Os efeitos do Batismo e nossa incorporação em Cristo

Batismo de Santo Inácio de Loyola
Batismo de Santo Inácio de Loyola

O Batismo é, em grau de necessidade, o maior dos Sacramentos da Santa Igreja Católica, e absolutamente indispensável à salvação. Com ele é iniciada a vida cristã na alma.

Pertencendo à descendência de Adão, herdamos dele o pecado original, que degradou a natureza humana, e se não bastasse temos os pecados atuais que, nos arrastam ainda mais para baixo. Mas da mesma forma que contraímos o pecado original por descendermos de Adão, para sermos justificados é preciso nascer em Cristo nas águas do batismo, o qual apagam o pecado de nossa alma, como comenta o grande teólogo Cornélio a Lápide:

“O batismo é um sacramento que apaga o pecado original, nos torna filhos de Deus e da Igreja… O batismo é a cruz de Jesus Cristo aplicada sobre nós… Pelo batismo, nós somos crucificados com Jesus Cristo… Ora, a cruz é a morte e destruição dos pecados. […] Assim como é necessário nascer de Adão, segundo a carne, para contrair o pecado original; assim também, para participar na justificação por Jesus Cristo, é preciso nascer dele, segundo o espírito, pelo batismo.”[1]

Quais são, entretanto, os efeitos que o batismo produz na alma de quem o recebe? Antes de nos adentrarmos no assunto, vale recordar que tais efeitos são os mesmos para todos batizados. Este efeito pode ser influenciado pelas disposições pessoais, e cada um participa desta graça de renovação na medida de sua própria devoção, de sua compenetração. A respeito deste ponto nos ilumina o Doutor Angélico:

“O efeito essencial do batismo é aquele para o qual o batismo foi instituído, ou seja: gerar os homens para a vida espiritual. Já que todas as crianças se encontram na mesma situação diante do batismo, porque não são batizadas na fé própria, mas na fé da Igreja, todas experimentam o igual efeito. Mas os adultos, que se aproximam do batismo por sua própria fé, não se encontram na mesma situação diante do batismo: alguns se aproximam com maior, outros com menor devoção. E por isso alguns recebem mais, outros menos abundância da graça renovadora.”[2]

A Paixão e a Morte de Cristo são o remédio universal a todos os pecados. Sendo batizada, a alma é crucificada com Jesus Cristo, como o disse Cornélio a Lapide. E ainda, ao receber o batismo, ela dá testemunho, passa a aderir diretamente à Paixão de Cristo e é incorporada àqueles que se beneficiam mais especialmente dos frutos da Paixão do Redentor.

 

  • O batismo é um banho de purificação que apaga os pecados

O batismo apaga os pecados, pois por ele o pecador é sepultado na morte de Cristo, ele morre à veleidade do pecado e começa a viver na graça de Deus: “portanto, vós também considerai-vos mortos ao pecado, porém vivos para Deus, em Cristo Jesus.” (Rm 6, 11) Com efeito mostra-nos muito bem o Pe. ROYO MARÍN:

“[O batismo] perdoa ou apaga totalmente o pecado original e todos os pecados atuais que tenha cometido o batizando. O definiu o concílio de Trento contra os protestantes (Dz 794). É uma conseqüência inevitável da infusão da graça, incompatível com o pecado.”[3]

Claro está que quando se trata de uma criança, ou seja, antes do uso da razão isto se dá diretamente, mas quando se trata de um adulto é preciso, para que o sacramento seja válido e lícito, que ele tenha pelo menos um ato de atrição sobrenatural, que Deus dará como uma graça atual.

 

  • O batismo apaga toda pena, seja eterna ou temporal, devida aos pecados

Sabemos que todo pecado, além da culpa, traz consigo uma penalidade, que é uma dívida a ser paga pelo dano causado à ordem lesada. E isto também é, por efeito do batismo apagado, de tal modo que se um pecador morrer logo após seu batismo, vai diretamente para o Céu. Comenta-nos o Pe. ROYO MARÍN sobre este efeito:

“[O batismo] perdoa toda pena devida aos pecados, tanto a eterna como a temporal. A razão fundamental deste efeito tão maravilhoso a dá São Tomás nas seguintes palavras: ‘A virtude da paixão de Cristo opera no batismo à maneira de uma certa geração, que requer indispensavelmente a morte total da vida pecaminosa anterior com o fim de receber a nova vida; e por isso o batismo apaga todo o resquício de pena que pertence à velha vida’.”[4]

Não seria vão recorrermos mais uma vez a São Tomas de Aquino para complementar este tema:

“Pelo batismo somos incorporados na paixão e morte de Cristo. Diz Paulo: ‘Se estamos mortos com Cristo, cremos que também viveremos com ele.’ Demonstra-se assim que a todo batizado a paixão de Cristo é comunicada para servir de remédio, como se ele próprio tivesse sofrido e morrido. Ora, a paixão de Cristo é satisfação suficiente para todos os pecados de todos os homens. Por isso, quem é batizado, é liberto do reato de toda a pena devida por seus pecados, como se ele próprio tivesse oferecido uma satisfação suficiente por todos os seus pecados.”[5]

Vemos então que aquele que recebeu o batismo não precisa mais satisfazer seus pecados por alguma penitência, tendo-se tornado um membro de Cristo ele participa da Paixão e Morte do Salvador, como se ele mesmo as sofresse, e como nos foi dito por São Tomas, “a Paixão de Cristo é satisfação suficiente para todos os pecados e de todos os homens”.

 

  • Porém, se o batismo apaga todos os pecados, o que se passa com os efeitos destes? Também são apagados?

Sabe-se que o batizado não é isento das seqüelas deixadas na alma pelos pecados, seja o pecado original, ou os atuais. Mesmo tendo o pecado original apagado, o batizado assim mesmo é passível de sofrimento, de doenças, sofre os efeitos da concupiscência, não recupera o dom de integridade, e ao fim do curso desta vida morre. Se não bastasse há ainda os hábitos maus que ele adquiriu (no caso de um adulto), conseqüências dos pecados atuais; ou então os hábitos maus que ele possa ter herdado (seja criança ou adulto). Tudo isso não é apagado pelo batismo.

A razão disto é altíssima, e muito bela. De fato, estes efeitos permanecem na alma pois o batizado, passando a ter parte com Cristo, a ter união em seu Corpo, precisa parecer-se com Ele. O Salvador mesmo tendo assumido nossa carne, não desdenhou as imperfeições que são próprias a ela depois da queda de nossos primeiros pais: Ele tomou um corpo passível de sofrimento e mortal. Deste mesmo modo, como Ele, também nós devemos sofrer e morrer.

Quanto à concupiscência e às tentações, nos servem de meio para provar nossa adesão a Cristo rechaçando-as, dando-nos assim maior mérito. O batismo atenua nossas más inclinações, e nos estimula à prática do bem. Porém não nos livra das tentações, como o Redentor não foi liberto, quando de sua Encarnação, e nem nos priva da luta contra todo mal, seja interno ou externo. Diferentemente de um não batizado o cristão encontra, graças a este sacramento, forças para triunfar sobre os assaltos do mal e vencer as tentações.

Tudo isto não significa que o batismo não tenha forças, ou não seja suficiente para apagar nossas más inclinações, pois ele as tem. Na ressurreição os efeitos do batismo estarão completos.

