De José a José: a escada da tipologia

Para ascender à cúpula da Basílica de São Pedro, a mais imponente da Cristandade, faz-se necessário o uso de uma escada. A forma curva do monumento impede a implementação de elevadores ou outros avanços da técnica. A cada um dos mais de duzentos degraus, quem vai subindo sente, ao mesmo tempo, o peso do cansaço e o alento da esperança: “Como será o panorama lá de cima?” No fim da árdua empresa, o prêmio compensa os esforços: a ampla visão da Cidade Eterna regala os olhos.

Basilica_Sao_PedroTambém Deus nosso Senhor, o pedagogo infinitamente sábio, leva os homens aos mais altos mistérios da Fé por meio de certos “degraus” por Ele estabelecidos, de modo a facilitar a escalada. Assim, antes da vinda do Messias, Javé multiplicou os sinais, os símbolos e as prefiguras d’Ele. Pensemos no Cordeiro imolado no culto mosaico e sua ligação simbólica com o Sacrifício do Calvário. O próprio Jesus foi chamado por São João Batista “Cordeiro de Deus”.

Também os privilégios de Nossa Senhora foram representados por grandes damas do Antigo Testamento: Maria, a irmã de Moisés, Judith, Esther, Débora e tantas outras. Cada uma delas, sob algum aspecto, foi depositária num grau menor, das perfeições que enriqueceriam de modo indizível a Virgem-Mãe. Tais personagens femininos estão em relação à Mãe de Deus, como tipos para com o arquétipo. Ela, bendita entre as mulheres, reúne em si as perfeições das mais eminentes figuras que a precederam.

Do mesmo modo, para abrir nossos corações ao mistério da santidade de São José, esposo de Maria e pai legal de Jesus Cristo, encontramos na Antiga Aliança uma figura atraentíssima e cheia de virtudes: José do Egito, filho de Jacó[1]. Ele foi tipo do varão perfeito, escolhido por Deus para uma missão de enormes proporções, como foi São José, filho de Davi.

Analisemos e confrontemos ambos os personagens, admirando e adorando a sabedoria e a força de Deus que os santificou e glorificou dessa maneira.

A predileção por José

José, filho de Jacó foi predileto de seu pai: “Israel amava José mais do que todos os outros filhos, porque ele era o filho de sua velhice; e mandara-lhe fazer uma túnica de várias cores” (Gen 37, 3). Sendo filho de Raquel, sua esposa preferida, e tendo nascido dela depois de um longo período de esterilidade, o afeto de Jacó por seu filho José era tenro e intenso, e o vestia com uma elegância e um luxo superior às roupas dos demais. Seus irmãos, ao perceberem esses sentimentos paternos, nutriam por ele uma obscura e sórdida inveja: “vendo que seu pai o preferia a eles, conceberam ódio contra ele e não podiam mais tratá-lo com bons modos” (Gen 37, 4).

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capa

 

Pe. Carlos Javier Werner Benjumea, EP

 

[1] A Tradição refere a São José a tipologia de José do Egito, pelo seu grande poder diante do Faraó, de modo a lograr assim a abundância de dons, o que evoca o poderoso patrocínio de São José para que nunca falte o pão da Palavra e da Eucaristia à Igreja. Cf. Ferrer Arellano, Joaquín. San José, nuestro padre y señor. Madrid: Arca de la Alianza, 2006, p. 25

A conversão de São Paulo

Quando Saul estava no termo de sua viagem e próximo a chegar em Damasco[1], viu, de repente, na hora do meio-dia, uma luz se aproximar do céu mais brilhante que o sol, que passou a circunscrevê-lo a ele e seus companheiros. Todos viram esta luz e caíram por terra, tomados de pavor.

Quis Deus primeiramente derrubar o orgulho e a obstinação vaidosa da qual Saulo estava repleto, a fim de que ele pudesse receber com submissão e humildade as ordens que iria lhe dar. Derrubou-o para salvá-lo, diz Santo Agostinho[2].

São Crisóstomo diz que Deus quis que a luz precedesse a voz, a fim de que Saulo tomado divinamente por esta luz tão brilhante, acalmasse um pouco seu furor e estivesse em condições de ouvir com mais docilidade. E, Santo Ambrósio[3] comparando São Paulo, em seu desvario de espírito a um lobo que corre em meio às trevas da noite, diz que ficou como que cego pela luz que viu de repente brilhar ante seus olhos.

É de se notar que Jesus não lhe disse:  − Creia em mim, ou algo do gênero; mas contentou-se em reprovar-lhe a perseguição a que O estava submetendo e pergunta-lhe, de algum modo, diz São Crisóstomo[4], o que podia movê-lo a perseguir Sua pessoa em seus membros, querendo obrigá-lo, por aí, a refletir sobre a injustiça e a violência de seu procedimento[5].

Eis, pois, este lobo devorador transformado de repente num cordeiro. Não tendo ainda conhecimento de quem lhe falava, mas sentindo-se, mesmo assim prostrado abaixo do poder de Deus, ele o chama de Senhor, e pergunta-lhe quem é ele. Aterrado por ouvir dizer que persegue aquele cuja luz brilha ante seus olhos, e cuja voz ressoa a seus ouvidos, enquanto ele julgava estar rendendo um grandíssimo serviço a Deus perseguindo os discípulos de Jesus. Seu pavor chegou ao extremo quando esta voz disse-lhe: Eu sou Jesus de Nazaré, que persegues. Segundo Santo Hilário[6] e Santo Agostinho[7] neste momento ele via Jesus Cristo, que lhe apareceu em pessoa. Tal sentimento, defendido por Calmet[8] é confirmado pela Escritura.

Costuma-se mostrar aos viajantes à Terra Santa, o local onde São Paulo foi derrubado, a três léguas de Damasco, rumo sul. E, no tempo de Santo Agostinho[9], havia no lugar onde ele se tinha convertido, uma igreja.

Segundo a reflexão de São João Crisóstomo, Cristo não disse a Saulo que Ele era Jesus ressuscitado dentre os mortos; nem que era Jesus sentado à direita de Deus Pai. Não lhe disse também, segundo a observação de São Gregório, que fosse o Verbo Eterno, nascido de Deus ante todos os séculos e princípio de todas as coisas. Mas, declara que é este Jesus menosprezado pelos judeus, este Jesus de Nazaré, que eles tinham feito morrer numa Cruz.

Isto, porque Ele queria que, ante a visão de seu próprio desvio, ele se humilhasse subitamente e que tivesse compunção pelo sentimento da ingratidão, pelo qual ele mesmo e todos os judeus eram culpados, por não terem reconhecido a visita do Senhor, nem compreendido o cumprimento das profecias na pessoa deste Homem-Deus.

Te é duro recalcitrar contra o aguilhão. O sentido destas palavras é tomado das juntas de bois atreladas ao carro e que se espetam com o aguilhão. Quanto mais recalcitram, mais são feridas, pois o aguilhão entra-lhes na carne. Quanto mais Saulo se opunha aos desígnios de Deus, querendo destruir sua Igreja, mais ele recalcitrava contra a mão do Todo Poderoso, e mais se cansava inutilmente; o plano de Deus não deixava de se executar.

Finalmente, submeteu-se à graça e à vontade de Deus: Que queres que eu faça?

E o que ele disse uma vez, naquela ocasião, disse-o do fundo do coração a vida toda, pois que a seguir só olhou para a vontade de Cristo para regularizar suas ações.

São Lucas observa que somente então Jesus diz-lhe para entrar na cidade de Damasco, perto da qual estava, e que lá lhe seria dito o que fazer[10].

O Senhor dá a conhecer então a Saulo convertido, a escolha de graças que tinha feito na sua pessoa, para estabelecê-lo no Apostolado dos Gentios, e dizendo-lhe que era por esta razão que lhe tinha aparecido, prometendo aparecer-lhe novamente, a fim de que pudesse, como os demais apóstolos, servir-lhe de testemunho das coisas que tinha visto e que deveria ver a seguir nestas grandes revelações que tinha tido, quando fora elevado até o terceiro céu. Pois era preciso que todos os Apóstolos dessem depoimento de Jesus Cristo, como testemunhas oculares. É também porque São Paulo teve que ser favorecido por estas aparições e revelações extraordinárias, nas quais todos os segredos da Encarnação do Filho de Deus e de sua Ressurreição foram-lhe expostos à luz dos olhos.

Esta cegueira corporal de Saulo era somente uma imagem daquela onde seu espírito e seu coração tinham estado até então, da mesma maneira que a cura milagrosa de sua vista logo depois, foi uma figura da cura bem mais admirável da cegueira tão criminosa de sua alma.

“Eia, pois, exclama São Crisóstomo[11], fazendo alusão aos oráculos contidos nos sétimo e oitavo capítulos do profeta Isaias, aqui está então este ilustre despojo do demônio arrancado do inimigo de Jesus Cristo; eis uma de suas mais poderosas armas, na qual punha sua confiança, que lhe foi arrancada por Aquele que é mais forte que Satanás, depois de tê-lo subjugado. E, o que é mais admirável, é que aqueles mesmos que são inimigos de Jesus Cristo, serviram-lhe nesta ocasião de ministros, para conduzir como num triunfo, à vista de todo mundo, este perseguidor da Igreja, derrotado sob o divino poder d’Aquele que ele perseguia outrora, de maneira tão ultrajante.

Quem poderia excogitar no que pensou e o que fez durante estes três dias!? Estava a repassar em espírito, diz São Crisóstomo, tudo que tinha se passado desde a morte de Jesus Cristo e a de Santo Estevão, também. Afligia-se, recriminava-se ele mesmo por tudo que tinha cometido. Confessava, na presença de Deus, sua própria miséria e sua própria cegueira, e admirava a divina misericórdia. Rezava, e conjurava o Senhor de perdoar-lhe, e de torná-lo digno de reparar todos os males que tinha causado à sua Igreja, fazendo-o cumprir a obra para a qual o destinava[12].

− O nome de Saulo fez estremecer Ananias, porque era conhecido tudo que ele tinha feito em Jerusalém e porque ele vinha para Damasco. Assim, o temor que o impediu de pensar no que dizia e a Quem falava, o Senhor, fizeram-no opor dificuldades em ir procurar Saulo. Ananias, entretanto, sobrepondo-se a seu estupor, para obedecer a Deus, foi procurar Saulo e o batizou.

Assim, recebeu a qualidade de discípulo de Jesus; seus estragos foram esquecidos, não lhe foi feita nenhuma crítica; sua infidelidade já estava submersa no sangue recentemente derramado por Nosso Senhor Jesus Cristo; os sinais de endurecimento que lhe tinham feito outrora rejeitar a luz da verdade, e o véu que impedia o judeu infiel de ver e de reconhecer seu Messias, caíram-lhe juntamente com as escamas dos olhos. Ele passou a ver com alegria e respeito como um ministro de Deus Aquele que ele tinha vindo buscar acorrentado como um criminoso e como um prevaricador da Lei de Deus.

Ainda hoje em dia se mostra, em Damasco, a fonte na qual foi batizado São Paulo.

Na sua primeira epístola ao grande Timóteo, bispo de Éfeso, (1, 12-16) Saulo externa quais eram então seus sentimentos.

Assim é que se deu a célebre conversão do Apóstolo dos Gentios, do Pai espiritual de quase toda a terra. A Igreja, pela qual ele trabalhou tanto e até talvez mesmo mais do que os outros Apóstolos, quis honrar o fato por uma festa solene. Desde há vários séculos ela é celebrada a 25 de janeiro, por ocasião da transladação de suas relíquias.

Na época de sua conversão São Paulo tinha por volta de 36 anos. Segundo Santo Agostinho, abandonou seus bens e, quando pregava o Evangelho ele não possuía nada, razão pela qual São Crisóstomo o chama de homem pobre. Não se sabe se ele era viúvo ou se fora engajado no vínculo do casamento. Mas, o que é certo é que, desde então fez profissão de continência e castidade perfeita, conforme narra Stanto Agostinho.

Tirado de: Histoire complète de Saint Paul Apôtre et Docteur des nations

par l´Abbé Maistre, Paris: Watelier, 1870, pp. 10-19.

Resumo e tradução por Guy Gabriel de Ridder


[1] Act 9,3; 22,6

[2] Agos Serm 175, c.6

[3] De Benedict.Patriarch.c.ult.

[4] Act.hom.16,p.181; S.Aug. in Sl 30

[5] At 9,5-6

[6] De Trinit. 1,3

[7] Serm. 276, « et alii plures » ; Calmet, Comm.

[8] A. Calmet 1672 – 1757, abade de Senones, destacado exegeta francês, escreveu uma “História do Antigo e Novo Testamento”.

[9] Serm.278, c.1

[10] At 26, 16-19

[11] Act. hom. XIX, PP 81-82

[12] At. 26, 18

São José, Esposo da Santíssima Virgem: alguns dados pouco conhecidos

Pai adotivo de Jesus Cristo, testemunho dos prodígios da Encarnação, homem justo, inteiramente dedicado ao serviço de Jesus e de sua santa Mãe, declarado Padroeiro da Igreja universal pelo Papa Pio IX.

S. José, filho de Jacó (Mt I, 15,16), neto de Matã, partícipe do sangue de David e, por conseguinte, descendente em linha direta dos maiores reis de Judá e dos mais ilustres entre os antigos Patriarcas; deve sua principal glória a suas virtudes e à sua qualidade de esposo da Santíssima Virgem.

