Reflexão para Quarta-feira de Cinzas

Lembra-te que és pó e que ao pó voltarás
Lembra-te que és pó e que ao pó voltarás

“Lembra-te que és pó e que ao pó voltarás”. (cf. Gn 3, 19) Ao mesmo tempo que pronuncia esta frase, o sacerdote traça em nossa fronte uma Cruz. Assim iniciamos a Quaresma, 40 dias de oração e penitência que precedem a maior celebração católica: Paixão e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

De fato, na Quarta-feira de Cinzas a Igreja nos convida à mudança de vida, uma conversão, abandonando tudo aquilo que nos afasta de Deus, ou seja o pecado, e a abraçarmos a prática das virtudes, dos mandamentos divinos.

A imposição das cinzas simboliza que tudo nessa vida é passageiro, e que devemos nos concentrar em alcançar aquilo que não passará nunca: a bem-aventurança eterna.

Por isso, aconselha-nos a Igreja um dia de jejum e abstinência, para nos ajudar a mortificar a carne e elevar o espírito às realidades celestes, as quais muitas vezes deixamos de lado. Entretanto, essa mortificação corporal também é um símbolo de algo maior e mais profundo, a mortificação da alma.

Com efeito, existem outras formas de jejum muito mais agradáveis a Deus do que a do alimento, por exemplo, o jejum das palavras. Quantas pessoas passam o dia todo falando de si mesmas, de suas qualidades, ou até mesmo de seus problemas… Que tal aproveitar esse período da Quaresma para mortificar o orgulho e a vaidade?

Outras não falam de si, mas sim dos outros, mas são sempre críticas, maledicências e muitas vezes até calúnia… A Quaresma pode ser uma excelente ocasião para ressaltarmos em público as qualidades dos outros.

Isso sem dúvida exige esforço e paciência consigo mesmo, pois mudanças como essas não se fazem do dia para a noite. Mas cumpre começar logo, e Deus nos ajudará.

Sendo Mãe, a Igreja ao mesmo tempo que nos pede um sacrifício – pequeno em comparação com o que Jesus sofreu por nós – Ela nos promete nesse período uma assistência especial do Espírito Santo. Basta darmos o primeiro passo, derramarmos a primeira gota de sangue, e quando menos esperarmos teremos alcançado a cura de um vício, de um defeito que há muito tempo carregávamos. É uma das coisas que podemos oferecer a Deus nesta Quaresma.

Formação doutrinal dos Sacerdotes

“Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna?” (cf. Lc 10, 25). Essa pergunta, que passou para a história como parte de uma conspiração contra Nosso Senhor Jesus Cristo, não era de todo original. Desde os primórdios, a humanidade conhecedora ou não da Revelação, se interroga sobre como fazer para possuir uma perene vida feliz. Todavia, nem sempre essa incessante busca tem se deparado com a resposta acertada. Mas, aquele doutor da lei que inquiriu Nosso Senhor Jesus Cristo parece tê-la encontrado, ainda que só teoricamente: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu pensamento; e a teu próximo como a ti mesmo. Falou-lhe Jesus: Respondeste bem; faze isto e viverás” (cf. Lc 10, 27).

“E quem é o meu próximo?” (cf. Lc 10, 29). Apesar de suas más intenções, o soberbo doutor, sem querê-lo, dava a Nosso Senhor a possibilidade de criar uma das mais belas expressões de sua sabedoria divina: a conhecida parábola do bom samaritano, ao termo da qual Jesus mesmo deu-lhe a possibilidade de descobrir a resposta acertada à sua pergunta insidiosa: “Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? Respondeu o doutor: Aquele que usou de misericórdia para com ele. Então Jesus lhe disse: Vai, e faze tu o mesmo” (cf. Lc 10, 37). E o colóquio narrado pelo Evangelho, ofereceu categoricamente o caminho para a eternidade feliz: as obras de misericórdia para com o próximo.

O Bom Samaritano, por Francesco Fontebasso. Museu Diocesano de Trento - Italia
O Bom Samaritano, por Francesco Fontebasso. Museu Diocesano de Trento – Italia

Poucos são os que conhecem com profundidade o verdadeiro significado cristão do termo misericórdia, em toda a sua explicável abrangência. Ao ouvir falar dessa virtude, há quem faça cogitações sobre a necessidade de empreender obras sociais que assistam enfermos, famulentos, cativos, e, enfim, todo tipo de pessoas que passam por situações adversas na sua vida material. De fato, ajudar quem esteja em circunstâncias como essas é algo admirável, mas não encerra as possibilidades de fazer o bem, sobretudo o bem misericordioso. Assim, para guiar os bons corações, cheios de sadio altruísmo, a Igreja define as obras de misericórdia inspiradas no verdadeiro espírito cristão. Ela, de fato, considera que a misericórdia inclina os homens a ter uma equilibrada compaixão em relação à miséria do outro e os inspira a auxiliá-lo. Entretanto, demonstra ser equivocado pensar que só existem misérias no campo material. E, ponderando a supremacia da alma em relação ao corpo, defendida pela filosofia antiga e ostentada pelo cristianismo, é de se considerar com que importância se deve distinguir e realizar as obras de misericórdia espirituais.

Entre as obras de misericórdia que desempenham os Arautos do Evangelho, têm primazia a instrução ou formação daqueles que se dedicarão ao ministério sagrado. É bem verdade que cada instituição procura desenvolver suas atividades de acordo com seu carisma próprio. Para os Arautos do Evangelho, operar a formação de seus futuros sacerdotes com beleza significa educá-los, antes de tudo, seguindo o verdadeiro tesouro que a Igreja oferece em seus documentos sobre a formação sacerdotal. Neste artigo, procuraremos abordar a linha mestra que orienta os Arautos do Evangelho na formação de seus seminaristas, na perspectiva de que estes educarão na fé outros fiéis para a Igreja de Deus.

Ao preocupar-se com a formação doutrinária a ser ministrada no seminário dos Arautos do Evangelho, seu fundador, Mons. João Scognamiglio Clá Dias, logo percebeu a grave necessidade de conscientizar os envolvidos nesta educação intelectual e os próprios seminaristas, sobre o que a Igreja quer transmitir acerca dessa formação. Ou seja, com que estado de espírito os professores deveriam ministrar suas aulas e os alunos receber os conhecimentos delas oriundos. Dentre os muitos aspectos que se poderia tratar a respeito da maneira como os Arautos desempenham essa obra de misericórdia – a instrução –, fixemos a atenção neste ponto: o juízo que se deve fazer a respeito do tema estudos, assunto que se reveste de grande relevância, como teremos a oportunidade de verificar.

Missa de abertura do ano letivo, Basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima - Arautos do Evangelho, São Paulo - Brasil
Missa de abertura do ano letivo, Basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima – Arautos do Evangelho, São Paulo – Brasil

O primeiro pressuposto para compreender o modo como determinada ação deve ser conduzida é a compreensão de sua finalidade. O princípio se aplica de maneira especial aos estudos seminarísticos. A concepção acerca do modo como esses devem ser dirigidos deve se basear, antes de tudo, em seu objetivo final. Então, para que servem os estudos no seminário? Por que os futuros padres devem se dedicar intensamente à sua própria instrução?

Por simples que pareça essa pergunta, a resposta a ela é um tanto complexa. Primeiramente porque a instrução doutrinária, mesmo voltada especificamente para o desenvolvimento intelectual dos seminaristas, se encaixa num objetivo mais geral da formação oferecida nos seminários, atrelando-se também a outras dimensões dessa mesma formação.[1] Isso significa que, para descobrir a finalidade da formação doutrinária, é necessário, em primeiro lugar, descobrir a finalidade da formação sacerdotal como um todo. Qual é então esse objetivo geral, para o qual devem estar voltadas a formação pastoral, espiritual, disciplinar, e também doutrinal? Um documento lançado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil responde a essa questão de modo claro e preciso: o objetivo geral da formação dos candidatos à vida presbiteral é levá-los a ser santos.[2]

Assim, através de um entrelaçamento das atividades que a casa de formação oferece, todos os aspectos da formação sacerdotal devem estar harmonicamente coordenados entre si pelos superiores dos seminários para atingirem esse fim primordial, a santidade dos futuros sacerdotes.[3] Todas elas precisariam se dirigir em conjunto para um plano educativo comum, e nenhuma delas, nem mesmo a formação doutrinária, pode ser considerada de maneira autônoma ou independente.[4]

De acordo com a ciência canônica, a proposta de fazer com que os diversos traços da formação sacerdotal se voltem em conjunto para uma finalidade comum é um dos aspectos da normativa da Igreja que sofreu uma evolução: os preceitos relativos à formação dos candidatos ao ministério sagrado encontravam-se, no Código de 1917, sob a rubrica do Magistério Eclesiástico, e davam ao assunto uma nota meramente acadêmica.[5] No Código atual, o tema se encontra num capítulo voltado para a formação dos clérigos, sublinhando, desta forma, os múltiplos aspectos da formação: psicológica, afetiva, acadêmica, espiritual, e outros.[6]

Desse modo, os estudos, harmonicamente conjugados com os outros elementos da formação sacerdotal, devem ser, antes de tudo, um fator de contribuição para a santificação dos alunos que se preparam para a vida ministerial. Nesse sentido, conforme afirmara Mons. João Clá numa homilia para professores e seminaristas, a inteligência terá um papel fundamental: “(…) se eu ampliar muito a minha inteligência, terei mais facilidade em praticar a virtude e em ser santo”.[7] E é procurando atingir essa finalidade – a santidade – que os Arautos desenvolvem a formação intelectual de seus candidatos ao ministério sagrado. Como procuram fazê-lo?

