Formação doutrinal dos Sacerdotes

“Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna?” (cf. Lc 10, 25). Essa pergunta, que passou para a história como parte de uma conspiração contra Nosso Senhor Jesus Cristo, não era de todo original. Desde os primórdios, a humanidade conhecedora ou não da Revelação, se interroga sobre como fazer para possuir uma perene vida feliz. Todavia, nem sempre essa incessante busca tem se deparado com a resposta acertada. Mas, aquele doutor da lei que inquiriu Nosso Senhor Jesus Cristo parece tê-la encontrado, ainda que só teoricamente: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu pensamento; e a teu próximo como a ti mesmo. Falou-lhe Jesus: Respondeste bem; faze isto e viverás” (cf. Lc 10, 27).

“E quem é o meu próximo?” (cf. Lc 10, 29). Apesar de suas más intenções, o soberbo doutor, sem querê-lo, dava a Nosso Senhor a possibilidade de criar uma das mais belas expressões de sua sabedoria divina: a conhecida parábola do bom samaritano, ao termo da qual Jesus mesmo deu-lhe a possibilidade de descobrir a resposta acertada à sua pergunta insidiosa: “Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? Respondeu o doutor: Aquele que usou de misericórdia para com ele. Então Jesus lhe disse: Vai, e faze tu o mesmo” (cf. Lc 10, 37). E o colóquio narrado pelo Evangelho, ofereceu categoricamente o caminho para a eternidade feliz: as obras de misericórdia para com o próximo.

O Bom Samaritano, por Francesco Fontebasso. Museu Diocesano de Trento - Italia
O Bom Samaritano, por Francesco Fontebasso. Museu Diocesano de Trento – Italia

Poucos são os que conhecem com profundidade o verdadeiro significado cristão do termo misericórdia, em toda a sua explicável abrangência. Ao ouvir falar dessa virtude, há quem faça cogitações sobre a necessidade de empreender obras sociais que assistam enfermos, famulentos, cativos, e, enfim, todo tipo de pessoas que passam por situações adversas na sua vida material. De fato, ajudar quem esteja em circunstâncias como essas é algo admirável, mas não encerra as possibilidades de fazer o bem, sobretudo o bem misericordioso. Assim, para guiar os bons corações, cheios de sadio altruísmo, a Igreja define as obras de misericórdia inspiradas no verdadeiro espírito cristão. Ela, de fato, considera que a misericórdia inclina os homens a ter uma equilibrada compaixão em relação à miséria do outro e os inspira a auxiliá-lo. Entretanto, demonstra ser equivocado pensar que só existem misérias no campo material. E, ponderando a supremacia da alma em relação ao corpo, defendida pela filosofia antiga e ostentada pelo cristianismo, é de se considerar com que importância se deve distinguir e realizar as obras de misericórdia espirituais.

Entre as obras de misericórdia que desempenham os Arautos do Evangelho, têm primazia a instrução ou formação daqueles que se dedicarão ao ministério sagrado. É bem verdade que cada instituição procura desenvolver suas atividades de acordo com seu carisma próprio. Para os Arautos do Evangelho, operar a formação de seus futuros sacerdotes com beleza significa educá-los, antes de tudo, seguindo o verdadeiro tesouro que a Igreja oferece em seus documentos sobre a formação sacerdotal. Neste artigo, procuraremos abordar a linha mestra que orienta os Arautos do Evangelho na formação de seus seminaristas, na perspectiva de que estes educarão na fé outros fiéis para a Igreja de Deus.

Ao preocupar-se com a formação doutrinária a ser ministrada no seminário dos Arautos do Evangelho, seu fundador, Mons. João Scognamiglio Clá Dias, logo percebeu a grave necessidade de conscientizar os envolvidos nesta educação intelectual e os próprios seminaristas, sobre o que a Igreja quer transmitir acerca dessa formação. Ou seja, com que estado de espírito os professores deveriam ministrar suas aulas e os alunos receber os conhecimentos delas oriundos. Dentre os muitos aspectos que se poderia tratar a respeito da maneira como os Arautos desempenham essa obra de misericórdia – a instrução –, fixemos a atenção neste ponto: o juízo que se deve fazer a respeito do tema estudos, assunto que se reveste de grande relevância, como teremos a oportunidade de verificar.

Missa de abertura do ano letivo, Basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima - Arautos do Evangelho, São Paulo - Brasil
Missa de abertura do ano letivo, Basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima – Arautos do Evangelho, São Paulo – Brasil

O primeiro pressuposto para compreender o modo como determinada ação deve ser conduzida é a compreensão de sua finalidade. O princípio se aplica de maneira especial aos estudos seminarísticos. A concepção acerca do modo como esses devem ser dirigidos deve se basear, antes de tudo, em seu objetivo final. Então, para que servem os estudos no seminário? Por que os futuros padres devem se dedicar intensamente à sua própria instrução?

Por simples que pareça essa pergunta, a resposta a ela é um tanto complexa. Primeiramente porque a instrução doutrinária, mesmo voltada especificamente para o desenvolvimento intelectual dos seminaristas, se encaixa num objetivo mais geral da formação oferecida nos seminários, atrelando-se também a outras dimensões dessa mesma formação.[1] Isso significa que, para descobrir a finalidade da formação doutrinária, é necessário, em primeiro lugar, descobrir a finalidade da formação sacerdotal como um todo. Qual é então esse objetivo geral, para o qual devem estar voltadas a formação pastoral, espiritual, disciplinar, e também doutrinal? Um documento lançado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil responde a essa questão de modo claro e preciso: o objetivo geral da formação dos candidatos à vida presbiteral é levá-los a ser santos.[2]

Assim, através de um entrelaçamento das atividades que a casa de formação oferece, todos os aspectos da formação sacerdotal devem estar harmonicamente coordenados entre si pelos superiores dos seminários para atingirem esse fim primordial, a santidade dos futuros sacerdotes.[3] Todas elas precisariam se dirigir em conjunto para um plano educativo comum, e nenhuma delas, nem mesmo a formação doutrinária, pode ser considerada de maneira autônoma ou independente.[4]

De acordo com a ciência canônica, a proposta de fazer com que os diversos traços da formação sacerdotal se voltem em conjunto para uma finalidade comum é um dos aspectos da normativa da Igreja que sofreu uma evolução: os preceitos relativos à formação dos candidatos ao ministério sagrado encontravam-se, no Código de 1917, sob a rubrica do Magistério Eclesiástico, e davam ao assunto uma nota meramente acadêmica.[5] No Código atual, o tema se encontra num capítulo voltado para a formação dos clérigos, sublinhando, desta forma, os múltiplos aspectos da formação: psicológica, afetiva, acadêmica, espiritual, e outros.[6]

Desse modo, os estudos, harmonicamente conjugados com os outros elementos da formação sacerdotal, devem ser, antes de tudo, um fator de contribuição para a santificação dos alunos que se preparam para a vida ministerial. Nesse sentido, conforme afirmara Mons. João Clá numa homilia para professores e seminaristas, a inteligência terá um papel fundamental: “(…) se eu ampliar muito a minha inteligência, terei mais facilidade em praticar a virtude e em ser santo”.[7] E é procurando atingir essa finalidade – a santidade – que os Arautos desenvolvem a formação intelectual de seus candidatos ao ministério sagrado. Como procuram fazê-lo?

A atenção para com a formação intelectual dos sacerdotes sempre esteve presente na Igreja, mas suas explicitações acerca de certas peculiaridades parecem ter atingido um ápice nos últimos séculos de sua atuação nesse campo. Numa Carta Encíclica devotada ao tema do Sacerdócio Católico[8], escrita pelo Papa Pio XI, o Pontífice, demonstrando especial preocupação no que tange à intelectualidade dos seminaristas, salientava a importância da escolha dos professores.[9] Seu discurso voltava-se curiosamente para a capacidade que os encarregados da formação deveriam ter em ensinar mais pelo exemplo do que com a palavra, e em infundir, juntamente com a formação doutrinária, um espírito sólido, varonil e apostólico, que fizesse nascer a piedade e outras virtudes.[10] Ademais, o documento alertava que os estudos deveriam ser uma armadura contra tentações ou perigos mais graves.[11]

O Papa Pio XII, na exortação apostólica Menti Nostrae também estreita os laços entre desenvolvimento intelectual e espiritual na formação sacerdotal.[12] Recordava que para santificar-se, ou santificar aos outros, é necessário estar preparado por uma sólida doutrina.[13] Segundo o documento, os mestres da vida espiritual consideram o estudo das ciências sagradas, quando ministrado adequadamente, um alimento para o espírito de fé[14]; e, ao recomendar uma forte preparação intelectual, advertia a necessidade de ter certo equilíbrio e cuidado, pois uma formação doutrinal mal oferecida poderia representar para o clero um perigo de danos incalculáveis.[15]

