por mais semelhante e igual que possa ser com relação a outro ovo, não é chamado sua imagem, porque não é reproduzido por dele. […] Ora é manifesto que se encontra no homem certa semelhança de Deus, semelhança que deriva de Deus como de seu modelo. No entanto, não é uma semelhança de igualdade, pois o modelo ultrapassa infinitamente o modelado. Assim se diz que há no homem imagem de Deus, não perfeita, mas imperfeita. É o que exprime a escritura quando diz que o homem foi feito à imagem de Deus; a preposição a, com efeito, traduz certa aproximação, o que cabe a uma coisa distante”. (Summa Theologica, I, q. 93, a. 1)

Como vimos então, o homem é sim uma imagem de Deus, entretanto ele o é do modo analógico e imperfeito, como foi dito acima, pois somente o Verbo é a Imagem perfeita e unívoca do Pai.

Mas o homem é a imagem e semelhança de Deus, pois ele possui o intelecto, que o aproxima de Deus, o faz poder imitar seu Criador, podendo assim louvá-lo.

Comenta o Doutor Angélico: “Visto que é em virtude de sua natureza intelectual que se diz ser o homem à imagem de Deus, ele o é sobretudo na medida em que a natureza intelectual pode imitá-lo ao máximo. Ora a natureza intelectual imita a Deus ao máximo, naquilo em que Deus se conhece e se ama”. (Idem.)

Não resisto em dar a este breve pensamento um enfoque mais teológico, afirmando com MONDIN: “Os ensinamentos de São Tomás sobre a graça, a fé, a esperança e a caridade são todos atuais, mas de modo particular a doutrina sobre a graça santificante que transforma o próprio ser do homem e o eleva à condição de filho de Deus”.

Podemos concluir que de fato o homem, sobretudo por sua natureza intelectual, é a imagem de Deus, entretanto é pela a graça que ele é elevado à condição de filho de Deus, atingindo assim a maior semelhança que com Deus se pode ter.

 

Pe. Michel Six, EP

Formação doutrinal dos Sacerdotes

“Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna?” (cf. Lc 10, 25). Essa pergunta, que passou para a história como parte de uma conspiração contra Nosso Senhor Jesus Cristo, não era de todo original. Desde os primórdios, a humanidade conhecedora ou não da Revelação, se interroga sobre como fazer para possuir uma perene vida feliz. Todavia, nem sempre essa incessante busca tem se deparado com a resposta acertada. Mas, aquele doutor da lei que inquiriu Nosso Senhor Jesus Cristo parece tê-la encontrado, ainda que só teoricamente: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu pensamento; e a teu próximo como a ti mesmo. Falou-lhe Jesus: Respondeste bem; faze isto e viverás” (cf. Lc 10, 27).

“E quem é o meu próximo?” (cf. Lc 10, 29). Apesar de suas más intenções, o soberbo doutor, sem querê-lo, dava a Nosso Senhor a possibilidade de criar uma das mais belas expressões de sua sabedoria divina: a conhecida parábola do bom samaritano, ao termo da qual Jesus mesmo deu-lhe a possibilidade de descobrir a resposta acertada à sua pergunta insidiosa: “Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? Respondeu o doutor: Aquele que usou de misericórdia para com ele. Então Jesus lhe disse: Vai, e faze tu o mesmo” (cf. Lc 10, 37). E o colóquio narrado pelo Evangelho, ofereceu categoricamente o caminho para a eternidade feliz: as obras de misericórdia para com o próximo.

O Bom Samaritano, por Francesco Fontebasso. Museu Diocesano de Trento - Italia
O Bom Samaritano, por Francesco Fontebasso. Museu Diocesano de Trento – Italia

Poucos são os que conhecem com profundidade o verdadeiro significado cristão do termo misericórdia, em toda a sua explicável abrangência. Ao ouvir falar dessa virtude, há quem faça cogitações sobre a necessidade de empreender obras sociais que assistam enfermos, famulentos, cativos, e, enfim, todo tipo de pessoas que passam por situações adversas na sua vida material. De fato, ajudar quem esteja em circunstâncias como essas é algo admirável, mas não encerra as possibilidades de fazer o bem, sobretudo o bem misericordioso. Assim, para guiar os bons corações, cheios de sadio altruísmo, a Igreja define as obras de misericórdia inspiradas no verdadeiro espírito cristão. Ela, de fato, considera que a misericórdia inclina os homens a ter uma equilibrada compaixão em relação à miséria do outro e os inspira a auxiliá-lo. Entretanto, demonstra ser equivocado pensar que só existem misérias no campo material. E, ponderando a supremacia da alma em relação ao corpo, defendida pela filosofia antiga e ostentada pelo cristianismo, é de se considerar com que importância se deve distinguir e realizar as obras de misericórdia espirituais.

Entre as obras de misericórdia que desempenham os Arautos do Evangelho, têm primazia a instrução ou formação daqueles que se dedicarão ao ministério sagrado. É bem verdade que cada instituição procura desenvolver suas atividades de acordo com seu carisma próprio. Para os Arautos do Evangelho, operar a formação de seus futuros sacerdotes com beleza significa educá-los, antes de tudo, seguindo o verdadeiro tesouro que a Igreja oferece em seus documentos sobre a formação sacerdotal. Neste artigo, procuraremos abordar a linha mestra que orienta os Arautos do Evangelho na formação de seus seminaristas, na perspectiva de que estes educarão na fé outros fiéis para a Igreja de Deus.

Ao preocupar-se com a formação doutrinária a ser ministrada no seminário dos Arautos do Evangelho, seu fundador, Mons. João Scognamiglio Clá Dias, logo percebeu a grave necessidade de conscientizar os envolvidos nesta educação intelectual e os próprios seminaristas, sobre o que a Igreja quer transmitir acerca dessa formação. Ou seja, com que estado de espírito os professores deveriam ministrar suas aulas e os alunos receber os conhecimentos delas oriundos. Dentre os muitos aspectos que se poderia tratar a respeito da maneira como os Arautos desempenham essa obra de misericórdia – a instrução –, fixemos a atenção neste ponto: o juízo que se deve fazer a respeito do tema estudos, assunto que se reveste de grande relevância, como teremos a oportunidade de verificar.

Missa de abertura do ano letivo, Basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima - Arautos do Evangelho, São Paulo - Brasil
Missa de abertura do ano letivo, Basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima – Arautos do Evangelho, São Paulo – Brasil

O primeiro pressuposto para compreender o modo como determinada ação deve ser conduzida é a compreensão de sua finalidade. O princípio se aplica de maneira especial aos estudos seminarísticos. A concepção acerca do modo como esses devem ser dirigidos deve se basear, antes de tudo, em seu objetivo final. Então, para que servem os estudos no seminário? Por que os futuros padres devem se dedicar intensamente à sua própria instrução?

