O capítulo VI do Evangelho de São João: a Eucaristia

Almejamos apontar neste artigo como o Evangelista São João mostra, em seu sexto capítulo, a verdadeira interpretação sobre a Presença Real de Cristo na Eucaristia. Esta é efetiva, Cristo assim o quis, e o relato do quarto Evangelista não deixa margens à outras interpretações. As palavras do Mestre não podem ser metáforas e ainda a reação dos que estavam presentes na cena confirma o sentido verdadeiro, como veremos.

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São João Evangelista, por Giovanni Bonsi – Museu Amedeo Lia, La Spezia, Itália

São João foi, segundo consta na Tradição, o último a escrever seu Evangelho. De fato, foi somente por volta do ano 90 que ele relatou os feitos da vida do Senhor. Dentre os diversos motivos que o levaram a escrevê-los há um que se destaca: já naquela época começaram ímpias fomentações de heresias sobre a Pessoa de Jesus. Deste modo, em seu sexto capítulo, trata ele especificamente da Santíssima Eucaristia, precavendo a Igreja contra os futuros desvios dos hereges. É de se notar que São João é o único dos Evangelistas a não relatar a instituição da Santíssima Eucaristia. Vemos, entretanto, em sua narração um profundo zelo em explicar a doutrina acerca da transubstanciação. Com efeito, nos elucida GRAIL e ROGUET: “É um fato: João não narrou a instituição da Eucaristia […]. Mais afastado das necessidades da catequese, o IVº evangelho está mais preocupado com a síntese doutrinal”.[1]

É de fé que a Eucaristia foi verdadeiramente instituída por Nosso Senhor. No capítulo VI de São João vemos o Salvador nos prometendo seu próprio Corpo e Sangue como alimento e bebida espiritual. No Sacramento da Eucaristia há um autêntico sacrifício, que anuncia a morte de Cristo e renova, incruentamente, a imolação do Calvário, cujo valor expiatório apaga os crimes dos homens; trata-se de um Sacramento que contém realmente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo.

É curioso o fato de que muitas pessoas que entendem as passagens das Escrituras no sentido literal, “ao pé da letra”, não vêem nas palavras de Nosso Senhor o sentido literal e óbvio por Ele proferido. Ao contrário, relegam-nas à um estilo figurativo, simbólico ou até alegórico.

Contudo basta analisar um pouco mais a fundo este capítulo para percebermos claramente as intenções do Mestre, sua referência clara e direta a seu próprio Corpo e Sangue. Vejamos, no próprio texto, o sentido evidente das palavras:

“Eu sou o pão da vida. Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram. Este é o pão que desceu do céu, para que aquele que dele comer não morra. Eu sou o pão vivo, que desceu do céu. Quem comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que eu darei é a minha carne para a salvação do mundo. Disputavam, pois, entre si os judeus, dizendo: Como pode este dar-nos a comer a sua carne? Jesus disse-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. O que come a minha carne e bebe o meu sangue, tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida. O que come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em Mim e Eu nele.(Jo 6, 48-56).

 

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Última Ceia – Igreja dos Santos Mártires, Málaga, Espanha

É impressionante verificar como, por assim dizer, Ele reitera várias vezes a afirmação de que é realmente a carne e o sangue d’Ele. Não é possível enxergar uma mera metáfora nestas asseverações.

Metáfora, de fato, não pode ser, pois Nosso Senhor não procura atenuar suas declarações, mesmo sabendo que está “escandalizando” os outros. No versículo 52 os judeus confirmam que entenderam literalmente os sentidos das palavras: “Disputavam, pois, entre si os judeus, dizendo: Como pode este dar-nos a comer a sua carne?” Contudo, o divino Mestre não os corrige pelo que entenderam, mas ainda afirma algo mais ousado: “Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (53).

As metáforas que encontramos nas Escrituras sobre carne e sangue não se prestam a comprar com esta passagem, não há outra interpretação a ser dada, senão a que ensinou Jesus Cristo.

Outro ponto a se considerar é o “escândalo” causado nos circunstantes. Mesmo diante da apostasia destes, Nosso Senhor não se retrai, é mais ousado, e ainda prova a fé dos que permanecem, mostrando que é realmente um ponto crucial quando se trata da Eucaristia: “Desde então muitos dos seus discípulos voltaram atrás, e já não andavam com Ele. Por isso Jesus disse aos doze: Quereis vós também retirar-vos?” (6, 67-68). Ele não procura se desculpar nem atenuar suas afirmações. É patente que se não fossem afirmações literais Ele teria persuadido os discípulos a ficarem, entretanto isto não se deu, o Divino Mestre vira muitos dos que o seguiam nesta ocasião O abandonarem e nem assim Ele se retratou. Aos que permanecem é exigido uma fé profunda, como nos explica HUGON:

“A última parte do capítulo acaba por confirmar a interpretação literal. A multidão murmura, numerosos discípulos se retiram, pois eles acharam muito dura esta linguagem. O Mestre, cuja bondade, entretanto, é inesgotável, não tenta segurá-los, explicando-lhes que suas parábolas têm somente um sentido metafórico e não possuem nada que os possa espantar; ao contrário, Ele insiste e conclui que a fé é necessária a qualquer um que queira compreendê-lo.”[2]

Desta maneira vimos, sucintamente, como realmente, em seu sexto capítulo, São João quis mostrar como a Eucaristia é realmente o Corpo e o Sangue do Divino Salvador, e que não é possível dar outra interpretação às palavras de Cristo. Isto é um mistério de nossa fé. Por mais que não o compreendamos inteiramente devemos depositar plena confiança nas palavras do Divino Mestre.

Pe. Michel Six, EP

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Adoração ao Santíssimo Sacramento, capela privada dos Arautos do Evangelho

Bibliografia

Bíblia Sagrada. 43ª ed. São Paulo : Edições Paulinas, 1987.

HUGON, Édouard. La Sainte Eucharistie. 4ªed. Paris : Pierre Téqui, 1922.

VV. AA., Initiation Théologique. Vol. IV. Paris: Éditions du Cerf, 1956.

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[1] Il est un fait: Jean n’a pas rapporté l’intitution de l’eucharistie […]. Plus éloigné des nécessités de la catéchèse, le Ivème évangile est plus préocupé de synthèse doctrinale. (Cf. GRAIL, A.; ROGUET; A.-M., O.P., In Initiation Théologique. Vol. IV. Paris : Éditions du Cerf, 1956. P. 506-507).

[2] La dernière partie du chapitre achève de confirmer l’interpretation littérale. La foule murmure, de nombreux disciples se retirent, parce qu’ils ont trouvé trop dur ce langage. La Maître, dont la bonté cependant est inépuisable, n’essaie pas de les retenir en leur expliquant que ses paroles n’ont qu’une portée métaphorique et n’offrent rien qui doive les étonner ; au contraire, il insiste et il conclut que la foi est nécessaire à quiconque veut le comprendre. (Cf. HUGON, 1922, p. 54-55).

A Trindade nos Evangelhos III

Jesus, Filho de Deus

Filho de Deus! Sim, Jesus chama a Deus de Pai em diversas ocasiões.[1] Na parábola dos agricultores assassinos, aparece com clareza a noção que Jesus tinha de sua filiação divina. Com efeito, narra Ele como o proprietário da vinha, que simboliza o próprio Deus, envia, um após outro, seus servos, os profetas, para receber a parte que Lhe correspondia da colheita. Os agricultores desprezaram, espancaram e maltrataram todos os enviados. Então Deus se pergunta: “Que farei? Mandarei meu Filho amado, talvez O respeitem” (Lc 20, 13).

“O tema da vinha era apropriado para que os ouvintes captassem o comportamento de Israel para com Deus e seus mensageiros, e nesta mesma linha vai se acrisolar a atitude dos fariseus em relação a Jesus, encerrando a trajetória que tiveram seus pais com os profetas. […] É preciso ter em conta que os profetas tinham a Deus por Pai a título superior aos demais. Entretanto, comparados com o filho da parábola, aparecem como servos”.[2]

Também no episódio no qual Jesus expulsa os vendilhões do Templo, vemos que Ele se considera Filho do Senhor do Templo: “Tirai isto daqui e não façais da casa de meu Pai um covil de ladrões” (Jo 2, 16). E com o chicote tecido por suas próprias mãos põe em fuga a multidão de comerciantes.

Mas esse mesmo Jesus que castigava com tanta energia, sabia se compadecer do sofrimento dos outros. Tendo subido a Jerusalém por ocasião de uma festa judaica, passou perto da piscina de Betesda, na qual de vez em quando um Anjo do Senhor descia e movimentava a água, e o primeiro que a tocasse ficava imediatamente curado de qualquer doença. Ora, nessa ocasião Jesus viu um paralítico que se encontrava ali havia trinta e oito anos, mas que nunca conseguia tocar as águas quando o Anjo passava. Num gesto de carinho e compaixão Jesus lhe disse: “Levanta-te, pega tua cama e anda” (Jo 5, 8). Grande foi a surpresa dos que assistiram à cena e à alegria do miraculado. Porém, a perversidade e inveja dos fariseus foram maiores. Falsamente ciosos do cumprimento da Lei, acusaram o Mestre de a estar violando, pois esse dia era sábado.

Deram-Lhe, assim, excelente ocasião de manifestar sua filiação divina. Jesus, para refutar a argumentação farisaica, respondeu: “as obras que meu Pai Me deu para executar – essas mesmas obras que faço – testemunham a meu respeito que o Pai Me enviou. E o Pai que Me enviou, Ele mesmo deu testemunho de Mim” (Jo 5, 36-37). Desta forma, mais uma vez, Jesus se revela a todos como Filho de Deus.

“Essa relação de Deus Pai com o Filho, São João a destaca com a denominação ‘Filho Unigênito’ (monogenê, Jo 1, 14. 18; 3, 16. 18; 1Jo 4, 9), o que indica ao menos três coisas: que é gerado pelo Pai, que é Filho Único e que é igual ao Pai, pois, por meio de Jesus, Deus se revelou como Pai. Jesus faz entender que Deus é seu Pai em sentido único, pois enfatiza a expressão ‘meu Pai’”.[3]

Diante dos Apóstolos, entretanto, essa revelação desvenda um aspecto novo. Quando Felipe pede a Jesus que lhes mostre o Pai, o Mestre o repreende suavemente: “Há tanto tempo estou convosco e não Me conheces? Quem Me viu, viu o Pai. Como é que tu dizes ‘Mostra-nos o Pai’? Não credes que estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que vos digo não as digo de Mim mesmo; mas o Pai, que permanece em Mim, é que realiza as suas próprias obras. Crede-me: estou no Pai, e o Pai em Mim. Crede-o ao menos por causa destas obras” (Jo 14, 9-11). Começa a transparecer que Ele e o Pai têm a mesma natureza divina e que são inseparáveis. “Estes testemunhos devem ser lidos e interpretados através da profunda experiência que Jesus teve de sua filiação natural do Pai e da comunhão de vida que tem com o Espírito Santo. Por isso, os textos são mudos se não se tem em conta a experiência da vida trinitária do Verbo de Deus encarnado”.[4]

Não pode também ser esquecido o trato, pervadido de ternura e confiança, de Jesus em relação a Deus Pai, quando o chama “Abbá”, o que em aramaico equivaleria ao apelativo familiar com que a criança chama a seu progenitor papai. Encontramos esse tratamento, por exemplo, no episódio do Horto das Oliveiras, prévio à Paixão: “Jesus foi um pouco mais adiante, caiu por terra e orava para que aquela hora, se fosse possível, passasse d’Ele. E dizia: Abbá, Pai, tudo é possível para Ti. Afasta de Mim este cálice! Mas seja feito não o que Eu quero, e sim o que Tu queres” (Mc 14, 35-36). Nunca antes, na história da salvação, havia-se mostrado em relação a Deus tal vínculo de afeição.  “Este é o segredo da vida íntima de Jesus: sua filiação divina. Há n’Ele, junto com sua condição divina, uma atração contínua do Pai, um desejo de estar a sós com Ele; desejo que às vezes só se pode cumprir permanecendo toda a noite em oração depois de uma jornada esgotante de atividade”.[5]

“Não deixa de ser curioso que, ademais, quando se dirige pessoalmente em oração a Deus, nunca O chame ‘Deus’, senão ‘Pai’. Usa o termo Deus quando fala d’Ele diante dos outros (cf Mt 5, 8. 9, 34; 6, 24. 30), mas não em sua oração pessoal. Só o faz na Cruz: ‘Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?’ (Mc 15, 34), mas aqui, como sabemos, está recitando o salmo 22.

“Jesus distingue sempre sua filiação da nossa. Nunca diz nosso Pai: ‘subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus’ (Jo 20, 17). Esta distinção é uma constante em Jesus (cf Mt 18, 35; 10, 32-33; Jo 8, 54-56; Mt 25, 34). Só no Pai Nosso usa a fórmula ‘nosso’, mas o faz dizendo: é assim que vós deveis rezar (cf Mt 6, 9)”.[6]

Ao declarar-se Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo também se identifica plenamente com a divindade. Não se trata de uma filiação simbólica ou por adoção como a dos outros homens por Ele justificados. De tal forma está convicto de sua divindade, que chega a condicionar a salvação à fé em sua Pessoa: “o Pai ama o Filho e entregou tudo em suas mãos. Aquele que crê no Filho tem a vida eterna. Aquele, porém, que recusa crer no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanecer sobre ele” (Jo 3, 35-36).

