Rainha dos Anjos

“Tu o dizes! Eu sou Rei!” (Jo 18, 37).

Tudo que toca na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo tem uma grandeza deslumbrante, pelo simples fato de que Ele é Deus. Mas, de todas as cenas narradas nos Evangelhos, talvez seja esta, a do diálogo com Pilatos, a que mais deixa transparecer essa qualidade tão pouco apreciada em nossos dias: a grandeza.

Jesus está numa situação de terrível humilhação. Preso, tratado como um criminoso, de mãos atadas, submetido a todo tipo de vexações e apresentado na qualidade de réu ao representante de Roma, o maior poder político e militar da época. Pilatos tinha a segurança de quem estava na posição de dominador, com a capacidade de exercer todo tipo de arbítrio sobre os que lhe estavam subordinados. Até já se tinha tornado célebre entre os judeus por sua crueldade.

Podemos imaginar o assombro de Pilatos, ao ouvir a resposta de Jesus: “O meu Reino não é deste mundo; se meu Reino fosse deste mundo, os meus servos lutariam para que Eu não fosse entregue aos judeus; mas o meu Reino não é daqui” (Jo 18, 36). Ele percebia que em Jesus havia um mistério que fugia totalmente à sua compreensão humana e que Nosso Senhor dizia a verdade. Ele era de um Reino que não era deste mundo, e era Rei.

Jesus diante de Pilatos. Museu de Arte Sacra, Evora, Portugal.
Jesus diante de Pilatos. Museu de Arte Sacra, Evora, Portugal.

Noutras ocasiões os judeus quiseram aclamá-Lo Rei, mas Ele havia recusado, esquivara-Se. Agora, diante de Pilatos, do representante de Roma, declara-Se Rei. Sua atitude pode até causar certa perplexidade. Jesus vinha para uma missão exclusivamente espiritual: libertar a humanidade do pecado, através do sacrifício redentor da Cruz. Por que agora Ele se empenha em declarar sua condição real? Não bastaria afirmar apenas que era o Messias, o Filho de Deus?

Essa declaração marcou o espírito de Pilatos a fundo. Pode-se imaginar a atitude, o olhar e a entonação de voz de Jesus, grave, pausada e serena, ao responder ao tribuno romano. “Tu o dizes, Eu sou Rei!”

E, de fato, Jesus é Rei no sentido pleno do termo. Ele é o Rei dos reis. D’Ele, enquanto Verbo de Deus encarnado, toda autoridade deriva, como se constata no segundo diálogo com Pilatos: “Nenhum poder terias sobre Mim se não te fosse dado do Alto” (Jo 19, 11).

Mas, além de sua condição divina, existem outros atributos pelos quais Jesus possa ser considerado Rei? Ele o era, em primeiro lugar, por direito de sucessão, por ser da casa de David, segundo as palavras do Arcanjo Gabriel a Nossa Senhora: “darás à luz um Filho […] será chamado Filho do Altíssimo e o Senhor lhe dará o trono de seu pai David; reinará sobre a casa de Jacó, e seu reino não terá fim. […] Será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 31-33).

Ele também era rei por direito de conquista. Com efeito, pela falta de Adão, a humanidade vivia sob a escravidão do pecado, sob o domínio de satanás e estava-lhe vedado o acesso ao Céu. Pelo sacrifício da Cruz, Nosso Senhor resgatou o gênero humano da dívida do pecado, deu aos homens a possibilidade de se tornarem filhos de Deus, através do Batismo, e poderem fazer parte do Reino de Deus, do qual Jesus é Rei. Por isso, Ele declara a Pilatos: “O meu Reino não é deste mundo.” (Jo 18, 36) Sua realeza, espiritual, e mais efetiva do que a temporal, era sobre o Reino de Deus, de caráter sobrenatural. Compreende-se então que as profecias sobre o Messias falassem de um reino eterno que não seria destruído (Cf Dn 7, 14; Mq 4, 7).

Também os Magos chegaram a Jerusalém à procura do Rei dos judeus que acabara de nascer (Cf Mt 2, 2). Os sacerdotes e os escribas consultados por Herodes logo veem que se trata do Messias e citam a conhecida profecia de Miqueias sobre o lugar do nascimento do Salvador: “E tu Belém […] de ti sairá para mim Aquele que governará Israel” (Mq 5, 1).

Não resta dúvida que Jesus é verdadeiramente, e no sentido pleno da palavra, Rei! Desta sublime verdade, a realeza de Cristo, decorre outra não menos bela: Maria é Rainha! Sob a perspectiva sobrenatural a situação de Nossa Senhora, a partir da Anunciação, mudara completamente. A humilde Virgem de Nazaré foi posta no coração da obra redentora, numa relação de proximidade com Deus, única na história, sendo elevada assim, acima dos Anjos, pois se tornara Mãe de Deus. É este o principal fundamento de sua realeza. A Graça que recebeu pela maternidade divina elevou-A tão acima de todas as outras criaturas, inclusive dos Anjos, que Ela é Rainha natural de todo o Universo.[1]

Já os Padres da Igreja A consideravam soberana. Santo Efrém, um dos principais teólogos do século IV, não deixa margem à dúvida quando A invoca nos termos: “…Virgem augusta e protetora, Rainha e Senhora, protege-me à tua sombra, guarda-me, para que satanás, que semeia ruínas, não me ataque, nem triunfe de mim o iníquo adversário”.[2]

Santo André Cretense, nascido no século VII, considerado um dos grandes escritores bizantinos, assim declara a respeito da realeza de Maria: “Rainha de todo o gênero humano, porque, fiel à significação do seu nome, se encontra acima de tudo quanto não é Deus”.[3]

Não foi menos categórico o Magistério da Igreja. Com o poder das sagradas chaves de Pedro, Pio XII declara a esse respeito: “[…] Maria é Rainha, por ter dado a vida a um Filho, que no próprio instante da sua concepção, mesmo como homem, era rei e senhor de todas as coisas, pela união hipostática da natureza humana com o Verbo. Por isso muito bem escreveu São João Damasceno: ‘Tornou-se verdadeiramente Senhora de toda a criação, no momento em que se tornou Mãe do Criador’. E assim o Arcanjo Gabriel pode ser chamado o primeiro arauto da dignidade real de Maria”.[4]

Mas além de ser Rainha por sua predestinação, Ela o é também por direito de conquista, tal como seu Divino Filho. Morrendo na Cruz, Jesus Cristo derrotou o poder de satanás, venceu o inimigo infernal que subjugava a humanidade, a qual fora prostrada na pessoa de Adão. Entretanto, pela vontade de seu Filho, a participação de Maria Santíssima nessa vitória foi tão íntima, inseparável da divina vítima imolada, que também, e a justo título, devemos considerá-La como Rainha por direito de conquista. E essa vitória d’Ela sobre a serpente já estava prenunciada pelo próprio Deus: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Ela te esmagará a cabeça” (Gn 3, 15).

Não é concebível que Nossa Senhora ignorasse o que aconteceria com seu Filho. Ela conhecia todos os sofrimentos pelos quais, com sua aceitação, Ele iria passar. “Quando estava ao pé da Cruz, o Padre Eterno pediu-Lhe consentimento para que Nosso Senhor Jesus Cristo fosse morto. Ela que poderia ter dito não — o Padre Eterno estava querendo pôr nas mãos d’Ela o destino de seu Filho — disse sim. Disse sim para salvar as almas dos homens. Se Ele não morresse, não haveria Céu para nós.

“Nessa hora em que Ela disse sim, Ele ficou entregue aos horrores da morte. Ela viu seu Filho dizer ao Padre Eterno: ‘Meu Pai, meu Pai, por que me abandonastes?’ O que tinha um pouco o sentido: ‘Minha Mãe, minha Mãe, por que consentistes?’ Mas Ela quis. E quando Ele expirou, o gênero humano estava redimido”.[5]

Maria demonstrou assim seu amor por nós aceitando entregar seu Filho Unigênito à ignominiosa morte na Cruz. “No altar do Gólgota, podemos observar três amores participando do mesmo sacrifício. Para a salvação do mundo, o Padre Eterno entregou seu Unigênito Filho; o Verbo Encarnado, sua própria vida, e a Virgem, seu Filho adorado. Não temos senão um único Redentor, o Cordeiro imolado sobre a Cruz; é justo. Mas, a Mãe admirável que O educou para o Calvário e que, chegado o momento, formada e preparada por Ele, O ofereceu por nosso resgate, num mesmo ideal de amor, esta Mãe não tem direito ao título de Corredentora?”[6]

Ora, sob esse aspecto, sua realeza se estende também aos Anjos. Em primeiro lugar porque sendo Corredentora tornou-Se Mãe da Divina Graça, obtida por Cristo na Cruz, em previsão da qual os Anjos venceram a prova e entraram na visão beatífica. E em segundo lugar, porque foi Ela quem, à frente dos Anjos, triunfou definitivamente sobre os demônios, conquistando assim a supremacia sobre eles.

Mais uma vez a sagrada voz do Magistério, nos lábios de Pio XII, confirma esta verdade: “Se Maria, na obra da salvação espiritual, foi associada por vontade de Deus a Jesus Cristo, princípio de salvação, e o foi quase como Eva foi associada a Adão, princípio de morte, podendo-se afirmar que a nossa Redenção se realizou segundo uma certa ‘recapitulação’, pela qual o gênero humano, sujeito à morte por causa duma virgem, salva-se também por meio duma Virgem; se, além disso, pode-se dizer igualmente que esta gloriosíssima Senhora foi escolhida para Mãe de Cristo ‘para lhe ser associada na Redenção do gênero humano’, e se realmente ‘foi ela que – isenta de qualquer culpa pessoal ou hereditária, e sempre estreitamente unida a seu Filho – O ofereceu no Gólgota ao eterno Pai, sacrificando juntamente, qual nova Eva, os direitos e o amor de mãe em benefício de toda a posteridade de Adão, manchada pela sua desventurada queda’ poder-se-á legitimamente concluir que, assim como Cristo, o novo Adão, deve-se chamar Rei não só porque é Filho de Deus mas também porque é nosso redentor, assim, segundo certa analogia, pode-se afirmar também que a Bem-Aventurada Virgem Maria é Rainha, não só porque é Mãe de Deus mas ainda porque, como nova Eva, foi associada ao novo Adão”.[7]

Coroação de Maria Santíssima. Mosaico da fachada da Catedral de Siena, Itália.
Coroação de Maria Santíssima. Mosaico da fachada da Catedral de Siena, Itália.