Por simples que pareça essa pergunta, a resposta a ela é um tanto complexa. Primeiramente porque a instrução doutrinária, mesmo voltada especificamente para o desenvolvimento intelectual dos seminaristas, se encaixa num objetivo mais geral da formação oferecida nos seminários, atrelando-se também a outras dimensões dessa mesma formação.[1] Isso significa que, para descobrir a finalidade da formação doutrinária, é necessário, em primeiro lugar, descobrir a finalidade da formação sacerdotal como um todo. Qual é então esse objetivo geral, para o qual devem estar voltadas a formação pastoral, espiritual, disciplinar, e também doutrinal? Um documento lançado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil responde a essa questão de modo claro e preciso: o objetivo geral da formação dos candidatos à vida presbiteral é levá-los a ser santos.[2]

Assim, através de um entrelaçamento das atividades que a casa de formação oferece, todos os aspectos da formação sacerdotal devem estar harmonicamente coordenados entre si pelos superiores dos seminários para atingirem esse fim primordial, a santidade dos futuros sacerdotes.[3] Todas elas precisariam se dirigir em conjunto para um plano educativo comum, e nenhuma delas, nem mesmo a formação doutrinária, pode ser considerada de maneira autônoma ou independente.[4]

De acordo com a ciência canônica, a proposta de fazer com que os diversos traços da formação sacerdotal se voltem em conjunto para uma finalidade comum é um dos aspectos da normativa da Igreja que sofreu uma evolução: os preceitos relativos à formação dos candidatos ao ministério sagrado encontravam-se, no Código de 1917, sob a rubrica do Magistério Eclesiástico, e davam ao assunto uma nota meramente acadêmica.[5] No Código atual, o tema se encontra num capítulo voltado para a formação dos clérigos, sublinhando, desta forma, os múltiplos aspectos da formação: psicológica, afetiva, acadêmica, espiritual, e outros.[6]

Desse modo, os estudos, harmonicamente conjugados com os outros elementos da formação sacerdotal, devem ser, antes de tudo, um fator de contribuição para a santificação dos alunos que se preparam para a vida ministerial. Nesse sentido, conforme afirmara Mons. João Clá numa homilia para professores e seminaristas, a inteligência terá um papel fundamental: “(…) se eu ampliar muito a minha inteligência, terei mais facilidade em praticar a virtude e em ser santo”.[7] E é procurando atingir essa finalidade – a santidade – que os Arautos desenvolvem a formação intelectual de seus candidatos ao ministério sagrado. Como procuram fazê-lo?

A atenção para com a formação intelectual dos sacerdotes sempre esteve presente na Igreja, mas suas explicitações acerca de certas peculiaridades parecem ter atingido um ápice nos últimos séculos de sua atuação nesse campo. Numa Carta Encíclica devotada ao tema do Sacerdócio Católico[8], escrita pelo Papa Pio XI, o Pontífice, demonstrando especial preocupação no que tange à intelectualidade dos seminaristas, salientava a importância da escolha dos professores.[9] Seu discurso voltava-se curiosamente para a capacidade que os encarregados da formação deveriam ter em ensinar mais pelo exemplo do que com a palavra, e em infundir, juntamente com a formação doutrinária, um espírito sólido, varonil e apostólico, que fizesse nascer a piedade e outras virtudes.[10] Ademais, o documento alertava que os estudos deveriam ser uma armadura contra tentações ou perigos mais graves.[11]

O Papa Pio XII, na exortação apostólica Menti Nostrae também estreita os laços entre desenvolvimento intelectual e espiritual na formação sacerdotal.[12] Recordava que para santificar-se, ou santificar aos outros, é necessário estar preparado por uma sólida doutrina.[13] Segundo o documento, os mestres da vida espiritual consideram o estudo das ciências sagradas, quando ministrado adequadamente, um alimento para o espírito de fé[14]; e, ao recomendar uma forte preparação intelectual, advertia a necessidade de ter certo equilíbrio e cuidado, pois uma formação doutrinal mal oferecida poderia representar para o clero um perigo de danos incalculáveis.[15]

Como se pode perceber por meio da leitura desses documentos, a Igreja não faz, de fato, uma dissociação entre os estudos e outros aspectos da formação sacerdotal; ao contrário, é notável o cuidado em associar a instrução com a vida espiritual dos seminaristas. E é assim que os Arautos do Evangelho promovem a santidade através do estudo: harmonizando-o com a vida de piedade. A respeito dessa sadia harmonia entre vida de estudo e vida de oração, asseverava o fundador dos Arautos: “Estudo sem oração é um suicídio! Porque nós aprendemos, é verdade, não tem dúvida, porque estudamos; mas é preciso aprender não só com a cabeça, é preciso aprender com o coração. Porque o homem é um todo, ele é corpo e alma, e ele precisa dar vida, dar substância a esta participação que ele tem na vida do próprio Deus, com o Batismo. E isto se faz muito mais pela oração do que pelo estudo”.[16]

Essa orientação é muito atual, pois se encontra expressa no Código de 1983.[17] Na verdade, os documentos acima mencionados estão entre as principais fontes de um dos cânones do atual código, voltado para a formação intelectual dos sacerdotes, que destaca justamente a necessidade de uma conformidade entre a formação doutrinária e a vida espiritual dos seminaristas.[18] De fato, entre a formação doutrinal[19], a vida de fé e a vida espiritual dos alunos, deve haver uma estreita afinidade.[20] Elas não podem estar desconexas entre si.[21] E Mons. João dá as diretrizes para se conjugar esses aspectos da formação sacerdotal: “(…) nada melhor do que um estudo feito, em comunidade, dentro de um ritmo de vida religiosa, com uma substância enorme de orações pelo meio, pervadido de orações e regado por orações. Porque aí sim nós temos as duas asas: uma que se desenvolve para conhecer e outra que se desenvolve para amar, e aí se voa. Porque voar com uma asa só, a gente começa a rodopiar e vai lá para baixo”.[22]

Submetendo-se a todas essas considerações, a formação doutrinária nos Arautos não é apreciada como um componente a mais da formação dos seminaristas, mas um eficaz recurso que faça com que eles adiram à Palavra de Deus, cresçam em sua vida espiritual e, assim, disponham-se para o exercício do ministério pastoral.[23] E isso diz respeito de maneira especial aos estudos teológicos, pois os que se dedicam a eles devem ser, de acordo com a Pastores dabo Vobis, verdadeiros crentes, homens de fé, que falam sobre sua própria fé.[24] Não é sem razão que este curso preenche a maior parte da vida dos Arautos que se preparam para o ministério sagrado.