Diz-nos a Escritura que S. José era homem justo, sendo este o maior elogio que se pode fazer de sua virtude, já que a justiça compreende todas as virtudes. Desposou a Santíssima Virgem, da qual bem sabia ter tomado a resolução de manter a virgindade, estando ele também, por conseguinte, na mesma disposição.

Residia ordinariamente em Nazaré, sobretudo a partir de seu casamento. Autores há que pensam ter ele se fixado anteriormente em Belém e Cafarnaum. Vivia do trabalho de suas mãos, pois que era artesão; é o que S. Mateus refere por faber.

São José foi fiel em corresponder aos desígnios do Padre Eterno, que o tinha encarregado conjuntamente da manutenção do Verbo feito carne e de guardar sua bem-aventurada mãe.

É o que levou São Bernardo a dizer[1]:

“Eis o servo fiel e prudente que Nosso Senhor estabeleceu para sua família, para ser o sustento e a consolação de sua mãe, seu pai provedor e seu digno cooperador na execução de seus desígnios misericordiosos na terra.

“Que felicidade para ele poder ver não somente Jesus Cristo, mas ainda ouvi-lo, tê-lo nos braços, levá-lo de um lugar a outro, acariciá-lo, abraçá-lo, nutri-lo, ser admitido a participar de seus admiráveis segredos, mantidos ocultos ao mundo!”

“Ó prodígio de elevação! Ó dignidade incomparável − exclama o piedoso Gerson[2], dirigindo-se a São José − a Mãe de Deus, a Rainha do Céu vos chama de seu Senhor; o Verbo Eterno vos chama seu pai e vos obedece. Ó Jesus! Ó Maria! Ó José! que formais na terra uma gloriosa trindade, na qual a Augusta Trindade do céu põe todas as suas complacências! O que podemos imaginar aqui embaixo de tão grande, tão bom, tão excelente!?”

É de se crer que São José tenha morrido antes do início da vida pública do Salvador. Não está presente nem nas bodas de Canaã, nem em outras circunstâncias da predicação de Jesus. Além do mais, na cruz, o Divino Salvador recomenda sua Mãe a S. João, o que não teria feito sem dúvida se ele estivesse vivo. Não é possível duvidar que o Santo Patriarca tenha tido a felicidade de expirar nos braços de Jesus e Maria. É por esta razão que São José é invocado para obter a graça de uma boa morte, além da presença espiritual de Jesus nesta hora decisiva da eternidade.

Diz-se que seu túmulo está no vale de Josafá, ao pé do Monte das Oliveiras[3], mas os Antigos não tratam disso. Não se mostram relíquias de seu corpo em lugar algum, mas tão somente alguns de seus móveis, e seu anel nupcial, que se julga existir em Pozzuoli, Nápoles, na Itália.

Além do mais, está guardado até hoje um “cinto de São José” na igreja de Notre-Dame de Joinville[4] trazido do Oriente pelo Rei São Luis e pelo senhor de Joinville, cuja descrição é a seguinte: “o cinto consiste num tecido de fio ou de cânhamo, bastante grosso e de cor acinzentado; tem um metro de comprimento e 35 a 45 milímetros de largura; uma fivela de marfim está presa na extremidade. Uma inscrição em latim informa ‘esta cinta é aquela com a qual se cingia José, esposo de Maria’”.

Quanto ao relicário que a continha, do século XIII, era de vermeil e, outrora incrustado de ricas pedrarias, expropriadas pela Revolução Francesa.

Seu nome está inscrito a 19 de março desde os mais antigos martirológios, embora sua festa se tenha iniciado a celebrar um tanto tardiamente.

A devoção particular tida por Santa Teresa muito contribuiu para aumentar a solenidade de seu culto. O assunto é abordado por ela no 6º capítulo de sua vida:

“Escolhi o glorioso São José como meu padroeiro e recomendo-me a ele em todas as ocasiões. Não me lembro de ter pedido alguma coisa a Deus por meio dele e de não ter sido atendida. Nunca conheci alguém que o invocasse e que não fizesse notáveis progressos na virtude. Sua credibilidade junto a Deus é de uma eficácia maravilhosa para todos aqueles que se dirigem a ele com confiança.”

São Francisco de Sales dedica uma de suas entrevistas espirituais (19ª) em recomendar a devoção a São José e a louvar suas virtudes, sobretudo sua castidade, sua humildade, sua constância e sua coragem.

Foi este santo objeto de uma infinitude de elogios da parte dos Santos Padres. Seus milagres são muito numerosos.

(Fonte: Les hommes illustres de la primitive Église ou Les hèbreux & les gentils qui furent les témoins immediats de Jésus-Christ et des Apôtres par l’Abbé Stéphane Maistre Paris : F. Wattelier et cie. libraires, 1874, pp. 46-53)

Tradução de Guy Gabriel de Ridder


[1] S. Bern., Sermo 2 super missus est. nº 16, p. 742

[2] Serm. de Nativit.

[3] Perto do sepulcro do santo ancião Simeão. Cfr. legitur apud Bedam “de locis Sanctis”, t. 6

[4] Joinville, comuna do leste da Franca na região administrativa da Champanha-Ardenas, no departamento de Haute-Marne.

São João Maria Vianney: a sabedoria de um “ignorante”

“Porque pregas de modo tão simplório? Fazes papel de ignorante. Por que não pregas a lo grande como nas cidades? Ah! Como me deleito com estes grandes sermões que não incomodam a ninguém, que deixam as pessoas viverem à seu modo, fazendo o que querem!”[1]. Este foi o elogio que recebeu São João Maria Vianney de uma possessa. Com efeito, sem se incomodar por isto, este santo era tido, por muitos, como sendo ignorante e falho de inteligência; entretanto, mal sabiam os doutos de sua época que em realidade este varão foi um grande sábio, uma vez que entendia tudo pelas causas altíssimas, ou seja, pela visão de Deus.

De fato, nestes tempos, a etiqueta consistia em fazer sermões baseados em Chateaubriand ou em Lacordaire, tentar imitar a Bossuet, enfim, primar mais por floreios retóricos e por um estilo academista, do que tentar atingir o fundo da alma dos fiéis e convertê-los.

Deus, porém jamais abandona seu povo. Assim, neste período de progresso científico, que foi o século XIX, em plena Revolução Industrial, quando a humanidade esperava tudo das máquinas e do desenvolvimento científico, a Sabedoria Divina suscita um varão que em sua simplicidade arrebata as almas, voltando seus olhos para a verdadeira realidade: o mundo sobrenatural, a ciência da Cruz.

Ao lermos um texto, ou ouvirmos um discurso, esperamos de nosso autor, que tenha mais do que simplesmente “dom”. O que realmente nos atrai é quando percebemos não só o dom, mas sua genialidade. Contudo, há algo ainda mais sublime do que a conjugação de dom e genialidade: é quando constatamos que nosso autor é inspirado. Com efeito, o que nos é mais leve e agradável de ler do que as Sagradas Escrituras? Entretanto, não é simples seu estilo?

O mesmo se dava com o Cura de Ars que, obtuso olhos do mundo, tornava-se sutil e penetrante com seus exemplos, e maravilhava seu auditório, convidando-o assim à sincera conversão: “Meus filhos, se vós vísseis um homem erigir uma grande fogueira, amontoar galhos uns sobre os outros, e que, perguntado-lhe o que está fazendo, ele vos responde: “Estou preparando o fogo que me deve queimar”, o que pensaríeis? E se vísseis este mesmo homem aproximar uma chama dos galhos, e, quando acesa a fogueira, se jogar dentro… o que diríeis? Cometendo o pecado é assim que nós procedemos. Não é Deus que nos precipita nos inferno, somos nós que nos jogamos…”

Não é de se reconhecer nisto uma profunda sabedoria? Não são palavras penetrantes e inspiradas? Não demonstra este santo um grande conhecimento de Deus? Com efeito, o grande Santo Tomás de Aquino – que por um certo prisma estaria no oposto de nosso Cura de Ars – nos define: “Sábio se chama, em cada gênero, quem conhece a causa altíssima desse gênero pela qual pode julgar tudo o mais. Sábio, absolutamente falando, é aquele que conhece a causa altíssima absoluta, isto é, Deus. Por isso, o conhecimento das coisas divinas chama-se sabedoria. O conhecimento, porém, das coisas humanas chama-se ciência.”[2] Tal definição é a própria imagem deste humilde pároco de Ars.

Dentre seus diversos dons, São João Maria Vianney era propriamente um diretor espiritual. Dotado de um profundo discernimento dos espíritos sabia ele como “dar a volta” nas consciências mais endurecidas. Deste aspecto de direção espiritual, diz-nos o Catecismo da Igreja Católica (2690): “O Espírito Santo dá a certos fiéis dons de sabedoria, de fé e de discernimento em vista do bem comum que é a oração (direção espiritual). Aqueles e aquelas que têm esses dons são verdadeiros servidores da tradição viva da oração.” Bem nos ilustra este caso de um pobre penitente impregnado pelo espírito de sua época:

Certo dia, o Cura de Ars vê entrar em sua sacristia um personagem elegante que, aproximando-se dele, se apressa em dizer:

“Senhor padre, não venho de modo algum me confessar. Vim para argumentar convosco.

– Ah! meu caro amigo, vós vos expressais bem mal, responde o Senhor Vianney, eu não sei argumentar… Mas se vós precisais de alguma consolação, coloque-se ali…”

E o Cura de Ars designa o lugar onde habitualmente se ajoelham seus penitentes, acrescentando: “Credes que muitos outros se ajoelharam antes de vós e não se arrependeram…

-Mas, senhor padre, já tive a honra de vos dizer que não vim para me confessar, e isto por uma razão que me parece simples e decisiva. E é que eu não tenho fé. Assim como não acredito na confissão, não acredito em todo o resto.

– Meu amigo, vós não tendes fé? Ah! como eu vos lastimo! Uma criancinha de oito anos sabe, com seu catecismo, mais do que vós. Eu me julgava bem ignorante, mas vós sois ainda mais do que eu, pois que vós ignorais as primeiras coisas que é preciso saber…”

O senhor Vianney continua a falar – e volta à sua ordem inflexível e doce:

“Coloque-se ali, e eu vou ouvir a vossa confissão.

– Senhor padre, responde o outro que começa a perder sua convicção, é uma comédia que vós me aconselhais a representar convosco! Peço-vos que considere que eu não vejo nenhuma graça. Não sou comediante…

– Coloque-se ali, estou dizendo!”

E o interlocutor se encontra de joelhos “sem desconfiar e quase apesar de si mesmo”. Ele se levantará alguns instantes mais tarde, não somente consolado, mas “perfeitamente crente” – tendo tomado, para ir à fé, um caminho curto e fulminante.[3]

Como o definiu o próprio santo de Ars: “Os que são conduzidos pelo Espírito Santo têm idéias certas. Eis porque há tantos ignorantes que sabem mais do que os sábios.”

Enfim, eis alguns traços de uma inteligência brilhante, pois posta em Deus, de um que se deixou levar pelo Espírito Santo, sem opor resistência. Mesmo se sua natureza não lhe ajudou, soube este santo, sendo fiel às graças, abeberar-se no manancial da Sabedoria Eterna. Muito nos ensina, sobre a sabedoria, o grande Cornélio à Lápide, retomando São Paulo:

“Escutai são Paulo escrevendo aos Coríntios: “Para mim, meus irmãos, quando vim vos anunciar o testemunho do Cristo, não vim na sublimidade dos discursos da sabedoria; pois não quis saber de outra coisa entre vós do que de Jesus Cristo, e de Jesus Cristo crucificado” […]. Aquele que o mundo cristão chama de grande Apóstolo merece certamente ser ouvido quando nos ensina em que consiste a verdadeira sabedoria; ora, ele a emprega toda inteira em conhecer a Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado… A ciência de Jesus Cristo e de sua cruz, eis a verdadeira sabedoria, e toda a sabedoria […].

“Aprender a sabedoria, é aprender a conhecer, a amar, a servir a Deus, a tender ao fim para o qual o homem foi criado e resgatado…

“A verdadeira sabedoria consiste em conhecer a Jesus Cristo, e o que ele faz por nós… Ela consiste em conhecer a lei de Deus, a religião, a praticá-la; a praticar a virtude, a fugir do vício. Aí está toda a sabedoria…; fora disto está a loucura…”[4]

Enfim, podemos concluir, com o catecismo que, belamente, nos ensina:

“A Sabedoria é um eflúvio do poder de Deus, emanação puríssima da glória do Todo-Poderoso; por isso nada de impuro pode nela insinuar-se. É reflexo da luz eterna, espelho nítido da atividade de Deus e imagem de sua bondade (Sb 7,25-26). A sabedoria é mais bela que o sol, supera todas as constelações. Comparada à luz do dia, sai ganhando, pois a luz cede lugar à noite, ao passo que, sobre a Sabedoria o mal não prevalece (Sb 7,29-30). Enamorei-me de sua formosura (Sb 8,2).” (2500)

Diác. Michel Six, EP


[1] Cf. SAINT PIERRE, 1963, p 192.

[2] II-II Q. 9, a. 2.