Com efeito, afirma São Tomas: “O batismo tem força de tirar as penalidades da vida presente; não as tira, porém, na vida presente, mas por sua força os justos são isentos delas na ressurreição, quando ‘este ser mortal for revestido da imortalidade’ como está na primeira carta aos Coríntios.”[6]

Cristo Crucificado. Basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, Arautos do Evangelho, Grande São Paulo
Cristo Crucificado. Basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, Arautos do Evangelho, Grande São Paulo
  • A incorporação em Nosso Senhor Jesus Cristo

A guisa de conclusão, não poderíamos deixar de discorrer sobre um dos principais efeitos deste sacramento: a incorporação em Nosso Senhor Jesus Cristo. A isto chamamos de caráter, marca indelével que este sacramento nos confere. Com efeito, sobre este assunto, encontramos num manual de teologia:

“Todos estes efeitos se resumem em uma só palavra, que exprime o todo: o batizado é incorporado ao Cristo, torna-se membro de seu corpo vivo. É preciso sublinhar fortemente o realismo vivo desta noção: batizado no Cristo, o neófito é mergulhado nele, entra nele […]. O batismo o marcou com seu selo, com seu “caráter”, realidade misteriosa impressa na inteligência, e que realiza nele esta semelhança com o Cristo […].

“Incorporado ao Cristo, o batizado é por esta via incorporado à Igreja […]. A Igreja nasceu na Cruz, da água que corria do lado aberto de Jesus, Ela nasce sem cessar na água do batismo que lhe agrega cada dia novos filhos.”[7]

 

Pe. Michel Six, EP

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[1] «Le baptême est un sacrement qui efface le péché originel, nous fait enfants de Dieu et de l’Église… Le baptême, c’est la croix de Jésus-Christ appliquée sur nous… Par le baptême, nous sommes crucifiés avec Jésus-Christ… Or, la croix est la mort et la destruction des péchés…

Comme il est nécessaire de naître d’Adam selon le corps, pour contracter le péché originel; ainsi, pour participer à la justification par Jésus-Christ, il est nécessaire de naître de lui, selon l’esprit, par le baptême» (BARBIER I, 1885, p. 183).

[2] Cf. Suma Teológica III, Q. 69, a. 8.

[3] Remite o borra totalmente el pecado original y todos los pecados actuales que haya cometido el bautizando.

Lo definió El concilio de Trento contra los protestantes (D792) [sic]. Es una consecuencia inevitable de la infusión de la gracia, incompatible con el pecado (1984, p. 94 ).

[4] Remite toda la pena debida por los pecados, tanto la eterna como la temporal. La razón fundamental de este efecto tan maravilloso la da Santo Tomas en las seguintes palabras: “La virtud o mérito de la pasión de Cristo obra en el bautismo a modo de cierta generación, que requiere indispensablemente la muerte total a la vida pecaminosa anterior con fin de recibir la nueva vida; y por eso quita el bautismo todo el reato de pena que pertenece a la vieja vida anterior (1984, p. 95).

[5] Cf. Suma Teológica III, Q. 69, a. 2.

[6] Cf. Suma Teológica III, Q. 69, a. 3 “Respondo”.

[7] Tous ces effets se résument en un seul mot, qui explique tout : le baptisé est incorporé au Christ, devient membre de son corps vivant. Il faut souligner fortement le réalisme vivant de cette notion : baptisé dans le Christ, le néophyte est plongé en lui, entre en lui […]. Le baptême l’a marqué de son empreinte, de son « caractère » réalité mystérieuse, imprimée en son intelligence, et qui réalise en lui cette ressemblance au Christ […].

Incorporé au Christ, le baptisé est par lá incorporé à l’Église […]. L’Église est née à la Croix de l’eau qui coulait du côté ouvert de Jésus, elle naît sans cesse dans l’eau du baptême qui lui agrège chaque jour de nouveaux enfants (VV.AA. 1956, p. 481, 482).

 

Bibliografia

Bíblia Sagrada. 142ª ed. São Paulo: Ave Maria, 2001.

-AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Vol. IX. São Paulo: Loyola, 2006.

-BARBIER, Abbé. Les Trésors de Cornelius a Lapide – extraits de ses commentaires sur l’Écriture Sainte à l’usage des prédicateurs des Communautés et des familles chrétiennes. Vol. I. 5ª ed. Paris: Librairie Poussielgue Frères, 1885.

-ROYO MARÍN, Antonio. Teologia Moral para seglares – los sacramentos. Vol. II. 4ª ed. Madrid: B.A.C., 1984

-VV. AA., Initiation Théologique. Vol. IV. Paris: Éditions du Cerf, 1956.

A realeza de Cristo

Cristo Rei. Igreja de Santo André - Bayona, França
Cristo Rei. Igreja de Santo André – Bayona, França

“Perguntou-lhe então Pilatos: És, portanto, rei? Respondeu Jesus: Sim, eu sou rei.” (Jo 18, 37).

Rei, palavra tão pequena em sua ortografia, mas tão cheia de significados. De fato, quantas qualidades se poderiam atribuir às coisas eminentes e, no entanto, escolhemos a palavra rei. Ao astro por excelência, que irradia seus raios sobre a Terra, isto é, o Sol, damos o título de Astro-rei. Ao animal que reúne em si as mais importantes prerrogativas do reino animal, o leão, o qualificamos como rei dos animais.

Ora, se isto é assim no reino mineral e animal, a Cristo, o Primogênito de toda a criação, e o mais perfeito dentre os homens, não lhe caberia o título de rei?

No Credo, Símbolo dos Apóstolos, quando recitamos: “está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos”, proclamamos a realeza de Jesus Cristo. Com efeito, aquele que se assenta à direita do rei, participa do governo e juízo que este exerce.[1]

Se analisamos a Cristo, enquanto Deus, não teremos dificuldade em reconhecê-Lo como rei, uma vez que, sendo Deus, é o Criador e o Conservador de tudo quanto existe. Porém, enquanto homem, pode-se dizer que Ele é rei?

Para ser rei, antes de mais nada, é preciso que o soberano participe da mesma natureza que os súditos, ou seja, se é rei dos homens tem que ser homem. Sendo assim, Jesus, enquanto Deus, é rei pois, juntamente com o Pai e o Espírito Santo, possui supremo e absoluto sobre toda a criação[2]; e enquanto homem, Cristo tem sua realeza fundada na união hipostática, pela qual sua humanidade participa plenamente da divindade, uma vez que há uma só pessoa em Cristo, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade. A união hipostática, portanto, faz de Nosso Senhor rei por natureza.[3]

Não obstante, Jesus é também rei por direito de conquista pois, tem direito a ela pelo fato de ter redimido a humanidade com sua Paixão e Morte na Cruz[4], como afirmou São Pedro: “Porque vós sabeis que não é por bens perecíveis, como a prata e o ouro, que tendes sido resgatados da vossa vã maneira de viver, recebida por tradição de vossos pais, mas pelo precioso sangue de Cristo, o Cordeiro imaculado e sem defeito algum.” (1 Pe 1, 18-19)

Nosso Senhor Jesus Cristo é ainda rei por tríplice motivo: por ser cabeça da Igreja, pela plenitude de sua graça, e por direito de herança.