Como se pode perceber por meio da leitura desses documentos, a Igreja não faz, de fato, uma dissociação entre os estudos e outros aspectos da formação sacerdotal; ao contrário, é notável o cuidado em associar a instrução com a vida espiritual dos seminaristas. E é assim que os Arautos do Evangelho promovem a santidade através do estudo: harmonizando-o com a vida de piedade. A respeito dessa sadia harmonia entre vida de estudo e vida de oração, asseverava o fundador dos Arautos: “Estudo sem oração é um suicídio! Porque nós aprendemos, é verdade, não tem dúvida, porque estudamos; mas é preciso aprender não só com a cabeça, é preciso aprender com o coração. Porque o homem é um todo, ele é corpo e alma, e ele precisa dar vida, dar substância a esta participação que ele tem na vida do próprio Deus, com o Batismo. E isto se faz muito mais pela oração do que pelo estudo”.[16]

Essa orientação é muito atual, pois se encontra expressa no Código de 1983.[17] Na verdade, os documentos acima mencionados estão entre as principais fontes de um dos cânones do atual código, voltado para a formação intelectual dos sacerdotes, que destaca justamente a necessidade de uma conformidade entre a formação doutrinária e a vida espiritual dos seminaristas.[18] De fato, entre a formação doutrinal[19], a vida de fé e a vida espiritual dos alunos, deve haver uma estreita afinidade.[20] Elas não podem estar desconexas entre si.[21] E Mons. João dá as diretrizes para se conjugar esses aspectos da formação sacerdotal: “(…) nada melhor do que um estudo feito, em comunidade, dentro de um ritmo de vida religiosa, com uma substância enorme de orações pelo meio, pervadido de orações e regado por orações. Porque aí sim nós temos as duas asas: uma que se desenvolve para conhecer e outra que se desenvolve para amar, e aí se voa. Porque voar com uma asa só, a gente começa a rodopiar e vai lá para baixo”.[22]

Submetendo-se a todas essas considerações, a formação doutrinária nos Arautos não é apreciada como um componente a mais da formação dos seminaristas, mas um eficaz recurso que faça com que eles adiram à Palavra de Deus, cresçam em sua vida espiritual e, assim, disponham-se para o exercício do ministério pastoral.[23] E isso diz respeito de maneira especial aos estudos teológicos, pois os que se dedicam a eles devem ser, de acordo com a Pastores dabo Vobis, verdadeiros crentes, homens de fé, que falam sobre sua própria fé.[24] Não é sem razão que este curso preenche a maior parte da vida dos Arautos que se preparam para o ministério sagrado.

Desse modo, uma das notas dominantes da formação nos Arautos do Evangelho é o cuidado de não proporcionar aos candidatos ao sacerdócio uma consciência equivocada a respeito dos estudos que precedem a ordenação sacerdotal. A Exortação Apostólica Pós-sinodal Pastores dabo vobis incita a que os formadores não apresentem os estudos preparatórios para o sacerdócio com caráter meramente científico.[25] A respeito desse ponto, alertava o fundador dos Arautos: “E aí nós vemos que cuidado devemos ter quando nós começamos a estudar, porque o estudo não deve partir do raciocínio da inteligência. O estudo deve partir da Fé apoiada e sustentada pela virtude, e depois vem todo o resto”.[26]

Isso significa que se deve aplicar todo o esforço necessário para que os seminaristas não estudem com a impostação de meros cientistas da fé[27], mas sim tomados de entusiasmo para com a doutrina que assimilam: “O estudo deve ser feito com o intuito de crescer no amor, de crescer na fé”.[28]

Mons. João S. Clá Dias, Fundador dos Arautos do Evangelho
Mons. João S. Clá Dias, Fundador dos Arautos do Evangelho

Só com o espírito contemplativo é possível ser teólogo e santo, como um São Tomás de Aquino, um São Boaventura e tantos outros. Depois da dissociação entre as potências intelectual e volitiva, causada pelo pecado original, o homem é capaz de saber muitas coisas sobre Deus, sem, todavia, entregar-lhe o coração. Isso justifica a pergunta: “Por que os teólogos não são todos eles os que mais louvam a Deus? Pois há teólogos que não conseguem louvar a Deus. Por quê? Porque conhecer a Deus não é só conhecer teologia, conhecer a Deus não é só estudar; o estudo ajuda, sem nenhuma dúvida, mas desde que a pessoa se identifique com os desejos de Deus a seu respeito. E identificar-se exige conhecimento de contemplação”.[29]

Com efeito, da admiração e da meditação provém a transformação interior, dela o louvor perfeito e a glorificação, como fez de forma insuperável Nossa Senhora em seu Magnificat. Com os olhos postos n’Ela, a alma contemplativa por excelência, em cujo coração se conservavam e se aprofundavam os mais sublimes mistérios da salvação, os Arautos desejam formar uma geração de teólogos exímios, cheios de fogo do Espírito Santo, capazes de contagiar entusiasticamente os fieis, com a verdadeira doutrina da Santa Igreja, a Mãe indizivelmente amada, que nos une a Maria e, por Maria, a Jesus.

Pe. Carlos Adriano Santos dos Reis, EP (Extraído de “Retrospectiva 2013-2014”)

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[1] Cf. Ioannes Paulus PP. II, Adhortationes Apostolicae: Pastores dabo vobis (25 Martii 1992), in AAS LXXXIV (1992), pp. 748-750, n. 51.

[2] Cf. V. dos Santos Goulart, Pe., Diretrizes para a formação, p. 45.

[3] Cf. D. Cito, in Comentario exegético, p. 246.

[4] Cf. Idem, ibidem.

[5] Cf. J. Hortal Sánchez, SJ. Comentários e notas, p. 130.

[6] Cf. Idem, ibidem.

[7] Clá Dias, João S. Homilia da 6ª feira da I semana da Quaresma. Caieiras, 6 mar. 2009.

[8] Cf. Pius PP. XI,  Litterae Encyclicae: Ad Catholici Sacerdotii (20 Decembris 1936) in AAS XXVIII, (1936), p 26, n. 50.

[9] Cf. Idem, ibidem.

[10] Cf. Idem, ibidem.

[11] Cf. Idem, ibidem.

[12] Cf. Pius PP. XII, Apostolica Adhortatio: Menti Nostrae (23 Septembris 1950), in AAS XXXXII (1950), p. 667, n. 33.

[13] Cf. Idem, pp. 678-679, n. 65.

[14] Cf. Idem, pp. 687-688, n. 86.

[15] Cf. Idem, p. 689, n. 89.

[16] Clá Dias, João S. Homilia da segunda-feira da Oitava de Páscoa. Caieiras, 5 abr. 2010.

[17] CIC-1983, c. 244. Alumnorum in seminario formatio spiritualis et institutio doctrinalis harmonice componantur, atque ad id ordinentur, ut iidem iuxta uniuscuiusque indolem una cum debita maturitate humana spiritum Evangelii et arctam cum Christo necessitudinem acquirant.

[18] Cf. D. Cito, in Comentario exegético, p. 245.

[19] Cf. G. Ghirlanda, O Direito na Igreja, p. 149.

[20] Cf. Idem, ibidem.

[21] Cf. Idem, ibidem.

[22] Homilia da quinta-feira da 9ª semana do Tempo Comum. Mairiporã, 5 jun. 2008.

[23] Cf. Ioannes Paulus PP. II, Adhortationes Apostolicae: Pastores dabo vobis (25 Martii 1992), in AAS LXXXIV (1992), pp. 748-750, n. 51.

[24] Cf. Idem, pp. 751-753, n. 53.

[25] Cf. Idem, ibidem.

[26] Clá Dias, João S. Homilia do sábado da Oitava da Páscoa. Mairiporã, 14 abr. 2007.

[27] Cf. Ioannes Paulus PP. II, Op. Cit., pp. 748-750, n. 51.

[28] Clá Dias, João S. Homilia. Mairiporã, 14 abr. 2007.

[29] Clá Dias, João S. Homilia na Festa de Nossa Senhora de Guadalupe. Caieiras, 12 dez. 2009.

Entranhas de misericórdia

 

Crucifixão, por Guillermo Forchondt. Museu de La Rioja - Logrono, Espanha
Crucifixão, por Guillermo Forchondt. Museu de La Rioja – Logrono, Espanha

“Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5, 7). Eis a bela promessa feita pelo Salvador no Sermão da Montanha. Ela soa aos ouvidos como o rumor de uma fonte de águas cristalinas. Nenhuma tarefa parece mais simples e bela, e, ao mesmo tempo, tão bem recompensada. Ser compassivo para com os outros, ajudá-los em suas necessidades, não são sentimentos nobres, que muitas vezes nascem espontaneamente? Pois bem, aos que assim agirem, espera a benevolência torrencial da parte do próprio Deus.

A misericórdia é atribuída a Deus nas Escrituras abundantes vezes, como sendo a bondade gratuita e copiosa, distribuída pela dadivosidade divina. É, por assim dizer, o contrapeso da justiça, virtude pela qual se dá a cada um o que lhe é devido: suum cuique tribuere. Por isso, afirma Cornélio a Lapide: “misericordia justitiam dulcorat et temperat”.[1] O Senhor, como lê-se no Êxodo (34, 6-7), é “misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel, que conserva a misericórdia por mil gerações e perdoa culpas, rebeldias e pecados, mas não deixa nada impune, castigando a culpa dos pais nos filhos e netos, até a terceira e quarta geração”.

