Jesus Cristo, Homem e Deus verdadeiro

001Introdução

 

Muitas vezes por não termos um adequado conhecimento da doutrina católica, reduzimos a nossa piedade e o nosso enlevo pela vida sobrenatural, quando o não, pela própria Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, pois não damos o verdadeiro valor ao mistério de sua Encarnação. E se não tomamos cuidado nos deixamos levar por doutrinas enganosas que procuram tirar a visão grandiosa que todo católico deve ter da Pessoa do nosso Redentor. É esse o motivo deste artigo, ajudar a tomarmos conhecimento da Grandeza de Nosso Senhor Jesus Cristo e por meio disso aumentarmos a nossa piedade, como também podermos defender a nossa fé.

Mais cedo ou mais tarde a todo católico se põem algumas perguntas. A natureza humana de Nosso Senhor Jesus Cristo, é adorável? Isto é, por exemplo, posso eu voltar-me a Ele e sobrenaturalmente oscular os seus pés e adorá-los, como os pés de Deus? Qual a relação que devo ter eu com Ele? Qual o ato de reverência que devo demonstrar-lhe e prestar-lhe? Qual a relação, portanto, que tem o Santíssimo Sacramento do Altar e eu?

Alguns fiéis por não conhecerem adequadamente a doutrina sobre a Graça de União que Cristo possui, têm uma fé incompleta e não fazem, por isso, progressos de amor e adoração em relação à Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Essas perguntas hoje em dia podem ser vistas com repulsa para muitos, ou o que é pior, vistas com indagações de uma fé primária que não evoluiu nos “conhecimentos” teológicos, e que por sua vez tais perguntas não são dignas de crédito. Porém ao responde-las mostraremos que não só são elas cabíveis, como também solucionando-as cai por terra a doutrina naturalista, igualitária e reducionista, que hoje em dia muitos teólogos sustentam, considerando Jesus apenas como um revolucionário social que veio a este mundo só para salvar os oprimidos e marginalizados.[1]

 

  1. O exemplo de uma heresia: O Adocionismo

A primeira sentença que devemos rejeitar é que a Nosso Senhor deve-se atribuir uma dupla filiação; a primeira como Deus, Filho Natural, e a segunda como homem, filho adotivo. Tal heresia foi apregoada em fins do século VIII por Elipando de Toledo (+ 802) e por Felix de Urgel (+ 816). Essa heresia se intitula adocionismo, e foi combatida sobretudo pelo teólogo franco Alcuino.

Ela foi condenada com a própria censura de uma antiga heresia já existente, o nestorianismo. O papa Adriano I (772-795) condena o adocionismo numa de suas cartas doutrinais, acusando-a de uma renovação dos erros nestorianos, o que foi confirmado no Concílio plenário de Frankfurt (794) em presença do Imperador Carlos Magno, tendo como texto do Concílio esta sentença: “o filho nascido da Virgem era verdadeiro Deus e não podia ser considerado, portanto, como filho adotivo.” (D 615)

“Esta seita se levantou baixo o império de Carlos Magno, pelo ano 778. Com este motivo, Elipando, arcebispo de Toledo, consultou a Félix, bispo de Urgel, acerca da filiação de Jesus Cristo, e este bispo o contestou, que enquanto Deus, era verdadeira e propriamente Filho de Deus, gerado naturalmente pelo Pai; mas que Jesus Cristo enquanto homem ou filho de Maria, não era senão adotivo de Deus, decisão a que subscreveu Elipando. O papa Adriano, advertido deste erro, o condenou em uma carta dogmática dirigida aos bispos de Espanha.

[…] Félix se retratou, e depois voltou aos seus erros; Elipando, por sua vez, tendo enviado a Carlos Magno uma profissão de Fé que não era ortodoxa, fez esse príncipe reunir um Concílio em Frankfurt, em 794, no qual se condenou a doutrina de Félix e Elipando, o mesmo que no Concílio de Forli no ano de 795, e pouco tempo depois no Concílio celebrado em Roma sob o pontificado de Leão III.” (MORENO CEBADA, 1892, p.103, 104)

 

  1. O culto a Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo

Outra conclusão que a teologia chegou é que: o culto que se deve ao Homem-Deus, é o de látria absoluto que corresponde unicamente a Deus:

“A humanidade de Cristo veio a ser, pela união hipostática uma parte, em certo modo da pessoa do Logos e, por Ele, é adorada em e com o Logos. Ela é em si mesma objeto de adoração.” (OTT, 1997, p.253)

Uma prova do que acima ficou dito é que Nosso Senhor consentiu que as pessoas lhe prestassem tal culto, como O vemos na Sagrada Escritura aceitar as prosternações de joelho, que tinham um caráter de culto de adoração. (cf. Mt 28,9 e 17) Em São João 5, 23, Jesus reclama para si o culto que é devido ao Pai ao dizer “para que todos honrem ao Filho como honram ao Pai.” São Paulo também dá o mesmo testemunho ao afirmar em Filipenses 2, 10 “para que ao nome de Jesus se dobrem todos os joelhos” e na carta ao Hebreus 1, 6 testifica “Adorando-o todos os Anjos de Deus.”

E São Tomás o explica de forma caracteristicamente clara e brilhante:

“A adoração da carne de Cristo não significa senão a adoração do Verbo encarnado, assim como a reverência que se tributa às vestes reais não significa senão o respeito e submissão devidos ao rei que se veste das mesmas.” (S. Th. III, q.25, a. 2)

Alguns teólogos, dentre eles o Pe. Royo Marín, ao tratarem dessa adorabilidade do Homem-Deus denominam essa união intrínseca, que provem da união hipostática, de Graça de União. Essa graça existe pelo fato de que a união sobrenatural com Deus decorre da graça santificante. E os seres serão mais santos na medida que se unam mais com Deus, estabelecendo uma regra de três: maior graça, maior santidade, e vice e versa. Essa graça constitui a própria santidade substancial da humanidade de Cristo.

“Em virtude da união hipostática foi comunicada à humanidade de Jesus Cristo a santidade mesma do Verbo e é, por conseguinte, infinitamente santa, mesmo que prescindido da graça habitual ou santificante. […] A graça de união se estende a toda a humanidade de Cristo, ou seja, à alma e ao corpo.” (1961, p.70,72)

Dizendo de outra maneira, ao unir-se hipostaticamente com o Verbo de Deus, a humanidade Santíssima de Cristo (corpo e alma) ficou incorporada à mesma santidade do Verbo, não por uma informação do Verbo a humanidade de Cristo, mas sim em virtude do caráter substancial dessa união, isto recebe o nome de Graça de União. É por essa razão que a Igreja definiu que a própria carne de Cristo é Vivificante (D 123).

Porém um fato decorre disso. É que essa graça é única, e só existe na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, como nos diz o piedoso doutor Sauvé:

002“As coisas preciosas em si mesmas o são mais quando são raras. A graça de união é não tão somente rara, senão única […] esta graça é singular e incomunicável. […] A graça de união se estende a toda humanidade de Jesus. […] Do ato mais ordinário, por exemplo, do ato pelo qual cortava e ajustava em Nazaré um pedaço de madeira, devo crer que agradava soberanamente a Deus e que era infinitamente meritório. […] Cada contato de seu corpo era infinitamente santo. […] Cada um de seus movimentos era infinitamente santo. […] Cada gota de seu sangue é infinitamente santa. […] Cada um de seus sofrimentos ou de suas alegrias era infinitamente santo e capaz de santificar as alegrias ou os sofrimentos do mundo inteiro.” ( apud ROYO MARÍN, 1961, p.72-73)

Partindo dessas considerações teológicas, a piedade cristã foi com o passar do tempo, prestando cada vez mais o culto de latría à Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, sendo uns, desde a Idade Média, mais salientados do que outros, como por exemplo a devoção às cinco chagas, ao preciosissímo sangue, à santa face, à cabeça dolorida do Redentor e sobretudo ao seu Sagrado Coração.

Porém a Igreja, para evitar abusos e extremos que poderiam ridicularizar a Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo – como por exemplo o culto as sobrancelhas de Nosso Senhor – não permite o culto público de cada uma das distintas partes da humanidade de Cristo, senão que unicamente as que se relacionam diretamente com a sua Pessoa e com os mistérios da encarnação. (cf. De Guibert, Documenta ecclesiastica christianae perfectionis apud ROYO MARÍN,1967)

O fundamento dogmático de tal adoração – sobretudo ao Sagrado Coração – teve sua origem numa mística alemã da Idade Média, e se baseia no dogma da união hipostática. O papa Pio VI assim declarou: que o Coração de Jesus era adorado, não separadamente ou desligado da divindade senão como o Coração da Pessoa do Verbo, com a qual se acha inseparavelmente unido. (Dz 1563)

Tal devoção encontrou seu maior realce após as revelações feitas pelo próprio Sagrado Coração a Santa Margarida Maria Alacoque, e foi ainda mais propagada após as encíclicas Miserentissimus Redemptor (1928) e Caritate Christi compulsi (1932), de Pio XI, e Haurietis aquas (1956), de Pio XII.

 

Conclusão

Acabamos por ver brevemente qual o culto e a devoção que devemos ter à Pessoa adorável de Nosso Senhor Jesus Cristo, esperando que este artigo mais do que um mero acréscimo intelectual, produza isto sim um maior desejo de entrega a esse Coração que tanto amou o mundo, como Ele mesmo disse a Santa Margarida Maria Alacoque, e que robusteça a nossa fé ao culto de adoração que se deve ao Homem-Deus.

 

Pe. Millon Barros, EP

Bibliografia

 

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Tradução de Alexandre CORREIA. São Paulo: Faculdade de Filosofia “Sedes Sapientiae”, 1954.

BÍBLIA Sagrada. Tradução de Antonio Pereira de FIGUEIREDO. Lisboa: Great Britain, 1931.

MARÍN, Antonio Royo. Jesucristo y la Vida Cristiana. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1961.

MORENO CEBADA, Emilio D. Historia de las herejías. Barcelona: Imprenta de Ramón Inglanda, 1892.

OTTO, Ludwig. Manual de Teología Dogmática. 7.ed. Barcelona: Herder, 1997.

 

______________________

[1] v. gr. BOFF, Leonardo. Igreja: carisma e poder, 3ª ed., Petrópolis: Vozes, 1982.

FEBRIS, Reginaldo. A opção pelos pobres na Bíblia, São Paulo: Ed. Paulinas, 1991.

MATEOS, Juan. A utopia de Jesus, São Paulo: Paulus,1994.

NEUTZLING, Inácio. O reino de Deus e os pobres, São Paulo: Ed. Loyola, 1986.

PIXLEY, Jorge & BOFF, C. Opção pelos pobres, Petrópolis: Vozes, 1986.

VIGIL, José Maria (Org.). Opção pelos pobres hoje, São Paulo: Ed. Paulinas, 1992.

FERREIRA, Francisco A. As bem – aventuranças de Jesus. São Paulo: Santuário, 1999.

A realeza de Cristo

Cristo Rei. Igreja de Santo André - Bayona, França
Cristo Rei. Igreja de Santo André – Bayona, França

“Perguntou-lhe então Pilatos: És, portanto, rei? Respondeu Jesus: Sim, eu sou rei.” (Jo 18, 37).

Rei, palavra tão pequena em sua ortografia, mas tão cheia de significados. De fato, quantas qualidades se poderiam atribuir às coisas eminentes e, no entanto, escolhemos a palavra rei. Ao astro por excelência, que irradia seus raios sobre a Terra, isto é, o Sol, damos o título de Astro-rei. Ao animal que reúne em si as mais importantes prerrogativas do reino animal, o leão, o qualificamos como rei dos animais.

Ora, se isto é assim no reino mineral e animal, a Cristo, o Primogênito de toda a criação, e o mais perfeito dentre os homens, não lhe caberia o título de rei?

No Credo, Símbolo dos Apóstolos, quando recitamos: “está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos”, proclamamos a realeza de Jesus Cristo. Com efeito, aquele que se assenta à direita do rei, participa do governo e juízo que este exerce.[1]

Se analisamos a Cristo, enquanto Deus, não teremos dificuldade em reconhecê-Lo como rei, uma vez que, sendo Deus, é o Criador e o Conservador de tudo quanto existe. Porém, enquanto homem, pode-se dizer que Ele é rei?