Cristo é cabeça da Igreja à semelhança da relação que a cabeça tem com o corpo humano, ou seja, conforme a ordem, perfeição e poder. De acordo com a ordem, a cabeça é a primeira parte do homem, considerando do mais ao menos elevado. Do mesmo modo Jesus possui o primeiro lugar na proximidade com Deus, por sua união hipostática. Em segundo lugar, a cabeça indica perfeição, pois nela se reúnem todos os sentidos internos e externos; e além disso, Cristo possui a plena perfeição em todos os âmbitos. E, finalmente, assim como a cabeça possui o poder sobre todo o corpo, governando os outros membros, também Cristo tem poder sobre os demais membros da Igreja, sendo criador e fonte da graça.[5]

002Ademais, como cabeça da Igreja, cabe a Cristo o juízo, e o poder judicial é, por sua vez, uma consequência da potestade régia. Sua realeza provém igualmente da plenitude da graça[6] que possui, como afirma São João: “De sua plenitude todos nós recebemos” (Jo 1, 16). E também Cristo é rei por direito de herança, uma vez que os herdeiros gozam de todos os direitos e prerrogativas de seus pais, e Jesus herdou do Padre Eterno sua realeza, conforme a Escritura: “Foi-lhe dado o senhorio, a glória e o império, e todos os povos, nações e línguas hão de servir-lhe. Seu poder é um poder eterno, que nunca lhe será tirado e sua realeza é tal, que jamais será destruída!” (Dn 7, 13-14). Jesus “é o unigênito Filho de Deus e por Este foi constituído como herdeiro universal, recebendo o poder sobre toda a criação, no mesmo dia em que foi engendrado.”[7]

Não obstante, apesar de Cristo Rei possuir o tríplice poder – legislativo, judiciário, e executivo –, por sua potestade régia, seu reino, entretanto, não é temporal e terreno, como Ele mesmo afirmou: “Meu reino não é deste mundo” (Jo 18, 36). Ora, se Cristo é deveras rei se seu reino não é deste mundo?

O reino de Nosso Senhor é eterno, sem fim (Lc 1, 33), e universal, pois reina sobre toda a criação, e foi-lhe dado “todo poder no céu e na terra” (Mt 28, 18). É um reino de verdade e vida, segundo suas palavras: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). Reino de santidade e graça. De santidade porque enquanto Deus é a santidade infinita, e enquanto homem é infinitamente santo pela união com a Pessoa do Verbo de Deus. Reino de graça porque possui a plenitude da graça e da verdade (Cf. Jo 1, 14), e “de sua plenitude todos nós recebemos graça sobre graça” (Jo 1, 16).

Finalmente, seu reino é de justiça, amor e paz. De justiça, pois veio estabelecê-la na terra, e julgará a todos “segundo suas obras” (Rm 2, 6). De amor, pois a caridade ultrapassa os umbrais da eternidade, e seu reino é eterno. De paz, porque a paz é “obra da justiça” (Is 32, 17), e Ele mesmo é chamado “Príncipe da paz” (Is 9, 6). Enfim, Nosso Senhor Jesus Cristo, podemos exclamar com São Paulo, não é só o Sacerdote, mas também o Rei que nos convinha.

 

Pe. João Carlos Fidelis de Moura, EP

 

[1] Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. III, q. 58, a. 1, co.

[2] Cf. S. Th. III, q. 58, a. 2, co.

[3] Cf. S. Th. III, q. 58, a. 3, co.

[4] Cf. S. Th. III, q. 59, a. 3, co.

[5] Cf. S. Th. III, q. 8, a. 1, co.

[6] Cf. S. Th. III, q. 7, a. 10, co.

[7] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos. Vaticano: Editrice Vaticana, 2012, p. 487. vol. VI.

Triunfante como a aurora elevou-Se aos Céus a Virgem Maria

Assunção de Nossa Senhora. Pinacoteca do Museu Vaticano, Roma - Itália
Assunção de Nossa Senhora. Pinacoteca do Museu Vaticano, Roma – Itália

Quanto mais o homem procura aprofundar-se no conhecimento de Deus, mais compreende que não conseguirá abarcá-Lo, tais as grandezas e os mistérios com os quais se depara.

O Criador, que estabelece as regras, se apraz em criar magníficas exceções. Três criaturas não podiam ser criadas em grau mais excelente, ensina-nos a Teologia. A primeira delas é Jesus Cristo, Homem-Deus: impossível ser mais perfeito, nada haveria a acrescentar. A segunda, Maria: “quase divina”, é a expressão utilizada por vários teólogos para se referir à Mãe do Redentor. E, por fim, a visão beatífica, o Céu: o prêmio reservado aos justos não poderia ser melhor nem maior. É o próprio Deus que Se dá aos Bem-aventurados!

 

Por que morreu a Mãe da Vida?

Em Maria Santíssima está a plenitude de graças e de perfeições possíveis a uma mera criatura. Segundo a bela expressão de Santo Antonino, “Deus reuniu todas as águas e chamou-as mar, reuniu todas as suas graças e chamou-as Maria”.[1] Desde toda a eternidade, o decreto divino estabelecia o singularíssimo privilégio de ser a Virgem Santíssima concebida livre da mancha original. Privilégio este próprio Àquela que geraria em seu seio o próprio Deus.

Transcorrida sua vida nesta terra, o que aconteceria com nossa Mãe? Ela, que havia dado à luz, alimentado e protegido o Menino-Deus, e recebido em seus braços virginais o Corpo dilacerado de seu Filho e Redentor, estava prestes a exalar o último suspiro. Como poderia passar pelo transe da morte aquela Virgem Imaculada, nunca tocada pela mais leve sombra de qualquer falta?

Sem embargo, como o suave declinar do sol num magnífico entardecer, a Mãe da Vida rendia sua alma. Por que morria Maria? Tendo Ela participado de todas as dores da Paixão de Jesus, não quis deixar de passar pela morte, para em tudo imitar seu Deus e Senhor.

 

De que morreu Maria?

Perfeitíssima era a natureza da Virgem Maria. Com efeito, afirma Tertuliano que “se Deus empregou tanto cuidado ao formar o corpo de Adão, pela razão de seu pensamento voar até Cristo, que deveria nascer dele, quanto maior cuidado não terá tido ao formar o corpo de Maria, da qual devia nascer, não de modo remoto e mediato, mas de modo próximo e imediato, o Verbo Encarnado?”[2]

Ademais, escreveu Santo Antonino, “a nobreza do corpo aumenta e se intensifica em proporção com a maior nobreza da alma, com a qual está unido e pela qual é informado. E é racional, pois a matéria e a forma são proporcionadas uma à outra. Sendo, portanto, que a alma da Virgem foi a mais nobre, depois da do Redentor, é lógico concluir-se que também seu corpo foi o mais nobre, depois do de seu Filho.”[3]

À alma santíssima de Maria, concebida sem pecado original e cheia de graça desde o primeiro instante de sua existência, correspondia, portanto, um organismo humano perfeitíssimo, sem o menor desequilíbrio.

Em consequência de sua virginal natureza, Nossa Senhora foi imune a qualquer doença, e jamais esteve sujeita à degenerescência do corpo causada pela idade.

De que morreu, pois, a Mãe de Deus?

O termo da existência terrena de Maria deveu-se à “força do divino amor e ao veemente desejo de contemplação das coisas celestiais, que consumiam seu coração.”[4]

A Santíssima Virgem morreu de amor!