Desse modo, uma das notas dominantes da formação nos Arautos do Evangelho é o cuidado de não proporcionar aos candidatos ao sacerdócio uma consciência equivocada a respeito dos estudos que precedem a ordenação sacerdotal. A Exortação Apostólica Pós-sinodal Pastores dabo vobis incita a que os formadores não apresentem os estudos preparatórios para o sacerdócio com caráter meramente científico.[25] A respeito desse ponto, alertava o fundador dos Arautos: “E aí nós vemos que cuidado devemos ter quando nós começamos a estudar, porque o estudo não deve partir do raciocínio da inteligência. O estudo deve partir da Fé apoiada e sustentada pela virtude, e depois vem todo o resto”.[26]

Isso significa que se deve aplicar todo o esforço necessário para que os seminaristas não estudem com a impostação de meros cientistas da fé[27], mas sim tomados de entusiasmo para com a doutrina que assimilam: “O estudo deve ser feito com o intuito de crescer no amor, de crescer na fé”.[28]

Mons. João S. Clá Dias, Fundador dos Arautos do Evangelho
Mons. João S. Clá Dias, Fundador dos Arautos do Evangelho

Só com o espírito contemplativo é possível ser teólogo e santo, como um São Tomás de Aquino, um São Boaventura e tantos outros. Depois da dissociação entre as potências intelectual e volitiva, causada pelo pecado original, o homem é capaz de saber muitas coisas sobre Deus, sem, todavia, entregar-lhe o coração. Isso justifica a pergunta: “Por que os teólogos não são todos eles os que mais louvam a Deus? Pois há teólogos que não conseguem louvar a Deus. Por quê? Porque conhecer a Deus não é só conhecer teologia, conhecer a Deus não é só estudar; o estudo ajuda, sem nenhuma dúvida, mas desde que a pessoa se identifique com os desejos de Deus a seu respeito. E identificar-se exige conhecimento de contemplação”.[29]

Com efeito, da admiração e da meditação provém a transformação interior, dela o louvor perfeito e a glorificação, como fez de forma insuperável Nossa Senhora em seu Magnificat. Com os olhos postos n’Ela, a alma contemplativa por excelência, em cujo coração se conservavam e se aprofundavam os mais sublimes mistérios da salvação, os Arautos desejam formar uma geração de teólogos exímios, cheios de fogo do Espírito Santo, capazes de contagiar entusiasticamente os fieis, com a verdadeira doutrina da Santa Igreja, a Mãe indizivelmente amada, que nos une a Maria e, por Maria, a Jesus.

Pe. Carlos Adriano Santos dos Reis, EP (Extraído de “Retrospectiva 2013-2014”)

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[1] Cf. Ioannes Paulus PP. II, Adhortationes Apostolicae: Pastores dabo vobis (25 Martii 1992), in AAS LXXXIV (1992), pp. 748-750, n. 51.

[2] Cf. V. dos Santos Goulart, Pe., Diretrizes para a formação, p. 45.

[3] Cf. D. Cito, in Comentario exegético, p. 246.

[4] Cf. Idem, ibidem.

[5] Cf. J. Hortal Sánchez, SJ. Comentários e notas, p. 130.

[6] Cf. Idem, ibidem.

[7] Clá Dias, João S. Homilia da 6ª feira da I semana da Quaresma. Caieiras, 6 mar. 2009.

[8] Cf. Pius PP. XI,  Litterae Encyclicae: Ad Catholici Sacerdotii (20 Decembris 1936) in AAS XXVIII, (1936), p 26, n. 50.

[9] Cf. Idem, ibidem.

[10] Cf. Idem, ibidem.

[11] Cf. Idem, ibidem.

[12] Cf. Pius PP. XII, Apostolica Adhortatio: Menti Nostrae (23 Septembris 1950), in AAS XXXXII (1950), p. 667, n. 33.

[13] Cf. Idem, pp. 678-679, n. 65.

[14] Cf. Idem, pp. 687-688, n. 86.

[15] Cf. Idem, p. 689, n. 89.

[16] Clá Dias, João S. Homilia da segunda-feira da Oitava de Páscoa. Caieiras, 5 abr. 2010.

[17] CIC-1983, c. 244. Alumnorum in seminario formatio spiritualis et institutio doctrinalis harmonice componantur, atque ad id ordinentur, ut iidem iuxta uniuscuiusque indolem una cum debita maturitate humana spiritum Evangelii et arctam cum Christo necessitudinem acquirant.

[18] Cf. D. Cito, in Comentario exegético, p. 245.

[19] Cf. G. Ghirlanda, O Direito na Igreja, p. 149.

[20] Cf. Idem, ibidem.

[21] Cf. Idem, ibidem.

[22] Homilia da quinta-feira da 9ª semana do Tempo Comum. Mairiporã, 5 jun. 2008.

[23] Cf. Ioannes Paulus PP. II, Adhortationes Apostolicae: Pastores dabo vobis (25 Martii 1992), in AAS LXXXIV (1992), pp. 748-750, n. 51.

[24] Cf. Idem, pp. 751-753, n. 53.

[25] Cf. Idem, ibidem.

[26] Clá Dias, João S. Homilia do sábado da Oitava da Páscoa. Mairiporã, 14 abr. 2007.

[27] Cf. Ioannes Paulus PP. II, Op. Cit., pp. 748-750, n. 51.

[28] Clá Dias, João S. Homilia. Mairiporã, 14 abr. 2007.

[29] Clá Dias, João S. Homilia na Festa de Nossa Senhora de Guadalupe. Caieiras, 12 dez. 2009.

Deus está em todo lugar

Quando contemplamos, num belo anoitecer de verão, a abóbada celeste, percebemos miríades de estrelas que, aos poucos, vão se acendendo aqui, lá e acolá.

Na verdade, além das que vemos, existem milhões e milhões de outras, que, só com a ajuda de boas lunetas, conseguiríamos ver. E ainda resta um número quase incontável, que nem sequer a ciência, com todos os seus recursos, logrou ainda observar.

Pois bem, mesmo sendo o Universo tão imenso a ponto de nos parecer sem limites, há um Ser superior a isso tudo, que tudo criou, tudo governa e tudo vê: Deus infinito. Ele está presente em tudo, não há lugar onde Ele não possa estar, como diz o Salmista: “Tu me envolves por todo lado e sobre mim colocas a tua mão. Onde eu poderia ocultar-me do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença? Se subir até os céus, Tu lá estás; se descer ao mundo dos mortos, ali Te encontras” (Sl 138, 5; 7-8). Também lemos nos Atos dos Apóstolos que em Deus “vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28).

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O modo de Deus estar presente na criação

Ensina-nos o grande São Tomás de Aquino que existem três modos de Deus estar presente na obra da Criação. Primeiro, por potência, ou poder, pois tudo está submetido a seu domínio; se fosse possível a Deus cochilar um instante, tudo voltaria ao nada. Segundo, por presença, visão ou conhecimento, pois tudo está patente e como que descoberto a seus olhos; nada Lhe escapa, nem sequer os mais ocultos pensamentos. Terceiro, por essência ou substância, pois Ele está em tudo, como causa de seu ser.

Falando em termos mais específicos, existem outras presenças de Deus, como a inabitação na alma do justo, realizada através da graça. Também a presença pessoal ou hipostática, única e exclusivamente de Cristo, pela qual sua humanidade adorável subsiste na própria pessoa do Verbo Divino. Por isso Ele é pessoalmente Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnada. Temos, ademais, a presença sacramental ou eucarística, na qual Jesus Cristo está realmente presente sob as espécies do pão e do vinho.

