Qual o intuito do Sr. Andrea Tornielli ao atacar os Arautos do Evangelho? Criar um cisma na Igreja?

São Paulo – Brasil (Sexta-feira, 16-06-2017, Gaudium Press) Quem lê os artigos e livros do prestigioso vaticanista, Sr. Andrea Tornielli, pode regozijar-se com a recordação da figura pitoresca de um camaleão. Assim, suas publicações registram uma arguta capacidade de adaptar-se ao ambiente em que se encontra, para desenvolver a sua atividade: soube sorrir para João Paulo II, afagar o pontificado de Bento XVI e, ao mesmo tempo, preteri-lo discretamente, quando já andava de braços dados com Francisco…

Recentemente, o Sr. Tornielli publicou um artigo polêmico no blog Vatican Insider, do jornal La Stampa: “Arautos, a doutrina secreta: ‘Correa incentiva a morte do Papa'”. Considerando a conhecida característica camaleônica do articulista, duas questões despontam a partir desta publicação: quais são as suas pretensões? Para que ambiente ele antecipa uma adaptação?

É interessante observar que o autor ressuscita, através do mencionado artigo, antigas, muito antigas, denúncias contra o Professor Plinio Corrêa de Oliveira, relativas à veneração que muitos lhe prestavam em vida, bem como à devoção privada a sua mãe, D. Lucília. Agora, Mons. João Scognamiglio Clá Dias, fundador dos Arautos do Evangelho, é alvo dos mesmos ataques. Essas são acusações obsoletas, todas respondidas e devidamente refutadas conforme os ditames da mais estrita doutrina católica.

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Timeo hominem unius libri. É bem o que os leitores da imprensa católica são inclinados a concluir nestes momentos, sobre o conhecimento do Sr. Tornielli a respeito do tema de seu artigo: estudioso de um só livro causa temor. O que não fica nada bem para um articulista desse porte… Vejamos por que.

Em primeiro lugar, poderíamos sugerir ao Sr. Tornielli voltar um pouco ao passado da instituição, por ele tão veementemente atacada, e deitar alguma atenção a uma obra publicada em 1985 – Servitudo ex Caritate – com o parecer do eminente teólogo Pe. Victorino Rodríguez y Rodríguez, OP. Nesse estudo, nunca replicado, o assunto da Sagrada Escravidão a Jesus, pelas mãos de Maria, bem como os vínculos espirituais entre o Prof. Plinio e seus discípulos, que ele menciona em seu artigo, foram completamente esclarecidos para o passado, para o presente e para o futuro.

E por que não ler, também, o livro Dona Lucilia, de 1995, com prefácio laudatório do Pe. Antonio Royo Marín, OP, reeditado em parceria com a Libreria Editrice Vaticana em 2013, também em língua italiana? Sua leitura teria sido suficiente para compreender que os fundamentos da devoção a esta grande dama brasileira estão baseados em sua vida de ilibada virtude e no bimilenar costume da Santa Igreja. Permita-nos dizer-lhe, Sr. Tornielli, que talvez seja conveniente rever as suas anotações do tempo de catecismo, pois antes mesmo de alguém ser canonizado, pede a Santa Madre Igreja que seja reconhecida sua fama de santidade.

E quanto à devoção a Dr. Plinio? Se lhe interessarem dados mais atuais, convidamos o Sr. Tornielli a fazer um dedicado estudo a uma obra recentíssima, de 2016, publicada em cinco volumes também pela Libreria Editrice Vaticana, com mais de 100 mil coleções impressas, sob o título O dom de sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira. Nesse trabalho encontram-se detalhadas as origens históricas e o embasamento teológico desse tema, tratado de forma tão tendenciosa em seu artigo.

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É verdade que surgiu, entretanto, diante do Sr. Tornielli, uma grande e insólita novidade: um vídeo privado, divulgado fora do contexto e superado pelo tempo, pois é velho de um ano e meio. Sendo ele de uso restrito da instituição, foi, entretanto, obtido de forma ilegal por um homem apaixonado no desafeto à TFP e aos Arautos – ele mesmo ex-membro da TFP -, casado com uma senhora, ex-membro da Opus Dei, que ocupam ponderada parte de seu tempo em atacar as entidades às quais pertenceram. Nesta fonte que o influente Sr. Tornielli foi buscar sua informação imparcial…

Trata-se do registro de uma reunião de clérigos, reservada, que não implicou em nenhuma mudança de rumos nos Arautos do Evangelho, seja em seu relacionamento para com a Sagrada Hierarquia e a sociedade civil, seja na atuação com a imensa quantidade de aderentes do movimento. O objetivo do encontro registrado era, simplesmente, intercambiar impressões a respeito de determinados fenômenos preternaturais, num ambiente de amena e distendida intimidade. Mãos criminosas, ainda desconhecidas, resolveram divulgar seu conteúdo de forma malévola e inconsequente para um público que não tem, em sua grande maioria, conhecimentos teológicos suficientes para fazer a respeito do seu conteúdo um juízo aprofundado. Não era difícil, assim, criar confusão em suas mentes. Por outro lado, essas mesmas mãos não se interessaram, naturalmente, em divulgar as conclusões dessas análises.

Ora, por que o Sr. Tornielli não procurou os Arautos para obter um esclarecimento? Bem poderíamos dizer: timeo hominem unius factionis, tememos os homens da meia verdade, os homens parciais, aqueles que não sabem e não querem ouvir as duas partes.

Estará o Sr. Andrea Tornielli agindo sozinho? Isso não sabemos…

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Mas podemos afirmar, analisado o artigo do renomado vaticanista e as circunstâncias mencionadas, a cega contribuição que ele está oferecendo no sentido de destruir aquela tão sonhada unidade que os Padres do Concílio Vaticano II quiseram levar adiante e que concretizaram três grandes homens: São João Paulo II, Bento XVI e Mons. João Clá. Eis um modo de arruinar a doutrina de um Concílio Ecumênico, e a dedicada ação de dois papas – um ainda vivo e entre nós – e de um Fundador, de quem um Prefeito da Congregação para os Religiosos, Cardeal Franc Rodé, disse ser a Igreja devedora!

Cui prodest? A quem aproveita esta atitude? O mundo católico está certamente perplexo: desta vez o camaleão apresenta tons tão surreais que, feitas as devidas ponderações, ainda continua suscitando perguntas acerca de suas variadas novas colorações:

– A quem representa o Sr. Andrea Tornielli?

– Pretende ele provocar um cisma na Igreja?

– Com que intenções?

Por fim, esclarecidas as inverdades e distorções, fazemos-lhe um convite para retornar às vias de um jornalismo culto, sério e ético. Os Arautos do Evangelho consagram a São José, padroeiro da Igreja, a própria defesa, na certeza de não serem desamparados pelo pai virginal de Jesus e castíssimo esposo de Maria. Sem prejuízo dos próprios direitos, estão eles dispostos a sempre acolher com benevolência a retratação dos caluniadores e a perdoa-los sinceramente, pois não guardam qualquer ressentimento.

Arautos do Evangelho

Deus está em todo lugar

Quando contemplamos, num belo anoitecer de verão, a abóbada celeste, percebemos miríades de estrelas que, aos poucos, vão se acendendo aqui, lá e acolá.

Na verdade, além das que vemos, existem milhões e milhões de outras, que, só com a ajuda de boas lunetas, conseguiríamos ver. E ainda resta um número quase incontável, que nem sequer a ciência, com todos os seus recursos, logrou ainda observar.

Pois bem, mesmo sendo o Universo tão imenso a ponto de nos parecer sem limites, há um Ser superior a isso tudo, que tudo criou, tudo governa e tudo vê: Deus infinito. Ele está presente em tudo, não há lugar onde Ele não possa estar, como diz o Salmista: “Tu me envolves por todo lado e sobre mim colocas a tua mão. Onde eu poderia ocultar-me do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença? Se subir até os céus, Tu lá estás; se descer ao mundo dos mortos, ali Te encontras” (Sl 138, 5; 7-8). Também lemos nos Atos dos Apóstolos que em Deus “vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28).

