Príncipes do universo: onde foram criados?

Cristo Ressurrecto cercado pelos Santos Anjos
Cristo Ressurrecto cercado pelos Santos Anjos

Aos Anjos Deus quis confiar o governo da natureza corpórea. Uns governam diretamente a matéria, outros comandam os Anjos que a governam, de acordo com aquilo que eles contemplam em Deus.

Esse princípio serve-nos de base para compreendermos o lugar onde eles foram criados. “Os Anjos, devendo governar toda a natureza corpórea, foram criados no corpo supremo (Céu), seja este denominado de Empíreo ou de outra forma. Chama-se aqui Céu não ao firmamento visível, mas ao empíreo […], assim dito não pelo ardor,[1] mas pelo esplendor, o qual logo que foi criado se encheu de Anjos”.[2]

Existe uma razão muito bela que se pode apresentar para defender essa tese: “os Anjos foram criados num lugar corpóreo para mostrar a relação que têm com a natureza corpórea, e que pela sua virtude, têm contato com os corpos”.[3] Ou seja, os Anjos foram criados no Céu Empíreo, local material, a fim de mostrar sua superioridade sobre a matéria.

 

Uma semente preciosa na natureza angélica

Por sua infinita misericórdia, Deus criou as criaturas racionais, Anjos e homens, para serem partícipes da natureza divina, através da Graça.[4] Contudo, contemplando este universo tão misterioso para nós, surge um problema: os Anjos foram criados já em Graça, ou seja, desde o primeiro momento de sua existência? Ou eles a receberam depois?

“São Tomás, seguido nesta opinião por Escoto e Suarez, admite que todos os Anjos foram elevados ao estado de Graça antes do momento de sua prova, pois sem a Graça Habitual eles não poderiam merecer a bem-aventurança sobrenatural (a visão beatífica que tiveram depois da prova) Esses três doutores concordam ainda em dizer que o mais provável é que todos os Anjos tenham recebido a Graça Habitual no instante mesmo de sua criação, como diz Santo Agostinho.[5] Então, os principais mistérios sobrenaturais foram-lhes revelados na obscuridade da fé e não na visão clarividente. Enfim, os três doutores concordam também em dizer que após a prova os Anjos bons foram definitivamente confirmados em Graça e obtiveram a visão beatífica (a Graça transformou-se em Glória), enquanto os maus se obstinaram no mal”.[6]

Mesmo para nós, que vivemos numa sociedade modernizada e industrializada, distantes no tempo e no espaço da vida campestre, não é surpresa saber que os vegetais contêm sementes, seu princípio de reprodução.

O que acontece às sementes, se lhes são propiciadas as condições adequadas? Frutificam! Ora, ensina a Teologia que a Graça é semente de Glória. Ou seja, a Graça é um princípio de vida que desabrochará, na eternidade, na Visão Beatífica. “A Graça, está para a beatitude (Visão Beatífica) como a razão seminal (semente) está para o efeito natural; por onde, na Escritura, a Graça é chamada de semente de Deus”.[7]

Assim, se os Anjos obtiveram a Visão Beatífica depois de passarem pela prova, e frutificaram na frondosa árvore da beatitude, foi porque desde o primeiro instante de sua criação tinham já a semente, ou seja, a Graça.

 

A imensidão do exército divino

O Apóstolo virgem, São João, quando foi arrebatado em visão, na ilha de Patmos, narrou o que viu nos céus: “Na minha visão ouvi também, ao redor do trono, dos Animais e dos Anciãos, a voz de muitos Anjos, em número de miríades de miríades e de milhares de milhares, bradando em alta voz: Digno é o Cordeiro imolado de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a glória, a honra e o louvor” (Ap 5, 11-12). E de modo semelhante, o virginal Daniel, o homem fiel a Deus no meio do mundo pagão de Nínive, pôde ver o ambiente da corte celestial em torno do trono de Deus: “Milhares e milhares O serviam, dezenas de milhares O assistiam!” (Dan 7, 10).

Essas frases da Escritura Sagrada revelam-nos que devemos acreditar com viva fé que os Anjos existem em número incalculável, excedendo de muito toda e qualquer ideia que tenhamos de multidão material. Dionísio Areopagita afirma que os “exércitos das inteligências superiores, ultrapassam toda a capacidade de medir ‘fraca e limitada’ das coisas materiais”.[8]

Todos conhecemos a parábola do Divino Mestre sobre a ovelha perdida: um pastor fiel e dedicado, imagem do Divino Pastor, que ao perder uma ovelha, deixa as outras noventa e nove pastando, e vai atrás da que se extraviou. Linda imagem do amor que Nosso Senhor Jesus Cristo devota a cada um de nós. Entretanto, não conterá ela algum outro significado?

