Santo Ambrósio

1. Antecedentes

Quase quatro séculos haviam se passado, desde a fundação da Santa Igreja por Jesus, durante os quais, dez grandes perseguições se fizeram sentir contra a Esposa de Cristo. A Bacia do Mediterrâneo tornara-se o berço do Cristianismo, mas teve suas terras regadas com sangue de milhões de mártires.

O Cristianismo, após o Edito de Milão, 313, promulgado pelo Imperador Constantino, adquiriu a liberdade de culto. E, naturalmente, crescia o número de fiéis.

“Começa o período dos grandes Padres da Igreja, a Idade de ouro da literatura eclesiástica. Os escritores do século IV e V estão em condições de dedicar seus talentos a outras causas, ademais da defesa da Igreja contra os pagãos. O rasgo definitivo desta época é o desenvolvimento da ciência eclesiástica.”[1]

Entretanto, como o perigo nasce com a vitória, urgia haver homens inteiramente ortodoxos que soubessem conduzir o rebanho de Deus através de inúmeros riscos, entre eles, as heresias. A Providência divina enviou quais novos profetas, a fim de evitar que inúmeros cristãos se perdessem por essas falsas doutrinas. Entre eles está um que marcou sua época por suas explicitações, mas, sobretudo, por seu modelo de vida e santidade: Santo Ambrósio.

2. Vida

Ambrósio, cujo nome significa “bom odor de Deus”[2], era o último filho do Prefeito das Gálias, também de nome Ambrósio. Este, por exercer função de grande influência, tinha residência nas cidades de Arles, Tréveris, e Lyon. Crê-se fortemente ter sido em Tréveris (hoje território alemão), onde Ambrósio veio ao mundo, por volta do ano 334[3]. Os filhos eram Marcelina, Sátiro e Ambrósio. Dos três não houve um que não fosse santo, sendo posteriormente canonizados.

Um fato de grande simbolismo ocorreu quando Ambrósio era ainda recém-nascido. Enquanto ele dormia no seu berço, entrou pela janela de seu quarto um enxame de numerosas abelhas. Estas começaram a voar sobre o infante, algumas entrando e saindo de sua boca. Após uns instantes, saíram as abelhas pelo mesmo caminho de onde vieram, e elevaram-se tão alto, de modo a perderem-se de vista. O fato impressionou a todos, sobretudo a seu pai, o qual viu neste episódio o sinal de um glorioso futuro para seu filho.[4]

Ambrósio viveu com sua família nas Gálias até o falecimento de seu progenitor. Após isso, partiu a Roma com seu irmão, sua irmã e sua mãe, contando o santo não mais de cinco anos. Recebeu uma sólida formação cultural e religiosa. Sobressaía-se notavelmente nos estudos das belas letras, pois possuía uma inteligência pouco comum, rapidez de espírito e temperamento alegre.

Conta-se que Ambrósio, acostumado a ver sua mãe e irmã oscularem as mãos de personalidades eclesiásticas, de modo jocoso, “apresentou, um dia, a mão à sua irmã para que ela lha osculasse, dizendo que um dia ele se tornaria bispo”. [5]

Ambrósio cresceu em meio às altas personalidades romanas, numa época em que a Igreja gozava já de liberdade de culto.

Seus estudos e formação lhe outorgaram a simpatia de Anício Probo, prefeito do Pretório romano, e este o nomeou governador da Emilia e da Ligúria, que compreendiam vastíssima região, tendo por metrópole a Milão. “O Imperador Valentiniano confirmou esta eleição, acrescentando a dignidade de cônsul.”[6]

Quando estava partindo a Milão para tomar posse do cargo, Probo disse-lhe: “Vá, e atue não como juiz, mas como Bispo”. Isto queria significar que deveria governar com caridade e afabilidade. Em pouquíssimo tempo Ambrósio ganhou a simpatia e as graças do povo. “Precisamente ali, se dava com ardor a luta entre ortodoxos e arianos, sobretudo, depois da morte do bispo ariano Auxêncio.”[7]

Ora, tendo falecido o Bispo ariano Augêncio que ocupava a Sede de Milão, em 374, puseram-se os católicos e arianos a disputar quem ocuparia seu lugar. Grande fazia-se a disputa, ameaçando um entrechoque. Santo Ambrósio, como governador, decidiu ir ao encontro de ambos os bandos, a fim de acalmar a situação. Interpondo-se, falou com tanta sabedoria e discernimento que em pouco tempo o apaziguamento dos ânimos fez-se sentir.

De repente, uma voz de criança exclamou em meio à multidão: “Ambrósio bispo! Ambrósio bispo!” E àquela voz inocente juntaram-se a de todos, que reconheceram a ação do Espírito Santo, naquela singela opinião: “Ambrósio será nosso bispo!” Vale a pena notar que Ambrósio falou com tal firmeza, unindo sua característica bondade, que até mesmo os arianos se dispuseram a elegê-lo.

Apesar de o santo alegar sua ‘indignidade’, não houve razão que pudesse fazer os presentes desistirem de seus projetos. Por fim, percebendo que nada mais podia, Ambrósio aceitou o cargo que ele tanto temia.

Entretanto, o cônsul de Milão era apenas catecúmeno. Tendo sido enviada uma rápida emissiva ao Imperador, que se encontrava não muito distante, este se alegrou sobremaneira, ao ver que aquele enviado por ele como governador, era aclamado bispo.

Santo Ambrósio foi batizado no dia 30 de novembro de 374, recebeu as ordens sagradas nos dias subsequentes e, finalmente, ordenado bispo no dia 7 de dezembro. No período de apenas uma semana foram-lhe conferidos os sacramentos devidos. O presbítero Simpliciano ocupar-se-ia de sua formação teológica.[8]

Após sua ordenação, sendo visitado por sua irmã Marcelina, Ambrósio estendeu-lhe a mão esboçando um leve sorriso, e dizendo: “não lhe dizia que um dia oscularias a mão do sacerdote?”

“Como bispo, seu caráter firme, mas amável, se detecta, sobretudo, em sua ampla correspondência. Faz transluzir sua energia de homem de ação, una firmeza moral matizada por sua amabilidade natural, bondade real e piedade ardente.”[9] Logo que ascendeu ao episcopado, fez três propósitos que os manteve até o fim de sua vida: não passar um só dia sem celebrar o Santo Sacrifício; pregar o Santo Evangelho todos os domingos; não omitir nada que pudesse contribuir ao florescimento da Santa Igreja e à destruição da heresia.

No ano de 375 morreu Valentiniano que tanto ajudara o santo. Seus filhos Graciano, de dezessete anos, e Valentiniano de quatro, tiveram o apoio e o cuidado de Santo Ambrósio, que os tratou como verdadeiros filhos.

Contudo, Justina a mãe dos jovens imperadores era ariana, e querendo a todo custo que os hereges tivessem direito a reunir-se em uma igreja, por ocasião da Páscoa, mandou em nome do imperador Graciano, seu filho, que a reunião se desse na Basílica Porciana. Os arianos cercaram o templo onde Santo Ambrósio estava a terminar a Santa Celebração. Manteve-se firme o prelado, não lhes abriu as portas, forçado a manter-se preso juntamente com o povo, durante alguns dias. Até a questão se resolver, aproveitou o tempo para catequizar os que ali se encontravam por meio de cânticos sacros. Compunha-os na hora, e o povo memorizava aquelas palavras imbuídas de profunda teologia e piedade. Muitos desses hinos são rezados e cantados no ofício divino até hoje.

Numa dessas ocasiões, em que estava reunido com a turba fidelium no templo, a Providência dignou-se revelar-lhe onde estavam enterrados os corpos de São Gervásio e Protásio.

No ano de 384, Justina furibunda contra o catolicismo, declarou uma perseguição contra a Igreja, ameaçando a expulsão dos cargos os bispos que não aceitassem determinações a favor dos arianos. Santo Ambrósio respondeu que em causa de fé, nunca os imperadores têm potestade para julgar os bispos.

Já nessa época, estava em Milão um jovem africano chamado Aurélio Agostinho. Encantado com a oratória de Santo Ambrósio, comparecia à igreja para escutá-lo: “Não me esforçava por aprender o que o Bispo dizia, mas só reparava no modo como ele falava.”[10] Assim Agostinho acabou por converter-se. Há tempo procurava a verdade, mas como se decepcionara com o Maniqueísmo, heresia à qual havia se aficionado, tentava encontrar alguém que lhe explicasse suas perplexitantes dúvidas. E Santo Ambrósio foi o homem escolhido por Deus, para converter aquele que seria um dos maiores luminares da Igreja: Santo Agostinho, a “águia de Hipona”.

Malgrado o ódio e inimizade que a imperatriz Justina nutria contra o Bispo de Milão, reconhecia sua personalidade, fama e potestade de que ele gozava. E, num momento de grande perigo, quando um tirano chamado Máximo ameaçava dominar e sublevar o poder do Império, Justina pediu que Santo Ambrósio convencesse Máximo de desistir de seus projetos.

O santo aceitou, e dirigiu-se até Tréveris, onde fez frente ao tirano. Este pasmado pela intrepidez do prelado, respeitou-o. Porém, já estava decidido a destronar Valentiniano. Foi então que Justina pediu o auxílio do Imperador do Oriente, Teodósio. Este acedeu de boa vontade de cruzar o estreito de Constantinopla até Roma. Atacou Máximo e venceu-o restabelecendo o Imperador Valentiniano no cargo. A amizade cresceu profundamente entre o Santo Bispo e Teodósio.

Porém, algum tempo depois, o povo de Tessalônica revoltou-se contra o Imperador Este, para vingar a afronta, ordenou o massacre do povo, ocasionando uma carnificina de cinco mil pessoas. Santo Ambrósio ficou profundamente triste, e escreveu-lhe duas cartas incitando o imperador à penitência. Num dia que Teodósio dirigia-se à igreja, o Bispo de Milão barrou-o na porta, excomungando-o. Como o Imperador alegasse que David também havia pecado, Santo Ambrósio lhe respondeu: “Se tu o imitaste no pecado, trata de imitá-lo também na penitência”.[11] Após oito meses de penitência pública, Teodósio pôde ser readmitido à comunhão da Igreja.

Santo Ambrósio teve um papel preponderante, quando Graciano mandou derrubar a estátua da deusa Vitória, símbolo do paganismo romano.

No mês de fevereiro de 397, o santo prelado caiu enfermo. Alguns dias antes de sua morte apareceu-lhe o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, consolando-o.

Por fim, numa sexta-feira santa, 3 de Abril de 397, em meio às fadigas da doença, Santo Ambrósio permaneceu em profunda oração, até que à meia-noite, Sábado Santo, entregou sua alma a Deus.

3. Escritos

Os escritos de Santo Ambrósio se dividem em duas classes: a primeira diz respeito às Sagradas Escrituras; já na segunda classe, são reconhecidos os textos acerca dos dogmas, moral e disciplina. [12]

3. 1. Primeira Classe

Hexaméron (389): Tratado sobre a criação dos seis dias. Este escrito tem por objetivo refutar as diversas opiniões pagãs sobre a criação. Ele demonstra como o sistema mais “racional” para se crer na criação do Universo é o sistema de Moisés. Ou seja, que o Universo é obra de Deus, que tudo criou pelo Verbo Divino. As palavras fiat lux indicam que a vontade de Deus é a causa e a regra de todas as coisas criadas, e essa regra, serve a Santo Ambrósio para explicar toda a criação.

Sobre o Paraíso (375): Obra escrita pouco após ascender ao episcopado, foi composta pelo santo Bispo de Milão com o fim de instruir e premunir os simples contra os “sábios” heréticos, os quais se serviam de falsas interpretações da Escritura para induzir ao erro. Santo Ambrósio trata sobre o Autor do Paraíso; o que é o Paraíso; qual foi a conversa havida entre a serpente e Eva. Ele faz uma comparação entre o Paraíso e a alma humana, entre a árvore da vida e a sabedoria da virtude, sem, entretanto, deixar de reconhecer que o termo “paraíso” indica um lugar material onde Deus colocou o homem após sua criação. Também estabelece contra os maniqueus a unidade de um único Deus criador, e de Deus como primeiro princípio.