O Homem-Deus, por ser seu filho, sujeitava-Se à autoridade desta humilíssima Rainha. Aquele que é o Soberano e Senhor da coorte celestial, a quem os Anjos louvam e servem, submete-Se durante trinta anos a sua Mãe Santíssima. Por espírito de respeito pela hierarquia celeste, também os Anjos se submeteram ao senhorio dessa admirável Senhora, sôfregos de atenderem seus mínimos desejos e levarem ante o trono do Altíssimo suas onipotentes preces, pois queriam obedecer-Lhe à imitação do Filho de Deus. E uma vez assumpta ao Céu, não pode Ela ter perdido os privilégios concedidos pela Santíssima Trindade, já nesta vida. Pelo contrário, seus poderes reais foram ampliados. É por essa razão que os fieis devem acudir a Ela, enquanto a misericordiosa Rainha dos Anjos, pedindo seu auxílio e proteção. A oração do venerável Pe. Luís Eduardo, composta sob inspiração da mesma Virgem, é, fora de dúvida, um excelente meio de suplicar a intervenção da Rainha dos Anjos, e de seus angélicos súditos:

“Augusta Rainha dos Céus e soberana dos Anjos, Vós que desde o primeiro instante de vossa existência recebestes de Deus o poder e a missão de esmagar a cabeça de satanás, humildemente vo-Lo pedimos: enviai as legiões celestes dos Anjos a perseguirem os demônios, por vosso poder e sob as vossas ordens, combatendo-os em toda parte, repreendendo-lhes as insolências e lançando-os nas profundezas do abismo. Quem como Deus? Santos Anjos e Arcanjos, defendei-nos e guardai-nos. Ó boa Mãe e tão terna, sede sempre o nosso amor e nossa esperança. Ó Mãe Divina, mandai-nos os vossos Santos Anjos que nos defendam e repilam para bem longe de nós o maldito demônio, nosso cruel inimigo. Amém”.[8]

Assim, encerra-se este livro, fazendo ao leitor um convite: seja cada vez mais devoto dos Santos Anjos e de sua Rainha. E peça a Ela que envie a celeste milícia em auxílio de seus filhos, a fim de expulsar da face da Terra todos os demônios que estão espalhados pelo mundo, procurando fazer mal às almas.

 

Extraído de “A Criação e os Anjos” (Coleção Conheça sua Fé, do Seminário dos Arautos do Evangelho)

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[1] Cf Ángel Herrera Oria. La Palabra de Cristo. Madrid: BAC, 1954. v. 10, p. 417-418

[2] Santo Efrém, apud Encíclica Ad Caeli Reginam, n. 10.

[3] Santo André Cretense, apud Encíclica Ad Caeli Reginam, n. 17.

[4] Pio XII. Encíclica Ad Caeli Reginam, n. 33.

[5] Plinio Corrêa de Oliveira. São Paulo, 21 out. 1989. Conferência. (Arquivo ITTA-IFAT).

[6] Henry Pinard de La Boullaye. Marie, Chef-d’Oeuvre de Dieu. Paris: Spes, 1948, p. 115-116.

[7] Pio XII. Encíclica Ad Caeli Reginam, n. 36.

[8] Plinio Corrêa de Oliveira. São Paulo, 22 jul. 1967. Conferência. (Arquivo ITTA-IFAT).

A Mãe de Deus deveria ter sido concebida com a plenitude de graças?

Nossa Senhora das Graças
Nossa Senhora das Graças, Basílica de Nossa Senhora de Fátima, Arautos do Evangelho. São Paulo – Brasil

Luz tênue, igreja praticamente vazia, poucos ruídos. É fim de tarde na católica cidade de Granada. No recinto sagrado, nota-se que ainda há um sacerdote no confessionário, à disposição de alguém desejoso de ver purificada sua alma.

Enquanto ele termina a última oração de seu breviário, um jovenzinho se acerca, e, como de costume naquela varonil nação, ajoelha-se cara-a-cara com o ministro de Deus. Não havia dúvida, o rapaz queria confessar-se.

Espanha foi um dos países que mais batalhou por defender a proclamação do Dogma da Imaculada Conceição, e, por isso, para o padre testificar a qualidade da devoção mariana na alma do penitente, logo que este se ajoelha, diz o sacerdote: “¡Ave María puríssima!” ao que se deve responder: “¡Sin pecado concebida!”.

Sabia o rapaz a bela resposta, e assim não hesitou em dizê-la… Mas o frade, olhando-o com exigência, afirmou: “¡No! Contésteme: ‘¡En Gracia concebida!’”.

Esse pequeno episódio revela uma grande verdade teológica: que Cristo tenha purificado sua Mãe Santíssima do Pecado Original, sabemos pelos lábios do Beato Pio IX, quando proclamou o Dogma da Imaculada Conceição, pela Bula Ineffabilis Deus, em 8 de Dezembro de 1854. Contudo, o “aspecto negativo” – por assim dizer – do Dogma é ter sido concebida sem pecado. Há o aspecto positivo do mesmo, ou seja, que Maria Santíssima foi concebida em Graça. De maneira que desde o primeiro instante de sua existência, o Espírito Santo escolheu Maria como Templo para habitar, enriquecendo-a com os seus dons, virtudes e carismas.

Entretanto, Cristo não Se contentou apenas com isso. Como se fosse pouco, fez com que Maria Santíssima tivesse tal plenitude de graças já no primeiro instante de sua concepção, que superasse a plenitude de graças de todos os Anjos e Santos reunidos. Essa doutrina, que o renomado dominicano espanhol Pe. Antonio Royo Marín qualifica como “completamente certa em Teologia”, tem suas provas nas Sagradas Escrituras, no Magistério e na especulação teológica. É seguindo os ensinamentos desse teólogo, o qual se apoia na doutrina de São Tomás, que contemplaremos essa bela verdade.[1]

Tal verdade é insinuada nas páginas sagradas quando o Arcanjo São Gabriel saúda a Virgem: “Ave Maria, cheia de Graça” (Lc 1,28). O ser “cheia”, “plena” de Graça, não admite restrição no tempo, de modo que o Anjo quisesse dizer que naquele momento estava Ela repleta de graças, mas não antes nem depois.

Se apelarmos ao Magistério, na mesma definição do Bem-aventurado Pio IX sobre a Imaculada Conceição, encontramos essas palavras tão significativas: “[Deus] tão maravilhosamente cumulou-A da abundância de todos os celestiais carismas, tirada do tesouro da divindade, muito acima dos anjos e santos, [que Ela] manifestasse tal plenitude de inocência e santidade que não se concebe de nenhum modo maior depois de Deus…”[2]

Mas, abeberando-nos das fontes escriturísticas, e das definições do Magistério, encontramos belíssimas razões teológicas de conveniência para que Maria Santíssima fosse cumulada de graças desde o primeiro instante.

Sede da Sabedoria
Nossa Senhora Sede da Sabedoria

São Tomás argumenta dizendo que quanto mais algo se aproxima do princípio de uma ordem, tanto mais terá uma participação e semelhança com aquele princípio. Exemplifiquemos: quanto mais nos aproximamos do fogo, princípio do calor, tanto mais nos esquentaremos. Assim também acontece com a ordem sobrenatural: quanto mais nos aproximemos de Deus, tanto mais participaremos de seus dons. Ora, quem mais próximo de Deus, que Aquela que foi Mãe de Deus, dando ao Verbo a natureza humana para que Ele se encarnasse? Ademais, Nossa Senhora portou em si a Cristo, o qual teve a plenitude de graças, pois era o próprio autor da Graça. Maria Santíssima foi a Mãe do Autor da Graça, e por isso Ela foi cumulada e cheia de Graça, cuja plenitude supera a de todas as demais criaturas.[3]

Caso alguém objetasse que Ela não esteve unida a Cristo desde seu primeiro instante de existência, alegaríamos que isso não importa quanto à posse de tal plenitude, pois a Virgem estava predestinada desde toda a eternidade para ser Mãe de Cristo.[4]

Por que podemos afirmar que a plenitude de Graça em Maria, é maior que a dos Anjos e dos Santos reunidos? A razão é simples: a Graça é feito do amor de Deus. Ora, Maria Santíssima foi amada desde o primeiro instante de sua concepção, mais que os Anjos e Santos, visto que só a Ela foi concedida a graça de ser Mãe de Deus. Logo, essa plenitude de Graça é maior que a de todas outras criaturas.

É evidente que a plenitude de Graça em Maria não foi idêntica à plenitude de Graça de seu Filho, pois Ele é o Autor da Graça. Cristo tinha a plenitude absoluta, e Maria a tinha de modo relativo, ou seja, por estar intimamente unida a seu Divino Filho. Destarte, a Santíssima Virgem sempre estava cheia de Graça, e sempre crescendo em Graça, pois Deus lhe aumentava a capacidade. Já sobre isso o Rei Davi profetizava acerca de sua Filha e de sua Mãe: “Seu vigor aumenta à medida que avançam…” (Sl 83,8). Dizem os teólogos, que inclusive durante o sono Maria Santíssima aumentava em Graça, pois possuía a ciência infusa, a qual, mesmo durante o repouso, trabalhava santamente.

O Doutor Angélico ao tratar da plenitude de Graça em Nossa Senhora, faz uma distinção esclarecedora: Maria teve uma plenitude inicial, no momento de sua concepção: era plena; teve a plenitude perfectiva, quando se operou n’Ela a Encarnação do Verbo, aumentando claramente a Graça Santificante; e por fim, tem Ela a plenitude final, na eternidade.[5] Cumpre dizer que esse privilégio de ter a plenitude inicial, com exceção de Cristo seu Filho, somente Ela teve.

Assim sendo, quão bela, santa e perfeita morada preparou Cristo Senhor para Si: impossível mais perfeita. Deus esgotou sua capacidade de perfeição em uma criatura, de maneira que Maria transcende os outros santos, como o Céu transcende a Terra. Maria Santíssima é a montanha preferida na qual Deus quis erigir sua habitação: “Montes escarpados, por que invejais a montanha que Deus escolheu para morar, para nela estabelecer uma habitação eterna?” (Sl 67).

 

Pe. Felipe Garcia Lopez Ria, EP

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[1] ROYO MARIN, Antonio. Jesucristo y la vida Cristiana. Madrid: BAC, 1960. p.224-227.

[2] PIO IX. Ineffabilis Deus. 8 de Dezembro de 1854. AAS 1/1,597s; (DH 2800).

[3] Cf. III, q.27, a.5. resp.

[4] “Deus inefável… elegeu e ordenou para seu Filho Unigênito, desde o princípio e antes de todos os séculos, uma Mãe…” (PIO IX. Ineffabilis Deus. Loc.cit.)

[5] S.Th. III, q.27. a.5. ad 2.

Mãe do Bom Conselho

A pintura, aplicada sobre delgada crosta de reboco, de trin­te e um centímetros de largura por quarenta e dois centímetros e meio de altura,[1] retrata Maria Santíssima com inefável e materna ternura, amparando em seus braços o Menino Jesus, ambos enci­mados por um singelo arco-íris. As cores do afresco são suaves, e finos os traços dos admiráveis semblantes.

Capela onde se encontra o afresco da Mãe do Bom conselho, Genazzano, Itália
Capela onde se encontra o afresco da Mãe do Bom conselho, Genazzano, Itália

“O magnum Mysterium!” — canta a Igreja no responsório das Matinas de Natal. Deus e Homem, hipostaticamente uni­dos! Seriedade e doçura, majestade e candura maravilhosamen­te expressas na fisionomia de uma criança.