A atenção para com a formação intelectual dos sacerdotes sempre esteve presente na Igreja, mas suas explicitações acerca de certas peculiaridades parecem ter atingido um ápice nos últimos séculos de sua atuação nesse campo. Numa Carta Encíclica devotada ao tema do Sacerdócio Católico[8], escrita pelo Papa Pio XI, o Pontífice, demonstrando especial preocupação no que tange à intelectualidade dos seminaristas, salientava a importância da escolha dos professores.[9] Seu discurso voltava-se curiosamente para a capacidade que os encarregados da formação deveriam ter em ensinar mais pelo exemplo do que com a palavra, e em infundir, juntamente com a formação doutrinária, um espírito sólido, varonil e apostólico, que fizesse nascer a piedade e outras virtudes.[10] Ademais, o documento alertava que os estudos deveriam ser uma armadura contra tentações ou perigos mais graves.[11]

O Papa Pio XII, na exortação apostólica Menti Nostrae também estreita os laços entre desenvolvimento intelectual e espiritual na formação sacerdotal.[12] Recordava que para santificar-se, ou santificar aos outros, é necessário estar preparado por uma sólida doutrina.[13] Segundo o documento, os mestres da vida espiritual consideram o estudo das ciências sagradas, quando ministrado adequadamente, um alimento para o espírito de fé[14]; e, ao recomendar uma forte preparação intelectual, advertia a necessidade de ter certo equilíbrio e cuidado, pois uma formação doutrinal mal oferecida poderia representar para o clero um perigo de danos incalculáveis.[15]

Como se pode perceber por meio da leitura desses documentos, a Igreja não faz, de fato, uma dissociação entre os estudos e outros aspectos da formação sacerdotal; ao contrário, é notável o cuidado em associar a instrução com a vida espiritual dos seminaristas. E é assim que os Arautos do Evangelho promovem a santidade através do estudo: harmonizando-o com a vida de piedade. A respeito dessa sadia harmonia entre vida de estudo e vida de oração, asseverava o fundador dos Arautos: “Estudo sem oração é um suicídio! Porque nós aprendemos, é verdade, não tem dúvida, porque estudamos; mas é preciso aprender não só com a cabeça, é preciso aprender com o coração. Porque o homem é um todo, ele é corpo e alma, e ele precisa dar vida, dar substância a esta participação que ele tem na vida do próprio Deus, com o Batismo. E isto se faz muito mais pela oração do que pelo estudo”.[16]

Essa orientação é muito atual, pois se encontra expressa no Código de 1983.[17] Na verdade, os documentos acima mencionados estão entre as principais fontes de um dos cânones do atual código, voltado para a formação intelectual dos sacerdotes, que destaca justamente a necessidade de uma conformidade entre a formação doutrinária e a vida espiritual dos seminaristas.[18] De fato, entre a formação doutrinal[19], a vida de fé e a vida espiritual dos alunos, deve haver uma estreita afinidade.[20] Elas não podem estar desconexas entre si.[21] E Mons. João dá as diretrizes para se conjugar esses aspectos da formação sacerdotal: “(…) nada melhor do que um estudo feito, em comunidade, dentro de um ritmo de vida religiosa, com uma substância enorme de orações pelo meio, pervadido de orações e regado por orações. Porque aí sim nós temos as duas asas: uma que se desenvolve para conhecer e outra que se desenvolve para amar, e aí se voa. Porque voar com uma asa só, a gente começa a rodopiar e vai lá para baixo”.[22]

Submetendo-se a todas essas considerações, a formação doutrinária nos Arautos não é apreciada como um componente a mais da formação dos seminaristas, mas um eficaz recurso que faça com que eles adiram à Palavra de Deus, cresçam em sua vida espiritual e, assim, disponham-se para o exercício do ministério pastoral.[23] E isso diz respeito de maneira especial aos estudos teológicos, pois os que se dedicam a eles devem ser, de acordo com a Pastores dabo Vobis, verdadeiros crentes, homens de fé, que falam sobre sua própria fé.[24] Não é sem razão que este curso preenche a maior parte da vida dos Arautos que se preparam para o ministério sagrado.

Desse modo, uma das notas dominantes da formação nos Arautos do Evangelho é o cuidado de não proporcionar aos candidatos ao sacerdócio uma consciência equivocada a respeito dos estudos que precedem a ordenação sacerdotal. A Exortação Apostólica Pós-sinodal Pastores dabo vobis incita a que os formadores não apresentem os estudos preparatórios para o sacerdócio com caráter meramente científico.[25] A respeito desse ponto, alertava o fundador dos Arautos: “E aí nós vemos que cuidado devemos ter quando nós começamos a estudar, porque o estudo não deve partir do raciocínio da inteligência. O estudo deve partir da Fé apoiada e sustentada pela virtude, e depois vem todo o resto”.[26]

Isso significa que se deve aplicar todo o esforço necessário para que os seminaristas não estudem com a impostação de meros cientistas da fé[27], mas sim tomados de entusiasmo para com a doutrina que assimilam: “O estudo deve ser feito com o intuito de crescer no amor, de crescer na fé”.[28]

Mons. João S. Clá Dias, Fundador dos Arautos do Evangelho
Mons. João S. Clá Dias, Fundador dos Arautos do Evangelho

Só com o espírito contemplativo é possível ser teólogo e santo, como um São Tomás de Aquino, um São Boaventura e tantos outros. Depois da dissociação entre as potências intelectual e volitiva, causada pelo pecado original, o homem é capaz de saber muitas coisas sobre Deus, sem, todavia, entregar-lhe o coração. Isso justifica a pergunta: “Por que os teólogos não são todos eles os que mais louvam a Deus? Pois há teólogos que não conseguem louvar a Deus. Por quê? Porque conhecer a Deus não é só conhecer teologia, conhecer a Deus não é só estudar; o estudo ajuda, sem nenhuma dúvida, mas desde que a pessoa se identifique com os desejos de Deus a seu respeito. E identificar-se exige conhecimento de contemplação”.[29]

Com efeito, da admiração e da meditação provém a transformação interior, dela o louvor perfeito e a glorificação, como fez de forma insuperável Nossa Senhora em seu Magnificat. Com os olhos postos n’Ela, a alma contemplativa por excelência, em cujo coração se conservavam e se aprofundavam os mais sublimes mistérios da salvação, os Arautos desejam formar uma geração de teólogos exímios, cheios de fogo do Espírito Santo, capazes de contagiar entusiasticamente os fieis, com a verdadeira doutrina da Santa Igreja, a Mãe indizivelmente amada, que nos une a Maria e, por Maria, a Jesus.

Pe. Carlos Adriano Santos dos Reis, EP (Extraído de “Retrospectiva 2013-2014”)

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[1] Cf. Ioannes Paulus PP. II, Adhortationes Apostolicae: Pastores dabo vobis (25 Martii 1992), in AAS LXXXIV (1992), pp. 748-750, n. 51.

[2] Cf. V. dos Santos Goulart, Pe., Diretrizes para a formação, p. 45.

[3] Cf. D. Cito, in Comentario exegético, p. 246.

[4] Cf. Idem, ibidem.

[5] Cf. J. Hortal Sánchez, SJ. Comentários e notas, p. 130.

[6] Cf. Idem, ibidem.

[7] Clá Dias, João S. Homilia da 6ª feira da I semana da Quaresma. Caieiras, 6 mar. 2009.

[8] Cf. Pius PP. XI,  Litterae Encyclicae: Ad Catholici Sacerdotii (20 Decembris 1936) in AAS XXVIII, (1936), p 26, n. 50.

[9] Cf. Idem, ibidem.

[10] Cf. Idem, ibidem.

[11] Cf. Idem, ibidem.

[12] Cf. Pius PP. XII, Apostolica Adhortatio: Menti Nostrae (23 Septembris 1950), in AAS XXXXII (1950), p. 667, n. 33.

[13] Cf. Idem, pp. 678-679, n. 65.

[14] Cf. Idem, pp. 687-688, n. 86.

[15] Cf. Idem, p. 689, n. 89.

