Reflexão para Quarta-feira de Cinzas

Lembra-te que és pó e que ao pó voltarás
Lembra-te que és pó e que ao pó voltarás

“Lembra-te que és pó e que ao pó voltarás”. (cf. Gn 3, 19) Ao mesmo tempo que pronuncia esta frase, o sacerdote traça em nossa fronte uma Cruz. Assim iniciamos a Quaresma, 40 dias de oração e penitência que precedem a maior celebração católica: Paixão e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

De fato, na Quarta-feira de Cinzas a Igreja nos convida à mudança de vida, uma conversão, abandonando tudo aquilo que nos afasta de Deus, ou seja o pecado, e a abraçarmos a prática das virtudes, dos mandamentos divinos.

A imposição das cinzas simboliza que tudo nessa vida é passageiro, e que devemos nos concentrar em alcançar aquilo que não passará nunca: a bem-aventurança eterna.

Por isso, aconselha-nos a Igreja um dia de jejum e abstinência, para nos ajudar a mortificar a carne e elevar o espírito às realidades celestes, as quais muitas vezes deixamos de lado. Entretanto, essa mortificação corporal também é um símbolo de algo maior e mais profundo, a mortificação da alma.

Com efeito, existem outras formas de jejum muito mais agradáveis a Deus do que a do alimento, por exemplo, o jejum das palavras. Quantas pessoas passam o dia todo falando de si mesmas, de suas qualidades, ou até mesmo de seus problemas… Que tal aproveitar esse período da Quaresma para mortificar o orgulho e a vaidade?

Outras não falam de si, mas sim dos outros, mas são sempre críticas, maledicências e muitas vezes até calúnia… A Quaresma pode ser uma excelente ocasião para ressaltarmos em público as qualidades dos outros.

Isso sem dúvida exige esforço e paciência consigo mesmo, pois mudanças como essas não se fazem do dia para a noite. Mas cumpre começar logo, e Deus nos ajudará.

Sendo Mãe, a Igreja ao mesmo tempo que nos pede um sacrifício – pequeno em comparação com o que Jesus sofreu por nós – Ela nos promete nesse período uma assistência especial do Espírito Santo. Basta darmos o primeiro passo, derramarmos a primeira gota de sangue, e quando menos esperarmos teremos alcançado a cura de um vício, de um defeito que há muito tempo carregávamos. É uma das coisas que podemos oferecer a Deus nesta Quaresma.

Por que o incenso é utilizado na liturgia católica?

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Não queimo! Assim respondeu uma multidão incontável de mártires ante o tribunal romano. Bastava pôr um punhado de incenso numa pira incandescente que ardia em honra a um ídolo ou à estátua do imperador. Tão simples gesto, uns poucos grãos de incenso eram suficientes para conter a ira dos perseguidores e louvar os deuses. Mas aqueles heróis da Fé, testemunhando seu amor a Cristo, preferiram morrer a cultuar os ídolos, a vida eterna a uns grãos de incenso.

Desde há muito, quase desde sempre, o incenso foi usado no culto divino. Essa composição de resina com ervas aromáticas, que quando lançada ao fogo se consome e exala agradável perfume, é símbolo da alma que se oferece a Deus em sacrifício de suave odor. Deste modo, oferecer incenso a Deus é reconhecer seu domínio sobre nós e sobre toda a criação, sua majestade e o direito que Ele tem de nossa vassalagem.

Assim, no Antigo Testamento, os judeus ofereciam a Javé um culto no altar do incenso (Cf Ex 30,1-10.34-38) e acrescentavam a determinadas oblações um pouco de incenso (Cf Lv 2,1.15). A tradição católica viu no incenso que um dos Magos ofertou ao Rei Menino no Natal (Cf Mt 2,11) um sinal de que aquele homem reconhecia em Jesus a divindade.[1] E a Igreja, ao realizar o Santo Sacrifício do Altar, oferece incenso, pois adora oculto nas espécies do pão e do vinho consagrados o verdadeiro Filho de Deus.

O incenso é também símbolo das orações dos justos, como descreve o Apocalipse, o livro da Liturgia Celeste: “Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, outro Anjo veio postar-se junto ao altar, com um turíbulo de ouro na mão. Foi-lhe dada grande quantidade de incenso, para que o oferecesse com as orações de todos os santos, no altar de ouro que está adiante do trono. E da mão do Anjo, a fumaça do incenso com as orações dos santos subiu diante de Deus” (Ap 8,1-4).

Mais um significado: a glória de Deus. Quando vemos a fumaça do incenso envolvendo o recinto sagrado, associamo-la à nuvem que encheu a Tenda da Reunião ao ser consagrada por Moisés, porque a glória de Deus se fez presente: “A nuvem cobriu a Tenda de Reunião e a glória do Senhor encheu o Tabernáculo. Moisés não pôde entrar na Tenda de Reunião, porque a nuvem pairava sobre ela, e a glória do Senhor enchia o Tabernáculo” (Ex 40, 34-35). O mesmo aconteceu na dedicação do Templo: “Quando os sacerdotes saíram do lugar santo, a nuvem encheu o Templo do Senhor, de modo tal que os sacerdotes não puderam continuar suas funções, por causa da nuvem: a glória do Senhor enchia o Templo do Senhor” (1Rs 8,10-11).

Simbolizando assim a glória de Deus, o incenso também manifesta a união que se estabelece na Liturgia entre a Igreja terrestre e a Jerusalém Celeste, onde os Anjos e os nossos irmãos, os Bem-aventurados, louvam a Deus sem cessar e vivem envoltos em sua glória.

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São esses os motivos pelos quais na celebração eucarística, pode-se incensar o Altar, a Cruz, o Evangelho, as oferendas, o Sacerdote, a assembléia e, sobretudo, o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo sacramentalmente presente pela Consagração. A bênção do incenso para o rito sacro é um sacramental; a incensação em forma de cruz simboliza o Sacrifício da Cruz, e a das oferendas em forma circular, a total pertença das ofertas a Deus, retirando-as do uso profano. Ademais, o incenso é usado nas Bênçãos do Santíssimo, nas Vésperas Cantadas, nas exéquias e em outras bênçãos de lugares e objetos sagrados, como os sinos.

Na dedicação de uma igreja, depois de ungido o Altar é posto sobre ele um braseiro para queimar incenso, simbolizando que o sacrifício de Cristo, realizado ali na Missa, sobe ao Pai Eterno como suave fragrância, e com ele as orações dos fiéis. A coluna de incenso que então se levanta recorda a coluna de nuvem que acompanhou os filhos de Israel no deserto depois da saída do Egito (Cf Ex 13,21-22). Todo o espaço da igreja é incensado, pois tornou-se uma casa de oração, e também os fiéis, por serem “templos vivos de Deus” (Cf 1Cor 3,16-17; Ef 2,22).