            Sobre Caim e Abel (375): É uma continuação da obra acima citada, pois foi chamada durante muito tempo, o IIº livro doParaíso. O tema é o nascimento, a vida, os costumes e a diferença entre os sacrifícios de Caim e Abel. Nestes dois filhos de Adão, estariam respresentadas as duas classes de homens no mundo: bons e maus, judeus e gentios, heréticos e cristãos.

            Sobre a Arca de Noé (379): Narração e comentários acerca do castigo de Deus e do santo Patriarca Noé. Obra muitíssimo bem trabalhada, embora careça-se da totalidade dela.

Sobre Abraão (387): O escrito que possuímos hoje consta de duas partes, mas outrora constituía uma obra única. A primeira parte, ou livro, é um recito das ações e virtudes do santo patriarca, assim como modelo de sábio na fé, na sua submissão e sacrifício. Propõe também Sara como modelo das esposas e mães cristãs. O segundo livro fala das ações de Abraão, mas já sob um enfoque mais espiritual, aplicando-as à vida interior.

            Quase todos os livros acerca dos patriarcas, são oriundos dos sermões que o santo de Milão fazia ao povo. É por isso que são riquíssimos em exemplos, mas sem uma contínua ordem lógica, pois Santo Ambrósio falava de acordo com a ação da graça na assembléia.

            Sobre Isaac (387): É a continuação do livro precedente, escritos portanto, na mesma época.  Quando é tratado o episódio do casamento entre Isaac e Rebeca, o Bispo de Milão faz um paralelo da união do Verbo com a alma. Estabelece quatro graus pelos quais pode-se chegar à essa perfeita união: fuga das voluptuosidades;  o segundo é de desejar o “ósculo do esposo”, pela força de orações e amor; o terceiro é de oscular os bens espirituias, unindo-se ao Verbo; por fim, é de habitar junto a Ele, no tálamo santo.

         Sobre o bem da morte (387): Também nota-se uma continuação sobre a vida dos patriarcas. Santo Ambrósio distingue três tipos de morte: a morte do pecado, que mata a alma; a morte ao pecado, a morte mística, a fim de ressuscitar com Nosso Senhor Jesus Cristo; e finalmente, a morte natural.

Sobre a fuga do mundo (387): Fugir do mundo, consiste não numa separação corporal, mas esquecer-se de seu corpo para voltar-se a Deus, pelos pensamentos de fé, pelas aspirações da esperança, e pelos élans da caridade.

Sobre Jacob e a vida bem-aventurada (387): É um tratado de conduta aos novos cristãos, de lições de moral e prática de virtude, tomando como exemplo o Patriarca Jacob.

Sobre José (387): Após falar sobre Abraão, Isaac e Jacó, cabe descrever a belíssima história de José. Este é proposto como exemplo de castidade.

Sobre a benção dos patriarcas (387): Este tratado forma como uma segunda parte do livro de José. Salienta a importância da bênção de um pai a seus filhos, bênção que se estende inclusive à outra vida. A bênção de um pai a seu filho é como uma graça de Deus.

Sobre Elias e o jejum (390): Compilação de sermões durante a qauresma. A importância do jejum.

Sobre Nabot (395): Trata sobre a importância que os ricos devem ter para com os mais necessitados.

Sobre Tobias (377): Sermões contra a prática da usura.

Sobre a lamentação de Job e de David (383);

Apologia de David (384): O objetivo desta obra é de exaltar a fé de alguns fiéis que, embora tenham pecado, sabem por meio da penitência confessar seu crime e levantar-se.

 Explicação de alguns Salmos (384);

Sobre o Evangelho de São Lucas (383): O Santo bispo de Milão é o primeiro dos escritores latinos a empreender o comentário do Evangelho de São Lucas. Atendo-se mais literal e histórico que ao moral, o santo comenta as aparentes contradições existentes entre os evangelistas. Esclarece muitos detalhes de passagens obcuras da Sagrada Escritura.

3.2. Segunda Classe: Obras não exegéticas.

Tratado dos ofícios ou Ofício dos ministros: Santo Ambrósio além de exortar os clérigos a terem uma conduta irreprensível, quis deixar por escrito que os ministros de Deus sã exemplos para todo o povo.

Sobre a Virgindade (377):  A virgindade é uma das primeiras virtudes da religião, e um prelado deve inspirar o gosto pela prática desta virtude. O Bispo de Milão foi um propagador entusiasta da virgindade. A pedidos de sua irmã, Santa Marcelina, Santo Ambrósio consentiu em redigir estes sermões como um tratado

Livro das viúvas (377): Santo Ambrósio escreveu este livro para exaltar a viúvez honrada.

Sobre a educação de uma Virgem (391): Este tratado é propriamente a apologia da Virgindade de Maria Santíssima. Escrito a pedidos de uma virgem consagrada de Antioquia, santo Ambrósio após afirmar ter o pecado entrado no mundo por uma mulher, afirma que esta falta foi reparada pela Santíssima Virgem, dando à luz o Salvador. Ataca com todas as garras aqueles que negam a virgindade perpétua de Maria. Explica que o termo aparentemente simples de “mulher”, com o qual Nosso Senhor A chama, não fere em nada a dignidade da Mãe de Deus. Ademais, o fato de dizer “os irmãos de Jesus” não quer dizer que Nossa Senhora tenha tido outros filhos, visto que “irmão” era trato referente às pessoas de uma mesma família. Trata outrossim das virtudes que uma virgem deve ter.

Exortação à virgindade (393); Sobre a queda de uma virgem;

Sobre os mistérios (387): Explicação nas Véspera de Páscoa aos catecúmenos, sobre os sacramentos de iniciação cristã, Batismo, Confirmação e Eucaristia.

Sobre os Sacramentos;

Sobre a Penitência (393): Este tratado é escrito sobretudo contra os Novacianos, que negam o poder que a Igreja tem de perdoar os pecados, em especial, daqueles que negaram a Fé, os lapsi. Afirma Santo Ambrósio que, uma vez que foi o próprio Cristo quem instituiu este sacramento, todo pecado pode ser perdoado, e convida os fiéis a acercarem-se deste sacramento.

Sobre a Fé: Escrito a pedido de Graciano Imperador, pois este queria premunir-se contra os erros arianos. Explica detalhadamente a divindade do Filho. A obra está dividida em cinco livros. Ele termina o livro com um hino que é uma oração estupenda à Santíssima Trindade.

Sobre o Espírito santo (381): Como continuação da obra precedente, este escrito é inspirado na teologia graga para afirmar a identidade de Essência entre o Espírito Santo, o Pai e o Filho. A sua terminologia trinitária foi assumida depois por Santo Agostinho.

Sobre a Encarnação (381): Obra dirigida contra os arianos.

Cartas de Santo Ambrósio: Possui-se hoje em dia 91 cartas do Santo Bispo de Milão. Entre elas: Três cartas ao Imperador Valentiniano;Cartas a Santa Marcelina; Duas cartas a Teodósio;

Discurso contra Auxêncio; Sobre a morte de Sátiro; Oração fúnebre de Valentiniano; Oração fúnebre de Teodósio; Hinos;

“Enfim, todas estas obras fizeram merecer a Santo Ambrósio o título de Ilustríssimo doutor da Igreja, de fortaleza da Fé, de orador da catolicidade, e fizeram-no brilhar como um astro com raios esplêndidos, o qual iluminou com sua luz todos os recantos do Ocidente”.[13]


BIBLIOGRAFIA

 

BENEDICTO XVI. Los Padres de la Iglesia: de Clemente de Roma a San Agustín. Madrid: Cuidad Nueva, 2010.

M. MIGNE. Nouvelle Enciclopédie Théologique: Dictionnaire de Patrologie IIJ.P. Migne: Paris, 1851.

PATRÍSTICA. Ambrósio de Milão. São Paulo: Paulus, 1996.

QUASTEN, Johannes. Patrología II: la edad de oro de la literatura patrística griega. Madrid: BAC, 1962.

SANTO AGOSTINHO. Confissões X 13. Apud BETTENCOURT, Pe. Estevão Tavares. Curso de Patrologia. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2003.

TREVIANO, Ramón. Patrología. Série Sapientia Fidei. Madrid: BAC, 1994.


[1] QUASTEN, Johannes. Patrología II: la edad de oro de la literatura patrística griega. Madrid: BAC, 1962.

[2] “Ambrósio vem de ‘ambar’ que é uma substância odorífera e preciosa. Ora, Santo Ambrósio foi precioso à Igreja, espalhando um bom odor pelas suas palavras e ações. Ou Ambrósio vem de ambar e de de ‘sios’, que quer dizer Deus, como ‘ambar de Deus’.” (JACQUES DE VORAGINE. Légende Doré. Paris : Édouart Rouveyre, Paris 1902. Tradução Nossa)

[3] Os autores discutem a data exata do nascimento de Santo Ambrósio. Muitos a fixam em 337, 339 ou em 340.

[4] MIGNE. Nouvelle Enciclopédie Théologique: Dictionnaire de Patrologie I. J.-P. Migne: Paris, 1852. p. 252.

[5] Ibid.

[6] Ibid. p. 253

[7] BENEDICTO XVI. Los Padres de la Iglesia: de Clemente de Roma a San Agustín. Madrid: Cuidad Nueva, 2010. p. 162.

[8] O Presbítero Simpliciano foi quem tomou a sede episcopal no lugar de Santo Ambrósio, após a morte do mesmo.

[9] TREVIANO, Ramón. Patrología. Série Sapientia Fidei. Madrid: BAC, 1994. p.233.

[10] SANTO AGOSTINHO. Confissões X 13. Apud BETTENCOURT, Pe. Estevão Tavares. Curso de Patrologia. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2003. p. 122.

[11] AMBRÓSIO DE MILÃO. Patrística. São Paulo: Paulus, 1996. p. 13.

[12] As obras de Santo Ambrósio, sua divisão e as resenhas acerca da cada uma, são baseadas no libro do Abbé M. Migne. Op. Cit.

[13] M. MIGNE.Op.Cit. p.305

Santo Atanásio, o Grande

I. Vida

                 Santo Atanásio o Grande, é um dos maiores e mais ilustres dentre os Padres e Doutores[1] da Igreja.

            Nasceu em 295, na cidade da Alexandria, de pais provavelmente não cristãos e de língua grega, entretanto de sua infância pouco se sabe. Consta que ele tenha recebido uma sólida educação de base, iniciando-se inclusive na filosofia. Estima-se que se tenha convertido relativamente jovem, pois sabe-se que aos 17 anos foi escolhido pelo bispo Alexandre para ocupar o cargo de leitor. Em 318, com 23 anos é ordenado diácono e se torna secretário episcopal.

            Conta-nos São Gregório de Nazianzo que ele desde sua conversão se aplicou a sérias  e profundas meditações sobre as Sagradas Escrituras, que, a partir de então foram sua principal fonte de saber.

            Neste período, a magna cidade de Alexandria era açoitada, sendo um foco incandescente da heresia ariana[2]. No entanto desde o início Santo Atanásio apoiou incondicionalmente a seu bispo, unindo-se a este que foi o primeiro adversário de Ario, condenando-o num sínodo (320).

            Devido a expansão desta heresia, Constantino, temendo uma rachadura eminente de seu império, convocou o Concílio de Nicéia (325), para solucionar tais desavenças. Lá foi então, acompanhando seu bispo o diácono-secretário Atanásio. Pelas vias da Providência, vemos então que entra em sena neste concílio, em meio ao bispos que tinham a primazia da palavra, um simples diácono que começa a ser temido pelos adversários de fé. Diz-nos São Gregório de Nazianzo sobre a participação da Atanásio: “Em Nicéia, os arianos observam o valoroso campeão da Verdade: de estatura baixa, quase frágil, mas de postura firme e de cabeça levantada. Quando se levanta, como que se sente passar uma onde de ódio através dele. A maioria da assembléia olha com orgulho para aquele que é o intérprete do seu pensamento”.[3] No final, foi aprovada uma fórmula de fé, que passou a se chamar “Credo de Nicéia”. Ario foi exilado…

            Aos 17 de abril de 328, estando prestes de entregar sua alma a Deus, o bispo Alexandre levando em consideração as virtudes de seu secretário, indica-o para lhe suceder.

            Claro está que tal escolha não agradou aos hereges (arianos e melecianos), que tentaram de todos os modos contestar. No entanto o sufrágio do clero e do povo ratificou, sendo 2 meses e meio mais tarde (7 de junho de 328) indicado para assumir a sede do patriarcado de Alexandria, tendo o reconhecimento do imperador Constantino.

