Monofisismo: a grande heresia

Início da heresia e seus personagens

Após o grande patriarcado de São Cirilo de Alexandria, sucedeu-lhe um homem chamado Dióscoro, ganancioso e oportunista. Foi um dos porta-vozes da heresia monofisista, como o teria sido de qualquer outra se lhe fosse mais vantajosa e oportuna.

A ele juntou-se Eutiques, discípulo e sucessor do santo abade Dalmácio, mas lhe sucedeu apenas no cargo e não na virtude. Eutiques era um homem orgulhoso e ferrenho batalhador contra a heresia de Nestório. Estava à cabeça de mais de trezentos monges, e caiu por sua vez, talvez devido a seu orgulho, na heresia monofisista, sendo o seu maior representante.

Como se não bastasse juntaram-se a eles ainda dois personagens da corte. A imperatriz Eudoxia e o eunuco Crisáfio. Este último era um homem avarento e interesseiro, favoreceu a heresia sem escrúpulos, fazendo cair na heresia o próprio imperador, o “doce” Teodósio II.

Para fazer frente a esta corrente, a Providência suscitou grandes homens. Em primeiro lugar Teodoreto de Ciro, primeiro em atacar a heresia, o qual escreveu duas obras em oposição desta; em segundo lugar Eusébio de Doriléia, que já tinha sido ferrenho batalhador contra o nestorianismo até seu extermínio, agora se apresentava novamente como defensor da verdadeira doutrina. Por fim, à cabeça destes, representante e símbolo da ortodoxia, não tanto por seus conhecimentos teológicos, mas por sua autoridade e virtude, o patriarca de Constantinopla, São Flaviano.

Inicia-se a batalha

Durante um sínodo regional presidido pelo santo patriarca Flaviano, Eusébio de Doriléia acusou Eutiques de doutrinas heréticas. Este último foi convocado para proclamar sua fé na doutrina do concílio de Éfeso. Entretanto, Eutiques procurou esquivar-se e ganhar tempo e levantar em seu favor uma grande quantidade de monges.

Por fim, Eutiques apresentou-se, acompanhado de seus monges mais fortes e da guarda imperial. Negou-se rotundamente em aceitar a doutrina das duas naturezas na Pessoa do Verbo, aferrando-se nos escritos de São Cirilo, que ele interpretava num sentido claramente monofisista. Questionado sobre como se efetuava a união da natureza divina com a humana na Encarnação do Verbo, não teve resposta, afirmando mais tarde que se dava uma absorção, e posteriormente ainda uma fusão.

Este último fato faz surgir a suspeita de que Eutiques era como marionete nas mãos de outros, que sabiam melhor do que ele toda as resposta para as perguntas de São Flaviano, e que sabiam perfeitamente “como se dava esta união” entre as duas naturezas em Nosso Senhor. A história se repete… os fariseus são imortais.

Latrocínio de Éfeso

Eutiques percebendo-se em perigo, logo escreveu ao Papa, São Leão Magno, informando-lhe de todos os acontecimentos. Evidentemente o fez desde seu ponto de vista. Fez ainda com que Dióscoro e Crisáfio convencessem o Imperador de, por sua parte, escrever uma carta ao Santo Padre pedindo uma intervenção em seu favor. São Flaviano também acabava de descrever ao Romano Pontífice todo o ocorrido.

São Leão recebeu todas estas notícias com a mesma paz de alma com a qual enfrentou Átila às portas de Roma. Ele precisava ganhar tempo, e enquanto aguardava uma informação mais precisa de alguns de seus legados que tinham ido ter com São Flaviano e com Teodoreto de Ciro, escreveu uma carta muito amável ao imperador, agradecendo a preocupação com o bem e a unidade da Igreja e prometeu uma resposta definitiva tão logo obtivesse informações mais precisas sobre os acontecimentos. O grande Leão agiu como raposa, a espera de poder rugir novamente.

Tendo chegado todas as informações que São Leão esperava e vendo a verdadeira situação, escreveu a famosa epístola dogmática, na qual expunha a verdadeira doutrina sobre as duas naturezas de Cristo e sua união pessoal. Após a ter escrito foi ao túmulo de São Pedro e rogou-lhe que interviesse no caso e lhe ajudasse na luta, e deixando a epístola sobre o túmulo do Príncipe dos Apóstolos se retirou. Quarenta dias mais tarde São Pedro lhe apareceu e entregou a carta dizendo “li e corrigi”.