Analise-se mais detidamente este quadro do Divino Infan­te. O nariz sem sinuosidades lembra a suprema retidão d’Aquele que é o Sol de Justiça. Seus olhos comunicativos, ligeiramente amendoados, de um castanho suave e luminoso, com certo matiz de verde, irradiam paz, ilimitada bondade, infinita sabedoria.

Detalhe dos olhos do Menino Jesus
Detalhe dos olhos e do nariz do Menino Jesus

Atrai agradavelmente a vista sua túnica vermelho-ocre, em cuja gola se destacam bordados harmoniosos e enigmáticos. Me­ro ornato? Ou quiçá alguma palavra em idioma desconhecido, alusiva à sua missão?

Num gesto de intenso afeto, transbordante de amor, Ele envolve com a mão direita o nobre e delicado pescoço de sua Mãe, enquanto com a esquerda segura energicamente a parte superior do vestido d’Ela, como a dizer: “Sois toda minha!” É tão categórico esse comovedor e divino amplexo, que sua vista direita parece levemente desviada da linha normal, pela ênfase com que Ele estreita sua face à de sua Mãe Santíssima.

Detalhe da mão do Menino Jesus
Detalhe da mão do Menino Jesus

Sem deixar de exprimir em nada a fisionomia própria de uma criança, o Divino Infante não denota, entretanto, a me­nor superficialidade, tão característica dessa fase da vida. Pelo contrário, como um oceano de seriedade, transparece n’Ele to­da a profundidade e amplitude do entendimento, toda a força da vontade, toda a elevação e nobreza do sentir. E tem a mais alta consciência do que representa sua Mãe, do paraíso inte­rior que Ela Lhe oferece.

Jesus Menino contempla, num olhar abarcativo, o passado, o presente e o futuro. Analisa toda a obra da criação, em toda a sua variedade e esplendor. Vê a revolta de Lúcifer e o proelium magnum — a grande peleja na qual São Miguel precipita no inferno satanás e os outros espíritos rebeldes.

"Jesus Menino contempla, num olhar abarcativo, o passado, o presente e o futuro"
“Jesus Menino contempla, num olhar abarcativo, o passado, o presente e o futuro”

Depois da prova dos Anjos, considera a prova dos homens. Pondera o pecado de Adão e Eva, com todas as suas consequên­cias: a ruptura da aliança entre o Criador e a criatura, a necessi­dade da redenção do gênero humano. A desobediência ofende­ra a Deus em sua majestade infinita. Era preciso que o resgate fosse feito por quem tivesse mérito igualmente infinito. Eis aí a divina missão do Menino Jesus: redimir a humanidade, estabe­lecer a Nova Aliança, em perfeita conformidade com os desíg­nios do Padre Eterno: “Eu desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou” (Jo 6, 38).

Qual novo Isaac, Jesus deseja ardente e plenamente obe­decer — não foi o pecado de nossos primeiros pais precisamen­te a desobediência? Resoluto e amoroso, assume o holocaus­to, apesar da dolorosa antevisão da pergunta que Lhe poderia aflorar aos lábios no Horto das Oliveiras, repetindo as palavras proféticas do salmista: “Quæ utilitas in sanguine meo?” — Que vantagem virá do meu sangue?” (Sl 29, 10).

Não obstante essas considerações, o Divino Infante quer manifestar aqui todo o seu comprazimento, toda a sua felicidade em estar no colo de sua Mãe Santíssima, como a indicar a ne­cessidade de recorrer a Ela em todas as borrascas e sofrimentos desta vida, a fim de haurir a força e a coragem indispensáveis para seguir “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6).

Por sua atitude, o Menino Deus parece dizer a cada um: “Se queres algo de Mim, pede-o por meio de minha Mãe e se­rás atendido”. O quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano bem poderia estar aureolado com as palavras “Mediação Universal de Maria”, pois o próprio Deus humanado quis encontrar proteção e amparo nos braços virginais de sua Mãe Santíssima.

O Menino pressiona levemente sua face contra o rosto de sua Mãe, e d’Ela recebe inefável manifestação de afeto, vene­ração e ternura, representada com especial acerto pelo grau de inclinação de ambas as cabeças, pelo modo como se olham.

"O Menino pressiona levemente sua face contra o rosto de sua Mãe"
“O Menino pressiona levemente sua face contra o rosto de sua Mãe”

Ó mistérios dessa união, que fizeram exclamar a São Ber­nardo: “Maravilha-te com estas duas coisas e considera qual é causa de maior admiração: se a benigníssima mercê do Filho ou a excelentíssima dignidade de tal Mãe. De ambos os lados está o pasmo, de ambos o prodígio. Que Deus obedeça a uma Mulher, é humildade sem igual, e que uma Mulher tenha autoridade para mandar em Deus, é excelência sem igual”. [2]

Seria intenção do artista simbolizar a grandeza e a profun­didade da misteriosa união entre Mãe e Filho — união arque­típica neles, Maria e Jesus — pintando as faces tão juntas? Ao analisar os traços fisionômicos da Senhora do Bom Conselho — o rosado da face, a configuração retilínea do nariz, a inclinação do pescoço, a cor dos cabelos tendente ao dourado, o arqueado das sobrancelhas — percebe-se que Ela é a Mãe de um Filho que fisicamente muito se Lhe assemelha.

Então, por que pintar tão juntos Maria e Jesus Menino? É porque o Filho é o próprio Criador da excelsa Mãe. E a Mãe — a mais perfeita das criaturas — levou nas suas entranhas vir­ginais o Divino Infante.

A Mãe, em altíssimo ato de adoração ao Filho, procuran­do como que adivinhar o que se passa em seu interior, considera ao mesmo tempo o fiel que a seus pés se ajoelha e, como Media­neira de todas as graças, acolhe sua prece e a apresenta a Deus Nosso Senhor.

Jamais teve alguém em seus braços tesouro de igual valor: infinito…! Entretanto, quem foi mais desejosa do que Nossa Se­nhora de atrair outros para compartilharem de seu tesouro?

É infinito o caleidoscópio de paradoxos que a considera­ção do relacionamento entre Nossa Senhora e seu Divino Filho, nesse afresco, sugere.

Há nessa união de Mãe e Filho uma intimidade e uma profundidade que surpreendem e atraem. A união de alma, re­fletida no olhar que um e outro trocam entre si, gera em ambos uma tranquilidade e uma imobilidade no afeto que Lhes parece fazer sentir a bem-aventurada delícia desse mútuo entendimen­to, desse mútuo estar juntos!

Mas, ao mesmo tempo, esse profundo, calmo, sério e ín­timo olhar não é excludente. O fiel sente-se atraído a entrar no aconchego e na serenidade desse olhar. Mãe e Filho se dispõem a receber com bondade o fiel devoto à procura de socorro, mi­sericórdia ou amparo. O aconchego sacral que ambas as fisiono­mias irradiam faz com que o fiel se sinta entendido e amado nos aspectos mais nobres e elevados de sua alma.

Leitor, abandona por um momento o texto e contempla uma vez mais — e agora detidamente — a foto do afresco, e deixa-te penetrar pela celestial atmosfera que Mãe e Filho criam.

"É infinito o caleidoscópio de paradoxos entre Nossa Senhora e seu Divino Filho"
“É infinito o caleidoscópio de paradoxos entre Nossa Senhora e seu Divino Filho”

Por certo perceberás que, para além de suas qualida­des pictóricas e artísticas, dessas duas fisionomias como que se evolam certas graças de presença de Nossa Senhora e do Menino Jesus, às quais bem poucos conseguem resistir. Sen­tirás que graças sensíveis batem à porta de tua alma, ou já a adentram, trazendo consigo uma paz repousante e um repouso pacificador. Ora é a fisionomia da Mãe, ora o olhar do Filho, ora o afresco no seu conjunto que te dará ânimo em meio às situações difíceis, que te consolará durante os sofrimentos, que te acalmará nas aflições, que te dará confiança nas angústias, coragem na hora de avançar, prudência ao ter que recuar; que, por fim, fará descer do Céu o milagre até ti, quando todos os recursos humanos se tiverem esgotado.

Venerando a sagrada efígie, vêm-nos à mente as palavras de Santo Afonso de Ligório, grande devoto da Mãe do Bom Conselho, habituado a sempre trabalhar tendo diante de si, so­bre a mesa, uma estampa da Virgem de Genazzano:

“Ó soberana Princesa! Do imenso oceano de vossa bele­za, se originaram, como rios a partir de sua fonte, a beleza e a graça de todas as criaturas: o mar aprendeu a arredondar suas ondas e a fazer passear majestosamente suas vagas de cristal, vendo os vossos cabelos dourados, os quais, caracolados encan­tadoramente, caem sobre vossos ombros e sobre vosso pescoço de marfim. As fontes transparentes e seus claros reservatórios aprenderam o repouso e a calma, vendo a serenidade de vos­sa bela fronte e de vossa agradável fisionomia. O arco-íris, tão charmoso quando faz luzir suas mais belas cores, intuiu como se dobrar graciosamente para melhor dardejar os raios de sua luz, contemplando o contorno de vossas sobrancelhas. A estrela da manhã e a estrela vespertina são duas brilhantes faíscas de vos­sos belos olhos. O lírio radiante de alvura e a rosa avermelhada tomaram emprestadas suas vivas cores de vossa fisionomia. A púrpura e os corais parecem invejar o vivo colorido de vossos lábios. O leite mais saboroso e o mel mais doce procedem de vossa boca. O jasmim odorífero e a rosa perfumada de Damasco foram embalsamados pelo vosso sopro. […] Em uma palavra, ó Maria, todas as belezas criadas não são senão uma sombra e uma débil imagem de vossa beleza.

Portanto, eu não me espanto, ó soberana Princesa, de que a terra e o Céu se coloquem sob vossos pés; pois Vós sois tão grande que, pondo-Vos sobre eles, Vós os enriqueceis e eles se alegram em poder oscular a planta de vossos pés. […]

Ó Maria, belo céu resplandecente de graça e de beleza, sois firmamento mais vasto que o Céu Empíreo, pois o próprio Deus, cuja imensidade o universo não podia conter, escondeu-se em vos­so seio!” [3]

Beneficia-te dessas graças que são derramadas com maternal abundância, com magnificên­cia de Rainha, sobre todos aqueles que, piedosa e confiantemen­te, sabem pronunciar as excelsas palavras: Ó Mãe do Bom Conse­lho, rogai por nós!

Ó Mãe do Bom Conse­lho, rogai por nós!
Ó Mãe do Bom Conse­lho, rogai por nós!

Extratos do livro Mãe do Bom Conselho, escrito por Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, Fundador dos Arautos do Evangelho. (CLÁ DIAS, João S. Mãe do Bom Conselho. 3. ed. São Paulo: Lumen Sapientiae, 2016, p. 25-34).