Para ser rei, antes de mais nada, é preciso que o soberano participe da mesma natureza que os súditos, ou seja, se é rei dos homens tem que ser homem. Sendo assim, Jesus, enquanto Deus, é rei pois, juntamente com o Pai e o Espírito Santo, possui supremo e absoluto sobre toda a criação[2]; e enquanto homem, Cristo tem sua realeza fundada na união hipostática, pela qual sua humanidade participa plenamente da divindade, uma vez que há uma só pessoa em Cristo, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade. A união hipostática, portanto, faz de Nosso Senhor rei por natureza.[3]

Não obstante, Jesus é também rei por direito de conquista pois, tem direito a ela pelo fato de ter redimido a humanidade com sua Paixão e Morte na Cruz[4], como afirmou São Pedro: “Porque vós sabeis que não é por bens perecíveis, como a prata e o ouro, que tendes sido resgatados da vossa vã maneira de viver, recebida por tradição de vossos pais, mas pelo precioso sangue de Cristo, o Cordeiro imaculado e sem defeito algum.” (1 Pe 1, 18-19)

Nosso Senhor Jesus Cristo é ainda rei por tríplice motivo: por ser cabeça da Igreja, pela plenitude de sua graça, e por direito de herança.

Cristo é cabeça da Igreja à semelhança da relação que a cabeça tem com o corpo humano, ou seja, conforme a ordem, perfeição e poder. De acordo com a ordem, a cabeça é a primeira parte do homem, considerando do mais ao menos elevado. Do mesmo modo Jesus possui o primeiro lugar na proximidade com Deus, por sua união hipostática. Em segundo lugar, a cabeça indica perfeição, pois nela se reúnem todos os sentidos internos e externos; e além disso, Cristo possui a plena perfeição em todos os âmbitos. E, finalmente, assim como a cabeça possui o poder sobre todo o corpo, governando os outros membros, também Cristo tem poder sobre os demais membros da Igreja, sendo criador e fonte da graça.[5]

002Ademais, como cabeça da Igreja, cabe a Cristo o juízo, e o poder judicial é, por sua vez, uma consequência da potestade régia. Sua realeza provém igualmente da plenitude da graça[6] que possui, como afirma São João: “De sua plenitude todos nós recebemos” (Jo 1, 16). E também Cristo é rei por direito de herança, uma vez que os herdeiros gozam de todos os direitos e prerrogativas de seus pais, e Jesus herdou do Padre Eterno sua realeza, conforme a Escritura: “Foi-lhe dado o senhorio, a glória e o império, e todos os povos, nações e línguas hão de servir-lhe. Seu poder é um poder eterno, que nunca lhe será tirado e sua realeza é tal, que jamais será destruída!” (Dn 7, 13-14). Jesus “é o unigênito Filho de Deus e por Este foi constituído como herdeiro universal, recebendo o poder sobre toda a criação, no mesmo dia em que foi engendrado.”[7]

Não obstante, apesar de Cristo Rei possuir o tríplice poder – legislativo, judiciário, e executivo –, por sua potestade régia, seu reino, entretanto, não é temporal e terreno, como Ele mesmo afirmou: “Meu reino não é deste mundo” (Jo 18, 36). Ora, se Cristo é deveras rei se seu reino não é deste mundo?

O reino de Nosso Senhor é eterno, sem fim (Lc 1, 33), e universal, pois reina sobre toda a criação, e foi-lhe dado “todo poder no céu e na terra” (Mt 28, 18). É um reino de verdade e vida, segundo suas palavras: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). Reino de santidade e graça. De santidade porque enquanto Deus é a santidade infinita, e enquanto homem é infinitamente santo pela união com a Pessoa do Verbo de Deus. Reino de graça porque possui a plenitude da graça e da verdade (Cf. Jo 1, 14), e “de sua plenitude todos nós recebemos graça sobre graça” (Jo 1, 16).

Finalmente, seu reino é de justiça, amor e paz. De justiça, pois veio estabelecê-la na terra, e julgará a todos “segundo suas obras” (Rm 2, 6). De amor, pois a caridade ultrapassa os umbrais da eternidade, e seu reino é eterno. De paz, porque a paz é “obra da justiça” (Is 32, 17), e Ele mesmo é chamado “Príncipe da paz” (Is 9, 6). Enfim, Nosso Senhor Jesus Cristo, podemos exclamar com São Paulo, não é só o Sacerdote, mas também o Rei que nos convinha.

 

Pe. João Carlos Fidelis de Moura, EP

 

[1] Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. III, q. 58, a. 1, co.

[2] Cf. S. Th. III, q. 58, a. 2, co.

[3] Cf. S. Th. III, q. 58, a. 3, co.

[4] Cf. S. Th. III, q. 59, a. 3, co.

[5] Cf. S. Th. III, q. 8, a. 1, co.

[6] Cf. S. Th. III, q. 7, a. 10, co.

[7] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos. Vaticano: Editrice Vaticana, 2012, p. 487. vol. VI.

A virtude da Fortaleza em Nosso Senhor Jesus Cristo

001É comum nos depararmos com uma visão reducionista de Nosso Senhor Jesus Cristo. Muitos ao tentarem encontrar uma desculpa para justificar suas doutrinas miserabilistas, ou conformadoras com os defeitos e pecados do “próximo”, tentam transmitir uma visão apoucada e muitas vezes deturpada do Nosso Redentor.

É por causa disso que muitos defendem a “necessidade de perdoar” como sendo a única obrigatória; nunca recriminar, sempre ser condescendente com os defeitos do próximo. Porém não foi esse o ensinamento que o Divino Mestre deixou àqueles que com Ele conviveram, e, para perpétua memória, escreveram os Santos Evangelhos.

Por isso, pareceu-nos oportuno ressaltar através dessas linhas um aspecto do resplendor divino que brilhou na pessoa do Homem-Deus, e que hoje está posto de lado: a virtude da fortaleza. E a fim de silenciarmos o “romantismo religioso” que invade os meios católicos em nossos dias, trazemos a lume as palavras do grande líder católico brasileiro, o Professor Plinio Corrêa de Oliveira, que afirma:

“Fazemos a apologia de doutrinas de luta e de força, luta pelo bem é certo, e força a serviço da verdade. Mas o romantismo religioso do século passado desfigurou de tal maneira em muitos ambientes a verdadeira noção de Catolicismo, que este aparece aos olhos de um grande número de pessoas, ainda em nossos dias, como uma doutrina muito mais própria ‘do meigo Rabi da Galileia’ de que nos falava Renan – do taumaturgo um tanto rotariano por seu espírito e por suas obras, com que o positivismo pinta blasfemamente Nosso Senhor, parecendo ao mesmo tempo enaltecê-Lo – do que do Homem Deus que nos apresentam os Santos Evangelhos.” (1983, p. 283)

Para introduzir melhor o leitor no tema, colocamos uma breve descrição teórica da virtude da fortaleza, segundo o grande teólogo, Pe. Antônio Royo Marín, O.P.: “[a virtude da fortaleza é] uma virtude cardeal infundida com a Graça Santificante que inflama o apetite irascível e a vontade para que não desistam de conseguir o bem árduo ou difícil nem sequer pelo máximo perigo da vida corporal.” (1968, p. 588)

Em outras palavras, a virtude da fortaleza nos dá a força e a coragem necessárias para cumprirmos nosso dever, mesmo que isso seja muito difícil ou até mesmo que ponha em risco a vida material do homem, desde que o motivo seja sobrenatural. É o caso dos mártires, que preferiram morrer a renegar sua Fé.

Seria necessária uma explicação muito longa e detalhada para conhecermos todos os seus efeitos e virtudes derivadas. Mas para o efeito que nos propomos neste artigo, faremos menção apenas de duas virtudes, que são mais salientadas nos Evangelhos. Elas são a Paciência e Magnanimidade.

“A Magnanimidade é uma virtude que inclina a empreender obras grandes, esplêndidas e dignas de honra em todo gênero de virtudes.” (ROYO MARÍN, 1968. p. 590) Como sabemos, não foi outra coisa a vida do Verbo Encarnado nessa terra, realizar grandes obras.

Já a virtude da Paciência tem como objetivo inclinar a suportar sem tristeza de espírito nem abatimento de coração os padecimentos físicos e morais, e o principal motivo da paciência cristã é a conformidade com a vontade Divina, que sabe muito mais do que o homem. (cf. ROYO MARÍN, 1968, p. 592)

Agora, cabe-nos saber se o Bom Pastor possuiu e praticou essa virtude? Vejamos como o Pe. Anton Koch, S.I., nos descreve a cena da expulsão dos vendilhões do Templo:

“Duas vezes vemos relampejar de ira os olhos do Rei que havia de vir com mansidão (Mt 21, 5); duas vezes o doce Jesus descarrega o raio de uma cólera divina; mas duas vezes para purificar a casa de seu Pai […] Jesus acaba de inaugurar sua atividade pública com o milagre feito em Caná, no circulo familiar de umas bodas. Estando próxima a Páscoa, sobe a Jerusalém. E entra no Templo. E vê toda aquela profanação do lugar sagrado; O que veio para dar glória ao Pai se sente consumido pelo zelo de sua casa, e colhe umas cordas, as primeiras que encontra, forma com elas um açoite, e o faz relampejar no meio de toda aquela gente; expulsa do Templo os vendedores juntamente com seus animais, derrama o dinheiro dos cambistas, derruba as mesas e com voz de trovão, com voz de santa indignação clama ‘retirai isso daqui, e não façais da casa do meu Pai um covil de ladrões’.” (1954, p. 561-562)

Semelhante atitude de ira foi necessária na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, como nos aponta Karl Adam: “Semelhante querer, tão extraordinariamente concentrado e disciplinado, semelhante força de alma devia irromper também no exterior por alguma palavra dura, por alguma ação ousada, quando forças inimigas ou malévolas se lhe opusessem. Em Jesus não havia somente uma força contida, uma vontade determinada, mas um ardor entusiasta e uma santa paixão. Basta notar a emoção que trazem algumas de suas palavras e de suas ações: ‘Retira-te Satanás’ – é assim que repele com horror a aparição tentadora. […] ‘Retirai-vos de mim, obreiros da iniqüidade, não vos conheço!’, dirá no dia do Juízo aos que não tiverem socorrido cá na terra os irmãos em necessidade.” (1997, p. 17)

O mesmo autor lembra o grande número de parábolas nas quais se ressalta a ira do Divino Redentor: “É o raio que fulgura, é o trovão que explode, como na parábola do joio: ‘O Filho do homem enviará os seus anjos, e eles tirarão do seu reino todos os escândalos e todos os que praticam a iniqüidade, e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes’.” (1997, p. 18)

Porém, mais do que uma simples ira, o Mestre experimentou também o sentimento da cólera: “Os evangelistas nos falam da ‘cólera’ de Cristo: […] sobretudo quando os fariseus, na ‘cegueira do seu coração’, reagem contra qualquer ensinamento e se fecham num silêncio obstinado e desdenhoso. A contrariedade interior que experimentará, o seu senso de lealdade e de verdade feridos, o seu sentimento moral magoado explodirão nesses momentos em palavras fortes, mesmo duras. Falará de hipócritas, de serpentes, de raça de víboras. Não terá receio de qualificar como ‘raposa’ o próprio Herodes.

“Quando se tratava de dar testemunho da verdade, Jesus não sabia tergiversar nem fraquejar por medo. Tinha um caráter de lutador. Não se esquece de quem é nem se deixa arrastar. A sua cólera é sempre a expressão da mais alta liberdade, a expressão de um homem que tem consciência de ‘não ter vindo ao mundo senão para dar testemunho da verdade’.” (1997, p. 20-21)

Porém a sua cólera é a mais alta expressão da Temperança Divina, pois sendo a ira um instrumento da fortaleza, deve ser temperada e controlada pela razão. (cf. ROYO MARÍN, p. 589)

Tendo assim feito um rápido apanhado sobre a virtude da fortaleza na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, percebemos que o Homem Deus é realmente o Bom Pastor, mas também sabe corrigir as suas ovelhas, e aquelas que não quiserem escutar a sua voz serão tratadas como cabritos no dia do Juízo Final. (cf. Mt 25, 41).