[3] Cf. SAINT PIERRE, 1963, p. 254-256.

[4] BARBIER, 1885, p.329 e 331.

São Maximiliano Maria Kolbe, o mártir da caridade

1. Infância

Raimundo Kolbe nasceu a 8 de janeiro de 1894, em Zdunska Wola, na Polônia, de família pobre que lhe proporcionou pouco conforto material, mas profundamente religiosa, que lhe ofereceu um profundo espírito católico e de aderência à vontade de Deus.

Ainda quando menino, possuía um defeito muito definido: gostava demasiado de brincar. Era muito vivo e alegre. Sua mãe insistia que ele chegasse num determinado horário em casa, mas ele a desobedecia com freqüência, ultrapassando esse limite de tempo. A mãe, sumamente religiosa e perspicaz, deu-se conta da futura gravidade que poderia adquirir esse pequeno defeito.

Certo dia, quando ele tinha 10 anos, chegou especialmente atrasado em casa, devido a brincadeiras com seus amigos. A sua genitora decidiu chamar-lhe a atenção. De modo firme, porém com carinho, mostrou-se desgostosa com ele, e no final perguntou-lhe: “Meu pequeno, o que vai ser de você?” Ele nada disse, e retirou-se.

 2. Aparição de Nossa Senhora

A família de São Maximiliano possuía um pequeno altar no qual, após a repreensão, ele ficou horas rezando e chorando diante deste altar, o que deixou a sua mãe preocupada.

Um dia ela foi perguntar o que tinha acontecido com ele, dizendo que para sua mãe devia contar tudo. Com lágrimas nos olhos ele contou o que lhe tinha acontecido.

Ele revelou que após o “puxão de orelhas” de sua mãe, quando ela perguntou a ele o que seria dele, rezou muito a Nossa Senhora para Ela dizer o que seria dele. Em seguida, indo à igreja, rezou novamente. Então Nossa Senhora apareceu a Raimundo tendo nas mãos duas coroas, uma branca e outra vermelha. Olhava-o com afeto, e perguntou qual das duas ele queria. A branca significava que perseveraria na prática da pureza; a vermelha, que seria mártir. Respondeu que queria as duas. Então a Virgem o olhou docemente e desapareceu.

 3. Vida apostólica

Aos 13 anos, entrou no seminário dos Frades Menores Conventuais e recebeu o nome de Maximiliano Maria. Concluindo os estudos preliminares, foi enviado a Roma para obter doutorado em filosofia e teologia.

Em 1917, movido por um incondicional amor a Maria, fundou o movimento de apostolado mariano com o nome de “Milícia da Imaculada”. A milícia seria uma ferramenta nas mãos de Nossa Senhora para a conversão e santificação de muitos. No ano seguinte foi ordenado sacerdote e enviado de volta à Polônia, onde foi mandado lecionar num seminário franciscano em Cracóvia, onde organizou o primeiro grupo da “Milícia da Imaculada” fora da Itália.

Recebendo a permissão de seus superiores para dedicar-se mais à promoção de seu apostolado mariano e desejoso de que muitas almas conhecessem a Deus e amassem sua Mãe, começou a evangelizar através da imprensa escrita. Em 1922, mesmo sem dispor de recursos financeiros, fundou uma revista mensal intitulada “Cavaleiro da Imaculada”, que poucos anos depois chegava à elevada tiragem de um milhão de exemplares. A esta revista seguiram-se outras iniciativas editoriais: uma revista para crianças, “Pequeno Cavaleiro da Imaculada”; uma revista latina para sacerdotes, “Miles Immaculatae”, e um diário que chamou de “Pequeno Jornal”, com 200 mil exemplares. O apostolado da imprensa era seu carisma.

São Maximiliano em 1937 com o hábito franciscano

Em 1929 fundou um convento, que era local para trabalhos dos franciscanos e de oração chamado “Niepokalanow”, que significa cidade de Maria. Dois anos depois foi para o Japão, a pedido do Santo Padre, onde fundou outra cidade da Imaculada, e criou ali uma revista com o nome de “Cavaleiro da Imaculada.” Chegou a instalar uma emissora de rádio e a estender suas atividades apostólicas: entre 1930 e 1936 foi missionário em Nagasaki.  Ele desejava ir à Índia, mas teve que voltar a Polônia como diretor espiritual de “Niepokalanow” em 1936.

No dia 1º de setembro de 1939, as tropas alemãs tomaram a Polônia de surpresa, destruindo qualquer resistência. Os frades foram dispersos e Niepokalanow foi saqueada. Frei Maximiliano e cerca de 40 outros frades foram levados para os campos de concentração, mas acabaram sendo libertados na celebração da Imaculada Conceição do mesmo ano. Em 17 de Fevereiro de 1941 frei Maximiliano é novamente preso pelas tropas alemãs e transferido para Auschwitz em 25 de Maio como prisioneiro de número 16670.

Em resposta ao ódio dos guardas do campo de concentração, Frei Maximiliano era obediente e sempre pronto a perdoar. E aconselhava os colegas prisioneiros a confiar na Imaculada, a perdoar, a amar os inimigos e orar pelos perseguidores. Era notado pela generosidade em dar o seu alimento aos outros, apesar dos prejuízos da desnutrição que sofria, e por ir sempre ao fim da fila da enfermaria, apesar da tuberculose aguda que o afligia.

4. Martírio

Na noite de 3 de agosto um dos prisioneiros que estava na mesma seção de São Maximiliano conseguiu fugir do campo de concentração e, em represália ao acontecimento, o comandante das tropas ordenou a morte por inanição de dez prisioneiros desta seção. Estes foram escolhidos aleatoriamente. Dentre os escolhidos havia um general que lamentava por nunca mais ver sua esposa e seus filhos, ao que São Maximiliano se ofereceu como vítima em seu lugar. O comandante aceitou.

Os 10 prisioneiros, despidos, foram empurrados numa pequena, úmida e totalmente escura sala dos subterrâneos, para morrer de fome. Durante 10 dias Frei Maximiliano conduziu os outros prisioneiros com cânticos e orações, e os consolou um a um na hora da morte. Após esses dias, como ainda estava vivo, recebeu uma injeção letal e subiu ao Paraíso. Era o dia 14 de agosto de 1941.

O corpo de São Maximiliano Maria Kolbe foi cremado e suas cinzas atiradas ao vento. Numa carta, quase prevendo seu fim, escrevera: “Quero ser reduzido a pó pela Imaculada e espalhado pelo vento do mundo”.

5. Glorificação

Ao final da Guerra, começou um movimento pela beatificação do Frei Maximiliano Maria Kolbe, que ocorreu em 17 de outubro de 1971, pelo Papa Paulo VI.

Em 1982, na presença de Franciszek Gajowniczek, o general pelo qual São Maximiliano ofereceu sua vida, e que sobreviveu aos horrores de Auschwitz, São Maximiliano foi canonizado pelo Papa João Paulo II, como mártir da caridade.

Santa Josefina Bakhita: A Estrela que ilumina o caminho que conduz à verdadeira liberdade

Podemos encontrar uma verdadeira estrela que despontou, resplandecendo no meio das trevas do paganismo e da escravidão! Bakhita nasceu no Sudão, região de Darfur na África, no ano de 1869, e através de suas poucas informações sabemos que sua aldeia natal é Olgossa, cuja pronúncia é “algoz”, que em árabe significa “Dunas de Areia”. De família abastada, seu pai possuía terras, plantações e gado; ele era irmão do chefe da aldeia. Sua família era composta pelos pais e sete filhos, sendo muito unidos e afeiçoados. Muito embora a descrição dessa aurora da Bakhita deixa entrever um céu límpido, não tardará em ser coberto por nuvens de tribulações, como veremos adiante.

Os dois gigantes opressores: “ O paganismo e a escravidão”

Sabemos que a verdadeira paz só se encontra em Deus. Embora a família da Bakhita tivesse uma conduta moralmente irrepreensível, de acordo com a lei natural, infelizmente os seus contemporâneos ainda não tinham sido beneficiados pelas benção da Igreja e da fé.

Vejamos o contexto histórico da época: em 1821 Mohamed Ali envia dois exércitos para conquistarem o Sudão. O objetivo político era de instaurar uma dinastia própria na região, e os objetivos práticos eram de saquear riquezas e capturar escravos a serem vendidos no mercado.

No ano de 1874, a irmã mais velha da Bakhita foi raptada. A dor dilacerou o coração daquela família tão unida e feliz. “Bakhita,” não foi o nome que recebera dos pais quando nasceu: no ano de 1876.  Com mais ou menos 7 anos de idade, foi raptada e arrancada do seio de sua família. A pequena menina tomada de pavor, foi levada brutalmente por dois árabes e foram eles que impuseram o nome de “Bakhita”, que significa: “afortunada”.

A pequena escrava, depois de um mês de prisão, foi vendida a um mercador de escravos. Na ânsia de voltar para casa, Bakhita se arma de coragem e tenta fugir. Porém, foi capturada por um pastor e revendida a outro árabe, homem feroz e cruel, que, por sua vez, revendeu-a a outro mercador de escravos. Novamente ela é vendida a um general turco, cuja esposa era uma mulher terrivelmente má. Desejou marcar suas escravas e Bakhita estava entre elas. Chamou então um tatuador que, com uma navalha, ia marcando os corpos das meninas que se contorciam de dores, mergulhadas numa poça de sangue. Bakhita recebeu no peito, no ventre e nos braços 114 cortes de navalha que eram esfregados com sal para que as marcas ficassem bem abertas. As jovens escravas foram jogadas sem tratamento e nenhum cuidado, durante um mês.

No ano de 1882, o general turco vendeu Bakhita ao agente consular Calisto Legnani que seria, para ela, seu anjo bom. Na casa do cônsul, Bakhita conheceu a serenidade, o afeto e os momentos de alegria, lembranças dos momentos felizes na casa dos pais. Em 1885 o Sr. Calisto é obrigado a retornar à Itália; Bakhita pede para acompanhá-lo e obtêm consentimento. E assim partiram em companhia de um amigo, o Sr. Augusto Michieli, a quem o cônsul presentearia em Gênova com a jovem africana.

Chegando na Itália com seu 7º “patrão”, o rico comerciante Michieli, foi para vila Zianino de Mirano Veneto onde Bakhita se tornou babá de Mimina, a filhinha do casal. Apesar de serem pessoas boas e honestas, não eram praticantes da religião. Como sempre, Deus tem suas vias e acabou colocando no caminho de Bakhita, o administrador dos Michieli, Iluminato Chechini. Iluminato era um homem muito religioso e logo se preocupou com a formação religiosa de Bakhita; e ao dar um crucifixo a ela, disse em seu coração: “Jesus, eu a confio a Ti”. Quando os Michieli tiveram de voltar para Suakin, na África, por motivos de negócios, Bakhita e a pequena Mimina ficaram aos cuidados das Irmãs Canossianas, em Veneza, e isto graças ao Sr. Iluminato.

Bakhita iniciou o catecumenato (catequese para receber os sacramentos iniciais), no Instituto das Irmãs. Ao final de nove meses, a Sra. Maria Turina voltou à Itália para buscar sua filhinha Mimina e aquela que considerava sua escrava, pois retornariam à África. Naquele instante, Bakhita já toda apaixonada por Jesus, prestes a receber os sacramentos, recusa-se a voltar para a África, apesar do afeto que nutria pela família Michieli e principalmente pela pequena. Sentia em seu coração um desejo inexplicável de abraçar a fé e vivê-la para sempre. Apesar dos apelos e até ameaças da Sra. Michieli, nossa jovem africana não cedeu em sua resolução. Bakhita estava livre, na Itália não havia escravidão. Sua patroa retornou à África com sua filha e Bakhita prosseguiu com sua catequese, feliz mesmo sabendo que seria a última chance de rever seus familiares na África.

No dia 09 de janeiro de 1890, Bakhita é batizada, crismada e recebe a Primeira Comunhão das mãos do Patriarca de Veneza. No batismo recebe o nome de Josefina Margarida Bakhita. Ela descreverá este dia como mais feliz de sua vida: sentir-se filha de Deus era-lhe uma emoção inigualável, assim como receber Jesus na Eucaristia. Bakhita nutria em seu coração o sublime desejo de se tornar religiosa: “uma Irmã Canossiana”. Foi então aceita na congregação das Filhas da Caridade Canossianas, servas dos pobres e, depois de três anos de noviciado, no dia 08 de dezembro de 1896 pronunciou os votos de: Castidade Pobreza e Obediência. Depois da profissão religiosa, nossa Irmã Bakhita foi transferida para a cidade de Schio, em outra obra da Congregação, e lá permaneceu por 45 anos, onde passou a ser conhecida como a “Madre Morena”. Irmã Bakhita era atenciosa com todos, sem distinção, desde as crianças do colégio, seus pais, sacerdotes, com suas irmãs religiosas, sempre levando a todos palavras de conforto, consolo e amor incondicional a Deus Pai. Em todas as funções que exerceu, sempre colocou seu coração doce e sincero: na Igreja, na Sacristia, na portaria ou na cozinha, era tudo para todos, com seu sorriso de anjo.