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[1] ADDEO, Agostino Felice. Apparitionis Imaginis Beatae Mariae Virginis a Bono Consilio Documenta. Vaticanus: Typis Polyglottis Vaticanis, 1947. Excerptum ex Analecta Augustiniana, v.20, jan. 1945/dez. 1946, p. 118. Essas medidas referem-se à superfície visível do afresco, pois tanto a moldura quanto o altar cobrem a exten­são total da pintura.

[2] BERNARDO DE CLARAVAL, Santo. Sermones de Tempore: De laudibus Virginis Matris, Hom. I, n. 7 (PL 183, 60).

[3]   AFONSO MARIA DE LIGÓRIO, Santo. Acclamations à Marie: Gloires de Marie II. In: OEuvres Complètes. 2. ed. Tournai: Casterman, 1880, v. 8, p. 247-249.

Nossa Senhora, canal das graças do Espírito Santo

Pentecostes

Maria Santíssima estava predestinada desde toda eternidade a ser mãe de Deus. E por isso mesmo, no momento em que foi concebida no ventre de Santa Ana, não apenas ficou preservada da mancha original como recebeu a plenitude do Espírito Santo num grau mais elevado do que todos os Anjos e santos reunidos.

Entretanto, no momento em que Ela disse sim às palavras do Anjo e que o Verbo se fez carne e habitou entre nós, essa plenitude atingiu um píncaro inimaginável. Não podia haver dignidade maior entre as meras criaturas que ser elevada a Mãe de Deus, participando do plano hipostático. Foi através d’Ela que a Obra da Redenção se tornou possível, porque Deus assim o quis. Sua grandeza exigia uma perfeição digna, de certo modo, do Criador. Daí a palavra dum Santo: “Só Deus pode conceder o cabedal de graças depositado na Divina Mãe no dia Encarnação” (São Bernardino de Sena).

Essa santidade de Maria – ó prodígio – crescia a cada instante de sua vida, de modo especial nos momentos cruciais da vida de seu Filho, a Paixão e Ressurreição de Jesus.

Que virtudes admiráveis Maria praticou ao longo da dolorosa Paixão do Redentor. Ela, a melhor de todas as mães, amando com todo ardor de seu Coração Imaculado o melhor de todos os filhos, que Ela concebeu por obra do Espírito Santo, que Ela maternalmente gerou no tempo e na carne, que Ela amamentou e cuidou com tanta solicitude, e que Ela, em união com o Pai Celeste, se dispôs a oferecer pela humanidade pecadora. Mas Ela não assistiu isso de longe. Acompanhou com coragem a Via Dolorosa, e ficou de pé junto a Cruz de Jesus. Quanta força, quanta virtude, quanta santidade não precisaria ter essa alma?!

Momento talvez ainda mais cruel ainda estava por chegar: após o sepultamento do corpo de Jesus, que vazio Ela deve ter sentido. Seu Filho não estava mais no mundo. Muitas pessoas sabem o que é perder um filho e podem imaginar melhor o que Maria deve ter sofrido nessa ocasião. Porém, sua Fé inabalável na Ressurreição sustentou sozinha a Igreja nascente por três longos dias.

Todo esse sofrimento foi largamente recompensado por ocasião da descida do Espírito Santo sobre Ela e os Apóstolos reunidos no Cenáculo. Mais uma vez sua plenitude de graças crescia de modo magnífico. “No dia de Pentecostes, diz um grande servo de Deus, o Espírito Santo desceu primeiro sobre a Divina Mãe e difundiu-Se depois entre os Apóstolos sob a forma de línguas de fogo. O Ministério Apostólico, de fato, destinado a comunicar a graça, deveria receber seu último aperfeiçoamento pelo canal d’Aquela que é a sua despenseira. Seja como for, os Apóstolos deveram sem dúvida às preces de sua amada Soberana, e às suas próprias disposições, a plenitude da sabedoria e santidade que receberam nesse grande dia.” (Pe. Luís Bronchain, C. SS. R., Meditações para todos os dias do ano.)

Tendo-A como modelo e intercessora, rogamos que Ela prepare nossos corações para serem uma digna morada do Divino Paráclito! Para isso, trabalhemos com Ela para unir em nós a inocência à penitência, o temor de Deus à confiança n’Ele, a humildade à grandeza de alma, e a delicadeza de consciência à generosidade do sacrifício. Esforcemo-nos com Maria para subir a Deus pelos diversos graus do recolhimento, da pureza de coração e da oração contínua.

Segundo Santo Ildefonso, assim como o fogo penetra o ferro e o abrasa, conferindo as propriedades próprias ao mesmo fogo, assim o Espírito Santificador se apoderou da Alma de Maria e Lhe transmitiu seus dons e concedeu a Ela o poder de os transmitir a quem Ela quiser; basta-Lhe pois inclinar-Se a nós para encher-nos do mesmo Espírito. “Todos os dons, virtudes e graças, diz São Bernardino de Sena, são dispensados pelas mãos de Maria a quem Ela quer, quando e como quer”. Ora, Ela quer cumular-nos de favores mais do que nós poderíamos desejar receber. Deixemos as portas de nossos corações abertas para que Ela possa tomar posse e nos encher dos dons do Espírito Santo.

Nossa-Senhora-Fatima

 

 

Fiesta de Nuestra Señora de la Medalla Milagrosa

La iglesia nos convoca para la Fiesta de María, para celebrar la Gloria de Dios que se revela en la Historia de la Salvación y que se manifiesta de modo admirable en cada acontecimiento, en cada circunstancia, en cada ocasión en la que se nos anuncia su amor.

Dios nos hizo limpios, buenos. La condición original del ser humano era la pureza del corazón y la rectitud de intención. Pero nos hemos dejado seducir por el pecado que atrapa al hombre por medio de tantas vanas ilusiones de grandeza, de tantas tentaciones que terminan por esclavizarnos y someternos a la opresión del mal.

En la intención sublime de sanar el corazón herido de muerte por el mal, Dios buscó un camino, tocó a la puerta de un corazón purísimo, capaz de responder afirmativamente allí donde la sombra del pecado había oscurecido el corazón y había sembrado su veneno.

María, obediente y fiel, marca la diferencia. Ella, elegida por Dios es señalada desde la eternidad para ser el caminopor el que debe llegar al mundo la salvación, ella es la puerta por la que ha de pasar el Salvador, ella es la aurora que anuncia el Día Luminoso del Señor que sana y salva.

Dios la llama, la destina a un ministerio excelente y magnífico y por ello, previendo la Redención, la hizo digna de la misión que debía asumir.

Que bello le cantaremos en el Prefacio el día de la Inmaculada, ya tan cercano:

Purísima había de ser, Señor,

la Virgen que nos diera  el Cordero inocente

que quita el pecado del mundo.

Purísima a la que, entre los hombres,

es abogada de gracia,

y ejemplo de santidad[1]

La palabra Divina, que se ha proclamado, nos recordará este designio amoroso de Dios y nos mostrará como en María Inmaculada, en su amorosa disponibilidad a la voluntad de Dios, la obediencia generosa remedia la desobediencia orgullosa, la humildad luminosa vence la sombra de la soberbia, la piedad vence la impiedad, la esperanza vence la dolorosa imagen del hombre que lloraba su pecado.

Nuestro corazón se dirige hoy a Dios, con agradecida esperanza. En la bondad Divina celebramos el prodigio de la Encarnación y proclamamos la gloria que se manifiesta en la Madre del Redentor. La Reina que hoy es glorificada es la Madre del Cordero que quita el pecado del mundo, como lo cantó Melitón de Sardes, un escritor antiguo que decía:

Este es el cordero sin voz; el cordero inmolado; el mismo que nació de María, la hermosa cordera; el mismo que fue arrebatado del rebaño, empujado a la muerte, inmolado de vísperas y sepultado a la noche; que no fue quebrantado en el leño, ni se descompuso en la tierra; el mismo que resucitó de entre los muertos e hizo que en el hombre surgiera desde lo más hondo del sepulcro[2] 

María asume su tarea con amor. Sabe que Dios la invita a recorrer un largo camino.

Este camino comienza en Nazaret, pero luego se transforma en un sendero lleno de luces y sombras, de penas y esperanzas. En el trayecto que separan la Cuna y la Cruz se tiende el velo dulcísimo del amor de la Madre para recoger el amor del Hijo, para escuchar la palabra humilde de los Pastorcillos (cfr. Lucas 2,7), para escuchar la dramática profecía de Simeón.

Es parte de su camino escuchar la profecía de Simeón que el Poeta Epifanio Mejía (1838-1913) cantaba así:

“Diste al presentar tu hijo, de Dios en la Santa Casa,

un bello par de Palomas y cinco ciclos de plata,

Simeón te hizo, entonces, su predicción funeraria” [3].

Es parte de su largo sendero de penas, perderlo y encontrarlo en el Templo (Lucas 2,4-50). Es también parte de su itinerario  verlo crecer “en santidad, estatura y gracia”(Cfr. Lucas 2, 52).

Es también parte del camino de María, como lo dice san Juan, el encuentro con su Hijo en las Bodas de Caná, cuando en derroche de dulzura, tras el larguísimo silencio de Nazaret, ante la insistencia de la Madre, se inauguraron con Vino delicioso, los días de la gloria que ahora llegan a su cenit.

De Caná a la Cruz hay un largo camino de obediencia y una larga cadena de pruebas y de dolores. La Madre sabe que desde que pronunció su Sí[4] en Nazaret, toda su vida será un ascenso a la Cruz y por la Cruz.

Su camino, su largo velo que se abre en la cuna de Belén, llega hasta la Cruz que se recorta contra el oscuro firmamento, y que ya había sido anunciada por Simeón[5].

Y luego, al alborear la Pascua, el camino de la Madre se vuelve compañía y esperanza para todos, se hace oración en el Cenáculo, como lo cuenta el primer capítulo de los Hechos de los Apóstoles.

Este camino continúa en la historia de la humanidad. En la Historia de María la Asunción le señala una doble misión, un privilegio y una consecuencia.

Privilegio porque es primicia. Después de Cristo es llevada a la Gloria, después de su Señor se le tienden desde la gloria los delicados lazos del amor filial que la rescatan de la muerte, que abren su sepulcro y que coronan con gloria la totalidad de la existencia: Alma y Cuerpo, como dice la definición del Dogma, de la Madre Bienaventurada del Señor.

La Asunción es consecuencia más que lógica de una vida de fidelidad.  Por eso desde su altísimo trono Dios reina sobre la Historia. Jesús, coronado de Espinas de oro, ha vencido la muerte y ha querido tener junto a la sede de la Justicia y de la Misericordia una abogada sencilla y humilde, ya prefigurada en la bíblica Esther,  que sigue suplicando, que sigue mirando, como lo hizo en Caná[6], la vaciedad de nuestras tinajas, porque el vino de la alegría se ha secado en nuestros corazones. Sigue constatando, como en el Calvario, que para la sed del hombre sólo hay vinagre y que Ella, la Madre, asume como su tarea la constante intercesión por las necesidades de la Iglesia y del mundo.