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O modo de Deus estar presente na criação

Ensina-nos o grande São Tomás de Aquino que existem três modos de Deus estar presente na obra da Criação. Primeiro, por potência, ou poder, pois tudo está submetido a seu domínio; se fosse possível a Deus cochilar um instante, tudo voltaria ao nada. Segundo, por presença, visão ou conhecimento, pois tudo está patente e como que descoberto a seus olhos; nada Lhe escapa, nem sequer os mais ocultos pensamentos. Terceiro, por essência ou substância, pois Ele está em tudo, como causa de seu ser.

Falando em termos mais específicos, existem outras presenças de Deus, como a inabitação na alma do justo, realizada através da graça. Também a presença pessoal ou hipostática, única e exclusivamente de Cristo, pela qual sua humanidade adorável subsiste na própria pessoa do Verbo Divino. Por isso Ele é pessoalmente Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnada. Temos, ademais, a presença sacramental ou eucarística, na qual Jesus Cristo está realmente presente sob as espécies do pão e do vinho.

Há, por fim, a presença de visão ou manifestação, que é a do Céu. Deus está presente em toda parte, porém, não Se deixa ver em todo lugar, mas somente no Céu. Só na Visão Beatífica Ele Se manifesta face a face aos bem-aventurados.

 

Lembremo-nos dia e noite do olhar de Deus

Portanto, Deus está presente em toda parte e constantemente nos vê. Oh! Quantos crimes seriam evitados, quantos problemas seriam resolvidos, quantas lágrimas seriam enxugadas, quantas aflições se- riam suavizadas, se a humanidade tivesse consciência do olhar de Deus sempre pousando sobre nós! “Deus está no Templo santo e no Céu tem o seu trono, volta os olhos para o mundo, seu olhar penetra os homens” (Sl 10,4).

Estamos aflitos, necessitando de uma palavra de conforto e ânimo para superar algum obstáculo? Precisamos de um coração com o qual possamos nos abrir? Ou de um amigo a quem falar? Por que não recorrer ao melhor dos amigos, ao mais suave, compreensivo e cheio de compaixão, que é o próprio Deus? Ele nos conhece até o fundo e sabe tudo de que precisamos; seu Divino Coração arde em desejos de ajudar e consolar as almas abatidas e de aliviar as costas carregadas de fardos: “Vinde a Mim todos vós que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar- vos” (Mt 11,28).

Queremos servir a Deus com mais amor e perfeição? Lembre- mo-nos de seu olhar dia e noite. Certa vez, Santo Inácio de Loiola, vendo um de seus irmãos trabalhar de modo relaxado, perguntou-lhe:

— Irmão, para quem trabalhas?

— Para Deus — respondeu-lhe ele.

— Se me dissesses que trabalhas para um homem, eu compreende- ria tua moleza, mas isso é imperdoável quando se trabalha para Deus.

São Francisco de Sales vivia tão compenetrado da presença de Deus, que, estando sozinho ou em sociedade, conservava um porte digno, modesto e grave. Costumava dizer que não sentia constrangimento algum na frente de reis ou príncipes, pois estava habituado a encontrar-se na presença de um Rei muito maior, que lhe inspirava respeito.

 

A oração torna a vida mais leve, suave e amena

A oração frequente é um meio eficaz para nos recordar a presença de Deus. É tão fácil — durante nossos afazeres, no trabalho, na escola ou em casa, andando pela rua, dirigindo no trânsito ou já deitados para o descanso — fazer uma prece, uma jaculatória que seja, a Deus, ao Sagrado Coração de Jesus e oferecer-Lhe os problemas, pedir-Lhe ajuda e proteção!

Caro leitor, eu o convido a fazer isso diariamente, com amor e confiança, e você verá que, aos poucos, sua vida irá se tornando mais leve, suave e amena.

Diz Jesus no Evangelho: “Pedi e ser-vos-á dado; procurai e encontrareis; batei e hão de abrir-vos” (Lc 11,9). Por que desprezamos essa promessa proferida por lábios divinos e que nos dá a garantia absoluta de sermos ouvidos? Poder-se-ia dizer que Nosso Senhor como que Se inclina do Céu sobre a terra à espreita de que Lhe façamos pedidos, desde os mais simples até os mais ousados, para ter Ele a alegria de atender-nos e encher-nos de dons e graças.

Entranhas de misericórdia

 

Crucifixão, por Guillermo Forchondt. Museu de La Rioja - Logrono, Espanha
Crucifixão, por Guillermo Forchondt. Museu de La Rioja – Logrono, Espanha

“Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5, 7). Eis a bela promessa feita pelo Salvador no Sermão da Montanha. Ela soa aos ouvidos como o rumor de uma fonte de águas cristalinas. Nenhuma tarefa parece mais simples e bela, e, ao mesmo tempo, tão bem recompensada. Ser compassivo para com os outros, ajudá-los em suas necessidades, não são sentimentos nobres, que muitas vezes nascem espontaneamente? Pois bem, aos que assim agirem, espera a benevolência torrencial da parte do próprio Deus.

A misericórdia é atribuída a Deus nas Escrituras abundantes vezes, como sendo a bondade gratuita e copiosa, distribuída pela dadivosidade divina. É, por assim dizer, o contrapeso da justiça, virtude pela qual se dá a cada um o que lhe é devido: suum cuique tribuere. Por isso, afirma Cornélio a Lapide: “misericordia justitiam dulcorat et temperat”.[1] O Senhor, como lê-se no Êxodo (34, 6-7), é “misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel, que conserva a misericórdia por mil gerações e perdoa culpas, rebeldias e pecados, mas não deixa nada impune, castigando a culpa dos pais nos filhos e netos, até a terceira e quarta geração”.

Porém, se procurássemos explicitar em que consiste a misericórdia, não seria fácil obter um consenso, mesmo entre os católicos. Para uns seria um nobre sentimento de solidariedade, para outros a prática da esmola, ou, ainda, uma vaga filantropia baseada em ações de cunho social e beneficente. Afinal, qual é a misericórdia a que faz referência Jesus no Evangelho?

Antes de tudo, esta consiste na generosidade do Pai do Céu, que ultrapassa todos os méritos dos homens, mesmo os dos mais perfeitos. Ele, no seu infinito desvelo, nos premeia com tesouros de graça e de glória, impossíveis de serem conquistados com nossas boas obras. Não há penitências, nem atos de heroísmo, por mais árduos e audazes, capazes de tornar o homem digno da visão de Deus por toda a eternidade. Por essa razão, São Paulo estimava em nada os padecimentos desta vida, em comparação com a glória que nos espera (cf Rm 8, 18).

Para merecer tal prêmio, Jesus ensinou a seus discípulos – pelas suas palavras e exemplos – o bom caminho. O Divino Mestre indica a seus seguidores a necessidade de serem, por sua vez, pródigos e bondosos em relação a seus próximos, dando-lhes mais do que merecem por justiça. A parábola do servo impiedoso o mostra com toda a clareza. A falta de perdão por uma pequena dívida compromete a grande clemência concedida pelo Senhor, que o repreende dizendo: “Servo malvado, eu te perdoei toda a tua dívida, porque me suplicaste. Não devias ter tu também compaixão de teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?” (Mt 18, 32-33) Eis a essência da misericórdia a ser praticada pelos cristãos, se desejam receber o prêmio da liberalidade divina.

E, mais que a esmola, o alimento corporal, o agasalho e outras ações tão nobres, Jesus nos ensina a prática de uma misericórdia espiritual. O Reino de Deus, tal como ouvimos de seus lábios, se baseia no perdão das ofensas, na dedicação da existência ao bem do próximo, na evangelização, no dar a própria vida a fim de tirar os homens das trevas da ignorância e obter-lhes a salvação. Tais atitudes as pôs em prática, e com suma perfeição e zelo, o Divino Mestre. Lembremos apenas um comovedor episódio: a salvação outorgada ao ladrão arrependido no alto do Gólgota.

Dimas, como o chama a tradição, atado à sua bem merecida cruz, mostrara uma profunda humildade, reconhecendo a sua culpa e confessando a inocência de Jesus. E, em prêmio pela sua atitude submissa, recebeu o dom da fé, pois, vendo diante de si um crucificado, desfigurado e moribundo, o proclamou Rei de um poder superior à mesma morte: “Jesus, lembra-te de mim quando começares a reinar” (Lc 23, 42). Naquele trágico momento a fé do ladrão foi maior que a dos próprios apóstolos, covardemente ausentes. Porém, o Divino Redentor à fé acrescentou a promessa da salvação, mediante um solene juramento: “em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Que abismo de bondade, fazer de um maltrapilho e delinquente, um herdeiro do Reino dos Céus! Sim, Jesus, com entranhas de misericórdia, abriu o céu a um pobre ladrão, humilhado pelas suas culpas. Eis a obra de misericórdia por excelência: transmitir a Fé verdadeira e, com ela, fazer entrar o Sol de Justiça na vida de nossos próximos.