Porém, se procurássemos explicitar em que consiste a misericórdia, não seria fácil obter um consenso, mesmo entre os católicos. Para uns seria um nobre sentimento de solidariedade, para outros a prática da esmola, ou, ainda, uma vaga filantropia baseada em ações de cunho social e beneficente. Afinal, qual é a misericórdia a que faz referência Jesus no Evangelho?

Antes de tudo, esta consiste na generosidade do Pai do Céu, que ultrapassa todos os méritos dos homens, mesmo os dos mais perfeitos. Ele, no seu infinito desvelo, nos premeia com tesouros de graça e de glória, impossíveis de serem conquistados com nossas boas obras. Não há penitências, nem atos de heroísmo, por mais árduos e audazes, capazes de tornar o homem digno da visão de Deus por toda a eternidade. Por essa razão, São Paulo estimava em nada os padecimentos desta vida, em comparação com a glória que nos espera (cf Rm 8, 18).

Para merecer tal prêmio, Jesus ensinou a seus discípulos – pelas suas palavras e exemplos – o bom caminho. O Divino Mestre indica a seus seguidores a necessidade de serem, por sua vez, pródigos e bondosos em relação a seus próximos, dando-lhes mais do que merecem por justiça. A parábola do servo impiedoso o mostra com toda a clareza. A falta de perdão por uma pequena dívida compromete a grande clemência concedida pelo Senhor, que o repreende dizendo: “Servo malvado, eu te perdoei toda a tua dívida, porque me suplicaste. Não devias ter tu também compaixão de teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?” (Mt 18, 32-33) Eis a essência da misericórdia a ser praticada pelos cristãos, se desejam receber o prêmio da liberalidade divina.

E, mais que a esmola, o alimento corporal, o agasalho e outras ações tão nobres, Jesus nos ensina a prática de uma misericórdia espiritual. O Reino de Deus, tal como ouvimos de seus lábios, se baseia no perdão das ofensas, na dedicação da existência ao bem do próximo, na evangelização, no dar a própria vida a fim de tirar os homens das trevas da ignorância e obter-lhes a salvação. Tais atitudes as pôs em prática, e com suma perfeição e zelo, o Divino Mestre. Lembremos apenas um comovedor episódio: a salvação outorgada ao ladrão arrependido no alto do Gólgota.

Dimas, como o chama a tradição, atado à sua bem merecida cruz, mostrara uma profunda humildade, reconhecendo a sua culpa e confessando a inocência de Jesus. E, em prêmio pela sua atitude submissa, recebeu o dom da fé, pois, vendo diante de si um crucificado, desfigurado e moribundo, o proclamou Rei de um poder superior à mesma morte: “Jesus, lembra-te de mim quando começares a reinar” (Lc 23, 42). Naquele trágico momento a fé do ladrão foi maior que a dos próprios apóstolos, covardemente ausentes. Porém, o Divino Redentor à fé acrescentou a promessa da salvação, mediante um solene juramento: “em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Que abismo de bondade, fazer de um maltrapilho e delinquente, um herdeiro do Reino dos Céus! Sim, Jesus, com entranhas de misericórdia, abriu o céu a um pobre ladrão, humilhado pelas suas culpas. Eis a obra de misericórdia por excelência: transmitir a Fé verdadeira e, com ela, fazer entrar o Sol de Justiça na vida de nossos próximos.

Os Arautos do Evangelho, conscientes das carências espirituais de tantos jovens e adultos, contemplam o exemplo de Cristo no alto da Cruz, e procuram entregar a Ele suas vidas – como Ele o fez pelos pecadores –, pondo-as a serviço do próximo, num grande projeto de misericórdia, cujo Inspirador e Autor não é outro senão o Divino Mestre, sem o qual nada de bom se faz (cf Jo 15, 5). Formar, do ponto de vista humano e cristão, transmitir a Fé católica nos seminários maiores e menores, nas escolas, nos hospitais, na catequese e, ainda, proporcionar auxílio material, eis as obras de misericórdia exercidas por esses seguidores de Cristo.

Pe. Carlos Javier Werner Benjumea, EP (Extraído de “Retrospectiva 2013-2014”)

 

[1] Commentaria in quatuor evangelia. Roma: Marietti, 1941, p. 201

Lição de vida dadas por Jó, o sofredor

Per crucem ad lucem. Com esta frase São Bruno resumiu a vida dos Cartuchos. A partir dos sofrimentos aceitos por amor de Deus chegamos às glórias eternas. Contudo, esse inspirado lema se aplica não só aos religiosos da cartucha, mas a todo e qualquer homem. A veracidade cristalina que dele transparece nos afigura como de uma grande simplicidade, sobretudo se consideramos a vida humana a partir do prisma católico. No entanto não foi essa a opinião dos homens durante muitos séculos.

São Bruno. Paróquia São João Batista, Gran Canária, Espanha
São Bruno. Paróquia São João Batista, Gran Canária, Espanha

“Se sou justo serei prospero; se sobrevierem desgraças, é sinal que sou pecador.” Esse foi o principal pensamento que regeu a sociedade antiga, inclusive entre o povo eleito. (cf. Dt 11, 13 s.; Gn 12, 2; Ex 20, 12)

No entanto, com a Revelação trazida por Nosso Senhor Jesus Cristo esse pensamento simplista foi aos poucos mudando. E lendo-se o Livro de Jó podemos perceber a concretização de uma nova maneira de encarar o prêmio e o castigo.

O tema central do Livro é a tragédia de um justo, o qual era próspero e gozava de abundância de bens naturais. Entretanto, querendo Deus aquilatar o valor de sua virtude, permite que sobre ele caiam inúmeros castigos. Esse drama, que possui dois estilos – prosa e poema – nos traz uma verdadeira inovação teológica: o justo também pode sofrer.

Podemos encontrar nesse livro uma estrutura harmônica que se divide em: duas partes em prosa e um corpo central em poema. As partes em prosa são a introdução e o epílogo final, que narram respectivamente a vida de um justo prospero que é castigado por Deus e a recompensa recebida por Jó devido a sua fidelidade em todas as desgraças.

Já o corpo central do texto, que é redigido em estilo poético, se compõe da apresentação de três amigos que sabendo das desgraças sofridas por Jó, vão visitá-lo; a disputa desses três visitantes com Jó, querendo imputar-lhe alguma culpa, as respostas de Jó às acusações de seus companheiros; a apresentação de um novo personagem, Elius, que por sua vez também quer encontrar alguma causa a tais desgraças; e por fim a intervenção final de Deus, apresentando a solução final da discussão.

A crítica moderna veio ao encontro desse magnífico escrito, com o intuito de pôr o problema da existência e historicidade de Jó. Na tradição bíblica encontramos um justo com o nome de Jó, posto em equivalência a Noé e Daniel (Ez 14, 14 e Eclo 49, 9). No entanto o livro de Jó possui certos fatos que nos fazem entrever um certo caráter alegórico do texto bíblico, por exemplo a assistência de Satanás ao conselho de Deus. Assim nos diz Garcia Cordero de Perez Rodriguez: “Isto nos dá a entender o caráter convencional do relato, que se desenvolve essencialmente como uma composição dramática redigida em função da demonstração de uma tese: não há conexão necessária entre o pecado e o sofrimento.” (1967, p. 18)

Quanto à sua canonicidade, o livro de Jó já era muito utilizado pelos apóstolos em suas cartas como um escrito inspirado (cf. Tg 5, 11 e 1Cor 3, 19). Também os Santos Padres davam testemunho do caráter sagrado da história do justo de Hus. Apenas Teodóro de Mopsuestia (séc. VI) tentou negar a inspiração desse livro, e foi condenado pelo segundo Concílio de Constantinopla (553).

Apesar de este livro ter uma inovação teológica para a sua época, ainda falta-lhe um passo: é verdade que o justo também pode padecer, e ainda mais, o seu prêmio não se encontra nesta terra, e sim no post mortem. Essa nova visão começa a se desenvolver no séc. II a. C. no livro da Sabedoria. Entretanto, tal doutrina só atingirá sua plenitude com a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo.

É Nosso Senhor a causa exemplar de todo cristão, e tendo Ele sofrido, também nós devemos sofrer, mas não com amargura e tristeza, pois será Ele mesmo a nossa recompensa na eternidade.

Jó sendo questionado por seus amigos. Por Gaspard de Crayer - Museu dos Agustinianos - Toulouse, França
Jó sendo questionado por seus amigos. Por Gaspard de Crayer – Museu dos Agustinianos – Toulouse, França

Quão bom seria para a sociedade hodierna defrontar-se com a história de Jó. O mundo infelizmente esqueceu-se não só dos ensinamentos dados por esse livro Sapiencial, como também, e sobretudo, deu costas ao rico e eterno ensinamento dado pela Santa Igreja. Aí encontraríamos a solução para as maiores perguntas de nossos dias: porque estou sofrendo? É de Deus que vem esses males?

