Uma pomba…, por quê?

“Depois de ser batizado, Jesus saiu logo da água, e o céu se abriu. E Ele viu o Espírito de Deus descer, como uma pomba, e vir sobre Ele”. O texto sagrado é claríssimo, o Espírito de Deus veio em forma de pomba. Porém, ainda resta uma dúvida: Porquê uma pomba? Não seria melhor uma andorinha, ou uma águia?

A razão pela qual o Espírito Santo apareceu em forma de pomba e não de outro animal, é explicada por São Tomás[1] com sua característica singeleza:

1º Todo aquele que deseja ser batizado não pode ansiar esse sacramento de maneira fingida e superficial, mas sim de modo simples, como a pomba que é um animal sem nenhuma ganância. E por isso o evangelista São Mateus aconselha: “Sede simples como as pombas”. (Mt 10, 16)

2º Através do Batismo o homem possui os sete dons do Espírito Santo, os quais estão simbolizados na Pomba, pois:

a. Esta ave mora junto às correntezas de água, pela razão de que quando vir o gavião poder escapar submergindo. Isto se relaciona com o dom de sabedoria, porque os santos moram junto as correntezas das Sagradas Escrituras, com o objetivo de escaparem das tramas do demônio.

b. A pomba escolhe os melhores grãos para o seu alimento, o que se relaciona com o dom de ciência, com o qual quem a possui escolhe as melhores opiniões para alimento de sua vida espiritual.

c. Este amável animal alimenta os filhotes alheios. Dom de conselho, com o qual se busca alimentar àqueles que estão afastando-se de Deus ou já caíram no pecado.

d. A pomba não despedaça seu bico, o que se relaciona com o dom de inteligência. Aqueles que o possuem não pervertem as boas opiniões, dilacerando-as como fazem os hereges.

e. Esta ave não tem fel. Dom de piedade, o qual livra o homem da ira.

f. Este astuto animal faz o seu ninho no alto das rochas. Dom de Fortaleza, os fortes têm o seu refúgio naquilo que é mais sólido e mais alto, em Deus.

g. A pomba arrulha, em vez de cantar como outros pássaros. Dom de temor: onde se tem prazer em chorar as próprias misérias, por amor a Deus.

E aqui estão simbolizados neste singelo animal os sete dons do Espírito Santo.

3º Para simbolizar o efeito próprio do sacramento do Batismo: a remissão dos pecados e a reconciliação com Deus.

4º Com o fim de significar o efeito geral do Batismo, a construção da unidade da Igreja. Pois a pomba é um animal que sempre está em bandos, ou seja, busca sempre a unidade.

E além de todas estas razões, há uma que se relaciona com a perpetuidade do sacramento do Batismo. Como explica São João Crisóstomo[2], sempre no começo das experiências espirituais aparecem sempre sinais sensíveis, por causa daqueles que tem mais dificuldade de entenderem o sobrenatural, sendo assim mesmo que não se repitam, passam a acreditar por meio daqueles que constataram na primeira vez. Ou seja, Deus quis fazer-Se visível, em forma corporal de pomba sobre Cristo, com o fim de que posteriormente todos acreditassem que Ele desceria invisivelmente sobre todos aqueles que fossem batizados.

E, continua São João Crisóstomo, também porque este animal apareceu no dilúvio, levando um ramo de oliveira e anunciando a boa nova da paz sobre a terra. Pois, quando as coisas haviam chegado a um estado de desespero, o Senhor trouxe a solução e o remédio. Naquela época, Deus agiu por meio do severo castigo. Agora, através da Graça e de seus dons sobrenaturais. E por isso agora aparece a pomba, não trazendo um ramo de oliveira no bico, mas sim para assinalar que vinha para livrar os homens de todos os males e para nos garantir as mais belas esperanças. Essa pomba não vinha para tirar só um homem da Arca, mas para levantar ao céu a terra inteira, e em vez de trazer o ramo de oliveira no bico, trouxe para todo o gênero humano, a filiação divina.

Luan Felipe de Souza


[1] AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. III- q.39. a.6. p.573.

[2]CRISÓSTOMO, Juan. “Obras de San Juan Crisóstomo: Homilias sobre San Mateo,1-45. BAC: Madrid, 2007.p.226.

Prudência: arte de recuar ou avançar?

A PRUDÊNCIA: é uma virtude que nos faz discernir o que nós devemos fazer e o que nós devemos evitar para irmos a Deus e procurarmos sua glória. Através dela nós distinguimos o verdadeiro do falso, o bem do mal, o melhor do pior. Ela deve ter o leme de nossas vidas, pois ela deve dirigir nossos pensamentos, nossos desejos, nossas palavras e nossas ações, segundo o fim, a ordem e a medida que lhes convêm.

Todas as virtudes têm sua importância, mas há especialmente uma sem a qual, não atingiremos as outras: trata-se justamente da virtude cardeal da prudência. Como nos explica São Tomás de Aquino, ela é a “auriga virtutum”[1], a guia das demais virtudes, pois é a que se encarrega de nos dizer a cada momento e em cada caso particular, o que devemos fazer, ou o que devemos omitir para alcançarmos a vida eterna, como também foi dito acima. A importância desta virtude nos é manifestada em várias passagens das Sagradas Escrituras. O próprio Nosso Senhor nos advertiu para que sejamos “prudentes como as serpentes e inocentes como as pombas” (Mt. 10, 16).

Ao logo de sua vida, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira repetiu reiteradamente um pensamento que sempre foi uma constante em seu espírito: diz ele que as virtudes são irmãs indissociáveis, que não se pode viver afagando a umas e esbofeteando outras. Por causa desta inter-relação das virtudes entre si, sobretudo no caso da prudência, insistimos no fato que: quem possui esta virtude, certamente terá os meios para praticar também outras; e quem não a possui, certo é que também não possuirá as outras. Assim constatamos uma das importâncias desta bela virtude. Vejamos a opinião de Aristóteles a respeito do imbricamento da prudência com as demais virtudes: “C’était déjà la pensée d’Aristote, qui précisait, avec sa technique philosophique plus élaborée: elles (les vertus) sont solidaires dans la prudence, car aucune vertu n’est accomplie si elle n’est jointe à la prudence, et celle-ci n’est vraiment elle-même que si elle s’accompagne de toutes les autres vertus.”[2]

Por exemplo, um mártir que esteja disposto a perder sua vida fazendo profissão exterior de fé, e que é morto por ódio à fé, faz, em suma, um belíssimo ato de prudência.[3]

Com efeito, que atitude tomou o mártir? Enfrentou todos os riscos para não perder sua fé e assim não ofender a Deus; discerniu o que ele devia evitar: renegar a fé. De fato, quanta glória não dá a Deus uma alma que a Ele se oferece como libação, vencendo seu instinto de conservação e de sociabilidade para não ofendê-Lo? Este conjunto de atos do mártir engloba várias virtudes tais como a fortaleza, a constância, etc… E todas elas são unidas na prudência que regeu o proceder do mártir, fazendo-o discernir o que na ocasião deveria ser feito, para alcançar a glória de Deus.

Tendo visto como há uma indissociável ligação entre as virtudes, na prudência, veremos como ela também é indispensável para se alcançar a santidade[4]. Como se sabe, a santidade implica também na prática das virtudes em grau heróico. E justamente a prudência é o meio de se atingir este grau heroico. Ela ajuda-nos a praticar as demais virtudes do modo mais perfeito, uma vez que, mesmo sendo uma virtude moral intelectual, é eminentemente prática e indispensável para a reta vida cristã, como nos mostra ROYO MARÍN: “La importancia y necesidad de la prudencia queda de manifiesto en multitud de pasajes de la Sagrada Escritura. El mismo Jesucristo nos advierte que es menester ser “prudentes como serpientes y sencillos como palomas” (Mt. 10, 16). Sin ella, ninguna virtud puede ser perfecta. A pesar de ser una virtud intelectual, es, a la vez, eminentemente práctica […]. La prudencia es absolutamente necesaria para la vida humana. Sobre todo en el orden sobrenatural o cristiano nos es indispensable.”[5]

A verdadeira ordem sobrenatural cristã é a santidade, e, a respeito dela diz-nos o grande teólogo Cornélio a Lápide : “La sainteté est l’état auquel on arrive par la fidélité à tous les devoirs ; elle est, à vrai dire, la pratique de toutes les vertus ; la saiteté les renferme toutes… ”[6]

Este “estado pelo qual chegamos a todos os deveres”, ou seja, a santidade, só é possível com a prudência, pois é ela quem nos indicará o caminho certeiro, nos fará evitar o pecado, e nos levará ao bem, como nos demonstra TANQUEREY: “A prudência não é menos necessária para o nosso governo pessoal, que para a direção dos demais.1° Para o nosso governo pessoal, ou para nossa santificação. É ela efetivamente, que nos permite evitar o pecado e praticar as virtudes. A) Para evitar o pecado, como já dissemos, é necessário conhecer as suas causas e ocasiões, procurar e manipular bem os remédios. Ora, é precisamente o que faz a virtude da prudência, como podemos concluir do estudo de seus elementos constitutivos: inspirando-se da experiência do passado e do estado atual da alma, vê o que para nós é ou poderia ser no futuro causa ou ocasião de pecado; e por isso mesmo sugere os melhores meios que se deve tomar, para suprimir ou atenuar essas causas, a estratégia que melhores resultados dá para vencer as tentações e até mesmo para delas tirar proveito. Sem esta prudência, quantos pecados se não cometeriam! Quantos se cometem por falta de prudência!” (1961, p. 486-87)

Portanto, damo-nos conta que é a virtude da prudência que mais nos ajuda na prática das demais virtudes, atingindo-se assim, mais facilmente a santidade: dever de todos os batizados.

Tendo visto como esta virtude é indispensável para se alcançar este estado de perfeição, resta aprofundarmo-nos no conceito de santidade. Com efeito, no sentido mais profundo, ser santo é parecer-se com Nosso Senhor Jesus Cristo. Realizar plenamente o plano inicial de Deus, que criou o homem à sua imagem e semelhança[7], é por em prática todos os ensinamentos d’Ele e ter em si a vida de Cristo, como afirma MARMION: “Comprenons que nous ne seront saints que dans la mesure même où la vie de Jésus-Christ sera en nous : c’est cette sainteté seule que Dieu demande de nous ; il n’y en a pas d’autre; nous ne seront saints qu’en Jésus-Christ ou nous ne le serons pas du tout.”[8]

Portanto se a prudência é imprescindível para se atingir a santidade, e se a santidade, por sua vez é estar unido a Nosso Senhor Jesus Cristo, a prudência é a virtude por excelência que nos une ao Verbo de Deus feito Homem, O possuidor das virtudes em essência.

Entretanto hoje em dia não é difícil perceber que há no mundo uma acentuada decadência da moral, dos costumes. Este efeito se espelha também na esfera intelectual. Muitas palavras hoje em dia perdem o seu sentido original, adquirem novos “predicados”. Assim se deu com a palavra “prudência”. De fato, para o comum das pessoas esta bela virtude, na realidade é tida como sendo covardia, mediocridade, pusilanimidade, ou então comedimento.

Sobre esta deturpação que se deu com a palavra prudência, nos explica muito bem LAUAND: “Foi o que aconteceu, entre outras, com as palavras ‘prudente’ e ‘prudência’. Atingida ao longo dos séculos pelo subjetivismo metafórico e pelo gosto do eufemismo, “prudência” já não designa uma grande virtude, mas sim a conhecida cautela (um tanto oportunista, ambígua e egoísta) ao tomar (ou ao não tomar) decisões.

“Se hoje a palavra prudência tornou-se aquela egoísta cautela da decisão (em cima do muro), em Tomás, ao contrário, prudentia expressa exatamente o oposto: é a arte de decidir corretamente. (…) É esse conhecimento do ser que é significado pela palavra ratio na definição de prudentia: recta ratio agibilium, ‘reta razão aplicada ao agir’.

Prudentia é ver a realidade e, com base nela, tomar a decisão certa. Por isso, como repete Tomás, não há nenhuma virtude moral sem a prudentia, e mais: ‘sem a prudentia, as demais virtudes, quanto maiores fossem, mais dano causariam’ (In III Sent. d. 33, q. 2, a 5, sc 3). Com as alterações semânticas, porém, tornou-se intraduzível, para o homem de nosso tempo, uma sentença de Tomás como: ‘a prudentia é necessariamente corajosa e justa (I-II, 65, 1).’” (2005, pp. 7-10)

Outro exemplo desta deformação é o que constatamos quando, ao queremos uma definição rápida segura e correta, para uma determinada palavra, nada há de melhor do que procurarmos em um dicionário seu significado. No entanto, o que encontramos nem sempre condiz com a realidade… No uso corrente – conforme o DICIONÁRIO AURÉLIO [9] – se procurarmos a definição de prudência e de prudente encontramos:

“PRUDÊNCIA: [Do lat. Prudentia.] S. F. 1 Qualidade de quem age com moderação, comedimento, buscando evitar tudo o que acredita ser fonte de erro ou de dano. 2 Cautela, precaução: Dirige o carro com muita prudência. 3 Circunspeção ponderação, cordura, sensatez: Leu os autos com toda a prudência.”