São Francisco de Sales assim descreve esse sublime acontecimento:

“Quão ativo e poderoso (…) é o amor divino! Nada de estranho se vos digo que Nossa Senhora dele morreu, pois, levando sempre em seu coração as chagas do Filho, padecia-as sem consumir-se, mas finalmente morreu pelo ímpeto da dor. Sofria sem morrer, porém, por fim, morreu sem sofrer. “Oh, paixão de amor! Oh, amor de paixão! Se seu Filho estava no Céu, seu coração já não estava n’Ela. Estava naquele corpo que amava tanto, ossos de seus ossos, carne de sua carne, e ao Céu voava aquela águia santa. Seu coração, sua alma, sua vida, tudo estava no Céu: por que haviam de ficar aqui na terra?

“Finalmente, após tantos vôos espirituais, tantos arrebatamentos e tantos êxtases, aquele castelo santo de pureza e humildade rendeu-se ao último assalto do amor, depois de haver resistido a tantos. O amor A venceu, e consigo levou sua benditíssima alma.”[5]

Essa morte de Maria, suave e bendita como um lindo entardecer, a Igreja a designa pelo sugestivo nome de “dormição”, para significar que seu corpo não sofreu a corrupção.

Dormição de Maria. Basílica de Santa Maria Maior, Roma - Itália
Dormição de Maria. Basílica de Santa Maria Maior, Roma – Itália

Cheia de graça e cheia de glória

Quanto durou a permanência do puríssimo corpo de Maria no sepulcro?

Não o sabemos. Mas, segundo a tradição, muito pouco tempo esteve a alma separada de seu corpo. E, na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, afirma o Papa Pio XII: “Por um privilégio inteiramente singular, Ela venceu o pecado com sua Conceição Imaculada; e por esse motivo não foi sujeita à lei de permanecer na corrupção do sepulcro, nem teve de esperar a redenção do corpo até o fim dos tempos.”

Assim, resplandecente de glória, a alma santíssima de Nossa Senhora reassumiu seu virginal corpo, tornando-o completamente espiritualizado, luminoso, sutil, ágil e impassível.

E Maria — que quer dizer “Senhora de Luz” — elevou-se em corpo e alma ao Céu, enquanto as incontáveis legiões das milícias angélicas exclamavam maravilhadas ao contemplar sua Soberana cruzando os umbrais eternos: “Quem é esta que surge triunfante como a aurora esplendorosa, bela como a lua, refulgente e invencível como o Sol que sobe no firmamento e terrível como um exército em ordem de batalha?”[6]

E ouviu-se uma grande voz que dizia: “Eis aqui o tabernáculo de Deus” (Ap 21, 3).

A Filha bem-amada do Pai, a Mãe virginal do Verbo, a Esposa puríssima do Espírito Santo foi coroada, então, pelas Três Divinas Pessoas para reinar no universo, pelos séculos dos séculos, “à direita do Rei” (Sl 44, 10).

 

O dogma

A verdade desta glorificação única e completa da Santíssima Virgem foi definida solenemente como dogma de Fé pelo Papa Pio XII, no dia 1 de novembro de 1950, com estas belas palavras:

“Depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a luz do Espírito de verdade, para a glória de Deus onipotente que à Virgem Maria concedeu sua especial benevolência, para a honra de seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória de sua augusta Mãe e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Bem-aventurados Apóstolos São Pedro e São Paulo e com a Nossa, pronunciamos, declaramos e definimos que: A Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”.

 

Pe. Pedro Rafael Morazzani Arraiz, EP

Retirado de Revista Arautos do Evangelho, n. 32, Agosto de 2004, p. 18-20.

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[1] In São Luís M. Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Petrópolis: Vozes, 13 ed., 1984, p. 30.

[2] De resurrectione carnis, c. VII.

[3] Cfr. Gabriel Roschini. Instruções Marianas. São Paulo: Paulinas, p. 202.

[4] D. Alastruey. Tratado de la Virgen Santísima. p. 414.

[5] São Francisco de Sales. Obras Selectas. Madrid: B.A.C., p. 480.

[6] Cfr. Cant 6,10.

VIII Romaria ao Santuário de Aparecida

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A Romaria anual ao Santuário Nacional de Aparecida que é promovida pelo Apostolado do Oratório dos Arautos do Evangelho será nos dias 12 e 13 de Agosto.
Este ano, com a graça de Nossa Senhora, contaremos com a presença de novos grupos do Oratório que foram formados com as Missões Marianas realizadas pela Cavalaria de Maria.
Para mais informações entre em contato através do telefone (11) 2973-9477 ou pelo whatsapp: (11) 98872-1366.

 

PROGRAMAÇÃO

12 de agosto, 6ª feira
18h – Missa na Basílica Velha, presidida pelo Reitor do Santuário.
19h – Procissão Luminosa, da Basílica Velha até a Basílica Nova.
Sexta-feira, a partir das 13:00hs. até as 16:00hs: Mostruário, projeção do vídeo, entrega de lembranças e atendimento as delegações no Auditório Padre Noé Sotillo (em frente da Casa do Pão, sub solo do Santuário).

13 de Agosto, sábado
08h – Terço na Tribuna Papa Bento XVI, com a presença da copia da Imagem de Nossa Senhora Aparecida e animação
do Coro Internacional dos Arautos do Evangelho.
10:30h – Missa presidida pelo Cardeal Arcebispo de Aparecida Dom Raymundo Damasceno.
Sábado, a partir das 06:00hs. até as 16:00hs: Mostruário, projeção do vídeo, entrega de lembranças e atendimento as delegações no Auditório Padre Noé Sotillo (em frente da Casa do Pão).

 

Romaria-Oratório

A virtude da Fortaleza em Nosso Senhor Jesus Cristo

001É comum nos depararmos com uma visão reducionista de Nosso Senhor Jesus Cristo. Muitos ao tentarem encontrar uma desculpa para justificar suas doutrinas miserabilistas, ou conformadoras com os defeitos e pecados do “próximo”, tentam transmitir uma visão apoucada e muitas vezes deturpada do Nosso Redentor.

É por causa disso que muitos defendem a “necessidade de perdoar” como sendo a única obrigatória; nunca recriminar, sempre ser condescendente com os defeitos do próximo. Porém não foi esse o ensinamento que o Divino Mestre deixou àqueles que com Ele conviveram, e, para perpétua memória, escreveram os Santos Evangelhos.