É isso que, em outras palavras, afirmou Plinio Corrêa de Oliveira: “[…] Nosso Senhor não foi um doutrinador sentimental mas o Mestre infalível que, se de um lado soube pregar o amor com palavras e exemplos de uma insuperável e adorável doçura, soube, também pela palavra e pelo exemplo, pregar com insuperável e não menos adorável severidade o dever da vigilância, da argúcia, da luta aberta e rija contra os inimigos da Santa Igreja, que a brandura não puder desarmar.” (1983, p. 287)

Pe. Millon Barros de Almeida, E.P.

 

Bibliografia

ADAM, Karl. Jesus Cristo. 2 ed. São Paulo: Quadrante, 1997.

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica – Nº 20 – 2ª da 2ª Parte: Questões 123 – 170 – Da Coragem – Da Temperança. Tradução de Alexandre CORREIA. São Paulo: Faculdade de Filosofia “Sedes Sapientiae”, 1958.

CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Em defesa da ação católica. 2 ed. São Paulo: Artpress, 1983.

FERNÁNDEZ, Aurélio. Diccionario de Teología Moral. Burgos: Monte Carmelo, 2005.

KOCH, Anton, Pe. S.J.; SANCHO, Antonio, Dr. Can. Mag. Docete – Formación Básica del Predicador y del Conferenciante – Tomo II: El Hombre – Dios. Barcelona; Buenos Aires; Santiago de Chile; São Paulo; Bogotá: Herder, 1953.

KOCH, Anton, Pe. S.J.; SANCHO, Antonio, Dr. Can. Mag. Docete – Formación Básica del Predicador y del Conferenciante – Tomo V: El Hombre y Dios. Barcelona; Buenos Aires; Santiago de Chile; São Paulo; Bogotá: Herder, 1954.

MARÍN, Antonio Royo. El Gran Desconocido: El Espíritu Santo y sus dones. 2 ed. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2004.

MARÍN, Antonio Royo. Teologia de la perfección cristiana. 5 ed. Madrid: La Editorial Catolica, 1968.

O capítulo VI do Evangelho de São João: a Eucaristia

Almejamos apontar neste artigo como o Evangelista São João mostra, em seu sexto capítulo, a verdadeira interpretação sobre a Presença Real de Cristo na Eucaristia. Esta é efetiva, Cristo assim o quis, e o relato do quarto Evangelista não deixa margens à outras interpretações. As palavras do Mestre não podem ser metáforas e ainda a reação dos que estavam presentes na cena confirma o sentido verdadeiro, como veremos.

001
São João Evangelista, por Giovanni Bonsi – Museu Amedeo Lia, La Spezia, Itália

São João foi, segundo consta na Tradição, o último a escrever seu Evangelho. De fato, foi somente por volta do ano 90 que ele relatou os feitos da vida do Senhor. Dentre os diversos motivos que o levaram a escrevê-los há um que se destaca: já naquela época começaram ímpias fomentações de heresias sobre a Pessoa de Jesus. Deste modo, em seu sexto capítulo, trata ele especificamente da Santíssima Eucaristia, precavendo a Igreja contra os futuros desvios dos hereges. É de se notar que São João é o único dos Evangelistas a não relatar a instituição da Santíssima Eucaristia. Vemos, entretanto, em sua narração um profundo zelo em explicar a doutrina acerca da transubstanciação. Com efeito, nos elucida GRAIL e ROGUET: “É um fato: João não narrou a instituição da Eucaristia […]. Mais afastado das necessidades da catequese, o IVº evangelho está mais preocupado com a síntese doutrinal”.[1]

É de fé que a Eucaristia foi verdadeiramente instituída por Nosso Senhor. No capítulo VI de São João vemos o Salvador nos prometendo seu próprio Corpo e Sangue como alimento e bebida espiritual. No Sacramento da Eucaristia há um autêntico sacrifício, que anuncia a morte de Cristo e renova, incruentamente, a imolação do Calvário, cujo valor expiatório apaga os crimes dos homens; trata-se de um Sacramento que contém realmente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo.

É curioso o fato de que muitas pessoas que entendem as passagens das Escrituras no sentido literal, “ao pé da letra”, não vêem nas palavras de Nosso Senhor o sentido literal e óbvio por Ele proferido. Ao contrário, relegam-nas à um estilo figurativo, simbólico ou até alegórico.

Contudo basta analisar um pouco mais a fundo este capítulo para percebermos claramente as intenções do Mestre, sua referência clara e direta a seu próprio Corpo e Sangue. Vejamos, no próprio texto, o sentido evidente das palavras:

“Eu sou o pão da vida. Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram. Este é o pão que desceu do céu, para que aquele que dele comer não morra. Eu sou o pão vivo, que desceu do céu. Quem comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que eu darei é a minha carne para a salvação do mundo. Disputavam, pois, entre si os judeus, dizendo: Como pode este dar-nos a comer a sua carne? Jesus disse-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. O que come a minha carne e bebe o meu sangue, tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida. O que come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em Mim e Eu nele.(Jo 6, 48-56).

 

002
Última Ceia – Igreja dos Santos Mártires, Málaga, Espanha

É impressionante verificar como, por assim dizer, Ele reitera várias vezes a afirmação de que é realmente a carne e o sangue d’Ele. Não é possível enxergar uma mera metáfora nestas asseverações.

Metáfora, de fato, não pode ser, pois Nosso Senhor não procura atenuar suas declarações, mesmo sabendo que está “escandalizando” os outros. No versículo 52 os judeus confirmam que entenderam literalmente os sentidos das palavras: “Disputavam, pois, entre si os judeus, dizendo: Como pode este dar-nos a comer a sua carne?” Contudo, o divino Mestre não os corrige pelo que entenderam, mas ainda afirma algo mais ousado: “Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (53).

As metáforas que encontramos nas Escrituras sobre carne e sangue não se prestam a comprar com esta passagem, não há outra interpretação a ser dada, senão a que ensinou Jesus Cristo.

Outro ponto a se considerar é o “escândalo” causado nos circunstantes. Mesmo diante da apostasia destes, Nosso Senhor não se retrai, é mais ousado, e ainda prova a fé dos que permanecem, mostrando que é realmente um ponto crucial quando se trata da Eucaristia: “Desde então muitos dos seus discípulos voltaram atrás, e já não andavam com Ele. Por isso Jesus disse aos doze: Quereis vós também retirar-vos?” (6, 67-68). Ele não procura se desculpar nem atenuar suas afirmações. É patente que se não fossem afirmações literais Ele teria persuadido os discípulos a ficarem, entretanto isto não se deu, o Divino Mestre vira muitos dos que o seguiam nesta ocasião O abandonarem e nem assim Ele se retratou. Aos que permanecem é exigido uma fé profunda, como nos explica HUGON:

“A última parte do capítulo acaba por confirmar a interpretação literal. A multidão murmura, numerosos discípulos se retiram, pois eles acharam muito dura esta linguagem. O Mestre, cuja bondade, entretanto, é inesgotável, não tenta segurá-los, explicando-lhes que suas parábolas têm somente um sentido metafórico e não possuem nada que os possa espantar; ao contrário, Ele insiste e conclui que a fé é necessária a qualquer um que queira compreendê-lo.”[2]

Desta maneira vimos, sucintamente, como realmente, em seu sexto capítulo, São João quis mostrar como a Eucaristia é realmente o Corpo e o Sangue do Divino Salvador, e que não é possível dar outra interpretação às palavras de Cristo. Isto é um mistério de nossa fé. Por mais que não o compreendamos inteiramente devemos depositar plena confiança nas palavras do Divino Mestre.

Pe. Michel Six, EP

003
Adoração ao Santíssimo Sacramento, capela privada dos Arautos do Evangelho

Bibliografia

Bíblia Sagrada. 43ª ed. São Paulo : Edições Paulinas, 1987.

HUGON, Édouard. La Sainte Eucharistie. 4ªed. Paris : Pierre Téqui, 1922.

VV. AA., Initiation Théologique. Vol. IV. Paris: Éditions du Cerf, 1956.

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[1] Il est un fait: Jean n’a pas rapporté l’intitution de l’eucharistie […]. Plus éloigné des nécessités de la catéchèse, le Ivème évangile est plus préocupé de synthèse doctrinale. (Cf. GRAIL, A.; ROGUET; A.-M., O.P., In Initiation Théologique. Vol. IV. Paris : Éditions du Cerf, 1956. P. 506-507).

[2] La dernière partie du chapitre achève de confirmer l’interpretation littérale. La foule murmure, de nombreux disciples se retirent, parce qu’ils ont trouvé trop dur ce langage. La Maître, dont la bonté cependant est inépuisable, n’essaie pas de les retenir en leur expliquant que ses paroles n’ont qu’une portée métaphorique et n’offrent rien qui doive les étonner ; au contraire, il insiste et il conclut que la foi est nécessaire à quiconque veut le comprendre. (Cf. HUGON, 1922, p. 54-55).

O Pão vivo que desceu do Céu

Adoração ao Santíssimo Sacramento. Basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, dos Arautos do Evangelho, São Paulo - Brasil
Adoração ao Santíssimo Sacramento. Basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, dos Arautos do Evangelho, São Paulo – Brasil

Ao subir para o Céus, Jesus não poderia nos ter deixado um presente maior do que a Eucaristia. Que de mais precioso que seu próprio Corpo e Sangue, Alma e Divindade? Sim, na Santa Hóstia Jesus está realmente presente, tal como em sua vida terrena, mas oculto sob os véus do pão e do vinho. Que milagre, que grande mistério!

De fato, a inteligência humana nunca chegaria a cogitar algo ao mesmo tempo tão impossível e tão singelo: Deus e Homem verdadeiro escondido na aparência de alimento, sempre à nossa disposição, como remédio do corpo e da alma.

Mas porque escondido? Por que Ele quer ser procurado pelo seus filhos e filhas. Está ávido de ser visitado, de ser recebido no sacramento da comunhão.

E é isso que a Solenidade de Corpus Christi comemora a cada ano, desde 1264, quando foi instituída pelo Papa Urbano IV, através da Bula Transiturus de hoc mundo. Essa festa “deveria marcar os tempos futuros da Igreja, tendo como finalidade cantar a Jesus Eucarístico, agradecendo-Lhe solenemente pro ter querido ficar conosco até o fim dos séculos sob as espécies de pão e vinho. Nada mais adequado do que a Igreja comemorar esse dom incomparável.” (João S. Clás Dias, EP)

O culto e a devoção à Santíssima Eucaristia foi crescendo paulatinamente ao longo dos séculos da vida da Igreja. Logo nos primeiros tempos Ela era recordada na Quinta-Feira Santa – como aliás o é até nossos dias – mas com um certo tom de tristeza, pois naquela noite o Salvador foi traído por um de seus discípulos e entregue nas mãos daqueles que o matariam.

Mais tarde, já na Idade Média, essa devoção foi ganhando espaço na vida dos fieis e da própria Igreja, e além da celebração da Santa Missa, começaram outros movimentos de louvor a Jesus Hóstia. “O último impulso veio das visões de Santa Juliana de Monte Cornillon, uma freira agostiniana belga, a quem Jesus pediu a instituição de uma festa anual para agradecer o sacramento da Eucaristia. A religiosa transmitiu esse pedido ao arcediago de Liége, o qual, sendo eleito Papa 31 anos depois, adotou o nome de Urbano IV. Pouco depois esse Pontífice instituía a festa de Corpus Christi, que acabou por se tornar um dos pontos culminantes do ano litúrgico em toda a Cristandade.” (João S. Clás Dias, EP)

Com efeito, em 1263, um sacerdote de nome Pedro, originário de Praga, viajava para Roma, e no caminho começaram a lhe assaltar tentações violentas contra a crença na presença real de Jesus na Eucaristia, porém ele não se deixava vencer por tal pensamento. Em determinado momento ele chegou à cidade de Bolsena, distante uns 120 Km de Roma, e decidiu ali fazer uma pausa, e aproveitou para celebrar a Santa Missa, para fortalecer sua fé acometida por essas horríveis tentações.