[16] Clá Dias, João S. Homilia da segunda-feira da Oitava de Páscoa. Caieiras, 5 abr. 2010.

[17] CIC-1983, c. 244. Alumnorum in seminario formatio spiritualis et institutio doctrinalis harmonice componantur, atque ad id ordinentur, ut iidem iuxta uniuscuiusque indolem una cum debita maturitate humana spiritum Evangelii et arctam cum Christo necessitudinem acquirant.

[18] Cf. D. Cito, in Comentario exegético, p. 245.

[19] Cf. G. Ghirlanda, O Direito na Igreja, p. 149.

[20] Cf. Idem, ibidem.

[21] Cf. Idem, ibidem.

[22] Homilia da quinta-feira da 9ª semana do Tempo Comum. Mairiporã, 5 jun. 2008.

[23] Cf. Ioannes Paulus PP. II, Adhortationes Apostolicae: Pastores dabo vobis (25 Martii 1992), in AAS LXXXIV (1992), pp. 748-750, n. 51.

[24] Cf. Idem, pp. 751-753, n. 53.

[25] Cf. Idem, ibidem.

[26] Clá Dias, João S. Homilia do sábado da Oitava da Páscoa. Mairiporã, 14 abr. 2007.

[27] Cf. Ioannes Paulus PP. II, Op. Cit., pp. 748-750, n. 51.

[28] Clá Dias, João S. Homilia. Mairiporã, 14 abr. 2007.

[29] Clá Dias, João S. Homilia na Festa de Nossa Senhora de Guadalupe. Caieiras, 12 dez. 2009.

Entranhas de misericórdia

 

Crucifixão, por Guillermo Forchondt. Museu de La Rioja - Logrono, Espanha
Crucifixão, por Guillermo Forchondt. Museu de La Rioja – Logrono, Espanha

“Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5, 7). Eis a bela promessa feita pelo Salvador no Sermão da Montanha. Ela soa aos ouvidos como o rumor de uma fonte de águas cristalinas. Nenhuma tarefa parece mais simples e bela, e, ao mesmo tempo, tão bem recompensada. Ser compassivo para com os outros, ajudá-los em suas necessidades, não são sentimentos nobres, que muitas vezes nascem espontaneamente? Pois bem, aos que assim agirem, espera a benevolência torrencial da parte do próprio Deus.

A misericórdia é atribuída a Deus nas Escrituras abundantes vezes, como sendo a bondade gratuita e copiosa, distribuída pela dadivosidade divina. É, por assim dizer, o contrapeso da justiça, virtude pela qual se dá a cada um o que lhe é devido: suum cuique tribuere. Por isso, afirma Cornélio a Lapide: “misericordia justitiam dulcorat et temperat”.[1] O Senhor, como lê-se no Êxodo (34, 6-7), é “misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel, que conserva a misericórdia por mil gerações e perdoa culpas, rebeldias e pecados, mas não deixa nada impune, castigando a culpa dos pais nos filhos e netos, até a terceira e quarta geração”.

Porém, se procurássemos explicitar em que consiste a misericórdia, não seria fácil obter um consenso, mesmo entre os católicos. Para uns seria um nobre sentimento de solidariedade, para outros a prática da esmola, ou, ainda, uma vaga filantropia baseada em ações de cunho social e beneficente. Afinal, qual é a misericórdia a que faz referência Jesus no Evangelho?

Antes de tudo, esta consiste na generosidade do Pai do Céu, que ultrapassa todos os méritos dos homens, mesmo os dos mais perfeitos. Ele, no seu infinito desvelo, nos premeia com tesouros de graça e de glória, impossíveis de serem conquistados com nossas boas obras. Não há penitências, nem atos de heroísmo, por mais árduos e audazes, capazes de tornar o homem digno da visão de Deus por toda a eternidade. Por essa razão, São Paulo estimava em nada os padecimentos desta vida, em comparação com a glória que nos espera (cf Rm 8, 18).

Para merecer tal prêmio, Jesus ensinou a seus discípulos – pelas suas palavras e exemplos – o bom caminho. O Divino Mestre indica a seus seguidores a necessidade de serem, por sua vez, pródigos e bondosos em relação a seus próximos, dando-lhes mais do que merecem por justiça. A parábola do servo impiedoso o mostra com toda a clareza. A falta de perdão por uma pequena dívida compromete a grande clemência concedida pelo Senhor, que o repreende dizendo: “Servo malvado, eu te perdoei toda a tua dívida, porque me suplicaste. Não devias ter tu também compaixão de teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?” (Mt 18, 32-33) Eis a essência da misericórdia a ser praticada pelos cristãos, se desejam receber o prêmio da liberalidade divina.

E, mais que a esmola, o alimento corporal, o agasalho e outras ações tão nobres, Jesus nos ensina a prática de uma misericórdia espiritual. O Reino de Deus, tal como ouvimos de seus lábios, se baseia no perdão das ofensas, na dedicação da existência ao bem do próximo, na evangelização, no dar a própria vida a fim de tirar os homens das trevas da ignorância e obter-lhes a salvação. Tais atitudes as pôs em prática, e com suma perfeição e zelo, o Divino Mestre. Lembremos apenas um comovedor episódio: a salvação outorgada ao ladrão arrependido no alto do Gólgota.

Dimas, como o chama a tradição, atado à sua bem merecida cruz, mostrara uma profunda humildade, reconhecendo a sua culpa e confessando a inocência de Jesus. E, em prêmio pela sua atitude submissa, recebeu o dom da fé, pois, vendo diante de si um crucificado, desfigurado e moribundo, o proclamou Rei de um poder superior à mesma morte: “Jesus, lembra-te de mim quando começares a reinar” (Lc 23, 42). Naquele trágico momento a fé do ladrão foi maior que a dos próprios apóstolos, covardemente ausentes. Porém, o Divino Redentor à fé acrescentou a promessa da salvação, mediante um solene juramento: “em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Que abismo de bondade, fazer de um maltrapilho e delinquente, um herdeiro do Reino dos Céus! Sim, Jesus, com entranhas de misericórdia, abriu o céu a um pobre ladrão, humilhado pelas suas culpas. Eis a obra de misericórdia por excelência: transmitir a Fé verdadeira e, com ela, fazer entrar o Sol de Justiça na vida de nossos próximos.

Os Arautos do Evangelho, conscientes das carências espirituais de tantos jovens e adultos, contemplam o exemplo de Cristo no alto da Cruz, e procuram entregar a Ele suas vidas – como Ele o fez pelos pecadores –, pondo-as a serviço do próximo, num grande projeto de misericórdia, cujo Inspirador e Autor não é outro senão o Divino Mestre, sem o qual nada de bom se faz (cf Jo 15, 5). Formar, do ponto de vista humano e cristão, transmitir a Fé católica nos seminários maiores e menores, nas escolas, nos hospitais, na catequese e, ainda, proporcionar auxílio material, eis as obras de misericórdia exercidas por esses seguidores de Cristo.

Pe. Carlos Javier Werner Benjumea, EP (Extraído de “Retrospectiva 2013-2014”)

 

[1] Commentaria in quatuor evangelia. Roma: Marietti, 1941, p. 201

Lição de vida dadas por Jó, o sofredor

Per crucem ad lucem. Com esta frase São Bruno resumiu a vida dos Cartuchos. A partir dos sofrimentos aceitos por amor de Deus chegamos às glórias eternas. Contudo, esse inspirado lema se aplica não só aos religiosos da cartucha, mas a todo e qualquer homem. A veracidade cristalina que dele transparece nos afigura como de uma grande simplicidade, sobretudo se consideramos a vida humana a partir do prisma católico. No entanto não foi essa a opinião dos homens durante muitos séculos.

São Bruno. Paróquia São João Batista, Gran Canária, Espanha
São Bruno. Paróquia São João Batista, Gran Canária, Espanha

“Se sou justo serei prospero; se sobrevierem desgraças, é sinal que sou pecador.” Esse foi o principal pensamento que regeu a sociedade antiga, inclusive entre o povo eleito. (cf. Dt 11, 13 s.; Gn 12, 2; Ex 20, 12)

No entanto, com a Revelação trazida por Nosso Senhor Jesus Cristo esse pensamento simplista foi aos poucos mudando. E lendo-se o Livro de Jó podemos perceber a concretização de uma nova maneira de encarar o prêmio e o castigo.

O tema central do Livro é a tragédia de um justo, o qual era próspero e gozava de abundância de bens naturais. Entretanto, querendo Deus aquilatar o valor de sua virtude, permite que sobre ele caiam inúmeros castigos. Esse drama, que possui dois estilos – prosa e poema – nos traz uma verdadeira inovação teológica: o justo também pode sofrer.

Podemos encontrar nesse livro uma estrutura harmônica que se divide em: duas partes em prosa e um corpo central em poema. As partes em prosa são a introdução e o epílogo final, que narram respectivamente a vida de um justo prospero que é castigado por Deus e a recompensa recebida por Jó devido a sua fidelidade em todas as desgraças.