Há, por fim, a presença de visão ou manifestação, que é a do Céu. Deus está presente em toda parte, porém, não Se deixa ver em todo lugar, mas somente no Céu. Só na Visão Beatífica Ele Se manifesta face a face aos bem-aventurados.

 

Lembremo-nos dia e noite do olhar de Deus

Portanto, Deus está presente em toda parte e constantemente nos vê. Oh! Quantos crimes seriam evitados, quantos problemas seriam resolvidos, quantas lágrimas seriam enxugadas, quantas aflições se- riam suavizadas, se a humanidade tivesse consciência do olhar de Deus sempre pousando sobre nós! “Deus está no Templo santo e no Céu tem o seu trono, volta os olhos para o mundo, seu olhar penetra os homens” (Sl 10,4).

Estamos aflitos, necessitando de uma palavra de conforto e ânimo para superar algum obstáculo? Precisamos de um coração com o qual possamos nos abrir? Ou de um amigo a quem falar? Por que não recorrer ao melhor dos amigos, ao mais suave, compreensivo e cheio de compaixão, que é o próprio Deus? Ele nos conhece até o fundo e sabe tudo de que precisamos; seu Divino Coração arde em desejos de ajudar e consolar as almas abatidas e de aliviar as costas carregadas de fardos: “Vinde a Mim todos vós que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar- vos” (Mt 11,28).

Queremos servir a Deus com mais amor e perfeição? Lembre- mo-nos de seu olhar dia e noite. Certa vez, Santo Inácio de Loiola, vendo um de seus irmãos trabalhar de modo relaxado, perguntou-lhe:

— Irmão, para quem trabalhas?

— Para Deus — respondeu-lhe ele.

— Se me dissesses que trabalhas para um homem, eu compreende- ria tua moleza, mas isso é imperdoável quando se trabalha para Deus.

São Francisco de Sales vivia tão compenetrado da presença de Deus, que, estando sozinho ou em sociedade, conservava um porte digno, modesto e grave. Costumava dizer que não sentia constrangimento algum na frente de reis ou príncipes, pois estava habituado a encontrar-se na presença de um Rei muito maior, que lhe inspirava respeito.

 

A oração torna a vida mais leve, suave e amena

A oração frequente é um meio eficaz para nos recordar a presença de Deus. É tão fácil — durante nossos afazeres, no trabalho, na escola ou em casa, andando pela rua, dirigindo no trânsito ou já deitados para o descanso — fazer uma prece, uma jaculatória que seja, a Deus, ao Sagrado Coração de Jesus e oferecer-Lhe os problemas, pedir-Lhe ajuda e proteção!

Caro leitor, eu o convido a fazer isso diariamente, com amor e confiança, e você verá que, aos poucos, sua vida irá se tornando mais leve, suave e amena.

Diz Jesus no Evangelho: “Pedi e ser-vos-á dado; procurai e encontrareis; batei e hão de abrir-vos” (Lc 11,9). Por que desprezamos essa promessa proferida por lábios divinos e que nos dá a garantia absoluta de sermos ouvidos? Poder-se-ia dizer que Nosso Senhor como que Se inclina do Céu sobre a terra à espreita de que Lhe façamos pedidos, desde os mais simples até os mais ousados, para ter Ele a alegria de atender-nos e encher-nos de dons e graças.

Rainha dos Anjos

“Tu o dizes! Eu sou Rei!” (Jo 18, 37).

Tudo que toca na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo tem uma grandeza deslumbrante, pelo simples fato de que Ele é Deus. Mas, de todas as cenas narradas nos Evangelhos, talvez seja esta, a do diálogo com Pilatos, a que mais deixa transparecer essa qualidade tão pouco apreciada em nossos dias: a grandeza.

Jesus está numa situação de terrível humilhação. Preso, tratado como um criminoso, de mãos atadas, submetido a todo tipo de vexações e apresentado na qualidade de réu ao representante de Roma, o maior poder político e militar da época. Pilatos tinha a segurança de quem estava na posição de dominador, com a capacidade de exercer todo tipo de arbítrio sobre os que lhe estavam subordinados. Até já se tinha tornado célebre entre os judeus por sua crueldade.

Podemos imaginar o assombro de Pilatos, ao ouvir a resposta de Jesus: “O meu Reino não é deste mundo; se meu Reino fosse deste mundo, os meus servos lutariam para que Eu não fosse entregue aos judeus; mas o meu Reino não é daqui” (Jo 18, 36). Ele percebia que em Jesus havia um mistério que fugia totalmente à sua compreensão humana e que Nosso Senhor dizia a verdade. Ele era de um Reino que não era deste mundo, e era Rei.

Jesus diante de Pilatos. Museu de Arte Sacra, Evora, Portugal.
Jesus diante de Pilatos. Museu de Arte Sacra, Evora, Portugal.

Noutras ocasiões os judeus quiseram aclamá-Lo Rei, mas Ele havia recusado, esquivara-Se. Agora, diante de Pilatos, do representante de Roma, declara-Se Rei. Sua atitude pode até causar certa perplexidade. Jesus vinha para uma missão exclusivamente espiritual: libertar a humanidade do pecado, através do sacrifício redentor da Cruz. Por que agora Ele se empenha em declarar sua condição real? Não bastaria afirmar apenas que era o Messias, o Filho de Deus?

Essa declaração marcou o espírito de Pilatos a fundo. Pode-se imaginar a atitude, o olhar e a entonação de voz de Jesus, grave, pausada e serena, ao responder ao tribuno romano. “Tu o dizes, Eu sou Rei!”

E, de fato, Jesus é Rei no sentido pleno do termo. Ele é o Rei dos reis. D’Ele, enquanto Verbo de Deus encarnado, toda autoridade deriva, como se constata no segundo diálogo com Pilatos: “Nenhum poder terias sobre Mim se não te fosse dado do Alto” (Jo 19, 11).

Mas, além de sua condição divina, existem outros atributos pelos quais Jesus possa ser considerado Rei? Ele o era, em primeiro lugar, por direito de sucessão, por ser da casa de David, segundo as palavras do Arcanjo Gabriel a Nossa Senhora: “darás à luz um Filho […] será chamado Filho do Altíssimo e o Senhor lhe dará o trono de seu pai David; reinará sobre a casa de Jacó, e seu reino não terá fim. […] Será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 31-33).

Ele também era rei por direito de conquista. Com efeito, pela falta de Adão, a humanidade vivia sob a escravidão do pecado, sob o domínio de satanás e estava-lhe vedado o acesso ao Céu. Pelo sacrifício da Cruz, Nosso Senhor resgatou o gênero humano da dívida do pecado, deu aos homens a possibilidade de se tornarem filhos de Deus, através do Batismo, e poderem fazer parte do Reino de Deus, do qual Jesus é Rei. Por isso, Ele declara a Pilatos: “O meu Reino não é deste mundo.” (Jo 18, 36) Sua realeza, espiritual, e mais efetiva do que a temporal, era sobre o Reino de Deus, de caráter sobrenatural. Compreende-se então que as profecias sobre o Messias falassem de um reino eterno que não seria destruído (Cf Dn 7, 14; Mq 4, 7).