Corporal no qual foi envolvida a Hóstia milagrosa. Catedral de Orvieto - Itália
Corporal no qual foi envolvida a Hóstia milagrosa. Catedral de Orvieto – Itália

Contudo, quanto mais ele procurava afastar esse pensamento incrédulo, mais fortes eles voltavam à sua mente. Isso intensificou-se de modo especial no momento da Consagração do pão. Nesse momento, o sacerdote olhou para a Hóstia e viu gotejarem gotas de sangue! Sua emoção foi imensa. A torturante dúvida à qual ele não queria dar ouvidos desfez-se e voou como o pó da terra batido pelo vento.

Passados os primeiros momentos de forte comoção, Pedro decidiu continuar sua viagem a Roma e contar ao Papa o ocorrido. Urbano IV o recebeu e escutou atentamente todos os detalhes de tão impressionante milagre. Em seguida ordenou que fosse averiguada a sua veracidade, a qual tendo sido comprovada colocou em marcha uma procissão à frente da qual se encontrava o Servo dos servos de Deus. Tendo chegado à cidade de Orvieto (que se encontra a 20 Km de Bolsena) veio-lhe ao encontro outra procissão com a Hóstia milagrosa, toda embebida em sangue e envolta num corporal.

Ali mesmo em Orvieto, Urbano IV decidiu instituir a celebração de uma festa em honra ao Santíssimo Sacramento, a qual conhecemos até hoje como Festa de Corpus Christi. Não se sabe se por uma dessas sobrenaturais coincidências – que nunca são acasos – ou se faziam parte da comitiva que acompanhava o Papa, encontravam-se na mesma cidade dois dos maiores teólogos de todos os tempos: São Tomás de Aquino e São Boaventura. O Papa, então, os convocou – bem como a outros teólogos – e lhes pediu que compusessem uma sequência[1] para a Missa da festa.

Terminado o prazo combinado, todos eles compareceram diante do Sumo Pontífice para apresentarem suas composições. O primeiro deles foi São Tomás de Aquino, que começou a ler o Lauda Sion. Apenas terminada a leitura, todos os presentes, e em primeiro lugar São Boaventura, rasgaram suas redações e aplaudiram a magnífica obra prima, verdadeira síntese teológica sobre a Eucaristia, tão lindo que deixamos suas palavras encerrarem esse artigo:

Afresco representando o encontro do Papa Urbano IV com a Hóstia milagrosa. Catedral de Orvieto - Itália
Afresco representando o encontro do Papa Urbano IV com a Hóstia milagrosa. Catedral de Orvieto – Itália

Louva Sião, o Salvador, louva o guia e pastor com hinos e cânticos.

Tanto quanto possas, ouses tu louvá-lo, porque está acima de todo o louvor e nunca o louvarás condignamente.

É-nos hoje proposto um tema especial de louvor: o pão vivo que dá a vida.

É Ele que na mesa da sagrada ceia foi distribuído aos doze, como na verdade o cremos.

Seja o louvor pleno, retumbante, que ele seja alegre e cheio de brilhante júbilo da alma.

Porque celebramos o dia solene que nos recorda a instituição deste banquete.

Na mesa do novo Rei, a páscoa da nova lei põe fim à páscoa antiga.

O rito novo rejeita o velho, a realidade dissipa as sombras como o dia dissipa a noite.

O que o Senhor fez na Ceia, nos mandou fazê-lo em memória sua.

E nós, instruídos por suas ordens sagradas, consagramos o pão e o vinho em hóstia de salvação.

É dogma de fé para os cristãos que o pão se converte na carne e o vinho no sangue do Salvador.

O que não compreende nem vês, uma Fé vigorosa te assegura, elevando-te acima da ordem natural.

Debaixo de espécies diferentes, aparências e não realidades, ocultam-se realidades sublimes.

A carne é alimento e o sangue é bebida; todavia debaixo de cada uma das espécies Cristo está totalmente.

E quem o recebe não o parte nem divide, mas recebe-o todo inteiro.

Quer o recebam mil, quer um só, todos recebem o mesmo, nem recebendo-o podem consumi-lo.

Recebem-no os bons e os maus igualmente, todos recebem o mesmo, porém com efeitos diversos: os bons para a vida e os maus para a morte.

Morte para os maus e vida para os bons: vede como são diferentes os efeitos que produz o mesmo alimento.

Quando a hóstia é dividida não vaciles, mas recorda que o Senhor encontra-se todo debaixo do fragmento, quanto na hóstia inteira.

Nenhuma divisão pode violar as substâncias: apenas os sinais do pão, que vês com os olhos da carne, foram divididos! Nem o estado, nem as dimensões do Corpo de Cristo são alteradas.

Eis o pão dos Anjos que se torna alimento dos peregrinos: verdadeiramente é o pão dos filhos de Deus que não deve ser lançado aos cães.

As figuras o simbolizam: é Isaac que se imola, o cordeiro que se destina à Páscoa, o maná dado a nossos pais.

Bom Pastor, pão verdadeiro, de nós tende piedade. Sustentai-nos, defendei-nos, fazei-nos na terra dos vivos contemplar o Bem supremo.

Ó Vós que tudo o sabeis e tudo o podeis, que nos alimentais nesta vida mortal, admiti-nos no Céu, à vossa mesa e fazei-nos co-herdeiros na companhia dos que habitam a cidade santa.

Procissão do Santíssimo Sacramento no Colégio Internacional Arautos do Evangelho, São Paulo - Brasil
Procissão do Santíssimo Sacramento no Colégio Internacional Arautos do Evangelho, São Paulo – Brasil

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[1] Sequentia, ou em português sequência, é um termo latino usado para designar um trecho de canto gregoriano cantado durante a Santa Missa. Por muitos séculos foi cantado antes da leitura do Evangelho, mas, com a reforma da liturgia em 1970, a sequentia foi levada para antes do aleluia. Atualmente ela só utilizada em Missas mais festivas, como a Solenidade de Corpus Christi, Páscoa, Pentecostes, entre outras.

Os entrechoques do Divino Apologeta

Jesus com os fariseus
Jesus com os fariseus – Catedral de Saint-Gatien, Tours (França)

Percorrendo o Evangelho salta-nos aos olhos constantemente, o entrechoque de duas mentalidades: a Divina com a humana, resultando daí uma verdadeira e Divina Apologia. Durante sua vida publica, o Divino Mestre teve que combater contra um terrível erro que se difundia e infiltrava entre o povo eleito, e talvez, poderíamos dizer que tenha sido este o paradigma da ação do mal: o farisaísmo. Entrechoque tal que, como sabemos, culminou na perseguição do Redentor, e por fim na sua própria morte.

Nos ensina a doutrina católica que estando o homem no Paraíso, sua inteligência era governada e iluminada pela graça, de tal modo que – se Adão permanecesse fiel – lhe seria impossível cair em qualquer erro, por pequeno que fosse. Porém, após haver cometido o pecado, tanto Adão, como toda sua posteridade, tornou-se propensa a toda espécie de desvios, criando assim doutrinas falsas que justificam seu modo errado de viver. Sendo esta uma das razões, pelas quais, Deus envia seus Servos e Profetas: para defenderem a sua Verdadeira Doutrina contra os erros que facilmente surgem nas mais variadas épocas históricas.

Se analisarmos o Antigo Testamento, nele veremos fatos que demonstram o quanto é necessário haver homens santos que guiem o povo no caminho da verdade e da retidão. Deste modo, por mais que a história da Apologética tenha seu início nos primeiros séculos do Cristianismo, bem poderíamos denominar esses varões Providenciais – enviados por Deus no Antigo Testamento – de “Proto-Apologetas”, título próprio àqueles que defendem a doutrina, contra as heresias e desvios de seu tempo.

Os Patriarcas, homens de virtude excelsa, personalidade robusta, Fé inquebrantável, autênticas imagens de Deus para aqueles rudes homens ainda não banhados pelo Preciosíssimo Sangue do Salvador, foram, à sua maneira, apologetas; posteriormente, Deus se faz representar pela linhagem espiritual dos doze Juízes, e a seguir, pelos homens da dinastia real que permaneceram fiéis. Todos eles tiveram de enfrentar a opinião pública dominante. Alguns como Josias, que “fez desaparecer as abominações da terra dos israelitas e impôs a todos que lá se encontravam que servissem o Senhor, seu Deus” (2Cr 34,33); e também Ezequias, o qual destruiu os lugares altos e fez cessar a idolatria que se alastrava no meio do Povo eleito (2Rs 18, 3-4). No entanto, “Deus se manifestou de maneira mais esplendorosa através dos Profetas, varões ígneos que invectivavam e ameaçavam aqueles dentre o povo que se desviavam da sã doutrina ou deturpavam a verdadeira Religião”. (CLÁ DIAS, 2005, p. 17-18) Sem embargo, Patriarcas, Juízes, Reis e Profetas não foram senão prefiguras d’Aquele que é o “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6): Jesus Cristo, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Segundo nos ensina São Paulo, Nosso Senhor veio ao mundo na “plenitude dos tempos”. (Gl 4, 4) Essa “plenitude” pode ser entendida de vários modos, um dos quais, o ápice da decadência da humanidade, mas sobretudo dentro do próprio Povo eleito. Assim sendo, “o Verbo se fez carne” (Jo 1, 14) essencialmente para redimir o gênero humano, reatando assim, os laços entre o Criador e a criatura, e ademais, fazendo extraordinárias revelações jamais imaginadas até então. Ora, Ele “veio para o que era seu, e os seus não o receberam”. (Jo 1, 11) Tais revelações foram rejeitadas por muitos de seus contemporâneos, dando origem a um entrechoque continuo de duas mentalidades: a da “graça e verdade” e o “seguimento deturpado da Lei de Moisés”, denominado por diversos autores como: farisaísmo.

Os fariseus dedicavam sua maior atenção às questões relativas à observância das leis de pureza ritual, aquelas estabelecidas para o culto, e passaram a marcar a vida em todas as ações quotidianas, tornando-as ritualizadas. Para o fariseu, “a justiça era mera aparência, e a limpeza ritual praticamente substituía a santidade interior” (HERRERA ORIA, 1959). Após recompilarem uma série de tradições e modos de se cumprir a lei, passaram a dar maior importância a esse “Torah oral”, do que propriamente à Lei verdadeira, ou seja, o Torah ou Pentateuco. Por este motivo, os fariseus tinham o delírio de serem meticulosos na observância das pequenas normas sociais e religiosas de maneira a criarem 613 preceitos (FRANZERO Apud HERRERA ORIA, 1954), que deveriam ser observados por todos. Normas muitas vezes ridículas, como por exemplo, se era lícito comer o ovo que uma galinha tinha posto em dia de sábado.

Eis porque Nosso Senhor os repreende, afirmando que eles “impunham pesados fardos nas costas dos outros sem que eles os movessem nem com um só dedo” (Mt 23, 4), e os censurava, como nos relata São Marcos: “Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens. […] Na realidade, invalidais o mandamento de Deus para estabelecer a vossa tradição”. (Mc 7, 7-8)

Segue o Divino Mestre com outra repreensão: “Ai de vós, guias cegos!” (Mt 23, 16) Isso por quê? Porque foram eles os mais ferrenhos opositores do Reino de Deus trazido pelo Salvador. Devido à grande influência que exerciam sobre o povo, haviam incutido neste uma mentalidade errada a respeito do Messias, apresentando-O como implantador de um reino estável para os judeus, e que os elevaria à supremacia sobre os demais povos. Idéia esta, triunfalista e de cunho marcadamente político e que, infelizmente, desenvolvera-se entre o Povo eleito durante séculos por influências farisaicas. (CLÁ DIAS, 2005)

No entanto, a fama de Jesus se propagava rapidamente, devido à magnitude dos numerosos milagres que realizava. Por esta razão, os fariseus imploravam ao Divino Mestre uma declaração taxativa se era ou não o Messias. Pergunta de si razoável porém, cheia de maldade, porque mesmo que Jesus lhes respondesse de forma afirmativa, eles não acreditariam, pois sua Divina figura contrariava a concepção errada que eles haviam criado para si. No fundo, isso era feito para apanhá-Lo em algum dito supostamente blásfemo, para assim terem oportunidade de prendê-Lo, “entretanto, ao Salvador ninguém engana. Quantas vezes, ao longo da História da Igreja, ímpios e hereges se serviriam dos mesmos pretextos daqueles fariseus”. (CLÁ DIAS, 2007, p.13) Pelo fato de não quererem entendê-Lo, não se deixaram enlevar pelo Messias como Ele realmente é; pois, desejavam que o Messias se adaptasse a eles como eram, com seus caprichos e delírios. “De nada adiantaram todos os milagres, pregações, nem mesmo a manifestação das virtudes de Jesus para dissolver o egoísmo pétreo daqueles incrédulos fariseus!” (CLÁ DIAS, 2007, p 13)

Como se explica a sanha de ódio contra o Divino Salvador? Teria Ele cometido algum delito? Será que Ele veio abolir a Lei de Moisés?