Já o corpo central do texto, que é redigido em estilo poético, se compõe da apresentação de três amigos que sabendo das desgraças sofridas por Jó, vão visitá-lo; a disputa desses três visitantes com Jó, querendo imputar-lhe alguma culpa, as respostas de Jó às acusações de seus companheiros; a apresentação de um novo personagem, Elius, que por sua vez também quer encontrar alguma causa a tais desgraças; e por fim a intervenção final de Deus, apresentando a solução final da discussão.

A crítica moderna veio ao encontro desse magnífico escrito, com o intuito de pôr o problema da existência e historicidade de Jó. Na tradição bíblica encontramos um justo com o nome de Jó, posto em equivalência a Noé e Daniel (Ez 14, 14 e Eclo 49, 9). No entanto o livro de Jó possui certos fatos que nos fazem entrever um certo caráter alegórico do texto bíblico, por exemplo a assistência de Satanás ao conselho de Deus. Assim nos diz Garcia Cordero de Perez Rodriguez: “Isto nos dá a entender o caráter convencional do relato, que se desenvolve essencialmente como uma composição dramática redigida em função da demonstração de uma tese: não há conexão necessária entre o pecado e o sofrimento.” (1967, p. 18)

Quanto à sua canonicidade, o livro de Jó já era muito utilizado pelos apóstolos em suas cartas como um escrito inspirado (cf. Tg 5, 11 e 1Cor 3, 19). Também os Santos Padres davam testemunho do caráter sagrado da história do justo de Hus. Apenas Teodóro de Mopsuestia (séc. VI) tentou negar a inspiração desse livro, e foi condenado pelo segundo Concílio de Constantinopla (553).

Apesar de este livro ter uma inovação teológica para a sua época, ainda falta-lhe um passo: é verdade que o justo também pode padecer, e ainda mais, o seu prêmio não se encontra nesta terra, e sim no post mortem. Essa nova visão começa a se desenvolver no séc. II a. C. no livro da Sabedoria. Entretanto, tal doutrina só atingirá sua plenitude com a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo.

É Nosso Senhor a causa exemplar de todo cristão, e tendo Ele sofrido, também nós devemos sofrer, mas não com amargura e tristeza, pois será Ele mesmo a nossa recompensa na eternidade.

Jó sendo questionado por seus amigos. Por Gaspard de Crayer - Museu dos Agustinianos - Toulouse, França
Jó sendo questionado por seus amigos. Por Gaspard de Crayer – Museu dos Agustinianos – Toulouse, França

Quão bom seria para a sociedade hodierna defrontar-se com a história de Jó. O mundo infelizmente esqueceu-se não só dos ensinamentos dados por esse livro Sapiencial, como também, e sobretudo, deu costas ao rico e eterno ensinamento dado pela Santa Igreja. Aí encontraríamos a solução para as maiores perguntas de nossos dias: porque estou sofrendo? É de Deus que vem esses males?

Essas perguntas bem poderiam ser respondidas por esta eloquente frase de Jó: “militia est vitam hominem super terram.” (Jo 7, 1) e a tal citação acrescentaria São Bruno e com ele a Santa Igreja: “Per crucem ad lucem.

 

Pe. Millon Barros, EP

O Segredo da Felicidade

Catedral de Santiago Menor en Liege. Por Genaro Perez Villaamil - Museu de Belas Artes - La Coruna - Espanha
Catedral de Santiago Menor en Liege. Por Genaro Perez Villaamil – Museu de Belas Artes – La Coruna – Espanha

Desde que Adão e Eva foram expulsos do paraíso, o homem vive sempre se perguntando: – Quem não ama sua vida procurando ser feliz todos os dias? (Cf. Sl 33, 13) De fato, no momento de sua concepção, Deus infunde na alma humana o desejo da felicidade. Como nos diz o grande Santo Agostinho, “todos os homens querem viver felizes, e não existe no gênero humano pessoa que não concorde com esta afirmação”.[1]

No paraíso Deus havia concedido ao homem o “dom de integridade”, o qual, juntamente com a Graça, lhe dava total alegria e plena felicidade. Esse dom proporcionava ao homem a completa ordenação: a fé iluminava sua inteligência, à qual estava subalterna a vontade, inibindo assim impulsos e ações meramente instintivas.

Com o pecado original, Adão e Eva perderam o dom de integridade, bem como seus descendentes. Assim, o homem vive numa constante luta, para controlar sua vontade, que sendo inferior a inteligência e a fé, não está mais a elas subjugada. A vontade que antes obedecia em tudo a sua inteligência, agora segue seus próprios caprichos.

O Criador ao dar uma ordem a Adão era prontamente obedecido, e este a executava com a maior docilidade. Mas então, por que Adão e Eva comeram do fruto que Deus havia proibido, uma vez que possuíam o dom de integridade?…

Deus ao proibir Adão e Eva de comerem do fruto, disse: “Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que deles comeres, morrerás indubitavelmente.” (Gen. 2,16-17). O demônio porém, em forma de serpente, enganou a mulher dizendo: – “Oh, não; vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.” (Gen. 3,4-5) Com isso, despertou a curiosidade em Eva: “A mulher, viu que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e muito apropriado para abrir a inteligência.” E assim continua: “tomou dele, comeu, e o apresentou ao marido que comeu igualmente.” (Cf. Gen. 3, 6) Neste instante, lhes “caem as escamas” dos olhos. Foram os primeiros a constatar que com o pecado, o demônio não dá o que promete.

Comendo o fruto, aderiram ao mal, abraçaram a malícia, fruto do pecado. Comeram para alargar sua inteligência, que se fechou a ponto de não conseguirem dominar mais sua própria vontade. Eram felizes no paraíso, pois cumpriam inteiramente com a finalidade para qual todo homem foi criado: conhecer, amar e servir a Deus.

Imaginemos um pássaro que possua uma asa torta. Se ele fosse inteligente, passaria sua existência na angustia de nunca ter voado. Poderia ter sido feliz? Não, pois não cumpriu com a sua finalidade que é voar. Isso foi o que ocorreu com os nossos primeiros pais. Eva ouvindo a voz da serpente insuflada pelo demônio, sucumbiu à tentação, certa de encontrar a felicidade no pecado. Foram então expulsos do paraíso tornando-se inclinados ao mal e sujeitos ao erro, passando a apresentar toda a sua vida como uma luta dramática entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas.

Fora de sua finalidade, o homem não têm felicidade, pois este desejo é de origem divina. Deus o colocou no coração humano, a fim de atraí-lo a si, pois só Ele pode satisfazer essa sede.[2] O demônio, sendo o pai da mentira, promete a felicidade com o pecado. Este entretanto, traz apenas uma fruição momentânea, e em seguida uma enorme frustração.

Desde então, o homem passou a tirar seu sustento da terra, com trabalhos penosos, todos os dias da sua vida. (Cf. Gn. 3, 17) Estabeleceu-se na alma humana uma necessidade de sofrer, pois sem isso o homem fecha-se em si mesmo, não lembrando mais da bondade e da dependência que tem em relação ao Criador. O sofrimento, então, assume um papel fundamental e insubstituível na vida humana depois do pecado original, pois nos coloca diante de Deus como seres contingentes, e nos faz recorrer a Ele.

Ao se tirar o gesso de um braço quebrado, é necessário submeter-se a uma série de seções de fisioterapia para voltar ao pleno funcionamento. Se o membro não se exercitar pode acabar definhando. porém, esse esforço nem sempre é agradável.

Se o exercício, o sofrimento, é necessário para um braço, quanto mais para a alma humana se desenvolver e recuperar aquilo que perdeu com o pecado! Quem foge do sofrimento, acaba sofrendo mais do que aquele que carrega sua Cruz. Existe na alma humana o que São Tomás denomina de “sofritiva”, que consiste numa necessidade de sofrimento, por uma finalidade sobrenatural, com vistas a purificar e santificar a alma.

O maior de todos os exemplos é o Homem Deus. Estando unido à Pessoa do Verbo e conhecendo tudo, viu num só relance todos os ultrajes e padecimentos pelos quais passaria durante sua Paixão, a ponto de dizer o evangelista que Nosso Senhor sentiu aversão, pavor, tristeza e abatimento. (Cf. Mt 26,38) Antes mesmo dos algozes O tocarem, após verter abundantemente seu preciosíssimo sangue adorável, diante do oceano de dores que o esperava, profere esta sublime súplica: -“Meu Pai, se for possível afaste-se de mim este cálice. Mas faça-se a Vossa vontade e não a minha.” (Mt 26,39)

Concluiríamos que o Redentor pede clemência a Deus Pai, para ajudá-Lo no caminho do Calvário a suportar a enormidade da Cruz que haveria de carregar. Mas “faça-se a Vossa vontade e não a minha”, pois uma coisa que Ele não faria, era abandonar a Cruz. Se for a vontade do Pai, pegaria a Cruz, oscularia e a levaria até o fim.