“Os exegetas e doutores da Igreja interpretam com um simbolismo todo especial aquela passagem evangélica, quando Nosso Senhor diz: ‘Há mais alegria no Céu por um pecador que se converte do que noventa e nove justos que perseveram’ (Mt 15, 7). Noventa e nove por cento representam o mundo angélico que perseverou, e a humanidade está representada por ‘um’. Ou seja, a proporção entre a humanidade e os Anjos que perseveraram, é de ‘um’ para ‘noventa e nove’. Imaginem a quantidade de Anjos que existe… é incalculável!”[9]

A razão teológica é simples. No Pão de Açúcar, por exemplo, privilégio de nossa terra brasileira, pode-se perceber facilmente o imenso volume das rochas, símbolo da grandeza da bondade do povo. Por seu enorme tamanho, poder-se-ia dizer que é o rochedo perfeito.

Deus, ao criar o Universo, teve em vista a perfeição, pois sendo Ele Absoluto e Perfeito, seria absurdo pensar que fizesse algo mal feito. E, segundo a razão divina, tanto mais algo é perfeito, quanto mais em excesso foi criado. E, assim como “nos corpos o excesso se realiza pela grandeza”, tome-se como exemplo um Himalaia, ou o Pão de Açúcar cujo excesso se verifica no tamanho, “assim, nos seres incorpóreos, pode-se realizar pela multidão”.[10]

Mons. João Clá Dias assim explica essa realidade, inspirando-se no Doutor Angélico: “Estando mais próximos de Deus, tinha de ser que o número de Anjos fosse maior do que a quantidade de matéria. Então, o número de Anjos é maior do que o dos astros, por exemplo. O número dos Anjos é incontável”.[11]

“Os Anjos em relação aos homens são como um tapete. O tapete tem aquelas franjas nas extremidades. As franjas representam a humanidade, enquanto o tapete, os Anjos. Uma quantidade de Anjos…!”[12]

 

Onde estão os Anjos?

Quem não gostaria de estar em vários lugares ao mesmo tempo? Num lindo parque, no trabalho, na escola, tudo de uma só vez? Pois bem, será que os Anjos têm esse poder? Para começar, onde está um Anjo? Se ele é espírito, poder-se-á dizer que está neste ou naquele lugar, como se falássemos de algo material?

O Doutor Angélico assim responde à pergunta: “Pela aplicação da virtude angélica a algum lugar, diz-se que o Anjo está em um lugar corpóreo”.[13] Em outras palavras, o Anjo está onde ele atua.

Mas, o exemplo facilita a compreensão da teoria. Ouçamos a explicação dada por Mons. João Clá: “Como podemos nós dizer que um Anjo está numa casa, numa tenda, que o Anjo está numa árvore, que o Anjo está… como é que eu posso dizer: ‘um Anjo está em tal lugar?’ Sabemos que o Anjo está neste ou naquele lugar desde que se possa dizer que o Anjo está agindo nesse lugar. Onde o Anjo age, ali está ele. Então, ao contrário do que se passa com a matéria, pela qual diz-se que ‘uma sala contém todos os que estão dentro’, se fosse um Anjo que estivesse agindo na sala, dever-se-ia dizer: ‘o Anjo contém a sala’. Porque o Anjo está com toda a sala debaixo do seu domínio; então diz-se: ‘a sala está sob o domínio dos Anjos.’ Onde está o Anjo? Está na sala. Onde está a sala? No Anjo. Porque a sala é contida pelo Anjo”.[14]

Ora, se eles têm tal superioridade sobre a matéria poder-se-ia pensar que eles também a possuem sobre o lugar. Então, se eles estão agindo sobre várias coisas ao mesmo tempo, estão simultaneamente em vários lugares?

“Somente Deus tem virtude e essência infinitas, pelas quais atinge os seres em toda a parte. Porém, os Anjos as possuem finitas, não podendo atingir todos os seres, mas somente um determinado. Por onde, o Anjo, estando num lugar, pela aplicação de sua virtude a esse lugar, segue-se que não está em toda a parte, nem em muitos lugares, mas num somente”.[15] Porém, a velocidade com que ele passa de um a outro campo de ação é a de um puro espírito, ou seja, a velocidade do pensamento. É o que poderia dar a impressão de agir em vários lugares simultaneamente, dada a rapidez fulgurante com que pode deslocar-se. Em certo momento o Anjo pode estar num lugar e no instante seguinte, do outro lado do mundo. Para o Anjo não existe distância.