Não! Jesus mesmo declara, após o Sermão da Montanha, o qual segundo Santo Agostinho contém a síntese das doutrinas e estilo de vida trazidos por Nosso Senhor: “não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas. Não vim para os abolir, mas sim para levá-los à perfeição”. (Mt 5, 17) No entanto, os fariseus rejeitaram este convite ad maiorem, preferindo permanecer aferrados aos conceitos antigos.

Mesmo diante da dolorosa caminhada rumo ao Calvário, Jesus não hesita. Toma sua cruz e vai ao encontro da morte como “manso cordeiro levado ao matadouro”. (Is 53,7) Não houve e não haverá na História martírio que possa igualar-se ao que se submeteu Nosso Senhor Jesus Cristo. Sendo “Mártir dos mártires, Mártir por excelência, comprou com seu Sangue adorável a perseverança de todos aqueles que, nos séculos futuros, haveriam de trilhar as vias do holocausto, entregando suas vidas em defesa da Verdade.” (CORREA DE OLIVEIRA, 1977)

E assim, o Divino Apologeta testemunhou com seu próprio Sangue a Verdade que durante toda sua vida terrena ensinou e defendeu.

Cristo Crucificado
Cristo Crucificado. Igreja dos Arautos do Evangelho, São Paulo.

 

REFERÊNCIAS

BIBLIA SAGRADA. Tradução dos Monges de Maredsous. 36. ed. São Paulo: Ave-Maria, 2002.

CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A imagem sacra pode expressar muito mais que as palavras. Arautos do Evangelho. São Paulo: Agosto,n 44, p.16-19, 2005.

______. O fariseu e a pecadora. Arautos do Evangelho. São Paulo: Junho, n 30, p.6-11, 2004.

______. Joio, mostarda, fermento e o Reino. Arautos do Evangelho. São Paulo: Julho,n 43, p.6-11, 2005.

______. Somos todos ovelhas de Jesus? Arautos do Evangelho. São Paulo: Abril,n 64, 10-17, 2007.

FLÁVIO JOSEFO. História dos Hebreus. Tradução do Pe. Vicente Pedroso. São Paulo: Américas, 1956, v 7.

HERRERA ORIA, A. La palabra de Cristo. 2. ed. Madrid: BAC, 1959, v 6.

______. La palabra de Cristo. Madrid: BAC, 1954, v 3.

CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferencia sobre a Paixão de Jesus. São Paulo: Auditório São Miguel, 16 mar 1977.

SANTO AGOSTINHO. Sobre o sermão do Senhor na Montanha. Campo Grande: Edições Santo Tomás, 2003.

Jesus está realmente presente na Eucaristia? De que maneira?

Consagração da Eucaristia

 

Almejamos apontar neste trabalho como o Evangelista São João mostra, em seu sexto capítulo, a verdadeira interpretação sobre a Presença Real de Cristo na Eucaristia. Esta é efetiva, Cristo assim o quis, e o relato do quarto Evangelista não deixa margens a outras interpretações. As palavras do Mestre não podem ser metáforas e ainda a reação dos que estavam presentes na cena confirma o sentido verdadeiro, como veremos.

São João foi, segundo consta na Tradição, o último a escrever seu Evangelho. De fato somente por volta do ano 90 é que ele relatou os feitos da vida do Senhor. Dentre os diversos motivos que o levaram a escrevê-los foi que, já naquela época, começavam fomentações heréticas. Deste modo, em seu sexto capítulo, trata ele especificamente sobre a Santíssima Eucaristia, já prevendo futuros desvios por parte dos hereges.

É de fé que a Eucaristia foi verdadeiramente instituída por Nosso Senhor. No capítulo VI de São João vemos o Salvador nos prometendo seu próprio Corpo e Sangue, como alimento e bebida espiritual. E no Sacramento da Eucaristia há um autêntico sacrifício, que anuncia a morte de Cristo e renova, de forma incruenta, a imolação do Calvário, cujo valor expiatório apaga os crimes dos homens; trata-se de um Sacramento que contém realmente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo.

Comenta-nos Hugon que: “a instituição da Eucaristia por Nosso Senhor não tinha sido posta em dúvida antes do século XIX. Os protestantes, originariamente, esforçavam-se por tirar das palavras de Cristo seu sentido literal, e de explicar que a Eucaristia é somente a figura do Corpo e do Sangue; eles não contestaram nem a autenticidade da narração evangélica, nem a instituição divina da Eucaristia como símbolo”.[1]

É de se levar em consideração que os mesmos protestantes que tomam tantas passagens das Escrituras no sentido literal, ao “pé da letra”, não vêem nas próprias palavras de Nosso Senhor, neste sexto capítulo, o sentido literal óbvio por Ele proferido. Ao contrário, relégam-nas a um estilo figurativo, simbólico ou até alegórico.

Entretanto basta analisar um pouco mais a fundo este capítulo que veremos claramente as intenções do Mestre, e sua referência clara e direta a seu próprio Corpo e Sangue.

Primeiramente vejamos, no próprio texto, o sentido literal e óbvio das palavras:

 

“Eu sou o pão da vida. Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram. Este é o pão que desceu do céu, para que não morra todo aquele que dele comer. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo. A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne? Então Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim” (Jo 6, 48-57).

 

É impressionante verificar como Jesus repete várias vezes a afirmação de que é realmente a carne e o sangue d’Ele. Assim, não é possível sustentar que seja mera metáfora o que encontramos nesses ditos.

Metáfora, de fato, não pode ser, pois Nosso Senhor não procura atenuar suas declarações, mesmo sabendo que está “escandalizando” os outros. No versículo 52 os judeus confirmam que entenderam literalmente os sentidos das palavras: “A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne?” Contudo, o divino Mestre não os corrige pelo que entenderam, mas ainda afirma algo mais ousado: “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos” (Jo 6, 53).

Outro ponto a se considerar é o “escândalo” causado nos circunstantes. Mesmo diante da apostasia destes, Nosso Senhor não se retrai, é mais ousado, e ainda prova a fé dos que permanecem, mostrando que este é realmente um ponto crucial, quando se trata sobre a Eucaristia: “Desde então, muitos dos seus discípulos se retiraram e já não andavam com ele. Então Jesus perguntou aos Doze: Quereis vós também retirar-vos?” (Jo 6, 66-67). Ele não procura se desculpar, não atenua suas afirmações. É patente que se não fossem afirmações literais, Ele teria persuadido os discípulos a ficarem, entretanto isto não aconteceu.

Não é possível dar outra interpretação às palavras de Cristo.

Pe. Michel Six, EP

[1] L’institution de l’Eucharistie par Notre-Seigneur n’avait pas été mise en doute avant le XIX ème siècle. Les protestants de l’origine s’efforçaient d’enlever aux paroles du Christ leur sens littéral et d’expliquer que l’Eucharistie n’est que la figure du corps et du sang; ils ne contestaient ni l’authenticité du récit évangélique ni l’institution divine de l’Eucharistie comme symbole (Cf. HUGON, La Sainte Eucharistie. Paris : Pierre Téqui, 1916).

 

Santissimo

O Adocionismo

Seria ingênuo pensar que os movimentos históricos se dão por mera espontaneidade. Na verdade um conhecimento histórico mais aprofundado dos fatos pode nos demonstrar que a força motriz do homem, e por decorrência, da história, está nas paixões humanas. Estas se bem direcionadas e regradas podem fazer dos homens verdadeiros heróis, no sentido mais fiel e verdadeiro da palavra. Contudo, se as paixões forem mal conduzidas podem desencadear verdadeiras revoluções.

Por revolução entendemos um movimento de coisas opostas ao seu correto fim, uma subversão de valores e de conceitos, que pode produzir verdadeiras catástrofes na sociedade. Esse movimento tem como motor e eixo de suas operações duas paixões:

“Duas noções concebidas como valores metafísicos exprimem bem o espírito da Revolução: igualdade absoluta, liberdade completa. E duas são as paixões que mais a servem: o orgulho e a sensualidade. […]

“A pessoa orgulhosa, sujeita à autoridade de outra, odeia primeiramente o jugo que em concreto pesa sobre ela. […]

“A par do orgulho gerador de todo igualitarismo, a sensualidade, no mais largo sentido do termo, é causadora do liberalismo. É nestas tristes profundezas que se encontra a junção entre esses dois princípios metafísicos da revolução, a igualdade e a liberdade, contraditórios em tantos pontos de vista.”[1]

Apliquemos essas palavras ao fato histórico objeto do presente artigo para que o leitor possa concluir qual foi o fator que levou ao surgimento da heresia adocionista.

 

1. A história: Elipanto de Toledo e Felix Urgel

Elipanto era da raça goda, foi arcebispo metropolitano de Toledo, que estava sob o domínio maometano. E foi desta Sé que infelizmente fez propagar o seu veneno. A história o descreve como um homem de grande gênio, ardoroso e eloqüente. Contudo não soube usar de tais aptidões para a propagação da Igreja, e pelo contrário, devido a sua arrogância e orgulho, usou-os para propagar a heterodoxia.

Felix de Urgel, bispo desta mesma cidade, é o segundo defensor dessa heresia. Companheiro de Elipanto, apesar de ser espanhol era súdito de Carlos Magno, uma vez que a cidade de Urgel acabava de ser dominada pelos Francos.

 

2. A heresia

A heresia adociaonista, é no fundo um reaparecimento do nestorianismo (que afirmava a dupla personalidade de Nosso Senhor), como o próprio Papa da época, Adriano I, denominava. Essa afirmação se dá porque, ao admitir uma dupla filiação em Cristo (uma por naturalidade e outra por adoção), admite também uma dupla personalidade:

“Admite, pois em Cristo duas filiações, e aqui esta o erro, pois a filiação vai com a pessoa, e havendo duas filiações, logicamente se segue que haverá também duas pessoas, o que é puro nestorianismo. […] o adotar a alguém por filho supõe duas pessoas distinta: a que adota e a que é adotada; filho natural e filho adotivo com relação a um mesmo pai são coisas que se excluem em um mesmo sujeito.”[2]

A afirmação adocionista é, portanto um absurdo teológico, pois como a humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo está unida intimamente com a própria Pessoa do Verbo, não pode haver uma dupla filiação, como nos ensina Ott:

“A humanidade de Cristo veio a ser, pela união hipostática uma parte, em certo modo da pessoa do Logos e, por Ele, é adorada em e com o Logos. Ela é em si mesma objeto de adoração.”[3]

A heresia adocionista aparece pela primeira vez nos escritos de Elipanto, quando refutava um erro de certo Miguécio que divulgava o sabelianismo. Elipanto com sua carta refuta tais erros porém vem inoculada em sua doutrina uma grave heresia: há em Jesus Cristo uma dupla filiação: uma natural, da qual procede a sua natureza Divina, e outra adotiva, da qual procede a sua natureza humana:

“Em tais documentos aponta com claridade o adocionismo. Depois de fazer uma perfeita exposição da doutrina católica sobre a Trindade, ao querer distinguir em Cristo, Filho de Deus e Filho do Homem, as operações e ações de suas duas naturezas, afirma […] que Jesus Cristo, enquanto Deus e Verbo Eterno, é filho próprio e natural de Deus, mas em quanto homem, é apenas filho adotivo e por graça, não por natureza.”[4]

Como foi dito mais a cima, Félix de Urgel, era súdito de Carlos Magno. O Imperador ao ouvir os rumores de heresia que se andava espalhando, por meio dos escritos e pregações de Félix, mandou convocar uma assembléia, em Ratisbona (792), na qual teve que comparecer o mesmo bispo. Dando-se por vencido, o prelado de Urgel abjurou sobre os Evangelhos tudo o que havia afirmado antes.