Cerimônia de Dedicação da basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, dos Arautos do Evangelho. São Paulo, Brasil
Cerimônia de Dedicação da basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, dos Arautos do Evangelho. São Paulo, Brasil

Caro leitor, quando estivermos em uma igreja e nos virmos circundados pelo incenso e penetrados de seu perfume, lembremo-nos: estamos em um lugar sagrado, é o momento de nos oferecermos a Deus em sacrifício como o incenso que é queimado e de elevarmos nossa prece, para que, como a fumaça, ela suba ao Céu em agradável odor.

 

Luís Filipe Defanti

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[1]“[…] por entender que Ele era de natureza divina e celestial, ofertaram incenso perfumado, forma de oração verdadeira, oferecida como suave odor do Espírito Santo”. ANÔNIMO. Obra incompleta sobre o Evangelho de Mateus, 2: PG 56, 642.

El Incienso

El Doctor Angélico[1] nos enseña que la significación en los sacramentos debe realizarse de dos maneras para que sea perfecta: mediante las palabras y los hechos. Ahora bien, mediante las palabras en la celebración del sacramento de las Eucaristía se significan cosas pertenecientes a la pasión de Cristo, al cuerpo místico, y al uso de este sacramento, que debe hacerse con devoción y respeto. Por este motivo, en la celebración de este misterio algunas cosas se hacen: para representar la pasión de Cristo, o para indicar las disposiciones del cuerpo místico, o para fomentar la devoción y el respeto en el uso de este sacramento. La incensación, en concreto, tiene la finalidad de fomentar el respeto hacia este sacramento y representar con su buen olor el efecto de la gracia.

A continuación, veremos el significado del incienso y su uso en las distintas partes de la Misa.

I. Significado

El incienso es un símbolo natural y expresivo del reconocimiento de la infinita excelencia y supremo dominio del Creador. La incensación es símbolo de la oración y de los sacrificios de los fieles que suben hasta el trono de Dios, como expresa el Apocalipsis: “Vino entonces otro ángel, y se puso ante el altar con un incensario de oro: le fueron dados muchos perfumes, compuestos de las oraciones de todos los santos para que los ofreciese sobre el altar de oro, colocado ante el trono de Dios” (Ap 8,3).

El incienso significa la oración, su perfume las virtudes: “Le symbolisme de l’encensoire est indiqué par l’Eglise, dans la prière qu’elle fait dire au prêtre à l’offertoire: Dirigatur, Domine, oratio mea, sicut incensum, in conspectu tuo (Ps 140, 2). Lencensoir est donc l’emblème de la prière. Le vase est l’image du cœur, l’encens figure la prière, le feu est l’emblème de l’amour céleste”[2].

Dado que la incensación con el incienso bendito es una bendición, un sacramental que purifica y santifica más, los objetos incensados son purificados y exorcizados de la acción del demonio.

 

II. Primera incensación del altar

La primera incensación del altar es uno de los ritos preparativos para la Santa Misa. Su sentido es la purificación y preparación del altar. Purificación contra la intervención diabólica, por el motivo que ya vimos, y preparación, conforme nos explica Vigourel: “C’était comme un prélude au sacrifice. Le spectacle offert alors aux fidèles, l’odeur agréable qui se répandait dans l’assemblée étaient un signe. Ce signe attestait que dans l’acte du sacrifice Dieu allait être souverainement glorifié, par la victime sainte, Jésus-Christ, le parfait adorateur de son Père”.[3]

En la incensación también indicamos la voluntad de querer unir nuestro sacrificio con el de Nuestro Señor, ya que el altar significa a Cristo y su Sacrificio, en cuanto el incienso, destruido en el fuego, es emblema de nuestra disposición de sacrificarnos en la obediencia y honor a Dios debido al ardiente calor de nuestro amor a la Bondad suprema. Y unimos nuestro sacrificio al del Cordero sin mancilla para que sea acepto a Dios y fecundado por la virtud del Sacrificio divino. Por esta razón, el altar se inciensa al principio de la Misa, que constituye integralmente el sacrificio divino, y posteriormente al principio de la parte de la Misa en que propiamente ocurre el santo Sacrificio: el Ofertorio.

III. Ofertorio

A) Los dones

Los dones se inciensan para significar que la oblación de la Iglesia y su oración suben ante el trono de Dios como incienso.

Es sólo por medio de Jesucristo, realmente presente en la Santísima Eucaristía, que Dios es plenamente glorificado y que nosotros podemos ser santificados. De ahí el doble efecto significado por el incienso: la gloria rendida a Dios que se eleva al cielo, en cuanto sus beneficios se esparcen sobre las almas como el perfume del incienso se esparce por el edificio santo. Así lo demuestra la oración que rezaba el sacerdote en cuanto incensaba los dones: “Incensum istud a te benedictum, ascendat ad te Domine, et descendat super nos misericordia tua”.

A este propósito dice Vigourel:“L’encensement des dons qui viennent d’être présentés à Dieu à l’offertoire nous rappelle quel est le prix de la victime et combien parfait l’honneur que par elle nous pourrons rendre à Dieu… En effet, Jésus-Christ dans l’Eucharistie paie à la royauté de son Père, au Roi immortel des siècles, un tribut plus précieux que l’or, à sa divinité le plus suave des encens, à sa justice la myrrhe de son expiation”.[4]

Por la incensación, la oblata queda purificada de la intervención diabólica y santificada para que sea más digna materia de los divinos Misterios.

B) Segunda incensación del altar

El incienso, quemado ante el altar para que su perfume suba a Dios en olor de suavidad, es como un sacrificio que, al fuego de nuestra caridad, ofrecemos a Dios de nuestro corazón, de la mortificación de nuestras malas inclinaciones y de nuestra vida, para que, de esta manera, nuestra conducta y vida sean inocentes.

Esta mortificación, ordenada  a la pureza de la vida, se indica claramente en la palabras que acompañaban la incensación del altar en el Ofertorio: “Pone, Domine, cutodiam ori meo, et ostium circumstantiæ labiis meis: ut non declinet cor meum in verba malitiæ, ad excusandas excusationes in peccatis”.  En este sentido pueden interpretarse las palabras con que empieza la incensación del altar: “Dirigatur, Domine, oratio mea, sicut incensum, in conspectu tuo, elevatio manuum mearum sacrificium vespertinum”. Es decir, mi oración y sacrificio; porque oración aceptada por Dios y eficaz  es la que va unida al sacrificio del corazón.

 

C) La cruz

La cruz, destinada al servicio divino y santificada por la bendición, es digna de participar de los honores divinos; es por tanto, santa y digna de nuestra veneración. Es incensada junto al altar y al sacerdote para significar que Nuestro Señor Jesucristo es nuestro Dios y que, víctima, altar y sacerdote de su sacrificio, merece ser adorado e invocado.

D) El ministro y los fieles

El sacerdote y los fieles participan de la incensación en cuanto ministros y miembros de Cristo, que participan de la potestad de Dios y su gracia, la cual es, a su vez, una participación de la naturaleza divina (2 Ped 1,4); y por ende, su incensación redunda en honor del mismo que les dio tal potestad y tales dones. Además, por la incensación, son advertidos de que también ellos deben tener el corazón ardiente por el fuego de la caridad y devoción, al calor de las cuales dirijan a Dios, como incienso purísimo, sus oraciones y sacrificios.