Também os Magos chegaram a Jerusalém à procura do Rei dos judeus que acabara de nascer (Cf Mt 2, 2). Os sacerdotes e os escribas consultados por Herodes logo veem que se trata do Messias e citam a conhecida profecia de Miqueias sobre o lugar do nascimento do Salvador: “E tu Belém […] de ti sairá para mim Aquele que governará Israel” (Mq 5, 1).

Não resta dúvida que Jesus é verdadeiramente, e no sentido pleno da palavra, Rei! Desta sublime verdade, a realeza de Cristo, decorre outra não menos bela: Maria é Rainha! Sob a perspectiva sobrenatural a situação de Nossa Senhora, a partir da Anunciação, mudara completamente. A humilde Virgem de Nazaré foi posta no coração da obra redentora, numa relação de proximidade com Deus, única na história, sendo elevada assim, acima dos Anjos, pois se tornara Mãe de Deus. É este o principal fundamento de sua realeza. A Graça que recebeu pela maternidade divina elevou-A tão acima de todas as outras criaturas, inclusive dos Anjos, que Ela é Rainha natural de todo o Universo.[1]

Já os Padres da Igreja A consideravam soberana. Santo Efrém, um dos principais teólogos do século IV, não deixa margem à dúvida quando A invoca nos termos: “…Virgem augusta e protetora, Rainha e Senhora, protege-me à tua sombra, guarda-me, para que satanás, que semeia ruínas, não me ataque, nem triunfe de mim o iníquo adversário”.[2]

Santo André Cretense, nascido no século VII, considerado um dos grandes escritores bizantinos, assim declara a respeito da realeza de Maria: “Rainha de todo o gênero humano, porque, fiel à significação do seu nome, se encontra acima de tudo quanto não é Deus”.[3]

Não foi menos categórico o Magistério da Igreja. Com o poder das sagradas chaves de Pedro, Pio XII declara a esse respeito: “[…] Maria é Rainha, por ter dado a vida a um Filho, que no próprio instante da sua concepção, mesmo como homem, era rei e senhor de todas as coisas, pela união hipostática da natureza humana com o Verbo. Por isso muito bem escreveu São João Damasceno: ‘Tornou-se verdadeiramente Senhora de toda a criação, no momento em que se tornou Mãe do Criador’. E assim o Arcanjo Gabriel pode ser chamado o primeiro arauto da dignidade real de Maria”.[4]

Mas além de ser Rainha por sua predestinação, Ela o é também por direito de conquista, tal como seu Divino Filho. Morrendo na Cruz, Jesus Cristo derrotou o poder de satanás, venceu o inimigo infernal que subjugava a humanidade, a qual fora prostrada na pessoa de Adão. Entretanto, pela vontade de seu Filho, a participação de Maria Santíssima nessa vitória foi tão íntima, inseparável da divina vítima imolada, que também, e a justo título, devemos considerá-La como Rainha por direito de conquista. E essa vitória d’Ela sobre a serpente já estava prenunciada pelo próprio Deus: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Ela te esmagará a cabeça” (Gn 3, 15).

Não é concebível que Nossa Senhora ignorasse o que aconteceria com seu Filho. Ela conhecia todos os sofrimentos pelos quais, com sua aceitação, Ele iria passar. “Quando estava ao pé da Cruz, o Padre Eterno pediu-Lhe consentimento para que Nosso Senhor Jesus Cristo fosse morto. Ela que poderia ter dito não — o Padre Eterno estava querendo pôr nas mãos d’Ela o destino de seu Filho — disse sim. Disse sim para salvar as almas dos homens. Se Ele não morresse, não haveria Céu para nós.

“Nessa hora em que Ela disse sim, Ele ficou entregue aos horrores da morte. Ela viu seu Filho dizer ao Padre Eterno: ‘Meu Pai, meu Pai, por que me abandonastes?’ O que tinha um pouco o sentido: ‘Minha Mãe, minha Mãe, por que consentistes?’ Mas Ela quis. E quando Ele expirou, o gênero humano estava redimido”.[5]

Maria demonstrou assim seu amor por nós aceitando entregar seu Filho Unigênito à ignominiosa morte na Cruz. “No altar do Gólgota, podemos observar três amores participando do mesmo sacrifício. Para a salvação do mundo, o Padre Eterno entregou seu Unigênito Filho; o Verbo Encarnado, sua própria vida, e a Virgem, seu Filho adorado. Não temos senão um único Redentor, o Cordeiro imolado sobre a Cruz; é justo. Mas, a Mãe admirável que O educou para o Calvário e que, chegado o momento, formada e preparada por Ele, O ofereceu por nosso resgate, num mesmo ideal de amor, esta Mãe não tem direito ao título de Corredentora?”[6]

Ora, sob esse aspecto, sua realeza se estende também aos Anjos. Em primeiro lugar porque sendo Corredentora tornou-Se Mãe da Divina Graça, obtida por Cristo na Cruz, em previsão da qual os Anjos venceram a prova e entraram na visão beatífica. E em segundo lugar, porque foi Ela quem, à frente dos Anjos, triunfou definitivamente sobre os demônios, conquistando assim a supremacia sobre eles.

Mais uma vez a sagrada voz do Magistério, nos lábios de Pio XII, confirma esta verdade: “Se Maria, na obra da salvação espiritual, foi associada por vontade de Deus a Jesus Cristo, princípio de salvação, e o foi quase como Eva foi associada a Adão, princípio de morte, podendo-se afirmar que a nossa Redenção se realizou segundo uma certa ‘recapitulação’, pela qual o gênero humano, sujeito à morte por causa duma virgem, salva-se também por meio duma Virgem; se, além disso, pode-se dizer igualmente que esta gloriosíssima Senhora foi escolhida para Mãe de Cristo ‘para lhe ser associada na Redenção do gênero humano’, e se realmente ‘foi ela que – isenta de qualquer culpa pessoal ou hereditária, e sempre estreitamente unida a seu Filho – O ofereceu no Gólgota ao eterno Pai, sacrificando juntamente, qual nova Eva, os direitos e o amor de mãe em benefício de toda a posteridade de Adão, manchada pela sua desventurada queda’ poder-se-á legitimamente concluir que, assim como Cristo, o novo Adão, deve-se chamar Rei não só porque é Filho de Deus mas também porque é nosso redentor, assim, segundo certa analogia, pode-se afirmar também que a Bem-Aventurada Virgem Maria é Rainha, não só porque é Mãe de Deus mas ainda porque, como nova Eva, foi associada ao novo Adão”.[7]

Coroação de Maria Santíssima. Mosaico da fachada da Catedral de Siena, Itália.
Coroação de Maria Santíssima. Mosaico da fachada da Catedral de Siena, Itália.