Irmã Bakhita, em sua infância na África, mesmo sem saber nada de Deus, pensava em seu coração inocente e puro, quando olhava a lua e as estrelas: “Quem será o patrão de todas estas coisas?”. Oh! Bakhita, Deus já estava te preparando para Ele! Bakhita sonhava com a conversão do povo africano e, no dia de sua profissão religiosa, rezou: “Ó Senhor, se eu pudesse voar lá longe, entre a minha gente e proclamar a todos, em voz alta, a tua bondade. Oh! Quantas almas eu poderia conquistar para Ti! Entre os primeiros, a minha mãe e o meu pai, os meus irmãos, a minha irmã ainda escrava… e todos, todos os pobres negros da África. Faça,  ó Jesus, que também eles te conheçam e te amem!”.

No ano de 1947 Bakhita adoeceu, já quase sem forças, em cadeira de rodas, passava horas em oração, em adoração e contemplação. Era o dia 08 de fevereiro de 1947, nossa Irmã Morena balbuciava: “Como estou contente! Nossa Senhora! Nossa Senhora!”. Depois de algum tempo, em seus últimos momentos, disse: “Vou devagarinho para a eternidade… Vou com duas malas: uma contém os meus pecados; a outra, bem mais pesada, contém os méritos infinitos de Jesus Cristo. Quando eu comparecer diante do Tribunal de Deus, cobrirei a minha mala feia com os méritos de Nossa Senhora. Depois abrirei a outra e apresentarei os méritos de Jesus Cristo. Direi ao Pai: ‘Agora julgai o que vedes’. Estou segura de que não serei rejeitada! Então me voltarei para São Pedro e lhe direi: ‘Pode fechar a porta porque eu fico!” Às 20 horas, irmã Bakhita entrega sua alma a Deus. O povo em grande multidão quer dar o último adeus à Madre Morena, sua fama de santidade se espalhou rapidamente e todos recorriam ao seu túmulo pedindo sua intercessão. Em 17 de maio de 1992 foi beatificada e, no dia 1 de outubro de 2000, foi elevada à honra dos altares, declarada “Santa” pelo Santo Padre, o Papa João Paulo II, sendo que o milagre que a levou a ser reconhecida como Santa, aconteceu em Santos, no Brasil. Santa Bakhita deve sempre inspirar sentimentos de confiança na Providência, doçura para com todos e alegria em servir.

Por Alessandro Scherma Schurig

Festa de São José Operário – A Missão excepcional de José


R. Garrigou-Lagrange

px 4 2dayCoube a São João Batista a missão de anunciar a vinda imediata do Messias. Pode-se pois dizer que ele foi o maior dos precursores de Jesus no Antigo Testamento. É assim que Santo Tomás entende a palavra de Jesus em São Mateus (11, 11): “Em verdade, vos digo, entre os nascidos de mulheres não surgiu alguém maior do que João Batista“.

Mas, logo a seguir, acrescenta Nosso Senhor: “Entretanto, o menor no reino dos céus é maior que ele“. O reino dos céus é a Igreja da terra e do céu: é o Novo Testamento, mais perfeito como estado do que o Antigo, embora certos justos do Antigo tenham sido mais santos que muitos do Novo. E quem na Igreja é o menor? Estas são palavras misteriosas que têm sido diversamente interpretadas. Fazem pensar nestas outras pronunciadas mais tarde por Jesus: “Aquele que dentre vós for o menor este é o maior” (Lc 9, 48). O menor, quer dizer o mais humilde, o servidor de todos; é, pela conexão e proporção das virtudes, o que tem mais alta caridade. Quem na Igreja é o mais humilde? Sem dúvida, é aquele que não foi nem Apóstolo, nem Evangelista, nem mártir (pelo menos exteriormente), nem pontífice, nem padre, nem doutor, mas que conheceu e amou o Cristo Jesus não menos por certo que os apóstolos, os evangelistas, os mártires, os pontífices e os doutores: é o humilde operário de Nazareth, o humilde José.

Os Apóstolos foram incubidos de fazer com que os homens conhecessem o Salvador, para pregar-lhes o Evangelho a fim de salvá-los. Sua missão, como a de São João Batista, é da ordem da graça necessária a todos para a salvação. Mas há uma ordem ainda superior à da graça. É aquela que é constituída pelo próprio mistério da Encarnação, ou seja, a ordem da união hipostática ou pessoal da Humanidade de Jesus com o próprio Verbo de Deus. A esta ordem superior se prende a missão singular de Maria, a maternidade divina e também, de certa forma, a missão oculta de José. Este assunto foi exposto de diversas maneiras por São Bernardo, São Bernardino de Siena, o dominicano Isidoro de Isolanis, Suarez e muitos autores recentes.

another pic 4 2dayBossuet diz admiravelmente no seu primeiro panegírico desse grande santo: “Dentre todas as vocações noto duas, nas Escrituras, que parecem diametralmente opostas: uma é a dos Apóstolos; a segunda, a de José. Jesus é revelado aos Apóstolos para que o anunciem por todo o universo; e é revelado a José para que silencie e o esconda. Os Apóstolos são luzeiros para mostrarem Jesus ao mundo inteiro. José é um véu para encobri-lo; e sob esse véu misterioso oculta-se-nos a virgindade de Maria e a grandeza do Salvador das almas. Aquele que glorifica os Apóstolos concedendo-lhes a honra da pregação, glorifica José pela humildade do silêncio”. A hora da manifestação do mistério do Natal ainda não era chegada, essa hora deveria ser preparada por trinta anos de vida oculta.

A perfeição consiste em cumprir a vontade de Deus, cada um segundo sua vocação. Mas a vocação toda excepcional de José supera por certo, no silêncio e na obscuridade, a dos maiores Apóstolos: pois ela se relaciona mais de perto com o mistério da Encarnação redentora. José, depois de Maria, esteve mais próximo que ninguém do próprio Autor da graça. Assim pois, no silêncio de Belém, durante a estadia no Egito e na pequena casa de Nazaré ele terá recebido mais graças que jamais a qualquer outro santo seria dado receber.

Qual a missão especial de José com relação a Maria?

Consistiu ela sobretudo em preservar a virgindade e a honra de Maria, contraindo com a futura Mãe de Deus um verdadeiro matrimônio, mas absolutamente santo. Conforme relata o Evangelho de São Mateus (1, 20): “O anjo do Senhor, que apareceu em sonho a José lhe diz: “José, filho de Daví, não temas receber Maria como tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo”. Maria é perfeitamente sua esposa. Trata-se de um matrimônio verdadeiro (cf. Santo Tomás, III, q. 29, a. 2), mas inteiramente celeste e que devia ter fecundidade inteiramente divina. A plenitude inicial de graça dada à Virgem em vista da maternidade divina fazia apelo em certo sentido ao mistério da Encarnação. Conforme diz Bossuet: “A virgindade de Maria atraiu Jesus do céu… Se sua pureza a tornou fecunda, não hesitarei, no entanto, em afirmar que José teve sua parte nesse grande milagre. Pois tal pureza angélica, apanágio da divina Maria, foi também o desvelo do justo José”.

Era a união sem mácula e inteiramente respeitosa com a criatura mais perfeita que jamais existira, em ambiente extremamente simples, qual o de um pobre artesão de aldeia. Assim, José se aproximou mais intimamente do que qualquer outro santo daquela que é a Mãe de Deus, daquela que é também a Mãe espiritual de todos os homens e dele próprio José, daquela que é Co-Redentora, Mediadora universal, dispensadora de todas as graças. Por todos esses títulos José amou Maria com o mais puro e devotado amor; era de certo um amor teologal, porquanto ele amava a Virgem em Deus e por Deus, por toda a glória que ela dava a Deus. A beleza de todo o universo nada era em face da sublime união dessas duas almas, união criada pelo Altíssimo, que encantava os anjos e ao próprio Senhor enchia de júbilo.

Qual foi a missão excepcional de José perante o Senhor?

Em verdade, o Verbo de Deus feito carne foi confiado a ele, José, de preferência a qualquer outro justo dentre os homens de todas as gerações. O santo velho Simeão teve o menino Jesus em seus braços por alguns instantes e viu nele a salvação dos povos ― “lumen ad revelationem gentium” ― mas José velou todas as horas, noite e dia, sobre a infância de Nosso Senhor. Muitas vezes teve em suas mãos aquele em quem via seu Criador e Salvador. Recebeu dele graças sobre graças durante os vários anos em que viveu com ele na maior intimidade do dia-a-dia. Viu-o crescer. Contribuiu para sua educação humana. Jesus lhe foi submisso. É comumente chamado de “pai nutrício do Salvador”; porém em certo sentido foi mais que isso, pois como nota Santo Tomás é acidentalmente que após o casamento um homem se vem a tornar “pai nutrício” ou “pai adotivo”, enquanto que não foi absolutamente de forma acidental que José ficou encarregado de zelar por Jesus. Ele foi criado e posto no mundo precisamente para tal fim. Esta foi a sua predestinação. Foi em vista de tal missão divina que a Providência lhe concedeu todas as graças recebidas desde a infância: graça de piedade profunda, de virgindade, de prudência, de fidelidade perfeita. Sobretudo, nos desígnios eternos de Deus, toda a razão de ser da união de José com Maria era a proteção e a educação do Salvador; Deus lhe deu um coração de pai para velar pelo menino Jesus. Esta a missão principal de José, em vista da qual ele recebeu uma santidade proporcionada a seu papel no mistério da Encarnação, mistério que domina a ordem da graça e cujas perspectivas são infinitas.

Este último ponto foi bem esclarecido por Mons. Sinibaldi em sua recente obra La Grandeza di San Giuseppe, p. 33-36, na qual mostra que São José foi predestinado desde toda a eternidade para tornar-se o esposo da Virgem Santíssima e explica, com Santo Tomás, a tríplice conveniência dessa predestinação.

O Doutor Angélico a demonstrou ao indagar (III q. 29, a. 1) se o Cristo deveria nascer de uma virgem que tivesse contraído um verdadeiro casamento. E concluiu que devia ser assim, tanto para o próprio Cristo, como para sua Mãe, e também para nós.

Isso convinha grandemente ao próprio Nosso Senhor para que ele não fosse considerado, até que chegasse a hora da manifestação do mistério do seu nascimento, como um filho ilegítimo, e também para que ele fosse protegido em sua infância. Para a Virgem não era menos conveniente, a fim de que ela não fosse considerada culpada de adultério e como tal viesse a ser lapidada pelos judeus, conforme notou São Jerônimo, e ainda para que ela própria fosse protegida em meio às dificuldades e à perseguição que iria começar com o nascimento do Salvador. Foi outrossim, acrescenta Santo Tomás, muito conveniente para nós, porquanto pelo testemunho insuspeito de São José tomamos conhecimento da concepção virginal do Cristo: segundo a ordem das coisas humanas, representou para nós esse testemunho um admirável apoio ao de Maria. Enfim, era soberanamente conveniente para que nós encontrássemos em Maria ao mesmo tempo o perfeito modelo das virgens como das esposas e mães cristãs.

Explica-se assim, segundo muitos autores, que o decreto eterno da Encarnação ― estabelecendo a maneira como hic et nunc esse fato se devia realizar e em quais circunstâncias determinadas ― envolva não somente Jesus e Maria mas também José. Desde toda eternidade, com efeito, estava decidido que o Verbo de Deus feito carne nasceria milagrosamente de Maria sempre virgem, unida ao justo José pelos laços de um matrimônio verdadeiro. A execução desse decreto providencial é assim referida em São Lucas (1, 27): “Missus est Angelus Gabriel a Deo, in civitatem Galileae, cui nomen Nazareth, ad virginem desponsatam viro, cui nomen erat Joseph, de domo David, et nomen virginis Maria“. [O Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão por nome José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria].

São Bernardo chama São José de “magni consilii coadjutorem fidelis simum” (coadjutor fidelíssimo do magno conselho”).

Por isso é que Mons. Sinibaldi, após Suarez e muitos outros, afirma, ibid., que o ministério de José é em certo sentido confinante, em seu nível, com a ordem hipostática. Não que José tenha cooperado intrinsecamente, como instrumento físico do Espírito Santo, para a realização do mistério da Encarnação, pois nesse acontecimento seu papel é muito inferior ao de Maria, Mãe de Deus; entretanto, ele foi predestinado para ser, na ordem das causas morais, o guardião da virgindade e da honra de Maria, ao mesmo tempo que o protetor de Jesus menino. É preciso precaver-se aqui contra certos exageros que falseariam a expressão desse grande mistério; o culto devido a São José não vai além especificamente do de dulia prestado aos outros santos, mas tudo faz pensar que ele merece receber, mais do que todos os outros santos, esse culto de dulia. Por isso é que a Igreja, em suas orações menciona o nome de José imediatamente após o de Maria e antes do dos Apóstolos na oração A cunctis (a todos nós…), por meio da qual se implora a proteção de todos os Santos. Se São José não é mencionado no Canon da missa, há todavia para ele um prefácio especial e o mês de março lhe é consagrado.