Os Arautos do Evangelho, conscientes das carências espirituais de tantos jovens e adultos, contemplam o exemplo de Cristo no alto da Cruz, e procuram entregar a Ele suas vidas – como Ele o fez pelos pecadores –, pondo-as a serviço do próximo, num grande projeto de misericórdia, cujo Inspirador e Autor não é outro senão o Divino Mestre, sem o qual nada de bom se faz (cf Jo 15, 5). Formar, do ponto de vista humano e cristão, transmitir a Fé católica nos seminários maiores e menores, nas escolas, nos hospitais, na catequese e, ainda, proporcionar auxílio material, eis as obras de misericórdia exercidas por esses seguidores de Cristo.

Pe. Carlos Javier Werner Benjumea, EP (Extraído de “Retrospectiva 2013-2014”)

 

[1] Commentaria in quatuor evangelia. Roma: Marietti, 1941, p. 201

Lição de vida dadas por Jó, o sofredor

Per crucem ad lucem. Com esta frase São Bruno resumiu a vida dos Cartuchos. A partir dos sofrimentos aceitos por amor de Deus chegamos às glórias eternas. Contudo, esse inspirado lema se aplica não só aos religiosos da cartucha, mas a todo e qualquer homem. A veracidade cristalina que dele transparece nos afigura como de uma grande simplicidade, sobretudo se consideramos a vida humana a partir do prisma católico. No entanto não foi essa a opinião dos homens durante muitos séculos.

São Bruno. Paróquia São João Batista, Gran Canária, Espanha
São Bruno. Paróquia São João Batista, Gran Canária, Espanha

“Se sou justo serei prospero; se sobrevierem desgraças, é sinal que sou pecador.” Esse foi o principal pensamento que regeu a sociedade antiga, inclusive entre o povo eleito. (cf. Dt 11, 13 s.; Gn 12, 2; Ex 20, 12)

No entanto, com a Revelação trazida por Nosso Senhor Jesus Cristo esse pensamento simplista foi aos poucos mudando. E lendo-se o Livro de Jó podemos perceber a concretização de uma nova maneira de encarar o prêmio e o castigo.

O tema central do Livro é a tragédia de um justo, o qual era próspero e gozava de abundância de bens naturais. Entretanto, querendo Deus aquilatar o valor de sua virtude, permite que sobre ele caiam inúmeros castigos. Esse drama, que possui dois estilos – prosa e poema – nos traz uma verdadeira inovação teológica: o justo também pode sofrer.

Podemos encontrar nesse livro uma estrutura harmônica que se divide em: duas partes em prosa e um corpo central em poema. As partes em prosa são a introdução e o epílogo final, que narram respectivamente a vida de um justo prospero que é castigado por Deus e a recompensa recebida por Jó devido a sua fidelidade em todas as desgraças.

Já o corpo central do texto, que é redigido em estilo poético, se compõe da apresentação de três amigos que sabendo das desgraças sofridas por Jó, vão visitá-lo; a disputa desses três visitantes com Jó, querendo imputar-lhe alguma culpa, as respostas de Jó às acusações de seus companheiros; a apresentação de um novo personagem, Elius, que por sua vez também quer encontrar alguma causa a tais desgraças; e por fim a intervenção final de Deus, apresentando a solução final da discussão.

A crítica moderna veio ao encontro desse magnífico escrito, com o intuito de pôr o problema da existência e historicidade de Jó. Na tradição bíblica encontramos um justo com o nome de Jó, posto em equivalência a Noé e Daniel (Ez 14, 14 e Eclo 49, 9). No entanto o livro de Jó possui certos fatos que nos fazem entrever um certo caráter alegórico do texto bíblico, por exemplo a assistência de Satanás ao conselho de Deus. Assim nos diz Garcia Cordero de Perez Rodriguez: “Isto nos dá a entender o caráter convencional do relato, que se desenvolve essencialmente como uma composição dramática redigida em função da demonstração de uma tese: não há conexão necessária entre o pecado e o sofrimento.” (1967, p. 18)

Quanto à sua canonicidade, o livro de Jó já era muito utilizado pelos apóstolos em suas cartas como um escrito inspirado (cf. Tg 5, 11 e 1Cor 3, 19). Também os Santos Padres davam testemunho do caráter sagrado da história do justo de Hus. Apenas Teodóro de Mopsuestia (séc. VI) tentou negar a inspiração desse livro, e foi condenado pelo segundo Concílio de Constantinopla (553).

Apesar de este livro ter uma inovação teológica para a sua época, ainda falta-lhe um passo: é verdade que o justo também pode padecer, e ainda mais, o seu prêmio não se encontra nesta terra, e sim no post mortem. Essa nova visão começa a se desenvolver no séc. II a. C. no livro da Sabedoria. Entretanto, tal doutrina só atingirá sua plenitude com a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo.

É Nosso Senhor a causa exemplar de todo cristão, e tendo Ele sofrido, também nós devemos sofrer, mas não com amargura e tristeza, pois será Ele mesmo a nossa recompensa na eternidade.

Jó sendo questionado por seus amigos. Por Gaspard de Crayer - Museu dos Agustinianos - Toulouse, França
Jó sendo questionado por seus amigos. Por Gaspard de Crayer – Museu dos Agustinianos – Toulouse, França

Quão bom seria para a sociedade hodierna defrontar-se com a história de Jó. O mundo infelizmente esqueceu-se não só dos ensinamentos dados por esse livro Sapiencial, como também, e sobretudo, deu costas ao rico e eterno ensinamento dado pela Santa Igreja. Aí encontraríamos a solução para as maiores perguntas de nossos dias: porque estou sofrendo? É de Deus que vem esses males?

Essas perguntas bem poderiam ser respondidas por esta eloquente frase de Jó: “militia est vitam hominem super terram.” (Jo 7, 1) e a tal citação acrescentaria São Bruno e com ele a Santa Igreja: “Per crucem ad lucem.

 

Pe. Millon Barros, EP

O Segredo da Felicidade

Catedral de Santiago Menor en Liege. Por Genaro Perez Villaamil - Museu de Belas Artes - La Coruna - Espanha
Catedral de Santiago Menor en Liege. Por Genaro Perez Villaamil – Museu de Belas Artes – La Coruna – Espanha

Desde que Adão e Eva foram expulsos do paraíso, o homem vive sempre se perguntando: – Quem não ama sua vida procurando ser feliz todos os dias? (Cf. Sl 33, 13) De fato, no momento de sua concepção, Deus infunde na alma humana o desejo da felicidade. Como nos diz o grande Santo Agostinho, “todos os homens querem viver felizes, e não existe no gênero humano pessoa que não concorde com esta afirmação”.[1]

No paraíso Deus havia concedido ao homem o “dom de integridade”, o qual, juntamente com a Graça, lhe dava total alegria e plena felicidade. Esse dom proporcionava ao homem a completa ordenação: a fé iluminava sua inteligência, à qual estava subalterna a vontade, inibindo assim impulsos e ações meramente instintivas.

Com o pecado original, Adão e Eva perderam o dom de integridade, bem como seus descendentes. Assim, o homem vive numa constante luta, para controlar sua vontade, que sendo inferior a inteligência e a fé, não está mais a elas subjugada. A vontade que antes obedecia em tudo a sua inteligência, agora segue seus próprios caprichos.

O Criador ao dar uma ordem a Adão era prontamente obedecido, e este a executava com a maior docilidade. Mas então, por que Adão e Eva comeram do fruto que Deus havia proibido, uma vez que possuíam o dom de integridade?…

Deus ao proibir Adão e Eva de comerem do fruto, disse: “Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que deles comeres, morrerás indubitavelmente.” (Gen. 2,16-17). O demônio porém, em forma de serpente, enganou a mulher dizendo: – “Oh, não; vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.” (Gen. 3,4-5) Com isso, despertou a curiosidade em Eva: “A mulher, viu que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e muito apropriado para abrir a inteligência.” E assim continua: “tomou dele, comeu, e o apresentou ao marido que comeu igualmente.” (Cf. Gen. 3, 6) Neste instante, lhes “caem as escamas” dos olhos. Foram os primeiros a constatar que com o pecado, o demônio não dá o que promete.