 

Extraído de “A Criação e os Anjos” da coleção Conheça sua Fé

 

[1] Empíreo, pela etimologia grega quer dizer “de fogo”. Por Céu Empíreo entende a Teologia o lugar material para onde os bem-aventurados irão após a ressurreição. Por mais que não seja uma verdade de Fé a existência do Céu Empíreo (material, físico), é tradição admitida pela Teologia. A verdade de Fé nessa matéria restringe-se à crença na Bem-aventurança, visão da glória de Deus, que se dá não pelo lugar, mas pelo estado dos justos.

[2] São Tomás de Aquino. Suma Teológica. I, q. 61, a. 4.

[3] São Tomás de Aquino. Suma Teológica. I, q. 61, a. 4, ad 1.

[4] A Graça é uma participação criada na vida incriada de Deus. A Graça é um dom divino, uma qualidade sobrenatural infundida por Deus nas almas, tanto dos homens quanto dos Anjos, divinizado-os.

[5] Cf Santo Agostinho. De civitate Dei. 1. 12, c. 9.

[6] Reginauld Garrigou-Lagrange. La synthese thomiste. Paris: Desclée de Brouwer, 1950, p. 269. Tradução nossa; Cf São Tomás de Aquino. Suma Teológica. I, q. 62, a. 3, resp.

[7] Idem.

[8] Dionísio, apud São Tomás de Aquino. Suma Teológica. I, q. 50, a. 3, resp.

[9] João Scognamiglio Clá Dias. Catecismo explicado. São Paulo, 16 maio 2002. Curso de Formação. (Arquivo ITTA-IFAT). Diz Cornélio A Lápide: “Nas noventa e nove ovelhas, os santos Padres encontram os Anjos que perseveraram; na ovelha perdida, eles encontram o gênero humano” (Abbé Barbier. Les Trésors de Cornelius a Lapide). “A tradição das Escrituras nos revela de modo claro que inumeráveis são para nós as formações entre as quais se ordenam as essências celestiais […], que ultrapassam a ordem débil e limitada dos números materiais em uso entre nós” (Dionísio. De coelesti hierarchia, 14).

[10] Cf São Tomás de Aquino. Suma Teológica. I, q. 50, a. 3, resp.

[11] João Scognamiglio Clá Dias. Catecismo explicado. São Paulo, 16 maio 2002. Curso de Formação. (Arquivo ITTA-IFAT).

[12] Idem.

[13] São Tomás de Aquino. Suma Teológica. I, q. 52, a. 1, resp.

[14] João Scognamiglio Clá Dias. Catecismo explicado. São Paulo, 16 maio 2002. Curso de Formação. (Arquivo ITTA-IFAT).

[15] São Tomás de Aquino. Suma Teológica. I, q. 52, a. 2, resp.

À imagem de Deus

Criação de Adão e Eva por Jacob Bouttats. Museu de Navarra - Pamplona - Espanhã
Criação de Adão e Eva por Jacob Bouttats. Museu de Navarra – Pamplona – Espanhã

Consta no próprio Gênesis que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1, 26-27). Porém, como nos explica ROYO MARÍN: “o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. No entanto, esta imagem divina não é unívoca e perfeita, mas analógica e imperfeita”.

De fato, encontramos em São Tomás: “Como diz Santo Agostinho, ‘onde existe imagem, há certamente semelhança, mas onde há semelhança, não existe com certeza imagem’. Por onde se vê que a semelhança pertence à razão de imagem, e que imagem acrescenta alguma coisa à razão de semelhança, a saber, que é reproduzida de outro: com efeito, chamamos imagem pelo fato de se fazer à imitação de outra coisa; por isso, um ovo, por mais semelhante e igual que possa ser com relação a outro ovo, não é chamado sua imagem, porque não é reproduzido por dele. […] Ora é manifesto que se encontra no homem certa semelhança de Deus, semelhança que deriva de Deus como de seu modelo. No entanto, não é uma semelhança de igualdade, pois o modelo ultrapassa infinitamente o modelado. Assim se diz que há no homem imagem de Deus, não perfeita, mas imperfeita. É o que exprime a escritura quando diz que o homem foi feito à imagem de Deus; a preposição a, com efeito, traduz certa aproximação, o que cabe a uma coisa distante”. (Summa Theologica, I, q. 93, a. 1)

Como vimos então, o homem é sim uma imagem de Deus, entretanto ele o é do modo analógico e imperfeito, como foi dito acima, pois somente o Verbo é a Imagem perfeita e unívoca do Pai.