            Vem então um período muito conturbado: os 46 anos de episcopado de Atanásio (328-373), época em que nosso Santo pôde mostrar todo o seu zelo pela fé, em que ele só lutou contra Ario e seus correligionários, contra os melecianos cismáticos, contra o próprio imperador Constantino, e por vezes, contra certos defensores tortos e intransigentes do Símbolo de Nicéia. Todos os que dele tentaram se livrar fracassam… diante de sua firmeza e intransigência.

            Consta que este defensor da fé tenha sido exilado cinco vezes. Dos quarenta e cinco anos que durou seu ministério episcopal, na sede de Alexandria, Santo Atanásio esteve dezessete anos no exílio, devido à flutuação política e aos incessantes ataques dos hereges, aos quais a resistência dele irritava…:

            A primeira foi-lhe imputada pelo imperador Constantino, que o exilou a cidade de Tréviris, após ter ficado desgostoso pelo fato dele ter se recusado a receber Ario na comunhão da Igreja.

            Tendo falecido o imperador (337) Santo Atanásio volta para reocupar sua sede episcopal, mas eis que em 339 um sínodo em Antioquia, por instigação do Bispo Eusébio de Nicomédia, o depõe novamente. Sendo assim restou-lhe apenas procurar refúgio junto ao Papa Júlio I, em Roma.

            Morto o Bispo intruso Gregório (343), há uma nova volta de Atanásio, com a autorização do Imperador Constâncio. Porém um outro sínodo em Milão o declara uma vez mais deposto ocasionando seu recesso para junto dos monges do deserto egípcio, dos quais era familiar.

            Seu quarto exílio se dá pois o imperador Juliano julgando prejudicar à Igreja reintroniza bispos depostos (que ele julgava serem maus). Mas tendo voltado à sua sede Santo Atanásio continua a lutar pela união dos cristãos, o que desagrada ao imperador que por sua vez queria vê-los em cizânia… e expulsa Atanásio “como perturbador da paz e inimigo dos deuses.”

            Por fim… Santo Atanásio retorna a Alexandria, tendo Juliano falecido (363), Entretanto, sob o novo imperador Valente, teve novamente de deixar sua sede, retirando-se para uma casa de campo nas cercanias de Alexandria, permanecendo apenas quarto meses, pois o povo fiel, descontente com a atitude do soberano, ameaça um motim. O que o fez permitir a volta do verdadeiro bispo de Alexandria. Santo Atanásio lá permanece, enfim até sua santa morte em 373.

II. Escritos

             Apesar de levar uma vida de “peregrino” de exílio em exílio, as vicissitudes ininterruptas não lhe impediram de ser um profícuo escritor.Sua produção literária é ampla, abrange gêneros apologéticos, históricos, exegéticos, homiléticos e epistolares.

            A maioria de suas obras está relacionada com a defesa do Credo de Nicéia, ou seja da consubstancialidade, ou seja da divindade do Verbo.

            Santo Atanásio era um polemista hábil, por isso sabia servir-se de sua pena para defender seu rebanho, como a si-mesmo, tendo sido ele perseguido e atacado de todos os modos, valeu-se de seus escritos, tendo sempre a segurança que defendia a fá, numa unidade ímpar com a doutrina ortodoxa.

            Sua primeira obra é uma apologia Contra os pagãos e sobre a encarnação do Verbo. Nela se delineia as grandes linhas de sua Cristologia: “O Verbo de Deus que se fez homem para que nós sejamos Deus.”

             Sua grande obra é um tratado de três livros contra os arianos, no qual discute longamente textos bíblicos nos quais Ario pretendia fundamentar sua heresia. O primeiro defende a definição do Concílio de Nicéia, a eternidade do Filho de Deus e a unidade da essência divina. O segundo e o terceiro fazem uma exegese dos textos bíblicos que eram debatidos nas controvérsias contra os arianos, e consideram passagens referentes às relações do Filho com o Pai.

            O Símbolo Atanasiano que é um compêndio de fé católica redigido em quarenta sentenças rítmicas. Esta obra fora atribuída a ele a partir do século VII, ou seja tardiamente, entretanto era considerada autêntica até o século XVII, quando se averigüou que o texto original é latino e não grego. Neste livro o autor propõe os mistérios da Santíssima Trindade e da Encarnação do Verbo, começando e terminando pela afirmação: “Esta é a fé Católica e quem não a professa com firmeza e fidelidade não pode ser salvo.”

            Apologia contra os Arianos que foi redigida aproximadamente em 357, quando Santo Atanásio voltou de seu segundo exílio. Trata-se de cartas, atas e decisões de Concílios Regionais. Sendo que uma facção ariana desprezava o Concílio de Nicéia e ao Papa, Santo Atanásio transcreve uma passagem de um Papa:

            “Não sabeis que a praxe manda que primeiramente se escreva a nós e que daqui proceda a justa decisão? Se alguma suspeita estivesse pesando sobre             o Bispo de Alexandria, era preciso escrever a respeito à Igreja de Roma. Ora            os arianos, sem ter comunicado coisa alguma, procederam como lhes            agradava e agora querem que lhes demos nossa aprovação, sem mesmo ter             examinado a causa. Tais não são os preceitos que Pedro e Paulo nos             entregaram. Ocorre agora um modo de agir e uma prática totalmente novos.             Rogo-vos, pois: estai dispostos a atender-me: o que escrevo é para o bem     comum, pois o que vos dizemos é precisamente o que recebemos do bem-          aventurado apóstolo Pedro.”

            Apologia ao Imperador Constâncio, tendo ele sido acusado de instigar o imperador Constante contra seu irmão Constâncio, escreveu esta obra que é uma auto-defesa (357).

            No mesmo ano, tendo ele sido novamente acusado, mas desta vez por abandonar sua diocese, escreveu a Apologia da sua fuga para responder aos que o acusavam.

            Estando refugiado junto aos monges da Tebaida, escreve a História dos Arianos.

            Há ainda muitas outras obras escritas pelo Santo, tais como:

            – Vida de Santo Antão.

            ­- Sobre a Virgindade (autoria um tanto incerta…).

            – Epístola a Marcelino sobre a interpretação dos Salmos.

            – As Cadeias (catanæ).

            – Diversas cartas as quais infelizmente muitas estão perdidas. Porém sabe-se que são escritos de caráter doutrinário, quase como que tratados, onde Santo Atanásio comunica as decisões dos Concílios, normas da Igreja sem entretanto (e aí vemos particularmente sua santidade, sua preocupação com a obra de Deus e seu desapego a si-mesmo) tratar de assuntos pessoais ou particulares. Destacanm-se:

                       – As Cartas festivas.

                       – Cartas Festivas Sinodais.

                       – Cartas dogmático-polêmicas.

                       -Epístola ao Bispo Epicteto de Corinto.

                       -Carta a Adélfio, Bispo e confessor.

            Enfim vemos que a vida de Santo Atanásio foi uma constante defesa da expressão da fé definida no Concílio de Nicéia. Ele pertencia aos grandes doutores Capadócios, herdeiros da tradição de Orígenes, elaborando uma teologia da Trindade, particularmente determinando o sentido de algumas fórmulas (pessoa ou hipóstase, substância; uma substância em três hipóstases).

 Bibliografia

-ATANÁSIO, Santo. Contra os pagãos, A encarnação do Verbo, Apologia ao imperador Constâncio, Apologia de sua fuga, Vida e conduta de Santo Antão. Coleção Patrística. São Paulo, Paulus: 2002.

-BETTENCOURT, Estêvão Tavares Pe. Curso de patrologia. Rio de Janeiro, Mater Ecclesiæ, 2003

-Dicionário patrístico e de atigüidades cristãs. Trad. Cristina de Andrade. Org. Angelo Di Berardino. Petrópolis, Vozes: 2002.

-VV.AA. Initiation théologique vol. I – les sources de la théologie. Paris, Cerf: 1952.


[1] O termo Doutor da Igreja, muitas vazes se associa ao de Padre da Igreja, sendo que não é simplesmente um sinônimo. Indica um grau a mais, pois nem todos os Padres são Doutores.

[2] Esta heresia afirmava que o Filho (Nosso Senhor) não existia antes de ter sido gerado, negando assim a co-eternidade  Dele com o Pai, que o Filho é a primeira das criaturas, que é uma espécie de “segundo deus” (déutero theós), mas que ele permanece alheio à essência divina do Pai. Eles separavam assim o Filho do Pai.

[3] Elogio de Atanásio. PG. 25, col. 1081.

 

São Gregório de Nissa: o maior teólogo da Capadócia

1. Vida

Seu nascimento deu-se provavelmente em 335. Foi educado por seu irmão, São Basílio, mas depois teve uma vida mundana, sendo professor de retórica e contraindo matrimônio – do que se lamentará no futuro. Por influência de seu irmão e de São Gregório Nazianzeno, abandonou a vida no mundo enclausurando-se num mosteiro. Sua mãe e sua irmã também ingressaram na vida religiosa.[1] Em 371, por aclamação popular, foi elevado à sede episcopal de Nissa – um insignificante distrito da Cesárea. Neste período, sofreu muito com a perseguição dos hereges, que o acusavam de desonestidades em matéria financeira. Seu irmão o repreendeu diversas vezes por sua falta de pulso firme. Vários bispos arianos, durante uma ausência do santo Bispo de Nissa, depuseram-no da sede episcopal. À morte do imperador Valente – ariano –, São Gregório voltou à sua cidade onde foi aclamado por todo o povo de maneira muito viva. Em 381, teve uma parte extremamente relevante no concílio de Constantinopla. O resto de sua vida é envolta em nuvens de mistério. Quasten afirma que sua morte foi em 385. Drobner, Ramos-Lissón, Llorca, Altaner e Stuiber situam sua morte entre 394 e 396.

Afirmam os historiadores que, pela sua eloquência, era lhe rendido um grande prestigio na corte imperial.[2] Além do mais, ficou conhecido, em vida, como “o Filósofo”.[3]

2. Obras

Assim escreve Johannes Quasten: “Gregório de Nisa não foi um extraordinário administrador e um legislador monástico como Basílio, nem um pregador e poeta atraente como Gregório de Nazianzo. Mas como teólogo especulativo e místico foi, sem dúvida, o melhor dos três grandes capadócios.”[4]

De suas obras conhecem-se as seguintes: Adversus Eunomium; Adversus Apollinaristas ad Theophilum episcopum Alexandrinum; Antirrheticus adversus Apollinarem; Sermo de Spiritu Sancto adversus Pneumatomachos Macedonianos; Ad Ablabium quod non sint tres dii; Ad Graecos ex communibus nationibus; Ad Eustathium de Sancta Trinitate; ad Simplicium de fide sancta; Dialogus de anima et resurrectione qui inscribitur Macrina; Contra Fatum; Oratio catechetica magna; De opificio hominis; de beatitudinis; Duas homilías sobre I Coríntios; De virginitate; Quid nomen professione Christianorum sibi velit; De perfectione  et qualem oporteat ese Christianum; De instituto Christiano; De castigatione; Vita Macrinae; e um grande número de sermões, panegíricos e discursos sobre diversos temas.

Suas obras recebem bastante influência da filosofia de Platão. Segundo Daniélou, o santo capadócio hauriu de Plotino a mística, de Porfírio a lógica e a ontologia, e de Jâmblico a cosmologia.[5] Quanto à sua formação doutrinária cristã, os autores são praticamente unanimes em ver a influência de São Basílio.

Alguns estudiosos – especialmente Usener – atacaram a autenticidade de algumas obras, mas com argumentos pouco convincentes. Usener tenta atacar um Sermão para o Natal, pelo fato de utilizar o termo Theotokos aplicado à Nossa Senhora muitos anos antes do Concílio de Éfeso – ataque este que não impressiona os críticos e foi refutado por Holl.