Essas perguntas bem poderiam ser respondidas por esta eloquente frase de Jó: “militia est vitam hominem super terram.” (Jo 7, 1) e a tal citação acrescentaria São Bruno e com ele a Santa Igreja: “Per crucem ad lucem.

 

Pe. Millon Barros, EP

O Segredo da Felicidade

Catedral de Santiago Menor en Liege. Por Genaro Perez Villaamil - Museu de Belas Artes - La Coruna - Espanha
Catedral de Santiago Menor en Liege. Por Genaro Perez Villaamil – Museu de Belas Artes – La Coruna – Espanha

Desde que Adão e Eva foram expulsos do paraíso, o homem vive sempre se perguntando: – Quem não ama sua vida procurando ser feliz todos os dias? (Cf. Sl 33, 13) De fato, no momento de sua concepção, Deus infunde na alma humana o desejo da felicidade. Como nos diz o grande Santo Agostinho, “todos os homens querem viver felizes, e não existe no gênero humano pessoa que não concorde com esta afirmação”.[1]

No paraíso Deus havia concedido ao homem o “dom de integridade”, o qual, juntamente com a Graça, lhe dava total alegria e plena felicidade. Esse dom proporcionava ao homem a completa ordenação: a fé iluminava sua inteligência, à qual estava subalterna a vontade, inibindo assim impulsos e ações meramente instintivas.

Com o pecado original, Adão e Eva perderam o dom de integridade, bem como seus descendentes. Assim, o homem vive numa constante luta, para controlar sua vontade, que sendo inferior a inteligência e a fé, não está mais a elas subjugada. A vontade que antes obedecia em tudo a sua inteligência, agora segue seus próprios caprichos.

O Criador ao dar uma ordem a Adão era prontamente obedecido, e este a executava com a maior docilidade. Mas então, por que Adão e Eva comeram do fruto que Deus havia proibido, uma vez que possuíam o dom de integridade?…

Deus ao proibir Adão e Eva de comerem do fruto, disse: “Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que deles comeres, morrerás indubitavelmente.” (Gen. 2,16-17). O demônio porém, em forma de serpente, enganou a mulher dizendo: – “Oh, não; vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.” (Gen. 3,4-5) Com isso, despertou a curiosidade em Eva: “A mulher, viu que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e muito apropriado para abrir a inteligência.” E assim continua: “tomou dele, comeu, e o apresentou ao marido que comeu igualmente.” (Cf. Gen. 3, 6) Neste instante, lhes “caem as escamas” dos olhos. Foram os primeiros a constatar que com o pecado, o demônio não dá o que promete.

Comendo o fruto, aderiram ao mal, abraçaram a malícia, fruto do pecado. Comeram para alargar sua inteligência, que se fechou a ponto de não conseguirem dominar mais sua própria vontade. Eram felizes no paraíso, pois cumpriam inteiramente com a finalidade para qual todo homem foi criado: conhecer, amar e servir a Deus.

Imaginemos um pássaro que possua uma asa torta. Se ele fosse inteligente, passaria sua existência na angustia de nunca ter voado. Poderia ter sido feliz? Não, pois não cumpriu com a sua finalidade que é voar. Isso foi o que ocorreu com os nossos primeiros pais. Eva ouvindo a voz da serpente insuflada pelo demônio, sucumbiu à tentação, certa de encontrar a felicidade no pecado. Foram então expulsos do paraíso tornando-se inclinados ao mal e sujeitos ao erro, passando a apresentar toda a sua vida como uma luta dramática entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas.

Fora de sua finalidade, o homem não têm felicidade, pois este desejo é de origem divina. Deus o colocou no coração humano, a fim de atraí-lo a si, pois só Ele pode satisfazer essa sede.[2] O demônio, sendo o pai da mentira, promete a felicidade com o pecado. Este entretanto, traz apenas uma fruição momentânea, e em seguida uma enorme frustração.

Desde então, o homem passou a tirar seu sustento da terra, com trabalhos penosos, todos os dias da sua vida. (Cf. Gn. 3, 17) Estabeleceu-se na alma humana uma necessidade de sofrer, pois sem isso o homem fecha-se em si mesmo, não lembrando mais da bondade e da dependência que tem em relação ao Criador. O sofrimento, então, assume um papel fundamental e insubstituível na vida humana depois do pecado original, pois nos coloca diante de Deus como seres contingentes, e nos faz recorrer a Ele.

Ao se tirar o gesso de um braço quebrado, é necessário submeter-se a uma série de seções de fisioterapia para voltar ao pleno funcionamento. Se o membro não se exercitar pode acabar definhando. porém, esse esforço nem sempre é agradável.

Se o exercício, o sofrimento, é necessário para um braço, quanto mais para a alma humana se desenvolver e recuperar aquilo que perdeu com o pecado! Quem foge do sofrimento, acaba sofrendo mais do que aquele que carrega sua Cruz. Existe na alma humana o que São Tomás denomina de “sofritiva”, que consiste numa necessidade de sofrimento, por uma finalidade sobrenatural, com vistas a purificar e santificar a alma.

O maior de todos os exemplos é o Homem Deus. Estando unido à Pessoa do Verbo e conhecendo tudo, viu num só relance todos os ultrajes e padecimentos pelos quais passaria durante sua Paixão, a ponto de dizer o evangelista que Nosso Senhor sentiu aversão, pavor, tristeza e abatimento. (Cf. Mt 26,38) Antes mesmo dos algozes O tocarem, após verter abundantemente seu preciosíssimo sangue adorável, diante do oceano de dores que o esperava, profere esta sublime súplica: -“Meu Pai, se for possível afaste-se de mim este cálice. Mas faça-se a Vossa vontade e não a minha.” (Mt 26,39)

Concluiríamos que o Redentor pede clemência a Deus Pai, para ajudá-Lo no caminho do Calvário a suportar a enormidade da Cruz que haveria de carregar. Mas “faça-se a Vossa vontade e não a minha”, pois uma coisa que Ele não faria, era abandonar a Cruz. Se for a vontade do Pai, pegaria a Cruz, oscularia e a levaria até o fim.

Ao contrário do que nosso caro leitor poderia esperar com o título desse artigo, não apresentamos uma fórmula mágica de ser feliz para sempre, o famoso “final feliz” que costumamos ver nos filmes, mas o segredo da verdadeira e única felicidade possível nesse vale de lágrimas: o sofrimento aceito por amor a Deus, e o cumprimento de sua divina vontade.

A vida nesta terra sem o sofrimento, é uma funesta ilusão que acaba com a morte, pois se Deus sofreu por nós, porque seríamos covardes e fugiríamos diante de nossas cruzes, tão menores que a d’Ele? Nossa Senhora de Lourdes disse a Santa Bernadete: “Te prometo felicidade, mas não nesta terra.”

Não temos o que temer, Deus conhece nossa fragilidade e olha as nossas aflições. Por isso deu-nos a melhor de todas Advogadas, sua própria Mãe! Peçamos a Nossa Senhora, Causa de nossa alegria, que nos dê coragem para responder “sim” como Nosso Senhor Jesus Cristo no Horto das Oliveiras, para galgar o nosso calvário e alcançarmos a felicidade eterna com Ele nos Céus.

 

Nossa Senhora da Vitória. Por Juan de Figueroa - Santuário de Santa Maria da Vitória - Málaga - Espanha
Nossa Senhora da Vitória. Por Juan de Figueroa – Santuário de Santa Maria da Vitória – Málaga – Espanha

 

Pe. Lucas Antonio Pinatti, EP

[1] Cf. AGOSTINHO, Mor. eccl. 1,3,4: PL 32, 1312.

[2] CATECISMO Igreja Católica: SP, Loyola, 2000. p. 469

A virtude da Fortaleza em Nosso Senhor Jesus Cristo

001É comum nos depararmos com uma visão reducionista de Nosso Senhor Jesus Cristo. Muitos ao tentarem encontrar uma desculpa para justificar suas doutrinas miserabilistas, ou conformadoras com os defeitos e pecados do “próximo”, tentam transmitir uma visão apoucada e muitas vezes deturpada do Nosso Redentor.

É por causa disso que muitos defendem a “necessidade de perdoar” como sendo a única obrigatória; nunca recriminar, sempre ser condescendente com os defeitos do próximo. Porém não foi esse o ensinamento que o Divino Mestre deixou àqueles que com Ele conviveram, e, para perpétua memória, escreveram os Santos Evangelhos.