Comendo o fruto, aderiram ao mal, abraçaram a malícia, fruto do pecado. Comeram para alargar sua inteligência, que se fechou a ponto de não conseguirem dominar mais sua própria vontade. Eram felizes no paraíso, pois cumpriam inteiramente com a finalidade para qual todo homem foi criado: conhecer, amar e servir a Deus.

Imaginemos um pássaro que possua uma asa torta. Se ele fosse inteligente, passaria sua existência na angustia de nunca ter voado. Poderia ter sido feliz? Não, pois não cumpriu com a sua finalidade que é voar. Isso foi o que ocorreu com os nossos primeiros pais. Eva ouvindo a voz da serpente insuflada pelo demônio, sucumbiu à tentação, certa de encontrar a felicidade no pecado. Foram então expulsos do paraíso tornando-se inclinados ao mal e sujeitos ao erro, passando a apresentar toda a sua vida como uma luta dramática entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas.

Fora de sua finalidade, o homem não têm felicidade, pois este desejo é de origem divina. Deus o colocou no coração humano, a fim de atraí-lo a si, pois só Ele pode satisfazer essa sede.[2] O demônio, sendo o pai da mentira, promete a felicidade com o pecado. Este entretanto, traz apenas uma fruição momentânea, e em seguida uma enorme frustração.

Desde então, o homem passou a tirar seu sustento da terra, com trabalhos penosos, todos os dias da sua vida. (Cf. Gn. 3, 17) Estabeleceu-se na alma humana uma necessidade de sofrer, pois sem isso o homem fecha-se em si mesmo, não lembrando mais da bondade e da dependência que tem em relação ao Criador. O sofrimento, então, assume um papel fundamental e insubstituível na vida humana depois do pecado original, pois nos coloca diante de Deus como seres contingentes, e nos faz recorrer a Ele.

Ao se tirar o gesso de um braço quebrado, é necessário submeter-se a uma série de seções de fisioterapia para voltar ao pleno funcionamento. Se o membro não se exercitar pode acabar definhando. porém, esse esforço nem sempre é agradável.

Se o exercício, o sofrimento, é necessário para um braço, quanto mais para a alma humana se desenvolver e recuperar aquilo que perdeu com o pecado! Quem foge do sofrimento, acaba sofrendo mais do que aquele que carrega sua Cruz. Existe na alma humana o que São Tomás denomina de “sofritiva”, que consiste numa necessidade de sofrimento, por uma finalidade sobrenatural, com vistas a purificar e santificar a alma.

O maior de todos os exemplos é o Homem Deus. Estando unido à Pessoa do Verbo e conhecendo tudo, viu num só relance todos os ultrajes e padecimentos pelos quais passaria durante sua Paixão, a ponto de dizer o evangelista que Nosso Senhor sentiu aversão, pavor, tristeza e abatimento. (Cf. Mt 26,38) Antes mesmo dos algozes O tocarem, após verter abundantemente seu preciosíssimo sangue adorável, diante do oceano de dores que o esperava, profere esta sublime súplica: -“Meu Pai, se for possível afaste-se de mim este cálice. Mas faça-se a Vossa vontade e não a minha.” (Mt 26,39)

Concluiríamos que o Redentor pede clemência a Deus Pai, para ajudá-Lo no caminho do Calvário a suportar a enormidade da Cruz que haveria de carregar. Mas “faça-se a Vossa vontade e não a minha”, pois uma coisa que Ele não faria, era abandonar a Cruz. Se for a vontade do Pai, pegaria a Cruz, oscularia e a levaria até o fim.

Ao contrário do que nosso caro leitor poderia esperar com o título desse artigo, não apresentamos uma fórmula mágica de ser feliz para sempre, o famoso “final feliz” que costumamos ver nos filmes, mas o segredo da verdadeira e única felicidade possível nesse vale de lágrimas: o sofrimento aceito por amor a Deus, e o cumprimento de sua divina vontade.

A vida nesta terra sem o sofrimento, é uma funesta ilusão que acaba com a morte, pois se Deus sofreu por nós, porque seríamos covardes e fugiríamos diante de nossas cruzes, tão menores que a d’Ele? Nossa Senhora de Lourdes disse a Santa Bernadete: “Te prometo felicidade, mas não nesta terra.”

Não temos o que temer, Deus conhece nossa fragilidade e olha as nossas aflições. Por isso deu-nos a melhor de todas Advogadas, sua própria Mãe! Peçamos a Nossa Senhora, Causa de nossa alegria, que nos dê coragem para responder “sim” como Nosso Senhor Jesus Cristo no Horto das Oliveiras, para galgar o nosso calvário e alcançarmos a felicidade eterna com Ele nos Céus.

 

Nossa Senhora da Vitória. Por Juan de Figueroa - Santuário de Santa Maria da Vitória - Málaga - Espanha
Nossa Senhora da Vitória. Por Juan de Figueroa – Santuário de Santa Maria da Vitória – Málaga – Espanha

 

Pe. Lucas Antonio Pinatti, EP

[1] Cf. AGOSTINHO, Mor. eccl. 1,3,4: PL 32, 1312.

[2] CATECISMO Igreja Católica: SP, Loyola, 2000. p. 469

Jesus Cristo, Homem e Deus verdadeiro

001Introdução

 

Muitas vezes por não termos um adequado conhecimento da doutrina católica, reduzimos a nossa piedade e o nosso enlevo pela vida sobrenatural, quando o não, pela própria Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, pois não damos o verdadeiro valor ao mistério de sua Encarnação. E se não tomamos cuidado nos deixamos levar por doutrinas enganosas que procuram tirar a visão grandiosa que todo católico deve ter da Pessoa do nosso Redentor. É esse o motivo deste artigo, ajudar a tomarmos conhecimento da Grandeza de Nosso Senhor Jesus Cristo e por meio disso aumentarmos a nossa piedade, como também podermos defender a nossa fé.

Mais cedo ou mais tarde a todo católico se põem algumas perguntas. A natureza humana de Nosso Senhor Jesus Cristo, é adorável? Isto é, por exemplo, posso eu voltar-me a Ele e sobrenaturalmente oscular os seus pés e adorá-los, como os pés de Deus? Qual a relação que devo ter eu com Ele? Qual o ato de reverência que devo demonstrar-lhe e prestar-lhe? Qual a relação, portanto, que tem o Santíssimo Sacramento do Altar e eu?

Alguns fiéis por não conhecerem adequadamente a doutrina sobre a Graça de União que Cristo possui, têm uma fé incompleta e não fazem, por isso, progressos de amor e adoração em relação à Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Essas perguntas hoje em dia podem ser vistas com repulsa para muitos, ou o que é pior, vistas com indagações de uma fé primária que não evoluiu nos “conhecimentos” teológicos, e que por sua vez tais perguntas não são dignas de crédito. Porém ao responde-las mostraremos que não só são elas cabíveis, como também solucionando-as cai por terra a doutrina naturalista, igualitária e reducionista, que hoje em dia muitos teólogos sustentam, considerando Jesus apenas como um revolucionário social que veio a este mundo só para salvar os oprimidos e marginalizados.[1]

 

  1. O exemplo de uma heresia: O Adocionismo

A primeira sentença que devemos rejeitar é que a Nosso Senhor deve-se atribuir uma dupla filiação; a primeira como Deus, Filho Natural, e a segunda como homem, filho adotivo. Tal heresia foi apregoada em fins do século VIII por Elipando de Toledo (+ 802) e por Felix de Urgel (+ 816). Essa heresia se intitula adocionismo, e foi combatida sobretudo pelo teólogo franco Alcuino.