¿Por qué se inciensa primero al altar, luego al sacerdote y por último a los fieles? Así responde el Doctor Angélico[5]: “[la incensación] representa el efecto de la gracia, de la cual, como de buen olor, Cristo estaba lleno, según aquello del Gén 27,27: ‘He aquí que el olor de mi hijo es como el olor de un campo florido’. Un olor que de Cristo se comunica a los fieles por el oficio de sus ministros, según las palabras de 2 Cor 2,14: ‘Por nuestro medio difunde en todas partes el olor de su conocimiento’. De ahí que en todas partes, una vez incensado el altar, que representa a Cristo, son incensados todos los demás por orden”.

Pe. Rodrigo Alonso Solera Lacayo, EP


[1] Cf. III, q. 83, a. 5.

[2] A. Lerosey, Introduction a la Liturgie.

[3] A. Vigourel, La Liturgie et la vie chrétienne.

[4] Idem.

[5] III, q. 83, a. 5, ad 2.

A Santíssima Virgem e a Liturgia: um tema da atualidade

As profundas e vertiginosas mudanças nas quais a sociedade atual se encontra submetida, faz a Igreja refletir sobre como adequadamente enfrentar este problema. Já o papa Paulo VI, na exortação apostólica Evangelii Nuntiandi nos explicava de uma maneira muito incisiva: “sabemos bem que o homem moderno, saturado de discursos, se demonstra muitas vezes cansado de ouvir e, pior ainda, como que imunizado contra a palavra. Conhecemos também as opiniões de numerosos psicólogos e sociólogos, que afirmam ter o homem moderno ultrapassado já a civilização da palavra, que se tornou praticamente ineficaz e inútil, e estar a viver, hoje em dia, na civilização da imagem.”[1]

Com o passar dos anos, o processo de secularização e de relativismo em nossa sociedade – outrora totalmente cristã – se faz cada vez maior. A tal ponto que o Papa Bento XVI pronunciou um apelo aos jovens católicos, para que todos tenham uma radicalidade de seu testemunho da fé e lutem contra esta onda de relativismo e mediocridade que pretende eclipsar a presença de Deus na sociedade hodierna: “a cultura atual, em algumas áreas do mundo, sobretudo no Ocidente, tende a excluir Deus, ou a considerar a fé como um fato privado, sem qualquer relevância para a vida social. Mas o conjunto de valores que estão na base da sociedade provém do Evangelho — como o sentido da dignidade da pessoa, da solidariedade, do trabalho e da família —, constata-se uma espécie de “eclipse de Deus”, uma certa amnésia, ou até uma verdadeira rejeição do Cristianismo e uma negação do tesouro da fé recebida, com o risco de perder a própria identidade profunda.”[2]

Daqui compreendemos o papel fundamental que tem a liturgia como um meio eficaz de ensinar e atrair à casa de Deus os seus filhos afastados, pois este foi o instrumento idôneo utilizado pela Igreja através da história. Santo Irineu de Lyon ao falar sobre a Regula fidei, nos recorda que corresponde ao Magistério, não somente o papel de guardião da Escritura e da Tradição dos Apóstolos, mas também de ser dócil ao Espírito Santo na interpretação no ensinamento do depósito sagrado, sendo a liturgia um dos pilares da Tradição.

O bispo de Lyon expressa ser a Igreja “tal como um depósito de grande valor encerrado num vaso excelente, que rejuvenesce e faz rejuvenescer o próprio vaso que a contém”.[3] Desta forma a liturgia ao longo da História é o meio privilegiado que a Igreja teve de converter, catequizar e santificar o Povo de Deus como também atrair para si os pagãos. A este propósito é interessante a intervenção que o papa Paulo VI fez no Congresso Mariológico de 1975, na qual busca tirar o impasse que o post Concilio deixou à investigação teológica sobre Maria: “como repropor adequadamente Maria ao Povo de Deus, de modo a despertar nele um fervor renovado de devoção mariana? Neste sentido, podem-se seguir dois caminhos. O primeiro é o caminho da verdade, isto é, da especulação bíblico-histórico-teológica, que diz respeito à colocação de Maria no mistério de Cristo e da Igreja: é o caminho dos sábios, aquele que vós seguis, certamente necessário, do qual se progride a doutrina mariológica. Mas há também, além disso, uma via acessível a todos, até mesmo às almas simples: é o caminho da beleza, o que nos leva, finalmente, à doutrina misteriosa, maravilhosa e estupenda que forma o tema do Congresso Mariano: Maria e o Espírito Santo. Na verdade, Maria é a criatura tota pulchra, é a speculum sine macula; é o mais alto ideal de perfeição que em todos os tempos os artistas procuraram reproduzir em suas obras; é ‘a mulher vestida de sol’ (Ap . 12, 1), na qual os raios puríssimos da beleza humana se reúnem aqueles soberanos, mas acessíveis, da beleza sobrenatural. E por que tudo isso? Porque Maria é ‘cheia de graça’, isto é, podemos dizer, a cheia do Espírito Santo, a luz da qual n’Ela refulge de um incomparável esplendor. Sim, precisamos olhar para Maria, para fixar a sua beleza imaculada, porque nossos olhos muitas vezes são feridos e quase cegados pelas enganadoras imagens de belezas deste mundo. Quantos nobres sentimentos, quantos desejos de pureza, qual espiritualidade renovadora poderia suscitar a contemplação desta sublime beleza!”[4]

Atender este apelo do Papa sobre a via pulchritudinis mariólogica corresponde à ação da liturgia: a qual com as suas diversas cerimônias, os seus variados ritos e devoções populares, catequiza os fiéis, ensinando-os a doutrina “misteriosa, maravilhosa e estupenda”, a que se refere o saudoso Pontífice.

Recordando as palavras citadas acima de Santo Irineu, o Espírito Santo inspira na Igreja carisma e devoções diversas que ajuda a Ela mesma conhecer a grandeza e a Magnificência do Criador. Desde os seus primórdios a Esposa de Cristo soube desenvolver na sua liturgia algo de muito do seu apreço: a devoção à Theotokos, a Santa Mãe de Deus, nascida do sensus fidelium popular, que intuía que Ela era o caminho mais fácil para chegar seu Filho Santíssimo, nosso Redentor. A sabedoria da Igreja soube perceber este “signum magnum” (Ap 12,1) e desta maneira cultivou e enriqueceu nas celebrações litúrgicas esta devoção nascida do povo de Deus, pois “tanto no Oriente como no Ocidente, as expressões mais altas e mais límpidas da piedade para com a bem-aventurada Virgem Maria floresceram no âmbito da Liturgia, ou então nela foram incorporadas.”[5]

Pe.  Felipe Isaac Paschoal Rocha, EP


[1] “Qui sunt hodie homines, eos novimus, orationibus iam saturatos, saepe saepius audiendi fastidientes atque – quod peius est – contra verba obdurescentes videri. Neque vero sententias plurimorum psychologicis socialibusque rebus doctorum ignoramus, qui eosdem dicunt civilem cultum, a verbis appellatum, utpote inefficacem iam et inutilem esse praetergressos, atque in praesenti novum attigisse vitae cultum, ab imaginibus appellandum”. PAULO VI. Evangelii Nuntiandi,  08 dez. 1975. In: AAS 68 (1976) 42. p. 32. (Tradução disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/paul_vi/apost_exhortations/documents/hf_p-vi_exh_19751208_evangelii-nuntiandi_po.html, acesso em 21 ago. 2011).