Hoy, en esta Basílica Sublime, en esta casa digna del Rey eterno, de la Reina coronada de estrellas, de la corte soberana de los Redimidos con el Sacrificio de Cristo, miramos a la que un día en Paris, la capital de un mundo vanidoso y soberbio, se le presenta a Catherine Labouré para mostrarle un camino de esperanza, para decirle a la humanidad que ella es la Madre Inmaculada del Redentor, para mostrar la Medalla Milagrosa que es promesa de vida y premio para los que, arrepentidos, quieran volver a Dios.

Ella ruegue por nosotros. Ella Bendiga la vida luminosa y al tiempo discreta y sabia del querido Monseñor Joao Clá Diaz, piadoso servidor de la Reina del Rosario. Ella, Madre de todos, acompañe a cada uno de los Heraldos del Evangelio que quieren proclamar la Gloria de Dios. Ella sea el modelo de Santidad de las Hermanas, de todos los que, iluminados por este Carisma de Piedad y de alegría, avanzan sembrando amor por Dios, fe en la Iglesia, amor a María santísima.

Al continuar nuestra celebración, agrego y concluyo con las palabras de Santa Laura Montoya, la primera hija de Colombia que llega a los altares:

Gloria a vos tan bella,

poderosa reina,

amparo de los pobres peregrinos,

cielo del mismo cielo. Amén.

Caieiras, 27 de noviembre de 2014

P. Diego Alberto Uribe Castrillón


[1] Misal Romano. Solemnidad de la Inmaculada Concepción. Prefacio.

[2] Melitón de Sardes. Homilía sobre la Pascua.

[3] Epifanio Mejía (1838-1913) Poeta Colombiano, compuso los que ahora son los versos de La Novena de la Virgen de la Candelaria, Patrona de Medellín, Colombia.

[4] Lucas 1,38

[5] Lucas 2,34

[6] Cfr. Juan 2, 1-12.

A Redenção de Cristo aplicada a Maria Santíssima

Como Maria foi isenta do pecado original havendo a Igreja definido o dogma da Redenção Universal de Nosso Senhor Jesus Cristo?

 

Desde os primeiros séculos do cristianismo, a Imaculada Conceição de Maria Santíssima foi venerada pela grande maioria dos cristãos e defendida por muitos Padres da Igreja, como São Justino, Santo Irineu, Santo Efrem e o próprio Santo Agostinho.

Séculos mais tarde, celebrava-se em várias Igrejas a festa da Imaculada Conceição, mais concretamente no Oriente a partir do século VIII, na Inglaterra desde o século XI e pouco depois divulgou-se pela Alemanha, França e Espanha.

Entretanto, entre os séculos XII e XIV, os principais autores da escolástica se encontraram diante de uma dificuldade muito difícil de resolver: como conciliar a Imaculada Conceição de Maria Santíssima com o dogma da Redenção Universal de Cristo? Em outras palavras, se Nossa Senhora foi isenta do pecado original desde o primeiro instante de sua concepção significaria que os méritos da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo não foram aplicados a Ela, e, por conseguinte, a Redenção não seria universal, pois haveria uma exceção, o que implicaria em negar o dogma, o que não é possível.[1]

São Bernardo

Nesta controvérsia se encontrou a oposição de autores de muita importância, tais como São Bernardo, São Boaventura e o próprio São Tomás de Aquino, os quais, sem diminuir o mais mínimo a devoção a Maria, não conseguiram discernir de que maneira poderia aplicar-se a Redenção de Cristo obtida no alto do Calvário a Nossa Senhora. Segundo eles, se a Redenção é universal, tal como o afirma o dogma, era necessário afirmar e reconhecer que Maria, embora seja a mais perfeita das criaturas, na qual Deus esgotou sua imaginação – por dizer de alguma maneira – também foi concebida em pecado.

Posteriormente, com Guilherme de Ware e o Beato Duns Escoto, se conseguiu harmonizar o grande privilégio concedido por Deus à sua Mãe de ser concebida sem pecado e o dogma da Redenção Universal, surgindo o termo de “redenção preventiva”.

Beato Duns Escoto

Assim, pois, segundo eles, há duas maneiras de redimir um cativo: tirá-lo do cativeiro no qual se encontra pagando por ele o preço de seu resgate (o que se denomina “redenção liberativa”); ou, antes dele cair no cativeiro, pagar o resgate antecipadamente. Esta é propriamente a “redenção preventiva”, a qual é ainda mais perfeita que a anterior. Desta maneira, chegaram à conclusão de que a aplicação dos méritos do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo a Maria Santíssima realizou-se em forma de redenção preventiva.[2]

Com efeito, Deus vendo desde toda a eternidade os infinitos méritos que Jesus Cristo conquistaria com sua Paixão, aplicou de forma antecipada o preço desse resgate à sua Mãe, que, por esse privilégio, foi isenta do pecado original.

Embora as referências bíblicas – o protoevangelho (Gen 3, 15) e a saudação do Anjo (Lc 1, 28) – não o digam de forma explícita, as razões teológicas delas deduzidas são irrefutáveis, pois como aceitar que a Rainha dos Anjos estivesse sob a tirania do demônio? Como Ela, a Medianeira da Reconciliação, pôde ter sido, por um só instante, inimiga de Deus? O Sangue Preciosíssimo de Nosso Senhor pode ter brotado de um manancial maculado? Pode se imaginar que Maria fosse, ao mesmo tempo, Mãe de Deus e escrava de Satanás? São perguntas que obrigavam a aceitar a redenção preventiva de Maria, e que certamente os grandes autores da escolástica, acima mencionados, teriam aceitado se a tivessem conhecido.

Finalmente, o Papa Pio IX, com a Bula “Ineffabilis Deus” de 8 de dezembro de 1854, declarou solenemente ao mundo inteiro que Maria Santíssima, por um especialíssimo desígnio de Deus, em virtude da maternidade Divina à qual foi predestinada, foi isenta do pecado original desde o primeiro instante de Sua Conceição.[3]

Este privilégio especialíssimo implica que, havendo Maria sido libertada da mancha do pecado original, é necessário afirmar que a Imaculada Conceição não foi apenas uma isenção, pois estando limpa e livre da maldição de nossos primeiros pais está em total amizade com Deus, ou seja, em Graça. Maria Santíssima foi concebida não só sem pecado, mas em Graça, e esta em grau altíssimo, pois corresponde à sua dignidade de Mãe de Deus.[4]

Longos séculos foram necessários para que a razão humana, tão pobre, encontrasse a maneira de conciliar a Imaculada Conceição de Nossa Senhora com o dogma da Redenção Universal de Jesus Cristo, a qual abrange a todos aqueles que descendem de Adão, sem exceção alguma, até a própria Mãe de Deus. A doutrina da redenção preventiva, chancelada pelo Bem-aventurado Papa Pio IX como meio de aplicação dos méritos infinitos do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor para a nossa salvação, é o sol que nos mostra a harmonia existente entre os dois dogmas.

Nossa Senhora das Graças

 Por  Jaime Abbad Luengo (Estudante de Teologia no Instituto São Tomás de Aquino)

BIBLIOGRAFIA

DOCUMENTOS PONTIFÍCIOS. Petrópolis: Vozes, 1953.

GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. La Mère du Sauveur et notre vie intérieure. Paris: Du Cerf, 1948.

ROYO-MARÍN, Antonio. La Virgen María: teología y espiritualidad marianas. 2.ed. Madrid: BAC, 1996,


[1] Cf. ROYO-MARÍN, Antonio. La Virgen María: teología y espiritualidad marianas. 2.ed. Madrid: BAC, 1996, p.72-73.

[2] Cf. Opus cit. p.74-75.

[3] PIO IX. Ineffabilis Deus: Bula, 8 dez. 1854. In: DOCUMENTOS PONTIFÍCIOS. Petrópolis: Vozes, 1953. p. 3-23.

[4] Cf. GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. La Mère du Sauveur et notre vie intérieure. Paris: Du Cerf, 1948. p.37-38.

A obediência de Maria

1. Maria, a nova Eva. Por uma desobediência perdeu-se o Paraíso; por uma obediência obteve-se o Messias e a Redenção do gênero humano

Com o pecado de nossos primeiros pais e sua expulsão do Paraíso, fruto de sua desobediência, Deus deixou para eles, no momento da maldição, a esperança de que pela raça da mulher seria esmagada a cabeça da serpente (cf. Gn 3,15). Em sua infinita Bondade, quis Deus reforçar aos homens essa sua promessa, através do profeta Isaías: “Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o seu nome será Deus Conosco” (Is 7,14)[1]. Quem seria esta mulher misteriosa que esmagaria a cabeça da serpente e que, num paradoxo humanamente irreconciliável, conceberia permanecendo sempre virgem, conforme a profecia de Isaias?

Esta mulher, que a Santa Igreja proclama Mãe Puríssima e Virgem Gloriosa, ao anúncio de que conceberia o Filho do Altíssimo pela virtude do Espírito Santo sem conhecer homem algum (Cf. Lc 1,28-37), e certa de que “a Deus nenhuma coisa é impossível” (Cf. Lc 1,37)[2], realizou “da maneira mais perfeita a obediência da fé”[3], de que nos fala São Paulo (cf. Rm 1,5), quando disse: “Eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Cf. Lc 1,38).[4]

Deste modo, com seu consentimento, abraçando de todo o coração a vontade divina de salvação, Maria tornou-se Mãe de Jesus e “consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e obra de seu Filho”, para servir, na dependência d’Ele e com Ele, pela graça de Deus, ao Mistério da Redenção.[5] “Com razão, pois, os Santos Padres estimam Maria não como um mero instrumento passivo, senão como uma cooperadora da salvação humana, pela livre fé e obediência”.[6]

Assim, comenta Santo Irineu: “o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria. O que uma fez por incredulidade o desfez a outra pela fé”.[7] A este respeito, é interessante notar, com um autor francês, o modo como Deus transmitiu Sua vontade a ambas, sendo muito mais claro, incisivo e categórico com relação a Eva, o que não era necessário a Maria, porquanto sabia entender a vontade divina mesmo sem um mandato expresso, o que é o mais alto grau de obediência, como vimos no capítulo precedente:[8]

“No Paraíso Terrestre, o próprio Deus fez à primeira Eva uma proibição expressa, com a ameaça de uma terrível sanção: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque, em qualquer dia que comeres dele, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17)[9]. Contudo, a infortunada mãe dos homens desobedeceu a seu Criador.

“A Maria, pelo contrário, por seu mensageiro celeste, Deus Se limita a exprimir um desejo do qual Ela poderia eximir-Se sem incorrer em sua maldição: “Achaste graça diante de Deus; eis que conceberás no teu seio e darás à luz um filho, a Quem colocarás o nome de Jesus” (Lc 1, 30-31).[10] Ora, se vemos a doce Virgem ficar atônita por um instante, não é pela hesitação diante da vontade de Deus, pois somente sua incomparável humildade e delicada pureza A fazem temer a insigne honra da maternidade divina.[11]

2. A obediência de Maria em algumas passagens bíblicas

E assim, toda a vida de Maria não foi senão um contínuo descobrir a vontade de Deus para submeter-se pronta e docilmente a ela. E se é verdade que “a obediência de Maria inspirou a concepção do Verbo de Deus; a obediência de Maria presidirá também ao nascimento do Salvador dos homens”[12] e à sua infância.