Ela foi condenada com a própria censura de uma antiga heresia já existente, o nestorianismo. O papa Adriano I (772-795) condena o adocionismo numa de suas cartas doutrinais, acusando-a de uma renovação dos erros nestorianos, o que foi confirmado no Concílio plenário de Frankfurt (794) em presença do Imperador Carlos Magno, tendo como texto do Concílio esta sentença: “o filho nascido da Virgem era verdadeiro Deus e não podia ser considerado, portanto, como filho adotivo.” (D 615)

“Esta seita se levantou baixo o império de Carlos Magno, pelo ano 778. Com este motivo, Elipando, arcebispo de Toledo, consultou a Félix, bispo de Urgel, acerca da filiação de Jesus Cristo, e este bispo o contestou, que enquanto Deus, era verdadeira e propriamente Filho de Deus, gerado naturalmente pelo Pai; mas que Jesus Cristo enquanto homem ou filho de Maria, não era senão adotivo de Deus, decisão a que subscreveu Elipando. O papa Adriano, advertido deste erro, o condenou em uma carta dogmática dirigida aos bispos de Espanha.

[…] Félix se retratou, e depois voltou aos seus erros; Elipando, por sua vez, tendo enviado a Carlos Magno uma profissão de Fé que não era ortodoxa, fez esse príncipe reunir um Concílio em Frankfurt, em 794, no qual se condenou a doutrina de Félix e Elipando, o mesmo que no Concílio de Forli no ano de 795, e pouco tempo depois no Concílio celebrado em Roma sob o pontificado de Leão III.” (MORENO CEBADA, 1892, p.103, 104)

 

  1. O culto a Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo

Outra conclusão que a teologia chegou é que: o culto que se deve ao Homem-Deus, é o de látria absoluto que corresponde unicamente a Deus:

“A humanidade de Cristo veio a ser, pela união hipostática uma parte, em certo modo da pessoa do Logos e, por Ele, é adorada em e com o Logos. Ela é em si mesma objeto de adoração.” (OTT, 1997, p.253)

Uma prova do que acima ficou dito é que Nosso Senhor consentiu que as pessoas lhe prestassem tal culto, como O vemos na Sagrada Escritura aceitar as prosternações de joelho, que tinham um caráter de culto de adoração. (cf. Mt 28,9 e 17) Em São João 5, 23, Jesus reclama para si o culto que é devido ao Pai ao dizer “para que todos honrem ao Filho como honram ao Pai.” São Paulo também dá o mesmo testemunho ao afirmar em Filipenses 2, 10 “para que ao nome de Jesus se dobrem todos os joelhos” e na carta ao Hebreus 1, 6 testifica “Adorando-o todos os Anjos de Deus.”

E São Tomás o explica de forma caracteristicamente clara e brilhante:

“A adoração da carne de Cristo não significa senão a adoração do Verbo encarnado, assim como a reverência que se tributa às vestes reais não significa senão o respeito e submissão devidos ao rei que se veste das mesmas.” (S. Th. III, q.25, a. 2)

Alguns teólogos, dentre eles o Pe. Royo Marín, ao tratarem dessa adorabilidade do Homem-Deus denominam essa união intrínseca, que provem da união hipostática, de Graça de União. Essa graça existe pelo fato de que a união sobrenatural com Deus decorre da graça santificante. E os seres serão mais santos na medida que se unam mais com Deus, estabelecendo uma regra de três: maior graça, maior santidade, e vice e versa. Essa graça constitui a própria santidade substancial da humanidade de Cristo.

“Em virtude da união hipostática foi comunicada à humanidade de Jesus Cristo a santidade mesma do Verbo e é, por conseguinte, infinitamente santa, mesmo que prescindido da graça habitual ou santificante. […] A graça de união se estende a toda a humanidade de Cristo, ou seja, à alma e ao corpo.” (1961, p.70,72)

Dizendo de outra maneira, ao unir-se hipostaticamente com o Verbo de Deus, a humanidade Santíssima de Cristo (corpo e alma) ficou incorporada à mesma santidade do Verbo, não por uma informação do Verbo a humanidade de Cristo, mas sim em virtude do caráter substancial dessa união, isto recebe o nome de Graça de União. É por essa razão que a Igreja definiu que a própria carne de Cristo é Vivificante (D 123).

Porém um fato decorre disso. É que essa graça é única, e só existe na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, como nos diz o piedoso doutor Sauvé:

002“As coisas preciosas em si mesmas o são mais quando são raras. A graça de união é não tão somente rara, senão única […] esta graça é singular e incomunicável. […] A graça de união se estende a toda humanidade de Jesus. […] Do ato mais ordinário, por exemplo, do ato pelo qual cortava e ajustava em Nazaré um pedaço de madeira, devo crer que agradava soberanamente a Deus e que era infinitamente meritório. […] Cada contato de seu corpo era infinitamente santo. […] Cada um de seus movimentos era infinitamente santo. […] Cada gota de seu sangue é infinitamente santa. […] Cada um de seus sofrimentos ou de suas alegrias era infinitamente santo e capaz de santificar as alegrias ou os sofrimentos do mundo inteiro.” ( apud ROYO MARÍN, 1961, p.72-73)

Partindo dessas considerações teológicas, a piedade cristã foi com o passar do tempo, prestando cada vez mais o culto de latría à Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, sendo uns, desde a Idade Média, mais salientados do que outros, como por exemplo a devoção às cinco chagas, ao preciosissímo sangue, à santa face, à cabeça dolorida do Redentor e sobretudo ao seu Sagrado Coração.

Porém a Igreja, para evitar abusos e extremos que poderiam ridicularizar a Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo – como por exemplo o culto as sobrancelhas de Nosso Senhor – não permite o culto público de cada uma das distintas partes da humanidade de Cristo, senão que unicamente as que se relacionam diretamente com a sua Pessoa e com os mistérios da encarnação. (cf. De Guibert, Documenta ecclesiastica christianae perfectionis apud ROYO MARÍN,1967)

O fundamento dogmático de tal adoração – sobretudo ao Sagrado Coração – teve sua origem numa mística alemã da Idade Média, e se baseia no dogma da união hipostática. O papa Pio VI assim declarou: que o Coração de Jesus era adorado, não separadamente ou desligado da divindade senão como o Coração da Pessoa do Verbo, com a qual se acha inseparavelmente unido. (Dz 1563)

Tal devoção encontrou seu maior realce após as revelações feitas pelo próprio Sagrado Coração a Santa Margarida Maria Alacoque, e foi ainda mais propagada após as encíclicas Miserentissimus Redemptor (1928) e Caritate Christi compulsi (1932), de Pio XI, e Haurietis aquas (1956), de Pio XII.

 

Conclusão

Acabamos por ver brevemente qual o culto e a devoção que devemos ter à Pessoa adorável de Nosso Senhor Jesus Cristo, esperando que este artigo mais do que um mero acréscimo intelectual, produza isto sim um maior desejo de entrega a esse Coração que tanto amou o mundo, como Ele mesmo disse a Santa Margarida Maria Alacoque, e que robusteça a nossa fé ao culto de adoração que se deve ao Homem-Deus.

 

Pe. Millon Barros, EP

Bibliografia

 

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Tradução de Alexandre CORREIA. São Paulo: Faculdade de Filosofia “Sedes Sapientiae”, 1954.

BÍBLIA Sagrada. Tradução de Antonio Pereira de FIGUEIREDO. Lisboa: Great Britain, 1931.

MARÍN, Antonio Royo. Jesucristo y la Vida Cristiana. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1961.

MORENO CEBADA, Emilio D. Historia de las herejías. Barcelona: Imprenta de Ramón Inglanda, 1892.

OTTO, Ludwig. Manual de Teología Dogmática. 7.ed. Barcelona: Herder, 1997.

 

______________________

[1] v. gr. BOFF, Leonardo. Igreja: carisma e poder, 3ª ed., Petrópolis: Vozes, 1982.

FEBRIS, Reginaldo. A opção pelos pobres na Bíblia, São Paulo: Ed. Paulinas, 1991.

MATEOS, Juan. A utopia de Jesus, São Paulo: Paulus,1994.

NEUTZLING, Inácio. O reino de Deus e os pobres, São Paulo: Ed. Loyola, 1986.

PIXLEY, Jorge & BOFF, C. Opção pelos pobres, Petrópolis: Vozes, 1986.

VIGIL, José Maria (Org.). Opção pelos pobres hoje, São Paulo: Ed. Paulinas, 1992.

FERREIRA, Francisco A. As bem – aventuranças de Jesus. São Paulo: Santuário, 1999.