Num discurso pronunciado na Sala Consistorial no dia da festa de São José, em 19 de março de 1928, S.S. Pio XI comparava nestes termos a vocação de São José com a de São João Batista e com a de São Pedro: “Fato sugestivo é ver-se sugirem, bem vizinhas e brilharem quase contemporâneas, certas figuras tão magníficas. Primeiro, São João Batista que se ergue no deserto com sua voz, ora grave ora suave, como leão que ruge e como o amigo do Esposo, que se rejubila pela glória do Esposo, para afinal oferecer à face do mundo a maravilhosa glória do martírio. Depois, Pedro que ouve do divino Mestre estas sublimes palavras, pronunciadas também elas à face do mundo e dos séculos: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja; ide e pregai ao mundo inteiro”, missão grandiosa, divinamente resplandecente. Entre essas duas missões aparece a de São José: missão recolhida, calada, quase despercebida, que não se evidenciaria senão alguns séculos mais tarde; um silêncio ao qual sucederia, mas muito tempo depois, um sonoro canto de glória. Pois, onde mais profundo o mistério, mais espesso o véu que o encobre, e maior o silêncio, é justamente ai que mais alta é a missão, como mais brilhante o cortejo das virtudes exigidas e dos méritos requeridos para, por feliz necessidade, com elas se conjugarem. Missão única, muito alta, a de guardar o Filho de Deus, o Rei do mundo, e de guardar a virgindade e a santidade de Maria; missão única, a de ter participação no grande mistério ocultado aos olhos dos séculos, e de assim cooperar na Encarnação e na Redenção! Toda a santidade de José consiste precisamente no cumprimento, fiel até o escrúpulo, dessa missão tão grande e tão humilde, tão alta e tão escondida, tão esplêndida e tão envolta em trevas”.

(Trecho de “Les trois ages de la vie interieure”, trad. Permanência. publicado em Revista Permanência, Junho de 77)

São Turíbio de Mogrovejo: Há 400 anos na glória celeste


Ir. Mariana Morazzani Arráiz

Na capital do Peru, a Igreja está celebrando o quarto centenário da subida ao Céu de um de seus mais ilustres filhos: São Turíbio de Mogrovejo, “protetor dos indígenas” e grande evangelizador da América espanhola.

Iniciaram-se as comemorações com a solene Eucaristia celebrada na Catedral de Lima pelo Cardeal-Arcebispo Juan Luis Cipriani Thorne, em 22 de janeiro, tendo como concelebrantes o Núncio Apostólico, Dom Rino Passigato, e todos os bispos peruanos.

De simples leigo a bispo, em poucas semanas

Turíbio nasceu de nobre família em Mayorga (Espanha), em 1538. Estudou Direito nas universidades de Coimbra e Salamanca. Tinha 40 anos e era Presidente do Tribunal de Granada quando, por indicação do Rei Felipe II, o Papa Gregório XIII o nomeou Arcebispo de Lima.

Apressadamente, quase que de um dia para o outro, elevou-se um simples leigo à dignidade de bispo da Santa Igreja. São assim as vias da Providência quando Ela decide realizar uma obra. Fez-se com o jurista Turíbio o mesmo que, pouco mais de mil anos antes, fora feito com o estadista Santo Ambrósio: em quatro domingos consecutivos, Turíbio recebeu as ordens menores; poucas semanas depois foi ordenado presbítero e, por fim, sagrado bispo.

O insigne jurista se faz catequista

São Turíbio de Mogrovejo chegou à sua arquidiocese em maio de 1581. De início teve de enfrentar a decadência espiritual dos espanhóis colonizadores, cujos abusos os sacerdotes não ousavam corrigir. O novo arcebispo atacou o mal pela raiz. Muitos dos culpados de intoleráveis vícios e escândalos tentavam justificar-se:

— Fazemos o que é costume fazer aqui…

— Mas Cristo é verdade, e não costume! — replicava ele.

Com energia e, sobretudo, com seu exemplo pessoal, pôs freio aos abusos, moralizou os costumes e promoveu a reforma do clero.

Em pouco tempo, o ex-jurista transformou-se num exímio catequista que evangelizava os indígenas com palavras simples mas ardorosas. Percorreu três vezes em visita pastoral todo o imenso território de sua arquidiocese, viajando incansavelmente milhares de quilômetros. Entrava nas cabanas miseráveis, procurava os indígenas fugidios, sorria-lhes paternalmente, falava-lhes com bondade em seus idiomas e os conquistava para Cristo.

Grandes atividades, intensa vida de piedade

As três visitas pastorais tomaram-lhe mais de dez dos seus vinte e cinco anos de episcopado!

Convocou e presidiu treze sínodos regionais de bispos. Regulamentou e aperfeiçoou a catequese dos indígenas, e fez imprimir para eles os primeiros livros editados na América do Sul: o Catecismo em espanhol, em quéchua e em aymara. Fundou cem novas paróquias em sua arquidiocese.

Tudo isso sem prejudicar em nada o ponto fundamental de todo apóstolo autêntico: sua própria vida espiritual. Chamou a atenção de todos os que conviveram com ele sua intensa vida de piedade, à qual dedicava diariamente muitas horas de oração e meditação.

Imensa alegria: “Irei à Casa do Senhor!”

Teve a inapreciável satisfação de converter milhares de indígenas e de crismar três santos: São Martinho de Porres, São Francisco Solano e Santa Rosa de Lima.

A morte o colheu no curso de sua última visita pastoral, numa pobre capela a quase 500 quilômetros de Lima. Sentindo aproximar-se a hora extrema, recitou o Salmo 121: “Enchi-me de alegria quando me vieram dizer: vamos subir à Casa do Senhor!” Expirou suavemente às 15:30h de 23 de março de 1606, uma Quinta-Feira Santa.

Bento XIII o canonizou em 1726 e João Paulo II o proclamou Pa­droeiro do Episcopado Latino-Americano em 1983.

(Revista Arautos do Evangelho  –  nº 51 – Março 2006)

A eminente santidade de São José

Pe. Reginald Garrigou-Lagrange O.P

Qui minor est inter vos, hic major est.” (Lc 9, 48)

Não se pode escrever um livro sobre a Santíssima Virgem sem falar da predestinação de São José, de sua eminente perfeição, do caráter próprio de sua missão excepcional, de suas virtudes e de seu atual papel na santificação das almas. HolyFamily

Sua preeminência sobre todos os outros santos cada vez mais afirmada na Igreja
A doutrina segundo a qual São José é o maior dos santos depois da Virgem Maria tende a tornar-se uma doutrina comumente aceita na Igreja, que não teme declarar o humilde carpinteiro superior em graça e em beatitude aos patriarcas, a Moisés, aos maiores dos profetas, a São João Batista, e também aos apóstolos, a São Pedro, a São João, a São Paulo, e por mais forte razão superior em santidade aos maiores mártires e aos maiores doutores da Igreja. O menor, por sua profunda humildade, é em razão da conexão das virtudes, o maior pela elevação da caridade: “Qui minor est inter vos, hic major est” (Lc 9, 48).

Essa doutrina é ensinada por Gerson[1] e por São Bernardino de Sena[2]. A partir do século XIV, torna-se cada vez mais corrente, é admitida por Santa Teresa, pelo dominicano Isidoro de Isolanis, que parece ter escrito o primeiro tratado sobre São José[3], por São Francisco de Sales, por Suárez[4], mais tarde por Santo Afonso Maria de Ligório[5], mais recentemente pelo cônego Sauvé[6], pelo cardeal Lepicier[7]e por M. Sinibaldi[8]; essa doutrina está bem exposta no Dicionário de Teologia Católica, no artigo Joseph (saint), por A-M. Michel.

Além disso recebeu a aprovação de Leão XIII na encíclica Quanquam pluries, de agosto de 1899, escrita para proclamar o patrocínio de São José sobre a Igreja universal.

Ele diz: “Certamente a dignidade da Mãe de Deus é tão alta que nada pôde ser criado acima dela. No entanto, como José foi unido à bem-aventurada Virgem pelo laço conjugal, não se pode duvidar que ele se tenha aproximado, mais do que ninguém, dessa dignidade supereminente pela qual a Mãe de Deus ultrapassa tanto todas as naturezas criadas.

A união conjugal é, com efeito, a maior de todas; em razão de sua própria natureza, ela acompanha-se da comunicação recíproca dos bens dos dois esposos.

Se, pois, Deus deu à Virgem José como esposo, certamente não somente o deu como apoio na vida, como testemunho de sua virgindade, guarda de sua honra, mas o fez também participar, pelo laço conjugal, da eminente dignidade que ela recebeu.”[9]

Tendo Leão XIII afirmado que São José se aproximou mais do que ninguém da dignidade supereminente da Mãe de Deus, segue-se que, na glória, ele está acima de todos os anjos?

Não o poderíamos afirmar com certeza; contentemo-nos em exprimir a doutrina cada vez mais aceita pela Igreja, dizendo: De todos os santos, José é o mais elevado no céu depois de Jesus e Maria; ele está entre os anjos e os arcanjos.

A Igreja, na oração A cunctis, nomeia-o imediatamente depois de Maria e antes dos apóstolos.

Se não está mencionado no Cânon da missa,[10] não só tem um prefácio especial mas todo o mês de março lhe é consagrado como o protetor e defensor da Igreja universal.

A ele, em sentido real, ainda que oculto, é particularmente confiada a multidão de cristãos de todas as gerações que se sucedem.

É o que exprimem as belas ladainhas aprovadas pela Igreja que lhe resumem as prerrogativas: “São José, ilustre filho de Davi, luz dos patriarcas, Esposo da Mãe de Deus, guarda da Virgem pura, nutrício do Filho de Deus, zeloso defensor de Cristo, chefe da Sagrada Família, José justíssimo, castíssimo, prudentíssimo, fortíssimo, obedientíssimo, fidelíssimo, espelho de paciência, amador da pobreza, exemplo dos trabalhadores, honra da vida doméstica, custódia das virgens, amparo das famílias, alivio dos miseráveis, esperança dos enfermos, padroeiro dos moribundos, terror dos demônios, protetor da santa Igreja.” Nada é tão grande depois de Maria.

A razão dessa supereminência
Qual é o principio dessa doutrina cada vez mais admitida desde há cinco séculos?

O princípio invocado, e cada vez mais explicitado por São Bernardo, São Bernardino de Sena, Isidoro de Isolanis, Suárez e autores mais recentes, é um principio tão simples quanto elevado; foi formulado por Santo Tomás a propósito da plenitude da graça em Jesus e da santidade de Maria.

Ele se exprime assim: uma missão divina excepcional requer uma santidade proporcionada.

Esse princípio explica por que a santa alma de Jesus, estando unida pessoalmente ao Verbo, na fonte de toda a graça, recebeu a plenitude absoluta da graça, que devia transbordar sobre nós, segundo a palavra de São João (1, 16): “De plenitude eius omnes accepimus.”[11]

É também a razão por que Maria, tendo sido chamada para ser a Mãe de Deus, recebeu desde o instante de sua concepção uma plenitude inicial de graça, que já ultrapassava a graça final de todos os santos reunidos. Mais, perto da fonte de toda a graça, ela devia beneficiar-se disso mais do que qualquer outra criatura[12].

Foi também por essa razão que os Apóstolos, mais perto de Nosso Senhor que os santos que viriam em seguida, conheceram mais perfeitamente os mistérios da fé.

Para pregar infalivelmente o Evangelho no mundo, eles receberam em Pentecostes uma fé eminentemente esclarecida e inabalável, princípio de seu apostolado[13].

Esse mesmo princípio explica a preeminência de São José sobre qualquer outro santo.

Para compreender bem este ponto, é preciso notar que as obras de Deus que são feitas diretamente por Ele são perfeitas. Não se poderia encontrar nelas nem desordem nem imperfeição sequer.

Assim foi a obra divina no dia da criação, desde as mais altas hierarquias angélicas até as criaturas mais ínfimas[14].

Ainda é assim para os grandes servidores que Deus mesmo escolhe excepcionalmente e diretamente, sem intermediação de alguma escolha humana, ou que são suscitados por ele para restaurar a obra divina perturbada pelo pecado.

No princípio enunciado mais acima, todas as palavras devem ser pesadas: “Uma missão divina excepcional requer uma santidade proporcionada.”

Aqui não se trata de missão humana, por mais alta que seja, nem de missão angélica, mas de missão propriamente divina, e não missão divina ordinária, mas tão excepcional que no caso de São José é de fato única no mundo em todo o decorrer dos tempos.

Percebe-se melhor ainda a verdade desse principio, tão simples quanto elevado, quando se considera, por contraste, como procede muitas vezes a escolha humana.

Muitas vezes os homens escolhem para altas funções de um governo difícil pessoas incapazes, medíocres, imprudentes. O que leva um país à ruína se não houver uma reação salutar.

Não se poderá encontrar nada de parecido nos que são diretamente escolhidos por Deus mesmo e preparados por ele para ser ministros excepcionais na obra da Redenção.

O Senhor lhes dá uma santidade proporcionada, pois Ele opera tudo com medida, força e suavidade.

Assim como a alma de Jesus recebeu, desde o instante de sua concepção, a plenitude absoluta de graça, que não aumentou em seguida; como Maria, desde o instante de sua concepção imaculada, recebeu uma plenitude inicial de graça que era superior à graça final de todos os santos e que não cessou de aumentar até sua morte; assim, guardadas as devidas proporções, São José deve ter recebido uma plenitude relativa de graça proporcionada à sua missão, já que foi diretamente e imediatamente escolhido não pelos homens, por nenhuma criatura, mas por Deus mesmo e unicamente por Ele para essa missão única no mundo.