Ainda não contente com o resultado, o Imperador mandou Félix ao Papa Adriano I, e na Basílica de São Pedro o Bispo de Urgel fez uma solene profissão de fé, assim nos relata Garcia-Villoslada:

“Carlos Magno reuniu a assembléia de prelados, entre eles Paulino de Aquilea, em Ratisbona (792), e ordenou que Félix comparecesse ante eles para expor as razões de sua doutrina. Assim o fez o bispo de Urgel, e, vencido na disputa pelos argumentos contrários, abjurou publicamente sobre os Evangelhos. Querendo o rei franco fazer ao papa o obséquio deste vencido, Félix teve que apresentar-se em Roma, e primeiro na Basílica de Latrão, e depois na de São Pedro, reiterou sua abjuração, protestando que jamais daria ao Salvador o título de filho adotivo.”[5]

Porém na primeira oportunidade que teve, Félix fugiu para Espanha, a fim de ficar nas proximidades do seu cúmplice, isto é Elipanto.

Alguns historiadores afirmam que nesta ocasião os Bispos de Espanha escreveram uma carta ao Papa, apoiando inteiramente a heresia adocionista. Entretanto a doutrina mais segura é de que tal escrito foi redigido pelo próprio heresiarca Elipanto, devido a rudez e intemperança de sua linguagem, e a ciência que pôs em tal epistola não é fruto senão da inteligência de Félix.

 

3. Beato e Etério

Os primeiros a se oporem a heresia adocionista foram dois cristãos das Astúrias os quais se chamavam Beato (ou Biego) e Etério. O primeiro tem um elogio vindo do próprio Alcuino: “doctus vir, tam vita quam nomine sanctus”. Ambos redigiram uma apologia da verdadeira doutrina, de maneira calorosa e polêmica.

Esta apologética pode ser indigesta nos dias em que vivemos, pois um público entibiado não compreenderá a fé tão ardorosa e polêmica da Espanha dos antigos tempos. Sem baixeza de linguagem, os dois defensores da ortodoxia fulminam os bispos heréticos. E desses dois homens valorosos se disse:

“Sua teologia é sã, forte e ardorosa, apoiada constantemente nos textos da Sagrada Escritura, […] No fundo, Beato e Etério são muito fiéis à tradição isidoriana; mas conhece-se logo que sua apologia não nasceu entre as pompas de Sevilha ou de Toledo, senão em terra áspera, agreste e bravia, entre eriçados riscos e mares tempestuosos, para ser escutada por homens não tranqüilos nem dados às letras, senão acostumados a continua devastação e peleja.”[6]

E tal apologia foi encerrada com um anátema do prelado Teudula: “Si quis carnem Christi adoptivam dixerit Patri, anathema sit. Amen”.

 

4. Carlos Magno, Alcuino e o Sínodo de Frankfurt

Alarmado pelo grande perigo de cair o Império do Ocidente em heresia, e tendo bem na sua memória os estragos causados pelos cismas e heresias no Império do Oriente, Carlos Magno exerce a sua função de defensor a Igreja. Convoca um Sínodo em Frankfurt e pede ao Papa seu assentimento, o qual dá consentimento e envia seus legados. Estes portavam consigo uma carta dogmática do próprio Adriano I que definia ser o Filho da Virgem, um só Filho verdadeiro de Deus.

“Se portanto, é verdadeiro Deus aquele que nasceu da Virgem, como pode ser adotivo ou servo? Com efeito, não ousais absolutamente designar Deus como servo ou adotivo; e mesmo se o profeta o chamou servo, não foi todavia por causa da condição de servidão, mas por causa da obediência e da humildade, pela qual Ele se fez ‘obediente’ ao Pai ‘até à morte’.”[7]

Entretanto os adocionistas não dobraram-se às decisões do Pontífice e do Sínodo, e recralcitaram nos seus erros, não só defendendo-os como também divulgando-os.

Alcuino ao saber da teimosia dos dois hereges adocionistas, tenta convencê-los escrevendo-lhes cartas amáveis e persuasivas, entretanto os seus esforços são nulos, pois o orgulho havia dominado inteiramente a alma deles.

 

5. Leão III e o ponto final

O ponto final desta heresia foi dado pelo Papa Leão III, em um concílio realizado em Roma (789), o qual lançou um solene anátema contra Félix de Urgel.[8] Do Bispo Elipanto a história não faz mais menção, mas é mais provável que, devido ao seu caráter arrogante e orgulhoso, tenha persistido no seu erro. Contudo, de Félix ainda sabemos alguns pormenores.

Carlos Magno convidou o heresiarca adocionista para uma disputa, dando-lhe um salvo conduto, como segurança da sua liberdade, pelo que Félix aceitou. As exposições do herege duraram sete dias, e estas eram refutadas logo depois pelo bispo Alcuino, usando citações dos Santos Padres.

Por fim o herege sede à verdade. Fazendo uma abjuração ex toto corde e logo depois uma profissão de fé absque ulla simulatione. Entretanto o Imperador não deixou que ele retornasse a Urgel. Entregando por fim a sua alma a Deus em Lion no ano 818, e como alguns dizem morreu em odor de santidade, devido as suas penitências:

“Com tudo, não lhe permitiu Carlos Magno regressar a sua diocese e em Lion o alcançou a morte no ano 818. Morreu, segundo parece, santamente, e como santo o tem venerado a Igreja de Urgel.”[9]

 

Conclusão

Após termos visto o surgimento da heresia adocionista, e a reação da Igreja, podemos verificar que a maioria dos movimentos ruins da sociedade humana, têm sua origem em duas paixões desregradas: o orgulho e a sensualidade.

Surge, porém, uma pergunta: qual é o fator que leva os bons a reagirem? Sem dúvida alguma existe uma força que move um movimento contrário à revolução das paixões:

“Existe também uma dinâmica contra-revolucionária, mas de natureza inteiramente diversa. As paixões, enquanto tais – tomada aqui a palavra em seu sentido técnico – são moralmente indiferentes; é o seu desregramento que as torna más. Porém, enquanto reguladas, elas são boas e obedecem fielmente à vontade e à razão. E é no vigor de alma que vem ao homem pelo fato de Deus governar nele a razão, a razão dominar a vontade, e esta dominar a sensibilidade, que é preciso procurar a serena, nobre e eficientíssima força propulsora da Contra-Revoluão.”[10]

E foi essa virtude que levou a Igreja e o Grande Carlos a uma reação tão enérgica e categórica, entretanto com suavidade e bondade, como a história nos indicou contando todos os apelos e favorecimentos feitos aos hereges para que se retratassem e voltassem ao seio da Esposa Mística de Cristo.

Pe. Millon Barros de Almeida


[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra-Revolução. 4 ed. São Paulo: Retornarei, 2002, p. 65, 66, 72

[2] GARCIA-VILLOSLADA, Ricardo. Historia de la Iglesia Católica Vol. II: EDAD MEDIA: La cristiandad en el mundo europeo y feudal. 6 ed. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2003. v. 2, p. 190.

[3] OTTO, Ludwig. Manual de Teología Dogmática . 7 ed. Barcelona: Herder, 1997, p. 253.

[4] GARCIA-VILLOSLADA, Ricardo. Historia de la Iglesia Católica Vol. II: EDAD MEDIA: La cristiandad en el mundo europeo y feudal. 6 ed. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2003. v. 2, p. 190.

[5] Idem., p. 192.

[6] Idem., p. 190.

[7] DENZINGER, Heinrich. Compêndio dos Símbolos definições e declarações de Fé e Moral . São Paulo: Loyola; Paulinas, 2007, n. 614.

[8] Cf. GARCIA-VILLOSLADA, Ricardo. Historia de la Iglesia Católica Vol. II: EDAD MEDIA: La cristiandad en el mundo europeo y feudal. 6 ed. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2003. v. 2., p. 193.

[9] Idem.

[10] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra-Revolução. 4 ed. São Paulo: Retornarei, 2002, p. 130-131.

 

Bibliografia

CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra-Revolução. 4 ed. São Paulo: Retornarei, 2002.

DENZINGER, Heinrich. Compêndio dos Símbolos definições e declarações de Fé e Moral. São Paulo: Loyola; Paulinas, 2007.

GARCIA-VILLOSLADA, Ricardo. Historia de la Iglesia Católica. II. Edad Media: La cristiandad en el mundo europeo y feudal. 6 ed. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2003. v. 2.

OTTO, Ludwig. Manual de Teología Dogmática. 7 ed. Barcelona: Herder, 1997.

O Mistério do Natal: a Encarnação do Verbo

“Nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado. O poder de governar está nos seus ombros. Seu nome será Conselheiro Admirável, Deus Forte, Pai para sempre, Príncipe da paz” (Is 9, 5).

É difícil imaginar, caro leitor, o gáudio e a felicidade interior experimentada por Maria Santíssima, ao aceitar a proposta do Arcanjo São Gabriel, feita na Anunciação. Com efeito, a Virgem puríssima de Nazaré tornara-se a Mãe do Redentor, do “Salvador”, como o nome Jesus significa. Realizava-se em seu casto seio o sonho de toda mulher hebréia: ser a escolhida por Deus para dar à luz o Messias de Israel. Com um acréscimo: a sua tão amada virgindade permaneceria intacta. Seria Ela a primeira e única Virgem e Mãe na história da humanidade.

Por fim, o longo e penoso período de espera chegara ao seu termo: o povo eleito recebia, no silêncio da humilde casa de Maria, Aquele por quem os patriarcas suspiraram, e a quem os profetas anunciaram, prevendo inclusive, com luxo de detalhes, tantos aspectos e minúcias de sua vida, seus sofrimentos e sua glória.

Ocorreria assim o acontecimento central da história da humanidade: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14), pela ação do Espírito Santo (cf. Lc 1, 35) e pela plena aceitação amorosa e cheia de Fé de Maria. Entretanto, como explicar tão alto mistério? É possível que Deus se torne homem sem deixar de ser Deus?

Pode alguém ser Deus e homem ao mesmo tempo?

A primeira em receber a “boa notícia” do grandioso mistério da Encarnação do Verbo, foi Nossa Senhora. As palavras do Anjo foram explícitas e Ela, a “cheia de graça”, deve tê-las entendido com preclara inteligência. Por um lado, o mensageiro celeste lhe diz: “conceberás e darás à luz um filho” (Lc 1, 31), e, de outro lado, lhe anuncia: “será chamado Filho do Altíssimo” (Lc 1, 32). O que significa claramente, segundo nos explica São Beda[1], que o fruto das entranhas de Maria seria verdadeiro homem e verdadeiro Deus.

Mesmo antes de receber a visita do Arcanjo, Nossa Senhora, agraciada com a plenitude dos dons do Espírito Santo, devia perscrutar as Escrituras com finíssima atenção, compreendendo amplamente seu significado. Antes de tudo, é conjecturável que procurasse Ela compor a fisionomia moral do Messias esperado. É essa a opinião de São Leão Magno: “Deus elege uma Virgem da descendência de Davi, e esta Virgem, destinada a levar no seio o fruto de uma sagrada fecundação, antes de conceber corporalmente a sua prole, divina e humana ao mesmo tempo, a concebeu em seu espírito”[2].

Lendo com Maria as profecias sobre a Encarnação

Certamente, da leitura dos pergaminhos contendo  os trechos das Escrituras, terá Ela se impressionado vivamente diante dos anúncios gloriosos dos profetas a respeito do Messias esperado, como por exemplo, ao ler estas palavras de Miquéias:

“Mas tu, Belém de Éfrata, pequenina entre as aldeias de Judá, de ti é que sairá para mim aquele que há de ser o governante de Israel. Sua origem é antiga, de épocas remotas. […] Ele se levantará para apascentar com a força do Senhor, com o esplendor do nome do Senhor seu Deus” (Mq 5, 1-3).

Também em Isaías encontraria Nossa Senhora trechos empolgantes e grandiosos: “Nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado. O poder de governar está nos seus ombros. Seu nome será Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai para sempre, Príncipe da paz” (Is 9, 5).