Por isso, pareceu-nos oportuno ressaltar através dessas linhas um aspecto do resplendor divino que brilhou na pessoa do Homem-Deus, e que hoje está posto de lado: a virtude da fortaleza. E a fim de silenciarmos o “romantismo religioso” que invade os meios católicos em nossos dias, trazemos a lume as palavras do grande líder católico brasileiro, o Professor Plinio Corrêa de Oliveira, que afirma:

“Fazemos a apologia de doutrinas de luta e de força, luta pelo bem é certo, e força a serviço da verdade. Mas o romantismo religioso do século passado desfigurou de tal maneira em muitos ambientes a verdadeira noção de Catolicismo, que este aparece aos olhos de um grande número de pessoas, ainda em nossos dias, como uma doutrina muito mais própria ‘do meigo Rabi da Galileia’ de que nos falava Renan – do taumaturgo um tanto rotariano por seu espírito e por suas obras, com que o positivismo pinta blasfemamente Nosso Senhor, parecendo ao mesmo tempo enaltecê-Lo – do que do Homem Deus que nos apresentam os Santos Evangelhos.” (1983, p. 283)

Para introduzir melhor o leitor no tema, colocamos uma breve descrição teórica da virtude da fortaleza, segundo o grande teólogo, Pe. Antônio Royo Marín, O.P.: “[a virtude da fortaleza é] uma virtude cardeal infundida com a Graça Santificante que inflama o apetite irascível e a vontade para que não desistam de conseguir o bem árduo ou difícil nem sequer pelo máximo perigo da vida corporal.” (1968, p. 588)

Em outras palavras, a virtude da fortaleza nos dá a força e a coragem necessárias para cumprirmos nosso dever, mesmo que isso seja muito difícil ou até mesmo que ponha em risco a vida material do homem, desde que o motivo seja sobrenatural. É o caso dos mártires, que preferiram morrer a renegar sua Fé.

Seria necessária uma explicação muito longa e detalhada para conhecermos todos os seus efeitos e virtudes derivadas. Mas para o efeito que nos propomos neste artigo, faremos menção apenas de duas virtudes, que são mais salientadas nos Evangelhos. Elas são a Paciência e Magnanimidade.

“A Magnanimidade é uma virtude que inclina a empreender obras grandes, esplêndidas e dignas de honra em todo gênero de virtudes.” (ROYO MARÍN, 1968. p. 590) Como sabemos, não foi outra coisa a vida do Verbo Encarnado nessa terra, realizar grandes obras.

Já a virtude da Paciência tem como objetivo inclinar a suportar sem tristeza de espírito nem abatimento de coração os padecimentos físicos e morais, e o principal motivo da paciência cristã é a conformidade com a vontade Divina, que sabe muito mais do que o homem. (cf. ROYO MARÍN, 1968, p. 592)

Agora, cabe-nos saber se o Bom Pastor possuiu e praticou essa virtude? Vejamos como o Pe. Anton Koch, S.I., nos descreve a cena da expulsão dos vendilhões do Templo:

“Duas vezes vemos relampejar de ira os olhos do Rei que havia de vir com mansidão (Mt 21, 5); duas vezes o doce Jesus descarrega o raio de uma cólera divina; mas duas vezes para purificar a casa de seu Pai […] Jesus acaba de inaugurar sua atividade pública com o milagre feito em Caná, no circulo familiar de umas bodas. Estando próxima a Páscoa, sobe a Jerusalém. E entra no Templo. E vê toda aquela profanação do lugar sagrado; O que veio para dar glória ao Pai se sente consumido pelo zelo de sua casa, e colhe umas cordas, as primeiras que encontra, forma com elas um açoite, e o faz relampejar no meio de toda aquela gente; expulsa do Templo os vendedores juntamente com seus animais, derrama o dinheiro dos cambistas, derruba as mesas e com voz de trovão, com voz de santa indignação clama ‘retirai isso daqui, e não façais da casa do meu Pai um covil de ladrões’.” (1954, p. 561-562)

Semelhante atitude de ira foi necessária na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, como nos aponta Karl Adam: “Semelhante querer, tão extraordinariamente concentrado e disciplinado, semelhante força de alma devia irromper também no exterior por alguma palavra dura, por alguma ação ousada, quando forças inimigas ou malévolas se lhe opusessem. Em Jesus não havia somente uma força contida, uma vontade determinada, mas um ardor entusiasta e uma santa paixão. Basta notar a emoção que trazem algumas de suas palavras e de suas ações: ‘Retira-te Satanás’ – é assim que repele com horror a aparição tentadora. […] ‘Retirai-vos de mim, obreiros da iniqüidade, não vos conheço!’, dirá no dia do Juízo aos que não tiverem socorrido cá na terra os irmãos em necessidade.” (1997, p. 17)

O mesmo autor lembra o grande número de parábolas nas quais se ressalta a ira do Divino Redentor: “É o raio que fulgura, é o trovão que explode, como na parábola do joio: ‘O Filho do homem enviará os seus anjos, e eles tirarão do seu reino todos os escândalos e todos os que praticam a iniqüidade, e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes’.” (1997, p. 18)

Porém, mais do que uma simples ira, o Mestre experimentou também o sentimento da cólera: “Os evangelistas nos falam da ‘cólera’ de Cristo: […] sobretudo quando os fariseus, na ‘cegueira do seu coração’, reagem contra qualquer ensinamento e se fecham num silêncio obstinado e desdenhoso. A contrariedade interior que experimentará, o seu senso de lealdade e de verdade feridos, o seu sentimento moral magoado explodirão nesses momentos em palavras fortes, mesmo duras. Falará de hipócritas, de serpentes, de raça de víboras. Não terá receio de qualificar como ‘raposa’ o próprio Herodes.

“Quando se tratava de dar testemunho da verdade, Jesus não sabia tergiversar nem fraquejar por medo. Tinha um caráter de lutador. Não se esquece de quem é nem se deixa arrastar. A sua cólera é sempre a expressão da mais alta liberdade, a expressão de um homem que tem consciência de ‘não ter vindo ao mundo senão para dar testemunho da verdade’.” (1997, p. 20-21)

Porém a sua cólera é a mais alta expressão da Temperança Divina, pois sendo a ira um instrumento da fortaleza, deve ser temperada e controlada pela razão. (cf. ROYO MARÍN, p. 589)

Tendo assim feito um rápido apanhado sobre a virtude da fortaleza na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, percebemos que o Homem Deus é realmente o Bom Pastor, mas também sabe corrigir as suas ovelhas, e aquelas que não quiserem escutar a sua voz serão tratadas como cabritos no dia do Juízo Final. (cf. Mt 25, 41).

É isso que, em outras palavras, afirmou Plinio Corrêa de Oliveira: “[…] Nosso Senhor não foi um doutrinador sentimental mas o Mestre infalível que, se de um lado soube pregar o amor com palavras e exemplos de uma insuperável e adorável doçura, soube, também pela palavra e pelo exemplo, pregar com insuperável e não menos adorável severidade o dever da vigilância, da argúcia, da luta aberta e rija contra os inimigos da Santa Igreja, que a brandura não puder desarmar.” (1983, p. 287)

Pe. Millon Barros de Almeida, E.P.

 

Bibliografia

ADAM, Karl. Jesus Cristo. 2 ed. São Paulo: Quadrante, 1997.

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica – Nº 20 – 2ª da 2ª Parte: Questões 123 – 170 – Da Coragem – Da Temperança. Tradução de Alexandre CORREIA. São Paulo: Faculdade de Filosofia “Sedes Sapientiae”, 1958.

CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Em defesa da ação católica. 2 ed. São Paulo: Artpress, 1983.

FERNÁNDEZ, Aurélio. Diccionario de Teología Moral. Burgos: Monte Carmelo, 2005.

KOCH, Anton, Pe. S.J.; SANCHO, Antonio, Dr. Can. Mag. Docete – Formación Básica del Predicador y del Conferenciante – Tomo II: El Hombre – Dios. Barcelona; Buenos Aires; Santiago de Chile; São Paulo; Bogotá: Herder, 1953.