3. Doutrina

a) Exposição sistemática da doutrina cristã

Depois de Orígenes, deve-se a ele a primeira exposição sistemática da doutrina cristã. Suas especulações superam as preocupações doutrinárias de seu tempo e contribuem muito para a teologia. A principal obra referente à sistematização da doutrina cristã é sua Oratio Catechetica Magna.

b) Filosofia

Sua ligação com a filosofia é patente, sobretudo ao considerar que a compara com a Esposa do Cântico dos Cânticos. Porém, faz severas críticas à filosofia afastada de Nosso Senhor:

“A filosofia pagã é verdadeiramente estéril; sempre a ponto de parir, mas nunca acaba de dar à luz a um ser vivo. Que fruto produziu a filosofia que esteja à altura de tão grandes dores? Não é verdade que todos os seus frutos são vazios, imperfeitos, e malogrados, como abortivos que são, antes de chegar à luz do conhecimento de Deus?”[6]

c) Doutrina Trinitária

Quanto à sua doutrina trinitária, contribuiu muito para a proclamação do dogma da Unidade e Trindade de Deus, especialmente sobre a divindade do Espírito Santo que, segundo o santo Bispo de Nissa, procede especialmente do Filho. São Gregório escreve que o Espírito Santo, pode ser chamado também “Espírito de Cristo”.[7]

d) Cristologia

No tocante à cristologia, salienta muito a diferenciação das duas naturezas de Cristo. Faz, porém, uma belíssima aproximação entre ambas: “enquanto o Senhor recebe a marca de escravo, o escravo é honrado com a glória do Senhor. Esta é a razão por que se diz que a Cruz é a Cruz do Senhor da glória.”[8] Apesar de ter duas naturezas, Cristo tem uma só pessoa: “Esta é nossa doutrina: não prega a pluralidade de Cristos, como o imputa Eunômio, senão a união do homem com a divindade.”[9] São Gregório salienta, ademais, que Cristo teve uma alma humana real, com noúúûu/çj humano, pois, do contrário, não podia ter servido de exemplo para nós.

e) Mariologia

Referindo-se à Nossa Senhora, usa cinco vezes em suas obras o termo qeoto,koj – Theotókos, “Mãe de Deus” – em contraposição ao termo av’’’’’’’nqrwpoto,koj – Anthropotókos, “Mãe do homem” –, que alguns queriam aplicar à “Mãe de Deus”. Para ele, negar a maternidade divina de Nossa Senhora é dividir Nosso Senhor Jesus Cristo.[10]

f) A virgindade

Muito digna de nota é sua doutrina sobre a virgindade. Afirma ser esta “uma porta de acesso a uma vida mais santa”.[11] Chega até a designar Nosso Senhor Jesus Cristo como o avrcipa/rqenoj – Arkipárthenos, o “Arquivirgem”. Apresenta, ademais, Nossa Senhora como perfeito modelo de virgindade. Contudo, o Santo Bispo capadócio lamenta-se por ter se casado e não falar deste estado de vida com toda a propriedade.[12]

g) Vida monástica

Muito bela é sua doutrina sobre a vida monástica. Colombás assim resume este ponto da doutrina de São Gregório de Nissa:

“A vida monástica – a vida cristã seriamente vivida – é essencialmente o caminho da purificação da alma, pelo qual se aproxima passo a passo da divindade. O homem não pode realizar tão grande e penosa ascensão sem grandes esforços, sem lutar valorosamente contra as tentativas do demônio para derrubá-lo e vencê-lo, nem sem possuir a ciência (gnosis) – gnw,sij -, e a virtude (areté) – avreth//-, duas realidades inseparáveis.”[13]

h) Antropologia

Muito estudada nos dias de hoje é a sua antropologia. Afirma ser o homem a síntese e a imagem de todo universo. Sua maior grandeza, porém, é de ser imagem e semelhança de Deus e ter recebido o próprio Verbo de Deus em sua natureza.[14]

i) Contra Orígenes

Apesar de ter escrito contra diversos erros de Orígenes – como a doutrina da preexistência da alma, da estada dos homens nesta terra por algo feito em uma vida passada, etc. –, São Gregório compartilhou com ele a doutrina da avpokata,stasij (apokatástasis). Cumpre notar que ainda não havia sido definido pela Igreja o dogma sobre este ponto. Contudo, em algumas obras, São Gregório escreve sobre as penas eternas, com afirmações que deixam os intérpretes perplexos.

j) A oração

Para concluir, escolheu-se um ponto muito salientado por Sua Santidade, o Papa Bento XVI: o valor que São Gregório de Nissa dá à oração. Eis a citação colhida pelo Papa:

“Através da oração conseguimos estar com Deus. E quem está com Deus está longe do inimigo. A oração é sustentação e defesa da castidade, freio da ira. apaziguamento e domínio da soberba. A oração é guarda da virgindade, proteção da fidelidade do matrimônio, esperança para aqueles que vigiam, abundância de fruto para os agricultores, segurança para os navegantes.”[15]

 Por Rodrigo Fujyama

BIBLIOGRAFIA

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RAMOS-LISSÓN, Domingo. Patrología. Navarra: EUNSA, 2005.


[1] Cf. BOGAZ; COUTO; HANSEN. PATRÍSTICA… p. 194.

[2] Cf. ALTANER; STUIBER. Patrologia. p. 306.

[3] Cf. LLORCA. Manual de … p. 190.

[4] QUASTEN. Patrología II. p. 282.

[5] Dicionário patrístico e de antiguidades cristãs. p. 646.

[6] Apud QUASTEN.  p. 316.

19 Idem. p. 317.

[8] Idem. p. 321.

[9] Idem. p. 322.

[10] Cf. Idem. p. 322.

[11] Apud Idem. p. 300.

[12] Idem.

[13] COLOMBÁS. El monacato primitivo. p. 409.

[14] Cf. BOGAZ; COUTO; HANSEN. PATRÍSTICA… p. 196.

[15] Apud BENEDETTO XVI. I Padri della Chiesa… p. 114-115.

São Gregório Nazianzeno: Teólogo ilustre, orador e defensor da fé cristã

1.     VIDA

São Gregório nasceu de família nobre, em Arianzo, Capadócia, em 330. Sua mãe, Nona, era uma mulher piedosa, que consagrou-o a Deus quando o concebeu. Ela também obteve a conversão de seu marido, igualmente chamado Gregório, o qual alguns anos mais tarde, em 325,  foi sagrado Bispo de Nazianzo. São Gregório estudou primeiramente na escola de Retórica de Cesárea da Capadócia; depois foi para a escola cristã de Cesárea na Palestina. Logo em seguida à Alexandria e finalmente para Atenas.[1] Teve por companheiros de estudos a São Basílio e Juliano, o apóstata.

Depois de brilhantes estudos literários, recebeu o batismo, por volta de 358, e tomou a decisão de viver a “filosofia” monástica. Entretanto, não estava inteiramente decidido, como havia prometido, a deixar a família para reunir-se a São Basílio. No entanto, passou alguns breves períodos com este, na solidão do ermo, durante os quais ambos se aplicaram ao aprofundamento teológico, estudando os escritos de Orígenes.[2]

No Natal de 361 foi ordenado sacerdote por seu próprio pai. Em 372, São Basílio o obrigou, por necessidades de sua política religiosa, a aceitar o episcopado na estação postal de Sásima, mas acabou não indo para esta cidade. Depois da morte de seu pai, em 374, dirigiu por pouco tempo a igreja de Nazianzo, mas logo se retira a Selêucia de Isáuria, onde ficou um tempo muito breve, pois um grupo de cristãos de Constantinopla dirigiu-se a ele pedindo que fosse àquela cidade, a fim de ajudar a reorganizar a igreja oprimida por uma série de Imperadores filo-arianos, mas esperançosa de melhores dias por causa da morte do Imperador Valente. São Gregório aceitou, passando dois anos em Constantinopla, desenvolvendo ação muito benéfica para os católicos. Ao chegar à cidade, encontrou todas as igrejas e prédios locais em mãos dos arianos, conseguindo residência apenas pelo fato de ter um parente na região. Conseguiu uma igreja que dedicou-a a Santa Anastácia. Seus sermões atraíam público sempre mais numeroso e em consequência abundantes conversões.[3]

Em 380, no dia 24 de Dezembro, Teodósio foi aclamado Imperador. Este apoiou os católicos e devolveu-lhes os bens que estavam em posse dos arianos. Em maio de 381 o I Concílio Geral de Constantinopla reconheceu São Gregório como Bispo da capital. Aconteceu, porém, que os Bispos do Egito e da Macedônia impugnaram tal designação. E São Gregório foi obrigado a retornar à Nazianzo, onde por mais ou menos dois anos se dedicou à cura pastoral daquela comunidade cristã. Finalmente retirou-se para Arianzo a fim de se dedicar aos estudos e levar uma vida ascética. Em 390, Deus acolheu em seus braços este servo fiel, o qual, com inteligência perspicaz, O tinha defendido nos escritos e cantado em suas poesias.[4]

2.     OBRAS

“Fui criado para me elevar até Deus com as minhas ações!”.[5] Assim concluía São Gregório Nazianzeno, sua reflexão sobre a missão que Deus lhe tinha confiado. De fato, ele colocou ao serviço de Deus e da Igreja o seu talento de escritor e de orador. Compôs numerosos discursos, vários panegíricos e homilias, muitas cartas e obras poéticas (quase 18.000 versos!): uma atividade verdadeiramente prodigiosa.[6]

2.1.  Os Discursos

As melhores composições dele são os 45 Discursos que se conservaram até hoje. A maior parte foi nos anos 379-381, o período mais importante de sua vida, quando as atenções universais se voltavam para ele, por ser bispo de Constantinopla. Eis o elenco dos mesmos:            a) Os cinco discursos teológicos, pronunciados em Constantinopla no verão e outono de 380. Por causa destes discursos ele recebeu o titulo de “o Teólogo”. Defendia neles os dogmas da Igreja contra os eunomianos e macedonianos. Apesar de sua intenção ser especificamente a de proteger a fé nicena das más interpretações, representam o resultado maduro de um estudo prolongado e intensivo da doutrina trinitária. Além de refutar com argumentos novos o arianismo, no quinto discurso defende claramente a divindade do Espírito Santo contra os macedonianos.[7]

b) Sobre o ordem e a instituição dos bispos e Sobre a moderação e propósito nas controvérsias. Denuncia a paixão dos constantinopolitanos pelas controvérsias e argumentos dogmáticos. Novamente, oferece uma explicação detalhada sobre a doutrina trinitária.

c) Discurso Apologéticos. Consta das invectivas contra Juliano, o Apóstata, a quem São Gregório havia conhecido pessoalmente em Atenas. Foram compostos depois da morte do imperador.

d) Discursos Panegíricos e Hagiográficos são sermões quotidianos.

e) Os discursos de ocasião. Entre eles o mais importante de todos é o Apologeticus de fuga, onde descreve o caráter e as responsabilidades do ofício sacerdotal.

3.     ASPECTOS TEOLÓGICOS

Sua teologia se encontra explicita ou implicitamente em seus discursos, poemas e cartas, e não em comentários às Escrituras ou em algum tratado teológico. Contudo, “São Gregório representa, na teologia, um progresso claro a respeito de São Basílio, não só em terminologia e formas dogmáticas, que são melhores, senão, também, a realização da teologia como ciência e um conhecimento mais profundo de seus problemas.”[8]

Em mais de uma ocasião, trata explicitamente da natureza da teologia. Discute as fontes da teologia, as características dela, a ecclesia docens e a ecclesia discens; seus objetivos, o espírito da teologia, fé e razão, a autoridade da Igreja, a fim de precisar o máximo possível os termos, evitando ambiguidades. Para São Gregório, ser teólogo é ser “Arauto de Deus”.

3.1.  Doutrina Trinitária

Em praticamente todos os seus discursos trata sobre a Santíssima Trindade.