[2] “La cultura attuale, in alcune aree del mondo, soprattutto in Occidente, tende ad escludere Dio, o a considerare la fede come un fatto privato, senza alcuna rilevanza nella vita sociale. Mentre l’insieme dei valori che sono alla base della società proviene dal Vangelo — come il senso della dignità della persona, della solidarietà, del lavoro e della famiglia —, si constata una sorta di ≪ eclissi di Dio ≫, una certa amnesia, se non un vero rifiuto del Cristianesimo e una negazione del tesoro della fede ricevuta, col rischio di perdere la propria identità profonda”. BENTO XVI. Mensagem para a XXVI Jornada Mundial da Juventude 2011, 06 ago. 2010. In: AAS 102 (2010) 1. p. 460. (Tradução do autor).

[3] “Quasi in vaso bono eximium quoddam depositum iuvenescens, et iuvenescere faciens ipsum vas in quo est”. IRINEU DE LYON. Adversus haereses III, 24, 1. (Tradução do autor).

[4] “Qua nova aptaque ratione Maria christiano populo proponenda est, ut in eo marialis pietatis renovatum studium excitetur? Hac in re duplex nobis panditur via, atque in primis via veritatis: via scilicet investigationis biblicae, historicae ac theologicae, spectantis ad locum Mariae proprium statuendum in mysterio Christi et Ecclesiae; quam viam, doctorum nempe virorum viam, vos sequimini, eademque perutilis est ad mariologiae studia provehenda. Sed alia via est, et quidem omnibus pervia, humilions etiam condicionis hominibus, quam

viam pulchritudinis appellamus : ad quam viam tandem perducit ipsa arcana, mirabilis ac pulcherrima doctrina de Maria et Spiritu Sancto, in qua studia Congressus Mariani versari debent. Ac revera Maria « tota pulchra » est eademque « speculum sine macula » ; item exstat supremum atque absolutissimum perfectionis exemplar, cuius imaginem omni tempore artifices in suis operibus effingere conati sunt; Mulier amicta sole est, in quam purissimi humanae pulchritudinis radii una confluunt cum radiis pulchritudinis caelestis, qui superioris quidem sunt ordinis, sed percipi possunt. Curnam haec omnia? Quia Maria « plena gratia » est, hoc est — ita dicere possumus — quia plena est Spiritu Sancto, cuius supernaturale lumen in ea incomparabili splendore refulget.

Profecto, nobis opus est ad Mariam adspicere in eiusque inconta minatam pulchritudinem oculos convertere, quippe quos saepe nimis offendant et quasi obcaecent fallaces pulchritudinis imagines huius mundi. Contemplatio excelsae Mariae pulchritudinis, ex contrario, quot egregios animi sensus gignere potest, quot generosa proposita puritatis, quot invitamenta ad pietatis rationem amplectendam, quae vere animos renovet”.

PAULO VI. Discurso ao Congresso Mariólogico e Mariano, 16 maio 1975. In: AAS 67 (1975) 3. p. 338. (Tradução do autor).

[5] “Tum in Orientis tum in Occidentis regionibus lectissimas atque splendidissimas voces pietatis erga beatam Virginem aut intra ipsius Liturgiae fines floruisse, aut esse in eius corpus adiunctam”. PAULO VI. Marialis Cultus, 2 fev. 1974. In: AAS 66 (1974) 15. p. 127. (Tradução disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/paul_vi/apost_exhortations/documents/hf_p-vi_exh_19740202_marialis-cultus_po.html, acesso em 10 out. 2011).

O significado Litúrgico do Domingo de Ramos


O Domingo de Ramos é a comemoração litúrgica que recorda a entrada de Jesus na cidade de Jerusalém onde Ele iria celebrar a Páscoa judaica com seus discípulos. Untitled

Ele é o portal de entrada da Semana Santa. É no Domingo de Ramos que se inicia a Semana da Paixão. É o dia em que a Igreja lembra a história e a cronologia desses acontecimentos para dele tirarmos uma lição.

Um Rei entra na cidade montando um jumento

Já desde a entrada da cidade, os filhos dos hebreus portavam ramos de oliveiras e alegres acenavam com eles, estendiam mantos no chão para Jesus passar sobre eles. Jesus entrou na cidade como Rei!

Até parece que era um desejo d’Ele que fosse assim, pois, a cena em que tudo transcorre reproduz a profecia de Zacarias: o rei dos judeus virá. Exulta de alegria, filha de Sião, solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém; eis que vem a ti o teu rei, justo e vitorioso; ele é simples e vem montado num jumento, no potro de uma jumenta.(Zc 9,9)

Embora Jesus montasse um simples jumento, o cortejo caminhava, alegre e digno. Na expectativa de estar ali o Messias prometido, Jerusalém transformou-se, era uma cidade em clima de festa.

E Ele era aplaudido, aclamado pelo povo: “Hosana ao Filho de Davi: bendito seja o que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel; hosana nas alturas”. Isto aconteceu alguns dias antes de que Jesus fosse condenado à morte, quando os ecos dos gritos de “hosana” já se misturavam ao clamor de insultos, ameaças e blasfêmias que o levariam a sua Paixão redentora.

Que tipo de Messias queriam aqueles judeus?

Da entrada festiva como rei em Jerusalém até o deboche da flagelação, da coroação de espinhos e da inscrição na cruz (Jesus de Nazaré, rei dos Judeus), somos levados a perguntar: Que tipo de rei aquele povo queria? E que tipo de rei era Jesus? Nosso Senhor era aclamado pelo mesmo povo que o tinha visto alimentar multidões. Era aplaudido por aqueles que o viram curar cegos e aleijados e, ainda há pouco, tinham presenciado a ressurreição de Lázaro.

Impressionada com tudo isso aquela gente tinha a certeza de que este era o Messias anunciado pelos Profetas. Mas, aquele povo era superficial e mundano, julgava que Jesus fosse um Messias político, um libertador social que fosse arrancar Israel das garras de Roma e devolver-lhe o apogeu dos tempos de Salomão. E nisso estavam equivocados, enganados: Ele não era um Rei deste mundo!

Seus corações apreciavam Jesus de modo incompleto

A entrada de Jesus em Jerusalém foi uma introdução para as dores e humilhações que logo Ele sofreria abundantemente: a mesma multidão que o homenageou movida por seus milagres, virou-lhe as costas e pediu sua morte.