O Homem-Deus, por ser seu filho, sujeitava-Se à autoridade desta humilíssima Rainha. Aquele que é o Soberano e Senhor da coorte celestial, a quem os Anjos louvam e servem, submete-Se durante trinta anos a sua Mãe Santíssima. Por espírito de respeito pela hierarquia celeste, também os Anjos se submeteram ao senhorio dessa admirável Senhora, sôfregos de atenderem seus mínimos desejos e levarem ante o trono do Altíssimo suas onipotentes preces, pois queriam obedecer-Lhe à imitação do Filho de Deus. E uma vez assumpta ao Céu, não pode Ela ter perdido os privilégios concedidos pela Santíssima Trindade, já nesta vida. Pelo contrário, seus poderes reais foram ampliados. É por essa razão que os fieis devem acudir a Ela, enquanto a misericordiosa Rainha dos Anjos, pedindo seu auxílio e proteção. A oração do venerável Pe. Luís Eduardo, composta sob inspiração da mesma Virgem, é, fora de dúvida, um excelente meio de suplicar a intervenção da Rainha dos Anjos, e de seus angélicos súditos:

“Augusta Rainha dos Céus e soberana dos Anjos, Vós que desde o primeiro instante de vossa existência recebestes de Deus o poder e a missão de esmagar a cabeça de satanás, humildemente vo-Lo pedimos: enviai as legiões celestes dos Anjos a perseguirem os demônios, por vosso poder e sob as vossas ordens, combatendo-os em toda parte, repreendendo-lhes as insolências e lançando-os nas profundezas do abismo. Quem como Deus? Santos Anjos e Arcanjos, defendei-nos e guardai-nos. Ó boa Mãe e tão terna, sede sempre o nosso amor e nossa esperança. Ó Mãe Divina, mandai-nos os vossos Santos Anjos que nos defendam e repilam para bem longe de nós o maldito demônio, nosso cruel inimigo. Amém”.[8]

Assim, encerra-se este livro, fazendo ao leitor um convite: seja cada vez mais devoto dos Santos Anjos e de sua Rainha. E peça a Ela que envie a celeste milícia em auxílio de seus filhos, a fim de expulsar da face da Terra todos os demônios que estão espalhados pelo mundo, procurando fazer mal às almas.

 

Extraído de “A Criação e os Anjos” (Coleção Conheça sua Fé, do Seminário dos Arautos do Evangelho)

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[1] Cf Ángel Herrera Oria. La Palabra de Cristo. Madrid: BAC, 1954. v. 10, p. 417-418

[2] Santo Efrém, apud Encíclica Ad Caeli Reginam, n. 10.

[3] Santo André Cretense, apud Encíclica Ad Caeli Reginam, n. 17.

[4] Pio XII. Encíclica Ad Caeli Reginam, n. 33.

[5] Plinio Corrêa de Oliveira. São Paulo, 21 out. 1989. Conferência. (Arquivo ITTA-IFAT).

[6] Henry Pinard de La Boullaye. Marie, Chef-d’Oeuvre de Dieu. Paris: Spes, 1948, p. 115-116.

[7] Pio XII. Encíclica Ad Caeli Reginam, n. 36.

[8] Plinio Corrêa de Oliveira. São Paulo, 22 jul. 1967. Conferência. (Arquivo ITTA-IFAT).

Entranhas de misericórdia

 

Crucifixão, por Guillermo Forchondt. Museu de La Rioja - Logrono, Espanha
Crucifixão, por Guillermo Forchondt. Museu de La Rioja – Logrono, Espanha

“Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5, 7). Eis a bela promessa feita pelo Salvador no Sermão da Montanha. Ela soa aos ouvidos como o rumor de uma fonte de águas cristalinas. Nenhuma tarefa parece mais simples e bela, e, ao mesmo tempo, tão bem recompensada. Ser compassivo para com os outros, ajudá-los em suas necessidades, não são sentimentos nobres, que muitas vezes nascem espontaneamente? Pois bem, aos que assim agirem, espera a benevolência torrencial da parte do próprio Deus.

A misericórdia é atribuída a Deus nas Escrituras abundantes vezes, como sendo a bondade gratuita e copiosa, distribuída pela dadivosidade divina. É, por assim dizer, o contrapeso da justiça, virtude pela qual se dá a cada um o que lhe é devido: suum cuique tribuere. Por isso, afirma Cornélio a Lapide: “misericordia justitiam dulcorat et temperat”.[1] O Senhor, como lê-se no Êxodo (34, 6-7), é “misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel, que conserva a misericórdia por mil gerações e perdoa culpas, rebeldias e pecados, mas não deixa nada impune, castigando a culpa dos pais nos filhos e netos, até a terceira e quarta geração”.

Porém, se procurássemos explicitar em que consiste a misericórdia, não seria fácil obter um consenso, mesmo entre os católicos. Para uns seria um nobre sentimento de solidariedade, para outros a prática da esmola, ou, ainda, uma vaga filantropia baseada em ações de cunho social e beneficente. Afinal, qual é a misericórdia a que faz referência Jesus no Evangelho?

Antes de tudo, esta consiste na generosidade do Pai do Céu, que ultrapassa todos os méritos dos homens, mesmo os dos mais perfeitos. Ele, no seu infinito desvelo, nos premeia com tesouros de graça e de glória, impossíveis de serem conquistados com nossas boas obras. Não há penitências, nem atos de heroísmo, por mais árduos e audazes, capazes de tornar o homem digno da visão de Deus por toda a eternidade. Por essa razão, São Paulo estimava em nada os padecimentos desta vida, em comparação com a glória que nos espera (cf Rm 8, 18).

Para merecer tal prêmio, Jesus ensinou a seus discípulos – pelas suas palavras e exemplos – o bom caminho. O Divino Mestre indica a seus seguidores a necessidade de serem, por sua vez, pródigos e bondosos em relação a seus próximos, dando-lhes mais do que merecem por justiça. A parábola do servo impiedoso o mostra com toda a clareza. A falta de perdão por uma pequena dívida compromete a grande clemência concedida pelo Senhor, que o repreende dizendo: “Servo malvado, eu te perdoei toda a tua dívida, porque me suplicaste. Não devias ter tu também compaixão de teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?” (Mt 18, 32-33) Eis a essência da misericórdia a ser praticada pelos cristãos, se desejam receber o prêmio da liberalidade divina.

E, mais que a esmola, o alimento corporal, o agasalho e outras ações tão nobres, Jesus nos ensina a prática de uma misericórdia espiritual. O Reino de Deus, tal como ouvimos de seus lábios, se baseia no perdão das ofensas, na dedicação da existência ao bem do próximo, na evangelização, no dar a própria vida a fim de tirar os homens das trevas da ignorância e obter-lhes a salvação. Tais atitudes as pôs em prática, e com suma perfeição e zelo, o Divino Mestre. Lembremos apenas um comovedor episódio: a salvação outorgada ao ladrão arrependido no alto do Gólgota.