KOCH, Anton, Pe. S.J.; SANCHO, Antonio, Dr. Can. Mag. Docete – Formación Básica del Predicador y del Conferenciante – Tomo V: El Hombre y Dios. Barcelona; Buenos Aires; Santiago de Chile; São Paulo; Bogotá: Herder, 1954.

MARÍN, Antonio Royo. El Gran Desconocido: El Espíritu Santo y sus dones. 2 ed. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2004.

MARÍN, Antonio Royo. Teologia de la perfección cristiana. 5 ed. Madrid: La Editorial Catolica, 1968.

O capítulo VI do Evangelho de São João: a Eucaristia

Almejamos apontar neste artigo como o Evangelista São João mostra, em seu sexto capítulo, a verdadeira interpretação sobre a Presença Real de Cristo na Eucaristia. Esta é efetiva, Cristo assim o quis, e o relato do quarto Evangelista não deixa margens à outras interpretações. As palavras do Mestre não podem ser metáforas e ainda a reação dos que estavam presentes na cena confirma o sentido verdadeiro, como veremos.

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São João Evangelista, por Giovanni Bonsi – Museu Amedeo Lia, La Spezia, Itália

São João foi, segundo consta na Tradição, o último a escrever seu Evangelho. De fato, foi somente por volta do ano 90 que ele relatou os feitos da vida do Senhor. Dentre os diversos motivos que o levaram a escrevê-los há um que se destaca: já naquela época começaram ímpias fomentações de heresias sobre a Pessoa de Jesus. Deste modo, em seu sexto capítulo, trata ele especificamente da Santíssima Eucaristia, precavendo a Igreja contra os futuros desvios dos hereges. É de se notar que São João é o único dos Evangelistas a não relatar a instituição da Santíssima Eucaristia. Vemos, entretanto, em sua narração um profundo zelo em explicar a doutrina acerca da transubstanciação. Com efeito, nos elucida GRAIL e ROGUET: “É um fato: João não narrou a instituição da Eucaristia […]. Mais afastado das necessidades da catequese, o IVº evangelho está mais preocupado com a síntese doutrinal”.[1]

É de fé que a Eucaristia foi verdadeiramente instituída por Nosso Senhor. No capítulo VI de São João vemos o Salvador nos prometendo seu próprio Corpo e Sangue como alimento e bebida espiritual. No Sacramento da Eucaristia há um autêntico sacrifício, que anuncia a morte de Cristo e renova, incruentamente, a imolação do Calvário, cujo valor expiatório apaga os crimes dos homens; trata-se de um Sacramento que contém realmente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo.

É curioso o fato de que muitas pessoas que entendem as passagens das Escrituras no sentido literal, “ao pé da letra”, não vêem nas palavras de Nosso Senhor o sentido literal e óbvio por Ele proferido. Ao contrário, relegam-nas à um estilo figurativo, simbólico ou até alegórico.

Contudo basta analisar um pouco mais a fundo este capítulo para percebermos claramente as intenções do Mestre, sua referência clara e direta a seu próprio Corpo e Sangue. Vejamos, no próprio texto, o sentido evidente das palavras:

“Eu sou o pão da vida. Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram. Este é o pão que desceu do céu, para que aquele que dele comer não morra. Eu sou o pão vivo, que desceu do céu. Quem comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que eu darei é a minha carne para a salvação do mundo. Disputavam, pois, entre si os judeus, dizendo: Como pode este dar-nos a comer a sua carne? Jesus disse-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. O que come a minha carne e bebe o meu sangue, tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida. O que come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em Mim e Eu nele.(Jo 6, 48-56).

 

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Última Ceia – Igreja dos Santos Mártires, Málaga, Espanha

É impressionante verificar como, por assim dizer, Ele reitera várias vezes a afirmação de que é realmente a carne e o sangue d’Ele. Não é possível enxergar uma mera metáfora nestas asseverações.

Metáfora, de fato, não pode ser, pois Nosso Senhor não procura atenuar suas declarações, mesmo sabendo que está “escandalizando” os outros. No versículo 52 os judeus confirmam que entenderam literalmente os sentidos das palavras: “Disputavam, pois, entre si os judeus, dizendo: Como pode este dar-nos a comer a sua carne?” Contudo, o divino Mestre não os corrige pelo que entenderam, mas ainda afirma algo mais ousado: “Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (53).

As metáforas que encontramos nas Escrituras sobre carne e sangue não se prestam a comprar com esta passagem, não há outra interpretação a ser dada, senão a que ensinou Jesus Cristo.

Outro ponto a se considerar é o “escândalo” causado nos circunstantes. Mesmo diante da apostasia destes, Nosso Senhor não se retrai, é mais ousado, e ainda prova a fé dos que permanecem, mostrando que é realmente um ponto crucial quando se trata da Eucaristia: “Desde então muitos dos seus discípulos voltaram atrás, e já não andavam com Ele. Por isso Jesus disse aos doze: Quereis vós também retirar-vos?” (6, 67-68). Ele não procura se desculpar nem atenuar suas afirmações. É patente que se não fossem afirmações literais Ele teria persuadido os discípulos a ficarem, entretanto isto não se deu, o Divino Mestre vira muitos dos que o seguiam nesta ocasião O abandonarem e nem assim Ele se retratou. Aos que permanecem é exigido uma fé profunda, como nos explica HUGON:

“A última parte do capítulo acaba por confirmar a interpretação literal. A multidão murmura, numerosos discípulos se retiram, pois eles acharam muito dura esta linguagem. O Mestre, cuja bondade, entretanto, é inesgotável, não tenta segurá-los, explicando-lhes que suas parábolas têm somente um sentido metafórico e não possuem nada que os possa espantar; ao contrário, Ele insiste e conclui que a fé é necessária a qualquer um que queira compreendê-lo.”[2]

Desta maneira vimos, sucintamente, como realmente, em seu sexto capítulo, São João quis mostrar como a Eucaristia é realmente o Corpo e o Sangue do Divino Salvador, e que não é possível dar outra interpretação às palavras de Cristo. Isto é um mistério de nossa fé. Por mais que não o compreendamos inteiramente devemos depositar plena confiança nas palavras do Divino Mestre.

Pe. Michel Six, EP

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Adoração ao Santíssimo Sacramento, capela privada dos Arautos do Evangelho

Bibliografia

Bíblia Sagrada. 43ª ed. São Paulo : Edições Paulinas, 1987.

HUGON, Édouard. La Sainte Eucharistie. 4ªed. Paris : Pierre Téqui, 1922.

VV. AA., Initiation Théologique. Vol. IV. Paris: Éditions du Cerf, 1956.

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[1] Il est un fait: Jean n’a pas rapporté l’intitution de l’eucharistie […]. Plus éloigné des nécessités de la catéchèse, le Ivème évangile est plus préocupé de synthèse doctrinale. (Cf. GRAIL, A.; ROGUET; A.-M., O.P., In Initiation Théologique. Vol. IV. Paris : Éditions du Cerf, 1956. P. 506-507).

[2] La dernière partie du chapitre achève de confirmer l’interpretation littérale. La foule murmure, de nombreux disciples se retirent, parce qu’ils ont trouvé trop dur ce langage. La Maître, dont la bonté cependant est inépuisable, n’essaie pas de les retenir en leur expliquant que ses paroles n’ont qu’une portée métaphorique et n’offrent rien qui doive les étonner ; au contraire, il insiste et il conclut que la foi est nécessaire à quiconque veut le comprendre. (Cf. HUGON, 1922, p. 54-55).