Dentro do discurso Sobre o Santo Batismo, apresenta um detalhado resumo de seus ensinamentos trinitários:

“Dou-lhe esta profissão de fé para que te sirva de companheira e protetora durante toda a vida: uma só divindade e um só poder, que se encontram conjuntamente nos Três e compreende aos Três separadamente; não é distinta em substância ou natureza, nem aumente ou diminui por adições ou subtrações; é igual baixo todos os conceitos, idêntica em tudo: a conjunção infinita de Três infinitos, sendo cada qual Deus se se lhe considera aparte, tanto o Pai como o Filho como o Espírito Santo, conservando a cada qual sua propriedade (ίδιότης proprietas).”[9]

Seu grande mérito foi o de oferecer pela primeira vez uma definição clara das caraterísticas distintivas entre as Pessoas. Além disso, quando São Basílio trata do relacionamento entre as Três Pessoas, só o faz na relação Pai e Filho, ao passo que São Gregório já trata do Espírito Santo.[10]

Ademais, foi São Gregório quem empregou o termo ‘processão’ para tratar da relação entre o Espírito Santo e as Duas outras Pessoas Divinas. Assim explica ele: “O Espírito Santo é Espírito de verdade, que procede do Pai, mas não à maneira de filiação, porque não procede por geração, senão por processão.[11]

3.2.  Espírito Santo

Em 372, São Gregório, em um sermão público, afirmou que o Espírito Santo é Deus. Ele não titubeou – como fez São Basílio – em expressar clara e explicitamente a divindade do Espírito Santo em público. Muito bela é esta sua afirmação:

“Até quando vamos ocultar a lâmpada debaixo do alqueire e privar os demais do pleno conhecimento da divindade do Espírito Santo? A lâmpada deveria ser colocada sobre o candelabro para que ilumine todas as igrejas e todas as almas do mundo inteiro, não mais com metáforas, senão com uma declaração (Orat. 12,6).”[12]

3.3.  Cristologia

Tão profunda quanto sua doutrina sobre a Trinidade e o Espírito Santo, é sua cristologia, que mereceu à aprovação dos concílios de Éfeso (431) e de Calcedônia (451). Suas famosas cartas a Cledônio servirão à Igreja de excelente guia nos debates do século seguinte. Ele defende a doutrina essencial da humanidade completa de Cristo, incluída uma alma humana, contra as ensinamentos de Apolinário, o qual afirmava haver na humanidade de Nosso Senhor um corpo e uma alma animal onde a divindade se fazia de alma humana superior. Afirma claramente haver em Nosso Senhor as duas naturezas, humana e divina.

Entretanto, não chegou a explicitar claramente a existência de uma única Hipóstasis em Nosso Senhor, o que será afirmado no século seguinte.

3.4.  Mariologia

Já muito tempo antes do Concilio de Eféso (431), graças a São Gregório, o termo theotokos transformou-se em pedra fundamental da ortodoxia. Em um trecho de suas obras demonstra o dogma da maternidade divina de Maria que é o eixo da doutrina da Igreja acerca de Cristo e da salvação. Chega a afirmar que quem não aceita a maternidade divina de Nossa Senhora é um ateu e está fora da comunhão com a Divindade.[13]

3.5.  Doutrina Eucarística

São Gregório de Nazianzo está firmemente convencido do carácter sacrifical da Eucaristia. Em seu Apologetius de fuga descreve a Eucaristia como “o sacrifício externo, antítipo dos grandes mistérios”.[14]

***

Enfim, não é sem razão que o Papa Bento XVI comenta do Santo em uma audiência geral de 8 de agosto de 2007: “Teólogo ilustre, orador e defensor da fé cristã no século IV, foi célebre pela sua eloquência, e teve também, como poeta, uma alma requintada e sensível”.[15]

Por Rodrigo Fujyama

BIBLIOGRAFIA

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RAMOS-LISSÓN, Domingo. Patrología. Navarra: EUNSA, 2005.


[1] Cf. BETTENCOURT, Estêvão Tavares. Curso de Patrologia. Rio de Janeiro: Paulus, 2003. p.93, 94.

[2] Cf. GRIBOMONT, Jean et al. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs. Tradução de Cristina Andrade. São Paulo: Paulus, 2002. p. 653.

[3] Cf. QUASTEN, Johannes. Patrologia II. p. 261-263.

[4] Cf. BETTENCOURT, Estêvão Tavares. Op. cit. p. 94.

[5] Cf. Oratio 14, 6 de pauperum amore: PG: 35, 865.

[6] Cf. Cf. BENEDETTO XVI. I Padri delle Chiesa: da Clemente Romano a Sant’Agostino. Roma: Vaticana, 2008. p. 99.

[7] Cf. QUSATEN, Johannes. Op. cit. p. 264-270.

[8] Cf. QUSATEN, Johannes. Op. cit. p. 275.

[9] Apud Idem, p. 276-277.

[10] Cf. QUSATEN, Johannes. p. 278.

[11] Apud QUASTEN, Johannes. p. 278.

[12] Idem, p. 278.

[13] Cf. QUSATEN, Johannes. p. 281.

[14] Cf. QUSATEN, Johannes. Op. cit. p. 281, 282.

[15] “Illustre teologo, oratore e difensore della fede cristiana nel IV secolo, fu celebre per la sua eloquenza, ed ebbe anche, come poeta, un’anima raffinata e sensibile”  (Cf. BENEDETTO XVI. Op. cit. p. 93.)

São Basílio Magno, o maior defensor da divindade do Espírito Santo

1. Vida

São Basílio é o único dos Padres capadócios distinguido com o sobrenome de Grande. O título é justificado por suas extraordinárias qualidades como estadista e organizador eclesiástico, como expoente egrégio da doutrina católica e como um segundo Atanásio na defesa da ortodoxia. Além de ser considerado como o Pai do monaquismo oriental e reformador da liturgia.[1]

 São Basílio nasceu cerca de 330, de pais nobres, ricos e piedosos, em Cesareia da Capadócia. A quantidade de santos existentes em sua família é impressionante: seu pai e sua mãe são santos; seu avô foi mártir, sua avó é Santa Macrina a Anciã; seus bisavós eram São Basílio o Ancião, e Santa Emélia; além de três irmãos: Santa Macrina a Jovem, São Pedro, Bispo de Sebaste, e São Gregório, Bispo de Nissa, do qual trataremos mais adiante.[2]

Realizou seus primeiros estudos em Cesareia, com seu pai, seguindo depois para Constantinopla e Atenas, onde encontra São Gregório Nazianzeno, com o qual se unirá em amizade estreita durante os difíceis combates do tempo. Um de seus companheiros de estudo chamava-se Juliano, ao qual, mais tarde, a História dará o triste epíteto de “Apóstata”.

Quando Basílio voltou a Cesaréia, em 356, recebeu o Batismo e o leitorado. Após isto, decidiu vender os seus bens – uma boa quantidade – a fim de levar uma vida solitária. Pouco durou sua solidão, pois um grande número de pessoas se lhe juntaram, a fim de levarem vida monástica. Daí surgiu a instituição monacal basiliana, para qual, junto com São Gregório Nazianzeno, São Basílio comporá duas regras que, juntamente com a de São Pacômio será a base da vida monástica do oriente, como a de São Bento será para o ocidente.

Para tal institucionalização da vida monacal, empreendeu longas viagens: Síria, Palestina, Mesopotâmia, Egito, visitando cenóbios, mosteiros, a fim de deles colher inspiração.

Sua vida monacal, continuada depois destas viagens, foi interrompida em 364 pelo apelo de Eusébio, bispo de Cesaréia, que o chamou para colaborador e conselheiro. Em 370 sucede a Eusébio, tornando-se o exarca da importante diocese do Ponto.[3]

Nesta função procurou de todos os modos, acabar com o arianismo, que vivia uma época de prestigio, graças ao imperador Valente. Este, tomando conhecimento da posição de São Basílio, procurou de todas as formas amedrontá-lo, mas em vão. Primeiro, enviou o prefeito Modesto para ameaçá-lo. Este, após as firmes e inflexíveis respostas de São Basílio, exclamou com arrogância: “Nunca ninguém me falou desta maneira!” Ao que retrucou Basílio: “É porque ainda não te havias confrontado com um bispo!”

Após este fracasso de Modesto, Valente procurou ser mais violento: dividiu a diocese de São Basílio, aumentando o poder dos arianos. Porém, mais que Valente para o mal, o santo bispo de Cesaréia era infatigável para a causa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Neste tempo, as coisas estavam de tal forma no oriente que pouquíssimos bispos ainda se mantinham unidos a Roma. União com Roma: eis uma das grandes missões de São Basílio. Tentou-a através do grande Santo Atanásio, que o ajudou durante pouco tempo, pois sua missão na terra já se realizara sendo chamado à glória de Cristo cuja divindade defendeu durante toda sua vida. Não desistiu o Santo exarca, enviando homens de confiança a um sem número de lugares. Obteve êxito extraordinário, como se verificou no sínodo de Ilíara do ano 375, onde, na presença de Valentiniano, se juntaram muitos bispos ocidentais e tomaram o partido de São Basílio. A partir de então seu prestígio não fez senão crescer, sendo a ocasião perfeita para combater o apolinarismo, o macedonianismo, e o arianismo – este último, segundo a visão de Eunômio.

Entretanto, Deus, em seus insondáveis desígnios, chamou-o a si em 379, quando ele contava apenas 50 anos.[4]

Os frutos de seus esforços logo se fizeram sentir: poucos meses depois de sua morte, num Sínodo de Antioquia, se chegava a uma concórdia entre a Igreja Oriental e Ocidental.[5]

Ao Magno Capadócio, podem se aplicar suas próprias palavras a respeito de Jó: Campeão imbatível, que suportou violentos assaltos do demônio, semelhantes ao ímpeto de uma torrente, com ânimo imperturbável e com propósito irremovível; e nas tentações tanto se mostrou superior, quanto maiores e árduas apareciam as lutas que empreendeu com o adversário.”[6]

2. Obras

Suas obras são: Contra Eunomio; Sobre o Espírito Santo; Moralia (Τα ήθικά); duas regras monásticas; Ad adolescentes; Homilias e sermões; In Hexaemeron; Homilias sobre os salmos; Comentários sobre Isaías; Alguns outros sermões e um enorme número de cartas.

3. A teologia de São Basílio

 3.1. Doutrina Trinitária

Para os redatores do Credo de Niceia, entre os quais Santo Atanásio, não havia a distinção entre Ousía e Hypostasis, o que ocasionou muitas controvérsias. São Basílio foi o primeiro a fazer a distinção: em Deus há uma Ousía e três Hypostasis.

“Para ele ousía significa existência ou existência ou identidade substancial de Deus, enquanto que hipóstase quer dizer a existência de uma forma particular, a maneira de ser de cada uma das Pessoas.”[7]

Tudo isto, servirá de base para o Concílio de Calcedônia (451).

3.2 Cristologia

Quanto à cristologia, São Basílio não fez senão reafirmar e esclarecer o que fora definido em Nicéia. Assim afirmou ele: “Não podemos acrescentar nada ao Credo e Nicéia, nem sequer a coisa mais leve, fora a glorificação do Espírito Santo, e isto porque nossos pais mencionaram este tema incidentalmente.” (Ep. 258,2).[8]

A mesma distinção entre Hipóstases e Ousía, usada para a doutrina trinitária, servirá para a cristologia. Refutando aos partidários do Homoiousios, escreve: “Confesa uma só ousía nos dois [Pai e Filho] para não cair no politeísmo.”[9]

Entretanto, uma das mais importantes distinções que fez, foi sobre o conceito de Relação.

Na polêmica contra Eunômio, o qual afirmava que o caráter próprio da divindade é de ser “não gerado”, São Basílio explica que os nomes Pai e Filho, não definem a essência (Ousía), mas sim a ‘relação’ entre Eles. São Basílio emprega o termo ‘relação’ no sentido que Aristóteles dá em suas categorias. Assim, o nome de homem, mineral, animal, dizem respeito à essência do ser. Já Pai, esposo, escravo, dizem respeito à ‘relação’, pois nenhum homem seria pai sem ter filho, esposo sem esposa, ou escravo sem senhor. Desta forma, dizer que o Filho não é gerado, ou não é eterno, vale a dizer que o Pai nem sempre foi Pai, pois se não havia Filho, esta relação de paternidade, em algum momento não existiu. Cair-se-ia num ciclo vicioso…

Com esta explicitação, São Basílio iluminou toda a teologia trinitária e cristológica com um brilho difícil de ser superado, e desferiu o ‘golpe de misericórdia’ no arianismo.

3.3. A Divindade do Espírito Santo

O Concílio de Niceia, convocado para discutir a doutrina de Ario sobre a divindade do Filho, não enfrentara o problema da divindade do Espírito Santo.

São Basílio defendia a divindade do Espírito Santo de maneira firme, mas prudente. Para não criar rivalidades mais crônicas do que as já havidas com os arianos, e assim causar mais divisões na Igreja, ele afirmava a divindade da Terceira Hypóstasis, com argumentos cautelosos. Afirma que se o Batismo, cuja fórmula foi instituída pelo próprio Senhor Jesus, é realizado em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, significa que este último não é alheio à divindade das outras duas Pessoas. Portanto, o Espírito Santo não é criatura.