Porém, leitora atenta da Palavra de Deus, Maria Santíssima não deve ter deixado de considerar outros aspectos do anúncio profético do Messias. Aspectos esses quiçá não tão compreendidos no seu tempo, pois muitos esperavam sobretudo um Messias triunfador, um libertador político. Todavia, a Revelação era clara:

“[O meu servo] era o mais abandonado e desprezado de todos, homem do sofrimento, experimentado na dor, indivíduo de quem a gente desvia o olhar, repelente, dele nem tomamos conhecimento. Eram na verdade os nossos sofrimentos que ele carregava, eram as nossas dores, que levava às costas. E achávamos que ele era um castigado, alguém ferido e massacrado por Deus. Mas estava sendo traspassado por causa de nossas rebeldias, estava sendo esmagado por nossos pecados. O castigo que teríamos de pagar caiu sobre ele; com os seus ferimentos veio a cura para nós. Como ovelhas estávamos todos perdidos, cada qual ia em frente por seu caminho. Foi então que o Senhor fez cair sobre ele o peso dos pecados de todos nós” (Is 53, 1-6).

Diante desse panorama tão complexo, como seria então o Messias, o esperado das nações? Por um lado, grande e potente, chamado de “Deus Forte”, com mando e governo, mas, de outro lado, homem de dores, vítima de expiação dos pecados dos homens. Como se realizariam esses extremos, aparentemente contraditórios, na mesma pessoa?

No convívio com o Homem Jesus

Para Nossa Senhora esse enigma deve ter-se tornado paulatinamente mais claro depois de conceber o Deus humanado e conviver com Jesus. O Menino que “crescia e se fortalecia, cheio de sabedoria” (Lc 2, 40), dava provas irrefutáveis de ser homem verdadeiro, e, ao mesmo tempo, Deus verdadeiro. Assim, a mesma criança que se alimentava e dormia como todas as outras, ao ser interrogada por seus pais, no episódio da perda e do encontro no Templo de Jerusalém, por que havia se separado deles, responde de forma surpreendente: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo estar naquilo que é de meu Pai?” (Lc 1, 49). Nossa Senhora guardou essas palavras no seu coração (cf. Lc 1, 51).

E, durante os trinta anos de vida oculta, que conversas não terá havido, ao cair da tarde, entre São José, Nossa Senhora e Jesus, a respeito da Pessoa e da missão do Filho de Deus feito Homem? Todavia, as silenciosas paredes da Santa Casa de Narazé são as únicas testemunhas mudas desse convívio íntimo da Sagrada Família!

Na vida pública de Jesus – acompanhada com discrição por Nossa Senhora – Nosso Senhor revelou-se claramente diante dos apóstolos, dos discípulos e do povo enquanto Filho de Deus e Filho do Homem.

Com efeito, os Evangelhos nos narram que Jesus teve fome (cf. Mt 4, 2) e dormira (cf. MT 8, 24), que, no meio do caminho, sentiu cansaço (cf. Jo 4, 6), e diante do túmulo de Lázaro chorou de pena pela perda do amigo muito amado (cf. Jo 11, 35). E, no auge destas provas de sua humanidade, conta-nos São Mateus, como diante da sombria perspectiva da paixão, sua alma sentiu uma tristeza de morte (cf. Mt 26, 37-38). Atitudes e sentimentos esses que caracterizam a sua verdadeira e completa natureza humana.

E sua Divindade?

São prolixos também os testemunhos das Escrituras sobre a divindade de Jesus. No evangelho de São João, Cristo declara diante do povo reunido que Ele e o Pai são um (cf. Jo 10, 30). Em São Mateus encontramos a feliz declaração de Fé de Pedro, ratificada por Jesus:

E vós, retomou Jesus, quem dizeis que sou eu? Simão Pedro respondeu: tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Jesus então declarou: Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne e o sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”. (Mt 16, 16-17).

A essas afirmações claras deve-se juntar a consideração dos fatos de sua vida. Jesus demonstrou ser o Filho de Deus pelo poder e a autoridade própria com que realizou inúmeros milagres. Pôs em evidência ter um domínio absoluto sobre doenças, na época totalmente incuráveis, como a Lepra (cf. Lc 17, 11-19) e a paralisia (cf. Jo 5, 1-9), inclusive, sobre a mesma morte ressuscitando, por exemplo, o filho da viúva de Naim (cf. Lc 7, 11-17). Obedeciam-lhe as forças da natureza. Baste lembrar nesse sentido a multiplicação dos pães e dos peixes (cf. Mt 14, 13-21) e a furiosa tempestade acalmada a uma ordem sua (cf. Mt 8, 23-27).

Mas o evento no qual Ele mostra de forma mais patente sua divindade, foi na sua própria Ressurreição. Primeiro, profetizando-a (cf. Mt 20,19), e depois cumprindo à risca sua própria previsão: “Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por própria vontade. Eu tenho poder de dá-la, como tenho poder de recebê-la de novo. Tal é o encargo que recebi do meu Pai” (Jo 10, 18).

Depois da consideração atenta do testemunho infalível das Escrituras, ainda resta-nos a pergunta: Sim, cremos que Jesus é Deus e homem verdadeiro mas, como explicar essa realidade?

Como explicar o mistério da Encarnação

Sabemos, segundo nos ensina São Leão Magno, que “o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, sobrepuja toda inteligência e transcende todos os exemplos que poder-se-iam utilizar”[3]. Porém, graças à Divina Revelação e sob a direção do Espírito Santo, a Igreja, se não chega a compreender ou abarcar todo o mistério, tem-no formulado com precisão, longe de todo erro.

No início do cristianismo, quando a doutrina dos apóstolos foi recebida no mundo grego, iniciou-se a tentativa de traduzir para as categorias próprias da filosofia o conteúdo da Revelação. Neste processo, alguns desviaram-se da verdade, defendendo doutrinas errôneas, mediante as quais procuravam fazer encaixar dentro dos estreitos limites da razão humana o mistério de Deus humanado.

As dificuldades encontradas pelos estudiosos das Escrituras, a respeito da compreensão do mistério se cifravam, principalmente, em duas tendências opostas, descritas a seguir em grandes traços. Alguns, tendo dificuldade em compreender como em uma mesma pessoa pudessem coexistir duas realidades, tal como, Deus e o homem, quiseram propor, como resultado da Encarnação, uma única pessoa, na qual estariam misturadas qualidades divinas e humanas. Outros, distinguindo perfeitamente a humanidade de Cristo e sua Divindade, e não logrando explicar como essas duas naturezas poderiam coincidir na mesma pessoa, propuseram que Cristo era unido a Deus como todos os santos o são, mediante a graça e a inabitação. Concluindo erroneamente tratar-se de duas pessoas distintas, uma divina e outra humana, a qual seria adotada por Deus de forma especial.

A voz da Igreja através dos Papas e dos concílios

A Santa Igreja de Deus, situando-se no centro de ambas posições, através do V Concílio ecumênico, confessa a união de Deus Verbo com a carne, segundo a união de composição, ou seja, segundo a hipóstasis[4]. Hipóstasis é um termo grego que deriva do verbo sustentar, pois toda natureza racional não existe por si mesma senão sustentada por uma pessoa. Ora, a natureza humana de Cristo era sustentada pela segunda pessoa da Santíssima Trindade.

A Igreja convocou os concílios ecumênicos, nos quais foi declarada e explicitada, em termos cada vez mais precisos, a verdade sobre a encarnação do Filho de Deus. O primeiro destes grandes Concílios realizou-se em Nicéia (ano 325). Lá os padres compuseram o Credo que, com alguns detalhes acrescidos no Concílio de Constantinopla (ano 381), recita-se nas nossas missas dominicais. Eis um trecho significativo do credo niceno:

“… [Cremos] em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai, isto é, da substância do Pai, […] gerado não criado, consubstancial ao Pai, por Quem foram feitas todas as coisas […], que por nós homens e para nossa salvação, desceu dos céus e Se encarnou e Se fez homem, padeceu e ressuscitou …”[5].

Anos mais tarde, no Concílio de Éfeso (ano de 431), ficaria ainda mais clara a questão da Encarnação. Os padres conciliares esclarecem que em Cristo há duas naturezas – a divina e a humana – unidas, sem confusão, na Pessoa única e divina do Verbo. Na carta escrita por São Cirilo de Alexandria ao herege Nestório, lida e aprovada pelos padres conciliares, assim explicita o grande patriarca a doutrina cristã:

“E embora sejam distintas as naturezas, unidas porém por uma verdadeira união, dessa unidade resulta um só Cristo e Filho; não que se suprima, pela união, a diferença de naturezas, mas porque a divindade e a humanidade, nesta misteriosa e inefável união, constituem para nós, um só Senhor, e Cristo, e Filho”[6].

E o patriarca João de Antioquia, então pastor dessa cidade, assim formulou a mesma Fé em termos aceitos plenamente por São Cirilo e pela Igreja. Confessa ele que Cristo é, ao mesmo tempo, “perfeito Deus e perfeito homem”, gerado pelo Pai desde todos os séculos, isto é, desde a eternidade, antes do tempo, e “nos últimos tempos, por nós e por nossa salvação”, nascido da Virgem Maria segundo a humanidade. Desta confissão de Fé destaca-se uma afirmação belíssima: Jesus é “consubstancial ao Pai segundo a divindade e consubstancial a nós segundo a humanidade”[7]. Para o patriarca João, a união da divindade e da humanidade dá-se sem confusão, de forma que a divindade em nada fica diminuída pela humanidade, nem esta última absorvida pela divindade.

Mas foi no Concílio de Calcedônia (451), com a assistência de 600 bispos, onde, graças ao gênio do Papa São Leão Magno, a doutrina da Igreja atinge um auge de explicitação a respeito desse mistério, distinguindo claramente na Pessoa do Verbo encarnado duas naturezas intimamente unidas, mas sem confusão:

“Deve-se se reconhecer um só mesmo Cristo Senhor, Filho Unigênito, em duas naturezas, sem confusão, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis, de nenhum modo suprimida a diferença das naturezas por causa de sua união, mas salvaguardada a propriedade de cada natureza e confluindo numa só Pessoa, não separado ou dividido em duas pessoas, mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus-Verbo …”[8]

Portanto, Cristo é Deus, com o Pai e o Espírito Santo, desde toda a eternidade, e, homem verdadeiro, pois uniu à sua pessoa a natureza humana completa, capaz de conhecer e amar como homem, capaz de sentir e sofrer até a morte[9].

Encarnação, o amor pede o amor

Diante de tão grande mistério, os cristãos devem dar infinitas graças a Deus pela sua bondade. O Filho de Deus, desceu à terra, no seio puríssimo da sempre Virgem Maria, para salvar e resgatar o homem, abrindo-lhe as portas do paraíso fechado e fazendo-nos partícipes da família de Deus. É uma verdade altamente comovente! Como diria São Tomás: “Cristo assumiu um corpo animado, e dignou-se nascer da Virgem, para nos entregar sua divindade; fez-se homem, para fazer o homem Deus” [10].

Por isso, diante do mistério da Encarnação, devemos ter presente o grandíssimo amor de Deus para o gênero humano. Nesse sentido, nos exorta São Tomás:

“… nenhum indício é mais evidente da caridade divina que o de Deus, criador de todas as coisas, fazer-se criatura; o do Senhor nosso, fazer-se nosso irmão; o do Filho de Deus, fazer-se filho de homem. Lê-se em São João (Jo 3, 16): tanto Deus amou o mundo, que lhe deu o Seu Filho. Pela consideração dessa verdade, deve ser reacendido, e de novo em nós afervorado o nosso amor para com Deus”.[11]

Pe. Carlos Werner Benjumea, EP


[1] Beda, Homilías sobre los Evangelios, 1, 3. CCL 122, 16.

[2] São Leão Magno, Sermón 1, En la Natividad del Señor, 2. 3: PL 54, 191-192.

[3] São Leão Magno, Sermão, 30, 4, CCL 138, 155: BAC 291, 117.

[4] S. Th. 3, q. 2, a.6, resp.

[5] COLLANTES, Justo. A Fé Católica, Documentos do Magistério da Igreja, p. 284. Trad. Paulo Rodrigues. Rio de Janeiro: Lumen Christi, 2003.