Esta carta foi enviada a todo o Oriente como um documento dogmático e infalível que todos tinham de acatar. São Leão escreveu também uma carta dirigida ao imperador e a Eutiques cheia de atenções, mas em tom firme e enérgico.

Nem Eutiques nem Dióscoro aceitaram as definições do Santo Padre e ainda tiveram o atrevimento de convocar um sínodo em Éfeso, no qual deveriam celebrar o maior dos “triunfos”. Tiveram a insolência de convidar o Papa para estar no sínodo. Este enviou três representantes, os bispos Julio e Renato e o diácono Hilário.

No sínodo, presidido por Dióscoro, os partidários do imperador tinham livre palavra, enquanto que os representantes do Papa estavam proibidos de falar. A Teodoreto de Ciro e Eusébio de Doriléia, nem se lhes permitiu assistir o sínodo.

O plano dos hereges era desfazer tudo o que São Flaviano tinha feito no sínodo de Constantinopla, em última análise, negar a epístola dogmática de São Leão Magno. Foi proposto imediatamente que se lessem as atas do sínodo de Constantinopla aos 135 bispos ali reunidos. Ante a ameaça de Dióscoro, o herege Eutiques foi absolvido, e foi anatematizada a doutrina das duas naturezas de Cristo.

Após uma intervenção dos legados pontifícios que diziam estarem sendo violados os direitos do Romano Pontífice, Dióscoro se tomou de cólera e, sob pretexto de ser agredido, deu ordem à guarda imperial e aos monges de Eutiques que expulsassem São Flaviano e os legados pontifícios. São Flaviano foi desterrado, mas tão grande foi o mau trato que lhe deram que morreu no caminho. Os legados pontifícios tiveram de fugir para não serem mortos. Ao ouvir isso tudo, São Leão disse: “Ephesium non iudicium, sed latrocinium.

Dióscoro chegou a excomungar e depor solenemente o Papa. O Oriente vivia dias de confusão e todos os olhos se voltavam para o Soberano Pontífice, de quem unicamente esperavam uma solução.

Concílio de Calcedônia

Neste momento, uma mudança rápida trouxe consigo o triunfo da ortodoxia. O eunuco Crisáfio caiu em desgraça e, com ele, a imperatriz Eudoxia, e foram ambos retirados da corte. Sem estes apoios tão indispensáveis os monofisistas ficavam em grande risco.

Mais ainda, o imperador Teodósio II morre numa queda do cavalo, e para desgraça dos monofisistas, sua irmã Santa Pulqueria assume o império e logo se casa com o grande general Marciano. Ambos partidários do Papa e da doutrina verdadeira, tiveram como primeiro ato enquanto imperadores trazerem os restos mortais de São Flaviano para Constantinopla e escreverem uma carta ao Santo Padre pedindo a convocação de um concílio para resolver definitivamente as questões doutrinárias em jogo.

O concílio se reuniu em outubro de 451 em Calcedônia – quarto ecumênico – no qual compareceram 600 prelados. Foi presidido pelo patriarca de Constantinopla, Anatólio, sucessor de São Flaviano, colocado neste cargo pelos próprios monofisistas, mas que acabou aderindo aos novos imperadores. As decisões foram rápidas, expulsaram Dióscoro das sessões do concílio, destituíram-no de seus cargos e o desterraram. Foram lidos os documentos do concílio de Éfeso de 431, os escritos de São Cirilo, do qual os hereges se utilizaram para basear sua doutrina, e no qual nenhum erro foi encontrado, a Epístola Dogmática de São Leão, ao que todos os presentes exclamaram: “Assim o cremos todos. Pedro falou pela boca de Leão”. A Epístola dogmática foi reconhecida como documento de fé.

Destes escritos, trazemos aqui uma pequena amostra. Eis um trecho de São Cirilo que torna patente a mentira dos monofisistas:

“Para tanto tornei-me semelhante a vós, um homem autêntico da descendência de Abraão, a fim de ser semelhante a meus irmãos. São Paulo compreendeu isto perfeitamente, ao dizer: ‘Visto que os filhos têm em comum a carne e o sangue, também Jesus participou da mesma condição, para assim destruir, com a sua morte, aquele que tinha o poder da morte, isto é, o demônio’ (Hb 2,14).

“Cristo, portanto, entregou seu corpo em sacrifício pela vida de todos e assim a vida nos foi dada de novo por meio d’Ele. Como isso se realizou, procurarei dizer na medida do possível.