Dessa forma, Jesus vai revelando a sua relação filial com Deus Pai. Mostra, assim, sua dignidade de Filho Unigênito. Ele mesmo o declara na conversa noturna com Nicodemos ao dizer: “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho Único” (Jo 3, 16). Portanto, Ele tem soberania, proveniente de sua filiação divina por estar unido ao Pai que está nos Céu.

O Espírito Santo, o Consolador

No Antigo Testamento, “o Espírito de Jahvé, tem um grande papel. Dá origem à vida, como se a vida consistisse numa comunicação da vida que está em Deus (cf Gn 2, 7) […] O Espírito é uma força sensível e misteriosa, tal como a simboliza o vento”.[7] Todavia, a expressão “Espírito de Deus”, não significa, na Antiga Aliança, uma Pessoa distinta no seio da divindade. Nosso Senhor Jesus Cristo é Quem nos revelará a personalidade divina do Paráclito, cuja manifestação pública será mais manifesta na descida sobre Maria Santíssima e os Apóstolos, em Pentecostes.[8]

Mas antes disso, durante a Última Ceia, pouco antes de se dirigir ao Horto para iniciar a Paixão, Jesus promete: “Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco” (Jo 14, 16), Ele “vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14, 26).

Assustados com a hipótese da separação, os Apóstolos pedem ao Mestre que fique, mas Ele lhes responde: “convém a vós que Eu vá! Porque, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se Eu for, vo-Lo enviarei” (Jo 16, 7) e ainda lhes faz nova promessa: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão” (Jo 16, 13).

Cristo também faz a importante declaração da estreita participação do Espírito Santo em sua missão,[9] ao prometer comunicar aos Apóstolos um espírito de fortaleza: “Eu vos mandarei o Prometido de meu Pai; entretanto, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do Alto” (Lc 24, 49). Desta forma é proclamada a existência do Espírito Santo que não só está unido ao Pai, mas que também participa da missão de salvação, por um movimento interior e vivificador das almas dos fiéis, conferindo os meios sobrenaturais necessários para que atinjam os gloriosos fins da Redenção.

Continua…

Extraído de “A vida íntima de Deus Uno e Trino“.


[1] Cf Joaquim Jeremias. Abba y el mensaje central del Nuevo Testamento. Salamanca: Sígueme, 1981, p. 303-307.

[2] José Antonio Sayés. La Trinidad: Misterio de Salvación. Madrid: Palabra, 2000, p. 84-85.

[3] Aurelio Fernández. Teología Dogmática. Madrid: BAC, 2009, p. 254.

[4] Idem, p. 253.

[5] José Antonio Sayés. La Trinidad: Misterio de Salvación. Madrid: Palabra, 2000, p. 92.

[6] Idem, p. 63. Também em Aurelio Fernández. Teología Dogmática. Madrid: BAC, 2009, p. 254.

[7] Jean-Hervé Nicolás. Sintesi Dogmatica – Dalla Trinità alla Trinità. Vaticano: LEV, 1991, Vol. 1, p. 91.

[8] Ad Gentes, 7.

[9] Cf João Paulo II. Catequese sobre o Espírito Santo no Novo Testamento. In: L’Osservatore Romano, n. 23, 6 jun. 1986.

Una lectura de Jeremías 37,2

1. INTRODUCCIÓN

La destrucción de Jerusalén en el s. VI a.C. y el exilio subsiguiente a Babilonia marcan una gran línea de división en la historia de Israel. De un golpe su existencia nacional terminó, y con ella, todas las instituciones que eran la expresión de su propia vida; nunca más sería recriado de la misma forma. Con el Estado destruido y el culto suspendido, Israel se tornó un aglomerado de individuos arrancados de sus raíces y vencidos[1].

¿Cómo una nación cayó en tan terrible desgracia? Ciertamente este hecho histórico no pudo suceder de manera repentina, de un día para el otro. En el presente trabajo se intentará analizar la causa más profunda que desencadenó este acontecimiento de trascendental significado en la historia bíblica. Para eso, es necesario comenzar por analizar lo que podría llamarse “situación internacional” de la época.

2. DEL APOGEO ASIRIO A LA HEGEMONÍA BABILÓNICA

El imperio asirio, que bajo Asaradón (681-670) había alcanzado su apogeo, durante el reinado de Asurbanipal (669-627) comienza a sentir los primeros síntomas de decadencia. Con la independencia de Egipto, llevada a cabo por Psamético I en 663, fundador de la dinastía XXVI, se siguen revueltas en Fenicia y Babilonia. Después de la muerte de Asurbanipal, Asiria entrará en la etapa final de su existencia como potencia internacional.

Quien aprovecha el momento de crisis asiria es Nabopolasar, príncipe caldeo que consigue la independencia para Babilonia y su elección como rey (626-605). A partir de entonces emprende una serie de ataques contra su ex dominador, y en unión con el rey medo Ciáxares, conquistan Assur en 614 y la capital Nínive en 612, donde muere el rey Sinsariskun, hijo de Asurbanipal. El último monarca asirio, Asuruballit II, huye para Jarán, donde consigue –con la ayuda de Egipto– resistir durante tres años a los ataques de Nabopolasar. Finalmente, en 609, tras la conquista de Jarán, el imperio asirio llega a su fin.

En 605, Nabucodonosor II (605-561), hijo y sucesor del rey caldeo, se enfrenta y vence el ejército del faraón Necau II –que se oponía a la expansión babilónica– en la batalla de Karkemish. A partir de este momento Babilonia ostenta la hegemonía sobre el Próximo Oriente[2]; con ello Judá pasa a pagar tributo a su nuevo señor.

3. DESTRUCCIÓN DE JERUSALÉN

En la lucha entre Egipto y Babilonia, el pequeño reino de Judá siempre se inclinará por el país del Nilo –al contrario de lo que aconsejaba Jeremías–, trayendo como consecuencia sendas expediciones de Nabucodonosor, una de las cuales acabó asediando Jerusalén, que fue tomada, saqueada y arrasada. El último rey de Judá, Sedecías, fue apresado y cegado; el Templo destruido. Los objetos valiosos se llevaron a Babilonia juntamente con muchos judíos; sólo se dejó a los muy pobres para que cultivaran la tierra. El reino de Judá llegara a su fin: era el año 587 a.C.

Así lo relata el libro de Jeremías: 39,1 Y sucedió que fue tomada Jerusalén. El año noveno de Sedecías, rey de Judá, en el décimo mes, vino Nabucodonosor, rey de Babilonia, con todo su ejército a Jerusalén y la sitió, 2 y el año decimoprimero de Sedecías, el cuarto mes, se abrió la brecha, 3 y penetraron en la ciudad los jefes del rey de Babilonia y ocuparon la puerta del medio: Nergalsareser, Samgar-Nebo, Sarsakim, «camarero mayor»; Nergalsareser, «jefe de los magos», y todos los otros jefes del rey de Babilonia.

(…)

8 Los caldeos prendieron fuego al palacio real y a las otras casas y arrasaron las murallas de Jerusalén. 9 Al resto de los habitantes que había quedado en la ciudad, los huidos que se habían pasado a los caldeos y todo el resto del pueblo, los deportó a Babilonia Nabuzardán, jefe de la guardia*.

El hagiógrafo da la fecha precisa de este hecho tan doloroso para el pueblo judío. Al decir el décimo mes del noveno año del rey de Judá, se refiere a diciembre 589-enero 588 (incluso en el c. 52,4 está dicho el día diez del referido mes) como inicio del asedio de Jerusalén por los soldados babilonios, mientras Nabucodonosor dirigía todo desde su cuartel general instalado en Ribla, en la Alta Siria. El comandante de las tropas en Jerusalén era Nabuzardán. Según el v. 2, el cerco duró un año y medio –con una breve interrupción debido a la aproximación de un ejército egipcio–, lo que indica que los caldeos entraron en la ciudad en junio-julio del 587 a.C.[3]

La Biblia nos dice que algunos judíos huyeron a Egipto (Jr c. 42-44); un grupo permaneció en Jerusalén (39,10) y un gran número de habitantes fue deportado para Babilonia (39,9). “Sobre las rutas de la Media Luna fértil caminaba de nuevo el pueblo de la Promesa, como en los días de Abraham, pero no ya con fe y esperanza, sino con miseria y abatimiento”[4].

4. CAUSAS DE LA CATÁSTROFE

¿Cómo los habitantes de Judá se precipitaron rumbo a su propia ruina? ¿Cuál fue la verdadera causa de tanta desgracia?

Durante el reinado de Sedecías, Jeremías siempre desaconsejó la alianza con Egipto, mostrando que era voluntad divina que Judá cayera en poder de los caldeos, en consecuencia de tantos pecados cometidos. En un primer momento el rey siguió los consejos del profeta; sin embargo, y probablemente instigado por el faraón Hofra, a finales de 589 Sedecías comete un error irreversible: decide rebelarse contra Babilonia.

Pero es el pasaje 37,2 del libro de Jeremías que nos apunta con claridad la causa más profunda de la caída de Jerusalén: “Y no obedecieron él [Sedecías], sus siervos y el pueblo de la tierra a las palabras que había hablado Yahvé por medio de Jeremías, profeta”. La afirmación “no obedecieron” es muy importante pues permite percibir la verdadera causa de tanta decadencia y la subsiguiente caída de Jerusalén. El término usado en el texto hebreo[5] es [m;v’ shama, del verbo “escuchar”. Así, el inicio del versículo podría haber sido traducido como: “Y no escucharon Sedecías y sus siervos…”, esto es, no quisieron oír las palabras del profeta.

San Jerónimo, sin embargo, opta en la Vulgata por la expresión latina non obœdivit” (no obedecieron) que se mantiene en la mayor parte de las traducciones actuales.

Es interesante notar que no existe oposición al traducir “no escucharon” o “no obedecieron”, puesto que el verbo “escuchar” en hebreo tiene un sentido amplio. No se trata apenas de prestar atención, sino también de abrir el corazón, poner en práctica, obedecer[6]. Es necesario cambiar de actitudes; adaptarse a la voluntad divina. ¿De qué sirve seguir las propias inclinaciones si no es eso lo que Dios quiere  para cada uno?

Si hubieran hecho caso de las palabras de Jeremías el castigo podría evitarse; pero no quisieron: “La frase última [37,2] nos remite a la vocación de Jeremías, que con la palabra recibe poder «sobre reyes». Pudo ser poder para «edificar», la catástrofe fue evitable; al no escuchar, el pueblo provocó el poder «para arrancar»”[7].

Jeremías siempre desaconsejó la alianza con Egipto. No es una actitud derrotista, ni mucho menos traidora; es realista[8]. Las palabras del profeta entran en choque con las actitudes del rey y del pueblo. Jeremías, por inspiración divina, predicaba la sumisión a los babilonios, pues Dios había decidido entregar Jerusalén a Nabucodonosor. Esto era algo muy duro para el pueblo, porque significaba renunciar a su independencia; pero esa es la voluntad de Dios.

No cabe duda que la predicación de Jeremías trajo como consecuencia que algunos de sus contemporáneos lo acusaran de estar vendiéndose al oro de Babilonia. Pero Jeremías era más sensato que los políticos de su tiempo; y no se guiaba apenas por su sensatez, sino que, y sobre todo, era el cumplimiento de la voluntad divina lo que interesaba al profeta[9]. Y es precisamente este punto que los contemporáneos de Jeremías no comprendieron. A pesar del peligro inminente, el profeta no es escuchado; sus palabras no encuentran acogida entre sus conciudadanos. Esta es la verdadera consecuencia de la catástrofe.

 

5. CONCLUSIONES

Al finalizar este breve estudio, todo lleva a concluir que fue la desobediencia de los dirigentes del pueblo judío a las palabras del profeta Jeremías la causa principal de la desgracia nacional. De este hecho puede hacerse una aplicación para la actualidad ¿Cuántos son los que están dispuestos a escuchar la voz de Dios y a obedecerle?

Dios había suscitado el profeta de Anatot para advertir al pueblo judío el mal camino que estaba tomando y cuales serían las consecuencias caso no hubiese arrepentimiento; mas el pueblo no quiso escucharlo.

“Por medio de hombres y al modo humano Dios nos habla, porque hablando así nos busca” (San Agustín)[10]. Así como en el AT Dios habló a su pueblo por medio de hombres, es enteramente posible que a la humanidad actual Él también se manifieste a través de personas. Y no sólo de esa forma; puede ser por medio de señales, acontecimientos, etc. Por eso es importante procurar saber cuál es la voluntad divina; qué es lo que Dios quiere para cada uno y colocarlo en práctica.