Por isso, pareceu-nos oportuno ressaltar através dessas linhas um aspecto do resplendor divino que brilhou na pessoa do Homem-Deus, e que hoje está posto de lado: a virtude da fortaleza. E a fim de silenciarmos o “romantismo religioso” que invade os meios católicos em nossos dias, trazemos a lume as palavras do grande líder católico brasileiro, o Professor Plinio Corrêa de Oliveira, que afirma:

“Fazemos a apologia de doutrinas de luta e de força, luta pelo bem é certo, e força a serviço da verdade. Mas o romantismo religioso do século passado desfigurou de tal maneira em muitos ambientes a verdadeira noção de Catolicismo, que este aparece aos olhos de um grande número de pessoas, ainda em nossos dias, como uma doutrina muito mais própria ‘do meigo Rabi da Galileia’ de que nos falava Renan – do taumaturgo um tanto rotariano por seu espírito e por suas obras, com que o positivismo pinta blasfemamente Nosso Senhor, parecendo ao mesmo tempo enaltecê-Lo – do que do Homem Deus que nos apresentam os Santos Evangelhos.” (1983, p. 283)

Para introduzir melhor o leitor no tema, colocamos uma breve descrição teórica da virtude da fortaleza, segundo o grande teólogo, Pe. Antônio Royo Marín, O.P.: “[a virtude da fortaleza é] uma virtude cardeal infundida com a Graça Santificante que inflama o apetite irascível e a vontade para que não desistam de conseguir o bem árduo ou difícil nem sequer pelo máximo perigo da vida corporal.” (1968, p. 588)

Em outras palavras, a virtude da fortaleza nos dá a força e a coragem necessárias para cumprirmos nosso dever, mesmo que isso seja muito difícil ou até mesmo que ponha em risco a vida material do homem, desde que o motivo seja sobrenatural. É o caso dos mártires, que preferiram morrer a renegar sua Fé.

Seria necessária uma explicação muito longa e detalhada para conhecermos todos os seus efeitos e virtudes derivadas. Mas para o efeito que nos propomos neste artigo, faremos menção apenas de duas virtudes, que são mais salientadas nos Evangelhos. Elas são a Paciência e Magnanimidade.

“A Magnanimidade é uma virtude que inclina a empreender obras grandes, esplêndidas e dignas de honra em todo gênero de virtudes.” (ROYO MARÍN, 1968. p. 590) Como sabemos, não foi outra coisa a vida do Verbo Encarnado nessa terra, realizar grandes obras.

Já a virtude da Paciência tem como objetivo inclinar a suportar sem tristeza de espírito nem abatimento de coração os padecimentos físicos e morais, e o principal motivo da paciência cristã é a conformidade com a vontade Divina, que sabe muito mais do que o homem. (cf. ROYO MARÍN, 1968, p. 592)

Agora, cabe-nos saber se o Bom Pastor possuiu e praticou essa virtude? Vejamos como o Pe. Anton Koch, S.I., nos descreve a cena da expulsão dos vendilhões do Templo:

“Duas vezes vemos relampejar de ira os olhos do Rei que havia de vir com mansidão (Mt 21, 5); duas vezes o doce Jesus descarrega o raio de uma cólera divina; mas duas vezes para purificar a casa de seu Pai […] Jesus acaba de inaugurar sua atividade pública com o milagre feito em Caná, no circulo familiar de umas bodas. Estando próxima a Páscoa, sobe a Jerusalém. E entra no Templo. E vê toda aquela profanação do lugar sagrado; O que veio para dar glória ao Pai se sente consumido pelo zelo de sua casa, e colhe umas cordas, as primeiras que encontra, forma com elas um açoite, e o faz relampejar no meio de toda aquela gente; expulsa do Templo os vendedores juntamente com seus animais, derrama o dinheiro dos cambistas, derruba as mesas e com voz de trovão, com voz de santa indignação clama ‘retirai isso daqui, e não façais da casa do meu Pai um covil de ladrões’.” (1954, p. 561-562)

Semelhante atitude de ira foi necessária na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, como nos aponta Karl Adam: “Semelhante querer, tão extraordinariamente concentrado e disciplinado, semelhante força de alma devia irromper também no exterior por alguma palavra dura, por alguma ação ousada, quando forças inimigas ou malévolas se lhe opusessem. Em Jesus não havia somente uma força contida, uma vontade determinada, mas um ardor entusiasta e uma santa paixão. Basta notar a emoção que trazem algumas de suas palavras e de suas ações: ‘Retira-te Satanás’ – é assim que repele com horror a aparição tentadora. […] ‘Retirai-vos de mim, obreiros da iniqüidade, não vos conheço!’, dirá no dia do Juízo aos que não tiverem socorrido cá na terra os irmãos em necessidade.” (1997, p. 17)

O mesmo autor lembra o grande número de parábolas nas quais se ressalta a ira do Divino Redentor: “É o raio que fulgura, é o trovão que explode, como na parábola do joio: ‘O Filho do homem enviará os seus anjos, e eles tirarão do seu reino todos os escândalos e todos os que praticam a iniqüidade, e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes’.” (1997, p. 18)

Porém, mais do que uma simples ira, o Mestre experimentou também o sentimento da cólera: “Os evangelistas nos falam da ‘cólera’ de Cristo: […] sobretudo quando os fariseus, na ‘cegueira do seu coração’, reagem contra qualquer ensinamento e se fecham num silêncio obstinado e desdenhoso. A contrariedade interior que experimentará, o seu senso de lealdade e de verdade feridos, o seu sentimento moral magoado explodirão nesses momentos em palavras fortes, mesmo duras. Falará de hipócritas, de serpentes, de raça de víboras. Não terá receio de qualificar como ‘raposa’ o próprio Herodes.

“Quando se tratava de dar testemunho da verdade, Jesus não sabia tergiversar nem fraquejar por medo. Tinha um caráter de lutador. Não se esquece de quem é nem se deixa arrastar. A sua cólera é sempre a expressão da mais alta liberdade, a expressão de um homem que tem consciência de ‘não ter vindo ao mundo senão para dar testemunho da verdade’.” (1997, p. 20-21)

Porém a sua cólera é a mais alta expressão da Temperança Divina, pois sendo a ira um instrumento da fortaleza, deve ser temperada e controlada pela razão. (cf. ROYO MARÍN, p. 589)

Tendo assim feito um rápido apanhado sobre a virtude da fortaleza na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, percebemos que o Homem Deus é realmente o Bom Pastor, mas também sabe corrigir as suas ovelhas, e aquelas que não quiserem escutar a sua voz serão tratadas como cabritos no dia do Juízo Final. (cf. Mt 25, 41).

É isso que, em outras palavras, afirmou Plinio Corrêa de Oliveira: “[…] Nosso Senhor não foi um doutrinador sentimental mas o Mestre infalível que, se de um lado soube pregar o amor com palavras e exemplos de uma insuperável e adorável doçura, soube, também pela palavra e pelo exemplo, pregar com insuperável e não menos adorável severidade o dever da vigilância, da argúcia, da luta aberta e rija contra os inimigos da Santa Igreja, que a brandura não puder desarmar.” (1983, p. 287)

Pe. Millon Barros de Almeida, E.P.

 

Bibliografia

ADAM, Karl. Jesus Cristo. 2 ed. São Paulo: Quadrante, 1997.

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica – Nº 20 – 2ª da 2ª Parte: Questões 123 – 170 – Da Coragem – Da Temperança. Tradução de Alexandre CORREIA. São Paulo: Faculdade de Filosofia “Sedes Sapientiae”, 1958.

CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Em defesa da ação católica. 2 ed. São Paulo: Artpress, 1983.

FERNÁNDEZ, Aurélio. Diccionario de Teología Moral. Burgos: Monte Carmelo, 2005.

KOCH, Anton, Pe. S.J.; SANCHO, Antonio, Dr. Can. Mag. Docete – Formación Básica del Predicador y del Conferenciante – Tomo II: El Hombre – Dios. Barcelona; Buenos Aires; Santiago de Chile; São Paulo; Bogotá: Herder, 1953.

KOCH, Anton, Pe. S.J.; SANCHO, Antonio, Dr. Can. Mag. Docete – Formación Básica del Predicador y del Conferenciante – Tomo V: El Hombre y Dios. Barcelona; Buenos Aires; Santiago de Chile; São Paulo; Bogotá: Herder, 1954.

MARÍN, Antonio Royo. El Gran Desconocido: El Espíritu Santo y sus dones. 2 ed. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2004.

MARÍN, Antonio Royo. Teologia de la perfección cristiana. 5 ed. Madrid: La Editorial Catolica, 1968.

Por que o incenso é utilizado na liturgia católica?

001

Não queimo! Assim respondeu uma multidão incontável de mártires ante o tribunal romano. Bastava pôr um punhado de incenso numa pira incandescente que ardia em honra a um ídolo ou à estátua do imperador. Tão simples gesto, uns poucos grãos de incenso eram suficientes para conter a ira dos perseguidores e louvar os deuses. Mas aqueles heróis da Fé, testemunhando seu amor a Cristo, preferiram morrer a cultuar os ídolos, a vida eterna a uns grãos de incenso.

Desde há muito, quase desde sempre, o incenso foi usado no culto divino. Essa composição de resina com ervas aromáticas, que quando lançada ao fogo se consome e exala agradável perfume, é símbolo da alma que se oferece a Deus em sacrifício de suave odor. Deste modo, oferecer incenso a Deus é reconhecer seu domínio sobre nós e sobre toda a criação, sua majestade e o direito que Ele tem de nossa vassalagem.

Assim, no Antigo Testamento, os judeus ofereciam a Javé um culto no altar do incenso (Cf Ex 30,1-10.34-38) e acrescentavam a determinadas oblações um pouco de incenso (Cf Lv 2,1.15). A tradição católica viu no incenso que um dos Magos ofertou ao Rei Menino no Natal (Cf Mt 2,11) um sinal de que aquele homem reconhecia em Jesus a divindade.[1] E a Igreja, ao realizar o Santo Sacrifício do Altar, oferece incenso, pois adora oculto nas espécies do pão e do vinho consagrados o verdadeiro Filho de Deus.