No Domingo de Ramos fica patente como o povo apreciava Jesus de um modo incompleto. É verdade que O aclamaram, porém, Ele merecia aclamações incomensuravelmente superiores. Merecia uma adoração amorosa, bem diversa da que lhe foi dada!

No entanto, cheio de humildade, lá ia Nosso Senhor Jesus Cristo sentado num burrico, avançando em meio à multidão ruidosa, impulsionando todos ao amor de Deus.

Só uma pessoa O entendeu naquela hora

Em geral, as pinturas e gravuras apresentam Nosso Senhor olhando pesaroso e quase severo para a multidão. Para Ele, o interior das almas não oferecia segredo. Ele percebia a insuficiência e a precariedade daquela ovação.

Apenas uma pessoa percebia o que estava acontecendo com Jesus e sofria com Ele. E essa pessoa oferecia sua dor de alma como reparação de seu amor puríssimo a Nosso Senhor: era Nossa Senhora.

Mas, …que requinte de glória para Nosso Senhor! Era o maior deles porque Nossa Senhora vale incomparavelmente mais do que toda a Criação. Naquelas circunstancias, Maria representava todas as almas piedosas que, meditando a Paixão de nosso Salvador, haveriam de ter compaixão e pena d’Ele. Almas que lamentariam não terem vivido naquele tempo para poderem, então, ter tomado posição ao lado de Jesus.

Domingo de Ramos em minha vida?

Existe um defeito que diminui a eficácia das meditações que fazemos. Este defeito consiste em meditar os fatos da vida de Nosso Senhor e não aplicá-los ao que sucede em nós ou em torno de nós.

UntitledIIAssim, por exemplo, a nós espanta a versatilidade e ingratidão dos judeus que assistiram a entrada de Jesus em Jerusalém. Nós os censuramos porque proclamaram com a mais solene recepção o reconhecimento da honra que se deveria ter ao Divino Salvador e, pouco depois, O crucificaram com um ódio tal que a muitos chega a parecer inexplicável.

Essa ingratidão, essa versatilidade para mudanças de opinião e atitudes não existiram apenas nos homens dos tempos de Nosso Senhor! A atitude das pessoas contemporâneas de Jesus, festejando sua entrada em Jerusalém e depois abandonando-O à mercê de seus algozes, assemelha-se a muitas atitudes que tomamos.

Muitas vezes louvamos a Cristo e nos enchemos de boas intenções para seguir os seus ensinamentos, porém, ao primeiro obstáculo, nos deixamos levar pelo desânimo, ou pelo egoísmo, ou pela falta de solidariedade e, mais uma vez, por esse desamor, alimentamos o sofrimento de Jesus.

Ainda hoje, no coração de quantos fiéis, tem Nosso Senhor que suportar essas alternativas, essas mudanças que balançam entre adorações e vitupérios, entre virtude e pecado? E estas atitudes contraditórias e defectivas não se passam apenas no interior de alma de cada homem, de modo discreto, no fundo das consciências: Em quantos países essas alternações se passam e Nosso Senhor tem sido sucessivamente glorificado e ultrajado, em curtos intervalos espaços de tempo?

Uma perda de tempo: não reparar as ofensas a Nosso Senhor

É pura perda de tempo nos horrorizarmos exclusivamente com a perfídia, fraude e traição daqueles que estavam presente na entrada de Jesus em Jerusalém.

Para nossa salvação será útil refletirmos também em nossas fraudes e defeitos. Com os olhos postos na bondade de Deus, poderemos conseguir a emenda e o perdão para nossas próprias perfídias. Existe uma grande analogia entre a atitude daqueles que crucificaram o Redentor e nossa situação quando caímos em pecado mortal.

Não é verdade que, muitas vezes, depois de termos glorificado a Nosso Senhor ardentemente, caímos em pecado e O crucificamos em nosso coração? O pecado é um ultraje feito a Deus. Quem peca expulsa Deus de seu coração, rompe as relações filiais entre criatura e Criador, repudia Sua graça.

E é certo que Nosso Senhor é muito ultrajado em nossos dias. Não pelo brilho de nossas virtudes, mas pela sinceridade de nossa humildade nós poderemos ter atitudes daquelas almas que reparam, junto ao trono de Deus, os ultrajes que a cada hora são praticados contra Ele. As lições do Domingo de Ramos nos convidam a isso. (JG)

Fontes:

Dom Eurico dos Santos Veloso – O significado do Domingo de Ramos – CNBB -29 de Março de 2010
Felipe Aquino – O significado do Domingo de Ramos – Vida Eclesial – 30/03/2007D.
Javier Echevarría – Domingo de Ramos: Jesus entra em Jerusalém
Plinio Corrêa de Oliveira – excertos

Advento: Destinada para dar ao Senhor digna morada

Msgr Joao AUTHOR

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

O capítulo nono dos Provérbios se abre com este versículo: “A sabedoria edificou para si uma casa”. Qual é esta sabedoria e que morada construiu ela para seu uso? São Bernardo nos responde: “Esta sabedoria que era de Deus e que era Deus, vinda a nós do seio do Pai, construiu para si uma casa, e esta casa foi a Virgem Maria, sua Mãe”[1].

Casa ornada pelo Divino Arquiteto

Bernard de ClairvauxCorroborado pelas opiniões do santo Abade de Claraval e de outros eminentes varões da Igreja, escreve o Pe. Paulo Ségneri, afamado jesuíta e pregador na Corte Pontifícia, no séc. XVII:

“Segundo os santos doutores, a casa que a Sabedoria para si edificou, é a Virgem Santa que o Verbo escolheu desde toda a eternidade por Mãe. Ora, um rei poderoso e rico que deseje construir para si uma mansão, deseja, ao mesmo tempo, que nada se poupe para a regularidade, ornamento e magnificência do edifício.

“A Sabedoria Eterna faria menos por sua morada?

“Não. O Verbo, tendo resolvido tomar um corpo humano no seio de uma Virgem, e de nele permanecer nove meses, não negligenciou nada para adornar este templo de sua divindade, para enriquecê-lo de todos os seus dons, em uma palavra, para torná-lo digno de si. Deste modo a Escritura fala do Verbo sob o nome da Sabedoria, Sapientia ædificavit sibi domum, a fim de nos assinalar que é a sabedoria que Ele emprega, para escolher e formar uma criatura da qual jamais se envergonhará de ser o Filho.