A partir desta afirmação, acusaram-lhe de dar ao Espírito Santo uma prerrogativa que é exclusiva do Pai:  a de “não gerado”. Isto ocasionou que – alguns afirmam que por primeira vez, antes mesmo de São Gregório Nazianzeno – São Basílio empregasse o termo “procede”, tirado do Evangelho de São João 15, 26, por primeira vez em sentido técnico.

Entretanto, o Espírito Santo não foi declarado explicitamente Deus, pois isto nas Sagradas Escrituras é apenas vislumbrado. Mas a doutrina de São Basílio e dos outros capadócios será a base para o Concílio de Constantinopla, onde a divindade do Espírito Santo será definitivamente expressada.

Digna de menção é esta da passagem de sua obra Sobre o Espírito Santo: “Substância inteligente, de poder infinito, grandeza ilimitada, fora do tempo e dos séculos, em nada ciosa de seus próprios bens. Para ele [Espírito Santo] voltam-se todos os que anseiam pela santificação, para ele se dirigem os anelos dos que vivem segundo a virtude, quantos recebem o refrigério de seu sopro, e são amparados para alcançar o fim adequado a sua natureza. Aperfeiçoa os outros, enquanto Ele mesmo de nada carece. Não é um ser vivo que precise se refazer; ao contrário é provedor de vida. Não aumenta progressivamente, mas logo possui a plenitude; é consistente por si mesmo, está em toda parte. Origem da santificação, luz inteligível, concede por si mesmo certa iluminação a toda faculdade racional, a fim de que descubra a verdade. Inacessível por sua natureza, faz-se, contudo, inteligível, por bondade.”[10]

3.4. Eucaristia

Além de seguir toda a doutrina tradicional da presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo nas espécies do pão e do vinho, São Basílio menciona o costume da comunhão diária e da reserva do Santíssimo Sacramento já naquela época.

3.5. Confissão

São Basílio parece ter sido o primeiro a instituir a confissão auricular. Aconselhava-a, sobretudo, aos monges em relação a seus superiores, ainda que não fossem sacerdotes. Evidentemente, neste caso não era sacramental, mas disciplinar.

Quanto aos que cometiam pecados graves e se preparavam para receber o Sacramento da Reconciliação, “na Epístola canônica (cf. vol.1 p.419s) menciona quatro graus: o estado ‘dos que choram’, cujo posto estava fora da igreja (προίσκλαυσις); o estado ‘dos escutam’, que estavam presentes para a leitura das Sagradas Escrituras e para o sermão (άκρόασης); o estado ‘dos que se prostram’ que assistiam de joelhos a oração (υπόσταση); por último, o estado ‘dos que estavam de pé’ durante todo o ofício, mas não participavam da comunhão (σύστασις).”[11]

Os três primeiros estados duravam três anos, e o último durava dois. Só após este período o pecador poderia ser readmitido na comunidade e na Eucaristia.

Como conclusão São Basílio nos anima a lutar pela fé nestes tempos laicizados: “Estão prontos os preparativos da guerra contra nós. Os espíritos estão aguçados contra nós, e as línguas caluniadoras lançam suas flechas com maior intensidade do que a empregada ao apedrejar Estêvão aqueles que odiavam os cristãos. Mas, não se escondam! Efetivamente, pretexto para a guerra somos nós, mas na verdade o alvo em mira está mais alto. Contra nós, de fato, se preparam os mecanismos de guerra e as ciladas, e estimulam-se mutuamente ao esforço de dar cada qual o que possui em experiência e coragem. Mas é a fé que é combatida. Meta comum de todos os adversários, inimigos da sã doutrina, é abalar o fundamento da fé em Cristo, arrasando, fazendo desaparecer a Tradição Apostólica.”[12]

Por Rodrigo Fujyama


[1] Cf. QUASTEN. Patrología II. p. 224.

[2] Cf. DROBNER. Manual de Patrologia. p. 276; MONDIN, Battista. Dizionario dei teologi. p. 99.

[3] Cf. ALTANER; STUIBER. Patrologia. p. 293.

[4] Cf. LLORCA; G.ªVILLOSLADA; LABOA. Historia de la Iglesia Católica: Edad Antigua. 7.ed. BAC: Madrid, 2005. p. 462.

[5] Idem.

[6] S. BASÍLIO MAGNO. Homilia sobre Lucas 12, Homilias sobre a origem do homem, Tratado sobre o Espírito Santo. Tradução de Roque Frangiotti e Monjas Beneditinas. 2.ed. São Paulo: Paulus, 2005. p. 25.

[7] Apud QUASTEN. Patrología II. p. 252.

[8] Idem, p. 251.

[9] Idem, p. 254.

[10] SÃO BASÍLIO MAGNO. Op. Cit. p. 115.

[11] QUASTEN. Patrología II. p. 259.

[12] SÃO BASÍLIO MAGNO. Op. Cit. p. 117-118.

São João Crisóstomo, o maior orador da história

“Nenhum escritor cristão da antiguidade teve tantos biógrafos como ele”[1], contudo, nenhum deles fornece os dados para fixar exatamente o seu nascimento; estima-se que terá se dado na década que discorreu de 344 a 354.

Nascido em Antioquia, de uma família cristã nobre, João ficou órfão de pai ainda menino, quando sua mãe, Antusa, mulher virtuosa, possuía apenas vinte anos. Começou a frequentar os centros de ensino aos dezesseis anos, iniciando pela filosofia, onde assistiu às aulas de Andragácio — “nome que aflora na história graças a seu ilustre discípulo”.[2] Suas aulas de retórica ficaram a cargo do famoso sofista Libânio. Este, logo notou as grandes qualidades de que o discípulo era dotado, como quando, por exemplo, admirou-se com um discurso composto por João em honra de uns príncipes, durante a época em que trabalhava no foro; chegando a lê-lo a outros companheiros, “amigos inteligentes”, conta depois a João, numa carta, que: “todos me interrompiam com exclamações e demonstrações de mais viva admiração. Alegra-me que juntamente com as tarefas do foro, cultives as letras. Ditoso o orador que sabe louvar assim! Ditosos os que merecem ser louvados por semelhante orador!”[3]

A tal ponto João se destacava em seus dotes retóricos que Libânio, prestes a morrer disse: “De bom grado nomearia João meu sucessor, se os cristãos não o tivessem ganho para a sua seita”. Assim iniciou sua carreira João, a quem, chamariam num futuro não tão distante, de Crisóstomo (boca de ouro).

1. A sedução do deserto

A maturidade de espírito veio de encontro ao Crisóstomo ainda muito jovem, e ele percebeu o vazio que se escondia por detrás das artes que estudava. “Aos dezoito anos de idade se rebelou contra os professores de ‘palavrório’, e encantou-se com a doutrina sagrada”.[4]

Foi movido por estes sentimentos que em 367 passou a frequentar o catecumenato, sob a direção do Bispo de Antioquia, Melécio; de quem o próprio João daria testemunho no futuro: “A santidade refletia-se no seu rosto, que era toda uma pregação”.[5] O Santo Bispo vislumbrou, desde logo, naquele jovem o futuro que o esperava. A partir de então se fazia acompanhar por ele, como de um secretário. Havendo João servindo-lhe três anos, recebeu por fim as águas regeneradoras do Batismo, e foi promovido leitor.

Neste período é que João torna-se aluno de Diodoro, condiscípulo de Teodoro de Mopsuéstia. “Enquanto João estudava, Melécio partiu para seu terceiro desterro, nas poeirentas solidões da Armênia. A separação foi profundamente sentida por Crisóstomo e acabou por decidi-lo a dizer adeus a toda e qualquer carreira temporal e a por em execução o projeto de retirar-se para o ermo que havia tempos germinava em seu peito”.[6] Teria se retirado do mundo a não ser por sua mãe, que lhe “pediu não a deixasse uma segunda vez viúva”.[7]

Porém, apesar de aceder ao pedido, João procurou conciliar dentro dos limites do possível a sua vocação com seu afeto filial, “organizando sua vida ao estilo monástico, e isso dentro de sua própria casa”.[8] Já não frequentava as expansões da vida social, dava-se ao jejum, abstinha-se do sono a fim de passar a noite lendo as Escrituras, à luz de uma pequena lamparina.

Continuou cultivando o trato com alguns amigos íntimos que se tornaram monges, como Teodoro e Basílio. Em Antioquia não demorou muito a que criasse fama este grupo de monges, e o nome do filho de Antusa passou a andar na boca de todos.

Certa vez, reuniram-se os Bispos da Síria em Antioquia, e decidiram elevar João e Basílio ao episcopado. O último foi chamado às pressas de um cenóbio próximo, à espera de que o Crisóstomo o seguisse. Ninguém contava com a decidida negação de João, que se dizia indigno. Tentaram de todas as maneiras dissuadi-lo, mas fazia-lhes ouvidos moucos. Também o amigo Basílio era inflexível: só aceitaria ser ordenado em companhia de João.

João Crisóstomo decidiu-se a utilizar um estratagema. Sem nada dizer ao amigo, deixou correrem todos os preparativos, mas no dia da cerimônia despareceu sem deixar rastro. Ele mesmo narra este episódio, e a primeira conversa que teve com o ludibriado após a ordenação.

Ao que parece este episódio coincidiu em certa medida com a morte de sua mãe, pelo que pôs em prática o seu projeto longamente esperado de retirar-se para o deserto. Seria por volta de 374, quando vendeu todo seu patrimônio e dirigiu-se às montanhas vizinhas da cidade, a fim de unir-se à vida dos cenóbios, os quais já eram naquela época “como as estrelas que brilham na noite”, como diria João mais tarde.

Encontrou-se com um eremita ancião, de nome Syro, “mestre veterano de santidade”[9], com quem compartiu a vida durante quatro anos.

Passado este período, dirigiu-se a uma caverna, onde levou vida solitária por mais dois anos, dedicando-se a estudar as Escrituras.

“A maior parte do tempo passava sem dormir, estudando os testamentos de Cristo para despejar a ignorância. Ao não recostar-se durante esses dois anos, nem de noite nem de dia, se atrofiaram-lhe as partes infra gástricas e as funções dos rins ficaram afetadas pelo frio. Como não podia valer-se por si só, voltou ao porto da Igreja.”[10]

2. Um orador a serviço da Igreja

João voltou a Antioquia no ano de 381, e logo foi ordenado diácono pelo bispo Melécio. Permaneceu cinco anos recuperando-se da grave enfermidade que o acometera, durante os quais, além de servir a Igreja como diácono, enriqueceu as letras cristãs com mais alguns livros. Em pouco tempo seus escritos já corriam de mão em mão, por parte dos estudantes, e seu nome ganhava grande fama.

É o ano de 386, João beira os quarenta anos, apesar de não ter recuperado inteiramente a saúde, já tem o suficiente para começar seus trabalhos. O sucessor do Bispo Melécio na sede de Antioquia, Flaviano, ordena-lhe Sacerdote, e nomeia-o como pregador oficial da diocese; pois a idade já o impedia de fazê-lo.

Durante doze anos, desde 386 até 397, cumpriu este ofício com tanto esmero, destreza e esplendor que assegurou para si o título do maior orador sagrado da cristandade. Foi durante este período que pronunciou suas mais famosas homilias.[11]

Em geral fazia suas pregações três vezes na semana, despertando entusiasmo tamanho que era comum, passando em frente à igreja, ouvir os aplausos da multidão apinhada para ouvi-lo. Porém o “traço que nos revela melhor a capacidade que tinha de ferir os corações e as santas iras que suscitava”, eram “os prantos que estalavam com ímpeto durante seus sermões”.[12]

Ele não era simplesmente um orador “entusiasta de monólogos”. Tinha o fim bem claro diante dos olhos, e o que buscava era o bem das almas. Não cessava de exortar aquela sociedade, sedenta de festas, espetáculos e prazeres a voltar-se para Deus, abraçar os caminhos da virtude e os mandamentos da Igreja.

3. O episódio das estátuas[13]

Famosos tornaram-se, sobretudo os sermões por ele realizados durante a quaresma de 387, somente um ano após sua ordenação sacerdotal.