Assim, junto a São José, seu castíssimo esposo, observa-se Maria obedecendo ao decreto de recenseamento promulgado por César Augusto (Lc 2,2-5), sofrendo com humildade e sem reclamar o infortúnio de não encontrar uma porta aberta para abrigar sua pobreza, chegando a se refugiar num estábulo, onde se completou o grande mistério de amor. Tudo isto porque via naquela provação a manifestação da vontade divina.[13] Ali, na mais absoluta privação, “Maria obedece sempre e, sussurrando o “Fiat” da Encarnação, embala seu recém-nascido”.[14]

Quarenta dias após o nascimento de Jesus, a voz de Deus fala novamente a Maria convidando-A a apresentar-se no Templo para purificar-Se. Mas, sendo Virgem Imaculada, cuja maternidade milagrosa não tinha sequer resquício da mancha do pecado original, como poderia essa lei de purificação atingi-la? “Pouco importa! Deus falou, Maria obedece e Se junta às outras mães, para compartilhar a humilhação”.[15] Nesta passagem (Lc 2,21-24), contempla-se Maria obediente às prescrições da Lei judaica; Ela, que não necessitava de uma purificação legal, como explica Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias:

“porque concebida sem pecado original, virginalíssima, não tendo esposo homem, a não ser esposo Deus, estava por cima da Lei completamente. […] E que sentido tem a Mãe entregar para Deus aquilo que é de Deus? É de Deus, pois Ele, Jesus, é Filho de Deus. Não tinha sentido Ela ir no Templo para isso. Entretanto Ela quer cumprir a Lei, e Ela quer cumprir nas minúcias. E chega ao Templo e coloca o Menino Jesus nas mãos de Simeão. E, portanto, Ela entrega a Deus o que é de Deus e sabe perfeitamente o que significa aquele gesto; aquele gesto significa que Ela está entregando o Menino Jesus para a Cruz. Porque quem recebe o Menino Jesus nesse momento é Simeão, mas mais tarde no Calvário, quem estará com os braços abertos para receber não mais o Menino Jesus, mas o próprio Filho de Deus feito homem, todo chagado, é a Cruz. A Cruz está de braços abertos.

“Então, este ato é um ato que Ela cumpre porque quer ser obediente, mas cumpre com toda a compreensão da grande perspectiva que tem diante de si. E nós vemos então Nossa Senhora, nesse ato, ressaltando uma virtude extraordinária que é a virtude da obediência.[16]

Mas sua obediência não se limitava somente à lei judaica. “Ela praticou, igualmente, a obediência perfeita a todos os mandamentos, acompanhada da mais generosa prontidão em seguir todos os conselhos e inspirações do Espírito Santo”.[17] E quando Maria pensava prodigalizar a seu Divino Filho todas as efusões de sua ternura, aparece novamente o Anjo do Senhor, comunicando a ordem de partir para o Egito, pois Herodes, o cruel tirano, tramara a morte de Jesus (cf. Mt 2,14). “É o exílio, com suas incertezas e seus perigos. Maria, entretanto, não cessa de obedecer: repetindo seu ‘Fiat’, Ela aperta a seu coração angustiado o doce Salvador do mundo e foge a toda pressa para a terra do Egito”.[18]

Assim se deu até o início da vida pública de seu Filho, quando podemos ouvi-La intercedendo em favor dos esposos que passavam por um grande apuro, pela falta de vinho nas bodas de Caná, com palavras que servirão de recomendação desta virtude para todos os séculos: “Fazei o que ele vos disser” (Jo 2,5).[19]

3. O maior título de glória de Maria: o elogio de Jesus à Sua obediência

O Evangelho narra ainda dois episódios, com vários aspectos semelhantes entre si, em que o valor da obediência de Nossa Senhora é exaltado de forma extraordinária pelo próprio Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta glorificação de sua submissão à vontade divina é sobretudo esplendorosa tendo-se presente que “o dogma mais importante da Virgem Maria é sua maternidade divina”.[20]

O primeiro dos dois fatos, narrado por Lucas, deu-se numa ocasião em que, após Jesus ter curado um possesso, os fariseus passaram a acusá-Lo de fazer milagres em nome de Belzebu. O Divino Mestre estava rebatendo vitoriosamente essa blasfema calúnia quando, de súbito, uma mulher brada do meio da multidão que o escutava: “Bem-aventurado o ventre que Te trouxe, e os peitos que Te amamentaram” (Lc 11,27).[21] Nosso Senhor Jesus Cristo, porém, com palavras que ressaltam o valor da obediência, retrucou: “Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11,28).[22]

Para uma pessoa com pouca instrução teológica poderia parecer, à primeira vista, que Nosso Senhor não prestou a honra e homenagem devidas à Sua Mãe. Entretanto,

“…nessa resposta, de fato, Nosso Senhor proclamou para todas as gerações que a Virgem Maria seria glorificada não tanto por seus privilégios e sua dignidade de Mãe de Deus, quanto por haver ouvido e praticado integralmente a palavra e as ordens de Deus. Ter tomado como lei a vontade divina e cumprido com fidelidade e à custa de todos os sacrifícios os desígnios do Pai Celeste, eis — como disse Santo Agostinho — o mais belo título de glória de Maria.[23]

Ouvir a palavra de Deus e pô-la em prática é, evidentemente, obedecer, como explica Stöger: “obedecer significa escutar a manifestação da vontade de outrem ([…] αχουειν, υπαχουειν) e dar-lhe resposta”.[24] Portanto, estas palavras do Divino Salvador patenteiam que Nossa Senhora era mais feliz por ser obediente, escutando a palavra de Deus e pondo-a em prática, do que propriamente pela sua dignidade de Mãe de Deus, o que significa uma magnífica exaltação do valor da obediência praticada por Maria Santíssima. Para corroborar o sobredito, é oportuno colher nos Santos Evangelhos mais um episódio descrito por Mateus, em seu capítulo 12, versículos 46-50, que ilumina inteiramente os comentários acima aportados:

“Jesus falava ainda à multidão, quando veio sua mãe e seus irmãos e esperavam do lado de fora a ocasião de lhe falar. Disse-lhe alguém: “Tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar-te”. Jesus respondeu: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?” E, apontando com a mão para os seus discípulos, acrescentou: “Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.[25]

Entretanto, há uma preciosidade a mais. Depois de uma vida inteira de obediência, contempla-se, por fim, o momento de cumprir-se a profecia de Simeão: “uma espada transpassará tua alma” (Cf. Lc 2,35).[26] Assim como Maria apresentara-se obediente no Templo, levando o Terno Infante em seus braços, num ato supremo de obediência à vontade divina Ela também O oferecerá voluntariamente como Vítima no altar da Cruz, a fim de que seja operada a Redenção do gênero humano.

“Deus falou, é preciso que Jesus, o inocente Filho de Maria, derrame seu sangue pela redenção do mundo. Ah! Desta vez ouviremos subir do Coração de Maria, de seu Coração de Mãe, um grito de revolta? Não. Maria permanece de pé junto à Cruz e, enquanto Jesus geme em amargo pranto, Ela cala-Se, com o coração transpassado de dor, e derrama em silêncio lágrimas de sangue. Inclinando a cabeça, Jesus expira, obedecendo até a morte de cruz, e ao mesmo tempo Maria, obediente e resignada, inclina também sua cabeça sobre seu coração quebrantado.

“Ó heroica obediência de nossa Mãe, que exemplo e que lição destes aos cristãos de todos os séculos![27]

Pela obediência à vontade divina, Nossa Senhora cooperou real e imediatamente com seu Filho na grandiosa obra da Redenção dos homens, reparando aos pés da Cruz o pecado da desobediência de Adão e Eva perante a justiça divina, e merecendo, em união com Ele, todas as graças da Redenção. Quis Deus Pai que, ao Sangue derramado por seu Filho, fossem unidas as lágrimas de Maria como preço deste resgate, apesar de per se não ser absolutamente necessário. Em uma palavra: “Na economia da salvação, não há um Corredentor e uma Corredentora, mas um só Redentor e uma Corredentora. Neste sentido, pode-se dizer que a cooperação da Virgem é parte integral de nossa Redenção”.[28] Como disse o bem-aventurado Papa João Paulo II,

“…Maria, a Mãe de Deus, é modelo para a Igreja […]. Por sua adesão incondicional à vontade divina que lhe foi revelada, torna-se Mãe do Redentor, com uma participação íntima e toda especial na história da salvação. […] Ao confessar-se serva do Senhor (Lc 1,38) e ao pronunciar o seu sim, acolhendo “em seu coração e em seu seio” o mistério de Cristo Redentor, Maria não foi instrumento meramente passivo nas mãos de Deus, mas cooperou na salvação dos homens com fé livre e inteira obediência. Sem nada tirar ou diminuir e nada acrescentar à ação daquele que é o único Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, Maria nos aponta as vias da salvação, vias que convergem todas para Cristo, seu Filho, e para a sua obra redentora.[29]

Por esta razão, a tradição dos Padres da Igreja colocam Nossa Senhora como protótipo e modelo de obediência para todos os cristãos.

4. O exemplo de Maria na Igreja primitiva

Em geral, “na patrística dos primeiros séculos se recolhe e desenvolve o paralelismo que estabeleceu São Paulo entre Adão e Cristo, tal como a referência a Maria, com relação a Eva, sob o aspecto da obediência”.[30] Durante o segundo e terceiro séculos, “São Justino, Santo Irineu e Tertuliano insistem sobre o paralelo entre Eva e Maria e mostram que, se a primeira concorreu para a nossa queda, a segunda colaborou na nossa redenção”.[31] Santo Irineu, por exemplo, afirmava que

“…como Eva, seduzida pelas palavras do anjo (rebelde) se desviou de Deus e traiu a palavra dada, assim Maria ouviu do Anjo a boa nova da verdade e trouxe Deus em seu ventre por ter obedecido às suas palavras […] O gênero humano acorrentado por uma virgem e libertado por uma virgem […]; a prudência da serpente cede à simplicidade da pomba; foram quebrados os laços que nos prendiam à morte.[32]

Pe. Flávio Roberto Lorenzato Fugyama, EP

                                               Trecho extraído da monografia “A obediência na escola espiritual de Plinio Correa de Oliveira”


[1] “Ecce, virgo concipiet et pariet filium et vocabit nomen eius Emmanuel”.

[2] “non erit impossibile apud Deum omne verbum”.

[3] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. n. 148.

[4] “Ecce ancilla Domini; fiat mihi secundum verbum tuum”.