Ao contrário do que nosso caro leitor poderia esperar com o título desse artigo, não apresentamos uma fórmula mágica de ser feliz para sempre, o famoso “final feliz” que costumamos ver nos filmes, mas o segredo da verdadeira e única felicidade possível nesse vale de lágrimas: o sofrimento aceito por amor a Deus, e o cumprimento de sua divina vontade.

A vida nesta terra sem o sofrimento, é uma funesta ilusão que acaba com a morte, pois se Deus sofreu por nós, porque seríamos covardes e fugiríamos diante de nossas cruzes, tão menores que a d’Ele? Nossa Senhora de Lourdes disse a Santa Bernadete: “Te prometo felicidade, mas não nesta terra.”

Não temos o que temer, Deus conhece nossa fragilidade e olha as nossas aflições. Por isso deu-nos a melhor de todas Advogadas, sua própria Mãe! Peçamos a Nossa Senhora, Causa de nossa alegria, que nos dê coragem para responder “sim” como Nosso Senhor Jesus Cristo no Horto das Oliveiras, para galgar o nosso calvário e alcançarmos a felicidade eterna com Ele nos Céus.

 

Nossa Senhora da Vitória. Por Juan de Figueroa - Santuário de Santa Maria da Vitória - Málaga - Espanha
Nossa Senhora da Vitória. Por Juan de Figueroa – Santuário de Santa Maria da Vitória – Málaga – Espanha

 

Pe. Lucas Antonio Pinatti, EP

[1] Cf. AGOSTINHO, Mor. eccl. 1,3,4: PL 32, 1312.

[2] CATECISMO Igreja Católica: SP, Loyola, 2000. p. 469

A virtude da Fortaleza em Nosso Senhor Jesus Cristo

001É comum nos depararmos com uma visão reducionista de Nosso Senhor Jesus Cristo. Muitos ao tentarem encontrar uma desculpa para justificar suas doutrinas miserabilistas, ou conformadoras com os defeitos e pecados do “próximo”, tentam transmitir uma visão apoucada e muitas vezes deturpada do Nosso Redentor.

É por causa disso que muitos defendem a “necessidade de perdoar” como sendo a única obrigatória; nunca recriminar, sempre ser condescendente com os defeitos do próximo. Porém não foi esse o ensinamento que o Divino Mestre deixou àqueles que com Ele conviveram, e, para perpétua memória, escreveram os Santos Evangelhos.

Por isso, pareceu-nos oportuno ressaltar através dessas linhas um aspecto do resplendor divino que brilhou na pessoa do Homem-Deus, e que hoje está posto de lado: a virtude da fortaleza. E a fim de silenciarmos o “romantismo religioso” que invade os meios católicos em nossos dias, trazemos a lume as palavras do grande líder católico brasileiro, o Professor Plinio Corrêa de Oliveira, que afirma:

“Fazemos a apologia de doutrinas de luta e de força, luta pelo bem é certo, e força a serviço da verdade. Mas o romantismo religioso do século passado desfigurou de tal maneira em muitos ambientes a verdadeira noção de Catolicismo, que este aparece aos olhos de um grande número de pessoas, ainda em nossos dias, como uma doutrina muito mais própria ‘do meigo Rabi da Galileia’ de que nos falava Renan – do taumaturgo um tanto rotariano por seu espírito e por suas obras, com que o positivismo pinta blasfemamente Nosso Senhor, parecendo ao mesmo tempo enaltecê-Lo – do que do Homem Deus que nos apresentam os Santos Evangelhos.” (1983, p. 283)

Para introduzir melhor o leitor no tema, colocamos uma breve descrição teórica da virtude da fortaleza, segundo o grande teólogo, Pe. Antônio Royo Marín, O.P.: “[a virtude da fortaleza é] uma virtude cardeal infundida com a Graça Santificante que inflama o apetite irascível e a vontade para que não desistam de conseguir o bem árduo ou difícil nem sequer pelo máximo perigo da vida corporal.” (1968, p. 588)

Em outras palavras, a virtude da fortaleza nos dá a força e a coragem necessárias para cumprirmos nosso dever, mesmo que isso seja muito difícil ou até mesmo que ponha em risco a vida material do homem, desde que o motivo seja sobrenatural. É o caso dos mártires, que preferiram morrer a renegar sua Fé.

Seria necessária uma explicação muito longa e detalhada para conhecermos todos os seus efeitos e virtudes derivadas. Mas para o efeito que nos propomos neste artigo, faremos menção apenas de duas virtudes, que são mais salientadas nos Evangelhos. Elas são a Paciência e Magnanimidade.

“A Magnanimidade é uma virtude que inclina a empreender obras grandes, esplêndidas e dignas de honra em todo gênero de virtudes.” (ROYO MARÍN, 1968. p. 590) Como sabemos, não foi outra coisa a vida do Verbo Encarnado nessa terra, realizar grandes obras.

Já a virtude da Paciência tem como objetivo inclinar a suportar sem tristeza de espírito nem abatimento de coração os padecimentos físicos e morais, e o principal motivo da paciência cristã é a conformidade com a vontade Divina, que sabe muito mais do que o homem. (cf. ROYO MARÍN, 1968, p. 592)

Agora, cabe-nos saber se o Bom Pastor possuiu e praticou essa virtude? Vejamos como o Pe. Anton Koch, S.I., nos descreve a cena da expulsão dos vendilhões do Templo:

“Duas vezes vemos relampejar de ira os olhos do Rei que havia de vir com mansidão (Mt 21, 5); duas vezes o doce Jesus descarrega o raio de uma cólera divina; mas duas vezes para purificar a casa de seu Pai […] Jesus acaba de inaugurar sua atividade pública com o milagre feito em Caná, no circulo familiar de umas bodas. Estando próxima a Páscoa, sobe a Jerusalém. E entra no Templo. E vê toda aquela profanação do lugar sagrado; O que veio para dar glória ao Pai se sente consumido pelo zelo de sua casa, e colhe umas cordas, as primeiras que encontra, forma com elas um açoite, e o faz relampejar no meio de toda aquela gente; expulsa do Templo os vendedores juntamente com seus animais, derrama o dinheiro dos cambistas, derruba as mesas e com voz de trovão, com voz de santa indignação clama ‘retirai isso daqui, e não façais da casa do meu Pai um covil de ladrões’.” (1954, p. 561-562)

Semelhante atitude de ira foi necessária na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, como nos aponta Karl Adam: “Semelhante querer, tão extraordinariamente concentrado e disciplinado, semelhante força de alma devia irromper também no exterior por alguma palavra dura, por alguma ação ousada, quando forças inimigas ou malévolas se lhe opusessem. Em Jesus não havia somente uma força contida, uma vontade determinada, mas um ardor entusiasta e uma santa paixão. Basta notar a emoção que trazem algumas de suas palavras e de suas ações: ‘Retira-te Satanás’ – é assim que repele com horror a aparição tentadora. […] ‘Retirai-vos de mim, obreiros da iniqüidade, não vos conheço!’, dirá no dia do Juízo aos que não tiverem socorrido cá na terra os irmãos em necessidade.” (1997, p. 17)

O mesmo autor lembra o grande número de parábolas nas quais se ressalta a ira do Divino Redentor: “É o raio que fulgura, é o trovão que explode, como na parábola do joio: ‘O Filho do homem enviará os seus anjos, e eles tirarão do seu reino todos os escândalos e todos os que praticam a iniqüidade, e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes’.” (1997, p. 18)

Porém, mais do que uma simples ira, o Mestre experimentou também o sentimento da cólera: “Os evangelistas nos falam da ‘cólera’ de Cristo: […] sobretudo quando os fariseus, na ‘cegueira do seu coração’, reagem contra qualquer ensinamento e se fecham num silêncio obstinado e desdenhoso. A contrariedade interior que experimentará, o seu senso de lealdade e de verdade feridos, o seu sentimento moral magoado explodirão nesses momentos em palavras fortes, mesmo duras. Falará de hipócritas, de serpentes, de raça de víboras. Não terá receio de qualificar como ‘raposa’ o próprio Herodes.

“Quando se tratava de dar testemunho da verdade, Jesus não sabia tergiversar nem fraquejar por medo. Tinha um caráter de lutador. Não se esquece de quem é nem se deixa arrastar. A sua cólera é sempre a expressão da mais alta liberdade, a expressão de um homem que tem consciência de ‘não ter vindo ao mundo senão para dar testemunho da verdade’.” (1997, p. 20-21)

Porém a sua cólera é a mais alta expressão da Temperança Divina, pois sendo a ira um instrumento da fortaleza, deve ser temperada e controlada pela razão. (cf. ROYO MARÍN, p. 589)

Tendo assim feito um rápido apanhado sobre a virtude da fortaleza na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, percebemos que o Homem Deus é realmente o Bom Pastor, mas também sabe corrigir as suas ovelhas, e aquelas que não quiserem escutar a sua voz serão tratadas como cabritos no dia do Juízo Final. (cf. Mt 25, 41).