Não se poderia precisar em que momento teve lugar a santificação de São José, mas o que temos direito de afirmar é que, em razão de sua missão, ele foi confirmado na graça desde seu casamento com a Santíssima Virgem.[15]

A que ordem pertence a missão excepcional de José?

É evidente que ela ultrapassa a ordem da natureza, não somente a da natureza humana mas a da natureza angélica.

Será somente da ordem da graça como a de São João Batista, que prepara as vias da salvação, como a missão universal dos Apóstolos na Igreja para a santificação das almas ou como a missão particular dos fundadores de ordens?

Se a olharmos de perto, vê-se que a missão de São José ultrapassa a própria graça, e que confina por seu termo com a ordem hipostática constituída pelo próprio mistério da Encarnação.

Mas é preciso compreendê-lo bem, evitando qualquer exagero como qualquer diminuição.

A ordem hipostática limita-se à missão única de Maria, a maternidade divina, e também em certo sentido à missão escondida de São José. Esse ponto de doutrina é afirmado por São Bernardo, por São Bernardino de Sena, pelo dominicano Isidoro de Isolanis, por Suárez e, cada vez mais, por vários autores recentes.

São Bernardo diz de José: “Ele foi o servidor fiel e prudente que o Senhor constituiu como o sustentador de sua Mãe, o pai nutrício de sua carne, e o único cooperador fidelíssimo na terra do grande desígnio da Encarnação.”[16]

São Bernardino de Sena escreve: “Quando Deus escolhe alguém para uma missão muito elevada, confere-lhe todos os dons necessários para essa missão. É o que se verifica eminentemente com São José, pai nutrício de Nosso Senhor Jesus Cristo e esposo de Maria…”[17]

Isidoro de Isolanis chega a pôr a vocação de São José acima da dos Apóstolos. Ele nota que a vocação dos Apóstolos tem por fim pregar o Evangelho, esclarecer as almas, reconciliá-las, mas que a de José é mais diretamente relativa ao próprio Cristo, já que é o esposo da Mãe de Deus, o pai nutrício e defensor do Salvador[18].

Suárez também diz: “Alguns ofícios saem da própria ordem da graça santificante, e, no gênero, os Apóstolos tiveram a graça mais elevada, e também tiveram necessidade de mais socorro gratuito que os outros, sobretudo no que concerne aos dons gratuitamente dados e à sabedoria.

Mas há outros ofícios que confinam com a ordem da união hipostática, em si mais perfeita, como se vê claramente na maternidade divina da bem-aventurada Virgem Maria; é a essa ordem de ofícios que pertence o ministério de São José.”[19]

Há alguns anos Mons. Sinibaldi, bispo titular de Tiberíades e secretário da Sagrada Congregação dos Estudos, especificou este ponto de doutrina.

Observou que o ministério de São José pertence, em certo sentido, por seu termo, à ordem hipostática: não que São José tenha intrinsecamente cooperado, como instrumento físico do Espírito Santo, na realização do mistério da Encarnação; deste ponto de vista seu papel é muito inferior ao de Maria, Mãe de Deus; mas, enfim, ele foi predestinado a ser, na ordem das causas morais, o guarda da virgindade e da honra de Maria e ao mesmo tempo o pai sustentador e protetor do Verbo feito carne.

“Sua missão pertence, por seu fim, à ordem hipostática não por uma cooperação intrínseca, física e imediata, mas por uma cooperação extrínseca, moral e mediata (por Maria), o que é ainda, no entanto, verdadeira cooperação[20].

A predestinação de José nada mais é que o próprio decreto da Encarnação
O que acabamos de dizer aparecerá mais claramente ainda se considerarmos que o decreto eterno da Encarnação não se refere apenas à Encarnação em geral, abstração feita às circunstâncias de tempo e de lugar, mas à Encarnação hic et nunc, quer dizer, a Encarnação do Filho de Deus que, em virtude da operação do Espírito Santo, deve ser concebido em tal instante pela Virgem Maria, unida a um homem da casa de Davi que se chama José: “Missus est angelus Gabriel a Deo in civitate Galileæ, cui nomem Nazareth, ad virginem desponsatam viro, cui nomem erat Joseph, de domo David – Foi enviado por Deus o anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão, que se chamava José, da casa de Davi.” (Lc 1, 26-27).

Tudo leva a crer que José foi predestinado a ser o pai adotivo do Verbo feito carne antes de ser predestinado à glória.

A razão é que a predestinação do Cristo como homem à filiação divina natural é anterior à de qualquer homem eleito, pois o Cristo é o primeiro dos predestinados[21].

Ora, a predestinação do Cristo à filiação divina natural não é outra senão o próprio decreto da Encarnação, o qual se refere à Encarnação hic et nunc.

Esse decreto implica por si mesmo a predestinação de Maria à maternidade divina, e a de José a ser pai adotivo e protetor do Filho de Deus feito homem.

Assim como a predestinação do Cristo à filiação divina natural é superior à sua predestinação à glória e a precede, como admitem os tomistas (in IIIam.,q. 24, a. 1 e 2); e como a predestinação de Maria à maternidade divina precede (in signo priori) sua predestinação à glória, como vimos no principio desta obra; assim a predestinação de José a ser pai adotivo do Verbo feito carne precede para ele a predestinação à glória e à graça.

Em outros termos, José foi predestinado ao mais alto grau de glória depois de Maria e, em seguida, ao mais alto grau de graça e de caridade, porque seria chamado a ser o digno pai adotivo e protetor do Homem Deus.

Vê-se por aí a elevação de sua missão, única no mundo, já que sua predestinação primeira pertence ao próprio decreto da Encarnação. É o que se diz correntemente quando se afirma que José foi criado e posto no mundo para ser o pai adotivo do Verbo feito carne, e, para que fosse digno pai, Deus quis para ele um altíssimo grau de glória e de graça.

St_Joseph_statue2O caráter próprio da missão de São José
Esse ponto é admiravelmente bem exposto por Bossuet no seu primeiro panegírico desse grande santo (3° ponto), quando diz: “Entre todas as vocações, chamo a atenção para duas que, nas Escrituras, parecem diametralmente opostas: a primeira, a dos apóstolos, a segunda a de São José.

Jesus foi revelado aos apóstolos para anunciá-lo por todo o universo; foi revelado a José para calá-lo e para escondê-lo.

Os apóstolos são as luzes para mostrar Jesus Cristo ao mundo.

José é um véu para cobri-lo; e sob esse véu misterioso se esconde a virgindade de Maria e a grandeza do Salvador das almas…

Aquele que glorifica os apóstolos com a honra da pregação glorifica José pela humildade do silêncio.” A hora da manifestação do mistério da Encarnação não chegara ainda; essa hora deve ser preparada por trinta anos de vida escondida.

A perfeição consiste em fazer aquilo que Deus quer, cada um segundo a sua vocação; mas no silêncio e na obscuridade a vocação de José ultrapassa a vocação dos apóstolos, porque toca mais de perto o mistério da Encarnação redentora. José, depois de Maria, foi quem esteve mais próximo do autor da graça, e, no silêncio de Belém, durante a estada no Egito e na casinha de Nazaré, recebeu mais graça do que nenhum outro santo jamais recebeu.

Sua missão foi dupla.

Em relação a Maria, ele preservou-lhe a virgindade contratando com ela um verdadeiro casamento, porém absolutamente santo. O anjo do Senhor lhe disse: “José, filho de Davi, não temas receber Maria como esposa, porque o que nela foi concebido é obra do Espírito Santo” (Mt1, 20; Lc 2, 5). Maria é sua esposa, é um verdadeiro casamento, como explica Santo Tomás (IIIª, q. 29, a. 2) mostrando suas conveniências: nenhuma suspeita devia surgir, por menor que fosse, quanto à honra do Filho e à de sua Mãe; se alguma vez essa honra estivesse em causa, José, o testemunho mais autorizado e menos suspeito, estaria lá para atestar-lhe a integridade.

Além disso, Maria encontrava em José ajuda e proteção. Ele a amou com o amor mais puro, mais devotado, um amor teologal, pois a amava em Deus e por Deus.

Era a união sem mancha mais respeitosa com a criatura mais perfeita que jamais existiu, no mais simples contexto, o de um pobre operário de aldeia. Assim, José se aproximou mais intimamente do que qualquer santo daquela que é a Mãe de Deus e a Mãe espiritual de todos os homens, dele mesmo, José, e a distribuidora de todas as graças.

A beleza de todo o universo não é nada ao lado da sublime união dessas duas almas, união criada pelo Altíssimo, que enche de admiração os anjos e alegra o próprio Senhor.

Em relação ao Verbo feito carne, José velou por ele, protegeu-o, contribuiu para sua educação humana.

Chamam-no pai nutrício, ou melhor, pai adotivo, mas esses nomes não podem exprimir plenamente essa relação misteriosa e cheia de graça.

É acidentalmente que um homem se torna pai adotivo, ou alimentador de uma criança, ao passo que não foi por acidente que José se tornou o pai adotivo do Verbo feito carne; ele foi criado e posto no mundo para isso; esse é o objeto primeiro de sua predestinação e a razão de todas as graças que recebeu.

Bossuet exprime-o admiravelmente[22]: “Quando não é a natureza que dá um pai paternal, onde encontrar um coração paternal?

Em uma palavra, São José, não sendo pai natural, como teria um coração de pai por Jesus?

É aí que é preciso entender que o poder divino age nessa obra. É por um efeito desse poder que José tem um coração de pai, e, se a natureza não lho dá, Deus lhe faz um com suas próprias mãos.

Pois é d’Ele que está escrito que dirige como quer as inclinações…

Ele faz um coração de carne em alguns quando os enternece pela caridade…

E não faz em todos os fiéis um coração não de escravo, mas de criança, quando lhes envia o Espírito de seu Filho? Os apóstolos tremiam ao menor perigo, mas Deus lhes deu um coração novo, e sua coragem tornou-se invencível…

Pois foi essa mesma mão que deu um coração de pai a São José e um coração de filho a Jesus. Por isso Jesus obedecia a São José, e José nele mandava sem temor.

E de onde vem essa ousadia de mandar em seu Criador? É que o verdadeiro pai de Jesus Cristo, esse Deus que o engendra desde toda a eternidade, tendo escolhido o divino José para servir de pai, no meio dos tempos, a seu Filho único, fez de alguma maneira correr no seio de José um raio ou um brilho desse amor infinito que Ele tem por seu Filho; foi o que lhe mudou o coração, foi o que lhe deu um amor de pai; de tal modo, que o justo José, que sente em si mesmo um coração paternal, formado de uma vez pela mão de Deus, sente também que Deus lhe ordena usar de autoridade paternal, e ousa assim comandar aquele que reconhece ser o seu mestre.” Quer dizer, José foi predestinado primeiramente para “servir de pai ao Salvador, que não podia ter um aqui em baixo”, e depois todos os dons lhe foram concedidos para que ele fosse o digno protetor do Verbo feito carne.

Ademais, há que dizer com que fidelidade José guardou o triplo depósito que lhe fora confiado: a virgindade de Maria, a pessoa de Jesus Cristo e o segredo do Pai eterno, o da Encarnação de seu Filho, segredo para ser guardado até que chegasse a hora da manifestação desse mistério[23].

O Papa Pio XI, em discurso pronunciado na sala do consistório no dia da festa de São José, em 19 de março de 1928, dizia, após ter falado da missão de João Batista e da de são Pedro: “Entre essas duas missões aparece a de José: recolhida, tácita, quase despercebida, desconhecida, que não devia iluminar-se senão alguns séculos mais tarde, um silêncio a que devia suceder, sem dúvida, mas muito tempo depois, um esplendoroso cântico de glória.

E, de fato, lá onde é mais profundo o mistério, onde mais espessa é a noite que o cobre, e maior o silêncio, é justamente lá que está a mais alta missão, mais brilhante o cortejo de virtudes requeridas e de méritos chamados, por uma feliz necessidade, a lhe fazer eco.

Missão única, altíssima, a de guardar o Filho de Deus, o Rei do mundo, a missão de guardar a virgindade, a santidade de Maria, a missão única de entrar em participação no grande mistério escondido aos olhos dos séculos e de cooperar assim na Encarnação e na Redenção!” –

O que quer dizer que foi em vista dessa missão única que a Providência concedeu a José todas as graças que ele recebeu; em outros termos: José foi predestinado primeiramente a servir de pai ao Salvador, depois à glória e à graça que convinham a tão excepcional vocação.

As virtudes e os dons de São José

As virtudes de São José são sobretudo as virtudes da vida escondida, em grau proporcionado ao da graça santificante: a virgindade, a humildade, a pobreza, a paciência, a prudência, a fidelidade, que não pode ser abalada por nenhum perigo, a simplicidade, a fé esclarecida pelos dons do Espírito Santo, a confiança em Deus e a caridade perfeita.

Ele guardou o depósito que lhe foi confiado com uma fidelidade proporcionada ao valor desse tesouro inestimável. Cumpriu o preceito: Depositum custodi.

Sobre essas virtudes da vida escondida Bossuet faz este apanhado geral[24]: “Um vicio ordinário nos homens é dar-se inteiramente às coisas de fora e negligenciar as de dentro; trabalhar para se mostrar e para aparecer, desprezar o efetivo e o sólido; sonhar muitas vezes com o que querem parecer e não pensar no que devem ser.