Dimas, como o chama a tradição, atado à sua bem merecida cruz, mostrara uma profunda humildade, reconhecendo a sua culpa e confessando a inocência de Jesus. E, em prêmio pela sua atitude submissa, recebeu o dom da fé, pois, vendo diante de si um crucificado, desfigurado e moribundo, o proclamou Rei de um poder superior à mesma morte: “Jesus, lembra-te de mim quando começares a reinar” (Lc 23, 42). Naquele trágico momento a fé do ladrão foi maior que a dos próprios apóstolos, covardemente ausentes. Porém, o Divino Redentor à fé acrescentou a promessa da salvação, mediante um solene juramento: “em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Que abismo de bondade, fazer de um maltrapilho e delinquente, um herdeiro do Reino dos Céus! Sim, Jesus, com entranhas de misericórdia, abriu o céu a um pobre ladrão, humilhado pelas suas culpas. Eis a obra de misericórdia por excelência: transmitir a Fé verdadeira e, com ela, fazer entrar o Sol de Justiça na vida de nossos próximos.

Os Arautos do Evangelho, conscientes das carências espirituais de tantos jovens e adultos, contemplam o exemplo de Cristo no alto da Cruz, e procuram entregar a Ele suas vidas – como Ele o fez pelos pecadores –, pondo-as a serviço do próximo, num grande projeto de misericórdia, cujo Inspirador e Autor não é outro senão o Divino Mestre, sem o qual nada de bom se faz (cf Jo 15, 5). Formar, do ponto de vista humano e cristão, transmitir a Fé católica nos seminários maiores e menores, nas escolas, nos hospitais, na catequese e, ainda, proporcionar auxílio material, eis as obras de misericórdia exercidas por esses seguidores de Cristo.

Pe. Carlos Javier Werner Benjumea, EP (Extraído de “Retrospectiva 2013-2014”)

 

[1] Commentaria in quatuor evangelia. Roma: Marietti, 1941, p. 201

Lição de vida dadas por Jó, o sofredor

Per crucem ad lucem. Com esta frase São Bruno resumiu a vida dos Cartuchos. A partir dos sofrimentos aceitos por amor de Deus chegamos às glórias eternas. Contudo, esse inspirado lema se aplica não só aos religiosos da cartucha, mas a todo e qualquer homem. A veracidade cristalina que dele transparece nos afigura como de uma grande simplicidade, sobretudo se consideramos a vida humana a partir do prisma católico. No entanto não foi essa a opinião dos homens durante muitos séculos.

São Bruno. Paróquia São João Batista, Gran Canária, Espanha
São Bruno. Paróquia São João Batista, Gran Canária, Espanha

“Se sou justo serei prospero; se sobrevierem desgraças, é sinal que sou pecador.” Esse foi o principal pensamento que regeu a sociedade antiga, inclusive entre o povo eleito. (cf. Dt 11, 13 s.; Gn 12, 2; Ex 20, 12)

No entanto, com a Revelação trazida por Nosso Senhor Jesus Cristo esse pensamento simplista foi aos poucos mudando. E lendo-se o Livro de Jó podemos perceber a concretização de uma nova maneira de encarar o prêmio e o castigo.

O tema central do Livro é a tragédia de um justo, o qual era próspero e gozava de abundância de bens naturais. Entretanto, querendo Deus aquilatar o valor de sua virtude, permite que sobre ele caiam inúmeros castigos. Esse drama, que possui dois estilos – prosa e poema – nos traz uma verdadeira inovação teológica: o justo também pode sofrer.

Podemos encontrar nesse livro uma estrutura harmônica que se divide em: duas partes em prosa e um corpo central em poema. As partes em prosa são a introdução e o epílogo final, que narram respectivamente a vida de um justo prospero que é castigado por Deus e a recompensa recebida por Jó devido a sua fidelidade em todas as desgraças.

Já o corpo central do texto, que é redigido em estilo poético, se compõe da apresentação de três amigos que sabendo das desgraças sofridas por Jó, vão visitá-lo; a disputa desses três visitantes com Jó, querendo imputar-lhe alguma culpa, as respostas de Jó às acusações de seus companheiros; a apresentação de um novo personagem, Elius, que por sua vez também quer encontrar alguma causa a tais desgraças; e por fim a intervenção final de Deus, apresentando a solução final da discussão.

A crítica moderna veio ao encontro desse magnífico escrito, com o intuito de pôr o problema da existência e historicidade de Jó. Na tradição bíblica encontramos um justo com o nome de Jó, posto em equivalência a Noé e Daniel (Ez 14, 14 e Eclo 49, 9). No entanto o livro de Jó possui certos fatos que nos fazem entrever um certo caráter alegórico do texto bíblico, por exemplo a assistência de Satanás ao conselho de Deus. Assim nos diz Garcia Cordero de Perez Rodriguez: “Isto nos dá a entender o caráter convencional do relato, que se desenvolve essencialmente como uma composição dramática redigida em função da demonstração de uma tese: não há conexão necessária entre o pecado e o sofrimento.” (1967, p. 18)

Quanto à sua canonicidade, o livro de Jó já era muito utilizado pelos apóstolos em suas cartas como um escrito inspirado (cf. Tg 5, 11 e 1Cor 3, 19). Também os Santos Padres davam testemunho do caráter sagrado da história do justo de Hus. Apenas Teodóro de Mopsuestia (séc. VI) tentou negar a inspiração desse livro, e foi condenado pelo segundo Concílio de Constantinopla (553).

Apesar de este livro ter uma inovação teológica para a sua época, ainda falta-lhe um passo: é verdade que o justo também pode padecer, e ainda mais, o seu prêmio não se encontra nesta terra, e sim no post mortem. Essa nova visão começa a se desenvolver no séc. II a. C. no livro da Sabedoria. Entretanto, tal doutrina só atingirá sua plenitude com a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo.

É Nosso Senhor a causa exemplar de todo cristão, e tendo Ele sofrido, também nós devemos sofrer, mas não com amargura e tristeza, pois será Ele mesmo a nossa recompensa na eternidade.

Jó sendo questionado por seus amigos. Por Gaspard de Crayer - Museu dos Agustinianos - Toulouse, França
Jó sendo questionado por seus amigos. Por Gaspard de Crayer – Museu dos Agustinianos – Toulouse, França

Quão bom seria para a sociedade hodierna defrontar-se com a história de Jó. O mundo infelizmente esqueceu-se não só dos ensinamentos dados por esse livro Sapiencial, como também, e sobretudo, deu costas ao rico e eterno ensinamento dado pela Santa Igreja. Aí encontraríamos a solução para as maiores perguntas de nossos dias: porque estou sofrendo? É de Deus que vem esses males?

Essas perguntas bem poderiam ser respondidas por esta eloquente frase de Jó: “militia est vitam hominem super terram.” (Jo 7, 1) e a tal citação acrescentaria São Bruno e com ele a Santa Igreja: “Per crucem ad lucem.