Por que o incenso é utilizado na liturgia católica?

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Não queimo! Assim respondeu uma multidão incontável de mártires ante o tribunal romano. Bastava pôr um punhado de incenso numa pira incandescente que ardia em honra a um ídolo ou à estátua do imperador. Tão simples gesto, uns poucos grãos de incenso eram suficientes para conter a ira dos perseguidores e louvar os deuses. Mas aqueles heróis da Fé, testemunhando seu amor a Cristo, preferiram morrer a cultuar os ídolos, a vida eterna a uns grãos de incenso.

Desde há muito, quase desde sempre, o incenso foi usado no culto divino. Essa composição de resina com ervas aromáticas, que quando lançada ao fogo se consome e exala agradável perfume, é símbolo da alma que se oferece a Deus em sacrifício de suave odor. Deste modo, oferecer incenso a Deus é reconhecer seu domínio sobre nós e sobre toda a criação, sua majestade e o direito que Ele tem de nossa vassalagem.

Assim, no Antigo Testamento, os judeus ofereciam a Javé um culto no altar do incenso (Cf Ex 30,1-10.34-38) e acrescentavam a determinadas oblações um pouco de incenso (Cf Lv 2,1.15). A tradição católica viu no incenso que um dos Magos ofertou ao Rei Menino no Natal (Cf Mt 2,11) um sinal de que aquele homem reconhecia em Jesus a divindade.[1] E a Igreja, ao realizar o Santo Sacrifício do Altar, oferece incenso, pois adora oculto nas espécies do pão e do vinho consagrados o verdadeiro Filho de Deus.

O incenso é também símbolo das orações dos justos, como descreve o Apocalipse, o livro da Liturgia Celeste: “Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, outro Anjo veio postar-se junto ao altar, com um turíbulo de ouro na mão. Foi-lhe dada grande quantidade de incenso, para que o oferecesse com as orações de todos os santos, no altar de ouro que está adiante do trono. E da mão do Anjo, a fumaça do incenso com as orações dos santos subiu diante de Deus” (Ap 8,1-4).

Mais um significado: a glória de Deus. Quando vemos a fumaça do incenso envolvendo o recinto sagrado, associamo-la à nuvem que encheu a Tenda da Reunião ao ser consagrada por Moisés, porque a glória de Deus se fez presente: “A nuvem cobriu a Tenda de Reunião e a glória do Senhor encheu o Tabernáculo. Moisés não pôde entrar na Tenda de Reunião, porque a nuvem pairava sobre ela, e a glória do Senhor enchia o Tabernáculo” (Ex 40, 34-35). O mesmo aconteceu na dedicação do Templo: “Quando os sacerdotes saíram do lugar santo, a nuvem encheu o Templo do Senhor, de modo tal que os sacerdotes não puderam continuar suas funções, por causa da nuvem: a glória do Senhor enchia o Templo do Senhor” (1Rs 8,10-11).

Simbolizando assim a glória de Deus, o incenso também manifesta a união que se estabelece na Liturgia entre a Igreja terrestre e a Jerusalém Celeste, onde os Anjos e os nossos irmãos, os Bem-aventurados, louvam a Deus sem cessar e vivem envoltos em sua glória.

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São esses os motivos pelos quais na celebração eucarística, pode-se incensar o Altar, a Cruz, o Evangelho, as oferendas, o Sacerdote, a assembléia e, sobretudo, o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo sacramentalmente presente pela Consagração. A bênção do incenso para o rito sacro é um sacramental; a incensação em forma de cruz simboliza o Sacrifício da Cruz, e a das oferendas em forma circular, a total pertença das ofertas a Deus, retirando-as do uso profano. Ademais, o incenso é usado nas Bênçãos do Santíssimo, nas Vésperas Cantadas, nas exéquias e em outras bênçãos de lugares e objetos sagrados, como os sinos.

Na dedicação de uma igreja, depois de ungido o Altar é posto sobre ele um braseiro para queimar incenso, simbolizando que o sacrifício de Cristo, realizado ali na Missa, sobe ao Pai Eterno como suave fragrância, e com ele as orações dos fiéis. A coluna de incenso que então se levanta recorda a coluna de nuvem que acompanhou os filhos de Israel no deserto depois da saída do Egito (Cf Ex 13,21-22). Todo o espaço da igreja é incensado, pois tornou-se uma casa de oração, e também os fiéis, por serem “templos vivos de Deus” (Cf 1Cor 3,16-17; Ef 2,22).

Cerimônia de Dedicação da basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, dos Arautos do Evangelho. São Paulo, Brasil
Cerimônia de Dedicação da basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, dos Arautos do Evangelho. São Paulo, Brasil

Caro leitor, quando estivermos em uma igreja e nos virmos circundados pelo incenso e penetrados de seu perfume, lembremo-nos: estamos em um lugar sagrado, é o momento de nos oferecermos a Deus em sacrifício como o incenso que é queimado e de elevarmos nossa prece, para que, como a fumaça, ela suba ao Céu em agradável odor.

 

Luís Filipe Defanti

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[1]“[…] por entender que Ele era de natureza divina e celestial, ofertaram incenso perfumado, forma de oração verdadeira, oferecida como suave odor do Espírito Santo”. ANÔNIMO. Obra incompleta sobre o Evangelho de Mateus, 2: PG 56, 642.

O Pão vivo que desceu do Céu

Adoração ao Santíssimo Sacramento. Basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, dos Arautos do Evangelho, São Paulo - Brasil
Adoração ao Santíssimo Sacramento. Basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, dos Arautos do Evangelho, São Paulo – Brasil

Ao subir para o Céus, Jesus não poderia nos ter deixado um presente maior do que a Eucaristia. Que de mais precioso que seu próprio Corpo e Sangue, Alma e Divindade? Sim, na Santa Hóstia Jesus está realmente presente, tal como em sua vida terrena, mas oculto sob os véus do pão e do vinho. Que milagre, que grande mistério!

De fato, a inteligência humana nunca chegaria a cogitar algo ao mesmo tempo tão impossível e tão singelo: Deus e Homem verdadeiro escondido na aparência de alimento, sempre à nossa disposição, como remédio do corpo e da alma.

Mas porque escondido? Por que Ele quer ser procurado pelo seus filhos e filhas. Está ávido de ser visitado, de ser recebido no sacramento da comunhão.

E é isso que a Solenidade de Corpus Christi comemora a cada ano, desde 1264, quando foi instituída pelo Papa Urbano IV, através da Bula Transiturus de hoc mundo. Essa festa “deveria marcar os tempos futuros da Igreja, tendo como finalidade cantar a Jesus Eucarístico, agradecendo-Lhe solenemente pro ter querido ficar conosco até o fim dos séculos sob as espécies de pão e vinho. Nada mais adequado do que a Igreja comemorar esse dom incomparável.” (João S. Clás Dias, EP)

O culto e a devoção à Santíssima Eucaristia foi crescendo paulatinamente ao longo dos séculos da vida da Igreja. Logo nos primeiros tempos Ela era recordada na Quinta-Feira Santa – como aliás o é até nossos dias – mas com um certo tom de tristeza, pois naquela noite o Salvador foi traído por um de seus discípulos e entregue nas mãos daqueles que o matariam.