O incenso é também símbolo das orações dos justos, como descreve o Apocalipse, o livro da Liturgia Celeste: “Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, outro Anjo veio postar-se junto ao altar, com um turíbulo de ouro na mão. Foi-lhe dada grande quantidade de incenso, para que o oferecesse com as orações de todos os santos, no altar de ouro que está adiante do trono. E da mão do Anjo, a fumaça do incenso com as orações dos santos subiu diante de Deus” (Ap 8,1-4).

Mais um significado: a glória de Deus. Quando vemos a fumaça do incenso envolvendo o recinto sagrado, associamo-la à nuvem que encheu a Tenda da Reunião ao ser consagrada por Moisés, porque a glória de Deus se fez presente: “A nuvem cobriu a Tenda de Reunião e a glória do Senhor encheu o Tabernáculo. Moisés não pôde entrar na Tenda de Reunião, porque a nuvem pairava sobre ela, e a glória do Senhor enchia o Tabernáculo” (Ex 40, 34-35). O mesmo aconteceu na dedicação do Templo: “Quando os sacerdotes saíram do lugar santo, a nuvem encheu o Templo do Senhor, de modo tal que os sacerdotes não puderam continuar suas funções, por causa da nuvem: a glória do Senhor enchia o Templo do Senhor” (1Rs 8,10-11).

Simbolizando assim a glória de Deus, o incenso também manifesta a união que se estabelece na Liturgia entre a Igreja terrestre e a Jerusalém Celeste, onde os Anjos e os nossos irmãos, os Bem-aventurados, louvam a Deus sem cessar e vivem envoltos em sua glória.

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São esses os motivos pelos quais na celebração eucarística, pode-se incensar o Altar, a Cruz, o Evangelho, as oferendas, o Sacerdote, a assembléia e, sobretudo, o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo sacramentalmente presente pela Consagração. A bênção do incenso para o rito sacro é um sacramental; a incensação em forma de cruz simboliza o Sacrifício da Cruz, e a das oferendas em forma circular, a total pertença das ofertas a Deus, retirando-as do uso profano. Ademais, o incenso é usado nas Bênçãos do Santíssimo, nas Vésperas Cantadas, nas exéquias e em outras bênçãos de lugares e objetos sagrados, como os sinos.

Na dedicação de uma igreja, depois de ungido o Altar é posto sobre ele um braseiro para queimar incenso, simbolizando que o sacrifício de Cristo, realizado ali na Missa, sobe ao Pai Eterno como suave fragrância, e com ele as orações dos fiéis. A coluna de incenso que então se levanta recorda a coluna de nuvem que acompanhou os filhos de Israel no deserto depois da saída do Egito (Cf Ex 13,21-22). Todo o espaço da igreja é incensado, pois tornou-se uma casa de oração, e também os fiéis, por serem “templos vivos de Deus” (Cf 1Cor 3,16-17; Ef 2,22).

Cerimônia de Dedicação da basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, dos Arautos do Evangelho. São Paulo, Brasil
Cerimônia de Dedicação da basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, dos Arautos do Evangelho. São Paulo, Brasil

Caro leitor, quando estivermos em uma igreja e nos virmos circundados pelo incenso e penetrados de seu perfume, lembremo-nos: estamos em um lugar sagrado, é o momento de nos oferecermos a Deus em sacrifício como o incenso que é queimado e de elevarmos nossa prece, para que, como a fumaça, ela suba ao Céu em agradável odor.

 

Luís Filipe Defanti

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[1]“[…] por entender que Ele era de natureza divina e celestial, ofertaram incenso perfumado, forma de oração verdadeira, oferecida como suave odor do Espírito Santo”. ANÔNIMO. Obra incompleta sobre o Evangelho de Mateus, 2: PG 56, 642.

A morte

“O homem começa a existir na morte desde o momento em que começa a existir no corpo” com esta frase implacável um dos maiores Padres da Igreja delimita a breve existência do homem sobre a terra. A morte é um fato que tem intrigado os homens ao longo dos séculos, sobretudo aqueles que não conheceram o que doutrina católica explicitou a respeito da morte ou que, tendo-a conhecido, fizeram caso omisso dela. De fato, a Igreja purificou o conceito da morte, descartando tudo aquilo que provoca medo, e até mesmo, desespero; pois o catolicismo aponta, no post mortem, para um ideal mais alto e triunfante, que são a ressurreição da carne e a vida eterna.

A Igreja ensina que a morte é a separação da alma do corpo. Isto acontece devido a que, com o passar dos anos, os órgãos corpóreos (coração, pulmões, fígado, etc.) vão se desgastando, a tal ponto que, cedo ou tarde, o organismo já não pode exercer as funções da vida; por isto a alma – princípio vital (espiritual e imortal) – se separa do corpo. Ainda que seja brutal e dolorosa, devido ao pecado de Adão e Eva (cf. Sab 2, 23ss e Rm 5, 12), a morte, para o católico, não deixa de ser um fenômeno natural e passageiro.

Sendo, porém, um castigo pelo pecado de nossos primeiros pais,  Deus não abandonou o homem à sua triste sorte. “Em tempo oportuno, o próprio Deus assumiu a carne humana; tomou sobre si a morte com todas as angústias precursoras e ressuscitou; assim Jesus Cristo venceu a morte e dela nos libertou.”

De fato, com este triunfo de Jesus sobre a morte em favor do gênero humano, com a qual abriu as portas do Céu para nós, a morte já não constitui uma mera sanção, mas é a nossa passagem para a vida com “v maiúsculo”, a Vida eterna e definitiva.

Para nós católicos, não há mais propriamente morte. E inclusive todos os demais sofrimentos assim considerados, vem a ser um rejuvenescimento ou uma antecipada participação da glória de Cristo e que verdadeiramente hão de nos levar à vida eterna e à glória definitiva. “Sofrer e morrer significam, para o cristão, estender à sua carne os sofrimentos e a morte de Cristo vitorioso; por isto o mesmo Apóstolo pode afirmar: ‘Enquanto o nosso homem exterior vai definhando, o nosso homem interior se vai renovando de dia a dia’.” (2Cor 4, 16)

Não é sem razão que a morte assim afrontada levava certos santos a ter arroubos de entusiasmo fazendo-os, até, desejá-la ardentemente: “Vem oh morte, tão escondida, que eu não te sinta vir, para que a felicidade de morrer não me restitua a vida”; “Aquela vida lá de cima, que é a vida verdadeira, até que essa vida morra não se pode obter; morte, não se esquive de mim.” Santa Teresinha do Menino Jesus ao ser indagada pelo Sacerdote, que a assistia no leito de morte, se estava resignada a morrer, respondeu: “Resignada? Não, meu padre; resignação precisa-se para viver, mas não para morrer… O que tenho é uma grandíssima alegria”.

No concílio Vaticano segundo, vários são os momentos nos quais se trata sobre a morte, como no nº 48 da Lumen Gentium onde, inspirando-se no Apóstolo das gentes, afirma-se que a ressurreição com a transformação gloriosa de nossos corpos terá lugar quando Cristo venha em sua última vinda. Até esse momento teremos já uma retribuição de acordo com nossos méritos. No nº 49, ainda do mesmo documento, se aborda a questão da comunhão dos santos (comunhão da Igreja peregrina, padecente e triunfante entre si) a qual tem lugar já antes da vinda gloriosa do Senhor. E ainda no nº 50 trata-se sobre como deve ser nossa relação com os santos do céu.

Já na Gaudium et Spes fala-se sobre a semente de imortalidade existente no homem e que é irredutível à mera matéria. No nº 39 se declara que o reino já está presente  misteriosamente na terra, mas há de se consumar sua perfeição na parusia.

Em 1979 a congregação para a doutrina da fé expediu uma carta na qual definia alguns pontos concernentes à escatologia. Transcrevemos aqui os mais importantes:

1. A Igreja crê numa ressurreição dos mortos (cf. Símbolo dos Apóstolos)

2. A Igreja entende que a ressurreição se refere a todo o homem: para os eleitos não é senão a extensão da mesma ressurreição de Cristo à humanidade.

3. A Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência, depois da morte, de um elemento espiritual, dotado de consciência e de vontade, de tal modo que o eu humano subsista, ainda que sem corpo. Para designar esse elemento, a Igreja emprega a palavra alma, consagrada pelo uso que dela fazem a Sagrada Escritura e a Tradição. Sem ignorar que este termo é tomado na Bíblia em diversos sentidos, Ela julga, não obstante, que não existe qualquer razão séria para o rejeitar e considera mesmo ser absolutamente indispensável um instrumento verbal para sustentar a fé dos cristãos.

4. A Igreja, em conformidade com a Sagrada Escritura, espera a gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Dei Verbum, nº 14), que ela considera como distinta em relação àquela condição própria do homem imediatamente após a morte.