“Depois que o Verbo de Deus, que tudo vivifica, assumiu a carne, restituiu à carne o seu próprio bem, isto é, a vida. Estabeleceu com ela uma comunhão inefável, e tornou-a fonte de vida, como Ele mesmo o é por natureza.

“Por conseguinte, o corpo de Cristo dá a vida a todos os que dele participam; repele a morte dos que a ela estão sujeitos e os libertará da corrupção, porque possui em si mesmo a força que a elimina plenamente.”[1]

Eis um trecho da carta de São Leão Magno a São Flaviano: “As duas naturezas guardam o que é próprio a cada uma e se unem numa só Pessoa. A humanidade é assumida pela majestade, a debilidade pela força, a mortalidade pela eternidade. Para saldar a dívida de nossa condição humana, a natureza invulnerável se uniu à natureza capaz de padecer, de modo que o mesmo e único Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, tal com convinha à nossa restauração, pudesse morrer, por um lado, e não morrer, por outro. Isto quer dizer: o verdadeiro Deus nasceu em natureza de verdadeiro homem plena e perfeita, completo no que é seu, e completo no que é nosso. Entendemos por ‘nosso’ aquilo que desde o princípio o Criador colocou em nós e que Ele assumiu para nos restaurar…

“Cada natureza realiza, em comunhão com a outra, o que lhe é próprio, a saber: o Verbo realiza o que é próprio do Verbo, e a carne o que é próprio da carne. Deste modo, enquanto o Verbo brilha por seus milagres, a carne se submete aos seus ultrajes; e, assim como o Verbo não perdeu a glória que Ele tem igual com o Pai, assim também a carne não abandonou a natureza própria da nossa linhagem.”[2]

E por último um trecho do documento do concílio de Calcedônia: “Seguindo os Santos Padres, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, Senhor nosso. O mesmo perfeito no tocante à Divindade e no tocante à humanidade: Deus verdadeiro e homem verdadeiro em corpo e alma, consubstancial ao Pai quanto à Divindade e consubstancial conosco quanto humanidade; semelhante em tudo a nós exceto no pecado; gerado pelo Pai segundo a Divindade desde todos os séculos, e nos últimos tempos gerado de Maria Virgem Theotókos (Mãe de Deus), por causa de nós e da nossa salvação. O mesmo e único Cristo, Senhor e Filho Unigênito em duas naturezas sem confusão, nem divisão, nem mudança, nem separação, há de ser o termo de nosso reconhecimento, sem que de algum modo desapareça a diferença de naturezas por causa da união, antes salvando-se as propriedades de cada natureza, embora as duas se encontrem numa única pessoa e subsistência. Não separado nem dividido em duas pessoas, mas uma só Pessoa, que é o único e mesmo Verbo, Deus, Filho Unigênito e Senhor Jesus Cristo, como em outros tempos nos ensinavam os profetas a respeito dele, e o próprio Jesus Cristo ensinou a respeito de Si mesmo, e como nos transmitiu o símbolo de fé dos Padres.”[3]

Foram elaborados alguns cânones importantes ao final do concílio, mas um deles, o último, equiparava a Sede de Constantinopla à de Roma. Isso foi feito após a partida dos legados pontifícios. Tendo estes recebido a notícia ainda a caminho de Roma, protestaram contra este cânon. São Leão aprovou apenas as conclusões doutrinárias.

Doutrina monofisista

É-nos, contudo, necessário conhecer essa doutrina tão perniciosa quanto sutil. Mono em grego quer dizer uma, phisys quer dizer natureza. Após a derrota, em 431 no concílio de Éfeso, do nestorianismo, que afirmava que em Nosso Senhor existiam duas naturezas, mas também duas pessoas, alguns alexandrinos, querendo humilhar os derrotados nestorianos antioquinos, começaram a afirmar que em Nosso Senhor existia uma pessoa, mas também uma única natureza.

Diziam estes que antes da Encarnação se podia falar em duas naturezas distintas, divina e humana, mas que depois da Encarnação as duas naturezas teriam se fundido.

“Cristo procederia ex duabus naturis, mas não estaria subsistindo in duabus naturis: teria uma só natureza composta das duas, mas que na realidade a humana teria sido absorvida pela infinita pessoa do Verbo de Deus”. (FERRER, p. 60)

Isto é perfeitamente incoerente, pois como se poderia falar em duas naturezas antes da Encarnação se a humana ainda não existia?