Sin embargo, es necesario tener presente como fondo de cuadro la perspectiva de que Dios quiere “que todos los hombres se salven y lleguen al conocimiento de la verdad” (1Tim 2,4). Por tanto, si Él castiga, no lo hace para condenar, sino para corregir; lo punitivo siempre tiene un designio de salvación, pues la justicia y la gracia divinas no son opuestas, sino que una complementa a la otra[11]. Así lo pide el propio Jeremías: “Corrígeme, Yahvé, pero conforme a juicio, no con ira, no sea que me aniquiles” (10,24).

Alejandro Javier de Saint Amant

BIBLIOGRAFÍA

BIBLIA HEBRAICA STUTTGARTENSIA. 5ª ed. Stuttgart, 1997. 1574 p.

BRIGHT, John. História de Israel. 7.ed., San Pablo, Brasil: Editora Paulus, 2003. 621 p.

GARCÍA CORDERO, Maximiliano,  Biblia Comentada. Profesores de Salamanca. Vol. III, 2.ed. Madrid: BAC, 1967. 1348 p.

____________ Teología de la Biblia. Vol. I, Antiguo Testamento. Madrid: BAC, 1970. 748 p.

LÉON-DUFOUR, Xavier. Vocabulario de Teología Bíblica. Barcelona: Editora Herder, 1965. 871 p.

NOËL, Damien. En tiempo de los imperios. En: Cuadernos bíblicos nº 121. Navarra: Editora Verbo Divino, 2004. 65 p.

ROPS, Daniel. Historia Sagrada. Barcelona: Editor Luis de Caralt, 1955. 338 p.

SAGRADA BIBLIA. Versión de Nácar-Colunga, 55.ed. Madrid: BAC, 2001. 1642 p.

SCHÖKEL, L. Alonso y SICRE, J. L. Profetas. Vol. I. 2.ed. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1987. 1373 p.

VÁZQUEZ ALLEGUE, Jaime. Diccionario Bíblico hebreo – español. Navarra: Editorial Verbo Divino, 2002. 342 p.


[1] BRIGHT, John. História de Israel, 7ª ed., Editora Paulus, San Pablo, Brasil, 2003, p. 411.

[2] Cf. COUTURIER, Guy P.  Jeremías. En: Comentario Bíblico “San Jerónimo”, tomo I. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1971. p. 791-792.

* Los textos bíblicos utilizados en este trabajo fueron extraídos —con pequeñas adaptaciones— de la versión española Nácar-Colunga, 55.ed. BAC, 2001.

[3] GARCÍA CORDERO, Maximiliano. Biblia Comentada. Profesores de Salamanca, Vol. III, 2.ed. Madrid: BAC, 1967, p. 633.

[4] ROPS, Daniel. Historia Sagrada. Barcelona: Editor Luis de Caralt, 1955, p. 229.

[5] Biblia Hebraica Stuttgartensia. 5ª ed. Stuttgart, 1997. p. 858.

[6] Léon-Dufour, Xavier. Vocabulario de teología bíblica. Barcelona: Editora Herder, 1965. p. 250.

[7]  SCHÖKEL, L. Alonso y SICRE, J. L. Profetas, Vol. I. 2ª ed. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1987, p. 588.

[8] NOËL, Damien. En tiempo de los imperios. En: Cuadernos bíblicos, nº 121. Navarra: Editora Verbo Divino, 2004, p. 15.

[9] SCHÖKEL y SICRE, Op. Cit., p. 410.

[10] Citado por SCHÖKEL y SICRE, Op. Cit., p. 17.

[11] GARCÍA CORDERO, Maximiliano, O.P. Teología de la Biblia, vol I, AT. Madrid: BAC, 1970, p. 250.

La exégesis de Orígenes: comentarios al Cantar de los cantares (1,2)

Introducción

Por su creatividad teológica y cultural, los primeros siglos de la era cristiana constituyeron un periodo decisivo para el Cristianismo. Entre las varias figuras de esa época, se destaca Orígenes de Alejandría (185-253). Fundador de la crítica al texto bíblico, profundo conocedor de la literatura y la filosofía, hombre de iglesia y predicador, Orígenes se expresó en esos ámbitos dejando duraderas marcas en el Cristianismo de su época y hasta los días de hoy. En esos dieciocho siglos de historia, ciertamente no se puede negar la grandeza del genio de Orígenes y la profundidad de su influencia. Solamente puede comparárselo a Agustín y Tomás de Aquino, continuando a ser el mayor de los teólogos que la Iglesia de Oriente produjo.

Orígenes

1. La eclesiología de Orígenes

La eclesiología de Orígenes es un tema que atraviesa los siglos y continúa actual. Él habla de Iglesias, comunidades concretas presentes en el mundo, estructuradas según las diversas funciones de sus miembros en relación de comunión entre sí. El punto de partida para Orígenes construir su eclesiología es el término Iglesia en singular, que expresa una realidad universal que trasciende las Iglesias particulares.

Entre los varios temas sobre la Iglesia, en Orígenes, uno de los que gana más relevo es ciertamente el de la Iglesia-esposa, y ese tema está en la base de su interpretación del Cantar de los cantares[1]. En la interpretación de ese canto de amor, Orígenes pudo aplicar sus principios hermenéuticos de modo particularmente acertado. Representó una novedad para su tiempo. El Cantar de los cantares exige por sí sólo, en sentido cristiano, una interpretación alegórica de la cual Orígenes supo utilizar con maestría.

Aquí, la esposa es mucho más que una mujer, es la definición misma de la Iglesia. Ella es como la luna iluminada por Cristo que es el sol; sol y luna iluminan el mundo. La Iglesia es reflejo de la luz de Cristo, porque se encuentra entre Él y el mundo; este último representado por aquellos que no están en condiciones de iluminar a otros. Así, la iglesia es medianera de la luz.

De la unión de la Iglesia con Cristo, Orígenes traza el paralelo de la unión del justo con el Señor, con vistas a tornarse una sola cosa. Esa unión no significa la pérdida de identidad personal, mas solamente del aspecto terreno y material, siendo conservados y potencializados los aspectos espirituales.

2. Los esposos en el Cantar de los Cantares

En el prólogo Orígenes comenta que el Cantar de los cantares fue entendido por los judíos como expresión del amor entre Yahvé e Israel; dentro del ambiente cristiano, los esposos pasan a ser Cristo y la Iglesia. El tema desposorio no consiste solamente en el Cristo que busca a la esposa, mas también la esposa que desea y espera a Cristo; y toda la historia, desde Adán en adelante, no es sino una preparación para ese encuentro.

“¡Que me bese con besos de su boca!” (Ct 1,2). Orígenes hace una interpretación histórica de este versículo, en que la esposa recibió regalos dignísimos de su esposo, y en la espera de él, que demora bastante tiempo, ella se siente atormentada por el deseo de su amor. En su interpretación espiritual, Orígenes habla de la Iglesia que está ansiosa de unirse a Cristo y dirige su oración al Señor, el padre de su esposo.

Pero, como quiera que el mundo está ya casi acabado y él no me hace don de su presencia, y en cambio estoy viendo sólo a sus servidores que suben y bajan hasta mi, por eso lanzo mi oración a ti, Padre de mi esposo, y te conjuro a que tengas compasión de mi amor y al fin me lo envíes, para que no me hable ya más por medio de sus servidores, los ángeles y los profetas, sino que él mismo venga en persona y me bese con los besos de su boca, es decir, infunda en mi boca las palabras de su boca y yo le oiga hablar a él personalmente y le vea enseñar.

La interpretación espiritual es articulada en dos propuestas: una tradicional o comunitaria, en que los esposos simbolizan Cristo y la Iglesia; la otra, psicológica o individual, en que el esposo continúa siendo Cristo, mas la esposa es el alma del creyente.

Los besos, según Orígenes, que Cristo ofreció a la Iglesia cuando vino en su naturaleza humana, fueron las palabras que Él ya había prometido a través de los profetas.

Estos son, realmente, los besos que Cristo ofreció a la Iglesia cuando en su venida, presente en la carne, le anunció palabras de fe, de amor y de paz, según había prometido y había dicho Isaías cuando fue enviado por delante a la esposa: no un embajador ni un ángel, sino el Señor mismo nos salvará (33,22).

En una perspectiva individual, es el alma con un único deseo: unirse estrechamente al Verbo de Dios y penetrar en los misterios de su sabiduría. Pero mientras no sea capaz por sí sola de entender la doctrina del Verbo, tendrá que recibir los besos de la boca de sus maestros. Sólo cuando consiga ella misma entender y desvendar los misterios y enigmas, recibirá los besos del proprio esposo; esto es, de Cristo.

3. Conclusión

El tema de la Iglesia-esposa en el comentario de Orígenes al Cantar de los cantares es de mucha utilidad para aquellos que se aproximan del texto sagrado en la tentativa de una nueva comprensión o relectura actualizada del mismo. El alma fiel es la esposa de Cristo porque hace parte de la Iglesia-esposa; y la Iglesia es tanto más esposa cuanto más el alma se comporta como esposa por la perfección de su vida cristiana.

“Porque tanto amó Dios al mundo que dio a su Hijo único, para que todo el que crea en él no perezca, sino que tenga vida eterna” (Jn 3,16). En esta perspectiva se explica el amor de Cristo por su Iglesia y por cada uno de los llamados a formar parte de ella. Cristo amó a su Iglesia y se entregó por ella (Ef 5,25); la adquirió con su sangre (Hch 20,28). Y lo mismo hizo en relación a cada uno de los cristianos (Gál 2,20). Quien experimentó en sí mismo este amor de esposo de Dios por medio de su Hijo, siente un profundo respeto ante el misterio de cada hombre. La llamada definitiva a las bodas ya resonó en nuestros corazones. El beso amoroso de Dios se hace más sensible y profundo por medio de Cristo.

Alejandro Javier de Saint Amant


Autenticidade do Evangelho de São Marcos

I – São Marcos

A palavra “Evangelho” vem do grego “evangélion”, que significa “Boa Nova”. A Igreja reconhece oficialmente quatro narrações do Evangelho, ou seja quatro são os Evangelhos Canônicos: os de São Mateus, São Marcos, São Lucas (chamados “sinóticos” pois podem ser lidos em sinopse, ou em três colunas paralelas), e o de São João (assaz diferente).

Há também outros escritos chamados apócrifos, mas que não são reconhecidos pela Igreja como inspirados pelo Espírito Santo. Se comparamos estes com os canônicos veremos que diferem, pois são exuberantes, tendem a mostrar um “Jesus maravilhoso”, ao passo que os reconhecidos pelo Magistério são muito sóbrios, não precisam “ornamentar” a figura de Nosso Senhor, pois seus autores os sabem aceitos por seus leitores.[1]

São Marcos não foi um dos doze apóstolos, mas discípulo destes, em especial, São Pedro.

É o segundo, e o mais breve dos Evangelhos sinóticos, conta com 673 versículos, enquanto que São Mateus 1068 e São Lucas 1149.

Durante muito tempo ele foi um dos evangelistas menos comentados, porém aos poucos chamou a atenção pelo fato de que se julgou ser ele o mais fiel narrador. Seu estilo de escrever é o mais simples dentre os evangelistas. [2]

Sabe-se que seu Evangelho é destinado não para os judeus, mas para os pagãos convertidos ao Cristianismo.

Talvez por ter sido batizado por São Pedro, e por tê-lo seguido em diversas viagens, este ocupa um lugar saliente em seu evangelho.[3]

Porém muitas vezes esta “saliência” não é muito favorável ao primeiro Papa, e aqui encontramos uma primeira prova da veracidade de seus escritos. Pois, com efeito, se São Marcos quisesse inventar um mero mito, ou um conto, o lógico é que o faria de modo a ressaltar-se, a si e ao que lhe diz respeito… como o faz geralmente os falsários, para que assim seja aceito e venerado por seus adeptos, e que escondesse tudo o que lhe possa prejudicar. Entretanto não é assim, pois apesar de ser ele discípulo de São Pedro, ressalta as faltas deste (Mc.: 8, 32; 14, 66-72; ). Como se não bastasse ressaltar as deficiências, ele vela os méritos, assim vemos que, por exemplo a promessa do primado de São Pedro, por ele não é narrada.

II- Provas históricas de seus escritos

Encontramos testemunhos de vários autores antigos a respeito da autenticidade dos escritos de São Marcos.

Com efeito, num fragmento de Papias (bispo de Hierápolis, Padre da Igreja e discípulo de São João Evangelista) em Eusébio, (História Eclesiástica, 3, 39, 15) o ancião, isto é São João Evangelista se manifestou sobre o segundo evangelho: “Marcos, o intérprete de Pedro, escreveu exatamente tudo o que se recordava, os ditos e fatos do Senhor, mas não conforme a ordem. Na verdade ele não tinha ouvido o Senhor nem tinha sido seu discípulo e sim mais tarde acompanhara a Pedro. Este subministrava os seus ensinamentos de acordo com as necessidades dos ouvintes sem pôr em ordem os ditos do Senhor. Assim Marcos não errou em escrever certas coisas do modo como se recordava, com o cuidado de nada omitir e de nada falsificar do que tinha ouvido.” Como vemos é um testemunho de um outro apóstolo e evangelista acerca de que São Marcos foi o autor dum Evangelho.[4]

Vale também recordar que em 1947 foram descobertos, por um beduíno que procurava por sua ovelha desgarrada em Qumran (Palestina) os Manuscritos do Mar Morto. Estes manuscritos foram estudados pelo famoso papirólogo Pe. José O’Callaghan SJ, que chegou à conclusão, a partir de um dos minúsculos fragmentos achados, que continha apenas 6 palavras, datado de aproximadamente 50 d. C., que se tratava do texto de Mc. 6, 52, conclusão esta que também foi aceita por vários outros estudiosos.