A virtude da Fortaleza em Nosso Senhor Jesus Cristo

001É comum nos depararmos com uma visão reducionista de Nosso Senhor Jesus Cristo. Muitos ao tentarem encontrar uma desculpa para justificar suas doutrinas miserabilistas, ou conformadoras com os defeitos e pecados do “próximo”, tentam transmitir uma visão apoucada e muitas vezes deturpada do Nosso Redentor.

É por causa disso que muitos defendem a “necessidade de perdoar” como sendo a única obrigatória; nunca recriminar, sempre ser condescendente com os defeitos do próximo. Porém não foi esse o ensinamento que o Divino Mestre deixou àqueles que com Ele conviveram, e, para perpétua memória, escreveram os Santos Evangelhos.

Por isso, pareceu-nos oportuno ressaltar através dessas linhas um aspecto do resplendor divino que brilhou na pessoa do Homem-Deus, e que hoje está posto de lado: a virtude da fortaleza. E a fim de silenciarmos o “romantismo religioso” que invade os meios católicos em nossos dias, trazemos a lume as palavras do grande líder católico brasileiro, o Professor Plinio Corrêa de Oliveira, que afirma:

“Fazemos a apologia de doutrinas de luta e de força, luta pelo bem é certo, e força a serviço da verdade. Mas o romantismo religioso do século passado desfigurou de tal maneira em muitos ambientes a verdadeira noção de Catolicismo, que este aparece aos olhos de um grande número de pessoas, ainda em nossos dias, como uma doutrina muito mais própria ‘do meigo Rabi da Galileia’ de que nos falava Renan – do taumaturgo um tanto rotariano por seu espírito e por suas obras, com que o positivismo pinta blasfemamente Nosso Senhor, parecendo ao mesmo tempo enaltecê-Lo – do que do Homem Deus que nos apresentam os Santos Evangelhos.” (1983, p. 283)

Para introduzir melhor o leitor no tema, colocamos uma breve descrição teórica da virtude da fortaleza, segundo o grande teólogo, Pe. Antônio Royo Marín, O.P.: “[a virtude da fortaleza é] uma virtude cardeal infundida com a Graça Santificante que inflama o apetite irascível e a vontade para que não desistam de conseguir o bem árduo ou difícil nem sequer pelo máximo perigo da vida corporal.” (1968, p. 588)

Em outras palavras, a virtude da fortaleza nos dá a força e a coragem necessárias para cumprirmos nosso dever, mesmo que isso seja muito difícil ou até mesmo que ponha em risco a vida material do homem, desde que o motivo seja sobrenatural. É o caso dos mártires, que preferiram morrer a renegar sua Fé.

Seria necessária uma explicação muito longa e detalhada para conhecermos todos os seus efeitos e virtudes derivadas. Mas para o efeito que nos propomos neste artigo, faremos menção apenas de duas virtudes, que são mais salientadas nos Evangelhos. Elas são a Paciência e Magnanimidade.

“A Magnanimidade é uma virtude que inclina a empreender obras grandes, esplêndidas e dignas de honra em todo gênero de virtudes.” (ROYO MARÍN, 1968. p. 590) Como sabemos, não foi outra coisa a vida do Verbo Encarnado nessa terra, realizar grandes obras.

Já a virtude da Paciência tem como objetivo inclinar a suportar sem tristeza de espírito nem abatimento de coração os padecimentos físicos e morais, e o principal motivo da paciência cristã é a conformidade com a vontade Divina, que sabe muito mais do que o homem. (cf. ROYO MARÍN, 1968, p. 592)

Agora, cabe-nos saber se o Bom Pastor possuiu e praticou essa virtude? Vejamos como o Pe. Anton Koch, S.I., nos descreve a cena da expulsão dos vendilhões do Templo:

“Duas vezes vemos relampejar de ira os olhos do Rei que havia de vir com mansidão (Mt 21, 5); duas vezes o doce Jesus descarrega o raio de uma cólera divina; mas duas vezes para purificar a casa de seu Pai […] Jesus acaba de inaugurar sua atividade pública com o milagre feito em Caná, no circulo familiar de umas bodas. Estando próxima a Páscoa, sobe a Jerusalém. E entra no Templo. E vê toda aquela profanação do lugar sagrado; O que veio para dar glória ao Pai se sente consumido pelo zelo de sua casa, e colhe umas cordas, as primeiras que encontra, forma com elas um açoite, e o faz relampejar no meio de toda aquela gente; expulsa do Templo os vendedores juntamente com seus animais, derrama o dinheiro dos cambistas, derruba as mesas e com voz de trovão, com voz de santa indignação clama ‘retirai isso daqui, e não façais da casa do meu Pai um covil de ladrões’.” (1954, p. 561-562)

Semelhante atitude de ira foi necessária na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, como nos aponta Karl Adam: “Semelhante querer, tão extraordinariamente concentrado e disciplinado, semelhante força de alma devia irromper também no exterior por alguma palavra dura, por alguma ação ousada, quando forças inimigas ou malévolas se lhe opusessem. Em Jesus não havia somente uma força contida, uma vontade determinada, mas um ardor entusiasta e uma santa paixão. Basta notar a emoção que trazem algumas de suas palavras e de suas ações: ‘Retira-te Satanás’ – é assim que repele com horror a aparição tentadora. […] ‘Retirai-vos de mim, obreiros da iniqüidade, não vos conheço!’, dirá no dia do Juízo aos que não tiverem socorrido cá na terra os irmãos em necessidade.” (1997, p. 17)

O mesmo autor lembra o grande número de parábolas nas quais se ressalta a ira do Divino Redentor: “É o raio que fulgura, é o trovão que explode, como na parábola do joio: ‘O Filho do homem enviará os seus anjos, e eles tirarão do seu reino todos os escândalos e todos os que praticam a iniqüidade, e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes’.” (1997, p. 18)

Porém, mais do que uma simples ira, o Mestre experimentou também o sentimento da cólera: “Os evangelistas nos falam da ‘cólera’ de Cristo: […] sobretudo quando os fariseus, na ‘cegueira do seu coração’, reagem contra qualquer ensinamento e se fecham num silêncio obstinado e desdenhoso. A contrariedade interior que experimentará, o seu senso de lealdade e de verdade feridos, o seu sentimento moral magoado explodirão nesses momentos em palavras fortes, mesmo duras. Falará de hipócritas, de serpentes, de raça de víboras. Não terá receio de qualificar como ‘raposa’ o próprio Herodes.

“Quando se tratava de dar testemunho da verdade, Jesus não sabia tergiversar nem fraquejar por medo. Tinha um caráter de lutador. Não se esquece de quem é nem se deixa arrastar. A sua cólera é sempre a expressão da mais alta liberdade, a expressão de um homem que tem consciência de ‘não ter vindo ao mundo senão para dar testemunho da verdade’.” (1997, p. 20-21)

Porém a sua cólera é a mais alta expressão da Temperança Divina, pois sendo a ira um instrumento da fortaleza, deve ser temperada e controlada pela razão. (cf. ROYO MARÍN, p. 589)

Tendo assim feito um rápido apanhado sobre a virtude da fortaleza na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, percebemos que o Homem Deus é realmente o Bom Pastor, mas também sabe corrigir as suas ovelhas, e aquelas que não quiserem escutar a sua voz serão tratadas como cabritos no dia do Juízo Final. (cf. Mt 25, 41).

É isso que, em outras palavras, afirmou Plinio Corrêa de Oliveira: “[…] Nosso Senhor não foi um doutrinador sentimental mas o Mestre infalível que, se de um lado soube pregar o amor com palavras e exemplos de uma insuperável e adorável doçura, soube, também pela palavra e pelo exemplo, pregar com insuperável e não menos adorável severidade o dever da vigilância, da argúcia, da luta aberta e rija contra os inimigos da Santa Igreja, que a brandura não puder desarmar.” (1983, p. 287)

Pe. Millon Barros de Almeida, E.P.

 

Bibliografia

ADAM, Karl. Jesus Cristo. 2 ed. São Paulo: Quadrante, 1997.

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica – Nº 20 – 2ª da 2ª Parte: Questões 123 – 170 – Da Coragem – Da Temperança. Tradução de Alexandre CORREIA. São Paulo: Faculdade de Filosofia “Sedes Sapientiae”, 1958.

CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Em defesa da ação católica. 2 ed. São Paulo: Artpress, 1983.

FERNÁNDEZ, Aurélio. Diccionario de Teología Moral. Burgos: Monte Carmelo, 2005.