Todos nós sabemos, e é matéria de fé, que em Nosso Senhor Jesus Cristo existem duas naturezas, perfeitamente distintas, unidas hipostaticamente na Pessoa do Verbo. Nosso Senhor Jesus Cristo não é uma mescla intermediária de duas naturezas, pois não pode existir uma natureza composta de uma divina e outra humana.

“Os teólogos posteriores explicam que resultaria impossível a união da divindade e da humanidade numa única natureza mesclada de ambas, pois a divina é imutável e absolutamente simples, e não pode deixar de ser o que era e passar a ser outra coisa, nem pode ser parte de uma natureza composta. Ademais, tal união iria contra a fé, pois Cristo já não seria Deus, e tampouco seria verdadeiro homem, mas sim outra coisa.”[4]

Alguém poderia perguntar “qual a importância de afirmar uma ou outra doutrina? Basta ter fé em Deus. Afinal, que consequências podem trazer estas doutrinas?”

Dizer que em Nosso Senhor existiam duas naturezas e duas pessoas, erro nestoriano, significa nada mais nada menos afirmar que Jesus não é Deus, mas apenas um homem intimamente unido a Deus, e disso poderíamos concluir que o gênero humano não teria sido redimido, que a Santíssima Virgem não é Mãe de Deus, mas apenas do homem Jesus, que o Verbo não se tinha feito carne e habitado entre nós, que morreu na Cruz apenas um grande homem, mas não um Deus, que a Igreja fundada por Ele não é nem divina nem a única verdadeira, etc.

Entretanto, um erro pior e muito mais sutil era o do monofisismo, que afirmava ter em Nosso Senhor apenas uma pessoa, mas também só uma natureza. As consequências que se pode tirar disso são ainda piores do que as do nestorianos. Dizer que Nosso Senhor tinha apenas uma natureza é afirmar que ele não era nem inteiramente homem, nem inteiramente Deus, mas que tinha havido uma espécie de fusão entre as duas naturezas, humana e divina, na Pessoa do Verbo, ou seja, Ele seria uma terceira coisa que não era nem homem nem Deus, mas uma espécie de semi-deus, constituindo uma terceira espécie ou gênero meio centáurica.

Todos nós sabemos que natureza não é o mesmo que pessoa. Quando se fala em natureza, entende-se a essência da coisa de que se fala e que seria equivalente à pergunta “o que é?” à resposta “uma pedra, uma árvore, um homem, etc.”. Quando se fala em pessoa se propõe a pergunta “quem é?” à resposta “Pedro, João, Maria, etc.”

“A natureza humana de Cristo, ainda que real, criada, individual e concreta, não é uma hipóstase ou uma pessoa humana, pois não é subsistente, não é um todo completo em si mesmo que exista independentemente de outro, já que pertence propriamente ao Verbo que a assumiu, e foi levada de modo inefável à união do Ser pessoal do Filho de Deus, que é o único subsistente, sujeito ou pessoa, em sua natureza divina e em sua natureza humana.”[5]

Afirmar que a natureza humana de Nosso Senhor não é uma pessoa não significa Lhe diminuir ou tirar nada da verdadeira e real índole humana, já que essa natureza é completa e perfeita, e não falta nada que seja próprio dela. E tampouco rebaixa sua condição e dignidade o fato de ela não existir por si mesma e não constituir uma pessoa humana, mas pelo contrário, “a natureza humana é em Cristo mais digna do que em nós, porque em nosso caso ao existir por si mesma tem sua própria personalidade, e em Cristo essa natureza existe na Pessoa adorável do Verbo” (S.Th. III, 2,2, ad 2)

A Encarnação não supôs mudança alguma no Verbo de Deus. Somente se dá a mudança na natureza humana; esta mudança consiste no fato de começar a existir elevada à união pessoal com o Verbo. A Pessoa divina não adquiriu nenhuma perfeição nova, porque possui todas as perfeições em substância.


[1] LITURGIA DAS HORAS, São Paulo: Vozes; Paulinas; Paulus; Ave Maria, vol. II, 2000. vol II.

[2] BETTENCOURT, Estevão Tavares. Curso de cristologia. Rio de Janeiro. p. 82.

[3] BETTENCOURT, Estevão Tavares. Curso de cristologia. Rio de Janeiro. p. 82.

[4] FERRER, Vicente Barriendos. Jesucristo, nuestro Salvador. 4. Ed. Madrid: Rialp, 2005. p. 61.

[5] FERRER, Vicente Barriendos. Jesucristo, nuestro Salvador. 4. Ed. Madrid: Rialp, 2005. p. 65.