A partir deste documento tão antigo fica descartada a hipótese de que este Evangelho tenha sido inventado posteriormente, e ainda o situa de acordo com a tradição Cristã, ou seja, de que o autor realmente é São Marcos que viveu no século I d. C.

Outro argumento a favor da autenticidade dos Evangelhos (de São Marcos e dos demais) é que neles a topografia da Palestina é pelos evangelistas minuciosamente mencionada, assim como a cronologia que é assaz exata, e até mesmo citações de alguns nomes de personagens que realmente existiram e que nos ajudam a definir o contexto: César Augusto (Lc 2, 1); Tibério César, Pôncio Pilatos, Herodes, Filipe, Lisânias… (Lc 3, 1s).[5]

Também não se pode dizer que são mitos e nem que são inventados pois de acordo com o contexto histórico, quem fosse inventar uma fábula para atrair aos “desavisados” certamente não o faria como o fizeram os evangelistas cujos traços são desafiadores e exigentes para a mente humana daquela época: a mensagem de um Deus feito homem e, mais… um Deus que foi crucificado (recordemos que para os Romanos bem como os para gregos, nações dominantes de então, os deuses eram uns “super-heróis” tiranos e que quase não se importavam com os homens), sendo assim escândalo para os judeus e loucura para os gregos (1Cor 1, 23 ). A promessa da Ressurreição ou de re-união da alma com o corpo era contrária ao pensamento grego. Além do mais, a moral cristã, que valorizava a mulher, a criança (mesmo indesejada), a família, o escravo, a estrita monogamia… só poderia encontrar oposições por parte do mundo civilizado.[6]

Donde constatamos que a mensagem do Evangelho é de origem Divina e não pode ter sido produto de ficcionismo de judeus ou de pagãos da antigüidade.

III- Doutrina do Magistério da Igreja

Após termos visto a parte histórica resta-nos conferirmos com a fonte infalível, o Magistério da Santa Igreja Católica.

1) Quanto à autoria da São Marcos.

Diz-nos São Pio X numa “Resposta da Comissão Bíblica, 25 jun. 1912”:

Pergunta 1: A voz claríssima da tradição, maravilhosamente unânime desde os inícios da Igreja e confirmada por múltiplos argumentos, a saber, pelos testemunhos expressos dos Santos Padres e dos autores eclesiásticos, pelas citações e alusões presentes nos escritos dos mesmos, pelo uso dos antigos hereges, pelas versões dos livros do Novo Testamento, por quase todos os códices manuscritos mais antigos e também por razões internas tiradas do próprio texto dos Livros Sagrados, obriga a afirmar com certeza que Marcos, discípulo e intérprete de Pedro, e Lucas, médico, auxiliar e companheiro de Paulo, são realmente os autores dos Evangelhos que respectivamente lhes são atribuídos

Resposta: Sim” (Dz 3568).

2) Quanto à inspiração Divina.

A Igreja reconhece alguns livros como sendo canônicos e declara que são inspirados por Deus: “ é esta a antiga e constante fé da Igreja, definida também por sentença solene nos Concílios de Florença e de Trento e, por fim, confirmada e mais expressamente declarada no Concílio Vaticano, que promulgou sem restrição: “Os livros da Antigo e do Novo Testamento… têm Deus por autor” (Dz 3293).

E ainda “as coisas divinamente reveladas que se encerram por escrito na Sagrada Escritura e nesta se nos oferecem foram consignadas sob o sopro do Espírito Santo. Pois a Santa Mãe Igreja, segundo a fé apostólica, têm como sagrados e canônicos os livros completos tanto do Antigo como do Novo Testamento, com todas as suas partes, porque, escritos sob a inspiração do Espírito Santo, têm Deus por autor e foram como tais transmitido à Igreja. Na redação dos livros sagrados Deus escolheu pessoas humanas, das quais se utilizou sem tirar-lhes o uso das próprias capacidades e faculdades, a fim de que, agindo Ele próprio neles e por eles, transmitissem por escrito, como verdadeiros autores, tudo e só aquilo que ele próprio quisesse” (Dz 4215).

Como vemos Deus se utilizou (como Ele costuma fazer) de criaturas para propagarem e difundirem seus ensinamentos dados aqui na terra, por Nosso Senhor, respeitando entretanto as características próprias a cada um, de modo que podemos, estudando os Evangelhos perceber o estilo pessoal de cada escritor.

Por Diác. Michel Six, EP


[1] Esta introdução foi baseada no texto da: Escola MATER ECCLESIAE, de Dom Estêvão Bettencourt.

[2] Cf. MONLOUBOU, L.; BUIT, F. M. du. Dicionário biblico universal. 2. ed. São Paulo: Vozes / Santuário, 2003.

[3] Cf. Mc.: 1, 29-31; 5, 37; 9, 2; 11, 21; 14, 33; 13, 3; 16, 7, etc…

[4] Cf. HOEPERS, Mateus, Pe, Dr, Frei. Os santos evangelhos. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1963.

[5] Curso Bíblico por correspondência, Escola Mater Ecclesiae, Dom Estevão Bettencourt.

[6] Curso Bíblico por correspondência, Escola Mater Ecclesiae, Dom Estevão Bettencourt.

A Serpente de Bronze: figura de Cristo na Cruz

Como sabemos toda a Obra da Criação espelha ao seu Criador: Deus. Assim, temos, por exemplo, o homem: criado à imagem e semelhança Dele (Gn. 26-27). Ora dentro do gênero humano, sabemos que a criatura mais perfeita é Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Ele é a plenitude da Revelação, cuja uma das fontes são as Sagradas Escrituras: a Santa Bíblia. Logo também é Ele o centro da Bíblia, tanto do Antigo como do Novo Testamento.

             O Antigo Testamento contempla a figura do Messias como sendo “O esperado das Nações”, e o Novo como sendo o Modelo a ser seguido, mas os dois têm-No como seu centro. Entretanto, se nos Evangelhos é a própria vida e doutrina do Messias que nos é narrada, nos livros do Antigo Testamento há vários indícios sobre o Messias. Há não só o anuncio dos Profetas: as profecias, mas há também, e de modo superabundante, as prefiguras: analogias do Esperado das Nações, do Salvador; e é justamente sobre este último ponto que trataremos: as prefiguras.

             Inúmeras são elas nos livros do Antigo Testamento, para escolher apenas uma dentre tantas teríamos um verdadeiro embarras des choix, embaraço da escolha. Optamos por uma bastante eloquente: “a Serpente de Bronze do cajado de Moisés” (Num. 21, 4-9).

            Um dos aspectos que mais nos chocam lendo sobre o êxodo do Povo Hebreu é a dureza de coração destes aos quais Deus havia escolhido, entre outros, como a Nação Santa para que Ele se revelasse. Constante eram as revoltas do povo, e com o intuito de fazê-los voltar à razão Deus lhes enviava provas, nas quais Ele lhes mostrava divinamente a sua onipotência.

            Assim nos deparamos com o povo que tendo partido do monte Hor, ia em direção ao Mar Vermelho, rodeando a terra de Edom. Nesta etapa Israel indócil murmurou contra o Senhor Deus e contra Moisés: “Por que, diziam eles, nos tirastes do Egito, para morrermos no deserto onde não há pão nem água? Estamos enfastiados deste miserável alimento” (Num. 21, 5). Então: “o Senhor enviou contra o povo serpentes ardentes, que morderam e mataram muitos. O povo veio a Moisés e disse-lhe: ‘pecamos, murmurando contra o Senhor e contra ti. Roga ao Senhor que afaste de nós estas serpentes.’ Moisés intercedeu pelo povo, e o Senhor disse a Moisés: ‘Faze para ti uma serpente ardente e mete-a sobre um poste. Todo o que for mordido, olhando para ela, será salvo.’ Moisés fez, pois, uma serpente de bronze, e fixou-a sobre um poste. Se alguém era mordido por uma serpente olhava para a serpente de bronze, conservava a vida” (Num. 21, 6-9).

            Um primeiro ponto digno de nota é o percurso seguido pelo povo. De fato, se voltarmos um pouco atrás na história constataremos que os israelitas acabavam de explorar a Terra Prometida. Vimos que ao cabo da exploração, devido ao pérfido relato dos exploradores eles se revoltaram contra Deus e Moisés. Como castigo Deus diz que esta geração não entraria na Terra Prometida, mas sim seus filhos, e que cada dia de exploração, 40, corresponderia a um ano de marcha no deserto (Num. 14, 26-35). Assim, o povo desce novamente em direção ao deserto, pedindo passagem ao rei de Edom, que lhes recusa, obrigando-os a fazer um desvio: “rodeando a terra de Edom”. É por causa deste desvio que Israel entra por este caminho onde a paisagem é especialmente agressiva aos viajantes, e onde eles são atacados pelas serpentes, por causa da revolta, como nos mostra FILLION:

“Eles tiveram de descer algumas léguas até o norte de “Edongazer”, no lugar onde o “ouadi El-Ithm” abre uma passagem pelas montanhas; eles subiram em seguida em direção ao norte beirando a Arábia deserta. A sede, o cansaço da marcha sobre a areia movediça e cascalho do deserto da Arábia, o calor estorricante que se sente nesta garganta terrível, fechada de um lado pelos rochedos de calcário de “Et-Tih”, de outro pelo maciço granítico dos montes idumeus, excitaram logo o descontentamento do povo […]. Eles ousam falar nestes termos desdenhosos (cibo levíssimo; hebreu: q‘lôqel, comum vil) do maná celeste. (tradução minha).”[1]

             Já nesta situação constatamos a semelhança com a cruz de Nosso Senhor. Pois de fato os judeus, por causa da revolta, não entraram na terra prometida, e ainda tiveram de fazer um grande desvio que os levou a esta paragem agreste. Aí eles se revoltaram novamente e Deus lhes enviou as serpentes. Tendo o povo se arrependido Deus ordena a Moisés que coloque uma Serpente de bronze sobre seu bastão. Vemos aí uma semelhança com a humanidade que pecando, na pessoa de Adão, com o pecado original = revolta pelos relatos dos exploradores; foi expulsa do Paraíso = Terra Prometida, indo parar neste vale de lágrimas; nesta terra de exílio = deserto, paragem árida e agressiva. Mesmo assim o homem se revolta novamente com os pecados atuais = a segunda revolta no deserto da Arábia. E Deus o livra da escravidão ao pecado, que é de si um tormento para o homem = picadas das serpentes. Mas Deus cumpre sua promessa e nos envia um Salvador que culmina sua Obra Redentora no alto da Cruz, salvando do pecado os que O aceitam e olham para Ele pendente na Cruz = Deus que manda Moisés colocar uma serpente de bronze no seu cajado, curando todos quanto para ela olhem.

             O fato de que a Serpente de Bronze do cajado de Moisés é uma prefigura de Cristo na Cruz é indiscutível, uma vez que ele nos é atestado pelo próprio Messias em sua conversa noturna com Nicodemos: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do homem, para que todo homem que nele crer tenha a vida eterna” (Jo. 3, 14-15).

            Sobre esta prefigura nos explica MAISTRE:

“Jesus Cristo mesmo nos explicou esta figura. Ele nos ensinou que ela significava sua futura elevação na cruz: Todos aqueles que estão feridos de morte pelo pecado que entrou no mundo como uma serpente, seja pelo pecado original, seja pelo pecado atual, serão curados e regenerados para a vida pela fé no Filho de Deus elevado na Cruz (tradução minha).”[2]

             Como dissemos no início, o Antigo Testamento nos traduz a espera do Messias pelos Hebreus, e dele tiramos várias fontes que se referem a Nosso Senhor, o Ungido, o Esperado. Por isso podemos ver no livro da Sabedoria uma referência de Jesus, uma correlação com a prefigura em questão: o salvador de todos, que do alto da Cruz operou a cura de nossos pecados: “Efetivamente quando o cruel furor dos animais os atingiu também, e quando pereceram com a mordedura de sinuosas serpentes, vossa cólera não durou até o fim. Foram por pouco tempo atormentados, para sua correção: eles possuíram um sinal de salvação que lhes lembrava o preceito de vossa lei. E quem se voltava para ele era salvo, não em vista do objeto que olhava, mas por vós, Senhor, que sois o Salvador de todos” (16, 5-7).

            Explica-nos MAISTRE os vários detalhes, paralelos, entre Nosso Senhor na Cruz e a Serpente elevada no cajado de Moisés:

“As picadas feitas pelas serpentes ardentes eram os castigos que Deus havia enviado contra os Hebreus em punição de seus crimes. Uma morte cruel era o castigo do pecado.