KOCH, Anton, Pe. S.J.; SANCHO, Antonio, Dr. Can. Mag. Docete – Formación Básica del Predicador y del Conferenciante – Tomo II: El Hombre – Dios. Barcelona; Buenos Aires; Santiago de Chile; São Paulo; Bogotá: Herder, 1953.

KOCH, Anton, Pe. S.J.; SANCHO, Antonio, Dr. Can. Mag. Docete – Formación Básica del Predicador y del Conferenciante – Tomo V: El Hombre y Dios. Barcelona; Buenos Aires; Santiago de Chile; São Paulo; Bogotá: Herder, 1954.

MARÍN, Antonio Royo. El Gran Desconocido: El Espíritu Santo y sus dones. 2 ed. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2004.

MARÍN, Antonio Royo. Teologia de la perfección cristiana. 5 ed. Madrid: La Editorial Catolica, 1968.

De José a José: a escada da tipologia

Para ascender à cúpula da Basílica de São Pedro, a mais imponente da Cristandade, faz-se necessário o uso de uma escada. A forma curva do monumento impede a implementação de elevadores ou outros avanços da técnica. A cada um dos mais de duzentos degraus, quem vai subindo sente, ao mesmo tempo, o peso do cansaço e o alento da esperança: “Como será o panorama lá de cima?” No fim da árdua empresa, o prêmio compensa os esforços: a ampla visão da Cidade Eterna regala os olhos.

Basilica_Sao_PedroTambém Deus nosso Senhor, o pedagogo infinitamente sábio, leva os homens aos mais altos mistérios da Fé por meio de certos “degraus” por Ele estabelecidos, de modo a facilitar a escalada. Assim, antes da vinda do Messias, Javé multiplicou os sinais, os símbolos e as prefiguras d’Ele. Pensemos no Cordeiro imolado no culto mosaico e sua ligação simbólica com o Sacrifício do Calvário. O próprio Jesus foi chamado por São João Batista “Cordeiro de Deus”.

Também os privilégios de Nossa Senhora foram representados por grandes damas do Antigo Testamento: Maria, a irmã de Moisés, Judith, Esther, Débora e tantas outras. Cada uma delas, sob algum aspecto, foi depositária num grau menor, das perfeições que enriqueceriam de modo indizível a Virgem-Mãe. Tais personagens femininos estão em relação à Mãe de Deus, como tipos para com o arquétipo. Ela, bendita entre as mulheres, reúne em si as perfeições das mais eminentes figuras que a precederam.

Do mesmo modo, para abrir nossos corações ao mistério da santidade de São José, esposo de Maria e pai legal de Jesus Cristo, encontramos na Antiga Aliança uma figura atraentíssima e cheia de virtudes: José do Egito, filho de Jacó[1]. Ele foi tipo do varão perfeito, escolhido por Deus para uma missão de enormes proporções, como foi São José, filho de Davi.

Analisemos e confrontemos ambos os personagens, admirando e adorando a sabedoria e a força de Deus que os santificou e glorificou dessa maneira.

A predileção por José

José, filho de Jacó foi predileto de seu pai: “Israel amava José mais do que todos os outros filhos, porque ele era o filho de sua velhice; e mandara-lhe fazer uma túnica de várias cores” (Gen 37, 3). Sendo filho de Raquel, sua esposa preferida, e tendo nascido dela depois de um longo período de esterilidade, o afeto de Jacó por seu filho José era tenro e intenso, e o vestia com uma elegância e um luxo superior às roupas dos demais. Seus irmãos, ao perceberem esses sentimentos paternos, nutriam por ele uma obscura e sórdida inveja: “vendo que seu pai o preferia a eles, conceberam ódio contra ele e não podiam mais tratá-lo com bons modos” (Gen 37, 4).

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capa

 

Pe. Carlos Javier Werner Benjumea, EP

 

[1] A Tradição refere a São José a tipologia de José do Egito, pelo seu grande poder diante do Faraó, de modo a lograr assim a abundância de dons, o que evoca o poderoso patrocínio de São José para que nunca falte o pão da Palavra e da Eucaristia à Igreja. Cf. Ferrer Arellano, Joaquín. San José, nuestro padre y señor. Madrid: Arca de la Alianza, 2006, p. 25