A mesma congregação pediu à do Culto Divino que se respeitassem, nas traduções ao vernáculo do símbolo apostólico, o original que rezava “ressurreição da carne” pois havia alguns que traduziam por “ressurreição dos mortos”, o que poderia danificar a fé católica que acredita na ressurreição “desta carne”.

A Igreja defendeu desde o princípio a subsistência da alma depois da morte e a ressurreição dos corpos no final da história, após o intervalo da fase intermediária na qual a alma encontra-se em estado de violência. Fica claro também que a Igreja entende com ressurreição do corpo a restauração completa deste mesmo corpo com o qual vivemos e lutamos no curso de nossas vidas terrenas.

Pe. Hernán Cosp Bareiro, EP

Uma pomba…, por quê?

“Depois de ser batizado, Jesus saiu logo da água, e o céu se abriu. E Ele viu o Espírito de Deus descer, como uma pomba, e vir sobre Ele”. O texto sagrado é claríssimo, o Espírito de Deus veio em forma de pomba. Porém, ainda resta uma dúvida: Porquê uma pomba? Não seria melhor uma andorinha, ou uma águia?

A razão pela qual o Espírito Santo apareceu em forma de pomba e não de outro animal, é explicada por São Tomás[1] com sua característica singeleza:

1º Todo aquele que deseja ser batizado não pode ansiar esse sacramento de maneira fingida e superficial, mas sim de modo simples, como a pomba que é um animal sem nenhuma ganância. E por isso o evangelista São Mateus aconselha: “Sede simples como as pombas”. (Mt 10, 16)

2º Através do Batismo o homem possui os sete dons do Espírito Santo, os quais estão simbolizados na Pomba, pois:

a. Esta ave mora junto às correntezas de água, pela razão de que quando vir o gavião poder escapar submergindo. Isto se relaciona com o dom de sabedoria, porque os santos moram junto as correntezas das Sagradas Escrituras, com o objetivo de escaparem das tramas do demônio.

b. A pomba escolhe os melhores grãos para o seu alimento, o que se relaciona com o dom de ciência, com o qual quem a possui escolhe as melhores opiniões para alimento de sua vida espiritual.

c. Este amável animal alimenta os filhotes alheios. Dom de conselho, com o qual se busca alimentar àqueles que estão afastando-se de Deus ou já caíram no pecado.

d. A pomba não despedaça seu bico, o que se relaciona com o dom de inteligência. Aqueles que o possuem não pervertem as boas opiniões, dilacerando-as como fazem os hereges.

e. Esta ave não tem fel. Dom de piedade, o qual livra o homem da ira.

f. Este astuto animal faz o seu ninho no alto das rochas. Dom de Fortaleza, os fortes têm o seu refúgio naquilo que é mais sólido e mais alto, em Deus.

g. A pomba arrulha, em vez de cantar como outros pássaros. Dom de temor: onde se tem prazer em chorar as próprias misérias, por amor a Deus.

E aqui estão simbolizados neste singelo animal os sete dons do Espírito Santo.

3º Para simbolizar o efeito próprio do sacramento do Batismo: a remissão dos pecados e a reconciliação com Deus.

4º Com o fim de significar o efeito geral do Batismo, a construção da unidade da Igreja. Pois a pomba é um animal que sempre está em bandos, ou seja, busca sempre a unidade.

E além de todas estas razões, há uma que se relaciona com a perpetuidade do sacramento do Batismo. Como explica São João Crisóstomo[2], sempre no começo das experiências espirituais aparecem sempre sinais sensíveis, por causa daqueles que tem mais dificuldade de entenderem o sobrenatural, sendo assim mesmo que não se repitam, passam a acreditar por meio daqueles que constataram na primeira vez. Ou seja, Deus quis fazer-Se visível, em forma corporal de pomba sobre Cristo, com o fim de que posteriormente todos acreditassem que Ele desceria invisivelmente sobre todos aqueles que fossem batizados.

E, continua São João Crisóstomo, também porque este animal apareceu no dilúvio, levando um ramo de oliveira e anunciando a boa nova da paz sobre a terra. Pois, quando as coisas haviam chegado a um estado de desespero, o Senhor trouxe a solução e o remédio. Naquela época, Deus agiu por meio do severo castigo. Agora, através da Graça e de seus dons sobrenaturais. E por isso agora aparece a pomba, não trazendo um ramo de oliveira no bico, mas sim para assinalar que vinha para livrar os homens de todos os males e para nos garantir as mais belas esperanças. Essa pomba não vinha para tirar só um homem da Arca, mas para levantar ao céu a terra inteira, e em vez de trazer o ramo de oliveira no bico, trouxe para todo o gênero humano, a filiação divina.

Luan Felipe de Souza


[1] AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. III- q.39. a.6. p.573.

[2]CRISÓSTOMO, Juan. “Obras de San Juan Crisóstomo: Homilias sobre San Mateo,1-45. BAC: Madrid, 2007.p.226.

A Santa Igreja: o “cone do Fuji-Yama” de todas as coisas

“Olhai os lírios do campo, como crescem; eles não tecem e nem fiam. Contudo, digo-vos: nem Salomão em toda a sua glória jamais se vestiu como um deles” (Lc 12, 27). Realmente, Deus colocou na obra da criação maravilhas impossíveis de serem copiadas. Seja diante da grandeza do mar, da fúria de um furacão ou da delicadeza de um beija-flor; seja em face do mistério das selvas, do encanto dos bosques ou da majestade dos montes, nos sentimos ao mesmo tempo pequenos e elevados. Pequenos, pois em relação a tudo isso temos um domínio tão limitado que leva muitos homens a tomar a natureza por deus. Elevados, porque sabemos, pela fé, que tudo isso nos foi submetido pelo Senhor, com o fim de Lhe darmos a glória de um bom uso. Porém, ainda que nos sintamos rebaixados diante da força de um leão ou admirados com o vôo de uma águia, podemos estar certos de que aos olhos de Deus temos um valor incomparavelmente maior, máxime quando cumprimos nossa vocação específica.

O afeto e a proteção de uma mãe virtuosa valem muito mais do que o zelo instintivo que a leoa tem por seus filhotes, pois são regados com o bálsamo da caridade; as orações de um religioso têm muito mais vôo e penetração que as águias as quais podem fitar o astro-rei, incapazes, porém, de vislumbrar o Sol da Justiça; as palavras de um santo pregador são mais fortes e eficazes que qualquer trovoada, pois gozam da força e da eficácia do próprio Deus.

Contudo, essas criaturas todas representam vestígios de Deus, os quais não podem deixar de ser contemplados, ainda quando estejam incompletos… “Mas incompletos?!”

Sim! Há certas paisagens naturais que parecem não ter sido completadas pelo Divino Escultor. É o que se passa com o Fuji-yama.

Situado no centro da ilha de Honshu, no coração do arquipélago japonês, o Fuji-san – como também é conhecido – é admirado não só pelo povo nipônico, mas pelo mundo inteiro.

Com seus mais de 3.000 m de altitude, une em si a austeridade com a singeleza. Sendo um vulcão adormecido desde o começo do séc. XVIII (1707), o monte Fuji tem a sua parte superior coberta de uma neve que  proporciona um verdadeiro espetáculo digno de se contemplar. Porém, ao vê-lo durante certo tempo vem-nos a pergunta: onde está o “cone do Fuji-yama”?

Ensina-nos a teologia que só três criaturas Deus criou na sua perfeição plena: Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto homem, Nossa Senhora, e a Visão Beatífica. Assim sendo, em todas as coisas que analisarmos nesta terra de exílio, veremos que falta algo. Ainda que seja a mais bela e preciosa pedra ou a mais perfeita e delicada flor, em algum ponto, lhe falta o que poderíamos chamar de o “cone do Fuji-yama” de cada coisa.

Contudo, essas imperfeições das criaturas nos trazem um ensinamento: ver em tudo, não o lado defeituoso ou falho, mas a perfeição que aquela criatura de Deus poderia ter, ou seja, ver o “cone do Fuji-yama” dela.

Como o mundo seria diferente se os homens vivessem assim! Um mundo no qual todos olham uns para os outros a perfeição que Deus pôs em cada alma de maneira particular.

Enfim, o Fuji-yama nos inspira pedir, por meio de Nossa Senhora, o triunfo do verdadeiro e perfeito “cone do Fuji-yama” de tudo: a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, cuja indestrutibilidade foi firmada pelo próprio Deus quando disse: “e as portas do inferno não prevalecerão contra Ela!” (Mt 16, 18).

Rodrigo Fugiyama Nunes

Cortesia: a musicalidade do convívio humano

O homem de hoje sofre de uma verdadeira sede de novidades. Não há um lugar onde ele entre, um restaurante, um consultório médico, uma padaria, enfim, em que não esteja ligada uma televisão ou um rádio, noticiando o último acontecimento. Misérias, calamidades e tristezas na maior parte das vezes…

Perseguido e atraído assim pela avalanche de novidades oferecidas pela mídia, o homem moderno se relaciona cada vez menos com seus semelhantes, e está mais ao par do que acontece do outro lado do mundo do que com aqueles que lhe são mais próximos.