“O Verbo, pois, como hábil arquiteto que nada deixa de irregular, nada de defeituoso, na obra-prima de sua arte, e que lhe dá, pelo contrário, toda a perfeição de que é capaz, o Verbo, disse, longe de suportar em sua Mãe qualquer desordem, qualquer defeito, tomará prazer em aperfeiçoá-La, como numa obra à qual preside sua sabedoria infinita.Annunciation

“Que prova nos é necessária, depois disso, das grandes prerrogativas da Santíssima Virgem? Pode alguém recusar-Lhe alguma, quando se faz a reflexão de que Ela é a casa que a Sabedoria edificou para si: Sapientia ædificavit sibi domum?”[2]

Na mesma linha seguem os comentários do Pe. Jourdain:

“Não a um homem, mas ao próprio Deus era mister preparar uma residência, a qual em tudo fosse digna do hóspede divino que a ocuparia, não por um dia, de passagem, mas para nela habitar e dela tomar os elementos de uma nova vida. […]

“Tal mansão está necessariamente ao abrigo de qualquer mácula. Ou seja, Maria, Mãe do Deus feito homem, criada e preparada por Ele para se encarnar em seu seio, foi necessariamente isenta de qualquer falta, seja atual, seja original. […] Isto não basta, acrescenta ainda Santo Agostinho; convinha que Ela fosse ornada e enriquecida de todas as virtudes: «O Filho de Deus não construiu jamais uma casa mais digna de Si do que Maria. Esta habitação nunca foi assaltada pelos ladrões, jamais atacada pelos inimigos, nunca despojada de seus ornamentos». […]

A mais ilustre habitação de Deus

“São Pedro Damião e São Jerônimo, assim entendem o capítulo III de Isaías: a Santíssima Virgem é verdadeiramente a casa de Deus, o palácio ou a corte real em que o Filho do Rei Eterno, revestido de nossa carne, fez sua entrada neste mundo. «O palácio sagrado do Rei, única habitação d’Aquele que nenhum lugar pôde conter», como diz Santo André de Creta. […]

“A Santíssima Virgem Maria é, portanto, a casa de Deus. Se, como diz o Apóstolo, «os que vivem castamente são o templo de Deus», a Virgem, a castíssima Mãe de Deus poderia não sê-lo? Sim, Ela o é, e jamais possuiu Deus moradia mais nobre e mais digna de Si. Por isto diz São Gregório: «Salve, templo vivo da Divindade! Salve, casa equivalente ao Céu e à Terra! Salve, templo digno de Deus!»”[3]

Habitação ornada com as mais belas prendas

São Alfonso Maria De LiguoriE Santo Afonso de Ligório, citando o Doutor Angélico, comenta:

“Devem ser santas e limpas todas as coisas destinadas para Deus. Por isso David, ao traçar o plano do templo de Jerusalém com a magnificência digna do Senhor, exclamou: Não se prepara a morada para algum homem, mas para Deus (IPar. XXIX, 1). Ora, o soberano Criador havia destinado Maria para Mãe de seu próprio Filho. Não devia, então, adornar-Lhe a alma com todas as mais belas prendas, tornando-A digna habitação de um Deus?

“Afirma o Beato Dionísio Cartuxo: O divino artífice do universo queria preparar para seu Filho uma digna habitação, e por isso ornou Maria com as mais encantadoras graças. Dessa verdade assegura-nos a própria Igreja. Na oração depois da Salve Rainha, atesta que Deus preparou o corpo e a alma da Santíssima Virgem, para serem na Terra digna habitação de seu Unigênito”[4].

A morada do Rei Crucificado

Finalmente, outro aspecto — talvez mais sublime que os demais — de Maria Santíssima enquanto casa de Deus, nos é apresentado por Santo Ambrósio, o pai da Mariologia ocidental. Comentando o Evangelho de São Lucas (XXIII, 33-49), designa ele a Nossa Senhora, junto à Cruz, como sendo “a morada do Rei”[5].

A isto observa, por sua vez, o beneditino D. Manuel Bonaño: “A Virgem é a corte, o palácio, a morada por excelência do grande Rei. Aos pés da Cruz, quando Nosso Senhor é por todos abandonado, Ela continua sendo sua morada, como o foi na Encarnação”[6].

Maria, templo onde Jesus quer ser invocado

Ó Jesus que viveis em Maria, vinde e vivei em vossos servos, no espírito de vossa santidade, diz a conhecida Oração a Jesus vivendo em Maria. Comentando esta passagem da mesma, assim se exprime o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:

“Jesus viveu em Maria, e, de Maria, Jesus se comunicou aos homens. Nossa Senhora é o sacrário onde está Nosso Senhor Jesus Cristo, e o santuário de dentro do qual todas as graças se difundem para o gênero humano.

“Por isso, devemos rezar a Jesus enquanto vivendo em Maria, porque Ele quer ser invocado dentro do seu templo, que é a Santíssima Virgem. Pedir a Ele o quê? Que Ele venha e viva em nós, como vivia n’Ela.

“Viver em nós, quer dizer, é ter o espírito da santidade de Jesus Cristo, que é o espírito da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. E é, portanto, o espírito «ultramontano», a expressão mais característica do espírito da Santa Igreja.

“Isto é o que devemos pedir a Jesus, por meio de Nossa Senhora, enquanto vivendo n’Ela.”

CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio.  Conferência em 23/5/1966. (Arquivo pessoal).

(Referência: CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. 2 ed. Vol. 1. São Paulo: Associação Católica Nossa Senhora de Fátima, 2010. p. 111-113)



[1] BERNARDO. Obras Completas. Madrid: BAC, 1953. Vol. I. p. 1070.

[2] SÉGNERI, Paulo. Meditações. Apud JOURDAIN, Z.-C. Somme des Grandeurs de Ma-

rie. Paris: Hippolyte Walzer, 1900. Vol. VIII. p. 1-2.

[3] JOURDAIN, Z.-C. Somme des Grandeurs de Marie. Paris: Hippolyte Walzer, 1900.

Vol. III. p. 247-248.

[4] LIGUORI, Afonso Maria de. Glórias de Maria Santíssima, 6. ed. Petrópolis: Vozes,

1964. p. 192.

[5] AMBROSIO. Obras de San Ambrosio: Tratado sobre el Evangelio de San Lucas. Ma-

drid: BAC, 1966. Vol. I. p. 612.

[6] BONAÑO, Manuel. In: AMBROSIO. Loc. cit.

Advento: significado e origem

Todos os grandes eventos exigem uma preparação. Por isso, a Igreja instituiu, na Liturgia, um período que antecede o Natal: o Advento. Mas, ao longo da história da Igreja, tomou diversas formas.

Pe. Mauro Sérgio da Silva Izabel, EP

CristopantocratorpinacotecavaticanajuizofinalReceber uma visita é uma arte que uma dona de casa exercita com freqüência. E quando o visitante é ilustre, os preparativos são mais exigentes. Imagine o leitor que numa Missa de domingo seu pároco anunciasse a visita pastoral do bispo diocesano, acrescida de uma particularidade: um dos paroquianos seria escolhido à sorte para receber o prelado em sua casa, para almoçar, após a Missa.

Certamente, durante alguns dias, tudo no lar da família eleita se voltaria para a preparação de tão honrosa visita. A seleção do menu, para o almoço, o que melhorar na decoração do lar, que roupas usar nessa ocasião única. Na véspera, uma arrumação geral na casa seria de praxe, de modo a ficar tudo eximiamente ordenado, na expectativa do grande dia.