É isso que, em outras palavras, afirmou Plinio Corrêa de Oliveira: “[…] Nosso Senhor não foi um doutrinador sentimental mas o Mestre infalível que, se de um lado soube pregar o amor com palavras e exemplos de uma insuperável e adorável doçura, soube, também pela palavra e pelo exemplo, pregar com insuperável e não menos adorável severidade o dever da vigilância, da argúcia, da luta aberta e rija contra os inimigos da Santa Igreja, que a brandura não puder desarmar.” (1983, p. 287)

Pe. Millon Barros de Almeida, E.P.

 

Bibliografia

ADAM, Karl. Jesus Cristo. 2 ed. São Paulo: Quadrante, 1997.

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica – Nº 20 – 2ª da 2ª Parte: Questões 123 – 170 – Da Coragem – Da Temperança. Tradução de Alexandre CORREIA. São Paulo: Faculdade de Filosofia “Sedes Sapientiae”, 1958.

CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Em defesa da ação católica. 2 ed. São Paulo: Artpress, 1983.

FERNÁNDEZ, Aurélio. Diccionario de Teología Moral. Burgos: Monte Carmelo, 2005.

KOCH, Anton, Pe. S.J.; SANCHO, Antonio, Dr. Can. Mag. Docete – Formación Básica del Predicador y del Conferenciante – Tomo II: El Hombre – Dios. Barcelona; Buenos Aires; Santiago de Chile; São Paulo; Bogotá: Herder, 1953.

KOCH, Anton, Pe. S.J.; SANCHO, Antonio, Dr. Can. Mag. Docete – Formación Básica del Predicador y del Conferenciante – Tomo V: El Hombre y Dios. Barcelona; Buenos Aires; Santiago de Chile; São Paulo; Bogotá: Herder, 1954.

MARÍN, Antonio Royo. El Gran Desconocido: El Espíritu Santo y sus dones. 2 ed. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2004.

MARÍN, Antonio Royo. Teologia de la perfección cristiana. 5 ed. Madrid: La Editorial Catolica, 1968.

A Mãe de Deus deveria ter sido concebida com a plenitude de graças?

Nossa Senhora das Graças
Nossa Senhora das Graças, Basílica de Nossa Senhora de Fátima, Arautos do Evangelho. São Paulo – Brasil

Luz tênue, igreja praticamente vazia, poucos ruídos. É fim de tarde na católica cidade de Granada. No recinto sagrado, nota-se que ainda há um sacerdote no confessionário, à disposição de alguém desejoso de ver purificada sua alma.

Enquanto ele termina a última oração de seu breviário, um jovenzinho se acerca, e, como de costume naquela varonil nação, ajoelha-se cara-a-cara com o ministro de Deus. Não havia dúvida, o rapaz queria confessar-se.

Espanha foi um dos países que mais batalhou por defender a proclamação do Dogma da Imaculada Conceição, e, por isso, para o padre testificar a qualidade da devoção mariana na alma do penitente, logo que este se ajoelha, diz o sacerdote: “¡Ave María puríssima!” ao que se deve responder: “¡Sin pecado concebida!”.

Sabia o rapaz a bela resposta, e assim não hesitou em dizê-la… Mas o frade, olhando-o com exigência, afirmou: “¡No! Contésteme: ‘¡En Gracia concebida!’”.

Esse pequeno episódio revela uma grande verdade teológica: que Cristo tenha purificado sua Mãe Santíssima do Pecado Original, sabemos pelos lábios do Beato Pio IX, quando proclamou o Dogma da Imaculada Conceição, pela Bula Ineffabilis Deus, em 8 de Dezembro de 1854. Contudo, o “aspecto negativo” – por assim dizer – do Dogma é ter sido concebida sem pecado. Há o aspecto positivo do mesmo, ou seja, que Maria Santíssima foi concebida em Graça. De maneira que desde o primeiro instante de sua existência, o Espírito Santo escolheu Maria como Templo para habitar, enriquecendo-a com os seus dons, virtudes e carismas.

Entretanto, Cristo não Se contentou apenas com isso. Como se fosse pouco, fez com que Maria Santíssima tivesse tal plenitude de graças já no primeiro instante de sua concepção, que superasse a plenitude de graças de todos os Anjos e Santos reunidos. Essa doutrina, que o renomado dominicano espanhol Pe. Antonio Royo Marín qualifica como “completamente certa em Teologia”, tem suas provas nas Sagradas Escrituras, no Magistério e na especulação teológica. É seguindo os ensinamentos desse teólogo, o qual se apoia na doutrina de São Tomás, que contemplaremos essa bela verdade.[1]

Tal verdade é insinuada nas páginas sagradas quando o Arcanjo São Gabriel saúda a Virgem: “Ave Maria, cheia de Graça” (Lc 1,28). O ser “cheia”, “plena” de Graça, não admite restrição no tempo, de modo que o Anjo quisesse dizer que naquele momento estava Ela repleta de graças, mas não antes nem depois.

Se apelarmos ao Magistério, na mesma definição do Bem-aventurado Pio IX sobre a Imaculada Conceição, encontramos essas palavras tão significativas: “[Deus] tão maravilhosamente cumulou-A da abundância de todos os celestiais carismas, tirada do tesouro da divindade, muito acima dos anjos e santos, [que Ela] manifestasse tal plenitude de inocência e santidade que não se concebe de nenhum modo maior depois de Deus…”[2]

Mas, abeberando-nos das fontes escriturísticas, e das definições do Magistério, encontramos belíssimas razões teológicas de conveniência para que Maria Santíssima fosse cumulada de graças desde o primeiro instante.

Sede da Sabedoria
Nossa Senhora Sede da Sabedoria

São Tomás argumenta dizendo que quanto mais algo se aproxima do princípio de uma ordem, tanto mais terá uma participação e semelhança com aquele princípio. Exemplifiquemos: quanto mais nos aproximamos do fogo, princípio do calor, tanto mais nos esquentaremos. Assim também acontece com a ordem sobrenatural: quanto mais nos aproximemos de Deus, tanto mais participaremos de seus dons. Ora, quem mais próximo de Deus, que Aquela que foi Mãe de Deus, dando ao Verbo a natureza humana para que Ele se encarnasse? Ademais, Nossa Senhora portou em si a Cristo, o qual teve a plenitude de graças, pois era o próprio autor da Graça. Maria Santíssima foi a Mãe do Autor da Graça, e por isso Ela foi cumulada e cheia de Graça, cuja plenitude supera a de todas as demais criaturas.[3]

Caso alguém objetasse que Ela não esteve unida a Cristo desde seu primeiro instante de existência, alegaríamos que isso não importa quanto à posse de tal plenitude, pois a Virgem estava predestinada desde toda a eternidade para ser Mãe de Cristo.[4]

Por que podemos afirmar que a plenitude de Graça em Maria, é maior que a dos Anjos e dos Santos reunidos? A razão é simples: a Graça é feito do amor de Deus. Ora, Maria Santíssima foi amada desde o primeiro instante de sua concepção, mais que os Anjos e Santos, visto que só a Ela foi concedida a graça de ser Mãe de Deus. Logo, essa plenitude de Graça é maior que a de todas outras criaturas.

É evidente que a plenitude de Graça em Maria não foi idêntica à plenitude de Graça de seu Filho, pois Ele é o Autor da Graça. Cristo tinha a plenitude absoluta, e Maria a tinha de modo relativo, ou seja, por estar intimamente unida a seu Divino Filho. Destarte, a Santíssima Virgem sempre estava cheia de Graça, e sempre crescendo em Graça, pois Deus lhe aumentava a capacidade. Já sobre isso o Rei Davi profetizava acerca de sua Filha e de sua Mãe: “Seu vigor aumenta à medida que avançam…” (Sl 83,8). Dizem os teólogos, que inclusive durante o sono Maria Santíssima aumentava em Graça, pois possuía a ciência infusa, a qual, mesmo durante o repouso, trabalhava santamente.

O Doutor Angélico ao tratar da plenitude de Graça em Nossa Senhora, faz uma distinção esclarecedora: Maria teve uma plenitude inicial, no momento de sua concepção: era plena; teve a plenitude perfectiva, quando se operou n’Ela a Encarnação do Verbo, aumentando claramente a Graça Santificante; e por fim, tem Ela a plenitude final, na eternidade.[5] Cumpre dizer que esse privilégio de ter a plenitude inicial, com exceção de Cristo seu Filho, somente Ela teve.

Assim sendo, quão bela, santa e perfeita morada preparou Cristo Senhor para Si: impossível mais perfeita. Deus esgotou sua capacidade de perfeição em uma criatura, de maneira que Maria transcende os outros santos, como o Céu transcende a Terra. Maria Santíssima é a montanha preferida na qual Deus quis erigir sua habitação: “Montes escarpados, por que invejais a montanha que Deus escolheu para morar, para nela estabelecer uma habitação eterna?” (Sl 67).