O segundo Concílio de Constantinopla

Hernán Luis Cosp Bareiro – 3º Ano Teologiapôr do sol

Há vários pressupostos que precisamos ter em vista para poder compreender bem todo o alcance que envolve o estudo deste concílio. Nele foram condenados os “três capítulos”, que mais adiante  explicaremos.  A temática do concílio girou em torno da heresia monofisita – surgida no Ooriente, mais propriamente em Alexandria – e é justamente por isto que se fazem necessárias explicações prévias, à guisa de pressupostos, posto que esta heresia teve uma duração de nada menos de dois séculos, desde o ano de 433 até 681, isto se considerarmos que o monotelismo [heresia que propunha a existência de apenas uma vontade (a divina) em Nosso Senhor Jesus Cristo] “não é outra coisa que uma nova forma de monofisismo”(LLORCA, 2001, p. 736-7)[1].

            Um destes pressupostos, talvez o principal, é a existência de duas escolas de pensamento altamente influentes na teologia do mundo Oriental, a de Alexandria e a de Antioquia. Esta influência deve-se sobretudo ao fato de que cada uma das escolas pertencia a um Patriarcado Oriental homônimo  nos quais costumava surgirem grandes Santos ou homens de cultura que,  com sua erudição, explicitavam e desenvolviam amplamente a doutrina católica,[2] – por ocasião das grandes heresias – que ainda estava um pouco insípida nas suas definições, não que ela o fosse de fato na sua substância. Foi somente com o passar do tempo que ela foi se tornando explicita. Tais eram os casos de, quanto à  escola de Alexandria, São Alexandre, Santo Atanásio, São Cirilo, Pseudo-Dionisio Areopagita, Leôncio de Bizâncio; e no tocante a  Antioqueno, São Luciano de Antioquia, Diodoro de Tarso, Teodoro de Mopsuéstia, São João Crisóstomo, Teodoreto de Ciro e Ibas de Edessa

            Estas escolas não comungavam das mesmas ideologias e formas de pensar, a respeito de questões dogmáticas e foi isto o que desencadeou a heresia monofisita. ROPS nos ilustra bem isto dizendo:

há duas maneiras de abordar este mistério da fé: ou da forma que nos sugere o célebre prólogo do quarto Evangelho, isto é, partindo do Verbo divino que reside desde toda a eternidade no seio do Pai e que se torna homem em determinado momento do tempo para salvar o mundo – e isto era o que se repetia na escola de Alexandria; ou então partindo da amável figura que vemos no Evangelho e considerando todos os traços tão comoventes que a aproximam de nós, para descobrir através do seu comportamento e sobretudo dos seus milagres a prova da sua divindade – e esse era o tema preferido pela escola de Antioquia. A verdade completa é que Cristo é ao mesmo tempo tudo isso: o Verbo e o Homem perfeito (…) Mas, se insistirmos apenas num desses dois aspectos da doutrina, deixando de lado o outro, cairemos numa ou noutra das grandes correntes heréticas que vão desenvolver-se no Oriente.

            Os demais autores não discordam desta perspectiva de rivalidade existentes entre as duas escolas e a este respeito LLORCA também tem um comentário:

tendo presente o antagonismo das duas rivais, Antioquia e Alexandria, nas questões cristológicas, necessariamente tinha que produzir-se uma reação a favor do monofisismo, como réplica ao nestorianismo patrocinado em Antioquia (2001, p. 535)[3].

            Nosso intuito não é fazer deste trabalho um tratado a respeito das heresias cristológicas.Por isso omitimos aqui toda a temática do nestorianismo, salvo alguns dados importantes que precisamos guardar, e que serão expostos ao seu devido tempo, a fim de entender certos aspectos do segundo Concílio de Constantinopla tal como a questão dos “tres capítulos”. Aliás, não podemos deixar de lembrar estes pontos, posto que as heresias do oriente formam todas elas “um conjunto (…) de ações e reações” no dizer de ROPS (1991, p. 152) e, portanto, necessariamente há ligações entre uma e outra.