[5] “Ita Maria filia Adam, verbo divino consentiens, facta est Mater Iesu, ac salvificam voluntatem Dei, pleno corde et nullo retardata peccato, complectens, semetipsam ut Domini ancillam personae et operi Filii sui totaliter devovit, sub Ipso et cum Ipso, omnipotentis Dei gratia, mysterio redemptionis inserviens”. CONCÍLIO VATICANO II. Lumen Gentium. Constituição Dogmática sobre a Igreja, 21 nov. 1964. In: AAS 57 (1965) 56. p. 60. (Tradução do autor).

[6] “Merito igitur SS. Patres Mariam non mere passive a Deo adhibitam, sed libera fide et oboedientia humanae saluti cooperantem censent”. Loc. cit.

[7] “Sic autem et Evae inobedientiae nodus solutionem accepit per obedientiam Mariae. Quod enim alligavit virgo Eva per incredulitatem, hoc virgo Maria solvit per fidem”. (Contra Haereses, 3, 22, 4. In: MIGNE, J. P. Patrologiae Cursus Completus: Patrologiae Grecae. Turnholt: Typographi Brepols Editores Pontificii, 1857. Vol. 7. p. 959-960).

[8] Ver 1.2.1. deste trabalho.

[9] “De ligno autem scientiae boni et mali ne comedas; in quocumque enim die comederis ex eo, morte morieris”.

[10] “Ne timeas, Maria; invenisti enim gratiam apud Deum. Et ecce concipies in utero et paries filium et vocabis nomen eius Iesum”.

[11] A OBEDIÊNCIA: O MAIS BELO TÍTULO DE GLÓRIA DE MARIA. In: Arautos do Evangelho. São Paulo: [s.n.], n. 53, maio. 2006. p. 34. Artigo publicado originariamente em “L’Ami du Clergé Paroissial”. [s.l.]: [s.n.], 1905, p. 529-530.

[12] A OBEDIÊNCIA: O MAIS BELO TÍTULO DE GLÓRIA DE MARIA. In: Op. cit. p. 35.

[13] Cf. Loc. cit.

[14] Cf. Loc. cit.

[15] Cf. Loc. cit.

[16] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A obediência, virtude que mais custa e que é a mais bela!: Homilia. São Paulo, 29 dez. 2007. (Arquivo ITTA-IFAT).

[17] GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. La Mère du Sauveur et notre vie intérieure. Paris: Du Cerf, 1948. p. 144-147. Apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2011. Vol. 2. p. 226.

[18] A OBEDIÊNCIA: O MAIS BELO TÍTULO DE GLÓRIA DE MARIA. In: Op. cit. p. 35.

[19] “Quodcumque dixerit vobis, facite”.

[20] Cf. BANDERA, Armando. In: RODRIGUEZ VILLAR, Idelfonso. Conoce a tu Madre. Madrid: BAC, 1968. p. 89. Diz Roschini que este dogma é “o primeiro alicerce sobre o qual se levanta o edifício da grandeza mariana. É este um fato que excede de tal modo a força cognoscitiva do homem que deve ser enumerado entre os maiores mistérios de nossa fé. Que uma humilde mulher, descendente de Adão como nós, se torne Mãe de Deus, é um mistério tão sublime de elevação do homem e de condescendência divina, que deixa atônita qualquer inteligência, angélica ou humana, no século e na eternidade” (ROSCHINI, Gabriel M. Instruções Marianas. São Paulo: Paulinas, 1960. p. 42). Com efeito, “todos os títulos e grandezas de Maria dependem do fato colossal de sua maternidade divina. Maria é imaculada, cheia de graça, Co-redentora da humanidade, Rainha dos Céus e da Terra e Medianeira universal de todas as graças, etc., porque é a Mãe de Deus. A maternidade divina A coloca a tal altura, tão acima de todas as criaturas, que São Tomás de Aquino, tão sóbrio e discreto em suas apreciações, não hesita em qualificar sua dignidade como sendo de certo modo infinita. E seu grande comentarista, o Cardeal Caietano, diz que Maria, por sua maternidade divina, alcança os limites da divindade. Entre todas as criaturas, é Maria, sem dúvida alguma, a que tem maior afinidade com Deus”. (ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la Perfección Cristiana. Madrid: BAC, 1968, p. 89).

[21] “Beatus venter, qui te portavit, et ubera, quae suxisti”.

[22] “Quinimmo beati, qui audiunt verbum Dei et custodiunt”.

[23] A OBEDIÊNCIA: O MAIS BELO TÍTULO DE GLÓRIA DE MARIA. In: Op. cit. p. 34.

[24] STÖGER, A. Obediência: I. Na Sagrada Escritura. In: FRIES, Heinrich. Dicionário de Teologia: conceitos fundamentais da teologia atual. São Paulo: Loyola, 1970. Vol. 4. p. 29.

[25] “Adhuc eo loquente ad turbas, ecce mater et fratres eius stabant foris quaerentes loqui ei. Dixit autem ei quidam: ‘Ecce mater tua et fratres tui foris stant quaerentes loqui tecum’. At ille respondens dicenti sibi ait: ‘Quae est mater mea, et qui sunt fratres mei?’. Et extendens manum suam in discipulos suos dixit: ‘Ecce mater mea et fratres mei. Quicumque enim fecerit voluntatem Patris mei, qui in caelis est, ipse meus frater et soror et mater est’”.

[26] “tuam ipsius animam pertransiet gladius”.

[27] A OBEDIÊNCIA: O MAIS BELO TÍTULO DE GLÓRIA DE MARIA. In: Op. cit. p. 35.

[28] ROSCHINI, Gabriel M. Op. cit. p. 85-86. Id. A Mãe de Deus segundo a fé e a teologia. Madrid: [s.n.], 1955. p. 474-475. Apud ROYO MARÍN, Antonio. La Virgen María: Teología y espiritualidad marianas. Madrid: BAC, 1968. p. 152-153.

[29] Cf. JOÃO PAULO II. Homilia na Dedicação da Basílica Nacional de Aparecida. In: Pronunciamentos do Papa no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1980. p. 125-130.

[30] Cf. LA OBEDIENCIA EVANGÉLICA EN LA VIDA CONSAGRADA. n. 2. In: L’Osservatore Romano, 7 dez. 1994. Disponível em:

<http://www.corazones.org/espiritualidad/vida_consagrada/obediencia_evan_or.htm>. Acesso em 11 nov. 2011.

[31] TANQUEREY, Adolphe. O dogma e a vida interior. Trad. M. Costa Maia. Lisboa: Aster, 1961. p. 135.

[32] “Quemadmodum enim illa per angeli sermonem seducta est, ut effugeret Deum, praevaricata verbum eius; ita et haec per angelicum sermonem evangelizata est, ut portaret Deum, obediens eius verbo. […] Et quemadmodum astrictum est morti genus humanum per Virginem, salvatur per Virginem […] serpentis prudentia devicta in columbae simplicitate, vinculis autem illis resolutis, per quae alligati eramus morti”. (Contra Haereses, 5, 19, 1. In: MIGNE, J. P. Patrologiae Cursus Completus: Patrologiae Grecae. Turnholt: Typographi Brepols Editores Pontificii, 1857. Vol. 7. p. 1175-1176).

Mãe de Deus, Maria é também nossa Mãe e Mater Ecclesiae

A maternidade divina de Maria traz consigo uma consequência lógica irrefutável: Ela é também nossa Mãe e a Mãe da Igreja.

Sim! Tal como declara o Apóstolo, a Igreja é o Corpo Místico de Cristo. Este Corpo é constituído por todos os batizados e tem a Cristo como Cabeça, do qual deflui toda a vida sobrenatural para seus membros.[1] Sendo, pois, Mãe da Cabeça, Ela é consequentemente também Mãe do Corpo.

Porém, há ainda outro título que justifica esta maternidade: Maria “é verdadeiramente Mãe dos membros que constituem este Corpo, porque cooperou com o seu amor para que na Igreja nascessem os fiéis, membros daquela Cabeça”.[2]

Assim, pois, naquele momento, feliz entre todos, da Encarnação, Maria passou a ser verdadeiramente Mãe de Deus e dos homens:

“Concebeu-nos em Nazaré e nos deu à luz no Calvário. ‘Com o seu consentimento para tornar-se Mãe de Deus, escreve São Bernardino de Siena, trouxe a salvação e a vida eterna a todos os eleitos, de sorte que se pode dizer que, naquele instante, os acolheu em seu seio, conjuntamente com o Filho de Deus’.”[3]

Como vemos, Maria nos “deu à luz” no Calvário, e é nossa Mãe também por ter sido Corredentora do gênero humano, pois foi através da Paixão de seu Filho, à qual Ela deu seu assentimento, que recomeçou para a humanidade a vida sobrenatural perdida no paraíso.

Com estas belas palavras, Dr. Plínio assim comenta a insigne participação de Maria na Obra da Redenção:

“Quando estava ao pé da Cruz, o Padre Eterno pediu-Lhe consentimento para que Nosso Senhor Jesus Cristo fosse morto. Ela, que poderia ter dito não — o Padre Eterno estava querendo pôr nas mãos d’Ela o destino de seu Filho — disse sim. Disse sim para salvar as almas dos homens. Se Ele não morresse, não haveria Céu para nós.

Nessa hora em que Ela disse sim, Ele ficou entregue aos horrores da morte. Ela viu Seu Filho dizer ao Padre Eterno: ‘Meu Pai, meu Pai, por que me abandonastes?’ O que tinha um pouco o sentido: ‘Minha Mãe, minha Mãe, por que consentistes?’ Mas Ela quis. E quando Ele expirou, o gênero humano estava redimido.”[4]

É também o que proclama o Vaticano II com sua característica linguagem e autoridade conciliar:

“Concebendo, gerando e alimentando a Cristo, apresentando-O ao Pai no Templo, padecendo com Ele quando agonizava na Cruz, cooperou de modo singular, com a sua fé, esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. É por esta razão nossa Mãe na ordem da graça.”[5]

São Bernardo, o Doutor Melífluo, não deixa de exalar um preciso e piedoso pensamento sobre o assunto:

“Pior que a espada, transpassando a alma, não foi aquela palavra que atingiu até a divisão entre a alma e o espírito: Mulher, eis aí o teu filho? (Jo 19,26). Oh! Que troca incrível! Mãe, João te é entregue em vez de Jesus, o servo no lugar do Senhor, o discípulo pelo Mestre, o filho de Zebedeu pelo Filho de Deus, o puro homem em vez do Deus verdadeiro. Como ouvir isso deixaria de transpassar tua alma tão afetuosa, se até a lembrança nos corta os corações, tão de pedra, tão de ferro?”[6]

Em suma, ao mesmo tempo em que Cristo operava a redenção da humanidade, nascia a Santa Igreja de seu costado aberto. Quando o soldado Longinus abriu com sua lança o costado do Salvador, Jesus já havia expirado. Mas, aos pés da Cruz stabat Mater Dolorosa. Ela sentiu em seu próprio coração a dor da lança que perfurava o Sagrado Coração, sentiu em si aquela dor que seu Filho Divino não mais podia sentir. Tendo a Igreja nascido do flanco de Cristo golpeado, bem se pode afirmar que foi Maria quem sofreu as dores deste “parto” no seu próprio Imaculado Coração. Esta dor apenas Ela a sofreu, pois Jesus já estava morto. Por que negar que Ela, assim, participava também do nascimento da Igreja como Mãe terníssima? Ela é, verdadeiramente, a Mater Ecclesiae.