A sujeição aos demônios que são as verdadeiras serpentes ardentes, a pena do fogo eterno e da morte eterna, deveria ser a recompensa do pecado dos homens. Os pecados são também, eles mesmos, as serpentes que envenenam os homens e os fazem morrer pelas feridas ardentes.

A Serpente de bronze se parecia com as serpentes más, com exceção do veneno que ela não tinha.

Jesus Cristo tomou o exterior de uma carne semelhante àquela que é criminosa, mas sem tomar o veneno. Ele tinha uma carne semelhante à carne do pecado, mas ele era sem pecado. (Heb. 4, 14) e Ele era Vítima pelo pecado.

A serpente, erigida por Moisés, como um sinal, é elevada ao ar à vista de todo o povo, a fim de que os Hebreus a vejam, se lembrem de seus pecados e das feridas causadas pelos seus pecados, que eles recorram desde logo à misericórdia de Deus e que eles sejam assim curados.

Jesus Cristo, que, também Ele, era um sinal (Luc. 2, 14), um estandarte para os povos (Is. 11, 10), foi também elevado ao ar e suspenso sobre o madeiro; de todas as partes podemos vê-lo sobre este madeiro elevado, que Ele escolheu para se mostrar à toda a terra. Os olhos dos fiéis, feridos pelo pecado, se voltam para Ele como para o autor e consumador de sua fé; vendo que estão curados. Crendo nele eles são salvos. Confiando-se no mérito de sua morte, eles são libertos da morte eterna (tradução minha).” [3]

            Deste modo vemos como a serpente ardente é prefigura de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas é de se notar que não é uma simples serpente que é a prefigura do Messias, pois a serpente de si é figura do pecado, do mal. Ele quis que uma serpente posta no cimo de um cajado fosse sua prefigura; nisto vemos uma alusão claríssima de Cristo crucificado, que do alto de sua Cruz operou a salvação do mundo, resgatando do estado de maldição a todos aqueles que, feridos pelo pecado, olhassem para ele, com confiança, tendo a certeza de sua remissão.

             A título de curiosidade histórica não resistimos em colocar no fim deste trabalho o fim que teve a Serpente de Moisés. De fato, contam-nos COLUNGA e CORDERO:

“Os israelitas, no tempo de Ezequias, prestavam culto a uma serpente de bronze chamada Nehustã (de nehóset, bronze), e a consideravam como sendo a utilizada por Moisés para curar os israelitas. O piedoso rei fê-la despedaçar para evitar os abusos idolátricos (tradução minha).”[4]

             Este fato da destruição da serpente de Moisés nos é também relatado no segundo livro dos Reis (2 Reis 18, 1, 3-4):

No terceiro ano do reinado de Oséias, filho de Ela, rei de Israel, Ezequias, filho de Acaz, rei de Judá, começou a reinar. Fez o que é bom aos olhos do Senhor, como Davi, seu pai. Destruiu os lugares altos, quebrou as estelas e cortou os ídolos de pau, Asserás. Despedaçou a serpente de bronze que Moisés tinha feito, porque os israelitas tinham até então queimado incenso diante dela. (Chamavam-na Nehustã).”

Por Diác. Michel Six

Bibliografia

Bíblia Sagrada. 142ª ed. São Paulo: Ave Maria, 2001.

-COLUNGA, Albreto, O.P.; CORDERO, Maximiliano Gracia, O.P. Biblia Comentada. Vol. I. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1960.

-FILLION, L.-Cl. Sainte Bible commenté d’après la Vulgate et les textes originaux a l’usage des Séminaires et du Clergé. Vol. I. 9ª ed. Paris: Librairie Letouzey et Ané, 1928.

-MAISTRE, Abbé. Grande Christologie, Le Livre des Figures Prophétiques. Paris: F. Wattelier et Cie, Libraires, 1873.


[1] Ils durent descendre jusqu’à quelques lieues au nord d’Eziongaber, à l’endroit où l’ouadi El-Ithm ouvre un passage à travers les montagnes ; ils remontèrent ensuite vers le nord en longeant l’Arabie déserte. La soif, la fatigue de la marche sur le sable mouvant et sur le gravier de l’Arabah, la chaleur brûlante qu’on ressent dans cette gorge affreuse, fermée d’un côté par les rochers calcaires d’Et-Tih, de l’autre par le massif granitique des monts iduméens, excitèrent bientôt le mécontentement du peuple […]. Ils osent parler en ces termes dédaigneux (cibo levissimo ; hébr. : q‘lôqel, comum, vil) de la manne céleste.

6-7ª. Punition et repentir. La presqu’île sinaïtique, et tout partuculièrement dans l’Arabah abonde en reptiles très venimeux, d’espèces multiples. (1928, p. 500-501).

[2]  Jésus-Christ lui-même nous a expliqué cette figure. Il nous a enseigné qu’elle marquait sa future élévation en croix : Tous ceux qui sont blessés à mort par le péché qui est entré dans le monde comme un serpent, soit par le péché originel, soit par le péché actuel, seront guéris et régénérés à la vie par la foi au fils de Dieu élevé sur la croix (1873, p. 199).

[3] Les morsures faites par les serpents brûlants étaient le fléau que Dieu avait envoyé contre les Hébreux en punition de leurs crimes. Une mort cruelle était le châtiment du péché.

L’assujetissement aux démons qui sont de vrais serpents enflammés, la peine du feu éternel et de la mort éternelle, devaient être la réconpense du péché des hommes. Les péchés sont aussi eux-mêmes des serpents qui empoisonnent les hommes et les font mourrir par des blessures brûlantes.

Le Serpent d’airain ressemblait aux serpents malfaisants, à l’exception de leur venin qu’il n’avait pas.

Jésus-Christ a pris l’extérieur d’une chair semblable à celle qui est criminelle, mais sans en prendre le venin. Il avait une chair semblable à la chair du péché, mais il était sans péché, (Hebr. IV, 15) et il était victime pour le péché.

Le Serpent, érigé par Moïse, comme un signe, est élevé en l’air à la vue de tout le peuple, afin que les Hébreux le voient, se souviennent de leurs péchés et des plaies causées par leurs péchés, qu’ils recourent dès-lors à la miséricorde de Dieu et qu’ils soient ainsi guéris.

Jésus-Christ, qui, lui aussi, était un signe (S. Luc, II, 14), un étendard pour les peuples (Is. XI, 10), a été de même élevé en l’air et suspendu sur le bois ; de toutes parts on peut le voit sur ce bois élevé, qu’il a choisi pour se montrer à toute la terre. Les yeux des fidèles, blessés par le péché, se tournent vers lui comme vers l’auteur et le consommateur de loi foi ; en le voyant ils sont guéris. En croyant en lui ils sont sauvés. En se confiant dans le mérite de sa mort, ils sont délivrés de la mort éternelle (1873, p. 200-201).

[4] Los israelitas, en tiempo de Ezequías, daban culto a uma serpiente de bronce llamada Nejustan (de nejóset, bronce), y la consideraban como la utilizada por Moisés para curar los israelitas. El piadoso Rey la hizo despedazar para evitar los abusos idolátricos (1960, p. 848).

 

La destrucción de Jerusalém: las causas

1. INTRODUCCIÓN

La destrucción de Jerusalén en el s. VI a.C. y el exilio subsiguiente a Babilonia marcan una gran línea de división en la historia de Israel. De un golpe su existencia nacional terminó, y con ella, todas las instituciones que eran la expresión de su propia vida; nunca más sería recriado de la misma forma. Con el Estado destruido y el culto suspendido, Israel se tornó un aglomerado de individuos arrancados de sus raíces y vencidos[1].

¿Cómo una nación cayó en tan terrible desgracia? Ciertamente este hecho histórico no pudo suceder de manera repentina, de un día para el otro. En el presente trabajo se intentará analizar la causa más profunda que desencadenó este acontecimiento de trascendental significado en la historia bíblica. Para eso, es necesario comenzar por analizar lo que podría llamarse “situación internacional” de la época.

2. DEL APOGEO ASIRIO A LA HEGEMONÍA BABILÓNICA

El imperio asirio, que bajo Asaradón (681-670) había alcanzado su apogeo, durante el reinado de Asurbanipal (669-627) comienza a sentir los primeros síntomas de decadencia. Con la independencia de Egipto, llevada a cabo por Psamético I en 663, fundador de la dinastía XXVI, se siguen revueltas en Fenicia y Babilonia. Después de la muerte de Asurbanipal, Asiria entrará en la etapa final de su existencia como potencia internacional.

Quien aprovecha el momento de crisis asiria es Nabopolasar, príncipe caldeo que consigue la independencia para Babilonia y su elección como rey (626-605). A partir de entonces emprende una serie de ataques contra su ex dominador, y en unión con el rey medo Ciáxares, conquistan Assur en 614 y la capital Nínive en 612, donde muere el rey Sinsariskun, hijo de Asurbanipal. El último monarca asirio, Asuruballit II, huye para Jarán, donde consigue –con la ayuda de Egipto– resistir durante tres años a los ataques de Nabopolasar. Finalmente, en 609, tras la conquista de Jarán, el imperio asirio llega a su fin.

En 605, Nabucodonosor II (605-561), hijo y sucesor del rey caldeo, se enfrenta y vence el ejército del faraón Necau II –que se oponía a la expansión babilónica– en la batalla de Karkemish. A partir de este momento Babilonia ostenta la hegemonía sobre el Próximo Oriente[2]; con ello Judá pasa a pagar tributo a su nuevo señor.

3. DESTRUCCIÓN DE JERUSALÉN

En la lucha entre Egipto y Babilonia, el pequeño reino de Judá siempre se inclinará por el país del Nilo –al contrario de lo que aconsejaba Jeremías–, trayendo como consecuencia sendas expediciones de Nabucodonosor, una de las cuales acabó asediando Jerusalén, que fue tomada, saqueada y arrasada. El último rey de Judá, Sedecías, fue apresado y cegado; el Templo destruido. Los objetos valiosos se llevaron a Babilonia juntamente con muchos judíos; sólo se dejó a los muy pobres para que cultivaran la tierra. El reino de Judá llegara a su fin: era el año 587 a.C.

Así lo relata el libro de Jeremías: 39,1 Y sucedió que fue tomada Jerusalén. El año noveno de Sedecías, rey de Judá, en el décimo mes, vino Nabucodonosor, rey de Babilonia, con todo su ejército a Jerusalén y la sitió, 2 y el año decimoprimero de Sedecías, el cuarto mes, se abrió la brecha, 3 y penetraron en la ciudad los jefes del rey de Babilonia y ocuparon la puerta del medio: Nergalsareser, Samgar-Nebo, Sarsakim, «camarero mayor»; Nergalsareser, «jefe de los magos», y todos los otros jefes del rey de Babilonia.

(…)

8 Los caldeos prendieron fuego al palacio real y a las otras casas y arrasaron las murallas de Jerusalén. 9 Al resto de los habitantes que había quedado en la ciudad, los huidos que se habían pasado a los caldeos y todo el resto del pueblo, los deportó a Babilonia Nabuzardán, jefe de la guardia*.

El hagiógrafo da la fecha precisa de este hecho tan doloroso para el pueblo judío. Al decir el décimo mes del noveno año del rey de Judá, se refiere a diciembre 589-enero 588 (incluso en el c. 52,4 está dicho el día diez del referido mes) como inicio del asedio de Jerusalén por los soldados babilonios, mientras Nabucodonosor dirigía todo desde su cuartel general instalado en Ribla, en la Alta Siria. El comandante de las tropas en Jerusalén era Nabuzardán. Según el v. 2, el cerco duró un año y medio –con una breve interrupción debido a la aproximación de un ejército egipcio–, lo que indica que los caldeos entraron en la ciudad en junio-julio del 587 a.C.[3]

La Biblia nos dice que algunos judíos huyeron a Egipto (Jr c. 42-44); un grupo permaneció en Jerusalén (39,10) y un gran número de habitantes fue deportado para Babilonia (39,9). “Sobre las rutas de la Media Luna fértil caminaba de nuevo el pueblo de la Promesa, como en los días de Abraham, pero no ya con fe y esperanza, sino con miseria y abatimiento”[4].

4. CAUSAS DE LA CATÁSTROFE

¿Cómo los habitantes de Judá se precipitaron rumbo a su propia ruina? ¿Cuál fue la verdadera causa de tanta desgracia?

Durante el reinado de Sedecías, Jeremías siempre desaconsejó la alianza con Egipto, mostrando que era voluntad divina que Judá cayera en poder de los caldeos, en consecuencia de tantos pecados cometidos. En un primer momento el rey siguió los consejos del profeta; sin embargo, y probablemente instigado por el faraón Hofra, a finales de 589 Sedecías comete un error irreversible: decide rebelarse contra Babilonia.

Pero es el pasaje 37,2 del libro de Jeremías que nos apunta con claridad la causa más profunda de la caída de Jerusalén: “Y no obedecieron él [Sedecías], sus siervos y el pueblo de la tierra a las palabras que había hablado Yahvé por medio de Jeremías, profeta”. La afirmación “no obedecieron” es muy importante pues permite percibir la verdadera causa de tanta decadencia y la subsiguiente caída de Jerusalén. El término usado en el texto hebreo[5] es [m;v’ shama, del verbo “escuchar”. Así, el inicio del versículo podría haber sido traducido como: “Y no escucharon Sedecías y sus siervos…”, esto es, no quisieron oír las palabras del profeta.