Preparação para o Natal

001-Presepio
O tempo do Advento foi instituído pela Igreja, entre outros motivos, para lembrar a longa e multissecular preparação da humanidade com vistas a receber o Messias Salvador. A Liturgia é rica em mostrar os vaticínios dos profetas que descrevem, quase em minúcias, a missão do futuro Redentor. Ainda nesse tempo litúrgico ouvem-se, dos lábios da Esposa de Cristo, as súplicas dos justos do Antigo Testamento e os desejos ardorosos de todos os que esperavam a intervenção divina a favor do povo eleito.
Dessa forma, ao celebrar o Advento, os fieis contemplam maravilhados a obra da salvação iniciada por Deus em favor dos homens: assim que o primeiro casal foi expulso do Paraíso por causa do terrível pecado, o Altíssimo prometeu a vinda d´Aquela cujo calcanhar esmagaria a cabeça orgulhosa da serpente. É, realmente, no dia do Natal do Senhor que se cumpre com superabundância essa promessa de redenção.
Porém, a memória doce e suave do presépio de Belém, dos Anjos que cantam ao Divino Recém-nascido embalado com entranhado afeto nos braços da Virgem Mãe, não é o único horizonte do tempo do Advento. A Liturgia da Igreja leva o olhar dos católicos ainda mais longe. Ela mostra ao mesmo tempo a grandiosa vinda de Jesus Juiz, em glória e esplendor, rodeado de força e de poder, para ajustar as contas com a humanidade.
Essas duas vindas, a primeira na debilidade da carne, a segunda na força do juízo, formam um único quadro da história da salvação. Prescindir de uma delas seria ter uma fé caolha. Assim, a saudosa consideração daquela atmosfera diáfana e suave em torno de um Menino deitado na manjedoura em Belém se completa com a visão de um Cristo majestoso, Juiz da História. Com efeito, se Deus quis fazer-se pequeno, não foi senão para poder engrandecer o homem, abrindo-lhe as portas da vida eterna, à qual terá acesso mediante o assombroso Juízo.
002-Juiz
Esse tema merece uma atenção e um aprofundamento especiais. Trata-se de adestrar nossos corações a viver na perspectiva das duas vindas de Jesus, uma já ocorrida na pobreza e na bondade e outra ainda por dar-se na força e no poder, para conceder à humanidade o prêmio e o castigo eternos.
Nada melhor para isso do que recorrer a São Tomás de Aquino. Mas não tanto ao Tomás teólogo quanto ao Tomás pregador. De fato, o Doctor Communis não só ilustrou com sua sabedoria angélica os corações dos alunos de Paris, mas soube comover também, e até às lágrimas, assembleias repletas de fieis que escutavam suas pregações. Em uma de suas homilias, dedicada ao 1º Domingo do Advento, ele tece uma série de considerações muito úteis a fim de preparar os ouvintes de modo conveniente para as festas natalícias.
O título dado posteriormente ao sermão é Veniet desideratus. O pregador baseia suas considerações em torno da profecia de Ageu (2, 8): “Virá o desejado de todas as nações e encherá de glória este Templo”. Sem renunciar àquela lógica límpida que o caracteriza, São Tomás faz brilhar seu espírito contemplativo e sua aptidão para interpretar as Escrituras Santas, por ele conhecidas par coeur.
Eis o trecho escolhido para esta reflexão: a vinda do Filho de Deus preenche o desejo dos patriarcas.
“O profeta mostra que Deus cumpre misericordiosamente o desejo dos padres: Ele é o desejado de todas as nações. O homem estava, com efeito, enfermo de uma ferida incurável, oprimido por uma tirania irremediável, sedento de uma sede inextinguível. Por essa razão, como um enfermo, ele desejava o remédio para a saúde; como um oprimido, ele precisava de um Mestre doce; e, como um sedento, ele aspirava à nascente de uma fonte; era assim que o gênero humano desejava a vinda do Salvador.
“ ‘Desde a planta dos pés até o alto da cabeça, não há nele coisa sã. Tudo é uma ferida, uma contusão, uma chaga viva, que não foi nem curada, nem ligada, nem suavizada com óleo (Is 1, 6); Por que não tem fim a minha dor e não cicatriza a minha chaga rebelde ao tratamento?’ (Jer 15, 18) Eis porque o gênero humano desejava tanto o remédio da saúde: ‘Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como aqueles diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele’ (Is 53, 2.3).
“O homem estava também oprimido por uma intolerável tirania: na verdade, ele havia sido entregue a seus inimigos como um ser nocivo: ‘Israel rejeitou o bem, o inimigo o persegue’ (Os 8, 3); ‘Quando o Senhor te tiver aliviado de tuas penas, de teus tormentos e da dura servidão a que estiveste sujeito…’ (Is 14, 3). Por esse motivo, eles desejavam um bom mestre: ‘Seu aspecto é como o do Líbano, imponente como os cedros. Sua boca é cheia de doçura, tudo nele é encanto. Assim é o meu amado, tal é o meu amigo, filhas de Jerusalém!’ (Ct 5, 15-16); ‘As nações tremendo sairão de seus retiros e virão amedrontadas para o Senhor nosso Deus; e elas vos temerão’ (Mq 7, 17).
“O homem estava também afetado por uma sede inextinguível, porque a privação da graça sacramental o havia secado: ‘Pode o papiro crescer fora do brejo, o junco germinar sem água?’ (Jó 8, 11). É uma alusão ao povo a quem falta a água no deserto; eis o motivo pelo qual ele deseja a nascente da fonte: ‘Como a corça anseia pelas águas vivas, assim minha alma suspira por vós, ó meu Deus’ (Sal 41/42, 2).
“Era, portanto, a Ele mesmo que eles desejavam, como mostram seus profundos suspiros: ‘Inclinai, Senhor, os vossos céus e descei’ (Sl 143, 5); ‘Oh! Se rasgásseis os céus, se descêsseis’ (Is 64, 1); e ainda: ‘Minha alma vos deseja durante a noite e meu espírito vos procura desde a manhã’ (Is 26, 9). Eles também imploravam sua vinda, como mostra a frequência de suas orações: ‘Despertai vosso poder e vinde salvar-nos’ (Sl 79, 3). Eles O esperavam do mesmo modo como mostram os signos da divina revelação: ‘Seguindo a vereda de vossos juízos, Senhor, nós vos esperamos; por vosso nome e vossa memória nossa alma aspira’ (Is 26, 8); ‘Eu, porém, volto meus olhos para o Senhor, ponho minha esperança no Deus de minha salvação; meu Deus me ouvirá’ (Mq 7, 7). Ele O amavam assim como atesta a excelência de seu louvor: ‘Mas tu, Belém-Efrata, tão pequena entre os clãs de Judá, é de ti que sairá para mim aquele que é chamado a governar Israel’ (Mq 5, 1).
A descrição feita por São Tomás do estado de alma do homem antes da vinda de Cristo é de uma beleza e de uma precisão admiráveis. O homem da Antiga Aliança era enfermo, escravo e padecia de uma sede insaciável, e por isso desejava o Messias, clamava a Deus por Ele e O amava com grande afeto, mesmo ainda sem conhecê-Lo. Os justos padeciam uma grande necessidade, remediada por Deus mediante a promessa da vinda do Messias, pela qual suspirava o resto de Israel com fervorosa esperança.
A expectativa da salvação, porém, não cessou depois do nascimento de Jesus, mas ficou ainda mais viva. Com efeito, antes da vinda de Cristo esperava-se a abertura das portas do Céu, todavia, depois de sua Ascensão à direita do Pai, os cristãos esperam eles mesmos conquistar com Cristo a salvação definitiva. Na primeira vinda de Jesus, os homens viram clara a meta eterna e sobrenatural, contudo, depois da segunda, os que tiverem sido fieis alcançarão a felicidade plena ao ver seus corpos ressurrectos e transfigurados unidos às almas já felizes na eterna visão.
003-Fra_Angelico
São João, na sua primeira epístola, bem descreve essa realidade. Ele parte do entusiasta reconhecimento do dom da filiação recebido pelos cristãos: “Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato”. E um pouco mais adiante completa a ideia dizendo que “desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto O veremos como Ele é” (1Jo 3, 1-2). Ou seja, a filiação recebida em Cristo é como uma semente – assim mesmo o explica Jesus na parábola do semeador (cf Mt 13, 1-23) – a qual deve desenvolver-se em meio a dificuldades e riscos, antes de dar fruto. Igualmente o esclarece São Pedro em sua primeira epístola, ao apontar a esperança nova trazida por Cristo, capaz de fortalecer os ânimos com vistas às mais variadas provações: “Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Na sua grande misericórdia Ele nos fez renascer pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos para uma viva esperança, para uma herança incorruptível, incontaminável e imarcescível, reservada para vós nos céus. É isto o que constitui a vossa alegria, apesar das aflições passageiras a vos serem causadas ainda por diversas provações” (1Pe 1, 3-4.6).
Desse modo, pode-se dizer que os batizados foram curados da ferida mortal do pecado de Adão, mas ainda lutam contra as más inclinações das paixões desordenadas: “Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não abuseis, porém, da liberdade como pretexto para prazeres carnais. Pelo contrário, fazei-vos servos uns dos outros pela caridade. Digo, pois: deixai-vos conduzir pelo Espírito, e não satisfareis os apetites da carne. Porque os desejos da carne se opõem aos do Espírito, e estes aos da carne; pois são contrários uns aos outros” (Gal 5, 13.16-17); eles também foram ilustrados pelos ensinamentos de Cristo e libertos por Ele das correntes da escravidão, mas devem estar vigilantes contra as insídias do demônio, do mundo e da carne, evitando cair num estado de malícia pior que o anterior: “Com efeito, se aqueles que renunciaram às corrupções do mundo pelo conhecimento de Jesus Cristo nosso Senhor e Salvador nelas se deixam de novo enredar e vencer, seu último estado torna-se pior do que o primeiro. Melhor fora não terem conhecido o caminho da justiça do que, depois de tê-lo conhecido, tornarem atrás, abandonando a lei santa que lhes foi ensinada. Aconteceu-lhes o que diz com razão o provérbio: O cão voltou ao seu vômito (Pr 26,11); e: A porca lavada volta a revolver-se no lamaçal” (1Pe 2, 20-22); por último, a sede dos batizados é ainda mais intensa que a dos antigos, pois, tendo provado o frescor das águas batismais, desejam aquele manancial puríssimo da vida eterna capaz de selar de modo definitivo a sua sede de infinito: “Quem beber da água que Eu lhe der jamais terá sede, mas a água que Eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna” (Jo 4, 14) e, ainda, aquilo que diz o mesmo São Paulo: “Para mim viver é Cristo e morrer um lucro” (Fil 1, 21).
Por isso mesmo, tal como os justos da Antiga Lei, e quiçá com maior intensidade e fogo ainda, os batizados, já regenerados por Cristo, devem desejar as coisas do Céu: “Portanto, visto que fostes ressuscitados com Cristo, buscai o conhecimento do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus” (Col 3 ,1); devem implorar sua salvação definitiva: “Trabalhai na vossa salvação com temor e tremor, a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes, filhos de Deus íntegros no meio de uma sociedade depravada e maliciosa, onde brilhais como luzeiros no mundo, a ostentar a palavra da vida” (Fil 2, 13.15-16); devem esperar o dia do Juízo como o da própria libertação: “Quando começarem a acontecer estas coisas [os sinais da vinda gloriosa do Senhor], reanimai-vos e levantai as vossas cabeças, porque se aproxima a vossa libertação” (Lc 21, 28); e devem amar sobretudo Cristo, que é a estrada e a meta definitiva: “Peço, na minha oração, que a vossa caridade se enriqueça cada vez mais de compreensão e critério, com que possais discernir o que é mais perfeito e vos torneis puros e irrepreensíveis para o dia de Cristo, cheios de frutos da justiça, que provêm de Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus” (Fil 1, 9-11).
Preparemo-nos, pois, com redobrado empenho e fervor para o Santo Natal, com as nossas almas vigilantes na espera do Cristo que virá julgar o mundo, premiando os bons e punindo os maus. Amemos o nosso Salvador e a salvação definitiva que nos promete se formos fieis às suas palavras, porque, se Lhe damos o nosso coração, como não O anunciaremos ao mundo?

Pe. Carlos Javier Werner Benjumea
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