Mas o homem é a imagem e semelhança de Deus, pois ele possui o intelecto, que o aproxima de Deus, o faz poder imitar seu Criador, podendo assim louvá-lo.

Comenta o Doutor Angélico: “Visto que é em virtude de sua natureza intelectual que se diz ser o homem à imagem de Deus, ele o é sobretudo na medida em que a natureza intelectual pode imitá-lo ao máximo. Ora a natureza intelectual imita a Deus ao máximo, naquilo em que Deus se conhece e se ama”. (Idem.)

Não resisto em dar a este breve pensamento um enfoque mais teológico, afirmando com MONDIN: “Os ensinamentos de São Tomás sobre a graça, a fé, a esperança e a caridade são todos atuais, mas de modo particular a doutrina sobre a graça santificante que transforma o próprio ser do homem e o eleva à condição de filho de Deus”.

Podemos concluir que de fato o homem, sobretudo por sua natureza intelectual, é a imagem de Deus, entretanto é pela a graça que ele é elevado à condição de filho de Deus, atingindo assim a maior semelhança que com Deus se pode ter.

 

Pe. Michel Six, EP

Triunfante como a aurora elevou-Se aos Céus a Virgem Maria

Assunção de Nossa Senhora. Pinacoteca do Museu Vaticano, Roma - Itália
Assunção de Nossa Senhora. Pinacoteca do Museu Vaticano, Roma – Itália

Quanto mais o homem procura aprofundar-se no conhecimento de Deus, mais compreende que não conseguirá abarcá-Lo, tais as grandezas e os mistérios com os quais se depara.

O Criador, que estabelece as regras, se apraz em criar magníficas exceções. Três criaturas não podiam ser criadas em grau mais excelente, ensina-nos a Teologia. A primeira delas é Jesus Cristo, Homem-Deus: impossível ser mais perfeito, nada haveria a acrescentar. A segunda, Maria: “quase divina”, é a expressão utilizada por vários teólogos para se referir à Mãe do Redentor. E, por fim, a visão beatífica, o Céu: o prêmio reservado aos justos não poderia ser melhor nem maior. É o próprio Deus que Se dá aos Bem-aventurados!

 

Por que morreu a Mãe da Vida?

Em Maria Santíssima está a plenitude de graças e de perfeições possíveis a uma mera criatura. Segundo a bela expressão de Santo Antonino, “Deus reuniu todas as águas e chamou-as mar, reuniu todas as suas graças e chamou-as Maria”.[1] Desde toda a eternidade, o decreto divino estabelecia o singularíssimo privilégio de ser a Virgem Santíssima concebida livre da mancha original. Privilégio este próprio Àquela que geraria em seu seio o próprio Deus.

Transcorrida sua vida nesta terra, o que aconteceria com nossa Mãe? Ela, que havia dado à luz, alimentado e protegido o Menino-Deus, e recebido em seus braços virginais o Corpo dilacerado de seu Filho e Redentor, estava prestes a exalar o último suspiro. Como poderia passar pelo transe da morte aquela Virgem Imaculada, nunca tocada pela mais leve sombra de qualquer falta?

Sem embargo, como o suave declinar do sol num magnífico entardecer, a Mãe da Vida rendia sua alma. Por que morria Maria? Tendo Ela participado de todas as dores da Paixão de Jesus, não quis deixar de passar pela morte, para em tudo imitar seu Deus e Senhor.

 

De que morreu Maria?

Perfeitíssima era a natureza da Virgem Maria. Com efeito, afirma Tertuliano que “se Deus empregou tanto cuidado ao formar o corpo de Adão, pela razão de seu pensamento voar até Cristo, que deveria nascer dele, quanto maior cuidado não terá tido ao formar o corpo de Maria, da qual devia nascer, não de modo remoto e mediato, mas de modo próximo e imediato, o Verbo Encarnado?”[2]

Ademais, escreveu Santo Antonino, “a nobreza do corpo aumenta e se intensifica em proporção com a maior nobreza da alma, com a qual está unido e pela qual é informado. E é racional, pois a matéria e a forma são proporcionadas uma à outra. Sendo, portanto, que a alma da Virgem foi a mais nobre, depois da do Redentor, é lógico concluir-se que também seu corpo foi o mais nobre, depois do de seu Filho.”[3]

À alma santíssima de Maria, concebida sem pecado original e cheia de graça desde o primeiro instante de sua existência, correspondia, portanto, um organismo humano perfeitíssimo, sem o menor desequilíbrio.