            A heresia monofisita consistia na negação da existência da natureza humana de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta heresia tinha surgido em Alexandria e seus principais adeptos eram Eutiques (criador da heresia) e o Patriarca que sucedeu a São Cirilo na sede de Alexandria, Dióscoro (o porta-voz dela). Estes afirmavam terem-se inspirado na doutrina que São Cirilo de Alexandria tinha desenvolvido – sobretudo na sua obra dos doze anatematismos –, para sustentar as teses monofisitas. De fato “algumas expressões empregadas por ele (São Cirilo) dão margem a esta interpretação errônea (monofisita), e, de fato, os monofisitas (…) o apresentaram sempre (a São Cirilo) como partidário seu”[4](LLORCA, 2001, p. 532). Mas estes ignoravam, ou pelo menos dissimulavam fazê-lo, que São Cirilo tinha feito um edito de união em 433 com João (Patriarca de Antioquia, receoso de suas doutrinas) no qual ele renunciava a todas as expressões contidas nas suas obras que poderiam dar margem a que ele cresse de que a união pessoal de Nosso Senhor Jesus Cristo convertia as duas naturezas numa só.

            Como era costume acontecer, a heresia logo que começou foi ganhando força e autoridade e os monofisitas conseguiram colocar nas principais sedes episcopais adeptos da heresia, conseguindo inclusive ganhar as boas graças do Imperador bizantino. Resumindo , o Papa São Leão Magno foi um dos homens providências que intervieram energicamente a favor da ortodoxia na questão monofisita. Vale a pena ressaltar aqui que um homem ocupando a sede de São Pedro, intransigente e radical como ele, foi o que faltou posteriormente na Celebração do segundo Concílio de Constantinopla. São Leão aprovou a sugestão do Imperador Marciano – que tinha subido ao trono recentemente e era a favor da ortodoxia – de convocar um concílio para sepultar de uma vez a heresia. O mesmo foi prontamente celebrado na cidade de Calcedônia, tornando-se assim, após a aprovação do Papa, o quarto concílio ecumênico.

            Como último pressuposto – somos da tese que as grandes introduções preparam as rápidas e fáceis conclusões – temos de falar a respeito de outras duas pessoas, que embora tinham sido providenciais com os seus escritos a favor da sã doutrina, são figuras controvertidas e polêmicas, pois, no tempo da heresia nestoriana jogaram um papel, de alguma forma, oposto ao da ortodoxia pois, como dissemos mais acima, pertenciam à escola antioquena… Contudo, após o Concílio de Éfeso eles tinham-se apartado da doutrina e dos partidários de Nestório, mas mantiveram-se igualmente afastados de São Cirilo pelo receio de cair no extremo oposto, ou seja o monofisismo. Estas duas figuras são Teodoreto de Ciro e Ibas de Edessa, sendo que este último, junto com outros poucos, “mais bem tendiam ao extremo oposto, ou não manifestavam tão firme consistência em suas convicções”(LLORCA, 2001, p. 537) no que diz respeito à heresia monofisita. Mas o que importa ressaltar a respeito deles dois é que prestaram – um mais, outro menos – uma ajuda inegável à Igreja no Concílio de Calcedônia ajudando a condenar o monofisismo. Prova disto é que chegou-se ao ponto de celebrar uma sessão especialmente para resolver os problemas doutrinários que envolviam os dois autores mencionados e na qual eles foram declarados inteiramente inocentes, após teremse retratados dos seus escritos de cunho nestoriano.

            Com a condenação expressa do monofisismo e o desterro de seus principais adversários,Eutiques e Dióscoro, parecia tudo acabado, mas… o mal sempre aprende de suas derrotas passadas sabendo tirar proveito delas para fazer novas investidas contra o bem. “Com as decisões do concílio de Calcedônia e as medidas rigorosas tomadas pelos imperadores não ficou tudo terminado. Ao contrário, as contendas que surgiram depois adquiriram grande extensão e intensidade, dando origem a novas complicações” (LLORCA, 2001, p. 546)[5]. E com isto chegamos ao ponto central deste capítulo, ou seja, o segundo Concílio de Constantinopla, o quinto ecumênico.

            A nosso ver, se bem que não achemos citações para apoiar este ponto de vista, o principal erro para que a heresia cobrasse novo vigor foi o fato de que no Concílio de Calcedônia os partidários do monofisismo, com exceção de Eutiques e Dióscoro, foram tratados com benevolência pelos Padres conciliares, “quase todos foram acolhidos de novo no seio da Igreja católica, sempre previa aceptação da Epístola dogmática (do Papa São Leão) e a condenação de Eutiques”(LLORCA, 2001, p. 545)[6].