“PRUDENTE: [Do lat. Prudente.] 1 Que tem ou revela prudência: moderado, comedido. 2 Cauteloso, previdente, precavido. 3 Circunspeto, sensato; judicioso, cordato, ponderado.

Portanto vemos que quando esta definição (de prudência) nos diz: “Qualidade de quem age com moderação, comedimento (…)” contrasta com a noção tomista, que segundo nos diz LAUAND é: “a arte de decidir corretamente (…). Prudentia é ver a realidade e, com base nela, tomar a decisão certa”. Não é portanto um mero agir com moderação ou comedimento, mas é ao ver a realidade, sem comedimento, ou moderação decidir corretamente. Estando diante de uma situação perigosa, por exemplo, não nos cabe, para agir prudentemente, ser moderado ou comedido, mas enfrentá-la, assumir seus riscos, analisá-la quase que friamente, ponderar tudo, seus prós e contras para tomar a decisão acertada.

O verdadeiro sentido cristão desta virtude nos é muito belamente demonstrado pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, que deixa transparecer num trecho de uma Via Sacra, por ele composta, um belíssimo canto de amor à Nosso Senhor Jesus Cristo com a Cruz às costas. E com este cântico encerramos este artigo, lembrado o que disse certa vez um autor francês: “a inteligência só sabe falar, é o amor quem canta.”[10]

“Há mistérios que o vosso Santo Evangelho não narra. E entre eles eu gostaria de saber se me engano ao supor que essa vossa terceira queda foi feita, meu Senhor, para expiar e salvar as almas dos prudentes.

“A prudência é a virtude pela qual escolhemos os meios adequados para obter o fim que temos em vista. Assim, os grandes atos de heroísmo podem ser tão prudentes quanto os recuos estratégicos. Se o fim é vencer, em noventa por cento dos casos é mais prudente avançar do que recuar. Não é outra a virtude evangélica da prudência.

“Entretanto… entende-se que a prudência é só a arte de recuar. E, assim, o recuo sistemático e metódico passou a ser a única atitude reconhecida como prudente por muitos de vossos amigos Senhor.

“E por isto se recua muito… A realização de uma grande obra para vossa glória está muito penosa? Recua-se por prudência. A santificação está muito dura? A escalada na virtude multiplica as lutas em vez de as aquietar? Recua-se para os pântanos da mediocridade, para evitar, por prudência, grandes catástrofes. A saúde periclita? Abandona-se, por prudência, todo ou quase todo apostolado, mediocriza-se a vida interior, e transforma-se o repouso no supremo ideal da vida, por que a vida foi feita, antes de tudo para ser longa. Viver muito passa e ser o ideal, em vez de viver bem. O elogio já não seria como o da Escritura: ‘Em uma curta vida percorreu uma longa carreira’ (Sab. IV, 13). Seria pelo contrário, ‘teve longa vida, para o que teve a sabedoria de renunciar a fazer uma grande carreira nas vias do apostolado e da virtude’. Vidas longas, obras pequenas.

“E vossa prudência como foi, ó Modelo divino de todas as virtudes? Quantos amigos tendes, que Vos aconselhariam a renunciar quando caístes pela primeira vez? Da segunda vez seriam legião. E vendo-Vos cair pela terceira, quantos Vos não abandonariam escandalizados, achando que éreis temerário, falto de bom senso, que queríeis violar os manifestos desígnios de Deus!

“Que esse passo de Vossa Paixão nos dê graças, Senhor, para sermos de uma invencível constância no bem, conhecendo perfeitamente o caminho do verdadeiro heroísmo, que pode chegar a seus limites mais extremos e mais sublimes sem jamais se confundir com uma vil e presunçosa temeridade.” (PRECES PRO OPPORTUNITATE DICENDAE, 1997, p. 229-231)

Pe. Michel Six, EP


[1] Cf. IV Sent., d. 17, q. 2, a. 2, d.c.o.

[2] Era já o pensamento de Aristóteles, que precisava, com sua técnica filosófica mais elaborada: elas (as virtudes) são solidárias na prudência, pois nenhuma virtude é completa se não está ligada à prudência, e esta só é realmente ela mesma se está acompanhada de todas as outras virtudes. (VV.AA. 1952 p. 702, tradução minha).

[3] Cf. VV.AA., 1952, p. 716.

[4] Deve-se ressaltar que antes de tudo a santidade é uma graça concedida pela dádiva de Deus. Porém, de nossa parte devemos nos exercitar na prática das virtudes, com o intuito de obter da Providência tal graça.

[5] A importância e necessidade da prudência são manifestas em diversas passagens da Sagrada Escritura. O mesmo Jesus Cristo nos adverte que é necessário ser “prudentes como serpentes e inocentes como pombas” (Mt. 10, 16). Sem ela nenhuma virtude pode ser perfeita. A pesar de ser uma virtude intelectual, é, ao mesmo tempo, eminentemente prática. […]. A prudência é absolutamente necessária para a vida humana. Sobretudo na ordem sobrenatural ou cristã, nos é indispensável (1954, p. 549-550, tradução minha).

[6] A santidade é o estado pelo qual chegamos, pela fidelidade, a todos os deveres; ela é, a bem dizer, a prática de todas as virtudes; a santidade detém todas as virtudes… (BARBIER, 1885, p. 337).

[7] Cf. G. 1, 26- 27.

[8] Compreendamos que só seremos santos na medida em que a vida de Jesus Cristo estará em nós: é esta a única santidade que Deus nos pede; não há outra; nós só seremos santos em Jesus Cristo, ou não sermos santos de modo algum (1946, p. 28, tradução minha).

[9] FERREIRA, 1999, p.1658.

[10] L’intelligence ne fait que parler, c’est l’amour qui chante.

BIBLIOGRAFIA

-AQUINO, Tomás de. A prudência, a virtude da decisão certa. Trad., introd., e notas: Jean Lauand. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

-BARBIER, Abbé. Les Trésors de Cornelius a Lapide – extraits de ses commentaires sur l’Écriture Sainte à l’usage des prédicateurs des Communautés et des familles chrétiennes. Vol. I. 5ª ed. Paris: Librairie Poussielgue Frères, 1885.

-FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio século XXI: o dicionário da língua portuguesa. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

-MARMION, Columba, Dom. Le Christ vie de l’âme – conférences spirituelles. Montréal : Librairie Granger Frères, 1946.

-ROYO MARÍN, P. Antonio. Teologia de la perfeccion Cristiana. Madrid: B.A.C., 1954.

-TANQUEREY, Ad. Compêndio de teologia ascética e mística. 6ª ed.Trad.: P. Dr. João Ferreira Fontes. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1961

-VV. AA., Initiation Théologique. Vol. III. Paris: Éditions du Cerf, 1952.

-VV.AA. PRECES PRO OPPORTUNITATE DICENDÆ. São Paulo: Editora Retornarei, 1997.

O que são as indulgências? Como obtê-las?

Introdução

Imaginemos a seguinte cena, tão corriqueira numa casa de família: um dos filhos, mesmo conhecendo uma proibição formal do pai, desobedece-o travessamente. O pai, ao saber do ocorrido, vê-se na contingência de punir o infrator, ainda que isto lhe seja mais dilacerante do que para o próprio filho. Entretanto, ao ser informada, a mãe pede clemência pelo pequeno travesso. Dado às instâncias maternas, não é verdade que o pai cede, em atenção ao pedido da esposa? Neste caso, o pai de família concede uma indulgência ao filho, pelo respeito à interseção maternal.

A Indulgência de Deus

A mesma situação podemos aplicar ao gênero humano, que, na pessoa de Adão, desobedeceu ao Pai Celeste. Por causa desta transgressão as portas do Paraíso nos foram fechadas e nos tornamos réus de morte; imediatamente adiantou-se Nosso Senhor Jesus Cristo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, e conquistou para nós, na Cruz, a misericórdia que não merecíamos. Diante de tamanha intercessão, Deus Pai se dobra amorosamente à vontade do Filho, e poupa o gênero humano: Deus nos é indulgente, pelo valor da interseção de Cristo.

Contudo, como é próprio a Deus de tudo fazer com a mais exímia e amorosa excelência, imolou-se Deus Filho num sacrifício perfeitíssimo, consumido no altar da Cruz, oferecendo seu Sangue para nos resgatar. Mesmo sabendo que apenas uma gota seria suficiente para remir toda a humanidade, Cristo bebeu até o fim o Cálice amargo da Paixão, e verteu todo o seu Sangue, “ele o derramou – ensina-nos o Papa Clemente VI – não como pequena gota de sangue, que todavia em virtude da união ao Verbo teria sido suficiente para a redenção de todo o gênero humano, mas de modo copioso[1]”, expiando assim em superabundância os pecados dos homens. Esta exuberância no sacrifício da Cruz fez transbordar o tesouro dos méritos de Cristo em favor da humanidade. Tal tesouro foi dado à Igreja administrar, para consolo dos pecadores, “e, por razões piedosas e razoáveis, para ser ministrado misericordiosamente aos verdadeiramente penitentes e confessados, para total ou parcial remissão da pena temporal devida pelos pecados [2]”.

Notamos, deste modo, que há um tesouro inexaurível comprado por Cristo para ser distribuído aos pecadores, e a este montante devemos ainda acrescentar os méritos da Santíssima Virgem Maria e de todos os justos. Precisamente, quando nos é oferecido, chamamos a este tesouro de indulgência.

Indulgências da Igreja

Como nos ensina o Catecismo da Igreja Católica (1471), por indulgência se entende a “remissão, perante Deus, da pena temporal devida aos pecados, cuja culpa já foi apagada; remissão que o fiel devidamente disposto obtém em certas e determinadas condições pela ação da Igreja, a qual, enquanto dispensadora da redenção, distribui e aplica, por sua autoridade, o tesouro das satisfações de Cristo e dos santos”[3].

Notemos que é a Igreja quem, na pessoa de seu pastor, o Papa, nos dispensa este tesouro. Pois, com efeito, no poder que Nosso Senhor conferiu a São Pedro – e a seus sucessores – de abrir ou de fechar as portas do Céu aos homens (Mt 16,19), está contido o poder de retirar todos os obstáculos que impeçam o ingresso de uma alma no Céu. Ora, como sabemos, as penas temporais, que resta a uma alma pagar depois de ter seus pecados perdoados, são um obstáculo para seu ingresso na Morada Celeste.

De fato, precisamos estar cientes que o pecado acarreta uma dupla conseqüência. Quando é grave “priva-nos da comunhão com Deus e, portanto, nos torna incapazes da vida eterna; tal privação se chama ‘pena eterna’ do pecado”[4]; esta primeira conseqüência é o que comumente se chama de pecado mortal[5]. Mortal, pois mata em nossa alma a caridade, a vida da graça, ao se infringir gravemente a Lei de Deus. Este pecado desvia o homem de seu próprio Criador, fazendo-o preferir e amar mais um bem inferior do que a Deus mesmo.[6] A pena para a alma que morre neste estado, que não aceita o perdão divino, é a condenação eterna, o inferno, pois ela mesma não quererá voltar-se para Deus e pedir-lhe perdão, terá feito uma escolha irreversível de recusa a Deus.[7] A segunda conseqüência é que, qualquer pecado, seja mortal ou venial “acarreta um apego prejudicial às criaturas que exige purificação, quer aqui na terra, quer depois da morte, no estado chamado ‘purgatório’. Esta purificação liberta da chamada ‘pena temporal’ do pecado”.[8] Recordemos que o pecado venial não mata a vida divina na alma, porém enfraquece a caridade e pré-dispõe para o mortal, além de se traduzir pelo apego desordenado às criaturas, que exigirá uma purificação.[9]

No sacramento da penitência, ao ser absolvido, o pecador é perdoado de suas faltas, não está mais privado da comunhão com Deus; porém resta-lhe ser purificado da pena temporal, deste apego prejudicial em relação às criaturas, que maculou sua alma. Esta purificação, como vimos, pode se dar após a morte, no Purgatório, ou por uma misericórdia de Deus, ela pode ser apagada ainda nesta vida pelas indulgências, que são o tesouro da satisfação de Cristo. A parcela do tesouro dos méritos de Cristo, nós a podemos receber de modo parcial: quando apenas uma parte da pena temporal é apagada; ou de modo pleno: quando ela é apagada inteiramente[10], é o que se chama de indulgência parcial e indulgência plenária.

Como lucrar indulgências?

Todo fiel pode, desde que cumpra os requisitos necessários, lucrar uma ou várias indulgências num mesmo dia, ou ao longo de sua vida. Contudo, Paulo VI, em sua Constituição Apostólica Indugentiarum Doctrina, sobre a revisão das indulgências, nos explica os requisitos a serem cumpridos para se receber uma indulgência plenária: “fazer uma obra enriquecida de indulgência e preencher as três seguintes condições: confissão sacramental, comunhão eucarística e oração nas intenções do Sumo Pontífice.[11] Requer-se além disso rejeitar todo o apego ao pecado, qualquer que seja, mesmo venial.”[12] Contudo, na falta de algum destes requisitos o fiel pode lucrar uma indulgencia parcial. Para se lucrar uma indulgência parcial requer-se ao fiel que cumpra a obra prescrita para tal.