 

Pe. Felipe Garcia Lopez Ria, EP

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[1] ROYO MARIN, Antonio. Jesucristo y la vida Cristiana. Madrid: BAC, 1960. p.224-227.

[2] PIO IX. Ineffabilis Deus. 8 de Dezembro de 1854. AAS 1/1,597s; (DH 2800).

[3] Cf. III, q.27, a.5. resp.

[4] “Deus inefável… elegeu e ordenou para seu Filho Unigênito, desde o princípio e antes de todos os séculos, uma Mãe…” (PIO IX. Ineffabilis Deus. Loc.cit.)

[5] S.Th. III, q.27. a.5. ad 2.

Mãe do Bom Conselho

A pintura, aplicada sobre delgada crosta de reboco, de trin­te e um centímetros de largura por quarenta e dois centímetros e meio de altura,[1] retrata Maria Santíssima com inefável e materna ternura, amparando em seus braços o Menino Jesus, ambos enci­mados por um singelo arco-íris. As cores do afresco são suaves, e finos os traços dos admiráveis semblantes.

Capela onde se encontra o afresco da Mãe do Bom conselho, Genazzano, Itália
Capela onde se encontra o afresco da Mãe do Bom conselho, Genazzano, Itália

“O magnum Mysterium!” — canta a Igreja no responsório das Matinas de Natal. Deus e Homem, hipostaticamente uni­dos! Seriedade e doçura, majestade e candura maravilhosamen­te expressas na fisionomia de uma criança.

Analise-se mais detidamente este quadro do Divino Infan­te. O nariz sem sinuosidades lembra a suprema retidão d’Aquele que é o Sol de Justiça. Seus olhos comunicativos, ligeiramente amendoados, de um castanho suave e luminoso, com certo matiz de verde, irradiam paz, ilimitada bondade, infinita sabedoria.

Detalhe dos olhos do Menino Jesus
Detalhe dos olhos e do nariz do Menino Jesus

Atrai agradavelmente a vista sua túnica vermelho-ocre, em cuja gola se destacam bordados harmoniosos e enigmáticos. Me­ro ornato? Ou quiçá alguma palavra em idioma desconhecido, alusiva à sua missão?

Num gesto de intenso afeto, transbordante de amor, Ele envolve com a mão direita o nobre e delicado pescoço de sua Mãe, enquanto com a esquerda segura energicamente a parte superior do vestido d’Ela, como a dizer: “Sois toda minha!” É tão categórico esse comovedor e divino amplexo, que sua vista direita parece levemente desviada da linha normal, pela ênfase com que Ele estreita sua face à de sua Mãe Santíssima.

Detalhe da mão do Menino Jesus
Detalhe da mão do Menino Jesus

Sem deixar de exprimir em nada a fisionomia própria de uma criança, o Divino Infante não denota, entretanto, a me­nor superficialidade, tão característica dessa fase da vida. Pelo contrário, como um oceano de seriedade, transparece n’Ele to­da a profundidade e amplitude do entendimento, toda a força da vontade, toda a elevação e nobreza do sentir. E tem a mais alta consciência do que representa sua Mãe, do paraíso inte­rior que Ela Lhe oferece.

Jesus Menino contempla, num olhar abarcativo, o passado, o presente e o futuro. Analisa toda a obra da criação, em toda a sua variedade e esplendor. Vê a revolta de Lúcifer e o proelium magnum — a grande peleja na qual São Miguel precipita no inferno satanás e os outros espíritos rebeldes.

"Jesus Menino contempla, num olhar abarcativo, o passado, o presente e o futuro"
“Jesus Menino contempla, num olhar abarcativo, o passado, o presente e o futuro”

Depois da prova dos Anjos, considera a prova dos homens. Pondera o pecado de Adão e Eva, com todas as suas consequên­cias: a ruptura da aliança entre o Criador e a criatura, a necessi­dade da redenção do gênero humano. A desobediência ofende­ra a Deus em sua majestade infinita. Era preciso que o resgate fosse feito por quem tivesse mérito igualmente infinito. Eis aí a divina missão do Menino Jesus: redimir a humanidade, estabe­lecer a Nova Aliança, em perfeita conformidade com os desíg­nios do Padre Eterno: “Eu desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou” (Jo 6, 38).

Qual novo Isaac, Jesus deseja ardente e plenamente obe­decer — não foi o pecado de nossos primeiros pais precisamen­te a desobediência? Resoluto e amoroso, assume o holocaus­to, apesar da dolorosa antevisão da pergunta que Lhe poderia aflorar aos lábios no Horto das Oliveiras, repetindo as palavras proféticas do salmista: “Quæ utilitas in sanguine meo?” — Que vantagem virá do meu sangue?” (Sl 29, 10).

Não obstante essas considerações, o Divino Infante quer manifestar aqui todo o seu comprazimento, toda a sua felicidade em estar no colo de sua Mãe Santíssima, como a indicar a ne­cessidade de recorrer a Ela em todas as borrascas e sofrimentos desta vida, a fim de haurir a força e a coragem indispensáveis para seguir “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6).

Por sua atitude, o Menino Deus parece dizer a cada um: “Se queres algo de Mim, pede-o por meio de minha Mãe e se­rás atendido”. O quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano bem poderia estar aureolado com as palavras “Mediação Universal de Maria”, pois o próprio Deus humanado quis encontrar proteção e amparo nos braços virginais de sua Mãe Santíssima.

O Menino pressiona levemente sua face contra o rosto de sua Mãe, e d’Ela recebe inefável manifestação de afeto, vene­ração e ternura, representada com especial acerto pelo grau de inclinação de ambas as cabeças, pelo modo como se olham.

"O Menino pressiona levemente sua face contra o rosto de sua Mãe"
“O Menino pressiona levemente sua face contra o rosto de sua Mãe”

Ó mistérios dessa união, que fizeram exclamar a São Ber­nardo: “Maravilha-te com estas duas coisas e considera qual é causa de maior admiração: se a benigníssima mercê do Filho ou a excelentíssima dignidade de tal Mãe. De ambos os lados está o pasmo, de ambos o prodígio. Que Deus obedeça a uma Mulher, é humildade sem igual, e que uma Mulher tenha autoridade para mandar em Deus, é excelência sem igual”. [2]

Seria intenção do artista simbolizar a grandeza e a profun­didade da misteriosa união entre Mãe e Filho — união arque­típica neles, Maria e Jesus — pintando as faces tão juntas? Ao analisar os traços fisionômicos da Senhora do Bom Conselho — o rosado da face, a configuração retilínea do nariz, a inclinação do pescoço, a cor dos cabelos tendente ao dourado, o arqueado das sobrancelhas — percebe-se que Ela é a Mãe de um Filho que fisicamente muito se Lhe assemelha.

Então, por que pintar tão juntos Maria e Jesus Menino? É porque o Filho é o próprio Criador da excelsa Mãe. E a Mãe — a mais perfeita das criaturas — levou nas suas entranhas vir­ginais o Divino Infante.

A Mãe, em altíssimo ato de adoração ao Filho, procuran­do como que adivinhar o que se passa em seu interior, considera ao mesmo tempo o fiel que a seus pés se ajoelha e, como Media­neira de todas as graças, acolhe sua prece e a apresenta a Deus Nosso Senhor.

Jamais teve alguém em seus braços tesouro de igual valor: infinito…! Entretanto, quem foi mais desejosa do que Nossa Se­nhora de atrair outros para compartilharem de seu tesouro?

É infinito o caleidoscópio de paradoxos que a considera­ção do relacionamento entre Nossa Senhora e seu Divino Filho, nesse afresco, sugere.

Há nessa união de Mãe e Filho uma intimidade e uma profundidade que surpreendem e atraem. A união de alma, re­fletida no olhar que um e outro trocam entre si, gera em ambos uma tranquilidade e uma imobilidade no afeto que Lhes parece fazer sentir a bem-aventurada delícia desse mútuo entendimen­to, desse mútuo estar juntos!

Mas, ao mesmo tempo, esse profundo, calmo, sério e ín­timo olhar não é excludente. O fiel sente-se atraído a entrar no aconchego e na serenidade desse olhar. Mãe e Filho se dispõem a receber com bondade o fiel devoto à procura de socorro, mi­sericórdia ou amparo. O aconchego sacral que ambas as fisiono­mias irradiam faz com que o fiel se sinta entendido e amado nos aspectos mais nobres e elevados de sua alma.

Leitor, abandona por um momento o texto e contempla uma vez mais — e agora detidamente — a foto do afresco, e deixa-te penetrar pela celestial atmosfera que Mãe e Filho criam.