            Os monofisitas conseguiram instalar-se em três sedes orientais: Jerusalém, Alexandria e Antioquia. Vale a pena ressaltar que a de Jerusalém e a de Antioquia foram tomadas mediante  verdadeiras batalhas campais entre monges monofisitas e tropas imperiais. Outro fator que contribuiu para a expansão e duração da heresia foi que os imperadores sucessores de Marciano foram todos eles partidários da heresia monofisita. Com a subida de Justiniano I ao trono, o panorama mudou, pois ele quis “apoiar com todo o seu poder a religião católica e a sua legítima hierarquia” (LLORCA, 2001, p. 552). Ademais “não desaprovou nunca a superioridade da autoridade pontifícia” (Idem). Preocupado pela divisão que esta heresia estava causando no seu Império, quis ele colocar um fim em tudo, mediante a promoção de uma união religiosa.

            Como costuma acontecer entre os imperadores bizantinos, Justiniano deixou-se levar pelas manhas e persuasões do Bispo monofisita de Cesaréia, Teodoro Askidas. Este disse-lhe que a fórmula de união consistia  em condenar os “cabeças” da escola antioquena que, como vimos, eram especialmente odiados pelos monofisitas:

ora, os cabecilhas (…) eram três: Teodoro de Mopsuéstia, com todos seus escritos, verdadeiro fundamento do nestorianismo; Teodoreto de Ciro, por seus escritos contra São Cirilo de Alexandria; Ibas de Edessa, por uma carta dirigida a Maris de Selêucia em defesa de Teodoro de Mopsuéstia e contra os anatematismos de São Cirilo (ibidem, p. 558)[7].

            O problema é que, na realidade, estes escritos não precisavam de serem condenados, pois todos já o tinham sido a seu devido tempo, e o levantamento de uma questão como esta só iria produzir consequências desastrosas – como de fato as houve –; mas os monofisitas, e em especial Teodoro Askidas,  viram nisso uma oportunidade única para ficar subentendida, aos olhos de todos, a condescendência do imperador com relação à heresia e assim ganhar a aprovação da mesma. Justiniano, não percebendo o que havia por detrás deste jogo, finalmente fez um edito condenando os três capítulos. No oriente a reação foi boa por estar majoritariamente dominado por heresiarcas, mas no ocidente foi como um balde de água fria e a indignação foi geral. Eles bem entenderam que com este edito os heresiarcas estavam atacando diretamente ao Concílio de Calcedônia, pois durante este  Teodoreto de Ciro e Ibas de Edessa tinham-se manifestado como excelentes defensores da ortodoxia.

            Justiniano não ficou só na elaboração do edito; ele foi mais longe, querendo impor a todos os principais cabeças da hierarquia eclesiástica a suscrição do documento, inclusive ao próprio Papa e aos ocidentais, onde encontrava mais resistência.

            O Papa da época, Vigílio, foi convidado, mais bem obrigado, pelo imperador a comparecer a Constantinopla. Bem a contra gosto seu, o Papa dirigiu-se para lá, e uma vez ali, importunado e assediado, tanto pelo imperador como pelo Patriarca da Cidade, Mennas, publicou um manifesto chamado Iudicatum, no qual ele condenava os três capítulos fazendo a devida resalva de que o Concílio de Calcedônia ficava, mesmo assim, resguardado. De nenhuma maneira pode-se afirmar que esta atitude tomada pelo Papa tenha sido doutrinariamente incorreta; fazê-lo implicaria na negação de um dogma de fé: a infalibilidade Pontifícia. Mas podemos dizer, sim, com base em alguns autores[8], que foi uma atitude débil e muito transigente para com o imperador,  comparando-se  com a atitude  tomada por outros que o precederam no trono, como São Leão Magno, cujo exemplo mencionamos mais acima, que em nenhum momento deixou-se levar ou iludir nem pelo imperador, nem por nenhuma outra hierarquia eclesiástica, por mais influente que esta fosse.

            A consequência que, no Ocidente trouxe este manifesto, foi o de abrir ainda mais a ferida feita pelo edito do imperador. Todos os ocidentais viram na atitude do Papa um triunfo do monofisismo; as coisas chegaram a tal ponto que alguns acusaram o Papa de hereje, e um Sinodo em Cartago excomungou-o. À raiz destes e outros acontecimentos o Papa suspendeu seu Iudicatum.

            Pouco tempo depois o imperador voltou novamente à carga, instigado pelos monofisitas, publicando um novo documento intitulado confissão da fé, o qual consistia numa renovação da condenação dos três capítulos. O Papa, que ainda achava-se em Constantinopla, indignou-se com esta atitude e deu  várias manifestações públicas de seu desgosto, o que levou Justiniano a tentar aprisioná-lo. Tendo achado refúgio numa cidade perto de Calcedônia, o Papa lançou uma excomunhão contra Askidas e Mennas bem como a todos os seus partidários. Vendo Justiniano que sua intransigência tinha-o levado muito longe retratou-se e com isso deu liberdade ao Papa para que voltasse ao seu trono pontifício em Roma.