 

Pe. Millon Barros, EP

O Segredo da Felicidade

Catedral de Santiago Menor en Liege. Por Genaro Perez Villaamil - Museu de Belas Artes - La Coruna - Espanha
Catedral de Santiago Menor en Liege. Por Genaro Perez Villaamil – Museu de Belas Artes – La Coruna – Espanha

Desde que Adão e Eva foram expulsos do paraíso, o homem vive sempre se perguntando: – Quem não ama sua vida procurando ser feliz todos os dias? (Cf. Sl 33, 13) De fato, no momento de sua concepção, Deus infunde na alma humana o desejo da felicidade. Como nos diz o grande Santo Agostinho, “todos os homens querem viver felizes, e não existe no gênero humano pessoa que não concorde com esta afirmação”.[1]

No paraíso Deus havia concedido ao homem o “dom de integridade”, o qual, juntamente com a Graça, lhe dava total alegria e plena felicidade. Esse dom proporcionava ao homem a completa ordenação: a fé iluminava sua inteligência, à qual estava subalterna a vontade, inibindo assim impulsos e ações meramente instintivas.

Com o pecado original, Adão e Eva perderam o dom de integridade, bem como seus descendentes. Assim, o homem vive numa constante luta, para controlar sua vontade, que sendo inferior a inteligência e a fé, não está mais a elas subjugada. A vontade que antes obedecia em tudo a sua inteligência, agora segue seus próprios caprichos.

O Criador ao dar uma ordem a Adão era prontamente obedecido, e este a executava com a maior docilidade. Mas então, por que Adão e Eva comeram do fruto que Deus havia proibido, uma vez que possuíam o dom de integridade?…

Deus ao proibir Adão e Eva de comerem do fruto, disse: “Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que deles comeres, morrerás indubitavelmente.” (Gen. 2,16-17). O demônio porém, em forma de serpente, enganou a mulher dizendo: – “Oh, não; vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.” (Gen. 3,4-5) Com isso, despertou a curiosidade em Eva: “A mulher, viu que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e muito apropriado para abrir a inteligência.” E assim continua: “tomou dele, comeu, e o apresentou ao marido que comeu igualmente.” (Cf. Gen. 3, 6) Neste instante, lhes “caem as escamas” dos olhos. Foram os primeiros a constatar que com o pecado, o demônio não dá o que promete.

Comendo o fruto, aderiram ao mal, abraçaram a malícia, fruto do pecado. Comeram para alargar sua inteligência, que se fechou a ponto de não conseguirem dominar mais sua própria vontade. Eram felizes no paraíso, pois cumpriam inteiramente com a finalidade para qual todo homem foi criado: conhecer, amar e servir a Deus.

Imaginemos um pássaro que possua uma asa torta. Se ele fosse inteligente, passaria sua existência na angustia de nunca ter voado. Poderia ter sido feliz? Não, pois não cumpriu com a sua finalidade que é voar. Isso foi o que ocorreu com os nossos primeiros pais. Eva ouvindo a voz da serpente insuflada pelo demônio, sucumbiu à tentação, certa de encontrar a felicidade no pecado. Foram então expulsos do paraíso tornando-se inclinados ao mal e sujeitos ao erro, passando a apresentar toda a sua vida como uma luta dramática entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas.

Fora de sua finalidade, o homem não têm felicidade, pois este desejo é de origem divina. Deus o colocou no coração humano, a fim de atraí-lo a si, pois só Ele pode satisfazer essa sede.[2] O demônio, sendo o pai da mentira, promete a felicidade com o pecado. Este entretanto, traz apenas uma fruição momentânea, e em seguida uma enorme frustração.

Desde então, o homem passou a tirar seu sustento da terra, com trabalhos penosos, todos os dias da sua vida. (Cf. Gn. 3, 17) Estabeleceu-se na alma humana uma necessidade de sofrer, pois sem isso o homem fecha-se em si mesmo, não lembrando mais da bondade e da dependência que tem em relação ao Criador. O sofrimento, então, assume um papel fundamental e insubstituível na vida humana depois do pecado original, pois nos coloca diante de Deus como seres contingentes, e nos faz recorrer a Ele.

Ao se tirar o gesso de um braço quebrado, é necessário submeter-se a uma série de seções de fisioterapia para voltar ao pleno funcionamento. Se o membro não se exercitar pode acabar definhando. porém, esse esforço nem sempre é agradável.

Se o exercício, o sofrimento, é necessário para um braço, quanto mais para a alma humana se desenvolver e recuperar aquilo que perdeu com o pecado! Quem foge do sofrimento, acaba sofrendo mais do que aquele que carrega sua Cruz. Existe na alma humana o que São Tomás denomina de “sofritiva”, que consiste numa necessidade de sofrimento, por uma finalidade sobrenatural, com vistas a purificar e santificar a alma.

O maior de todos os exemplos é o Homem Deus. Estando unido à Pessoa do Verbo e conhecendo tudo, viu num só relance todos os ultrajes e padecimentos pelos quais passaria durante sua Paixão, a ponto de dizer o evangelista que Nosso Senhor sentiu aversão, pavor, tristeza e abatimento. (Cf. Mt 26,38) Antes mesmo dos algozes O tocarem, após verter abundantemente seu preciosíssimo sangue adorável, diante do oceano de dores que o esperava, profere esta sublime súplica: -“Meu Pai, se for possível afaste-se de mim este cálice. Mas faça-se a Vossa vontade e não a minha.” (Mt 26,39)

Concluiríamos que o Redentor pede clemência a Deus Pai, para ajudá-Lo no caminho do Calvário a suportar a enormidade da Cruz que haveria de carregar. Mas “faça-se a Vossa vontade e não a minha”, pois uma coisa que Ele não faria, era abandonar a Cruz. Se for a vontade do Pai, pegaria a Cruz, oscularia e a levaria até o fim.

Ao contrário do que nosso caro leitor poderia esperar com o título desse artigo, não apresentamos uma fórmula mágica de ser feliz para sempre, o famoso “final feliz” que costumamos ver nos filmes, mas o segredo da verdadeira e única felicidade possível nesse vale de lágrimas: o sofrimento aceito por amor a Deus, e o cumprimento de sua divina vontade.

A vida nesta terra sem o sofrimento, é uma funesta ilusão que acaba com a morte, pois se Deus sofreu por nós, porque seríamos covardes e fugiríamos diante de nossas cruzes, tão menores que a d’Ele? Nossa Senhora de Lourdes disse a Santa Bernadete: “Te prometo felicidade, mas não nesta terra.”

Não temos o que temer, Deus conhece nossa fragilidade e olha as nossas aflições. Por isso deu-nos a melhor de todas Advogadas, sua própria Mãe! Peçamos a Nossa Senhora, Causa de nossa alegria, que nos dê coragem para responder “sim” como Nosso Senhor Jesus Cristo no Horto das Oliveiras, para galgar o nosso calvário e alcançarmos a felicidade eterna com Ele nos Céus.

 

Nossa Senhora da Vitória. Por Juan de Figueroa - Santuário de Santa Maria da Vitória - Málaga - Espanha
Nossa Senhora da Vitória. Por Juan de Figueroa – Santuário de Santa Maria da Vitória – Málaga – Espanha

 

Pe. Lucas Antonio Pinatti, EP

[1] Cf. AGOSTINHO, Mor. eccl. 1,3,4: PL 32, 1312.

[2] CATECISMO Igreja Católica: SP, Loyola, 2000. p. 469