É por isso que as virtudes que são estimadas são aquelas que se misturam nos negócios e que entram no comércio dos homens; ao contrário, as virtudes escondidas, interiores, onde o público não toma parte, onde tudo se passa entre Deus e o homem, não só não são seguidas mas nem sequer compreendidas.

E no entanto é nesse segredo que consiste todo o mistério da verdadeira virtude…

É preciso considerar um homem em si mesmo, antes de meditar qual o lugar que se lhe dará entre os outros; e, se não trabalharmos sobre esse fundo, todas as outras virtudes, por mais brilhantes que sejam, não passarão de virtudes de vitrina… elas não fazem o homem segundo o coração de Deus. –

Ao contrário, José, homem simples, procurou Deus, José, homem retraído, encontrou Deus.”

A humildade de José deve ser confirmada pelo pensamento da gratuidade de sua vocação excepcional.

Ele devia perguntar-se: Por que o Altíssimo me deu seu filho único para guardar, a mim, José, e não a qualquer outro homem da Judéia, da Galiléia, ou de qualquer outra região ou de outro século?

Foi unicamente pelo livre agrado de Deus, prazer que é em si mesmo sua razão, e pelo qual José foi livremente preferido, escolhido, predestinado desde toda a eternidade antes de tal ou qual outro homem, a quem o Senhor poderia ter concedido os mesmos dons e uma mesma fidelidade a fim de o preparar para essa excepcional missão.

Vemos nessa predestinação um reflexo da gratuidade da predestinação do Cristo e da de Maria.

O conhecimento do valor dessa graça e de sua gratuidade absoluta, longe de prejudicar a humildade de José, confirmou-a. Pensava em seu coração: “O que tens que não recebestes?”

José aparece como o mais humilde de todos os santos depois de Maria, mais humilde do que qualquer dos anjos; e, se é o mais humilde, é por isso mesmo o maior de todos, pois, sendo conexas as virtudes, a profundeza da humildade é proporcionada à elevação da caridade, como a raiz da árvore é tanto mais profunda quanto mais alta é a árvore: “Aquele dentre vós todos que é o menor”, disse Jesus, “este será o maior” (Lc 9, 48).

Como nota ainda Bossuet: “Possuindo o maior tesouro, por uma graça extraordinária do Pai eterno, José, longe de se vangloriar dos seus dons ou de mostrar suas vantagens, esconde-se tanto quanto pode aos olhos dos mortais, gozando pacificamente com Deus do mistério que lhe foi revelado, e das riquezas infinitas que Ele lhe deu para guardar.”[25] – “José tem em casa o que atrairia os olhos de toda a terra, e o mundo não o conhece; possui um Deus-Homem, e não diz palavra; é testemunha de um grande mistério, e saboreia-o em segredo, sem o divulgar.”[26]

Sua fé é inabalável apesar da obscuridade do inesperado mistério. A palavra de Deus transmitida pelo anjo esclarece acerca da concepção virginal do Salvador: José poderia ter hesitado em crer em coisa tão extraordinária; acreditou firmemente com a simplicidade de seu coração. Por sua simplicidade e sua humildade ele ascende às alturas de Deus.

A obscuridade não tarda a reaparecer: José era pobre antes de ter recebido o segredo do Altíssimo; torna-se mais pobre ainda, observa Bossuet, quando Jesus vem ao mundo, pois vem com seu despojamento e desapegado de tudo para unir-se a Deus.

Não há lugar para o Salvador na última das hospedarias de Belém. José deve ter sofrido por não ter nada para dar a Maria e seu Filho.

Sua confiança em Deus manifesta-se na provação, pois a perseguição começa pouco depois do nascimento de Jesus. Herodes quer matá-lo.

O chefe da Sagrada Família deve esconder Nosso Senhor, partir para um país longínquo, onde ninguém o conhece e onde não sabe como poderá ganhar a vida.

Ele parte, pondo toda a confiança na Providência.

Seu amor de Deus e das almas não cessa de crescer na vida escondida de Nazaré, sob a constante influência do Verbo feito carne, lar de graças sempre novas e sempre mais altas para as almas dóceis que não põem obstáculo naquilo que Ele lhes quer dar.

Dissemos mais acima, a propósito do progresso espiritual de Maria, que a ascensão dessas almas é uniformemente acelerada, quer dizer, elas voltam-se tanto mais ligeiramente para Deus quanto mais d’Ele se aproximam ou quanto mais são atraídas por Ele.

Essa lei da gravidade espiritual das almas justas se realiza em José; a caridade não cessa de crescer nele cada vez mais prontamente até a morte; o progresso de seus últimos anos foi muito mais rápido do que o dos primeiros anos, pois, encontrando-se mais perto de Deus, era mais fortemente atraído por Ele.

Com as virtudes teologais cresceram também incessantemente nele os sete dons do Espírito Santo, que são conexos com a caridade.

Os dons de inteligência e de sabedoria tornaram-lhe viva a fé viva, e, cada vez mais encantada, sua contemplação voltava-se para a infinita bondade do Altíssimo, de modo muito simples, mas muito elevado.

Foi, em sua simplicidade, a contemplação sobrenatural mais alta depois da de Maria.

Essa contemplação amorosa lhe era muito doce, mas lhe pedia a mais perfeita abnegação e o mais doloroso sacrifício, quando se lembrava das palavras do velho Simeão: “Essa criança será um sinal de contradição”, e das que disse a Maria: “E a vós uma espada vos traspassará a alma.” A aceitação do mistério da Redenção pelo sofrimento aparecia a José como a consumação dolorosa do mistério da Encarnação, e ele precisava de toda a generosidade de seu amor para oferecer a Deus, em sacrifício supremo, o Menino Jesus e sua santa Mãe, aos quais ele amava incomparavelmente mais do que a sua própria vida.

A morte de São José foi uma morte privilegiada; como a da Santíssima Virgem, foi, como diz São Francisco de Sales, uma morte de amor[27]. Ele admite também, com Suárez, que José estaria entre os santos que, segundo São Mateus (27, 52 e ss), ressuscitaram depois da ressurreição do Senhor e se manifestaram na cidade de Jerusalém; e sustenta que essas ressurreições foram definitivas e que José entrou no céu de corpo e alma.

São Tomás é muito reservado quanto a este ponto: depois de ter admitido que as ressurreições que se seguiram à de Jesus foram definitivas (in Mt 27, 52, e IV Sent., 1, IV, dist. 42, q. 1, a. 3), mais tarde, examinando as razões inversas dadas por Santo Agostinho, achou que estas eram muito mais sólidas (cf. IIIª, q. 53, a. 3, ad. 2).

O atual papel de São José na santificação das almas

Tanto o humilde carpinteiro teve uma vida escondida na terra quanto é glorificado no céu. Aquele a quem o Verbo feito carne foi submisso aqui em baixo conserva no céu um poder de intercessão incomparável.

Leão XIII, na encíclica Quamquam pluries, encontra na missão de São José em relação à Sagrada Família “as razões por que ele é o padroeiro e protetor da Igreja Universal…

Assim como Maria, Mãe do Salvador, é Mãe espiritual de todos os cristãos… assim a José lhe foi confiada a multidão dos cristãos…

Ele é o defensor da Santa Igreja, que é verdadeiramente a casa do Senhor e o reino de Deus na terra.”

O que impressiona nesse papel atual de São José até o fim dos tempos é que ele une admiravelmente prerrogativas aparentemente opostas.

Sua influência é universal sobre toda a Igreja, que ele protege, e no entanto, a exemplo da Providência, se estende aos menores detalhes; “modelo dos operários”, interessa-se por cada um que lhe implora.

É o mais universal de todos os santos pela sua influência e faz encontrar um par de sapatos a um pobre que os esteja precisando.

Evidentemente, sua ação é sobretudo de ordem espiritual, mas estende-se também às coisas temporais; é o “sustentáculo das famílias, das comunidades religiosas, a consolação dos infelizes, a esperança dos doentes”.

Vela pelos cristãos de todas as condições, de todos os países, pelos pais de família, pelos esposos, como pelas virgens consagradas; pelos ricos, para lhes inspirar uma distribuição caridosa de seus bens, como pelos pobres, para socorrê-los.

Está atento aos maiores pecadores como às almas mais avançadas. É o padroeiro da boa morte, o das causas desesperadas, é terrível para com os demônios que parecem triunfar, e é também, diz Santa Teresa, o guia das almas interiores nas vias da oração.

Ele tem em sua influência um reflexo maravilhoso da “Sabedoria divina que atinge com força de uma à outra extremidade do mundo e dispõe tudo com doçura” (Sb 8, 1).

O esplendor de Deus esteve e permanece eternamente sobre ele; a graça não cessou de frutificar nele, e ele quer que dela participem todos os que aspiram verdadeiramente à “vida escondida em Deus com Cristo” (Col 3, 3).

(Capítulo VII do livro A Mãe do Salvador e seu amor por nós. Tradução: PERMANÊNCIA)

[1] Sermo in Nativitatem Virginis Mariæ, IVª consideratio.

[2] Sermo I de S. Joseph, c. III. Opera, Lion, 1650, t. IV, p. 254.

[3] Summa de donis S. Joseph, 1522, nova edição do p. Berthier, Roma, 1897.

[4] In Summam S. Thomæ, IIIª, q. 29, disp. 8, sect. I.

[5] Sermone de S.Giuseppe. Discorsi morali, Nápoles, 1841.

[6] Saint Joseph intime, Paris, 1920.

[7] Tractatus de S. Joseph,Paris, s.d. (1908).

[8] La Grandezza di San Giuseppe, Roma,1927, pp. 36 ss.

[9] Epist. Encíclica “Quanquam pluries”, 15 de agosto de 1899.

[10] Ainda não o estava na época em que este livro foi escrito. [N. do T.]

[11] Cf. Santo Tomás, IIIª, q. 7ª, 9.

[12] Cf. ibidem, q. 27, a. 5.

[13] Cf. ibidem, IIª IIæ, q. 1, a. 7, ad. 4.

[14] Cf. Santo Tomás, Iª, q. 94, a. 3.

[15] Cf. Dic. Teol. Cat., art. José (São), col. 1518.

[16] Homil. II super Missus est, prope finem.

[17] Sermo I de S. Joseph.

[18] Summa de donis sancti Joseph (obra muito louvada por Bento XIV), Paris IIIª, c. XVIII. Todo esse capítulo expõe a superioridade da missão de São José sobre a dos Apóstolos. – Ver também ibidem, c. XVII: “De dono plenitudinis gratiæ (in S. José).”

[19] In Summum S. Thomæ, IIIª, q. 29, disp. 8, s. 1.

[20] Cf. Mons. Sinibaldi, La grandessa di San Giuseppe, Roma, 1927, pp. 36 ss.

[21] Cf. Santo Tomás, IIIª, q. 24, a. 1, 2, 3, 4.

[22] Primeiro panegírico de São José, 2° ponto, ed. Lebarcq, t. II, pp. 135 ss.

[23] Cf. Bossuet, ibidem, preâmbulo.

[24] Segundo panegírico de São José, preâmbulo.

[25] Primeiro panegírico de São José, preâmbulo.

[26] Segundo panegírico de São José, 3° ponto.

Santo do Dia: Santa Francisca Romana

Irmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

O Divino Salvador instituiu Sua Igreja sobre alicerces bem seguros: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha
Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18). Mas, ao longo da História, as forças infernais não deixaram de investir contra essa rocha inabalável.

Uma dessas investidas teve início com as agitações políticas e sociais que forçaram o Papa Clemente V a transferir, em 1309, a sede do Papado para a cidade francesa de Avignon, onde os sucessores de Pedro permaneceram até 1376. Foi um longo período de conturbações que culminaram no Grande Cisma do Ocidente (1378-1417).sunset

A eclosão do Cisma veio agravar ainda mais a situação, a ponto de a Cidade Eterna ficar reduzida a uma situação de miséria, açoitada por guerras, carestia e pestes. Nesse contexto, destacou-se como luminoso anjo da caridade uma jovem dama da alta nobreza: Santa Francisca Romana, a qual, por sua prodigiosa atividade em favor dos pobres e doentes, conquistou o honroso título de Advocata Urbis (Advogada da Cidade).

Piedade precoce

Nascida em 1384, Francisca pertencia a uma rica família de patrícios romanos. Seus pais, Paulo Bussa de Leoni e Jacovella de Broffedeschi, proporcionaram- lhe uma primorosa educação cristã. Desde a mais tenra idade, acompanhava a mãe nas práticas de piedade, como abstinências, orações, leituras espirituais e visitas a igrejas onde pudessem lucrar indulgências.

Frequentava muito a Basílica de Santa Maria Nova, a preferida de sua mãe, confiada aos monges beneditinos de Monte Olivetto. Ali, Francisca começou a receber, ainda criança, direção espiritual de Frei Antonio di Monte Savello, com quem se confessava todas as quartas-feiras.

Aos onze anos, manifestou o desejo de consagrar-se a Deus pelo voto de virgindade. Sua inclinação para a vida monástica se fez notar quando – a conselho do diretor espiritual, para provar a autenticidade de sua vocação – começou a praticar em casa algumas austeridades próprias a certas ordens religiosas femininas. Seu pai, porém, opôs-se a esses infantis projetos, pois ela estava já prometida em casamento a Lourenço Ponziani, jovem de nobre família, bom caráter e grande fortuna.