San Jerónimo, sin embargo, opta en la Vulgata por la expresión latina non obœdivit” (no obedecieron) que se mantiene en la mayor parte de las traducciones actuales.

Es interesante notar que no existe oposición al traducir “no escucharon” o “no obedecieron”, puesto que el verbo “escuchar” en hebreo tiene un sentido amplio. No se trata apenas de prestar atención, sino también de abrir el corazón, poner en práctica, obedecer[6]. Es necesario cambiar de actitudes; adaptarse a la voluntad divina. ¿De qué sirve seguir las propias inclinaciones si no es eso lo que Dios quiere  para cada uno?

Si hubieran hecho caso de las palabras de Jeremías el castigo podría evitarse; pero no quisieron: “La frase última [37,2] nos remite a la vocación de Jeremías, que con la palabra recibe poder «sobre reyes». Pudo ser poder para «edificar», la catástrofe fue evitable; al no escuchar, el pueblo provocó el poder «para arrancar»”[7].

Jeremías siempre desaconsejó la alianza con Egipto. No es una actitud derrotista, ni mucho menos traidora; es realista[8]. Las palabras del profeta entran en choque con las actitudes del rey y del pueblo. Jeremías, por inspiración divina, predicaba la sumisión a los babilonios, pues Dios había decidido entregar Jerusalén a Nabucodonosor. Esto era algo muy duro para el pueblo, porque significaba renunciar a su independencia; pero esa es la voluntad de Dios.

No cabe duda que la predicación de Jeremías trajo como consecuencia que algunos de sus contemporáneos lo acusaran de estar vendiéndose al oro de Babilonia. Pero Jeremías era más sensato que los políticos de su tiempo; y no se guiaba apenas por su sensatez, sino que, y sobre todo, era el cumplimiento de la voluntad divina lo que interesaba al profeta[9]. Y es precisamente este punto que los contemporáneos de Jeremías no comprendieron. A pesar del peligro inminente, el profeta no es escuchado; sus palabras no encuentran acogida entre sus conciudadanos. Esta es la verdadera consecuencia de la catástrofe.

 

5. CONCLUSIONES

Al finalizar este breve estudio, todo lleva a concluir que fue la desobediencia de los dirigentes del pueblo judío a las palabras del profeta Jeremías la causa principal de la desgracia nacional. De este hecho puede hacerse una aplicación para la actualidad ¿Cuántos son los que están dispuestos a escuchar la voz de Dios y a obedecerle?

Dios había suscitado el profeta de Anatot para advertir al pueblo judío el mal camino que estaba tomando y cuales serían las consecuencias caso no hubiese arrepentimiento; mas el pueblo no quiso escucharlo.

“Por medio de hombres y al modo humano Dios nos habla, porque hablando así nos busca” (San Agustín)[10]. Así como en el AT Dios habló a su pueblo por medio de hombres, es enteramente posible que a la humanidad actual Él también se manifieste a través de personas. Y no sólo de esa forma; puede ser por medio de señales, acontecimientos, etc. Por eso es importante procurar saber cuál es la voluntad divina; qué es lo que Dios quiere para cada uno y colocarlo en práctica.

Sin embargo, es necesario tener presente como fondo de cuadro la perspectiva de que Dios quiere “que todos los hombres se salven y lleguen al conocimiento de la verdad” (1Tim 2,4). Por tanto, si Él castiga, no lo hace para condenar, sino para corregir; lo punitivo siempre tiene un designio de salvación, pues la justicia y la gracia divinas no son opuestas, sino que una complementa a la otra[11]. Así lo pide el propio Jeremías: “Corrígeme, Yahvé, pero conforme a juicio, no con ira, no sea que me aniquiles” (10,24).

Por Alejandro Javier de Saint Amant

Trabajo final de Hermenéutica bíblica

Profesor Pbro. Mg. Jorge Iván Ramírez Aguirre

 

UNIVERSIDAD PONTIFICIA BOLIVARIANA

ESCUELA DE TEOLOGÍA, FILOSOFÍA Y HUMANIDADES

FACULTAD DE TEOLOGÍA

MAESTRÍA EN TEOLOGÍA

MEDELLÍN

2009

BIBLIOGRAFÍA

BIBLIA HEBRAICA STUTTGARTENSIA. 5ª ed. Stuttgart, 1997. 1574 p.

BRIGHT, John. História de Israel. 7.ed., San Pablo, Brasil: Editora Paulus, 2003. 621 p.

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NOËL, Damien. En tiempo de los imperios. En: Cuadernos bíblicos nº 121. Navarra: Editora Verbo Divino, 2004. 65 p.

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VÁZQUEZ ALLEGUE, Jaime. Diccionario Bíblico hebreo – español. Navarra: Editorial Verbo Divino, 2002. 342 p.


[1] BRIGHT, John. História de Israel, 7ª ed., Editora Paulus, San Pablo, Brasil, 2003, p. 411.

[2] Cf. COUTURIER, Guy P.  Jeremías. En: Comentario Bíblico “San Jerónimo”, tomo I. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1971. p. 791-792.

* Los textos bíblicos utilizados en este trabajo fueron extraídos —con pequeñas adaptaciones— de la versión española Nácar-Colunga, 55.ed. BAC, 2001.

[3] GARCÍA CORDERO, Maximiliano. Biblia Comentada. Profesores de Salamanca, Vol. III, 2.ed. Madrid: BAC, 1967, p. 633.

[4] ROPS, Daniel. Historia Sagrada. Barcelona: Editor Luis de Caralt, 1955, p. 229.

[5] Biblia Hebraica Stuttgartensia. 5ª ed. Stuttgart, 1997. p. 858.

[6] Léon-Dufour, Xavier. Vocabulario de teología bíblica. Barcelona: Editora Herder, 1965. p. 250.

[7]  SCHÖKEL, L. Alonso y SICRE, J. L. Profetas, Vol. I. 2ª ed. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1987, p. 588.

[8] NOËL, Damien. En tiempo de los imperios. En: Cuadernos bíblicos, nº 121. Navarra: Editora Verbo Divino, 2004, p. 15.

[9] SCHÖKEL y SICRE, Op. Cit., p. 410.

[10] Citado por SCHÖKEL y SICRE, Op. Cit., p. 17.

[11] GARCÍA CORDERO, Maximiliano, O.P. Teología de la Biblia, vol I, AT. Madrid: BAC, 1970, p. 250.

José do Egito como pré-figura de Nosso Senhor Jesus Cristo

Depois de Deus ter criado o homem “à sua imagem e semelhança”, e tê-lo introduzido no Paraíso, quis levar a misericórdia a um extremo inimaginável: criou-o em graça, ou seja, participante de sua própria vida divina. Como corolário deste dom descia todos os dias, na brisa da tarde, para conversar com o homem.

Para o Criador não bastava a suprema bondade de fazê-lo participar de sua própria vida, mas queria ainda revelar-Se-lhe; eis porque descia para conversar com Adão.

Tendo o homem caído em pecado, perdeu o Paraíso e a própria vida sobrenatural, mas Deus não permitiu que ele “perdesse” a Revelação. Não deixou o Criador de – ora direta, ora indiretamente – revelar-Se aos homens. Embora as portas do Paraíso, celeste e terrestre, estivessem fechadas, as “portas do coração de Deus” permaneceram abertas para que o homem pudesse, sem sombra de dúvida, conhecer seu Criador.

O principal meio de que a Providência Divina se serviu para isso foi falar aos profetas, por Ela escolhidos, a fim de que estes transmitissem ao povo de Deus, aquilo que Ele Deus queria lhes dizer. E apesar das incontáveis infidelidades do povo, Deus sempre renovava a Aliança e continuava a Se comunicar.

Em determinado momento, Deus inspirou certos homens a colocarem por escrito tudo o que Ele tinha e estava revelando, para que o povo tivesse mais facilidade de não se esquecer de seu Criador.

Estes escritos não têm como objetivo principal transmitirem dados históricos, mas tudo aquilo que Deus, em sua infinita bondade, dignou-Se revelar-nos.

“Os escritos do Antigo Testamento contêm três principais afirmações: há um só Deus; seu reino espiritual deve expandir-se por todas as nações; o Messias enviado por Ele será Senhor desse reino.

“É o que podemos notar nas promessas feitas ao primeiro homem e aos patriarcas até as predições de David e Isaias, que chegam a precisar circunstâncias da vida do Messias, como por exemplo sua Paixão.

(…) dentre estes patriarcas e profetas, vários foram pré-figuras do Salvador, tal como Abraão, pai dos crentes; Isaac, que carrega a lenha às costas para o sacrifício de si mesmo e se deixa atar para ser imolado; José, que vendido por seus irmãos, convertesse em salvação para eles; Moisés, libertador, chefe e legislador; Jô, imagem do Cristo doente; David, por suas provações, realeza, orações e salmos; Jeremias, por seus sofrimentos e o amor pelo seu povo; Jonas, que o próprio Nosso Senhor assinala como figura de sua pregação e sepultura.”[1]

Uma das pré-figuras de Nosso Senhor mais eloqüentes que encontramos no Antigo Testamento é José do Egito, que por sua inocência suscitou a inveja de seus irmãos, que o venderam como escravo, tal como Jesus foi vendido por seu apóstolo como se fosse um criminoso.

Sempre que alguém surge como a representação da Verdade diante de quem abraçou as vias do pecado, ou os converte ou cria neles um ódio mortal que levará até o extermínio desta “santidade viva” que está diante de seus olhos, pois a presença de um justo é o pior tormento para aquele que não tem a consciência limpa.

Foi o que aconteceu com José do Egito, como nos narra São João Bosco:

“Um dia os filhos de Jacó tinham levado os rebanhos para longínquas pastagens. Então disse o pai a José: Vai ver se teus irmãos estão passando bem e trazei-me notícias deles. José obedeceu prontamente. Seus irmãos, quando o viram, disseram uns aos outros: Aí vem o nosso sonhador; matemo-lo e atiremo-lo a um fosso. Diremos depois ao pai que uma fera o devorou. Assim havemos de ver de que lhe valem os seus sonhos. Rubem, que era o mais velho, opunha-se a esse criminoso intento e, procurando salvá-lo, disse: Não o mateis; será melhor que o atireis ao fundo desta cisterna abandonada. Assim dizia no intuito de tirá-lo depois e levá-lo ocultamente ao pai. Apenas José chegou, seus pérfidos irmãos caíram-lhe logo em cima, despojaram-no de suas vestes e desceram-no à tal cisterna, isto é, a um poço que, felizmente, não tinha água na ocasião.

“Consumada a iníqua ação, puseram-se a comer e a beber tranqüilamente. Rubem, porém, não conseguiu comer; e muito inquieto, afastou-se, pensando na maneira pela qual poderia salvar seu irmão. Poucos instantes após, passaram casualmente por ali alguns mercadores de Madiã, que se dirigiam ao Egito. A eles foi vendido José por vinte moedas. Foram baldadas as súplicas de José, que pedia compaixão. Eles foram insensíveis aos seus rogos e às suas lágrimas. Tirado da cisterna, foi entregue aos mercadores, que o levaram consigo para o Egito. José contava então 17 anos de idade. (Ano 2276 a.C.).”[2]

O fato todos conhecemos, o que muitas vezes nós esquecemos é que a razão principal do ódio dos irmãos de José era pelo fato de ele ser inocente. Isto os incomodava e não lhes permitia dar vazão a seus crimes enquanto houvesse aquela “barreira”.

Foi precisamente isso que aconteceu com Nosso Senhor. Os fariseus e os Mestres da Lei já não O suportavam mais, pois era tão extraordinária e evidente sua santidade – Ele que é a Santidade em substância – que ou eles o destruíam ou se destruíam a si mesmos. “A sua presença nos incomoda”, diz o salmista.

Aqui temos algumas das características de semelhança entre José do Egito e Nosso Senhor Jesus Cristo:

“José foi acusado por um grande crime; Jesus foi acusado de blasfêmia;

“José era o mais amado do Pai; de Jesus o Pai declarou ‘Este é meu Filho amado’;

“José predisse sua glória futura; Jesus predisse que o veriam sentado à direita do Pai;

“Os irmãos de José conspiram contra sua vida; Os fariseus e mestres da Lei tramam a morte de Jesus;

“José é vendido por 20 moedas; Jesus por 30;

“As roupas de José ficaram tintas de sangue; a Jesus humilharam com uma morte sangrenta numa Cruz;

“José é condenado por Putiphar sem que ninguém o defenda; Jesus também é condenado sem que ninguém tome sua defesa;

“José sofre em silêncio; Jesus sofre todos os tormentos sem abrir a boca;

“José entre dois criminosos prevê a morte de um e a elevação do outro; Jesus crucificado entre dois ladrões prediz a um que estará no Paraíso e o outro morre na impenitência;

“José fica três anos na prisão; Jesus permanece três dias no túmulo;

“José chega à glória depois do sofrimento; ‘É preciso que o Filho do homem sofra para entrar em sua glória’;

“José é feito o senhor da casa do faraó; Jesus é chefe de toda a Igreja e de todas as criaturas.”[3]

Entretanto, José do Egito reconquistou a benquerença de seus irmãos e não foi morto por eles. O que nos faz ver que a maldade dos fariseus e Mestres da Lei que mataram Nosso Senhor era muito maior do que a maldade dos irmãos de José. Mesmo depois de Nosso Senhor ter ressuscitado, os fariseus fizeram de tudo para que o fato ficasse oculto, pois não tinham se convertido.