[6] Ibidem.

[7] Ibidem.

[8] Ibidem.

[9] Cf. São Leão Magno, Sermão 1, en la Natividad del Señor, 2.3: PL 54, 191-192.

[10] São Tomás de Aquino. Exposição sobre o Credo. São Paulo: Loyola, 1981, p. 43.

[11] Ibidem.

Rei dos reis

“Logo, Tu és Rei!”

Jesus retorquiu:

“Tu o dizes! Eu sou Rei!” (Jo 18, 37)

Tudo que toca na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo tem uma grandeza deslumbrante, pelo simples fato de que Ele é Deus. Mas, de todas as cenas narradas nos Evangelhos talvez seja esta, a do diálogo com Pilatos, a que mais deixa transparecer essa qualidade tão pouco apreciada em nossos dias: a grandeza.

Jesus está numa situação de terrível humilhação. Preso, tratado como um criminoso, de mãos atadas, submetido a todo tipo de vexações, Ele é apresentado na qualidade de réu ao representante de Roma, o maior poder político e militar da época. Pilatos tinha a segurança de quem estava na posição de dominador, com a capacidade de exercer todo o tipo de arbítrio sobre os que lhe estavam subordinados. Até já se tinha tornado célebre entre os judeus por sua crueldade.

Jesus diante de Pilatos

Mais quem haveria sido testemunha do fato para fazê-lo atravessar a história? Não o sabemos, e o Evangelho é muito conciso em detalhes. Mas podemos imaginar o assombro de Pilatos, ao ouvir a resposta de Jesus: “O meu Reino não é deste mundo; se meu Reino fosse deste mundo, os meus servos lutariam para que Eu não fosse entregue aos judeus; mas o meu Reino não é daqui.” (Jo 18, 36) Ele percebia que em Jesus havia um mistério que fugia totalmente à sua compreensão humana e que Nosso Senhor dizia a verdade. Ele era de um Reino que não era deste mundo, e era Rei.

Noutras ocasiões os judeus quiseram aclamá-Lo Rei, mas havia recusado, esquivara-Se. Agora, diante de Pilatos, do representante de Roma, declara-Se Rei. Sua atitude pode até causar certa perplexidade. Jesus vinha para uma missão exclusivamente espiritual: libertar a humanidade do pecado, através do sacrifício redentor da Cruz. Por que agora Ele se empenha em declarar sua condição real? Não bastaria afirmar apenas que era o Messias, o Filho de Deus?

Essa declaração marcou o espírito de Pilatos a fundo. Pode-se imaginar a atitude, o olhar e a entonação de voz de Jesus, grave, pausada e serena, ao responder ao tribuno romano. “Tu o dizes, Eu sou Rei!” Nenhum rei desta terra teve tanta majestade, mesmo no auge de sua glória, como Jesus naquela ocasião. Pilatos, por covardia e a contragosto entregou Jesus ao Sinédrio, para ser crucificado. Mas quis por na tabuleta da Cruz as imortais palavras: Jesus Nazareno Rei dos judeus. Era um reconhecimento, covarde, da realeza de Nosso Senhor, de tal forma aquele diálogo o impressionou. Ele não quis escrever que Jesus era condenado por se dizer Filho de Deus, ou Messias (motivo pelo qual o Sinédrio O condenara), ou um grande profeta ou por perturbar a ordem pública com suas pregações. Ele quis acentuar a realeza de Jesus, que tanto impacto lhe causara.

E, de fato, Jesus é Rei no sentido pleno do termo. Ele é o Rei dos reis. D’Ele toda autoridade deriva, como se constata no segundo diálogo com Pilatos: “Nenhum poder terias sobre Mim se não te fosse dado do Alto.” (Jo 19, 11)

Ou seja, é Deus que confere autoridade a todos os que exercem o poder. E uma vez mais, Jesus se declara Rei, embora indiretamente uma vez que Ele é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho de Deus. Todo Universo foi criado por Ele, é Ele que o governa, no fim dos tempos julgará a humanidade no Juízo Final e todos, Anjos e homens, demônios e precitos reconhecerão a sua realeza universal e sua divindade.

Mas, voltemos por instantes à consideração do diálogo com Pilatos. Por que motivo Jesus quis manifestar ali que era Rei de forma a que essa declaração ficasse registrada na narração dos Evangelhos para todo sempre? Para Ele que era Deus, não seria esse um aspecto secundário de sua missão redentora? De sua própria condição divina?

Como Primogênito do gênero humano Jesus Cristo é também o mais perfeito dos homens, o mais belo dos filhos dos homens como afirma o salmista, é o modelo supremo que todos devem imitar. E por isso, Ele, num sentido lato, quis também exercer as principais atividades humanas para sacralizá-las e servir de sublime exemplo a todos. Foi trabalhador manual, em Nazaré, filho submisso, carinhoso e modelar, foi juiz pois julgou os fariseus e doutores da lei, e no fim do mundo julgará o Universo; julgou a mulher adúltera, absolvendo-a; ao mesmo tempo foi advogado dela, tomando sua defesa; foi o mais sublime dos médicos, curando todas as doenças; foi legislador ao promulgar a lei da Nova Aliança; foi combatente quando expulsou pela força, com um chicote trançado com suas próprias mãos divinas, os vendilhões do Templo; manifestou sua divindade ao ressuscitar mortos e ressuscitar-Se a Si mesmo; foi o maior dos profetas não só porque n’Ele se realizava toda a profecia do Antigo Testamento, mas também por ter cumprido as profecias que Ele fez a respeito de Si próprio; Ele é o verdadeiro e único sacerdote, tendo feito o oferecimento de Si próprio ao Pai, pela redenção do gênero humano. Tudo isso Ele fez de modo perfeitíssimo como Homem-Deus. E uma vez que Ele deveria ser o protótipo de toda humanidade não poderia deixar de ser modelo também do mais excelente de todos os ofícios que é de rei.

Há diversas formas de uma pessoa sustentar o título de realeza. Alguns são reis por direito de sucessão. É o caso, por exemplo, da Rainha Elisabeth da Inglaterra. Já há muitas gerações sua família transmite o poder real aos descendentes.

Outra forma seria ainda por direito de conquista. Muito frequente na antiguidade, quando um povo vencia a guerra o seu rei passava a ser rei também do povo vencido. É o caso muito conhecido de Alexandre o Grande, que conquistou povo após povo.

De que modo Jesus Cristo foi rei? Ele o era de todos esses modos apresentados acima; por direito de sucessão por ser da casa de David, embora o poder Lhe tivesse sido tirado e Ele não o tenha exercido. Também naturalmente falando Jesus tinha uma natureza tão superior a todos os outros homens que sua realeza natural é indiscutível. Com efeito, quem pode ser mais inteligente, mais belo, mais forte, mais santo do que Jesus ? Quem poderia superá-Lo na capacidade de suportar a dor? Em todas as qualidades que podem brilhar num homem Ele era o mais perfeito e neste sentido também Ele era Rei.

Mas, mais importante, Ele também era rei por direito de conquista. Com efeito, pela falta de Adão, a humanidade vivia sob a escravidão do pecado, sob o domínio de satanás e estava-lhe vedado o acesso ao Céu. Pelo sacrifício da Cruz, Nosso Senhor resgatou o gênero humano da dívida do pecado, deu aos homens a possibilidade de se tornarem filhos de Deus e poderem fazer parte do Reino de Deus, do qual Jesus é Rei. Por isso, Ele declara a Pilatos: “O meu Reino não é deste mundo.” (Jo 18, 36) Sua realeza, espiritual, e mais efetiva do que a temporal, era sobre o Reino de Deus, de caráter sobrenatural. Compreende-se então que as profecias sobre o Messias falassem de um reino eterno que não seria destruído. (Cf Dn 7, 14; Mq 4, 7)

O Arcanjo São Gabriel na Anunciação renova essa profecia: “darás à luz um Filho […] será chamado Filho do Altíssimo e o Senhor lhe dará o trono de seu pai David; reinará sobre a casa de Jacó, e seu reino não terá fim. […] Será chamado Filho de Deus.” (Lc 1, 31-33) O primeiro anúncio do nascimento do Messias, feito por um Anjo, refere-se a um Rei, que será Filho de Deus, e seu reino será eterno.

Também os Magos chegaram a Jerusalém à procura do Rei dos judeus que acabara de nascer. (Cf Mt 2, 2) Os sacerdotes e os escribas consultados por Herodes logo vêem que se trata do Messias e citam a conhecida profecia de Miquéias sobre o lugar no nascimento do Salvador: “E tu Belém […] de ti sairá para mim aquele que governará Israel.” (Mq 5, 1)

Ao encontrar por fim o Menino nos braços de sua Mãe tomam uma atitude que não deixa lugar a dúvida sobre a alta condição d’Aquele que procuravam: “Prostrando-se, O adoraram, e abrindo seus tesouros ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra.” (Mt 2, 11)

Como até os mais ínfimos aspectos da vida de Nosso Senhor têm um alto significado, os Padres da Igreja interpretam a tríplice oferenda dos Magos como um reconhecimento da divindade de Jesus, pois o incenso só se queimava para o oferecer a Deus, o ouro era próprio aos reis, pelo seu grande valor, e a mirra por seus efeitos medicinais era mais adequada à natureza humana.

E, embora aos seus discípulos aconselhasse que quem quisesse a primazia fosse o último e servisse aos demais (Cf. Mc 9, 35) e praticasse tal ensinamento, ao lavar os pés dos Apóstolos na Última Ceia, Jesus também não podia negar sua escelsa condição nem os atributos de que estava revestido: era Filho de Deus, descendente de David, Redentor do gênero humano, o Messias prometido.

Seria correto, ao considerar a Pessoa de Jesus, omitir os aspectos que menos nos agradam e só considerar os que nos convém? Por exemplo, só ver o seu lado misericordioso, sempre disposto a perdoar, mas esquecer que nos cobra a emenda de vida, o rompimento com o pecado: “Vai, mas não voltes a pecar” (Jo 8, 11), diz Ele à mulher adúltera.

Estaríamos forjando uma imagem distorcida, falsificada de Jesus. Se só nos comovemos ao ver Jesus que se curva para lavar os pés aos Apóstolos e nos esquecemos que Ele é Rei do Universo, diminuímos o valor do seu gesto e distorcemos a verdadeira figura do Salvador. Ao Lhe prestarmos culto de adoração a que Ele tem direito devemos considerar todos os aspectos de sua adorável Pessoa, sem omitir o que não nos agrad , como por exemplo seu caráter de Supremo Juíz que recompensa os que praticam o bem e pune os que se entregam ao mal.

Nosso Senhor no Juízo Final

Por isso, talvez seja particularmente oportuno, ao se aproximar a festa de Cristo Rei, considerar este aspecto tão esquecido e incompreendido de Jesus. Porque em nossa época, em que tanto se exalta a igualdade, mesmo quando ela é injusta, há muita dificuldade em reconhecer e admirar no próximo as qualidades com que Deus o favoreceu e o tornou superior a nós próprios. E quando essa dificuldade está presente, não reina a humildade, mas o orgulho, a soberba. Pode-se dizer, sem receio de errar, que uma sociedade igualitária é uma sociedade orgulhosa, onde não há campo para desenvolver a virtude, nem as qualidades naturais. Porque o orgulho não suporta a superioridade da virtude de quem é humilde, mas quer que todos sejam iguais no pecado. E quem não é capaz de admirar a superioridade do próximo, estará disposto a fazê-Lo em Jesus?

Considerar e adorar Nosso Senhor Jesus Cristo como Rei é amar n’Ele a excelência de todos os seus atributos, de todas as suas qualidades, vê-lo como o mais excelso e perfeito de todos os homens, o Primogênito do gênero humano, em tudo infinitamente superior a nós, pobres filhos de Eva, tão deformados pelo pecado.

Que grande misericórdia teve Deus para com o gênero humano fazendo nascer o seu Filho entre nós para no-Lo dar como Rei.

Adoremo-Lo como Rei do Universo aqui na terra, para O podermos contemplar e gozar de seu convívio na Eternidade.

José Antonio Gonçalves Dominguez