No que tange à indulgência plenária, com seu maternal desvelo, a Santa Igreja prevê as dificuldades que poderiam ocorrer para se cumprir, num mesmo dia, todos os requisitos necessários a fim de lucrá-la; desta maneira, anima-nos Paulo VI: “As três condições podem ser preenchidas em dias diversos, antes ou após a realização da obra prescrita; mas convém que a comunhão e a oração nas intenções do Soberano Pontífice se façam no mesmo dia em que se faz a obra.”[13] Outra prova inequívoca da bondade de Nossa Mãe, a Santa Igreja, é o fato de que nós podemos aplicar as indulgências que lucramos, tanto as parciais, como as plenárias, em sufrágio pelas almas dos defuntos que estão no purgatório.

Antes mesmo de mostrar os modos concretos para se lucrar as indulgências, cumpre lembramos um fato que ocorreu com Santa Teresa de Jesus, para vermos a importância que se deve dar às indulgências.[14] Certo dia, extasiada e encantada, pôde a santa contemplar a alma de uma religiosa, falecida naquele instante, e que subia radiante, diretamente para o Céu. O curioso é que a bendita alma rumou para o Céu, sem sequer passar perto do purgatório, sendo que muitos achavam que a falecida era uma freira simples, sem maiores virtudes, e, por conseguinte, com suas falhas, como todos os homens. Lembremos o que escreveu São João: “Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós.”[15] O fato é que, mais tarde, em um dos colóquios da grande Santa Teresa com Nosso Senhor, o Divino Mestre explicou a ela o motivo do privilégio da freira defunta. Contou o Senhor Jesus que aquela alma sempre teve grande confiança nas indulgências concedidas pela Igreja; e sempre se esforçou para ganhar o maior número delas. Como vemos, a freira soube usar do tesouro que a Igreja, maternalmente, põe à nossa disposição para, após a morte, irmos diretamente ao Céu.

Após termos visto o que são as indulgências, as disposições e as condições necessárias para recebê-las, concluiremos este artigo vendo quais obras devem ser observadas por um fiel a fim de lucrá-las tais indulgências.[16]

Indulgências parciais

– Se pode lucrar indulgência parcial quando se cumpre seus deveres e se tolera, à imitação de Cristo, as aflições de nossas vidas, elevando a Deus o espírito com alguma piedosa invocação, mesmo que seja apenas em pensamento. Ao alcance de todos, esta indulgência pode ser facilmente recebida. Com efeito, todos nós, em qualquer situação em que nos encontramos – seja o de religioso, casado, solteiro, ou ainda um trabalhador, um estudante, etc… – todos encontramos dificuldades e aflições, cada um em seu âmbito específico. O que é preciso é elevarmos nossos espírito e oferecer tudo a Deus, seja rezando (por exemplo: Ave-Maria, Pai-Nosso, Credo), seja pensando piedosamente n’Ele, para lucramos tantas indulgências quanto o número de oferecimentos que fizermos.

– Também quando, com espírito de fé e com misericórdia, um fiel dispõe de seus bens, ou ainda de si mesmo, em atenção e serviço aos mais necessitados. Quando excuta uma obra de caridade. Contudo, para que lucre a indulgencia parcial, é preciso que tal obra caritativa esteja mesmo voltada para o serviço dos irmãos mais carentes. Nisto percebemos que mais lucra quem dá do que quem recebe, pois, o que são os bens materiais em comparação com a libertação ou diminuição das penas temporais?

– Lucra ainda indulgência parcial o fiel que, espontaneamente, com espírito de penitência, se abstém de coisa que é inteiramente lícita e agradável. Com isto, o fiel é ajudado a refrear suas más inclinações, e, sujeitando seu corpo, se conforma mais estritamente a Cristo. Estes são os pequenos sacrifícios do dia-a-dia, que podemos oferecer a Deus e por amor a Ele nas mais variadas circunstâncias: sendo solícito para com um irmão que nos pede algo que é de si árduo, tendo paciência com os demais, sendo obedientes às autoridades competentes, sobretudo quando nos pedem algo de difícil – porém nunca para algo contrário à moral – não comendo uma deliciosa sobremesa, por exemplo.

– Recebe indulgência parcial, todo fiel que professa publicamente sua fé, quando dá livremente um testemunho de fé diante dos demais, nas circunstâncias particulares da vida no dia-a-dia.

– Também outros atos ou orações nos fazem lucrar indulgências parciais, como: a recitação de ladainhas (as devidamente aprovada pela autoridade eclesiástica), o Creio em Deus, o Magnificat (Minha alma engrandece o Senhor, Lc. 46-55), a Salve Rainha, o Lembrai-vos ó piíssima Virgem Maria, a oração ao Anjo da Guarda (Santo Anjo do Senhor), o Salmo 50 (Senhor tem piedade, segundo a vossa bondade), o sinal da Cruz, uma comunhão espiritual, visitas breves ao Santíssimo Sacramento para adorá-Lo, entre outras orações.

O mesmo para os fiéis que portam devota e religiosamente alguns objetos de piedade, como: crucifixo, cruz, terço, escapulário, medalha. Note-se que estes objetos devem estar validamente abençoado. Entretanto, se o objeto foi bento pelo Santo Padre, o Papa, ou por um bispo, o fiel que o porta devotamente obterá uma indulgência plenária, no dia da festa dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo (29 de junho), sendo preciso fazer uma profissão de fé sob forma legítima, como a recitação do Creio.

Indulgências plenárias

Há ainda as indulgência ditas plenárias, que, como vimos, apagam totalmente as penas temporais – daí seu valor intrínseco ser maior. Papa lucrá-las cumpre também observar os três requisitos que mencionamos acima, bem como desapegar-se de todo tipo de pecado. Ganha-se uma indulgência plenária quando:

– Se faz uma adoração ao Santíssimo Sacramento de ao menos meia hora.

– Se faz a leitura das Sagradas Escrituras ao menos por meia hora, com a devida veneração e à maneira de leitura espiritual. Note-se que deve ser um texto aprovado pela autoridade competente. Ao fiel impossibilitado de ler por si, poderá lucrar a indulgência quando outro ler para ele, ou quando ele acompanhar uma leitura da Bíblia em áudio ou em vídeo.

– Se reza o rosário de Nossa Senhora numa igreja, numa capela ou oratório, ou ainda em família ou numa comunidade religiosa.

– Quando se recebe com piedade e devoção a bênção dada pelo Papa, urbi et orbi, para Roma e o mundo, também é válida a bênção que for ouvida na rádio, acompanhada na televisão, ou ainda se for acompanhada mentalmente – outra faceta da maternal bondade da Santa Igreja.

– Ao fiel que se dedicar a aprender ou ensinar a reta doutrina cristã. Grande incentivo para crescermos nos conhecimentos divinos e no amor a Deus.

– Ao fiel que participar piedosamente de uma solene procissão eucarística.

– Ao fiel que, na Sexta-Feira Santa, participar da adoração da Santa Cruz, na solene celebração litúrgica.

– Aos fieis que fazem sua primeira comunhão, e ainda aos que assistem a uma cerimônia de primeira comunhão.

– Ao sacerdote que, no dia marcado, celebra sua primeira Santa Missa, bem como para os fiéis que a assistirem.

– Ao fiel que, na celebração da Vigília Pascal, ou no dia do aniversário de seu batismo, renovar suas promessas batismais por alguma forma legitimamente aprovada.[17]

– Há ainda as indulgências plenárias que qualquer um de nós pode receber, porém que são aplicáveis somente às almas do purgatório, quando: visitar devotamente um cemitério entre os dias primeiro e oito de novembro, e lá rezar pelos defuntos. Ou quando no dia dois de novembro (dia dos fiéis defuntos), visitar uma igreja ou um oratório e aí rezar um Creio e um Pai-Nosso.

Pe. Michel Six, EP 

BIBLIOGRAFIA

– ANTONIO DE OLIVEIRA, Severiano. As indulgências. In: Revista Arautos do Evangelho. Ano 3, nº 33, setembro de 2004.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 11ª ed. São Paulo: Loyola, 2001.

– DENZINGER, Heinrich. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e de moral. Trad. LUZ, José Marino; KONINGS, Johan. São Paulo: Paulinas, Loyola, 2007.

Indulgências. Orientações litúrgico-prastorais. Trad. Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. São Paulo: Paulus, 2005.

– PAULO VI. Constituição Apostólica Indulgentiarum Doctrina. http://www.vatican.va/holy_father/paul_vi/apost_constitutions/documents/hf_p-vi_apc_01011967_indulgentiarum-doctrina_po.html, acessado em 05 de novembro de 2010.


[1] DENZINGER, Heinrich. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e de moral. Trad. LUZ, José Marino; KONINGS, Johan. São Paulo: Paulinas, Loyola, 2007. Dz 1025.

[2] Idem, Dz 1026.

[3] Cf. Paulo VI, Constituição Apostólica Indulgentiarum Doctrina, norma nº 1. AAS 59 (1967) 21.

[4] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 11ª ed. São Paulo: Loyola, 2001. Nº 1472.

[5] Cf. Idem, Nº 1855.

[6] Cf. Idem.

[7] Cf. Idem, Nº 1861.

[8] Idem, 1472.

[9] Cf. Idem, Nº 1863.

[10] A indulgência plenária só se recebe uma vez ao dia, ao contrário da parcial, que se pode receber várias vezes num mesmo dia. Contudo, “in articulo mortis”, pode-se lucrar outra indulgência plenária, mesmo que já se tenha recebido uma no mesmo dia. Cf. Paulo VI, Constituição Apostólica Indulgentiarum Doctrina, normas nos 6 e 18. AAS 59 (1967) 22 e 23.

[11] A oração pode ser um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, porém o fiel pode escolher outra oração, conforme sua piedade. Cf. norma nº 10. AAS 59 (1967) 22.

[12]  Idem, norma nº 7.

[13] Idem, norma nº 8.

[14] Cf. Revista Arautos do Evangelho, nº 33, setembro de 2004. P. 36.

[15] Cf. 1 Jo 1,8.

[16] Tanto para as indulgências parciais, como para as plenárias, elegemos algumas que nos parecemos mais oportunas, numa obra ao alcance dos fiéis, o livro: Indulgências – Orientações litúrgico-pastorais. Trad. Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. São Paulo: Paulus, 2005.

[17] A indulgência será parcial se o fiel utilizar outra forma.

Qual é a maior obra de Deus?

Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei! Estavas dentro e eu fora Te procurava. Precipitava-me eu disforme, sobre as coisas formosas que fizeste. Estavas comigo, contigo eu não estava. As criaturas retinham-me longe de Ti, aquelas que não existiriam se não estivessem em Ti. Chamaste e gritaste e rompeste a minha surdez. Cintilaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira. Exalaste perfume, aspirei-o e anseio por Ti. Provei, tenho fome e tenho sede. Tocaste-me e abrasei-me no desejo de tua paz.  (Confissões X)

Qual é a maior obra de Deus? Certamente muitos afirmariam que criar o Céu e a Terra; o Doutor Angélico, entretanto, respondeu esta pergunta fazendo uma sutil distinção ao indicar que a grandeza de uma obra pode ser determinada sob dois pontos de vista: pelo modo de obrar e pela magnitude do resultado obtido. Sob o primeiro aspecto realmente a criação é a Sua maior obra, pois o universo foi criado ex nihilo; porém, de acordo com o segundo, a justificação do ímpio é a maior uma vez que o seu término é o bem eterno da bem-aventurança, que é ainda mais excelente do que a criação do Céu e da Terra, cujo término é o bem da natureza mutável (cf. S. Th. I-II, q. 113, a. 9).

Uma das mais belas conversões da história é, sem dúvida, a de Santo Agostinho. Mas grave erro cometeria quem julgasse que a conversão é fruto de raciocínios que movem a pessoa a mudar de vida. Na realidade, explica São Tomás que “o homem não pode de modo algum levantar-se por si mesmo do pecado sem o auxílio da graça” (I-II, q. 109, a. 7).

Com efeito, tarde amou Santo Agostinho a Beleza tão antiga e tão nova porque o homem não pode amar a Deus sobre todas as coisas sem o auxílio da graça que cure a sua natureza degradada pelo pecado original (cf. I-II, q. 109, a. 3); ele procurava fora a Beleza que nele estava porque como mais adiante ele mesmo a iria explicar: “merecidamente a luz da verdade abandona os prevaricadores da lei, com o qual se tornam cegos”; igualmente precipitava-se disforme sobre as coisas formosas que Deus criou porque o pecador é como um enfermo que pode executar alguns movimentos, mas não com a perfeita desenvoltura do homem sadio até que não seja curado com a ajuda da medicina que é a graça (cf. I-II, q. 109, a. 2); em fim, ele não estava com Deus dado que as criaturas o retinham longe dEle pois enquanto a natureza está desordenada pelo pecado, a vontade humana não se submete a Deus (cf. I-II, q. 109, a. 7).