Mas também, a salvação que Nosso Senhor trouxe a seus irmãos é infinitamente maior e melhor do que a de José do Egito.


[1] GUARRIGOU-LAGRANGE, El Salvador y su amor por nosotros. trad. José Antonio Millán. ed. 2. Madrid: Rialp, 1977. p. 104, 105. Tradução nossa.

[2] São João Bosco, História Sagrada. ed. 12. São Paulo: Livraria Editora Salesiana, 1961. p. 47.

[3] MAITRE, Abbé. Grande Christologie, Le livres des figure prophetique. Paris: F. Wattelier et cie, Libraires, 1873. p. 125,126. Tradução nossa.

El martirio del profeta Jeremías

Profeta Jeremias por Aleijadinho

Ningún personaje más enérgico o más trágico, subió al palco de Israel que el profeta Jeremías[1].

Sobre él, cuyo nombre significa Yahvé exalta, tenemos muchos datos en su propio libro. Nació en la ciudad de Anatot, cercana a Jerusalén, alrededor del año 645 a.C. Perteneciente a una familia sacerdotal de la tribu de Benjamín, fue llamado por Dios para ejercer su misión profética a partir del décimo tercer año del reinado de Josías (627),  extendiéndose también bajo los sucesores de éste rey: Joacaz (609), Joaquín (609-598), Jeconías (598-597) y Sedecías (597-587) (cf. Jr 1,2-3).

Su mensaje consta, sobre todo, de amenazas y catástrofes, pero también de promesas de restauración. Él recibió de Dios la misión de anunciar la ruina de Judá y vio personalmente el cumplimiento de ese vaticinio; pero también tuvo el consuelo de pronosticar el futuro reino mesiánico.

Veamos lo que nos dice sobre la persona del profeta el P. Matos Soares, en su traducción de la Biblia a la lengua portuguesa: Jeremias possuía um coração extremamente sensível, e o patético, quer do amor quer do sofrimento, atinge às vezes o ápice no seu livro. A ternura de Deus para com o seu povo e a mágoa de se ver por ele incorrespondido, o esmagamento do profeta ante a ruína moral e política de sua amada nação, as alegrias pela reconciliação e o feliz reflorir, fazem vibrar as cordas mais íntimas do seu coração. A alma comovida de Jeremias irrompe então em calorosas estrofes de lirismo sublime e comovedor. Se em grandiosidade de imagens, vôos de fantasia e esplendor de fraseado cede o lugar a Isaías, no que tange à espontaneidade e à intensidade de afeto, Jeremias supera a todos os poetas hebraicos[2].”

Dotado de extrema sensibilidad y cierta timidez, Jeremías acepta generosamente el llamado de Dios y enfrenta con espíritu de sacrificio todas las oposiciones que se presentan en su camino.

Es común en la vida de los profetas la oposición del pueblo cuando es censurado por sus idolatrías y malas costumbres. Jeremías es un caso típico de este género. El pueblo hebreo está en una crisis religiosa y moral con pocos precedentes en su historia, y Jeremías tiene que combatir y solucionar esa situación. Al iniciar su ministerio perduraban todavía los pésimos efectos del reinado de Manasés (697-643), que abrió las puertas a las costumbres idolátricas en la religión de Israel y se convirtió en una nueva referencia de todo lo que de peor podía suceder en Judá (cf. 2Re 21,1-9). Fue contra esos desvíos que el profeta tuvo que clamar, sobre todo en los primeros años de su predicación (Jr 1-6).

Aunque el joven Josías -considerado el último gran rey de Judá (cf. 2Re 23,25)- hubiese dado inicio a partir del 621, con enérgico celo, a la renovación religiosa del país, esa reforma no tuvo alcance duradero. La muerte prematura del monarca en Meguido (609 a.C.) al querer impedir el paso del ejército del faraón Necao, que se dirigía hacia el norte en ayuda del rey Asur-Ubalit II, y ciertamente con intenciones de quedarse con lo que restaba del imperio asirio, decretó un fin rápido a esa reforma. Probablemente Jeremías aprobó la iniciativa de Josías. El hecho de no haber sido conservado ningún discurso de Jeremías durante ese periodo podría ser una muestra de que él veía la realización de sus postulados en la reforma del rey. Sin embargo, después de la muerte de Josías, Jeremías entra nuevamente en escena, esta vez con más energía, contra los sucesores de Josías y los sacerdotes, lo que trajo como consecuencia una persecución por parte de éstos (cf. Jr 26,7-15; 32,2-3; 37,11-16).

Así lo confirman los padres Nácar y Colunga, en su traducción de la Biblia a la lengua española:

Profeta Jeremias por Aleijadinho

“No es, pues, de extrañar que Jeremías hubiera de beber muchas veces el amargo cáliz del dolor. Insultos, oprobios, cárceles, acusaciones de traición a la patria, asechanzas contra su vida, todo lo hubo de soportar, y en tanto grado, que a veces el dolor le forzaba a levantar sus ojos a Dios en son de queja y hasta maldecir el día de su nacimiento con un tono que supera en fuerza de expresión al de Job[3].”

El odio contra Jeremías es tal, que a veces tiene deseos de morir y lanza gemidos a Dios pidiéndole clemencia. Como Moisés, siente miedo ante la tarea dada por el Señor –pues toda misión profética sobrepuja las fuerzas humanas–, entretanto, como sucede con estos hombres providenciales, él está dispuesto a sufrir todo para hacer la voluntad del Altísimo.

* * *

Cuando el rey Asurbanipal (669-633) subió al trono de Nínive, el imperio asirio todavía mantenía el poder que había heredado de las conquistas hechas por Asaradón (681-670), pero hacia el final de su reinado surgieron los primeros síntomas del crepúsculo asirio, que se acentuaron después de su muerte. El príncipe caldeo Nabopolasar (626-605) dio inicio a una sublevación y con la ayuda del rey medo Ciaxares, tomó la ciudad de Asur en 614. Posteriormente la capital asiria Nínive, cayó en mano de los aliados el año 612. El último soberano asirio Asur-Ubalit II huyó para la ciudad de Harán, donde resistió con ayuda de los egipcios al ataque de Nabopolasar durante tres años. Pero finalmente cayó en 609 en manos del rey caldeo.

A partir de aquí el poder de Babilonia comienza a extenderse por el Oriente Medio; sobre todo después de la victoria del hijo y sucesor de Nabopolasar, el gran Nabucodonosor, sobre el ejército del faraón Necao en la batalla de Karkemish (605 a.C.). Babilonia se convierte en la soberana de toda la región; y en la persecución contra Necao, Nabucodonosor impone su poder sobre Judá, donde posteriormente surgen dos facciones opuestas: una favorable a los egipcios y la otra a los caldeos (cf. Jr 40,7-16). Por inspiración divina Jeremías recomendaba la sumisión al rey de Babilonia. Eso trajo como consecuencia que el profeta fuese injuriado y luego encerrado en una oscura prisión por los partidarios de Egipto. (cf.  Jr 37,14-28). Cuando Nabucodonosor tomó Jerusalén en 587, Jeremías fue libertado y su amigo Godolías fue nombrado Gobernador; pero cuando éste fue asesinado, los israelitas egiptófilos obligaron a Jeremías a ir con ellos al país del Nilo, donde posteriormente murió[4].

En este contexto de inseguridad y de tragedia personal debemos estudiar los oráculos de Jeremías. No es fácil establecer una cronología de la mayor parte de ellos, mas conocemos perfectamente el ambiente histórico en el cual se desarrolló su misión; y nada muestra mejor el amor del profeta por su pueblo que las continuas intercesiones por él. Todo esto nos sirve para comprender la actividad profética y literaria del benjamita de Anatot, que podría talvez merecer el nombre de mártir.

Por ALEJANDRO JAVIER DE SAINT AMANT

Paper de grado para optar al título de maestría en teología

Profesor: P. Dr. Hernán Cardona SDB

UNIVERSIDAD PONTIFICIA BOLIVARIANA

ESCUELA DE TEOLOGIA, FILOSOFIA Y HUMANIDADES

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BIBLIOGRAFÍA

BÍBLIA SAGRADA. Traducción de Matos Soares. 43ª ed. Brasil: Edições Paulinas, 1987, 1409 p.

BRIGHT,  John.  História de Israel. 7ª ed. Brasil: Editora Paulus, 2003, 621 p.

COUTURIER, Guy P. Jeremías, en Comentario Bíblico “San Jerónimo”, tomo I. Madrid: Ediciones Cistiandad, 1971, 886 p.

HAAG, Herbert.  Diccionario de la Biblia, traducido al español por el padre Serafín de Ausejo, O.F.M. Barcelona: Editora Herder, 2000, 1063 p. (2126 columnas).

SAGRADA BIBLIA. Traducción de Nácar-Colunga 5ª ed. Madrid: BAC, 1953, 1583 p.


[1]   Cf. BRIGHT, John.  História de Israel, p. 401.

[2]            Bíblia Sagrada. Trad. Matos Soares. 43ª ed. São Paulo: Paulinas, 1987, p. 851.

[3]            Sagrada Biblia. NÁCAR-COLUNGA, p. 944.

[4]         COUTURIER, Guy P.  Jeremías, p. 794-795.

Melquisedeque, prefigura de Cristo Sacerdote

Ao nos depararmos com o Antigo Testamento, ficamos deslumbrados com a grandeza e com a proximidade com que Deus fala com os homens sobretudo com o povo Hebreu. É Deus que toma a iniciativa de entrar em contato, e apesar de suas contínuas infidelidades, não o abandona, pelo contrário, ama-o mais, enviando a este povo os seus profetas, os quais falavam em nome do próprio Deus.

Quantos milagres, quanta grandeza, quanta intimidade! Terá isso se encerrado com a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, aquele que não quer o poder temporal, aquele que diz que não veio para ser servido, mas para servir?

Para uma pessoa que não tem profundidade de horizontes, poderia surgir a idéia de que com a vinda Nosso Senhor Jesus Cristo e a fundação da Igreja, a época dos grandes milagres e da comunicação face a face com Deus, haverá cessado. Esta visão é verdadeiramente superficial, pois tudo o que ocorreu no Antigo testamento não foi senão uma pré-figura, e uma imagem daquilo que viria. E todas essas pré-figuras se cumpriram na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo e na instituição por Ele fundada, isto é, a Igreja.

O presente trabalho visará mostrar apenas um pequeno aspecto de apenas uma das inúmeras pré-figuras que se realizam inteiramente na Pessoa do Divino Mestre. Trata-se de Melquisedeque.

1. A história

A fim de nos localizarmos na história, façamos uma leitura de como aparece na Sagrada Escritura a figura de Melquisedeque:

Melquisedeque recebe a oferta de Abrão e o abençoa

“Voltando Abrão da derrota de Codorlaomor e seus reis aliados, o rei de Sodoma saiu-lhe ao encontro no vale de Savé, que é o vale do rei. Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, mandou trazer pão e vinho, e abençoou Abrão, dizendo: ‘Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, que criou o céu e terra! Bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos em tuas mãos!’” (Gn14, 17 – 20).

Como vemos tal relato é um dos mais misteriosos do Antigo Testamento. A figura de um rei-sacerdote vindo de Salém, que nunca mais aparecerá na Sagrada Escritura, acende nossa curiosidade, e provoca o desejo de procurarmos saber melhor o pouco que podemos a respeito desse rei de Salém.

O primeiro dado que nos oferece o Gênesis, é ser Melquisedeque o rei de uma terra chamada Salém. A tradição judaica sempre identificou Salém com Jerusalém, como vemos no Salmo 76, 3, uma identificação de Salém com Sião, a qual é a antiga colina chamada Jerusalém.

Colunga e Garcia Cordero nos explicam que, o Yerusalayim hebraico, poderia tirar o argumento acima mencionado – isto é, de ser Salém o diminutivo de Yerusalem – foi um massorético artificial, inventado pelos rabinos a fim de dar mais amplitude à cidade.