Pelo mês de fevereiro ou março deste ano, o Imperador Teodósio ordena que se intensifiquem os impostos, por razões discutidas. Envia às cidades oficiais encarregados de estabelecer este aumento. Em Antioquia a publicação de tal ordem foi imediatamente precedida de um levante popular, pois este novo imposto não era somente um aumento nas despesas, mas mediam-se os campos, registravam-se os animais, cadastravam-se os homens, etc.

A população levantou-se violentamente. Quebraram as estátuas do Imperador, arrastaram por praça pública efígies da imperatriz e de seus filhos, e lançaram-nas no Oronte. O levante durou três horas, mas as consequências logo se fizeram sentir. O governador, além de ordenar uma repressão, enviou um informe a Constantinopla a fim de pedir instruções; pois naquele tempo um ultraje como este era crime lesa-majestade, e certamente seria punido com a pena capital, tanto mais se tratando de Teodósio, Imperador de ânimo abrasado.

Felizmente o enviado encontrou Teodósio num momento de ‘bom-humor’. Contentou-se o soberano com mandar fechar todos os centros de lazer e de diversões que havia em Antioquia, privá-la de seus privilégios de metrópole, e excluí-la da distribuição anual do trigo.

Reservou, contudo, a vingança principal para quando se tivesse feito uma investigação minuciosa, descobrindo bem exatamente quem eram os culpados.

As distâncias entre Antioquia e Constantinopla eram consideráveis, demorariam os comissários do imperador a chegar. Enquanto isso, pairou sobre o ar e sobre os ânimos de todos, um forte vento de sentimentos religiosos, diante da espada imperial que pendia sobre as cabeças.

É irrelevante dizer que o presbítero João soube aproveitar esta circunstância. “Durante toda a Quaresma, permaneceu ao pé de seu púlpito como um artilheiro ao pé do canhão”.[14] Não cessou um só instante de impulsionar todos à pratica das virtudes cristãs, fosse através de rogos, ou mesmo por meio de duras reprimendas, sempre convidando os fiéis à conversão, animando-os de todas as maneiras.

Sua ação, entretanto, não restringiu-se aos púlpitos. Organizou uma estratégia para evitar o pior: rogou ao Bispo Flaviano que se dirigisse a Constantinopla, a fim de interceder diretamente diante do Imperador. Difícil foi convencer o epíscopo, que por sua avançada idade, receava por uma viagem tão longa, mais ainda em inícios de inverno.

Por fim, tendo cedido o ancião, pôs-se em marcha uma grande comitiva muito bem escolada e instruída, toda ela organizada por João, levando diversos presentes à pessoa imperial; era constituída por pessoas selecionadas pelo presbítero, o qual lhes instruíra acerca de seu modo de proceder na corte, do que deveriam dizer e fazer; sobretudo as boas relações com as pessoas do palácio (copeiros, cantores, atores, etc.).

Foi organizado, pelo próprio Santo, um verdadeiro estratagema, de maneira a sempre estar sendo lembrado ao Imperador o caso da cidade. S. João organizou verdadeiros slogans que deveriam ser repetidos em determinados momentos do dia. Por exemplo, sempre que fosse servido um prato, ou um copo de água, diriam ao Imperador: “Pensai que não se trata de uma, duas ou dez almas, mas de um número incalculável de pessoas…”, ou ainda: “Trata-se da cidade onde foi pronunciado por primeira vez o nome de cristão. Rendei homenagem a Jesus Cristo e respeitai esta cidade, a primeira que deu a seus discípulos um nome doce e venerado”.[15]

O próprio Bispo levava consigo o discurso, escrito pelo Crisóstomo, que deveria ser pronunciado diante do Imperador.

Mesmo diante de situações como estas, a arte não abandonava as palavras de João, e anunciou aos habitantes de Antioquia que o Prelado, “apesar de ancião, pôs-se a caminho como um jovem, e o seu valor empresta-lhe asas!”[16]

Pouco depois, chegaram a Antioquia os enviados de Teodósio. O terror acometeu toda população, a ponto de muitos tentarem fugir, o que foi impedido graças ao governador, Tisameno, quem provou que estes dois não vinham com ordem expressa de punição, mas sim a fim de investigar tudo quanto ocorrera. Mal tinham recebido esta notícia, os antioquenos, antes receosos e recolhidos, distenderam seus ânimos, julgando que já não tinham o que temer. Voltaram as costas a tudo quanto haviam ouvido dos lábios de João, e reincidiram nas práticas e festas com os pagãos.

Porém, com o avançar das investigações foram-se enchendo os calabouços. Os detidos eram submetidos a rigorosas torturas, a fim de delatar sua parte no crime. Não tardou a que as cabeças começassem a rolar. A cidade de Antioquia em pouco tempo entrou em luto, e por todos os lados viam-se as mulheres, cobertas de negro, indo ao pretório, levando suas crianças pelas mãos, a fim de rogar por seus maridos e filhos. Quadro desolador, que o próprio S. João pintará posteriormente em seus sermões.

“João sabia muito bem que a única forma de abrandar o furor dos verdugos consistia em mostrar-lhes o exemplo de um verdadeiro comportamento cristão”[17]. Enviou um mensageiro às montanhas, rogando que os eremitas viessem em auxílio dos irmãos.

Foi grande a impressão que o aparecimento daqueles “homens, de samarra pastoril, pele tostada e barba hirsuta, com um brilho sombrio no olhar”[18]; que contudo eram, às vistas de João como “anjos do céu”, e “leões a caminhar pelas ruas, […] que obrigam o adversário a fugir pelo seu simples aspecto e pela força de sua voz”.[19]

Estes anacoretas, não tendo nada a perder, não hesitavam em nenhum momento a enfrentar os juízes, mesmo à porta do pretório.

“Um deles, Macedônio, o ‘comedor de cevada’, cuja fama de asceta percorrera todo o Império, interpelou Helebico e Cesário (os dois enviados de Teodósio), que iam a caminho do tribunal, ordenando-lhes que descessem dos cavalos. E viu-se a surpreendente cena de dois altos magistrados, senhores todo-poderosos de uma cidade, cercados de uma escolta armada até os dentes, obedecerem instintivamente à autoridade moral que emanava daquele mendigo coberto de farrapos.”[20]

Não hesitou o eremita em dizer-lhes que, “se os antioquenos haviam agido mal destruindo imagens do imperador, que aliás tinham sido substituídas por outras mais belas, nem por isso o imperador, por mais imperador que fosse, tinha o direito de matar homens vivos, imagens do próprio Deus inseridas no livro da vida, que ninguém seria mais capaz de reconstituir”[21].

Juntou-se ao número dos monges todo o clero de Antioquia e das cidades vizinha, a rogos de João. Ofereciam-se todos a morrer em lugar dos presos, opondo-se tenazmente a que se continuasse com aquela horrível matança.

Por fim os legados cederam, dizendo que estavam suspensas as execuções, até voltassem da capital com instruções tomadas do Imperador. Transcorreram menos de vinte e quatro horas.

Chegou por fim o desenlace de toda a crise, o Bispo Flaviano, não sem transpor mil obstáculos, pôde apresentar-se diante do Imperador, e pronunciou o discurso preparado pelo Crisóstomo. O eixo central era apontar a glória do perdão: “É fácil ao amo castigar seus súditos rebeldes; mas é raro e difícil perdoá-los. Se o fizerdes, dareis um grande exemplo aos séculos sem fim”.

Teodósio escutou todo o discurso com vivo interesse, e iluminou-se-lhe o rosto ao ouvir suas últimas palavras, que faziam menção à passagem do Evangelho que trata do perdão aos inimigos. Na resposta, teve estas palavras: “Haverá algo de estranho quando nós, homens, perdoemos aos que nos ofenderam, homens também, quando o Senhor do mundo, depois de ter descido à terra e de se ter feito servo por nós, […] implorou ao Pai pelo bem de seus verdugos com aquela oração: ‘Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem?’”

Decretou anistia geral, perdoando todos os acusados, e mandou devolver a Antioquia todos os seus privilégios. Esta boa notícia foi enviada a todo galope, pelo Bispo Flaviano, através de um mensageiro, à cidade do Crisóstomo; mas tardaria pelo menos seis dias para chegar.

Era o dia da Páscoa quando o mensageiro entra pelas portas da cidade. Nunca esta festa se adaptou melhor ao seu primitivo significado de ‘libertação’. A alegria transbordou por toda a cidade: ornaram-se as praças com flores, os prisioneiros libertados foram recebidos com clamores de júbilo. Os nomes que pairavam por cima de todo aquele entusiasmo eram: Teodósio, Flaviano e João. Este último aproveitou a ocasião para dar o último arremate, pronunciou um sermão onde entoou um hino de ação de graças a Deus, e não deixou de tirar uma preciosa lição de todo o acontecido.

4. Patriarca de Constantinopla

Todo este período da vida de São João Crisóstomo terminou ex abrupto, pois em 27 de setembro de 397, com a morte do Bispo Nectário, encontrou-se vaga a sede de Constantinopla. A fama de João já se espalhara por todo o Oriente. Talvez por desejar ver alguém que abrilhantasse ainda mais a Capital do império, sentado sobre o trono episcopal, é que o Imperador e todo o povo se inclinaram para aquele que já era considerado como o maior pregador do século, “mais ou menos como se quisesse transferir para lá uma vistosa obra de arte.”[22]

Entretanto, havia dois obstáculos a transpor: fazer que João aceitasse, e que o povo de Antioquia concordasse em perder seu amado pregador. O primeiro-ministro, para contornar ambos empecilhos, lançou mão de uma artimanha. Um alto funcionário do império que residia em Antioquia pediu para conversar com João numa igreja, fora da cidade. Mal haviam se encontrado, pediu-lhe o homem que subisse em sua carruagem, a fim de que ficassem mais à vontade. Chegaram a uma guarnição militar, onde se encontravam dois soldados que simplesmente raptaram o presbítero, levando-o a Constantinopla.

O patriarca de Alexandria, Teófilo, foi obrigado a sagrá-lo Bispo no dia 26 de fevereiro de 398.[23]

5. O inimigos

Imediatamente Crisóstomo pôs mãos à reforma “da cidade e do clero, que se tinham corrompido em tempos de seu predecessor”.[24]

“Aqueles que só pretendiam deleitar-se com suas formosas frases tiveram que escutar também amargas verdades sobre suas indignas ações (os Bispos e cortesãos) e suas frivolidades”[25].

Constantinopla, a outrora Bizâncio, tornara-se com o tempo, pela atenção que os Imperadores lhe prestavam, a maior, mais faustosa e desenvolvida cidade de todo o Império. Numa palavra, co-reinavam ali, o Augusto Imperador e o gozo da vida, a apetência pelos espetáculos e deleites mundanos.

Teodósio havia morrido três anos antes, deixando o Império dividido entre seus dois filhos, Honório no Ocidente, e Arcádio no Oriente. Este último era a “perfeita antítese de seu pai: de capacidades naturais nulas, intelectualmente medíocre, apagado, indeciso, pusilânime, desprovido de vontade própria, gago, mantinha sempre as pálpebras semi-fechadas, dando impressão de contínua sonolência.”[26]

Casara-se com Eudóxia, de origem germânica, de raça bárbara, embora tivesse sido educada no cristianismo pelo pai. “Como é frequente em pessoas que subiram do nada aos cumes, sobretudo quando a ascensão é das que surpreendem pela rapidez, Eudóxia, sofria uma deliciosa vertigem de vaidade”.[27]

O homem que fizera todas as manobras para que este casamento se desse chamava-se Eutrópio. Eunuco no tempo de Teodósio, conseguira aos poucos galgar posições na corte. Neste ano de 398 atingira a condição de ‘camareiro mor’, que na realidade lhe conferia poderes de primeiro ministro. Ambos consortes imperiais eram vassalos de sua vontade sem travas nem apelação. Possuía costumes morais péssimos, era insaciável de dinhiero, como sua protegida, a Imperatriz.

Foi num ambiente assim que entrou o cândido e santo João.

6. A perseguição

O santo não hesitou em empregar todos os meios possíveis para reformar seu patriarcado. Começou por sua casa: retirou todos os luxos e faustos profanos acumulados pelo predecessor, mandou vender os tesouros e aplicou em seu investimento predileto: os pobres. Mandou construir um hospital com o dinheiro obtido com a venda da tapeçaria, e assim todos os objetos e partes da casa. Vendeu até mesmo a cama, de seda e veludos, trocando-a por uma, formada com algumas tábuas, com um único cobertor, à guisa de proteção contra o frio.