Contudo, em determinado momento Deus o chamou e lhe rompeu a surdez; cintilou e resplandeceu afugentando-lhe a cegueira. Quando Santo Agostinho recebeu a graça da conversão, que moveu a sua vontade para abraçar a Fé, finalmente conseguiu amar a Beleza tão antiga e tão nova que tanto tinha procurado onde não estava. Tendo experimentado em si mesmo a excelência da graça da conversão e como a misericórdia de Deus realmente é superior a todas as suas obras, o Santo Doutor de Hipona afirmou com toda propriedade: “julgue quem puder se é mais criar anjos justos ou justificar ímpios. Certamente se as duas coisas supõe o mesmo poder, a segunda requer mais misericórdia”.

Portanto, poderá ainda existir alguma dúvida sobre qual é a maior obra de Deus? Encerremos ouvindo esta vez ao Santo Doutor de Hipona: “é mais excelente tornar justo um pecador do que criar o céu e a terra, porque o céu e a terra passarão; mas a saúde e a justificação dos predestinados permanecerá para sempre”.

Pe. Rodrigo Alonso Solera Lacayo 

¿Es verdad que Jesús tuvo miedo? Y, a respecto de su misión, ¿en algún momento tuvo dudas?

Una asidua lectora de este blog nos ha preguntado si Jesús tuvo miedo en algún momento. En efecto, leemos en la Escritura que en el Huerto de los Olivos Jesús pidió que el cáliz de la pasión le fuese apartado. ¿Experimentó Jesús el temor?

Además la misma lectora pregunta si es cierto algo que oyó en una plática religiosa a respecto de las supuestas dudas que Jesús habría tenido de su misión redentora. Incluso afirmaron en tal plática que Jesús fue 40 días al desierto para descubrir cual era la volunta de Dios sobre su persona.

Para poder responder bien a las dudas formuladas en su email, es necesario recordar, aunque en breves pinceladas, la doctrina de la Encarnación del Verbo.

La Iglesia, fiel a lo revelado en las Escrituras, nos propone como doctrina segura que Jesús, en su unidad personal es Dios y Hombre verdadero, o sea, existen dos naturalezas unidas (pero no confundidas) en la única Persona divina del Verbo de Dios, la Segunda de la Trinidad. Esto no se puede demostrar por la simple razón humana, es una verdad que supera los límites de nuestra inteligencia, pero que Jesús mismo nos la reveló con la autoridad de su palabra y de sus obras.

Este luminoso y altísimo misterio de la Encarnación, tornó la persona de Jesús objeto de las más diversas controversias desde los albores de la Iglesia, sobre todo, cuándo la revelación cristiana se confrontó con las categorías de pensamiento griegas. Fue ese el tema esencial de los más destacados concilios de la antigüedad cristiana, cuya doctrina aún es proclamada por la Iglesia. Recordemos el Credo de la misa dominical, fruto de los concilios de Nicea y de Constantinopla I, donde decimos que Jesucristo es “Dios de Dios, Luz de Luz”, y, al mismo tiempo, proclamamos que, para nuestra salvación, “se encarnó en el seno de la Virgen María y se hizo hombre”.

Por lo tanto, a la Persona de nuestro Señor Jesucristo se le pueden atribuir verdaderamente tanto las acciones de Dios cuánto las acciones del hombre. Porque si bien es verdad que la humanidad fue asumida por la divinidad, también han enseñado los padres que la divinidad no la absorbió, sino que la respetó en su integridad. Jesús, por tanto, es verdadero hombre, con inteligencia humana, voluntad humana, sentimientos humanos, cuerpo humano, etc. De otro lado, también es cierto que la divinidad en nada disminuyó su grandeza uniendo a sí la humanidad, por lo que Jesús es Dios verdadero, en toda su omnipotencia, grandeza, inmensidad. Esto significa que a la pregunta: ¿Cristo creó el mundo? Se debe responder: sí, en cuánto Dios. Y, ¿Cristo murió? Sí, en cuanto hombre. Es la misma y única persona capaz de cumplir con los actos propios de Dios y del Hombre.

Bello misterio, pero difícil para nuestras pequeñas y débiles inteligencias. Sólo la Fe puede impulsarnos a contemplar tan resplandeciente verdad, aunque para ello es necesaria la oración, la humildad y la confianza en la palabra de Dios. Los soberbios, los impuros y los incrédulos no pueden acceder a tan altas consideraciones.

Pues bien, si es verdad que Jesús fue hombre verdadero, ¿pudo haber sentido miedo? La respuesta ha de ser positiva. Y de hecho Él quiso sentirlo para salvarnos y enseñarnos el valor redentor del dolor en la vida humana. También quiso fortificar nuestra debilidad con sus méritos y su ejemplo, como está dicho en la epístola a los Hebreos 2, 18: “precisamente porque él mismo fue sometido al sufrimiento y a la prueba, puede socorrer ahora a los que están bajo la prueba”.

Hay varios pasos de la Escritura dónde resta claro que Jesús luchó contra el miedo. La diferencia entre Jesús y nosotros, es que él nunca se dejó vencer por el temor, y delante del terrible panorama de la pasión, superó la tendencia humana de preservar la vida, y se entregó al Padre hasta la muerte y muerte de cruz. Y aquí hay que subrayar que se dio con alegría, sin titubeos.

Analice la descripción hecha por San Lucas de la oración en el Huerto de los Olivos: “Preso de la angustia, Jesús oraba más intensamente, y le entró un sudor que chorreaba hasta el suelo, como si fueran gotas de sangre” (Lc 22, 44). Hoy sabemos gracias a la medicina moderna, que este sudor con sangre sólo ocurre en situaciones de extrema preocupación. Por lo tanto, sí, Jesús probó en su carne el miedo, la angustia y la tristeza, aunque siempre las dominase y las superase con un ánimo victorioso.

En su pregunta usted recuerda específicamente la oración hecha en el Huerto por Jesús, pidiendo al Padre el alejamiento del cáliz: “Padre, si quieres aleja de mí esta copa de amargura, pero no se haga mi voluntad, sino la tuya” (Lc 22, 42). Esta oración nos muestra claramente que Jesús como todo hombre, poseía el instinto de conservación, que le hacía temer la muerte, pero, al mismo tiempo, nos muestra que más allá de su instinto de conservación, sobre todo quiere hacer la voluntad del Padre, al punto de dejarse juzgar por un tribunal inicuo, ser flagelado terriblemente, coronado de espinas, cargar su cruz y morir “elevado en el madero”. Este ejemplo de Jesús todos debemos imitarlo. Ante las pruebas y los sacrificios de esta vida, primero está la voluntad de Dios, más valiosa que nuestra misma vida.

Además cita usted otro ejemplo, a saber, el del misterioso abandono de Jesús en lo alto de la Cruz: “Y a eso de las tres gritó Jesús con fuerte voz: Eloí, Eloí, ¿lemá sabaktaní?, que quiere decir: Dios mío, Dios mío, ¿por qué me has abandonado?” (Mc 15, 34) Sin duda esta exclamación de Jesús envuelve profundidades y misterios. Su humanidad, extenuada después de tres horas de lento proceso de asfixia y por tantos otros tormentos, experimenta la sensación del desamparo más terrible, el del mismo Dios. Pero dentro del grito de dolor está la certeza de que el Dios que parece abandonarle es “su” Dios: Dios mío, Dios mío…

Además, la exclamación “Dios mío, Dios mío, por qué me has abandonado”, es la frase inicial del salmo XXI. El Señor, al usar los mismos términos, evoca sin duda el contenido del salmo, conocido de los circunstantes, que inicia con una lamentación profunda y termina en un canto de acción de gracias por la liberación alcanzada: “anunciaré tu Nombre a mis hermanos, te alabaré en medio de la asamblea: alábenlo los que temen al Señor, glorifíquenlo, descendientes de Jacob, témanlo, descendientes de Israel. Porque él no ha mirado con desdén ni ha despreciado la miseria del pobre: no le ocultó su rostro y lo escuchó cuando le pidió auxilio” (Sl 21, 23-25). De esta forma, podemos entender la exclamación de abandono como una profecía del triunfo de la Resurrección.

A esto se suma que la descripción de San Marco a respecto de la muerte del Señor, debe ser leída junto con el complemento dejado por San Lucas, quien precisa que el último grito de Jesús es un acto de confianza filial en su “Papá” (es la traducción más aproximada de Abbá): “Padre, a tus manos confío mi espíritu. Y dicho esto expiró” (Lc 23, 46).

Por tanto, la misteriosa experiencia del abandono, causada ciertamente por factores físicos y psicológicos de una humanidad bajo la presión del más lancinante dolor, no es una declaración de duda o de incerteza, sino la exclamación del sufrimiento moral llevado a un auge inimaginable. Sufrimiento este, sin embargo, siempre templado con la certeza de que el Dios por quien llama era “suyo”, era su Padre, aquel que lo libraría de la muerte con la resurrección definitiva.

 ¿Alguna vez había medido así el tamaño enorme de los padecimientos de Jesús? Y, sin embargo, ¡es tan importante que recordemos cuánto sufrió por nosotros, no sólo física, sino espiritualmente! Así valorizaremos más su holocausto, como declara San Pedro: “Sabed que no habéis sido liberados de la conducta idolátrica heredada de vuestros mayores con bienes caducos – el oro o la plata – , sino con la sangre preciosa de Cristo, cordero sin mancha y sin tacha” (1Pe 1, 18-19).

También San Pablo, en su exhortación a los Hebreos, explica el misterio del dolor de Jesús: “teniendo, pues, tal Sumo Sacerdote que penetró en los cielos – Jesús el Hijo de Dios – mantengamos firmes la fe que profesamos. Pues no tenemos un Sumo Sacerdote que no pueda compadecerse de nuestras flaquezas, sino probado en todo igual que nosotros, excepto en el pecado (Hb 4, 14, 15). O sea, Nuestro Señor fue capaz en su humanidad de experimentar el dolor moral, físico y espiritual, pero nunca estuvo contagiado del pecado, ni siquiera de la más mínima imperfección moral, una vez que su humanidad estaba unida personalmente a la Segunda Persona de la Trinidad, el Verbo de Dios.

La segunda cuestión que usted nos pone es: si en algún momento Jesús llegó a mostrar duda sobre el desenvolvimiento de su misión aquí en la tierra. Porque, según algunos afirman, Jesús fue al desierto cuarenta días para conocer que es realmente lo que su Padre quería de Él, o, más aún, otros creen que detrás de la pregunta hecha por Jesús a sus discípulos sobre quien era él, asomaría la duda respecto de su misma identidad.

Estamos delante del moderno problema de la conciencia que Jesús tenía, en cuanto hombre, de ser el Hijo de Dios. Algunos hoy lo ponen en duda, otros lo niegan de forma más o menos rotunda. Sin embargo, la Santa Iglesia nunca admitió esta posibilidad, ni de hecho la admite en la actualidad. Jesús tuvo una conciencia clara y directa de su filiación al Padre.

En San Lucas y San Mateo tenemos una revelación de Jesús del todo evidente en ese sentido: “Todo me lo ha entregado mi Padre, y nadie conoce al Hijo sino el Padre, y al Padre no lo conoce más que el Hijo y aquél a quien el Hijo se lo quiera revelar” (Mt 11, 27). O sea, Jesús en su humanidad, tiene acceso al Padre de un modo único y exclusivo, a punto de ser el único capaz de transmitir a los demás quien es el Padre. Si Él dudara de su relación filial, ¿cómo podría hacer semejante afirmación?

Ya en el Evangelio de San Juan esta relación filial con el Padre resta meridianamente clara:

“Yo y el Padre somos una sola cosa” (Jn 10, 30)

“El Padre está en mí y yo en el Padre” (Jn 10, 38)

“Quien me ha visto a mí ha visto al Padre” (Jn 14, 9)

Y tantas otras que podríamos mencionar aquí. Aún podría levantarse una objeción: ¿desde cuándo tuvo Cristo esa conciencia? ¿No fue en el Bautismo de Juan cuando percibió su misión y su identidad divina?

Pues bien, la recomendación es sencilla: leer con atención el Evangelio de San Lucas. He aquí el episodio de Jesús, a los doce años, en medio a los doctores:

“Al cabo de tres días [sus padres] lo encontraron en el Templo sentado en medio de los maestros, escuchándoles y haciéndoles preguntas. Todos cuantos le oían estaban estupefactos, por su inteligencia y sus respuestas. Cuando lo vieron, quedaron sorprendidos; su Madre le dijo: Hijo, ¿por qué nos has hecho esto? Tu padre y yo te hemos andado buscando, llenos de angustia. Él les respondió: Y, ¿por qué me buscabais? ¿No sabíais que yo debía estar en la casa de mi Padre? Pero ellos no respondieron la respuesta que les dio” (Lc 2, 46-50).

Durante algún tiempo este trecho de San Lucas fue tenido por algunos biblistas casi como legendario. Sin embargo, estudios más recientes prueban ser totalmente histórico y verosímil dado que responde a las costumbres legales de la época. Los niños a los doce o trece años eran introducidos a la Ley, siendo invitados a participar en las escuelas rabínicas, haciendo preguntas y respondiendo a las interrogaciones de los maestros. Y aquí vemos a Jesús brillando como un sol, dejando “estupefactos” por su “inteligencia” y sus “respuestas”.