Esposa exemplar

Francisca foi sempre esposa exemplar. Por desejo do marido, apresentava- se em público com a categoria de dama romana, usando belas jóias e suntuosos trajes. Mas debaixo deles vestia uma tosca túnica de tecido ordinário. Dedicava à oração suas horas livres, e nunca negligenciava as práticas de vida interior. Transformou em oratório um salão do palácio e aí passava longas horas de vigília noturna, acompanhada por Vanozza. Era objeto de mofa das pessoas mundanas, mas sua família a considerava um “anjo da paz”.1

Os desígnios da Providência

Três anos após seu casamento, contraiu uma grave enfermidade que se prolongou por doze meses, deixando temerosos todos os membros da família. Francisca, porém, não temia, pois colocara sua vida nas mãos de Deus, com inteira resignação. Nesse período de prova, por duas vezes apareceu-lhe Santo Aleixo. Na primeira, perguntou-lhe se queria curar-se, e na segunda comunicou- lhe que “Deus queria que permanecesse neste mundo para glorificar seu nome”.2 Colocando então seu manto dourado sobre ela, restituiulhe a saúde.

Essa enfermidade, contudo, a fizera meditar profundamente sobre os planos da Providência a seu respeito. E uma vez restabelecida, decidiu, com Vanozza, levar uma vida mais conforme ao Evangelho, renunciando às diversões inúteis e dedicando mais tempo à oração e às obras de caridade.

Proteção do Anjo, ataques do demônio

DD 2Foi nessa época que Deus envioulhe um Anjo especial para guiá-la na via da purificação. Ela não o via, mas ele estava constantemente a seu lado e se manifestava por meio de sinais claros. Além de amigo e conselheiro, era vigilante admoestador, que a castigava quando ela cometia qualquer pequena falta. Certa vez em que Francisca, por respeito humano, não interrompeu uma conversa superficial e frívola, ele aplicou-lhe na face um golpe tão forte que deixou sua marca por vários dias e foi ouvido na sala inteira!

O demônio empreendia todo tipo de esforços para perturbar a vida e, sobretudo, impedir a santificação de Francisca. Como a Santa sempre triunfava de suas tentações, ele recorria com frequência a ataques diretos. Assim, em certa ocasião ela e Vanozza retornavam da Basílica de São Pedro e decidiram tomar um atalho, pois já era tarde. Chegando à margem do Tibre, inclinaram-se para tomar um pouco de água. Empurrada por uma força invisível, Francisca caiu no rio. Vanozza lançou-se para salvá-la e foi também arrastada pela correnteza. Sentindo em perigo suas vidas, recorreram a Deus e no mesmo instante se viram de novo na margem, sãs e salvas.

Modelo de mãe e de dona de casa

Quando em 1400 nasceu seu primeiro filho, João Batista, não duvidou em deixar algumas de suas mortificações e exercícios piedosos, para melhor cuidar do menino. Ao carinho materno, unia a firmeza da boa educadora, corrigindo-o em suas infantis manifestações de teimosia, obstinação e cólera, sem nunca ceder às suas lágrimas de impaciência. Foi modelo de mãe igualmente para João Evangelista e Inês, que nasceram alguns anos depois.

Seu Anjo ajudou-a a levar sua vida matrimonial com amor e dedicação, tanto para o esposo quanto para os filhos. Cumpria com perfeição seu ofício de dona de casa, compreendendo que os sacrifícios impostos pelas tarefas cotidianas fazem parte da purificação necessária nesta vida e têm prioridade sobre as mortificações particulares. Desempenhou-se de tal maneira que, em 1401, quando faleceu a esposa do velho Ponziani, seu sogro, este incumbiu-a do governo do palácio. Nessa função, a jovem senhora demonstrou grande capacidade, inteligência e, sobretudo, bondade.

Organizou os trabalhos da numerosa criadagem de modo a todos terem tempo de cumprir seus deveres religiosos. Assistia-os em suas necessidades materiais e os incentivava a levar uma vida verdadeiramente cristã. Quando algum deles adoecia, Francisca se fazia de enfermeira, mãe e irmã. E se a enfermidade acarretava perigo de vida, ela mesma ia buscar a assistência espiritual de um sacerdote, a qualquer hora do dia ou da noite.

Prodígios realizados em vida

Por volta de 1413, a fome se abateu sobre Roma. O sogro de Francisca alarmou-se ao ver que ela continuava muito generosa em ajudar os necessitados… distribuindo-lhes parte das provisões que ele reservara para sustento da família, e proibiu-a de fazê-lo. Não podendo mais a caridosa dama dispor daqueles víveres para socorrer os famintos, começou a pedir esmolas para eles. E certo dia, tomada de súbita inspiração, foi com Vanozza a um celeiro vazio do palácio para procurar o que pudesse ter restado de trigo no meio da palha. À custa de paciente trabalho, conseguiram recolher alguns poucos quilos do desejado grão. Coisa admirável: logo após a saída das duas, Lourenço, seu esposo, entrou no celeiro e lá encontrou 40 sacos contendo, cada um, 100 quilos de trigo dourado e maduro!

Idêntico prodígio se deu na mesma época: querendo levar aos pobres um pouco de vinho, Francisca recolheu a escassa quantidade que restava no fundo de um tonel e no mesmo instante este encheu-se milagrosamente de um excelente vinho.

Esses prodigiosos fatos muito contribuíram para suscitar em Lourenço um temor reverencial e amoroso por sua esposa. Em consequência, ele lhe deu liberdade de dispor de seu tempo para suas obras apostólicas e lhe permitiu trocar seus belos trajes e joias – os quais ela apressou-se a vender para distribuir aos pobres o dinheiro – por roupas simples e pouco vistosas.

Guerras e provações

Muitas provações ainda a aguardavam. A situação política da Península Itálica e a crise decorrente do Grande Cisma do Ocidente acarretaram-lhe muitos sofrimentos. Roma estava dividida em dois grupos que travavam encarniçada guerra: a favor do Papa, os Orsini, de cuja facção Lourenço fazia parte; de outro lado, os Colonna, apoiando Ladislau Durazzo, rei de Nápoles, que invadiu Roma três vezes. Na primeira invasão, Lourenço foi gravemente ferido em combate, sendo curado pela fé e dedicação da esposa. Na segunda, em 1410, as tropas saquearam o palácio dos Ponziani, e os bens da família foram confiscados. Pior ainda, Francisca viu seu esposo e seu filho Batista partirem para o exílio.

Em 1413 e 1414, a capital da Cristandade ficou entregue à pilhagem e reduzida à miséria. Um novo flagelo, a peste, veio agravar essa situação. A Santa transformou o palácio em hospital e cuidava pessoalmente das vítimas da terrível doença. Era um anjo da caridade naquela infeliz cidade assolada pelo infortúnio.

Sua própria família não ficou imune a essa tragédia: em 1413 morreu Evangelista, seu filho mais novo, e no ano seguinte a pequena Inês. Por fim, ela também contraiu a doença, mas foi milagrosamente curada por Deus.

Visões e dons sobrenaturais

Ainda em 1413, apareceu-lhe seu filho falecido havia pouco, tendo a seu lado um jovem do mesmo tamanho, parecendo ser da mesma idade, mas muito mais belo.

– És realmente tu, filho do meu coração? – perguntou ela.

Ele respondeu que estava no Céu, junto com aquele esplendoroso Arcanjo que o Senhor lhe enviava para auxiliá-la em sua peregrinação terrestre.

– Dia e noite o verás ao teu lado e ele te assistirá em tudo – acrescentou.

Aquele Espírito celestial irradiava uma tal luz que Francisca podia ler ou trabalhar à noite, sem dificuldade alguma, como se fosse dia. E lhe iluminava o caminho quando precisava sair à noite.

Na luz desse Arcanjo, ela podia ver os pensamentos mais íntimos dos corações. Recebeu, ademais, o dom do discernimento dos espíritos e o de conselho, os quais usava para converter os pecadores e reconduzir os desviados ao bom caminho.

Deus a favoreceu com numerosas outras visões. As mais impressionantes foram as do inferno. Viu em pormenores os suplícios pelos quais são punidos os condenados, de acordo com os pecados cometidos. Observou a organização hierárquica dos demônios e as funções de cada um na obra de perdição das almas, uma paródia da hierarquia dos Coros Angélicos. Lúcifer é o rei do orgulho e o chefe de todos. Viu ainda como os atos de virtude praticados pelos bons atormentam essas miseráveis criaturas e prejudicam sua ação na terra.

Vida de apostolado

Tendo falecido o rei Ladislau, restabeleceu- se a paz na Cidade Eterna, seu esposo e seu filho Batista regressaram do exílio, e a família Ponziani recuperou os bens injustamente confiscados.

Por meio de orações e boas palavras, a Santa conseguiu convencer Lourenço a reconciliar-se com seus inimigos e a entregar-se a uma vida de perfeição. E após o casamento do filho, entregou à nora – convertida por ela – o governo do palácio para dedicar-se inteiramente às obras de caridade e de apostolado.

Lourenço deixou-a livre para fundar uma associação de religiosas seculares, com a condição de continuar vivendo no lar e não parar de guiálo no caminho da santidade. Orientada por seu diretor espiritual, fundou uma sociedade denominada Oblatas da Santíssima Virgem, segundo o modelo dos beneditinos de Monte Olivetto. Em 15 de agosto de 1425, Francisca e outras nove damas fizeram sua oblação a Deus e a Maria Santíssima, mas sem emitir votos solenes. Vivia cada qual em sua casa, seguindo os conselhos evangélicos, e se reuniam na igreja de Santa Maria Nova para ouvir as palavras de sua fundadora, que para elas era guia e modelo a imitar. 3

Alguns anos depois, ela recebeu a inspiração de transformar essa sociedade em congregação religiosa. Adquiriu o imóvel de nome Tor de’ Specchi e, em março de 1433, dez Oblatas de Maria foram revestidas do hábito e ali se Viu o Céu aberto e os Anjos vindos para buscá-la estabeleceram, em regime de vida comunitária. Em julho desse mesmo ano, o Papa Eugenio IV erigiu a Congregação das Oblatas da Santíssima Virgem, nome mudado posteriormente para Congregação das Oblatas de Santa Francisca Romana. Era uma instituição nova e original para seu tempo: religiosas sem votos, sem clausura, mas de vida austera e dedicadas a um genuíno apostolado social.

Comprometida como estava pelo matrimônio, somente depois da morte do esposo, em 1436, Francisca pôde afinal realizar o maior desejo de sua vida: fazer-se religiosa. Entrou como mera postulante na congregação por ela fundada. Mas foi obrigada – pelo capítulo da comunidade e pelo diretor espiritual – a aceitar os encargos de superiora e fundadora.

Viveu no convento apenas três anos. Em 1440, viuse forçada a retornar ao palácio Ponziani para cuidar de seu filho, gravemente enfermo. Atingida por uma forte pleurisia, ali permaneceu, por não ter mais forças. Soube então que havia chegado seu derradeiro momento. Padeceu terrivelmente durante uma semana, mas pôde dar seus últimos conselhos às suas filhas espirituais e despedir-se delas.

No dia 9 de março, depois de agradecer a seu diretor, o Padre Giovanni, em seu nome e no da comunidade, quis rezar as Vésperas do Ofício da Santíssima Virgem. Com os olhos muito brilhantes, dizia estar vendo o Céu aberto e haverem chegado os Anjos para buscá-la. Com um sorriso iluminando- lhe a face, sua alma deixou esta Terra.

Ao elevá-la às honras dos altares, em maio de 1608, o Papa Paulo V qualificou-a de “a mais romana de todas as Santas”.3 E o Cardeal São Roberto Belarmino, que contribuíra decisivamente, com seu voto, para a canonização, declarou no Consistório: “A proclamação da santidade de Francisca será de admirável proveito para classes muito diferentes de pessoas: as virgens, as mulheres casadas, as viúvas e as religiosas”.4

Quatro séculos depois, o Cardeal Angelo Sodano traçava dela este quadro: “Lendo sua vida, parece que nos deparamos com uma daquelas mulheres fortes, das quais estão repletos os Livros Sagrados e as páginas da História da Igreja. […] Mulher de ação, Francisca hauria, contudo, de uma intensa vida de oração a força necessária para seu apostolado social”.5 Precioso conselho para todos nós: é “de uma intensa vida de oração” que nos vem a força para levar avante nossas obras de apostolado.

1 SUÁREZ, OSB, Pe. Luis M. Pérez. Santa Francisca Romana. In: ECHEVERRÍA, L.; LLORCA, B. e BETES, J. (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2003. p. 173.
2 Idem, ibidem.
3 Tor de’Specchi, Monastero delle Oblate di S. Francesca Romana – Venerazione e culto. Disponível em: . Acesso em: 14/01/2009.
4 SUÁREZ, OSB, Op. cit., p. 185.
5 SODANO, Card. Angelo. Homilia por ocasião da festa de Santa Francisca Romana, 05/03/2005. Disponível em: . Acesso em: 14/01/2009.

(Revista Arautos do Evangelho, Mar/2009, n. 87, p. 30 à 33)