Com relação ao nome Melquisedeque, se trata de um nome cananeu como o de Adonisedec, rei de Jerusalém nos tempos de Josué (Js 10,1). Melquisedeque, como era costume entre os cananeus, era ao mesmo tempo Sacerdote e Rei.[1]

No texto bíblico é a primeira vez que aparece o nome Kohen, que quer dizer sacerdote. Melquisedeque, como corresponde a sua função sacerdotal, abençoa Abraão e dá graças a Deus por sua vitória. E Abraão em agradecimento e reconhecimento do sacerdócio de Melquisedeque, lhe oferece o dízimo. É de se destacar um comentário feito por Colunga e Garcia Cordero, a propósito desse trecho do Gênesis:

Este reconhecimento do sacerdócio de Melquisedeque por Abraão, é uma prova a mais da antiguidade da tradição sobre o encontro entre eles, pois não se concebe que um judeu zeloso posteriormente tenha fingido o seu grande patriarca humilhando-se ante um sacerdote cananeu, reconhecendo-o como sacerdote e oferecendo-lhe o dízimo.”[2]

O fato de termos tão poucos dados com relação a este trecho do Antigo Testamento levou a que os exegetas tirassem daí bastantes ensinamentos e alegorias, tendo a Carta de São Paulo aos Hebreus como o pináculo de tal procedimento. É o que veremos no próximo tópico, isto é, quais os ensinamentos que retiraram, São Paulo e outros doutores, a partir da figura de Melquisedeque.

2. A figura de Melquisedeque na carta de São Paulo aos Hebreus e em alguns doutores da Igreja

Em Hebreus capítulo 7, versículos um a três São Paulo afirma: “Este Melquisedeque, rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, que saiu ao encontro de Abraão quando este regressava da derrota dos reis e o abençoou, ao qual Abraão ofereceu o dízimo de todos os seus despojos, é, conforme seu nome indica, primeiramente ‘rei de justiça’ e, depois, rei de Salém, isto é, ‘rei de paz’. Sem pai, sem mãe, sem genealogia, a sua vida não tem começo nem fim; comparável sob todos os pontos ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre.”

2.1. Superioridade do Sacerdócio de Cristo

São Paulo busca por meio desta Carta mostrar a superioridade infinita entre o Sacerdócio de Nosso Senhor Jesus Cristo e o sacerdócio Levítico. Para tanto usará a figura misteriosa de Melquisedeque, fazendo meio de sua didática intencional como nos diz Casciaro:

“As singulares características de Melquisedeque fazem dele uma ‘figura’ ou ‘tipo’ de Cristo. As relações entre Cristo e Melquisedeque são expostas segundo as regras que seguiam os rabinos para explicar a Sagrada Escritura. Isto é particularmente evidente no caso da expressão ‘ao não ter nem pai, nem mãe, nem genealogia’ para indicar a eternidade de Melquisedeque. Parece muito lógico que o autor recorra à figura de Melquisedeque, já que a misteriosa menção em Gn 14, 18-20 e no Salmo 109, 4, tinha despertado há muito o interesse dos hebreus. Assim por exemplo, Filão de Alexandria entende que Melquisedeque representa alegoricamente a razão humana iluminada pela sabedoria divina. (cf. De legum alleforia, 3,49-82)

“Também a literatura apócrifa identificou Melquisedeque com diferentes personagens: com Sem, o filho primogênito de Noé ou com o filho de Nir, irmão do próprio Noé. Há um elemento comum na tradição judaica que coincide de modo singular com o ensino desta epístola: Melquisedeque pertence a um sacerdócio estabelecido por Deus numa época anterior a Moisés. O historiador judaico Flávio Josefo (anos 37-100 d.C.) fala de Melquisedeque como um ‘príncipe de Canaã’, fundador e grande sacerdote de Jerusalém.”[3]

Primeiramente São Paulo dá os dados positivos de Melquisedeque: Rei de Salém, Sacerdote do Deus Altíssimo, que se encontrou com Abraão. Porém já de início, com o intuito de levar a cabo o objetivo de sua carta, ressalta uma peculiar característica de Melquisedeque: “sem pai, sem mãe, sem genealogia, sem princípio de seus dias, nem fim de sua vida.” (Hb 7,2)

É evidente que São Paulo não ignorava aqui, que Melquisedeque tivesse pai ou mãe, ou que não tivesse morrido. Entretanto quer ele salientar que, se tais pormenores foram omitidos no Gênesis, foi por permissão Divina, a fim de mais aproximar Melquisedeque do Filho de Deus.[4] A propósito desse trecho, comenta o Doutor Angélico:

“De fato, quando se diz ‘sem pai’, vem significado o nascimento de Cristo de uma Virgem, o que é feito sem pai. Mt 1,20: ‘Aquele que é gerado na lei vem do Espírito Santo’. Ora, aquilo que é próprio de Deus não deve ser atribuído às criaturas. Ora, é de Deus Pai apenas o ser pai de Cristo. Por isso no nascimento daquele que o pré-figurava não devia ter alguma menção do pai carnal.

“Igualmente, quanto à geração eterna diz-se: ‘sem mãe’. E isto para que não se entenda que esta geração é material, assim como a mãe dá ao filho a matéria, mas é espiritual, como o esplendor do sol. Anteriormente (Hb 1,3) havia dito: ‘É o esplendor da sua glória…’. […]

“‘Sem genealogia’. E na Escritura não vem indicada a sua genealogia por dois motivos: um, para assinalar que a geração de Cristo é inefável. Is 53, 8: ‘Quem poderá narrar a sua geração?’ O outro motivo é para assinalar que Cristo, que é introduzido como sacerdote, não pertence ao gênero Levítico nem à genealogia do Antigo Testamento. E esta é a intenção do Apostolo.

“Por isso se acrescenta: ‘sem principio dos dias nem fim de vida’. Ora, diz-se isso não por que Cristo não tenha nascido no tempo e não tenha morrido, mas por causa de sua geração eterna na qual é nascido sem início algum no tempo. Por isso se diz em Jo 1, 1: ‘No princípio era o Verbo’, isto é, desde qualquer tempo, o Verbo era primeiro, como explica Basílio. De fato ele foi antes de qualquer dia, pois por meio d’Ele foi feito o mundo, com o qual começaram os dias. Igualmente: ‘nem fim dos dias’: e isto é verdade com referência à Divindade, que é eterna. Mas também com relação à humanidade, por que essa não tem fim de vida, em quanto Cristo, ressuscitando dos mortos, já não morre mais, segundo Rm 6, 9. E mais a diante (Hb 13,8) se dirá: ‘Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre.’”[5]

2.2. Semelhanças de Melquisedeque com Cristo

É de fazer-se notar também que o Apóstolo afirma ser Melquisedeque semelhante a Nosso Senhor Jesus Cristo e não o contrário, mostrando assim o desejo de reafirmar a superioridade do arquétipo com relação ao tipo. Assim nos diz Turrado:

“Evidentemente, o autor da carta sabe muito bem que Melquisedeque teve pais, e que nasceu e que morreu; nem aqui trata de insinuar o contrário. Mas interessa fazer notar o silêncio da Escritura sobre esse particular; silêncio que não considera casual, senão disposto por Deus, para ‘assemelhá-lo’ a seu Filho, do que queria que fosse tipo ou figura. Assim o afirma resolutamente na frase final, que serve de conclusão a todo o trecho: ‘semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre’. E é de notar que não é Jesus Cristo semelhante a Melquisedeque, senão que é o personagem principal, do mesmo modo que o santuário terrestre estará assemelhado ao celeste.”[6]

Outro ensinamento que a Igreja recolhe da figura de Melquisedeque – sobretudo do trecho da Epístola de São Paulo aos Hebreus que afirma ser Melquisedeque sem pai, nem mãe, nem ter genealogia alguma – é sobre o estado sacerdotal, do qual provem uma inteira consagração, abandonando a família e as demais relações sociais. Assim nos ensina o documento sobre o sacerdócio do Concílio Vaticano II:

“A figura e a vida do que é chamado a ser ministro do culto ao único Deus verdadeiro fica trespassada por um halo e um destino de segregação que, de certo modo, o põe fora e por cima da comum história dos outros homens: sine patre, sine matre, sine genealogia, diz São Paulo da figura ao mesmo tempo arcana e profética de Melquisedeque.”[7]

2.3. Superioridade do Sacerdócio de Cristo sobre o levítico

A partir do versículo onze, o Apóstolo passa a tratar mais especificamente da superioridade do sacerdócio de Cristo em contraposição ao sacerdócio Levítico. Para isso faz uso do Salmo 109 ressaltando a afirmação de que Jesus Cristo tem um sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque, ou seja, seu ministério não vem de uma sucessão carnal.

“É um sacerdócio não ‘segundo a ordem de Aarão’, senão segundo a ordem de Melquisedeque. […] Quer, pois, dizer que é um sacerdócio semelhante, não ao de Aarão, senão ao de Melquisedeque ou, mais explicitamente, tipo Melquisedeque: que tem as características do de Melquisedeque.”[8]

2.4. Singularidade do nome Melquisedeque

Outra característica é a singularidade sobre o nome de Melquisedeque. Além do que já foi tratado no tópico anterior (a história), também se ressalta o significado de Melquisedeque (rei da Justiça), e por ser este mesmo rei da Justiça o rei de Salém que significa rei da paz. Assim se demonstra as duas principais características do reinado messiânico: um reinado de Justiça e Paz. De maneira magistral o Angélico Doutor nos explica:

“Ora, na Escritura se diz dele duas coisas: antes de tudo o nome, isto é Melquisedeque, que ‘traduzido significa rei de justiça’, e significa Cristo, que foi rei. Jr. 23,5: ‘E reinará e será sábio e exercerá o direito e a justiça sobre a terra.’ E não apenas vem chamado justo, mas também rei da justiça, pois se fez por nós a sabedoria e a justiça: 1 Cor 1,30.

“A outra coisa que é dita dele é a condição. Por isso se diz: ‘rei de Salém, isto é rei da paz.’ Isto se adiciona a Cristo. Ele de fato é a ‘nossa paz’, segundo Ef 2,14; Sl 71,7: ‘Despontará aos seus a justiça e abundancia de paz.’

“E com isso o Apóstolo começa a servir-se, na pregação, da interpretação dos nomes. E une muito oportunamente a justiça e a paz porque nenhum cria a paz senão aquele que observa a justiça. Is 32,17: ‘Será obra da justiça a paz’. Neste mundo os homens são governados pela justiça, mas naquele futuro pela paz. Is 32,18: ‘O meu povo será assíduo na beleza da paz.’”[9]

2.5. Superioridade do Novo Testamento sobre o Antigo

Após termos visto a relação tipo–arquétipo existente entre Melquisedeque e Nosso Senhor, procuramos demonstrar a verdade que enunciamos na introdução do presente artigo, isto é, o Novo Testamento excede a perder de vista, em grandeza e santidade o Antigo Testamento.

É o que nos diz tão belamente O Apóstolo ao iniciar sua carta ao Hebreus, que foi utilizada como base para o presente trabalho: “Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho, que constituiu herdeiro universal, pelo qual criou todas as coisas. Esplendor da glória (de Deus) e imagem do seu ser, sustenta o universo com o poder da sua palavra. Depois de ter realizado a purificação dos pecados, está sentado à direita da Majestade no mais alto dos céus, tão superior aos anjos quanto excede deles o nome que herdou.” (Hb. 1,1-4)

Última Ceia, instituição do verdadeiro Sacrifício

Por Millon Barros


[1] Cf COLUNGA, Alberto, O.P. ; CORDERO, Maximiliano Garcia, O.P. Bíblia Comentada I – Texto de La Nácar-Colunga: Pentateuco. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1960, p.187.

[2] Idem, p. 188.

[3] CASCIARO, José Maria et al. Biblia Sagrada. Braga: Edições Theologica, 1991, p. 383-384. Tomo III (Epístolas de São Paulo: Tessalonicenses, Pastorais, Epístolas aos Hebreus, Epístolas Católicas, Apocalipse).

[4]Essa é uma exegética comum no rabinato: o que não está na Thora, não existe no mundo (cf. Casciaro et al. 1991, p. 384 e 385).

[5] D’AQUINO, S. Tommaso; MONDIN, Battista. Commento al Corpus Paulinum (Expositio et lectura super epistolas Pauli Apostoli) – Vol. 6: Lettera Agli Ebrei. Bologna: Edizioni Studio Domenicano, 2008. (Comentário a Epistola aos Hebreus, Cap. 7, Lição 1, n.333).

[6] TURRADO, Lorenzo; TURRADO, Lorenzo. Biblia Comentada VI: Hechos de los Apóstoles y Epístolas paulinas. Seccion Sagradas Escrituras. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1965.

[7] CASCIARO, José Maria et al. Biblia Sagrada. Braga: Edições Theologica, 1991, p. 386. Tomo III (Epístolas de São Paulo: Tessalonicenses, Pastorais, Epístolas aos Hebreus, Epístolas Católicas, Apocalipse).

[8] TURRADO, Lorenzo; TURRADO, Lorenzo. Biblia Comentada VI: Hechos de los Apóstoles y Epístolas paulinas. Seccion Sagradas Escrituras. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1965, p. 485.

[9] D’AQUINO, S. Tommaso; MONDIN, Battista. Commento al Corpus Paulinum (Expositio et lectura super epistolas Pauli Apostoli) – Vol. 6: Lettera Agli Ebrei. Bologna: Edizioni Studio Domenicano, 2008. (Comentário a Epistola aos Hebreus, Cap. 7, Lição 1, n.333).