Pues bien, he aquí la respuesta, simplemente tomando como base el Santo Evangelio. Jesús tuvo una conciencia de su identidad divina y de su misión redentora que fue plena, sin margen a dudas, clara como la luz y cristalina como el agua. Pensar lo contrario es tergiversar los textos evangélicos o, simplemente, no haberlos leído con atención.

Espero que estas respuestas puedan servirle para crecer en el entusiasmo, el amor y la adoración por Jesús, el Hijo de Dios y el Hijo de María Virgen, que vino al mundo para salvarnos del pecado y de la muerte, e introducirnos en el Reino de su Padre.

Pe. Carlos Werner Benjumea

Para que receber a Unção dos Enfermos?

“O efeito comum, primário e principal dos sacramentos é produzir ou aumentar a graça santificante na alma”.[1] Mas, cada sacramento o faz de maneira diferente e especial, com certos efeitos secundários que lhe são característicos.

No caso do sacramento da unção dos enfermos o efeito primário é confortar a alma contra os resquícios do pecado, ou seja, contra a debilidade pelos pecados da vida passada. Os efeitos secundários são: a diminuição da pena temporal devida pelos pecados (certeza); a remissão dos pecados mortais e veniais, se os há, e a saúde do corpo quando convém à da alma (possível, mas não necessário).[2] O sacramento da unção dos enfermos é, portanto, a sanação do homem inteiro. Passemos a ver cada ponto detalhadamente.

1. Sanação da alma

a. Infusão da graça do Espírito Santo

A unção dos enfermos é um sacramento de vivos, ou seja, deve ser recebido em estado de graça e, como todos os outros sacramentos, aumenta por si mesmo a graça santificante na alma de quem o recebe. Embora seu efeito principal não seja o de perdoar os pecados, mas sim de fortalecer a alma e aumentar a graça do Espírito Santo, também pode vir a perdoar os pecados, mortais e veniais, quando o sujeito está impossibilitado de confessar-se. Evidentemente, o aproveitamento deste sacramento será maior ou menor dependendo das disposições de alma de quem o recebe.

 

b. Perdão dos pecados

A unção dos enfermos pode também obter o perdão dos pecados mortais e a infusão da graça santificante perdida como já dissemos acima. Isso só acontece quando aquele que recebe o sacramento não tem possibilidade de confessar-se, seja por estar inconsciente, seja pela doença que o impossibilita de falar, ou qualquer outro impedimento. Neste caso, mesmo sem a confissão, quem recebe a unção dos enfermos recebe também o perdão dos pecados. A unção dos enfermos passa a ser sacramento de mortos neste caso, sacramento da divina misericórdia, tal como o da penitência.[3]

Este efeito do perdão dos pecados, se os há, está claramente expresso na carta de Santiago: “se estiver em pecado se lhe perdoarão” (Tg 5,15), além de estar declarado pelos concílios Ticinense, Florentino e Tridentino.[4]

c. Abstenção dos “resquícios do pecado”

Por resquícios do pecado se entende uma condição pecaminosa, de fraqueza ou debilidade, produzida pelo pecado grave na alma, além das conseqüências do pecado original. A unção dos enfermos tende a apagar estes resquícios do pecado.

Também se pode entender por resquícios do pecado a afeição persistente a pecados veniais, a pena temporal adquirida pelos pecados cometidos e a falta de forças para resistir às paixões desordenadas e às tentações do demônio.

A unção dos enfermos elimina o desmerecimento a certos auxílios especiais da Providência, a fim de superar as insídias diabólicas e evitar as ocasiões de pecado. Em síntese, tudo aquilo que seja obstáculo para que a ofensa a Deus tenha sido totalmente apagada. Este é o principal efeito deste sacramento, apagar os resquícios do pecado na alma.

Mais uma vez lembramos que esses efeitos são maiores ou menores dependendo da preparação e das disposições de quem recebe a unção dos enfermos.

d. Alívio e conforto da alma

Segundo São Tomás, os sacramentos foram instituídos para produzir o que significam, e daí que se deva tomar seu principal efeito de sua significação. Pois bem, a unção dos enfermos se administra a modo de certo medicamento, tal como o batismo a modo de ablução para lavar aquele que o recebe. Ora, os medicamentos se utilizam para combater certas enfermidades. Logo, este sacramento foi instituído para curar as almas do pecado, sendo ele mesmo uma medicina espiritual.[5]

Assim como os medicamentos físicos são dados às pessoas vivas, assim também este sacramento deve ser ministrado apenas àqueles que estão na vida da graça, sob pena de cometer-se sacrilégio. Entretanto, como já vimos acima, em caso de que o sujeito esteja impossibilitado de confessar-se, ou que ignore que esteja em pecado mortal e receba a unção dos enfermos de boa fé e com atrição, tem os seus pecados todos perdoados e não comete nenhuma falta.

Mas, tal como os medicamentos humanos, este sacramento produz um conforto e um alívio na alma de quem o recebe com boas disposições. Numa doença física, junto com as fraquezas corporais, uni-se também a debilitação psicológica, o que torna a recuperação da saúde muito mais árdua e longa. Porém, quando se consegue que o paciente esteja animado e cheio de esperança, a recuperação é muito mais rápida e certa.

É exatamente este o efeito de conforto e alívio de alma de que acabamos de falar. A perfeita sanação espiritual abarca também este conforto da alma. Esse conforto da alma é também efeito próprio deste sacramento.

“Se alguém disser que a sagrada unção dos enfermos não confere a graça, nem perdoa os pecados, nem alivia os enfermos…, seja anátema.” (Dz. 927).

2. Sanação do corpo

O principal efeito deste sacramento, como acabamos de ver, é a saúde espiritual por meio do aumento da graça do Espírito Santo e o apagamento dos resquícios do pecado. Porém, tem como um de seus efeitos próprio, se bem que secundário, o de restabelecer a saúde física, quando for conveniente à saúde espiritual.[6]

Esta cura se pretende e se busca, mas de modo condicionado segundo os planos da Providência e o bem maior que é o espiritual; é uma cura para o homem inteiro: alma e corpo, corpo e alma.

Este efeito da sanação corporal, primeiro pelo que a experiência mostra quando se administra este sacramento e não se obtém a cura corporal, e segundo por se tratar de um bem material que está sempre subordinado ao bem espiritual, não se deve esperar infalivelmente.

No início da Igreja este sacramento, na quase totalidade dos casos, produzia a cura corporal, além do conforto espiritual. Entretanto, isso foi diminuindo ao longo da história da Igreja. Com efeito, nos primórdios da Igreja era necessário haver uma prova muito clara de que esta era portadora da religião verdadeira, pois o cristianismo ainda não tinha suas raízes solidamente estabelecidas. Uma vez firmado e estável, não há mais a mesma necessidade de sinais externos tão evidentes. Além do que, a Providência quer nos dar mais méritos e, como a Igreja sempre cresce em graça e santidade, é necessário que creiamos mesmo sem ter visto. “Creste, porque me viste. Felizes aqueles que crêem sem ter visto”. (Jo 20,29)

 

3. Adendos

a. Conciliação da esperança de sanação corporal com a realidade da morte que freqüentemente se seguirá

Sempre que a Igreja faz algum pedido de ordem material o faz de maneira condicionada, ou seja, quando a realização ou atendimento do pedido feito é conveniente à glória de Deus. Assim sendo, não há nenhuma contradição entre os efeitos produzidos pelo sacramento da unção dos enfermos ministrado nos primórdios da Igreja e o conferido em nossos dias, pois era mais conveniente à glória de Deus que nos primórdios da cristandade as pessoas que recebessem este sacramento fossem curadas e se tornassem uma fonte de apostolado e de conversão para outras pessoas. Hoje isso já não é mais necessário.

Além disso, há outra razão mais simples: algum dia todos morrem, e não será este sacramento que tornará o homem imortal. Por mais que se receba a unção dos enfermos a morte está intimamente vinculada à nossa condição de “peregrinação” nesta “terra de exílio”; o principal objetivo deste sacramento não é de nos conservar nesta “caminhada”, mas de nos conduzir à verdadeira vida, a eterna.

b. Maneira de produzir a sanação

Como já temos dito, este sacramento produz um conforto e alívio da alma de maneira sobrenatural, mas como o homem é um todo indivisível, e por ser a alma a forma do corpo, além deste alívio e conforto da alma, também se produz uma paz e serenidade psicológicas que influenciam enormemente na cura corporal.[7]

Além disso, também se une uma “providência particular de Deus” que ajuda de todas as maneiras o enfermo; seja através de inspirações, ou na eficácia das medicinas aplicadas. Não se exclui a hipótese de que haja uma intervenção direta e sobrenatural de Deus que produza a cura corporal, ainda que não se possa provar cientificamente que foi fruto do sacramento o caráter extraordinário da cura.

c. Sacramento dos que se vão

Por tudo isso que acabamos de expor, a finalidade que tem também este sacramento é de fortalecer a alma com vistas ao último e decisivo combate, que terá como resultado o destino eterno do indivíduo em questão. Tampouco isto é contrário à cura corporal, quando condicionada ao bem espiritual.

A Igreja recomenda vivamente que não se deixe para receber este sacramento nos últimos instantes da vida, pois além de dificultar a cura corporal, pode não atingir a plenitude dos efeitos que atingiria se a pessoa estivesse inteiramente senhora de todas as suas faculdades.[8]

d. Consagração da morte cristã?

Por tudo que ficou dito, e porque a Igreja não encara a morte como o fim de tudo, mas como o começo da verdadeira vida – para os que se salvam –, este sacramento não deve ser motivo de tristeza nem para os que o recebem, nem para os circunstantes, pois que prepara o enfermo para a passagem desta vida terrena para outra, eterna.

“Ó morte, neste encontro eu te venço, por que ainda que tu me arranques a vida terrena, eu te arranco a vida eterna”, é o que podem exclamar todos os que, reconfortados, aliviados e fortalecidos por este sacramento, entregam sua alma a Deus.

e. A fortaleza na dor e na enfermidade

Decorrência do anteriormente exposto, este sacramento dá a quem o recebe, a fortaleza necessária para enfrentar as angústias da morte, da enfermidade e da separação, em união com os sofrimento de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Maria Santíssima. “Assim os cristãos preenchem o que falta da Paixão de Cristo em favor de seu Corpo, a Igreja” (Cf. Col 1,24), “pois se co-padecemos com Cristo, seremos com Cristo co-glorificados” (Cf. Rom 8, 17); “Se com Ele morremos, com Ele viveremos” (2 Tim 2, 11).

José Antônio Dominguez

Referências bibliográficas

NICOLAU, Miguel S. I. La unción de los enfermos. B. A. C., Madrid, 1975.

ROYO, Antonio Marim, O.P. Teologia Moral para Seglares. Los Sacramentos. 7 ed. B.A.C., Madrid, 1996.


[1] Cf. Royo Marin, p. 470, Op. cit.

[2] Cf. Nicolau, p. 140, Op. cit.

[3] Cf. Nicolau, p. 141, Op. cit.

[4] Cf. Nicolau, p. 127, Op. cit.

[5] Cf. Royo Marin, p. 471, Op. cit.

[6] Cf. Dz-Sch 1969 (909)

[7] Cf. Nicolau, p. 135, Op. cit.

[8] Cf. Nicolau, p. 136, Op. cit.

Será que Deus tem mãe?

         Essas assombrosas palavras foram proferidas por Nestório, então Patriarca de Constantinopla, em meados do ano de 425. E não apenas isso, ele ousou dizer, no púlpito da Catedral de sua sede, no Natal de 428 que “chamar à Virgem Mãe de Deus seria justificar a loucura dos pagãos, que dão mães a seus deuses.

         Também recusava-se ele de chamar Deus o menino Jesus, entre outras pérfidas idéias que defendia. E qual o motivo dessas blasfêmias?

         Foi ele o pai de uma heresia que, levada às suas últimas conseqüências pelos seus desvarios. Insistia ele que em Nosso Senhor havia duas naturezas, sim, mas também duas pessoas, e que a natureza divina d’Ele “habitava” na pessoa humana de Cristo, como alguém que habitasse em um templo, ou como um vestido que fosse intimamente unido a uma pessoa, sem que fizesse um com ela.

         Daí tirava ele a conclusão de que a maravilha acontecida na gruta de Belém, onde Maria Santíssima deu à luz O Verbo Eterno, era um simples fato humano, que não tinha participação na divindade. Ela não podia ser chamada Mãe de Deus, mas sim mãe da pessoa humana de Cristo.

         Essa é uma doutrina perigosa, porque com base nela pode-se destruir  a doutrina da Redenção, pois leva a negar que foi Deus quem morreu em resgate pelo gênero humano, e dessa maneira os méritos da Paixão de Nosso Senhor não seriam infinitos.

         E qual foi a solução para esse problema? Deus suscitou, para esmagar essa heresia, São Cirilo de Alexandria, chamado pela Igreja “o teólogo da encarnação. Ele cunhou o feliz termo de união hipostática, para explicar como Deus se uniu à natureza humana no momento da virginal concepção da Santa Virgem. Assim, podemos dizer que o Verbo de Deus tem dois nascimentos: um eterno, quando gerado pelo Pai, e um outro no tempo, sendo concebido pela Virgem.