Essa preparação que normalmente se faz, na vida social, para receber um visitante de importância, também é conveniente fazer-se no campo sobrenatural. É o que ocorre, no ciclo litúrgico, em relação às grandes festividades, como por exemplo o Natal. A Santa Igreja, em sua sabedoria multissecular, instituiu um período de preparação, com a finalidade de compenetrar todas as almas cristãs da importância desse acontecimento e proporcionar-lhes os meios de se purificarem para celebrar essa solenidade dignamente.

Esse período é chamado de Advento.

Significado do termo

Advento — adventus, em latim — significa vinda, chegada. É uma palavra de origem profana que designava a vinda anual da divindade pagã, ao templo, para visitar seus adoradores. Acreditava-se que o deus cuja estátua era ali cultuada permanecia em meio a eles durante a solenidade. Na linguagem corrente, significava também a primeira visita oficial de um personagem importante, ao assumir um alto cargo. Assim, umas moedas de Corinto perpetuam a lembrança do adventus augusti, e um cronista da época qualifica de adventus divi o dia da chegada do Imperador Constantino. Nas obras cristãs dos primeiros tempos da Igreja, especialmente na Vulgata, adventus se transformou no termo clássico para designar a vinda de Cristo à terra, ou seja, a Encarnação, inaugurando a era messiânica e, depois, sua vinda gloriosa no fim dos tempos.

Surgimento do Advento cristão

Os primeiros traços da existência de um período de preparação para o Natal aparecem no século V, quando São Perpétuo, Bispo de Tours, estabeleceu um jejum de três dias, antes do nascimento do Senhor. É também do final desse século a “Quaresma de São Martinho”, que consistia num jejum de 40 dias, começando no dia seguinte à festa de São Martinho.

São Gregório Magno (590-604) foi o primeiro papa a redigir um ofício para o Advento, e o Sacramentário Gregoriano é o mais antigo em prover missas próprias para os domingos desse tempo litúrgico.

No século IX, a duração do Advento reduziu-se a quatro semanas, como se lê numa carta do Papa São Nicolau I (858-867) aos búlgaros. E no século XII o jejum havia sido já substituído por uma simples abstinência.

Apesar do caráter penitencial do jejum ou abstinência, a intenção dos papas, na alta Idade Média, era produzir nos fiéis uma grande expectativa pela vinda do Salvador, orientando-os para o seu retorno glorioso no fim dos tempos. Daí o fato de tantos mosaicos representarem vazio o trono do Cristo Pantocrator. O velho vocábulo pagão adventus se entende também no sentido bíblico e escatológico de “parusia”.

O Advento nas Igrejas do Oriente

01AdventusaugustiimperadoradrianoromaNos diversos ritos orientais, o ciclo de preparação para o grande dia do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo formou-se com uma característica acentuadamente ascética, sem abranger toda a amplitude de espera messiânica que caracteriza o Advento na liturgia romana.

Na liturgia bizantina destaca-se, no domingo anterior ao Natal, a comemoração de todos os patriarcas, desde Adão até José, esposo da Santíssima Virgem Maria. No rito siríaco, as semanas que precedem o Natal chamam-se “semanas das anunciações”. Elas evocam o anúncio feito a Zacarias, a Anunciação do Anjo a Maria, seguida da Visitação, o nascimento de João Batista e o anúncio a José.

O Advento na Igreja Latina

É na liturgia romana que o Advento toma o seu sentido mais amplo.

Muito diferente do menino pobre e indefeso da gruta de Belém, nos aparece Cristo, no primeiro domingo, cheio de glória e esplendor, poder e majestade, rodeado de seus Anjos, para julgar os vivos e os mortos e proclamar o seu Reino eterno, após os acontecimentos que antecederão esse triunfo: “Haverá sinais no Sol, na Lua e nas estrelas; e, na Terra, angústia entre as nações aterradas com o bramido e a agitação do mar” (Lc 21, 25).

“Vigiai, pois, em todo o tempo e orai, a fim de que vos torneis dignos de escapar a todos estes males que hão de acontecer, e de vos apresentar de pé diante do Filho do Homem” (Lc 21, 36). É a recomendação do Salvador.

Como ficar de pé diante do Filho do Homem? A nós cabe corar de vergonha, como diz a Escritura. A Igreja assim nos convida à penitência e à conversão e nos coloca, no segundo domingo, diante da grandiosa figura de São João Batista, cuja mensagem ajuda a ressaltar o caráter penitencial do Advento.

Com a alegria de quem se sente perdoado, o terceiro domingo se inicia com a seguinte proclamação: “Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está perto”. É o domingo Gaudete. Estando já próxima a chegada do Homem-Deus, a Igreja pede que “a bondade do Senhor seja conhecida de todos os homens”. Os paramentos são cor-de-rosa.

No quarto domingo, Maria, a estrela da manhã, anuncia a chegada do verdadeiro Sol de Justiça, para iluminar todos os homens. Quem, melhor do que Ela, para nos conduzir a Jesus? A Santíssima Virgem, nossa doce advogada, reconcilia os pecadores com Deus, ameniza nossas dores e santifica nossas alegrias. É Maria a mais sublime preparação para o Natal.

Com esse tempo de preparação, quer a Igreja ensinar-nos que a vida neste vale de lágrimas é um imenso advento e, se vivermos bem, isto é, de acordo com a Lei de Deus, Jesus Cristo será nossa recompensa e nos reservará no Céu um belo lugar, como está escrito: “Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam” (1Cor 2, 9).

Corpus Christi e o convívio sagrado

Imaginemos alguém que tivesse presenciado, com enlevo, os milagres com os quais Nosso Senhor Jesus Cristo demonstrou sua divindade — aqui a multiplicação dos pães e dos peixes, ali a cura de um paralítico, acolá o andar sobre as águas do mar da Galileia e, ainda mais, a ressurreição de mortos: a filha de Jairo, o filho da ­viúva de Naim, e Lázaro, que já estava no sepulcro havia quatro dias…062

E tivesse ouvido as palavras do Mestre, pervadidas de divina sabedoria, com as quais Ele ensinava e atraía as multidões — “O Reino dos céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma de grande valor, vai, vende tudo o que possui e a compra” (Mt 13, 45-46); “bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus!” (Mt 5, 8).

Enfim, alguém que tivesse convivido com Ele, testemunhando sua infinita bondade refletida no olhar, no tom de voz, no modo de dizer: “Tem confiança, Minha filha, tua fé te salvou” (Mt 9, 22); “Vai e não tornes a pecar” (Jo 8, 11); ou ainda: “Quem der testemunho de Mim diante dos homens, também Eu darei testemunho dele diante de Meu Pai que está nos Céus” (Mt 10, 32).

Essa mesma pessoa, ao vê-lo elevar-se aos Céus, no dia da Ascensão, bem poderia sentir um constrangimento no fundo de seu coração e se perguntar: “Mas, então tudo vai acabar? Os homens — por quem Nosso Senhor Se encarnou e morreu na Cruz —, e esta terra — cujos caminhos foram trilhados por Seus divinos pés, cujas águas O banharam, cujas brisas O acariciaram — nunca mais poderão conviver com Ele?”.