Felipe Rodrigues de Souza

Trecho extraído da monografia: “Maria Santíssima: o Paraíso de Nosso Senhor Jesus Cristo, na reflexão mariológica de Plinio Correa de Oliveira”.


[1] Cf. Ef 1, 22-23; 1Cor 6, 15a; Rom 6, 4-6; Col 1, 18.

[2] Cf. AGOSTINHO, San. De S. Virginitate, 6: PL 40, 399. In: PONS, Guillermo. Textos marianos de los primeros siglos. Madrid: Ciudad Nueva, 1994. p. 127.

[3] ROSCHINI, Pe. Gabriel. Instruções Marianas. São Paulo: Paulinas, 1960. p. 78-79.

[4] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência para jovens. 21 out. 1989. Arquivo ITTA.

As matérias extraídas de exposições verbais – designadas neste trabalho, segundo sua índole, como “conferências”, “palestras”, “conversas” ou “homilias” – foram adaptadas para a linguagem escrita.

[5] VATICANO II. Const. dogm. Lumen gentium, 61: AAS 57 (1965) 63.

[6] BERNARDO, São. Liturgia das Horas. São Paulo: Vozes/Paulinas/Paulus/Ave Maria, 1999. Vol. IV, p. 1281-1282.

Aspectos da devoção a Nossa Senhora

Com sua característica clareza, São Luiz Grignion de Montfort resume em cinco pontos principais a devoção que devemos ter à Santíssima Virgem.

             A devoção refere-se diretamente a Deus e só indiretamente aos Santos, pelo que eles têm de Deus. Nossa Senhora ocupa um lugar intermediário entre Deus e os Santos, o que dá origem a um culto próprio, portanto único, e especial: muito inferior ao de Deus, mas muito superior ao dos Santos.

            O culto de hiperdulia é reservado a Nossa Senhora por sua singular dignidade de Mãe de Deus. É muito inferior ao de Deus porque difere especificamente ao culto de latria (devido só a Deus). Nós veneramos a Nossa Senhora mas não A adoramos; há portanto, um abismo infinito entre as duas espécies de culto. É muito superior ao culto de dulia (devido aos Santos) porque difere deste especificamente pelo motivo da dignidade da maternidade divina, esta dignidade coloca Nossa Senhora numa ordem à parte, que está mil vezes por cima, e é também especificamente distinto da ordem da graça e da glória em que se encontram todos os Santos.

A verdadeira devoção a Maria tem de ser interior, tenra, santa, constante e desinteressada:

            Devoção interior: Isto é, nasce do espirito e do coração e provêm da estima que se tem da Santíssima Virgem, da alta ideia que se forma a respeito da grandeza dela e do amor que se lhe professa.

            Devoção tenra: Isto quer dizer que é cheia de confiança em Nossa Senhora, como um menino tem em sua carinhosa mãe. A devoção tenra faz que a alma recorra a Maria em todas suas necessidades de corpo e de espírito, com muita simplicidade, confiança e ternura; que implore a ajuda de sua celestial Mãe em todos os tempos, em todos os lugares e em todas as coisas: em suas dúvidas, para que as mesmas possam ser esclarecidas; em seus desvios, para voltar ao bom caminho; em suas tentações, para que Maria a sustenha; em suas debilidades, para que a fortifique; em suas quedas, para que a levante; em seus desânimos, para que lhe infunda animo; em seus escrúpulos, para que a livre deles; em suas cruzes, trabalhos e contratempos da vida, para que a console. Por último, em todos seus males de corpo e de espírito, Nossa Senhora é seu ordinário (no sentido de habitual) recurso, sem receio de importunar a esta tenra Mãe e desagradar a Jesus Cristo.

            Devoção santa: É santa porque faz com que a alma evite o pecado e imite as virtudes da Santíssima Virgem; sobretudo de um modo mais particular sua humildade profunda, sua fé viva, sua obediência cega, sua oração contínua, sua mortificação total, sua pureza divina, sua caridade ardente, sua paciência heroica, sua doçura angelical e sua sabedoria divina, que são as dez principais virtudes da Santíssima Virgem.

            Devoção constante: Quer dizer que consolida a alma no bem e faz com que não abandone facilmente suas práticas de devoção, lhe dá ânimo para que se oponha ao mundo em suas modas e em suas máximas; à carne, em seus tédios e embates de suas paixões, e ao demônio em suas tentações; de maneira que uma pessoa verdadeiramente devota da Virgem não é inconstante, melancólica, escrupulosa, nem tímida. Isto não quer dizer que não caia nem experimente alguma mudança no que tange à sensibilidade de sua devoção; senão que, se cai, volta-se a levantar esticando a mão à sua bondosa Mãe, e, se carece de gosto e de devoção sensível, não se desanima por isso; porque o justo e devoto fiel de Maria vive da fé de Jesus e de Maria e não dos sentimentos do corpo.

            Devoção desinteressada: Finalmente, é desinteressada porque inspira à alma que não se procure a si própria, senão somente a Deus em sua Santíssima Mãe. O verdadeiro devoto de Maria não serve a esta augusta Rainha por espírito de lucro ou de interesse, nem por seu bem, ainda que temporal ou eterno, de corpo ou de alma, senão unicamente porque Ela merece ser servida, e Deus n’Ela. Se ama a Maria, não é pelos favores que esta lhe concede ou pelos que d’Ela espera receber, senão unicamente porque Ela é amável (merece ser amada). Eis aqui o porque a ama e a serve com a mesma fidelidade em seus contratempos e aridezes que em suas doçuras e fervores sensíveis; e igual amor lhe professa no Calvário e nas bodas de Caná.

            Ah, quão agradável e precioso aos olhos de Deus e de sua Santíssima Mãe é o devoto de Maria que não se procura a si mesmo em nenhum dos serviços que lhe presta! Mas, quão raro é hoje em dia encontrar um devoto assim!

Pe.  Hernán Luis Cosp Bareiro, EP

A santificação de São João Batista por meio da Santíssima Virgem

O sol apressa, como mais lhe agrada, o andamento das estações. Ao mesmo tempo em que Deus suscita santos que começam a ser vistos na sua maturidade, suscita por vezes outros prontos para serem colhidos desde logo para o céu. Tal foi São João Batista em sua natividade. No momento da Visitação recebeu num só ato a plenitude do Espírito Santo. Jesus criança opera, a partir do seio de sua Mãe, esta obra prima de santidade, que não fará maior em sua vida, nem depois de sua morte − pois que não se conhece após ele algum que tenha sido formado inicialmente na plenitude da santidade − como foi o Batista. Um dos motivos pelos quais a Igreja estabeleceu uma maior solenidade na Natividade deste santo do que em sua morte é devido (além de sua santificação) a esta plenitude de graças que ele recebeu.

Se o compararmos com o conjunto dos demais santos, por exemplo, São Pedro, São Paulo, verificamos que o dia de suas respectivas festas é o da sua morte, pois que eles empregaram o curso da vida toda a trabalharem até a última hora para adquirirem o ápice das graças; enquanto São João, no dia da Visitação recebeu de uma só vez, uma medida fora do comum.

Concedendo assim a São João a graça de Precursor, Maria já se mostrava como sendo Mestra e Rainha dos Apóstolos.

Com efeito, São João teve que realizar sozinho durante a vida, as funções dos doze apóstolos e estes só foram chamados após ele, como sucessores de sua função, para anunciar e tornar conhecido Nosso Senhor. Foi este mesmo santo que transmitiu a primeira lucidez referente a Jesus Cristo a Santo André, e, por meio deste a São Pedro, o Príncipe dos Apóstolos e aos demais discípulos que ele enviava a Jesus; os quais, posteriormente tornaram-no conhecido no mundo todo.

Recebendo, pois, por Maria a graça de precursor de Jesus Cristo, a graça de torná-lo conhecido por todos, São João tornou-se a voz de Maria, órgão de sua graça e de seu amor.

Assim, Maria é a Rainha dos Apóstolos, e num certo sentido, a mãe de nossa fé.

Na santificação de São João Batista Maria exerceu a primeira das duas funções do apostolado, que são de levar o conhecimento do Senhor e a santificação das almas. Ensinai a todas as nações, disse Nosso Senhor, e batizai-as. Ensinai caracteriza a fé e a luz que os homens apostólicos devem levar por toda a parte; batizar significa a santificação dos corações.

Eis o ministério preenchido pela Santíssima Virgem, fornecendo, pela eficácia de sua palavra nesta ocasião, o conhecimento do Salvador a Santa Isabel, bem como a São João, o qual, além do mais, ela santificava. Sua palavra produziu nele as palavras sacramentais do Batismo; mais ainda, pois que, conforme a observação de Santo Ambrósio, São João recebeu não uma graça de infância, como a que recebemos no batismo, mas uma graça de perfeição, que começou na idade da plenitude de Jesus Cristo(*)

(*) S. Ambros. Expos. Evang. Luc., lib. II, tom. 1, col. 1291. Neque ullam infantiae sensit aetatem, qui supra naturam, supra aetatem, in utero situs matris, a mensura perfectœ coepit aetatis plenitudinis Christi.

Tal é o efeito do sacramento da Crisma nos cristãos, os quais, esclarecidos pela fé, recebem a plenitude dos dons do Espírito Santo, que os possui, os rege e os consome na perfeição de seu santo amor.

Assim, qual não terá sido a santidade, a força, a inocência, a penitência, o amor, a humildade de São João Batista?! Sua vida, sua constância nos perigos e sua morte bem que dão-lhe suficiente testemunho.

Assim, a Santíssima Virgem é como o sacerdote e pontífice que batiza e confirma este grande santo, e lhe dá a plenitude do espírito de Jesus Cristo, proporcionada à missão que teve que preencher no mundo. Bem se vê por aí que, se tão logo que esteve no seio de sua Mãe, Nosso Senhor levou, por meio dEla, a São João o espírito de precursor, o espírito apostólico, foi para nos fazer sentir, de maneira exterior e sensível, esta verdade consoladora: que sendo devedor da sua vida humana a Maria, somente por meio dEla quer conceder suas graças e seus dons.

A ordem que Ele seguiu na santificação de São João Batista, Ele a seguirá sempre. O primeiro dos efeitos da graça que Ele produziu constitui a regra de todos os demais; tendo comunicado primeiramente sua graça por Maria, será também por Ela que a concederá à Igreja no correr dos tempos.

Vie intérieure de la Très-Sainte Vierge. Coletânea dos escritos de M. Olier, Fundador da Congregação dos Padres de Saint-Sulpice, França.

Editions Saint Remi, 2012 Cadillac, França. Cap. VI, pp. 74-76

Seleção e tradução: Guy Gabriel de Ridder