Essa overdose de imagens e informações destruiu quase por completo o relacionamento humano, ou, ao menos, transformou-o numa troca de relações frias e maquinais onde a consideração e a estima não conseguem vencer o interesse pessoal, o egoísmo. Paulatinamente a globalização foi isolando as pessoas…

Criou-se um estilo de vida no qual os homens, cada vez mais, vivem em multidões, em grandes cidades, e quase não se conhecem. Aí, nestes imensos aglomerados, levam uma vida tão absorvida pelo trabalho, que não têm tempo sequer de conversarem. E isso intensifica-se a cada dia.

Esse processo trouxe como consequência o desaparecimento daquilo que poderíamos chamar “personalidade” – a qual se desenvolve no convívio – e transformou a sociedade numa “massa”. A sociedade assim constituída, não toma em consideração as características de cada indivíduo, mas quer igualar a todos. E procura fazer com que todos tenham, tanto quanto possível, os mesmos gostos, os mesmos hábitos, os mesmos modos de ser e pensar, quase diríamos, as mesmas “caras”. Já não há mais modelos nem líderes, bons nem maus, mas uma igualdade amorfa, quase irracional…

Há pouco utilizamos a palavra personalidade. O que entendemos por personalidade?

Cada homem recebe de Deus determinadas características para espelhá-Lo de forma inédita e irrepetível. Há, portanto, em cada homem “uma tendência a contemplar, compreender e refletir de preferência certa perfeição divina.” Uma como que luz primordial, que “é a virtude dominante que uma alma é chamada a refletir, imprimindo nas demais [virtudes] sua tonalidade particular.”[1]

Stella difert stella. (1Cor 15,41) Cada estrela é diferente da outra, diz o Apóstolo. Com maior razão os homens o são. Até mesmo entre os santos isso se dá, e com mais intensidade. Diferenças de personalidades, de talentos, de gostos, enfim, quantos aspectos poderiam ser analisados. Que dizer da diferença que há entre um São Tomás de Aquino, luminar da inteligência humana, e um São João Maria Vianney, que mal conseguiu concluir os estudos para ser ordenado sacerdote, mas que discernia os espíritos e “lia” os pensamentos? Ou então uma Santa Catarina de Sena, agraciada com tantas aparições e fenômenos místicos, e uma Santa Teresinha do Menino Jesus, encerrada no silêncio de um claustro e padecendo de uma tuberculose que provocou sua morte prematura? Para não ir mais longe, quanta diferença no colégio apostólico…

Deus quer que desenvolvamos nossa personalidade. E se correspondermos à graça, ela tomará um realce extraordinário. E a justaposição destas personalidades forma a imensa “coleção” de Deus. Mas, para que esta coleção atinja o píncaro de seu brilho e colorido, é necessário que cada “peça” leve sua personalidade à plenitude. Isso é o contrário da “massificação”.

Porém, como unir com harmonia tantas diferenças? O único meio de tornar possível a coexistência das mais variadas formas de pensar, dos modos de ser mais antagônicos, das reações mais diversas e inusitadas, é através da caridade cristã. Sem uma grande disposição de sacrifício, de aceitar muitas vezes a vontade de outro, de suportar as contrariedades inevitáveis da vida em sociedade, torna-se impossível o relacionamento humano.

Esta forma de caridade aplicada ao convívio pode ser chamada de cortesia. O que é a cortesia? “É o laço cheio de respeito, de distinção e afeto capaz de transpor esse abismo que há de pessoa a pessoa, e colocá-las numa relação harmônica como as notas de uma música. A cortesia é a musicalidade do convívio humano.”[2]

Esse estado de espírito é tão incomum em nossos dias que temos dificuldade em compreendê-lo. Não há nele nenhuma utilidade prática, nenhum lucro, e, sobretudo, nem sempre é agradável ser cortês… Como, então, explicá-lo? Ele só é possível pela prevalência do espírito sobre a matéria, das qualidades do sobrenaturais em detrimento às naturais.

Mas, há possibilidade de existir essa ordem de coisas que norteie assim uma sociedade? Embora todas as aparências que nos circundam manifestem o contrário, esta ordem de coisas não apenas é possível, como já existiu: o Ancien Regime é um exemplo. Nesta época, sobretudo na França, “entre os elementos que constituíam a douceur de vivre [doçura de viver], ocupava lugar de destaque aquele modo distinto de proceder ou de falar, conhecido pela expressão politesse [polidez]. Esta qualidade do francês de então se encontrava difundida por todas as classes sociais, e se baseava numa espécie de necessidade inata de devotamento, abnegação e dom de si mesmo.”[3]

Isso nem sempre é fácil. A constante atitude de dignidade, o modo de falar trabalhado que requer uma atenção contínua na linguagem, as fórmulas de cortesia e todos os outros numerosos requisitos exigidos nesta forma de relacionamento, denotam a vitória da graça sobre o pecado, da virtude sobre a espontaneidade.

Conta-se que Santa Teresa de Ávila escreveu em certa ocasião, quando precisou passar alguns dias na casa da duquesa de Lacerda, na Espanha, que preferia o Carmelo, pois a vida era mais fácil e cômoda que a vida na corte…

Nessa época, a cortesia era o predicado por excelência da nobreza. “No gentil homem do século XVIII a expressão da fisionomia, o porte, o gesto, o traje exprimem a ideia de que a existência de elites sociais não só é justa, mas desejável, e que a superioridade de cultura, de maneiras e de gostos de seus membros deve naturalmente manifestar-se com um máximo de precisão, realce e requinte.”[4]

Tudo isso beneficiava o nobre, porque o tornava mais elevado, alteava-lhe o espírito. Mas beneficiava a sociedade inteira, porque todos começavam a imitar os gestos da corte.

Um coruscante relato do grande escritor francês, Lenotre, o atesta: “os cocheiros demonstram previdência, bom humor, honestidade, educação e probidade. Nunca exteriorizam a menor queixa, a mais leve discussão. (…) Ainda estou à procura de um caso de grosseria; nunca vi uma briga, até mesmo nos lugares onde, a multidão sendo compacta, não se podia dar dez passos sem esbarrar em alguém. Quem por descuido for esbarrado, apressar-se-á em pedir desculpas, ao mesmo tempo em que o outro lhe pedirá perdão. Os dois se cumprimentam, e o caso está encerrado”[5]

“O afã de ser amável e atencioso comportava a ideia de que quando se é anfitrião deve-se ter o prazer de praticar sacrifícios para agradar o próximo. E isso se manifestava em toda a escala social, desde o camponês ao próprio Rei.”[6]

Estoura a Revolução Francesa. Com ela, veladamente, o panteísmo se insinua sob o disfarce da igualdade. Pretende despersonalizar os indivíduos e produzir, a ferro e fogo, uma organização social onde as pessoas não sejam mais que números. Tal como num rebanho, onde a cabeça de gado não passa de uma cifra. Por isso, a Revolução Francesa fez morrer a cortesia, pois que esta é a harmonia entre as coisas diferentes. Acabando com as diferenças, desapareceu a cortesia. Mas, com isso, morre também a personalidade e tudo se transforma em “massa”.

Fascinado, ou melhor, iludido por uma falsa efígie da liberdade, o homem terminou por se tornar escravo. De quem? Não o sabemos… Alguns julgaram que a solução para a nova doença estava na fraternidade. E desta vez acertaram, pois a cortesia nada mais é que o amor ao próximo, por amor de Deus. Entretanto, erraram na composição do remédio…

Esse processo levou séculos para se desenrolar, mas chegou a um ponto difícil de ser cogitado pelos tutores da Revolução Francesa. Ele terminou? Nada o parece indicar… Pelo contrário, o horizonte apresenta um aspecto cada vez mais nublado e assustador. Onde ainda chegará este processo revolucionário? Seu futuro está em suas mãos, caro leitor. Sim, é no coração do homem que nascem a virtude e o pecado. Cada um de nós tem nas mãos as armas para derrotar esse inimigo da sociedade que pode ser resumido no egoísmo, vício contrário à caridade, ao amor a Deus. Só depois que Deus triunfar nos corações poderemos colher novamente os frutos da cortesia na sociedade humana, reflexo sublime das luzes e alcandores da sociedade celeste que nos aguarda. Comecemos a vitória pelos nossos próprios corações.

Felipe Rodrigues de Souza


[1] CLÁ DIAS, João S. O Dom de Sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira. Tese de doutorado em Teologia – Pontifícia Universidade Bolivariana. Medellín, 2010, p. 375.

[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência para jovens. 29 jun. 1974. Arquivo ITTA.

[3] CLÁ DIAS, João S. Despreocupados… rumo à guilhotina: A autodemolição do Ancien Regime. São Paulo: Artpress, 1993, p. 14.

[4] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Pintando a Alma Humana. Catolicismo, Maio de 1951.

[5] LENOTRE, G. Gens de la Vieille France. Paris: Librarie Académique, 1919, p. 40-43.

[6] CLÁ DIAS, João S. Despreocupados… rumo à guilhotina: A autodemolição do Ancien Regime. São Paulo: Artpress, 1993, p. 21.