Não mediu esforços em avivar a piedade dos fiéis, lutando contra os arianos; procurando corrigir o maus hábitos do clero, especialmente dos bispos, e mesmo das pessoas da corte — que de início lhe devotavam verdadeiro fervor.

Contudo a oposição atingiu seu auge em 401, quando ele depôs de seus cargos, num sínodo em Éfeso, seis bispos. Outro acontecimento que corroborou para o aumento do cerco contra o Crisóstomo foi a caída de Eutrópio, em 399, quando o Santo Bispo acolhera o fugitivo sob a proteção da Igreja, contra os ditames do Imperador, e conseguira, através de uma de suas homilias persuadir a todos que deixassem o homem em paz. Somente Eudóxia alimentou as vinganças.

Com a caída de Eutrópio “a autoridade imperial passou às mãos da imperatriz Eudóxia, quem já tinham envenenado contra João, sugerindo-lhe que as invectivas deste contra o luxo e a depravação iam diretamente contra ela e sua corte.”[28]

Contudo, o pior inimigo de São João era Teófilo de Alexandria, o qual aumentava contra ele um ressentimento, desde que o imperador Arcádio o obrigara a consagrá-lo. Esta antipatia tornou-se ódio declarado quando, em 402, foi convocado a um sínodo, presidido por Crisóstomo, a fim de responder a acusações feitas por monges do deserto.[29]

Isto só fez aumentar o ódio de Teófilo, e com a ajuda da imperatriz, decidiu-se por eliminar João de uma vez.

Convocou uma reunião de trinta e seis bispos, todos contrários ao Crisóstomo, na qual condenou ao patriarca da capital, baseando-se em vinte e um casos inventados. Depois de João ter se negado por três vezes a comparecer a tal reunião, foi declarado por eles deposto, em 403. O próprio imperador Arcádio aprovou esta condenação, desterrou o Santo, enviando-o a Bitínia.

Este primeiro desterro durou somente um dia, pois, assustada pela indignação do povo, a própria imperatriz pediu seu regresso. Crisóstomo entrou na cidade aclamado por todos, e fez um discurso jubiloso. Fez também um segundo discurso, muito elogioso à imperatriz.

Contudo, esta paz durou pouco, pois havendo passado somente dois meses, João se lamentou muito dos espetáculos e festas que se fizeram, por ocasião da ereção de uma estátua de prata, dedicada à Imperatriz, a poucos metros da Catedral. Os inimigos do prelado aproveitaram-se disto, apresentando o fato como uma afronta pessoal à soberana, a qual não fez muito esforço para esconder seu ressentimento.

Possuidor de um ânimo fogoso, João, ao ver reacender-se contra si a perseguição, resolveu passar à ofensiva. Pronunciou uma homilia onde disse tudo quanto pensava acerca de estátuas, jogos, festividades pagãs em honra de imperadores cristãos, etc. Não hesitou em dizer que após um sermão como este “já se enfurece novamente Herodíades, novamente se comove, dança de novo e mais uma vez pede a cabeça de João numa bandeja.”[30]

Os inimigos aproveitaram-se da ocasião para disferir o golpe certeiro. Como argumento acusaram-no de estar assumindo o comando de uma sede episcopal da qual já estava deposto canonicamente, por um sínodo anterior. João se defendeu, provando que dito sínodo fora herético, e que portanto seus cânones eram inválidos. O imperador não encontrou outro meio a não ser a ordem peremptória: proibição de exercer qualquer função eclesiástica, e reclusão dentro de sua igreja.

Aproximaram-se contudo as cerimônias de Semana Santa, e o Santo viu-se entre o seu dever de oficiar as cerimônias litúrgicas e não desagradar o imperador. O dever venceu, e João dirigiu-se à igreja. A notícia espalhou-se tão rápido, que antes de terminar a cerimônia, Arcádio já lhe enviara mensageiros ordenando que interrompesse o culto. O prelado mandou responder: “Recebi os poderes episcopais das mãos de Deus, e não tenho direito de abandonar a minha igreja. O seu despotismo será minha justificação diante do Juiz Eterno.”[31]

Arcádio ficou confuso, e mandou chamar outros dois bispos, inimigos de João, a fim que lhe aconselhassem em como proceder. Vendo que ele receava utilizar a força, disseram que não havia problema em lançar as tropas contra um excomungado e acrescentaram, “se nisto houver pecado, que a maldição caia sobre nossas cabeças”.[32]

Os historiadores mais antigos hesitam em narrar os sacrilégios que ali se operaram. Sabemos, pela pena de São João, que “as águas de regeneração dos homens tingiram-se de vermelho, com o sangue humano”.[33]

Cinco dias depois de Pentecostes, no ano de 404, um notário imperial informava a João que teria de abandonar a cidade imediatamente; e assim o fez. Foi desterrado a Cúcuso, na Armênia, onde permaneceu três anos. Mas estando lá, sua antiga comunidade de Antioquia dirigiu-se em peregrinação a fim de encontrar-se com seu Pastor.

Mas nem mesmo isto os inimigos de João podiam suportar. Vendo que a igreja antioquena acorria em massa, a fim de haurir o alimento espiritual dos lábios de João, resolveram-se por cortar sua vida.

Instigaram ao imperador Arcádio a desterrá-lo para mais longe, e foi enviado a Pitio, lugar selvagem na extremidade oriental do Mar Negro. Debilitado pela aspereza do caminho e por ver-se obrigado a locomover-se a pé, sob um tempo rigoroso, morreu em Comana, no Ponto, dia 14 de setembro de 407[34], “dando testemunho do Evangelho e dos indissolúveis direitos e deveres da Igreja”[35].

Somente cerca de trinta anos depois, em 438, seus restos mortais foram trazidos a Constantinopla, em solene procissão, na qual figurou o então imperador, Teodósio II, filho e Eudóxia, o qual saiu ao encontro do cortejo fúnebre. Apoiando o rosto sobre o féretro, rogava que o Santo perdoasse a atitude tomada por seus progenitores, e os danos que haviam causado.

7. Os escritos

De todos os Padres Gregos, nenhum deixou uma herança literária tão copiosa como São João Crisóstomo; além de ser o único do qual se conservam as obras em quase toda sua totalidade.

Embora tenha escrito obras variadas, e diversas cartas, sua obra é constituída de maneira predominante pelas homilias, pronunciadas por ele, tanto nas igrejas de Antioquia, como em Constantinopla. Somente da época como pregador em Antioquia, constam vinte homilias contra os arianos, oito sobre os judeus, a maioria de suas exortações morais e discursos em louvor de algum santo, principalmente São Paulo, e as seiscentas homilias em que comenta o Antigo e Novo Testamentos, entre as quais se destacam noventa sobre o Evangelho de São Mateus, e duzentas e cinquenta sobre as Epístolas paulinas.[36]

Apesar de estas homilias não se contarem entre as obras escritas, mas serem recolhidas enquanto ele pronunciava suas homilias, formam uma coleção da qual São Tomás virá a dizer depois, a seu irmão frei Reginaldo, que “não a trocaria pela cidade de Paris”.[37]

8. Sermões

A maior parte dos sermões de São João são comentários exegéticos.

Sobre o Antigo Testamento:

1. Sobre o Gênesis: se conservam duas séries, que parecem ser a obra mais antiga do Crisóstomo. A primeira série atém-se unicamente aos três primeiros capítulos do livro, parece ter sido pronunciada na Quaresma de 386. A segunda série oferece um comentário completo ao Gênesis, feita em 388. Algumas passagens, nas duas séries, são completamente idênticas.

2. Sobre os salmos: as melhores homilias sobre o antigo testamento são consideradas estas que ele fez, a respeito de 58 salmos escolhidos.

3. Sobre Isaías: conservaram-se seis homilias sobre Isaías em seu original grego; algumas pronunciadas em Antioquia e outras em Constantinopla. Há também uma série completa de comentários a todo o livro, série esta encontrada em língua armênia.

Sobre o Novo Testamento:

1. Sobre o Evangelho de São Mateus: as noventa homilias sobre o Evangelho de São Mateus representam o comentário completo mais antigo que se conserva do período da patrística sobre o primeiro Evangelho. Foram pronunciadas em Antioquia, provavelmente no ano de 390. Em várias passagens refuta os maniqueus, refutando a pretensão de que haja dois deuses, um do Novo, e outro do Antigo Testamento. Ataca também em diversas passagens ao arianismo.

2. Sobre o Evangelho de São João: em número de oitenta e oito, estas homilias são muito mais breves que as mencionadas acima; a maior parte não terá durado mais que dez ou quinze minutos; tendo sido pronunciadas provavelmente por volta de 391. Estas são de caráter mais polêmico, pois combate muito o arianismo.

3. Sobre os Atos dos Apóstolos: uma série de cinquenta e cinco sermões, é o único comentário completo dos Atos que se conservou dos dez primeiros séculos. O próprio São João nos diz que datam de seu terceiro ano em Constantinopla, ou seja, o ano 400.

4. Sobre as Epístolas paulinas: como dito acima, contam, ao todo cerca de duzentas e cinquenta homilias.

Destacam-se também as homilias que pronunciou Contra os judeus, os Discursos morais, as homilias Sobre as estátuas, Sobre Eutropio.

9. Tratados

Sobre o Sacerdócio: é a obra mais conhecida de São João, composta por seis livros.

Sobre a vida monástica: vários escritos apologéticos em defesa da vida monástica. Destacam-se os Paraeneses ad Theodorum lapsum, duas exortações ao amigo, mais tarde Bispo de Mupsuéstia, que encontrava-se enfastiado com a vida monástica, e cedera às seduções de certa mulher.

Por Lucas Garcia


[1] QUASTEN, Johannes. Op. Cit. p. 471.

[2] ARRARÁS, Félix. Op. Cit. p. 15.

[3] ARRARÁS, Félix. Op. Cit. p. 16.

[4] PALADINO, apud QUASTEN, Johannes. Loc. Cit.

[5] Panegírico de São Melécio. Apud ARRARÁS, Félix. Op. Cit. p. 17.

[6] ARRARÁS, Félix. Op. Cit. p. 18.

[7] De Sacerdotio, 1,4

[8] ARRARÁS, Félix. Op. Cit. p. 19.

[9] ARRARÁS, Félix. Op. Cit. p. 24.

[10] PALADIO, apud QUASTEN, Johannes. Op. Cit, p. 472.

[11] Cf. QUASTEN, Johannes. Op. Cit, p. 472.

[12] ARRARÁS, Félix. Op. Cit. p. 36.

[13] Cf. ARRARÁS, Félix. Op. Cit.

[14] ARRARÁS, Félix. Op. Cit. p. 42.

[15] Homilias sobre as estátuas, 3.

[16] Homilias sobre as estátuas, 2.

[17] ARRARÁS, Félix. Op. Cit. p. 45.

[18] Idem.

[19] Homilia sobre as estátuas, 17.

[20] ARRARÁS, Félix. Op. Cit. p. 4.

[21] Idem.

[22] ARRARÁS, Félix. Op. Cit. p. 51.

[23] QUASTEN, Johannes. Op. Cit, p. 472.

[24] Idem

[25] LORTZ, Joseph. Op. Cit. § 26, 10.

[26] ARRARÁS, Félix. Op. Cit. p. 55.

[27] ARRARÁS, Félix. Op. Cit. p. 56.

[28] QUASTEN, Johannes. Op. Cit, p. 473.

[29] Cf. Idem.

[30] Cf. Idem, p. 474.

[31] PALADIO. Diálogos sobre a vida de João Crisóstomo, apud ARRARÁS, Félix. Op. Cit. p. 116.

[32] Idem.

[33] Carta ao Papa Inocêncio.

[34] QUASTEN, Johannes. Op. Cit, p. 474.

[35] LORTZ, Joseph. Op. Cit. § 26, 10.

Eudóxia morrera já em 404. Engravidara por quinta vez; porém, o menino morreu-lhe no útero, e os médicos não conseguiam retirar-lhe o feto. Passou-se assim uma semana, na qual a imperatriz esforçou-se, mas em vão. E o corpo do menino, em decomposição, acabou por lhe infetar todo sangue.

[36] ARRARÁS, Félix. Op. Cit. p. 50.

[37] Apud Idem, p. 28.