         Eis algumas de sua palavras:

         “Com efeito, não nasceu antes, da Santa Virgem, um homem qualquer, sobre o qual depois desceria o Verbo, mas se diz que (O Verbo), unido desde o útero materno, assumiu o nascimento carnal… Por isso, (os Santos Padres não duvidaram chamar a Santa Virgem Deípara (Mãe de Deus).” (D 251)

         Graças à intervenção de São Cirilo, essa heresia pôde ser condenada no Concílio de Éfeso, que também é chamado o Concílio de Maria, porque nele se proclamou, com grande júbilo para todo o povo cristão da época, o principal dogma mariano: o da maternidade divina, em vista do qual Maria Santíssima recebeu todos os seus inúmeros privilégios como, por exemplo, o da Imaculada Conceição.

         E os louvores a esse privilégio não cessaram com o Concílio. Os mariólogos não se cansam de explicitar novas doutrinas para honrar Maria enquanto Mãe de Deus.

         Nos dizem eles, por exemplo, que uma vez que Nossa Senhora, como todas as mães, subministrou uma natureza semelhante à sua ao Divino Menino por Ela gerado, pode ser chamada Mãe de Cristo.

         Ora, se Cristo é verdadeiramente Deus, chamá-La Mãe de Cristo é chamá-La Mãe de Deus, porque, assim como uma mãe não gera a alma de seus filhos, mas sim a natureza, Nossa Senhora não é chamada Mãe de Deus porque gerou a natureza divina do Verbo, mas porque gerou, segundo a humanidade, a divina pessoa do Verbo.

         E uma vez que o sujeito da geração e da filiação não é a natureza, mas a pessoa, a divina pessoa do Verbo foi unida à natureza humana, subministrada pela Virgem Santíssima, desde o primeiro instante da concepção. Logo, Maria concebeu realmente e deu à luz segundo a carne à única pessoa que existe em Cristo, a segunda da Santíssima Trindade, portanto, deve ser chamada Mãe de Deus.[1]

         Assim, podemos dizer com exultação, juntamente a Santo Agostinho: Caro Christi, caro Mariae; A carne de Cristo é a carne de Maria.

         Tão excelso é esse dom dado por Deus a Ela, que São Tomás não hesita em afirmar que a dignidade Dela enquanto Mãe de Deus é de certo modo infinita:

         “A humanidade de Cristo, por estar unida a Deus; a bem aventurança dos eleitos, que consiste na fruição de Deus, e a Bem-Aventurada Virgem, por ser a Mãe de Deus, têm certa dignidade infinita em virtude do bem infinito, que é o próprio Deus.

         E um de seus mais colendos comentaristas, o Cardeal Caietano, escreve sem vacilar:

         A Bem-aventurada Virgem Maria chegou aos confins da divindade com sua própria operação, já que concebeu, deu à luz, engendrou e alimentou a Deus com seu próprio leite.[2]

         E esse privilégio da Santíssima Virgem foi convenientíssimo para nós, uma vez que Deus, tomando a natureza humana em uma mulher, ou seja, uma pessoa criada, e unindo-a de modo intimíssimo a Deus, da mesma forma que a natureza humana de Nosso Senhor se acha unida a Deus também do modo mais íntimo possível leva a pessoa humana a ser exaltada, na Virgem Santíssima, ao mais alto grau que se possa imaginar, a ponto de resvalar no infinito.[3]

Alessandro Cavalcante Scherma Schurig


[1] Fr. Antonio Royo Marín, Teologia de la perfección cristiana, B.A.C., Madrid, 1968, p.89. apud Pequeno ofício da Imaculada conceição comentado. Mons. João Clá Dias,  Artpress, São Paulo, Sp, 1997, p.366

[2] Fr Royo Marín, op. cit. p.101-102 apud Pequeno ofício da Imaculada conceição comentado. Mons. João Clá Dias,  Artpress, São Paulo, Sp, 1997, p.373

[3] Pe Roschini apud Pequeno ofício da Imaculada conceição comentado. Mons. João Clá Dias,  Artpress, São Paulo, Sp, 1997, p.371.

Por que chamamos a Igreja de Católica?

Introdução

Costumam dizer que toda comparação claudica. E é verdade. Sem embargo do que, com esta introdução não pretenderemos quebrar tal regra, mas pelo vivo e oportuno que é a comparação, arriscaremo-nos em fazê-la. Contudo, declaramos de antemão que não podemos nem de longe reduzir a Igreja a uma empresa.

Com efeito, no mundo globalizado de hoje, o que diríamos nós de uma empresa que estivesse em todos os continentes da terra? O que pensaríamos ainda se ela tivesse uma sede em praticamente todos os países do orbe terrestre? E ainda, se ela atuasse no mercado internacional a praticamente dois mil anos? Se todos os seus membros partilhassem de um mesmo ideal, numa união intrínseca muito acentuada? Certamente julgaríamos ser esta a maior multinacional do mundo, uma verdadeira superpotência. Entretanto sabe-se que é impossível tal situação de prosperidade para uma empresa. Não obstante, isto que é impossível no campo material e comercial é totalmente viável para a Santa Igreja, que é obra de Deus. De maneira que quase poderíamos aplicar os predicados desta promissora empresa à Igreja. Sim, quase, pois, se não fosse diminuí-La comparando-A a uma multinacional, o didático exemplo seria correntemente empregado. De fato, como constatamos, a Santa Igreja está espalhada por todos os continentes, está instalada em praticamente todos os países, em incontáveis cidades, ela atua a quase dois mil anos, ajudando as almas a rumarem ao Céu; somando tudo isso numa comunhão a um mesmo ideal de serviço ao Evangelho, sob os auspícios do Romano Pontífice. Justamente, quando dizemos que a Igreja é Católica, reconhecemos nela todas estas qualidades.

 

De onde vem que a Santa Igreja seja chamada de “Católica”?

Ensina-nos o catecismo que “a palavra ‘católico’ significa ‘universal’ no sentido de ‘segundo a totalidade’ ou ‘segundo a integridade’.”[1] O termo foi cunhado por Santo Inácio de Antioquia (por volta de 110), numa carta em que escrevia: “Onde está o bispo está também a assembléia dos fiéis, assim como a Igreja Católica está onde se encontra Cristo Jesus[2]”. Encontramos ainda outra fonte antiqüíssima do uso deste predicado aplicado à Igreja, nos atos do martírio de São Policarpo (156), que são destinados “à toda a Igreja Católica expandida por toda a terra”[3]. Como podemos logo perceber, se desde muito cedo, a Igreja fundada por Nosso Senhor, foi logo apelidada de ‘católica’, ou seja de ‘universal’, não o é sem razão. De fato, Nosso Senhor não fez distinção dentre os que deveriam pertencer ao seu rebanho, mas convocou os apóstolos exortando-os: “ide pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19).

Trata-se portanto de uma ordem do próprio Senhor Jesus que mandou que Sua Igreja fosse universal, que Ela se estendesse à todas as criaturas, e se Ela é católica, “é porque é enviada em missão por Cristo à universalidade do gênero humano”[4]. Ela é católica porque Nosso Senhor sofreu sua amarga Paixão pelos pecados do universo inteiro, indistintamente, para que a redenção resgatasse o mundo inteiro, como nos explica São João (1Jo 2,2) “Ele é a expiação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo”. E ainda, temos que o Evangelho é direcionado à toda criação, como nos ensina São Marcos “E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (16,15). Vemos nesta exortação de Cristo a natureza imperativamente evangelizadora da Igreja, que explica seu afã de catequizar a todos em todo lugar.

Todos são chamados a pertencer à Igreja

Como vimos, todos são chamados a serem evangelizados, ou seja, a pertencerem ao Povo de Deus que é a Igreja[5], como nos diz a Constituição Dogmática, Lumen Gentium: “Ao novo Povo de Deus todos os homens são chamados. Por isso, este Povo, permanecendo uno e único, deve estender-se a todo o mundo e por todos os séculos, para se cumprir o desígnio da vontade de Deus que, no princípio, criou uma só natureza humana e resolveu juntar em unidade todos os seus filhos que estavam dispersos”[6].

O que tão belamente definiu a Lumen Gentium é o que sempre procurou fazer a Santa Igreja em todas as épocas, e em todas as situações: procurar uma unidade de todos os homens e para todos os séculos, através da evangelização. Com efeito, a Santa Igreja, veio responder ao anelo de cada ser humano, de buscar A Verdade: Deus. Muito nos esclarece Sertillanges, explicando sobre a Igreja: “Nosso organismo religioso tem a virtude necessária para satisfazer às necessidades religiosas de todos os povos, de todas as raças, de todos os graus de civilização: pode responder a todos os estados de vida, a todas as disposições legítimas dos espíritos, dos corações, dos indivíduos e dos grupos”[7].

De fato vemos que esta magnífica obra de Cristo se expandiu por todo orbe da terra levando a Boa Nova de Cristo, sem distinção de povos ou raças, respeitando em cada um sua particularidade, trazendo a todos sua mensagem de salvação e humanidade. Foi o que Ela fez, logo em seu início, assimilando a religiosidade israelita, o pensamento grego, ou a organização romana. Até mesmo no emaranhado campo dos sistemas filosóficos soube a Santa Igreja fazer uma seleção, separando o que era verdadeiro, o que era bom, o que era belo, constituindo sua grande unidade. Temos, por exemplo, dois dos maiores doutores da Igreja, que são constantemente aconselhados como modelo de santidade e de intelectualidade: Santo Agostinho platônico convencido, e São Tomás de Aquino, aristotélico militante.

Mesmo na esfera temporal soube a Igreja conciliar em bom termo suas relações com as mais diversas formas de governos, com os mais diversos países, com as mentalidades mais divergentes.

Soube Ela ainda acolher à sua mesa tanto os ricos quanto os pobres, basta lermos as vidas dos santos. Encontramos grandes da terra como: São Luis Rei de França, Santa Isabel da Hungria; ou então, pequenos aos olhos do mundo, como: São Martinho de Porres ou Santa Bernadette Soubirous. A Igreja não procura favorecer em sua doutrina nem os ricos e nem os pobres, mas faz tudo para todos.

Mesmo nas diferenças fundamentais de sexo entre homens e mulheres, sempre, em todos os tempos, todos foram constantemente acolhidos no seio de tão boa Mãe. Até mesmo nos ensina a teologia a insuperável excelência de uma mulher sobre qualquer outra criatura: A Santíssima Virgem Maria que “foi enriquecida com a excelsa missão e dignidade de Mãe de Deus Filho; é, por isso, filha predilecta do Pai e templo do Espírito Santo, e, por este insigne dom da graça, leva vantagem à todas as demais criaturas do céu e da terra”[8].

Enfim, a noção de universalidade do anúncio sempre foi uma constante na doutrina da Igreja. Mesmo em seu início mais remoto, já tinha a Igreja em vista todas estas condições que acabamos de mencionar, como nos legou São Paulo: “Todos vós que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo. Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus[9]” ou ainda: “Vós vos despistes do homem velho com os seus vícios, e vos revestistes do novo, que se vai restaurando constantemente à imagem daquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento. Aí não haverá mais grego nem judeu, nem bárbaro nem cita, nem escravo nem livre, mas somente Cristo, que será tudo em todos”[10].

 

A Igreja e os não batizados

            Cumpre ressaltarmos que é pelo batismo que nos tornamos membros de Cristo e que somos incorporados à Igreja[11], porém pode acontecer que alguns batizados sejam praticantes somente exteriormente, mas aos quais falta a fé e a caridade, estes são membros paralisados do Corpo Místico de Cristo. Santo Agostinho já advertia: “todos os que não amam a Deus são estrangeiros para Ele; eles podem entrar nas basílicas, porém não se pode contá-los entre os filhos de Deus… Possuir o batismo, o mau também o pode; ter o dom da profecia e todos os sacramentos, o pode igualmente o mau… Mas não se pode ter a caridade e continuar mau.”[12] Paradoxalmente, para que uma pessoa obtenha a salvação eterna, não é sempre necessário que ela seja de fato incorporada à Igreja à título de membro, mas é preciso que ela esteja unida à Igreja pelo menos por desejo. Entretanto, não é sempre imperioso que este desejo seja explicito como nos catecúmenos. Quando alguém se encontra numa ignorância invencível, Deus aceita um desejo implícito, que assim é chamado, pois se encontra na boa disposição de alma pela qual se deseja conformar sua própria vontade à de Deus[13]. Todavia, vale recordar o que nos ensina a Constituição Lumen Gentium: “Não se salva, porém, embora incorporado à Igreja, quem não persevera na caridade: permanecendo na Igreja pelo «corpo», não está nela com o coração[14]”.