Se é normal que o coração aperte pela ausência de um ente querido, o que dizer em relação ao próprio Deus? Assim, o firmamento, a natureza, o gênero humano, talvez até mesmo os Anjos, tudo implorava que Nosso Senhor não se afastasse dos homens. “Fica conosco!” (Lc 24, 29) — a súplica dos discípulos de Emaús representava o apelo de todo o universo criado.

Também da parte de Jesus havia o desejo de nunca mais se separar daqueles com os quais condescendeu em contrair uma relação especial. O amor do Criador pelas criaturas é infinitamente maior do que o destas para Deus. Ele, portanto, desejava ficar conosco. Mas como se faria essa maravilha?

Nem os Anjos e os homens reunidos conseguiriam encontrar a solução apresentada. Só mesmo o Homem-Deus poderia excogitar a Sagrada Eucaristia. Só Ele poderia realizar para nós tal milagre, e com todo o amor, a ponto de também ter ansiado a hora em que pudesse torná-la realidade. “Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de sofrer” (Lc 22, 15) — confidenciou-lhes na Santa Ceia.

A festa de Corpus Christi vem comemorar esse incomparável dom feito a nós, o místico convívio com o próprio Jesus, cumulando de méritos nossa fé, ao contemplarem nossos olhos aquele pão e vinho consagrados, mas que na realidade, substancialmente, são o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de nosso Redentor. Ele penetra, em nosso interior, para nos aconselhar, confortar e santificar. Numa palavra: para conviver conosco.

A origem da Festa do Corpo de Deus

Um portentoso milagre está na raiz da tradicional Festa de Corpus Christi, celebrada solenemente em todo o mundo católico.

Pe. David C. Francisco, EP

A hóstia gotejou sangue

No longínquo ano de 1263, caminhava para Roma um sacerdote de nome Pedro, originário de Praga, segundo a tradição. Encontrando-se muito tentado em sua crença na presença real de Cristo na hóstia consagrada, fazia uma peregrinação para revigorar sua fé vacilante, pois sua identidade sacerdotal estava em jogo naquele atormentado período de sua vida. Ao se aproximar de Bolsena, decidiu entrar na cidade para prostrar-se diante do túmulo de Santa Cristina — mártir dos primeiros séculos do Cristianismo, da qual era muito devoto — e ali celebrar a Eucaristia.

Durante a Missa, voltou-lhe à mente a dúvida atroz que o atormentava, e ele pediu com insistência a intercessão da Santa a fim de conseguir aquela mesma fortaleza na Fé que a fez enfrentar o martírio.

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No momento da Consagração, tendo a hóstia em suas mãos, pronunciou as palavras rituais: “Isto é meu Corpo…”. Imediatamente ocorreu o milagre: a hóstia tomou uma tonalidade avermelhada e começou a gotejar sangue, o qual caiu copiosamente sobre o corporal. Os fiéis presentes também puderam contemplar o acontecimento e, estupefatos, comentavam-no com a vivacidade característica da região.

Como prosseguir a celebração depois dessa impressionante manifestação divina? Faltou ânimo ao sacerdote. Tomado de imensa alegria e, ao mesmo tempo, de grande comoção, interrompeu a Missa, envolveu no corporal as espécies eucarísticas e dirigiu-se à sacristia.

Sua torturante dúvida estava desfeita, sentia a alma cheia da Fé na presença real de Cristo na Eucaristia, e o coração transbordante de gratidão a Deus e à sua santa intercessora.

Passados os momentos iniciais de forte emoção, decidiu ele ir sem demora comunicar o milagre ao Papa Urbano IV, que então residia temporariamente na vizinha cidade de Orvieto. Desejava também confessar ao Vigário de Cristo seu pecado de dúvida e pedir-lhe a absolvição.

Averiguações e confirmação do milagre

Com toda paternalidade, o Pontífice atendeu-o, juntamente com os clérigos e demais testemunhas do prodígio. Depois de ouvir com atenção todos os detalhes do acontecimento, resolveu enviar a Bolsena uma comissão chefiada pelo próprio Arcebispo de Orvieto — consta que dela faziam parte São Tomás de Aquino e São Boaventura —incumbida de fazer uma rigorosa averiguação dos fatos e, se confirmado o milagre, trazer as preciosas relíquias até ele.

Após cuidadosas verificações, a comissão concluiu que tinha havido realmente um milagre. Formou-se então uma esplendorosa procissão para conduzir as inapreciáveis relíquias. Dela participavam os dignitários e uma multidão de fiéis da cidade de Bolsena, agitando ramos de oliveira. A seu encontro, veio de Orvieto outra procissão, formada pelo Papa, sua corte, os membros do clero e numeroso povo.

Urbano IV prostrou-se de joelhos em terra para receber a Sagrada Hóstia envolta no corporal de linho impregnado do Preciosíssimo Sangue de nosso Redentor. Em seguida, dirigiram-se todos para a velha catedral. Ali, as Sagradas Espécies e o corporal foram mostrados ao público exultante de alegria e emoção, antes de serem colocados no sacrário.

Com toda a Igreja, tinha o Papa conhecimento do famoso milagre de Lanciano, em que a hóstia e o vinho consagrados se transformaram em carne e sangue visíveis e tangíveis, conservando-se assim, sem se decompor, desde o século oitavo. Além disto, ele fora confidente de Santa Juliana de Mont Cornillon, a qual, em visões místicas, recebera dos Céus a incumbência de transmitir à Igreja o desejo divino de ser incluída no Calendário Litúrgico uma festa em honra da Eucaristia.

Instituição da Festa do Corpo de Deus

E, agora, diante do acontecido em Bolsena, não lhe restava mais nenhuma dúvida sobre o que lhe competia fazer.

Assim, no dia 11 de agosto de 1264, através da bula Transiturus de Hoc Mundo, instituiu a Festa de Corpus Christi, estendendo para todo o orbe cristão o culto público à Sagrada Eucaristia, que era oficiado apenas em algumas dioceses, por influência de Santa Juliana.

Cinqüenta anos mais tarde, o Papa Clemente V tornou obrigatória a celebração dessa Festa da Eucaristia. E o Concílio de Trento, em meados do século XVI, oficializou as procissões eucarísticas, como ação de graças pelo dom supremo da Eucaristia e como manifestação pública de fé na presença real de Cristo na Hóstia Sagrada.

Estava, assim, instaurada em toda a Igreja a “Festa em que o Povo de Deus se reúne à volta do tesouro mais precioso herdado de Cristo, o Sacramento de sua própria Presença, e O louva, canta e leva em procissão pelas ruas da cidade” (João Paulo II, Homilia durante a solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, 14/6/2001).

Para conter as preciosas relíquias do milagre de Bolsena, a piedade católica fez confeccionar um esplendoroso relicário e, depois, erigir a belíssima Catedral gótica de Orvieto, cuja fachada colorida até hoje é objeto de admiração no mundo inteiro.