            É impossível não ver em tudo isto um “cesaropapismo bizantino”(ROPS, 1991, p. 187) o mais soberbo e exacerbado da parte de Justiniano. Embora este tenha se destacado muito pela sua política de governo e expansão do império, muito deixou a desejar pela sua política religiosa. Foi este mesmo o motivo que o levou a, mais uma vez, tentar fazer uma derradeira união entre católicos ortodoxos e monofisitas herejes e, como era de se esperar, favorecendo estes últimos.

            Justiniano reuniu um Sínodo em Constantinopla, ao qual compareceram 151 bispos, sendo que somente 6 deles eram ocidentais, procedentes da África. Com a devida “proteção” (no dizer de Rops[9]) das tropas imperiais tudo correu da melhor forma possível, sem percalços . Evidentemente  foram condenados os três capítulos. Mas tudo esteve a ponto de ruir quando o Papa interveio, para a surpresa e consternação geral de todos – especialmente do imperador –, publicando um Constitutum. Nele o Papa optava por um “meio termo: condenava 60 proposições de Teodoro de Mopsuéstia, mas proibia a condenação de Teodoreto e de Ibas”(LLORCA, 2001, p. 562).

            Obviamente esta decisão do Papa não agradou nada ao imperador, quem desencadeou uma nova perseguição contra o Papa, desterrando-o. A propósito desta nova atitude violenta de Justiniano, ROPS nos conta algo que, a não ser pelas testemunhas oculares, simplesmente não seria passível de crédito:

(Justiniano) preparava-se para homologar as doutrinas imperiais, ainda com a esperança – ilusória – de reconduzir os monofisitas à unidade, quando Vigílio, mais uma vez,  atravessou o caminho. Assistiu-se então ao espetáculo de um Papa arrancado pelos soldados da igreja onde buscara refúgio, puxado pelos pés, pelos cabelos e pela barba – tão violentamente que o altar a que se abraçara desmoronou!–, obrigado a fugir e a refugiar-se em Calcedônia, torturado pelos emissários do Imperador, que pretendia obter a sua submissão.

            Depois disto evidentemente o Papa voltou atrás como o fez com seu Iudicatum e escreveu um segundo Constitutum, no qual ele aceitou sem limitações as decisões do Sínodo, tornando-o assim o Segundo Concílio de Constantinopla, e o quinto ecumênico. Foi difícil para o Ocidente aceitar o concílio, mas com o esforço do sucessor do Papa Vigílio, Pelágio I – quem demonstrou  a todos a importância da condenação dos três capítulos – conseguiu-se induzir aos participantes  que  fizessem o mesmo.

            Com isto terminamos de relatar a história do Segundo Concílio de Constantinopla, que foi verdadeiramente emaranhado nas suas “idas e voltas”, mas que não deixa de ser importante para o estudo da “venerável” [por que aspas?] história da Santa Igreja, pois, nela aprendemos varias lições importantes para guardar, como  a forma de agir do mal e como, quando não destruído até as raízes, ele volta a surgir com um requinte de maldade inimaginável.

BIBLIOGRAFIA

Diccionario de las herejías, errores y cismas. Sociedad de literatos. Madrid: Imprenta de D. José Felix Palacios, 1850.

LLORCA, Bernardino, S.I, Pe. Historia de la Iglesia Católica: edad antigua. Tomo I. Madrid: BAC, 2001.

ORLANDIS, José. El pontificado romano en la historia. Madrid: Palabra, 1996.

ROPS, Daniel. A Igreja dos tempos bárbaros. Tomo II. São Paulo: Quadrante, 1991.

WOHL, Louis de. Fundada sobre rocha: história breve da Igreja. Lisboa: Rei dos livros, 1993.


[1] Tradução nossa .

[2] Cf. LLORCA, 2001 pp.350-353, 580-1, 583.

[3]Tradução nossa .

[4]Textos entre parênteses meus.

[5] Tradução nossa .

[6] Tradução nossa  e texto entre parênteses meu texto em itálico do original

[7] Tradução nossa .

[8]Cf. Llorca, 2001, p. 560 e também Rops, 1991, p. 186.

[9]Op. cit. p. 187.