Lições importantes na Festa da Assunção

Assunção de Nossa Senhora, por Neri di Bicci. Florença, Itália

A Festa da Assunção de Nossa Senhora é um marco todo especial na vida da Igreja Católica e de sua Liturgia. Ela possui inúmeros significados e existe um sem fim de comentários e considerações a seu respeito. Por isso, ao invés de nos determos nos pormenores, aliás lindíssimos, do dogma da Assunção proclamado por Pio XII, vamos tirar dele alguns princípios que nos ajudarão a alcançarmos a santidade a que todo batizado é chamado.

Uma das mais belas lições que podemos colher desse episódio mariano é de colocar nossa atenção na realidade celeste que a cada momento nos circunda. Com efeito, a única coisa que realmente importa nessa vida é a salvação eterna e a nossa própria subida ao Céu no dia do Juízo Final. Disso nos dá exemplo a Mãe de Deus, que em sua vida terrena foi totalmente desapegada das criaturas e viveu para glorificar seu Criador. Mereceu com isso ser elevada ao Céu de corpo e alma no momento em que encerrou sua missão terrena.

Desse modo de viver de Maria podemos entrever outro aspecto pouco ressaltado pelos autores clássicos, mas muito importante para nossa vida espiritual: não tomar as criaturas como nossa finalidade, mas tê-las como meio para se alcançar esse fim. Ou seja, não colocarmos nosso coração e nossa vida em função das criaturas, sejam elas materiais ou não, mas sim nos utilizarmos delas para praticar a virtude e mais facilmente chegar ao Criador. Exemplos não faltam, mas um do qual nunca se falará o suficiente é o dinheiro. Quanta gente vive para ter dinheiro, e muitas vezes morre sem ter gastado nada… Não é à toa que Jesus disse “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24).

Foi o grande erro que os anjos maus cometeram quando ainda se encontravam no Céu. Fixaram demasiadamente o olhar nas criaturas em si mesmas e esqueceram-se de reportar a Deus aquilo que contemplavam. Segundo Santo Agostinho, citado por São Tomás de Aquino, conhecer as criaturas dissociado de Deus faz com que a Luz da verdade aos poucos se apague e tudo se transforma em escuridão.[1]

Mas como, então, viver de maneira a não permitir desviar o olhar de Jesus e de Maria? Muito simples: continuamente considerar e meditar nos novíssimos (morte, juízo, inferno e paraíso), eis outra lição que podemos tirar da vida de Nossa Senhora. Aquele que medita com seriedade nessas realidades que aguardam a todos nós, sem dúvida encontrará motivação para viver de acordo com os mandamentos divinos, e se utilizará das criaturas da maneira correta.

Mas para isso é indispensável uma qualidade muito esquecida em nossos dias, e que Nossa Senhora praticou de modo magnífico: a humildade. Sem reconhecer a própria fraqueza a o contínuo estado de contingência em relação a Deus, ninguém é capaz de se manter na prática da virtude por muito tempo.

Peçamos à Virgem Maria, Mãe de Jesus, hoje assumpta aos Céus que nos auxilie na prática da humildade e, assim, tenhamos em relação às criaturas a consideração de que elas são meios que nos facilitam chegar à contemplação do Criador.[2]

___________________________________

[1] Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q. 58, a. 6; a. 7.

[2] Como dissemos antes, esse artigo não tinha como propósito abordar o tema da Assunção propriamente, mas algumas lições que podemos colher deste extraordinário episódio. Mas para o leitor que queira conhecer mais sobre a matéria recomendamos especialmente duas leituras: Constituição Apostólica do Papa Pio XII Munificentissimus Deus, e o artigo O penhor marial de nossa ressurreição (CLÁ DIAS, João S. Inédito sobre os Evangelhos. Roma: LEV, 2013, v. 7, p. 187).