A Igreja, este “grãozinho de mostarda”

            Para concluirmos, proponho que nos reportemos à parábola de Nosso Senhor onde Ele nos ensina que o Reino dos Céus é como um grão de mostarda “que um homem toma e semeia em seu campo. É esta a menor de todas as sementes, mas, quando cresce, torna-se um arbusto maior que todas as hortaliças, de sorte que os pássaros vêm aninhar-se em seus ramos” (Mt 13,31-32). O mesmo poderíamos dizer da Santa Igreja. Ao brotar do costado de Cristo, no alto da Cruz, era ela, aos olhos dos homens, a menor de todas, era a menor das sementes. Porém, mesmo sendo tão pequena, no Cenáculo, no dia de Pentecostes, se podia dizer que ela já era católica[15], que já era universal, por mais que suas fronteiras fossem apenas os sagrados muros daquele edifício. Contudo, fortalecida pelo Espírito-Santo, tornou-se ela o maior de todos os arbustos, espalhando-se por todo mundo, tornando-se realmente universal, e realizando, deste modo, o plano salvífico de Deus para que todos os homens “sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste[16]”.

Pe. Michel Six, EP


[1] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 11ª ed. São Paulo: Loyola, 2001. Nº 830.

[2] Cf. Ad Esmirn. 8,2.

[3] Cf. Mart. Polic. 16,2.

[4] Cf. CIC, Nº 831.

[5] Cf. CIC N º 836.

[6] Constituição Dogmática Lumen Gentium N. 13. AAS 57 (1965) 17.

[7] SETILLANGES, A. D., O.P. La Iglesia – Vol. I. Buenos Aires: Editorial Difusión, 1946. P. 105.

[8] Constituição Dogmática Lumen Gentium 53. N. 13. AAS 57 (1965) 58.

[9] Gal. 3,27-28.

[10] Col. 3,9-11.

[11]  Cf. CIC. Nº 1213.

[12] Epistola, 70, P. L. 35, 2032.

[13]  Documenta Catholica, 2 nov. 1952, 1396-1397

[14] Constituição Dogmática Lumen Gentium 14. N. 13. AAS 57 (1965) 18.

[15] Cf. CIC 830.

[16] Jo 17,21.

O MODO DE COMUNGAR: QUAL É O CORRETO?

Introdução

Este tema, aparentemente simples, foi objeto de grandes controvérsias ao longo da história da Igreja, e sofreu diversas alterações em seu transcurso. Ele engloba os seguintes aspectos: 1. A comunhão na mão ou na boca; 2. A comunhão sob as duas espécies; 3. A comunhão fora da Missa; 4. A frequência da comunhão. Trataremos de cada um deles.

Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu o sacrifício sacramental de seu Corpo e de seu Sangue na forma e sob os sinais de comida e bebida, quando pronunciou as palavras “tomai e comei” e “tomai e bebei”. Inclusive o mandato aos apóstolos “fazei isto em memória de Mim” não se referia apenas a que eles reatualizassem o sacrifício, mas também que participassem do mesmo.

De fato, a Igreja sempre entendeu que a comunhão era parte integrante do Sacrifício, segundo podemos comprovar com testemunhos muito antigos, tal como a primeira carta de São Paulo aos coríntios e boa parte da Tradição Apostólica, além da prática multissecular, nunca interrompida, de exigir a comunhão, ao menos do ministro, na celebração da Missa.

Entretanto, surgiram diversas dificuldades, como acima mencionamos, e que a Igreja teve que resolver. Talvez a mais antiga seja a questão da comunhão na boca ou na mão.

1. Comunhão na mão ou na boca?

As monumentais fontes literárias dos nove primeiros séculos atestam unanimemente a práxis de receber a comunhão na mão como norma geral.

Desde os séculos IX ao XII deixa de ser a prática habitual e no século XIII quase desapareceu completamente.

Parece que as causas mais importantes da mudança são: a preocupação em defender a Eucaristia de erros supersticiosos, portanto evitar que as pessoas levassem a Sagrada Hóstia consigo; a defesa do significado transcendente da Eucaristia contra as ideias confusas dos povos bárbaros que se converteram em massa, e aumentar assim o respeito pelas Sagradas Espécies; e a crescente reverência para com a Eucaristia, para que só mãos consagradas as tocassem.

Este novo costume esteve vigente até depois do Vaticano II. Por causa de ilegalidades nesta matéria, algumas conferências episcopais solicitaram de Roma um critério orientador. Então, a Congregação para o Culto Divino promulgou a instrução Memoriale Domini[1], sobre o modo de administrar a comunhão, estabelecendo que a comunhão na boca permanecia como norma geral vigente. Sem embargo, se permitia que as Conferências Episcopais solicitassem de Roma autorização para dar a comunhão na mão.

2. Comunhão sob as duas espécies

Outro problema que surgiu na Idade Média foi a questão da comunhão sob as duas espécies, que foi a forma ordinária no Ocidente até o século XII e se conserva até hoje invariável no Oriente. Seria, sem embargo, errôneo pensar que durante estes primeiros séculos existisse a proibição de comungar somente sob uma espécie, ou que nunca se praticou isto, pois sabemos que os enfermos recebiam a comunhão apenas sob a espécie do pão e as crianças recém nascidas somente sob a espécie do vinho.

A mudança que houve, no Ocidente, deste costume, deve-se a uma maior veneração à Sagrada Eucaristia, para evitar que se derramasse o Preciosíssimo Sangue, além de motivações de ordem higiênicas.

Posteriormente surgiram motivos de caráter dogmático, já que o concílio de Trento teve que reafirmar, contra os protestantes, que a comunhão sob as duas espécies não era de direito divino, e que quem comungasse de qualquer das duas espécies recebia o Cristo total. Para salvaguardar a fé do povo cristão, proibiu-se dar a comunhão aos leigos sob a espécie do vinho[2], para deixar patente que Nosso Senhor Jesus Cristo estava totalmente presente no menor dos fragmentos da Sagrada Hóstia.

O concílio Vaticano II restaurou esta práxis dos primeiros séculos “nos casos que a Sé Apostólica determine (…), por exemplo aos ordenandos na Missa de sua ordenação, aos professos, na Missa de sua profissão; aos neófitos, na Missa que segue seu batismo” (SC, 55).

Depois do Concílio, vários documentos pontifícios se ocuparam desta questão. Os mais importantes são: Ritus communionis sub utraque specie[3], as instruções Eucharisticum Mysterium[4] e OGMR[5].

3. Comunhão fora da Missa

A celebração da Eucaristia é o centro de toda a vida cristã, tanto para a Igreja universal como para as comunidades locais da mesma Igreja. É o que nos afirma o Concílio Vaticano II nestas belas palavras: “os outros sacramentos, como todos os ministérios eclesiásticos e as obras de apostolado, estão ligados à Santíssima Eucaristia e a ela se ordenam. Efetivamente, na Santíssima Eucaristia está contido todo o bem espiritual da Igreja, que é o próprio Cristo, nossa Páscoa e pão vivo, que, pela sua carne vivificada e vivificadora sob a ação do Espírito Santo, dá a vida aos homens, os quais são assim convidados e levados a oferecerem-se juntamente com Ele, a si mesmos, os seus trabalhos e toda a criação”.[6]

Além disso, “a celebração da Eucaristia no sacrifício da Missa é verdadeiramente a origem e o fim do culto que à mesma Eucaristia se presta fora da Missa”.[7]

Para orientar e alimentar corretamente a piedade para com o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, deve considerar-se o mistério eucarístico em toda a sua plenitude, tanto na celebração da Missa como no culto das Sagradas Espécies, que se conservam depois da Missa para prolongar a graça do sacrifício.[8] Para isso, precisamos entender qual a finalidade da reserva eucarística.

3.1. Finalidade da reserva eucarística

O fim primário e primitivo da reserva eucarística fora da Missa é a administração do Viático; os fins secundários são a distribuição da comunhão e a adoração de Nosso Senhor Jesus Cristo presente no Santíssimo Sacramento.

A conservação das Sagradas Espécies para os enfermos deu origem ao louvável costume de adorar este Alimento do Céu que se guarda nos nossos templos. E este culto de adoração funda-se numa razão válida e segura, sobretudo porque a fé na presença real do Senhor leva naturalmente à manifestação externa e pública dessa mesma fé.[9]

Com efeito, no Sacramento da Eucaristia está presente, de maneira absolutamente singular, Cristo todo inteiro, Deus e homem, substancialmente e sem interrupção. Esta presença de Cristo debaixo das espécies “chama-se real por excelência, não por exclusão, como se as outras não fossem também reais”.[10]

3.2. Relação entre a comunhão fora da Missa e o Sacrifício

A participação mais perfeita na celebração eucarística é a comunhão sacramental recebida dentro da Missa. Isto aparece mais claramente quando os fiéis recebem o Corpo do Senhor no próprio sacrifício, depois da comunhão do sacerdote.[11] Por isso, em qualquer celebração eucarística deve consagrar-se, de ordinário, pão recente para a comunhão dos fiéis, e deve-se levar os fiéis a comungar na própria celebração eucarística.

Contudo, “os sacerdotes não se recusem a dar a sagrada comunhão, mesmo fora da Missa, aos fiéis que a pedirem por justa causa.”[12] Pelo contrário, até convém que os fiéis que não podem estar presentes na celebração eucarística, se alimentem frequentemente da Eucaristia, e assim se sintam unidos ao sacrifício do Senhor.

E também é conveniente que os sacerdotes com cura de almas procurem facilitar a comunhão frequente dos enfermos como vemos nestas palavras do Magistério: “procurem os pastores de almas que se facilite a comunhão aos enfermos e às pessoas de idade avançada, embora não estejam gravemente doentes, nem seja iminente o perigo de morte; e isto não só com frequência, mas até, na medida do possível, todos os dias, particularmente no tempo pascal. Àqueles que a não possam receber sob a espécie do pão, é permitido administrá-la unicamente sob a espécie do vinho.[13]

Deve-se por todo o cuidado em ensinar aos fiéis que, mesmo quando recebem a comunhão fora da Missa, se unem intimamente ao sacrifício no qual se perpetua o Sacrifício da Cruz, e que se tornam participantes daquele Banquete Sagrado em que, “pela comunhão do Corpo e do Sangue do Senhor, o povo de Deus participa nos bens do Sacrifício Pascal, atualiza a Nova Aliança feita uma vez para sempre por Deus com os homens no Sangue de Cristo, prefigura e antecipa na fé e na esperança o banquete escatológico no Reino do Pai, anunciando a morte do Senhor até que Ele venha”.[14]

3.3. Disposições para receber a Sagrada Comunhão

A Eucaristia é a fonte de toda a graça e da remissão dos pecados. Contudo, os que tencionam receber o Corpo do Senhor, para alcançarem os frutos do sacramento, devem aproximar-se dele de consciência pura e com as devidas disposições de espírito.

Por isso, a Igreja preceitua “que ninguém consciente de pecado mortal, por mais que se julgue arrependido, se deve aproximar da Santíssima Eucaristia sem antes ter feito a confissão sacramental”.[15] Se houver, entretanto, razão grave – tal como produzir escândalo caso não comungue – e faltar a oportunidade de se confessar, deve-se fazer antes um ato de contrição perfeita, com propósito de, em tempo devido, confessar todos os pecados mortais que no presente não pode confessar. Quanto àqueles que costumam comungar diariamente ou com certa frequência, convém que se confessem regularmente, segundo a condição de cada um. Os fiéis devem, entretanto, considerar a Eucaristia como antídoto para se libertarem das culpas quotidianas e evitarem pecar mortalmente. E devem saber também utilizar convenientemente os atos penitenciais da liturgia, sobretudo da Missa.[16]

4. Frequência da comunhão

Outra grande dificuldade que a Igreja enfrentou, talvez até a maior de todas, foi a questão da frequência da comunhão. A comunhão é um complemento indispensável da Eucaristia. Por isso, o auge da participação dos fiéis tem lugar quando eles comungam o Corpo e o Sangue de Cristo (Cf. SC, 55). Por isso também, a Igreja insiste em que os fiéis comunguem sempre que participem da Missa, tal como o faziam os primeiros cristãos.

O rompimento deste costume de comungar sempre que se participava da Santa Celebração se inicia no século IV, e a partir de então os fiéis se contentam apenas em assistir a Missa e comungar poucas vezes ao ano, e até mesmo uma só vez ao ano. O quarto concílio de Latrão (1215), para evitar um distanciamento ainda maior, prescreveu a comunhão pascal como obrigatória.

Em tempos mais recentes tiveram grande importância neste assunto os papas São Pio X, que facilitou a comunhão das crianças[17], e Pio XII que, sobretudo com a mitigação do jejum, favoreceu a comunhão inclusive diária de muitos fiéis. [18]

O concílio Vaticano II “recomenda encarecidamente” a comunhão frequente. Paulo VI concedeu inclusive que, em determinadas ocasiões, os fiéis pudessem comungar duas vezes no mesmo dia. E o Código atual universalizou esta práxis, permitindo comungar duas vezes no mesmo dia, desde que seja dentro da celebração eucarística (c. 917).


[1] AAS 61 (1969) 541-545.

[2] SES. XXI, ce. 1 e 2.

[3] ASS 1965, pp. 51-57.

[4] 25.V.1967, n. 32: AAS 59 (1967) 558.

[5] 16.IV.69, nn. 240-242.

[6] Conc. vat. II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 5.

[7] S. Congr. dos Ritos, Instr. Eucharisticum mysterium, n. 3e: AAS, 59 (1967), p. 542.

[8] Cf. S. Congr. dos Ritos, Instr. Eucharisticum mysterium, n. 3g: AAS 59 (1967), p. 543.