Mais tarde, já na Idade Média, essa devoção foi ganhando espaço na vida dos fieis e da própria Igreja, e além da celebração da Santa Missa, começaram outros movimentos de louvor a Jesus Hóstia. “O último impulso veio das visões de Santa Juliana de Monte Cornillon, uma freira agostiniana belga, a quem Jesus pediu a instituição de uma festa anual para agradecer o sacramento da Eucaristia. A religiosa transmitiu esse pedido ao arcediago de Liége, o qual, sendo eleito Papa 31 anos depois, adotou o nome de Urbano IV. Pouco depois esse Pontífice instituía a festa de Corpus Christi, que acabou por se tornar um dos pontos culminantes do ano litúrgico em toda a Cristandade.” (João S. Clás Dias, EP)

Com efeito, em 1263, um sacerdote de nome Pedro, originário de Praga, viajava para Roma, e no caminho começaram a lhe assaltar tentações violentas contra a crença na presença real de Jesus na Eucaristia, porém ele não se deixava vencer por tal pensamento. Em determinado momento ele chegou à cidade de Bolsena, distante uns 120 Km de Roma, e decidiu ali fazer uma pausa, e aproveitou para celebrar a Santa Missa, para fortalecer sua fé acometida por essas horríveis tentações.

Corporal no qual foi envolvida a Hóstia milagrosa. Catedral de Orvieto - Itália
Corporal no qual foi envolvida a Hóstia milagrosa. Catedral de Orvieto – Itália

Contudo, quanto mais ele procurava afastar esse pensamento incrédulo, mais fortes eles voltavam à sua mente. Isso intensificou-se de modo especial no momento da Consagração do pão. Nesse momento, o sacerdote olhou para a Hóstia e viu gotejarem gotas de sangue! Sua emoção foi imensa. A torturante dúvida à qual ele não queria dar ouvidos desfez-se e voou como o pó da terra batido pelo vento.

Passados os primeiros momentos de forte comoção, Pedro decidiu continuar sua viagem a Roma e contar ao Papa o ocorrido. Urbano IV o recebeu e escutou atentamente todos os detalhes de tão impressionante milagre. Em seguida ordenou que fosse averiguada a sua veracidade, a qual tendo sido comprovada colocou em marcha uma procissão à frente da qual se encontrava o Servo dos servos de Deus. Tendo chegado à cidade de Orvieto (que se encontra a 20 Km de Bolsena) veio-lhe ao encontro outra procissão com a Hóstia milagrosa, toda embebida em sangue e envolta num corporal.

Ali mesmo em Orvieto, Urbano IV decidiu instituir a celebração de uma festa em honra ao Santíssimo Sacramento, a qual conhecemos até hoje como Festa de Corpus Christi. Não se sabe se por uma dessas sobrenaturais coincidências – que nunca são acasos – ou se faziam parte da comitiva que acompanhava o Papa, encontravam-se na mesma cidade dois dos maiores teólogos de todos os tempos: São Tomás de Aquino e São Boaventura. O Papa, então, os convocou – bem como a outros teólogos – e lhes pediu que compusessem uma sequência[1] para a Missa da festa.

Terminado o prazo combinado, todos eles compareceram diante do Sumo Pontífice para apresentarem suas composições. O primeiro deles foi São Tomás de Aquino, que começou a ler o Lauda Sion. Apenas terminada a leitura, todos os presentes, e em primeiro lugar São Boaventura, rasgaram suas redações e aplaudiram a magnífica obra prima, verdadeira síntese teológica sobre a Eucaristia, tão lindo que deixamos suas palavras encerrarem esse artigo:

Afresco representando o encontro do Papa Urbano IV com a Hóstia milagrosa. Catedral de Orvieto - Itália
Afresco representando o encontro do Papa Urbano IV com a Hóstia milagrosa. Catedral de Orvieto – Itália

Louva Sião, o Salvador, louva o guia e pastor com hinos e cânticos.

Tanto quanto possas, ouses tu louvá-lo, porque está acima de todo o louvor e nunca o louvarás condignamente.

É-nos hoje proposto um tema especial de louvor: o pão vivo que dá a vida.

É Ele que na mesa da sagrada ceia foi distribuído aos doze, como na verdade o cremos.

Seja o louvor pleno, retumbante, que ele seja alegre e cheio de brilhante júbilo da alma.

Porque celebramos o dia solene que nos recorda a instituição deste banquete.

Na mesa do novo Rei, a páscoa da nova lei põe fim à páscoa antiga.

O rito novo rejeita o velho, a realidade dissipa as sombras como o dia dissipa a noite.

O que o Senhor fez na Ceia, nos mandou fazê-lo em memória sua.

E nós, instruídos por suas ordens sagradas, consagramos o pão e o vinho em hóstia de salvação.

É dogma de fé para os cristãos que o pão se converte na carne e o vinho no sangue do Salvador.

O que não compreende nem vês, uma Fé vigorosa te assegura, elevando-te acima da ordem natural.

Debaixo de espécies diferentes, aparências e não realidades, ocultam-se realidades sublimes.

A carne é alimento e o sangue é bebida; todavia debaixo de cada uma das espécies Cristo está totalmente.

E quem o recebe não o parte nem divide, mas recebe-o todo inteiro.

Quer o recebam mil, quer um só, todos recebem o mesmo, nem recebendo-o podem consumi-lo.

Recebem-no os bons e os maus igualmente, todos recebem o mesmo, porém com efeitos diversos: os bons para a vida e os maus para a morte.

Morte para os maus e vida para os bons: vede como são diferentes os efeitos que produz o mesmo alimento.

Quando a hóstia é dividida não vaciles, mas recorda que o Senhor encontra-se todo debaixo do fragmento, quanto na hóstia inteira.

Nenhuma divisão pode violar as substâncias: apenas os sinais do pão, que vês com os olhos da carne, foram divididos! Nem o estado, nem as dimensões do Corpo de Cristo são alteradas.

Eis o pão dos Anjos que se torna alimento dos peregrinos: verdadeiramente é o pão dos filhos de Deus que não deve ser lançado aos cães.

As figuras o simbolizam: é Isaac que se imola, o cordeiro que se destina à Páscoa, o maná dado a nossos pais.

Bom Pastor, pão verdadeiro, de nós tende piedade. Sustentai-nos, defendei-nos, fazei-nos na terra dos vivos contemplar o Bem supremo.

Ó Vós que tudo o sabeis e tudo o podeis, que nos alimentais nesta vida mortal, admiti-nos no Céu, à vossa mesa e fazei-nos co-herdeiros na companhia dos que habitam a cidade santa.

Procissão do Santíssimo Sacramento no Colégio Internacional Arautos do Evangelho, São Paulo - Brasil
Procissão do Santíssimo Sacramento no Colégio Internacional Arautos do Evangelho, São Paulo – Brasil

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[1] Sequentia, ou em português sequência, é um termo latino usado para designar um trecho de canto gregoriano cantado durante a Santa Missa. Por muitos séculos foi cantado antes da leitura do Evangelho, mas, com a reforma da liturgia em 1970, a sequentia foi levada para antes do aleluia. Atualmente ela só utilizada em Missas mais festivas, como a Solenidade de Corpus Christi, Páscoa, Pentecostes, entre outras.