"É infinito o caleidoscópio de paradoxos entre Nossa Senhora e seu Divino Filho"
“É infinito o caleidoscópio de paradoxos entre Nossa Senhora e seu Divino Filho”

Por certo perceberás que, para além de suas qualida­des pictóricas e artísticas, dessas duas fisionomias como que se evolam certas graças de presença de Nossa Senhora e do Menino Jesus, às quais bem poucos conseguem resistir. Sen­tirás que graças sensíveis batem à porta de tua alma, ou já a adentram, trazendo consigo uma paz repousante e um repouso pacificador. Ora é a fisionomia da Mãe, ora o olhar do Filho, ora o afresco no seu conjunto que te dará ânimo em meio às situações difíceis, que te consolará durante os sofrimentos, que te acalmará nas aflições, que te dará confiança nas angústias, coragem na hora de avançar, prudência ao ter que recuar; que, por fim, fará descer do Céu o milagre até ti, quando todos os recursos humanos se tiverem esgotado.

Venerando a sagrada efígie, vêm-nos à mente as palavras de Santo Afonso de Ligório, grande devoto da Mãe do Bom Conselho, habituado a sempre trabalhar tendo diante de si, so­bre a mesa, uma estampa da Virgem de Genazzano:

“Ó soberana Princesa! Do imenso oceano de vossa bele­za, se originaram, como rios a partir de sua fonte, a beleza e a graça de todas as criaturas: o mar aprendeu a arredondar suas ondas e a fazer passear majestosamente suas vagas de cristal, vendo os vossos cabelos dourados, os quais, caracolados encan­tadoramente, caem sobre vossos ombros e sobre vosso pescoço de marfim. As fontes transparentes e seus claros reservatórios aprenderam o repouso e a calma, vendo a serenidade de vos­sa bela fronte e de vossa agradável fisionomia. O arco-íris, tão charmoso quando faz luzir suas mais belas cores, intuiu como se dobrar graciosamente para melhor dardejar os raios de sua luz, contemplando o contorno de vossas sobrancelhas. A estrela da manhã e a estrela vespertina são duas brilhantes faíscas de vos­sos belos olhos. O lírio radiante de alvura e a rosa avermelhada tomaram emprestadas suas vivas cores de vossa fisionomia. A púrpura e os corais parecem invejar o vivo colorido de vossos lábios. O leite mais saboroso e o mel mais doce procedem de vossa boca. O jasmim odorífero e a rosa perfumada de Damasco foram embalsamados pelo vosso sopro. […] Em uma palavra, ó Maria, todas as belezas criadas não são senão uma sombra e uma débil imagem de vossa beleza.

Portanto, eu não me espanto, ó soberana Princesa, de que a terra e o Céu se coloquem sob vossos pés; pois Vós sois tão grande que, pondo-Vos sobre eles, Vós os enriqueceis e eles se alegram em poder oscular a planta de vossos pés. […]

Ó Maria, belo céu resplandecente de graça e de beleza, sois firmamento mais vasto que o Céu Empíreo, pois o próprio Deus, cuja imensidade o universo não podia conter, escondeu-se em vos­so seio!” [3]

Beneficia-te dessas graças que são derramadas com maternal abundância, com magnificên­cia de Rainha, sobre todos aqueles que, piedosa e confiantemen­te, sabem pronunciar as excelsas palavras: Ó Mãe do Bom Conse­lho, rogai por nós!

Ó Mãe do Bom Conse­lho, rogai por nós!
Ó Mãe do Bom Conse­lho, rogai por nós!

Extratos do livro Mãe do Bom Conselho, escrito por Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, Fundador dos Arautos do Evangelho. (CLÁ DIAS, João S. Mãe do Bom Conselho. 3. ed. São Paulo: Lumen Sapientiae, 2016, p. 25-34).

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[1] ADDEO, Agostino Felice. Apparitionis Imaginis Beatae Mariae Virginis a Bono Consilio Documenta. Vaticanus: Typis Polyglottis Vaticanis, 1947. Excerptum ex Analecta Augustiniana, v.20, jan. 1945/dez. 1946, p. 118. Essas medidas referem-se à superfície visível do afresco, pois tanto a moldura quanto o altar cobrem a exten­são total da pintura.

[2] BERNARDO DE CLARAVAL, Santo. Sermones de Tempore: De laudibus Virginis Matris, Hom. I, n. 7 (PL 183, 60).

[3]   AFONSO MARIA DE LIGÓRIO, Santo. Acclamations à Marie: Gloires de Marie II. In: OEuvres Complètes. 2. ed. Tournai: Casterman, 1880, v. 8, p. 247-249.

Nossa Senhora, canal das graças do Espírito Santo

Pentecostes

Maria Santíssima estava predestinada desde toda eternidade a ser mãe de Deus. E por isso mesmo, no momento em que foi concebida no ventre de Santa Ana, não apenas ficou preservada da mancha original como recebeu a plenitude do Espírito Santo num grau mais elevado do que todos os Anjos e santos reunidos.

Entretanto, no momento em que Ela disse sim às palavras do Anjo e que o Verbo se fez carne e habitou entre nós, essa plenitude atingiu um píncaro inimaginável. Não podia haver dignidade maior entre as meras criaturas que ser elevada a Mãe de Deus, participando do plano hipostático. Foi através d’Ela que a Obra da Redenção se tornou possível, porque Deus assim o quis. Sua grandeza exigia uma perfeição digna, de certo modo, do Criador. Daí a palavra dum Santo: “Só Deus pode conceder o cabedal de graças depositado na Divina Mãe no dia Encarnação” (São Bernardino de Sena).

Essa santidade de Maria – ó prodígio – crescia a cada instante de sua vida, de modo especial nos momentos cruciais da vida de seu Filho, a Paixão e Ressurreição de Jesus.

Que virtudes admiráveis Maria praticou ao longo da dolorosa Paixão do Redentor. Ela, a melhor de todas as mães, amando com todo ardor de seu Coração Imaculado o melhor de todos os filhos, que Ela concebeu por obra do Espírito Santo, que Ela maternalmente gerou no tempo e na carne, que Ela amamentou e cuidou com tanta solicitude, e que Ela, em união com o Pai Celeste, se dispôs a oferecer pela humanidade pecadora. Mas Ela não assistiu isso de longe. Acompanhou com coragem a Via Dolorosa, e ficou de pé junto a Cruz de Jesus. Quanta força, quanta virtude, quanta santidade não precisaria ter essa alma?!

Momento talvez ainda mais cruel ainda estava por chegar: após o sepultamento do corpo de Jesus, que vazio Ela deve ter sentido. Seu Filho não estava mais no mundo. Muitas pessoas sabem o que é perder um filho e podem imaginar melhor o que Maria deve ter sofrido nessa ocasião. Porém, sua Fé inabalável na Ressurreição sustentou sozinha a Igreja nascente por três longos dias.

Todo esse sofrimento foi largamente recompensado por ocasião da descida do Espírito Santo sobre Ela e os Apóstolos reunidos no Cenáculo. Mais uma vez sua plenitude de graças crescia de modo magnífico. “No dia de Pentecostes, diz um grande servo de Deus, o Espírito Santo desceu primeiro sobre a Divina Mãe e difundiu-Se depois entre os Apóstolos sob a forma de línguas de fogo. O Ministério Apostólico, de fato, destinado a comunicar a graça, deveria receber seu último aperfeiçoamento pelo canal d’Aquela que é a sua despenseira. Seja como for, os Apóstolos deveram sem dúvida às preces de sua amada Soberana, e às suas próprias disposições, a plenitude da sabedoria e santidade que receberam nesse grande dia.” (Pe. Luís Bronchain, C. SS. R., Meditações para todos os dias do ano.)

Tendo-A como modelo e intercessora, rogamos que Ela prepare nossos corações para serem uma digna morada do Divino Paráclito! Para isso, trabalhemos com Ela para unir em nós a inocência à penitência, o temor de Deus à confiança n’Ele, a humildade à grandeza de alma, e a delicadeza de consciência à generosidade do sacrifício. Esforcemo-nos com Maria para subir a Deus pelos diversos graus do recolhimento, da pureza de coração e da oração contínua.

Segundo Santo Ildefonso, assim como o fogo penetra o ferro e o abrasa, conferindo as propriedades próprias ao mesmo fogo, assim o Espírito Santificador se apoderou da Alma de Maria e Lhe transmitiu seus dons e concedeu a Ela o poder de os transmitir a quem Ela quiser; basta-Lhe pois inclinar-Se a nós para encher-nos do mesmo Espírito. “Todos os dons, virtudes e graças, diz São Bernardino de Sena, são dispensados pelas mãos de Maria a quem Ela quer, quando e como quer”. Ora, Ela quer cumular-nos de favores mais do que nós poderíamos desejar receber. Deixemos as portas de nossos corações abertas para que Ela possa tomar posse e nos encher dos dons do Espírito Santo.

Nossa-Senhora-Fatima