[9] Cf. S. Congr. dos Ritos, Instr. Eucharisticum mysterium, n. 49: AAS 59 (1967), pp. 566-567.

[10] Paulo VI, Encicl. Mysterium fidei: AAS 57 (l965), p. 764; cf. S. Congr. dos Ritos, Inst. Eucharisticum mysterium, n. 9: AAS 59 (1967), p. 547.

[11] Cf. Conc. vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 55.

[12] Cf. S. Congr. dos Ritos, Instr. Eucharisticum mysterium, n. 33a: AAS 59 (1967), pp. 559-560.

[13] S. Congr. dos Ritos, Instr. Eucharisticum mysterium, n. 40-41: AAS 59 (1967), pp. 562-563.

[14] S. Congr. dos Ritos, Instr. Eucharisticum mysterium, n. 3a: AAS 59 (1967), pp. 541542.

[15] Cf. Conc. Trid., sessão XIII, Decr. de Eucharistia, 7: DS 1646-1647; ibid., sessão XIV, Canones de sacramento Paenitentiae, 9: DS 1709; S. Congr. da Doutrina da Fé, Normae pastorales circa absolutionem sacramentalem generali modo impertiendam, de 16 de Junho de 1972, proemio, e n. VI: AAS 64 (1972), pp. 510 e 512.

[16] Cf. S. Congr. dos Ritos, Instr. Eucharisticum mysterium, n. 35: AAS 59 (1967), p. 561.

[17] Decreto Quam singulari, AAS 2 (1910) 582.

[18] A constituição apostólica Christus Dominus (AAS 45 (1953) 15-24), de 5.1.1953, limitava a três horas o jejum quando se tratava de alimentos sólidos e bebidas alcoólicas, e a uma hora as bebidas não alcoólicas. Paulo VI determinou que o cômpito do tempo fosse o mesmo para os fiéis e para os sacerdotes, ou seja, o momento da comunhão e não o de começar a Santa Missa. (cfr. SCSO, Decretum De ieiunio eucharistica, AAS 56 (1964) 212). O mesmo Paulo VI, na V sessão pública do concílio Vaticano II (21.XI.64) reduziu o jejum para uma hora, tanto para os alimentos sólidos como para as bebidas alcoólicas, tomadas com moderação: cfr. AAS 57 (1965) 186.

Cristo: Deus ou homem?

1. Um misterioso personagem

Nascido na Síria de pais persas, quando menino foi para Antioquia, onde provavelmente teve por professor Teodoro de Mopsuéstia (um dos pioneiros da doutrina errônea da dupla personalidade de Cristo). Mais tarde sentiu vocação para a vida religiosa e entrou no convento de Euprepios, próximo de Antioquia. Dada a sua notável eloquência, chamaram-no de “segundo Crisóstomo”, e Teodósio II o enviou para a sede patriarcal de Constantinopla. Eleito patriarca de Constantinopla no ano de 428, redobrou desde então seu zelo na instrução do povo e na luta contra as diversas heresias. Apresentava-se sempre como homem religioso, reformador do povo e do clero. Com sua vida ascética e com o fogo de suas palavras encantava aos que lhe escutavam. Apesar de sentir-se seguro da ortodoxia e clareza de sua doutrina, encontrou dificuldades na Nova Roma por causa das suas expressões cristológicas, que estranhavam alguns ouvidos habituados a outras formas de pensamento. Seu nome era Nestório.

Certo dia, um sacerdote da sua confiança, chamado Anastásio negou publicamente, contra o beneplácito geral das pessoas, que Nossa Senhora era Mãe de Deus (Theotókos). Qual não foi a surpresa do povo ao verem que o arcebispo Nestório também defendia e começava a pregar esta doutrina. Afirmava que Maria é mãe da natureza humana de Cristo e por isso deve ser chamada Mãe de Cristo (Christotókos). Porém de nenhum modo pode uma mulher engendrar a Deus, portanto não é Mãe de Deus. Ela deu à luz o homem no qual habitou o Verbo, o Filho de Deus.

Formaram-se assim duas correntes: a que defendia a maternidade divina e a que a negava. Atentemo-nos ao seguinte fato:

“Numa ocasião em que Proclo, candidato sem êxito para a sede de Constantinopla, exaltava a Theotókos num sermão na presença do arcebispo de Constantinopla, tomando este em seguida a palavra, sentiu-se no dever de reprimir sua importuna distinção. Eis aqui quando se originam as duas facções.” (GER vol. XVI, p. 758. Madrid, 1973. Tradução minha) [1]

2. A doutrina herética

Inicia-se desta forma uma verdadeira guerra. Nestório promove uma reunião com os seus e condena aos defensores da Mãe de Deus. A resposta destes, não tarda, pois certo dia apareceu nas portas da Igreja de Santa Sofia um cartaz no qual estavam colocadas as afirmações do Patriarca herege condenando quem dissesse que: um é o do Pai gerado antes de todos os séculos, e outro é o que nasceu da Virgem Maria.

Esta nova doutrina apresentava uma série de consequências desastrosas para a Igreja, pois, segundo ela, a humanidade de Cristo, que foi a que sofreu as dores da paixão, não pôde redimir o mundo com uma redenção superabundante e infinita, porque era limitada, finita. A redenção ficava com isto destruída. E a religião católica perdia seu significado.

Desta forma, não se podia dizer Verbum caro factum est (o Verbo se fez carne), e muito menos aplicar-lhe certas expressões do Evangelho que aludem à sua divindade; pois por muito que se queira ponderar a união das supostas duas pessoas, divina e humana, em Cristo, não se conseguirá que as ações da pessoa humana se atribuam com propriedade à pessoa divina. Erro nefasto!

O primeiro a reagir com energia contra a campanha nestoriana foi Eusébio, sacerdote, e futuramente bispo, de Doriléia. Em seguida o seu amigo Proclo uniu-se a ele. Ambos tiveram eminente papel na defesa da ortodoxia, sobretudo no âmbito cristológico.

Nestório, porém, não demora em dar uma resposta à ofensiva Alexandrina. Acusou os religiosos que se opunham a suas idéias, de promoverem a desordem pública, e valendo-se de sua autoridade e influência conquistou o poder público, fazendo prender e maltratar os tais religiosos, já que não podia refutar seus argumentos. Inconformado com a situação Nestório teve a petulância de informar o Papa São Celestino I, o qual demorou em responder-lhe.

3. Intervenção de São Cirilo de Alexandria

Neste ínterim, a notícia da nova heresia chegou aos ouvidos de São Cirilo de Alexandria que tomou a decisão de combatê-la tenazmente. Escreveu aos religiosos explanando a doutrina verdadeira da Igreja sobre a Encarnação e a Theotókos (maternidade divina), sem fazer nenhuma menção a Nestório. No fim do ano 429, São Cirilo escreve por primeira vez a Nestório advertindo-o dos rumores que corriam na região acerca de suas doutrinas, e lhe pede explicações. Este contestou abertamente convidando o santo à moderação cristã. No início de 430, São Cirilo escreve sua famosa segunda carta a Nestório expondo a doutrina católica sobre a Encarnação. Destacamos aqui um trecho:

“Não dizemos, de fato, que a natureza do Verbo foi transformada e se fez carne, mas também não que foi transformada em um homem completo, composto de alma e corpo; antes, porém, que o Verbo uniu segundo a hipóstase a si mesmo uma carne animada por uma alma racional e veio a ser homem, de modo inefável e incompreensível, e foi chamado filho do homem, não só segundo a vontade ou o beneplácito, nem tampouco como assumindo somente a pessoa; e que <são> diversas as naturezas que se unem numa verdadeira unidade, mas só um Cristo e Filho <que resulta> de ambas; não porque a diferença das naturezas tivesse sido cancelada pela união, ao contrário, porque a divindade e a humanidade, mediante seu inefável e arcano encontro na unidade, formaram para nós um só Senhor e Cristo e Filho…” (D 250).

Além de explanar a doutrina da Encarnação não deixou de esclarecer a da Theotókos insistindo assim, em fazer o Patriarca de Constantinopla reconhecer a insuficiência de suas idéias e retornar ao caminho da sã doutrina. Eis o trecho que sustenta a doutrina da maternidade divina da Virgem Maria:

“Com efeito, não nasceu antes, da Santa Virgem, um homem qualquer, sobre o qual depois desceria o Verbo, mas se diz que <este>, unido desde o útero materno, assumiu o nascimento carnal, apropriando-se o nascimento de sua própria carne. (…) Por isso, [os santos Padres] não duvidaram chamar a santa Virgem de Deípara [que deu à luz Deus], não no sentido de que a natureza do Verbo ou sua divindade tenha tido origem da santa Virgem, mas no sentido de que, por ter sido dela o santo corpo dotado de alma racional ao qual estava unido segundo a hipóstase, o Verbo se diz nascido segundo a carne.” (D 251)

Nestório escreve também a São Cirilo uma carta, que se tornará famosa porque será lida e condenada publicamente no concílio de Éfeso. Nela afirma novamente que não se pode chamar Maria Mãe de Deus, mas apenas Mãe de Cristo:

“A divina Escritura, sempre que lembra a economia da senhorial salvação, atribui o nascimento e a paixão não à divindade mas à humanidade de Cristo, de modo que, em termos mais corretos, a santa Virgem é chamada Cristípara e não Deípara.” (D 251d)

Novamente insiste na distinção de duas naturezas em Cristo e acusa São Cirilo de apolinarista, fundamentando suas palavras numa má interpretação da tradição evangélica:

“É certo e conforme à tradição Evangélica confessar que o corpo é o templo da divindade do Filho, templo no sentido de uma e divina conjunção dos <elementos> unidos, de modo que a divina natureza se apropria aquilo que pertence a este <templo>. Mas quando ao termo apropriação se associam as propriedades da carne adjunta, quero dizer, o nascimento, a paixão e a morte, isso aí, ó irmão, é coisa de um pensamento errôneo, à moda dos gregos <=pagãos>, ou afetado pelo desvario de Apolinário, de Ario e de outras heresias…” (D 251e)

4. Sansão à heresia

Ao perceber que seus esforços eram nulos, São Cirilo escreve cartas a fim de conquistar partidários contra Nestório. Preocupa-se em fazer um dossiê com um florilégio de textos patrísticos. Finalmente apelou a Roma escrevendo ao Papa São Celestino I contando tudo que havia sucedido. Com a carta mandou textos das pregações de Nestório, uma síntese dos seus erros, os textos patrísticos que ele, São Cirilo, havia elaborado e a cópia de suas cartas ao herege.

Com isto o Sumo Pontífice ficou suficientemente informado sobre a situação da Igreja do Oriente, e logo tomou sérias medidas para frear os erros de Nestório. Em agosto de 430 convocou um sínodo em Roma para condenar a doutrina nestoriana. Enviou cartas aos principais bispos do Oriente, ao clero e ao povo de Constantinopla. Também Nestório recebeu uma carta na qual o Papa apoiava a cristologia ciriliana e dizia que se, em dez dias, ele não se retratasse por escrito de todos os seus erros e se unisse a Alexandria, seria excomungado.

São Cirilo foi nomeado como encarregado de levar a cabo a sentença contra Nestório em nome da Santa Sé. Convocou em novembro deste mesmo ano um sínodo em Alexandria, no qual renova a condenação de Nestório e escreve uma terceira carta expondo novamente os verdadeiros princípios sobre a Encarnação e enumera doze anátemas contra a doutrina nestoriana.

Enquanto isso, Nestório tentou conseguir apoio do Imperador. Este decidiu convocar um concílio. Teodósio II comunicou aos bispos do Oriente e ao Papa seu plano de celebrar um concílio ecumênico em Éfeso que foi o terceiro da cristandade. Neste concílio a doutrina nestoriana foi definitivamente condenada, e a salvaguardada a doutrina da unidade de Pessoa em Nosso Senhor Jesus Cristo, e como consequência a maternidade divina da Virgem Maria.

Por Luiz Carlos da Silva

BIBLIOGRAFIA

CAROL, Juniper B., O. F. M.. Mariologia. Trad. Maria Angeles G. Careaga. Madrid: B. A. C., 1964.

DENZINGER, Heinhich. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. Trad. José Mario Luz e Johan Konings. São Paulo: Paulinas, Loyola, 2007.

ENCICLOPEDIA MARIANA “THEOTÓKOS”. Trad. Dom Francisco Aparicio. Madrid: Studium, 1960.

GRAN ENCICLOPEDIA RIALP. Tomo VII e XVI. Madrid: Rialp, 1972.

LLORCA, Bernardino, S. I.. Historia de la Iglesia Católica. Vol. I, Edad Antigua. 8a edição. Madrid: B. A. C., 2001.

PIO XI. Lettera Enciclica Lux Veritatis. 25 de dezembro de 1931. Disponível em <www.vatican.va> acessado em 15 de maio de 2009.


[1] En una ocasión en que Proclo, candidato sin exito para la sede de Contantinopla, exaltaba la Theotókos en un sermón pronunciado en presencia del arzobispo de Constantinopla, tomando éste seguidamente la palabra se sentió en el deber de recalcar su inoportuna distinción. Es aquí cuando se originan las dos facciones.