Em consequência de sua virginal natureza, Nossa Senhora foi imune a qualquer doença, e jamais esteve sujeita à degenerescência do corpo causada pela idade.

De que morreu, pois, a Mãe de Deus?

O termo da existência terrena de Maria deveu-se à “força do divino amor e ao veemente desejo de contemplação das coisas celestiais, que consumiam seu coração.”[4]

A Santíssima Virgem morreu de amor!

São Francisco de Sales assim descreve esse sublime acontecimento:

“Quão ativo e poderoso (…) é o amor divino! Nada de estranho se vos digo que Nossa Senhora dele morreu, pois, levando sempre em seu coração as chagas do Filho, padecia-as sem consumir-se, mas finalmente morreu pelo ímpeto da dor. Sofria sem morrer, porém, por fim, morreu sem sofrer. “Oh, paixão de amor! Oh, amor de paixão! Se seu Filho estava no Céu, seu coração já não estava n’Ela. Estava naquele corpo que amava tanto, ossos de seus ossos, carne de sua carne, e ao Céu voava aquela águia santa. Seu coração, sua alma, sua vida, tudo estava no Céu: por que haviam de ficar aqui na terra?

“Finalmente, após tantos vôos espirituais, tantos arrebatamentos e tantos êxtases, aquele castelo santo de pureza e humildade rendeu-se ao último assalto do amor, depois de haver resistido a tantos. O amor A venceu, e consigo levou sua benditíssima alma.”[5]

Essa morte de Maria, suave e bendita como um lindo entardecer, a Igreja a designa pelo sugestivo nome de “dormição”, para significar que seu corpo não sofreu a corrupção.

Dormição de Maria. Basílica de Santa Maria Maior, Roma - Itália
Dormição de Maria. Basílica de Santa Maria Maior, Roma – Itália

Cheia de graça e cheia de glória

Quanto durou a permanência do puríssimo corpo de Maria no sepulcro?

Não o sabemos. Mas, segundo a tradição, muito pouco tempo esteve a alma separada de seu corpo. E, na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, afirma o Papa Pio XII: “Por um privilégio inteiramente singular, Ela venceu o pecado com sua Conceição Imaculada; e por esse motivo não foi sujeita à lei de permanecer na corrupção do sepulcro, nem teve de esperar a redenção do corpo até o fim dos tempos.”

Assim, resplandecente de glória, a alma santíssima de Nossa Senhora reassumiu seu virginal corpo, tornando-o completamente espiritualizado, luminoso, sutil, ágil e impassível.

E Maria — que quer dizer “Senhora de Luz” — elevou-se em corpo e alma ao Céu, enquanto as incontáveis legiões das milícias angélicas exclamavam maravilhadas ao contemplar sua Soberana cruzando os umbrais eternos: “Quem é esta que surge triunfante como a aurora esplendorosa, bela como a lua, refulgente e invencível como o Sol que sobe no firmamento e terrível como um exército em ordem de batalha?”[6]

E ouviu-se uma grande voz que dizia: “Eis aqui o tabernáculo de Deus” (Ap 21, 3).

A Filha bem-amada do Pai, a Mãe virginal do Verbo, a Esposa puríssima do Espírito Santo foi coroada, então, pelas Três Divinas Pessoas para reinar no universo, pelos séculos dos séculos, “à direita do Rei” (Sl 44, 10).

 

O dogma

A verdade desta glorificação única e completa da Santíssima Virgem foi definida solenemente como dogma de Fé pelo Papa Pio XII, no dia 1 de novembro de 1950, com estas belas palavras:

“Depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a luz do Espírito de verdade, para a glória de Deus onipotente que à Virgem Maria concedeu sua especial benevolência, para a honra de seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória de sua augusta Mãe e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Bem-aventurados Apóstolos São Pedro e São Paulo e com a Nossa, pronunciamos, declaramos e definimos que: A Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”.

 

Pe. Pedro Rafael Morazzani Arraiz, EP

Retirado de Revista Arautos do Evangelho, n. 32, Agosto de 2004, p. 18-20.

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[1] In São Luís M. Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Petrópolis: Vozes, 13 ed., 1984, p. 30.

[2] De resurrectione carnis, c. VII.

[3] Cfr. Gabriel Roschini. Instruções Marianas. São Paulo: Paulinas, p. 202.

[4] D. Alastruey. Tratado de la Virgen Santísima. p. 414.

[5] São Francisco de Sales. Obras Selectas. Madrid: B.A.C., p. 480.

[6] Cfr. Cant 6,10.