O Mistério do Natal: a Encarnação do Verbo

“Nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado. O poder de governar está nos seus ombros. Seu nome será Conselheiro Admirável, Deus Forte, Pai para sempre, Príncipe da paz” (Is 9, 5).

É difícil imaginar, caro leitor, o gáudio e a felicidade interior experimentada por Maria Santíssima, ao aceitar a proposta do Arcanjo São Gabriel, feita na Anunciação. Com efeito, a Virgem puríssima de Nazaré tornara-se a Mãe do Redentor, do “Salvador”, como o nome Jesus significa. Realizava-se em seu casto seio o sonho de toda mulher hebréia: ser a escolhida por Deus para dar à luz o Messias de Israel. Com um acréscimo: a sua tão amada virgindade permaneceria intacta. Seria Ela a primeira e única Virgem e Mãe na história da humanidade.

Por fim, o longo e penoso período de espera chegara ao seu termo: o povo eleito recebia, no silêncio da humilde casa de Maria, Aquele por quem os patriarcas suspiraram, e a quem os profetas anunciaram, prevendo inclusive, com luxo de detalhes, tantos aspectos e minúcias de sua vida, seus sofrimentos e sua glória.

Ocorreria assim o acontecimento central da história da humanidade: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14), pela ação do Espírito Santo (cf. Lc 1, 35) e pela plena aceitação amorosa e cheia de Fé de Maria. Entretanto, como explicar tão alto mistério? É possível que Deus se torne homem sem deixar de ser Deus?

Pode alguém ser Deus e homem ao mesmo tempo?

A primeira em receber a “boa notícia” do grandioso mistério da Encarnação do Verbo, foi Nossa Senhora. As palavras do Anjo foram explícitas e Ela, a “cheia de graça”, deve tê-las entendido com preclara inteligência. Por um lado, o mensageiro celeste lhe diz: “conceberás e darás à luz um filho” (Lc 1, 31), e, de outro lado, lhe anuncia: “será chamado Filho do Altíssimo” (Lc 1, 32). O que significa claramente, segundo nos explica São Beda[1], que o fruto das entranhas de Maria seria verdadeiro homem e verdadeiro Deus.

Mesmo antes de receber a visita do Arcanjo, Nossa Senhora, agraciada com a plenitude dos dons do Espírito Santo, devia perscrutar as Escrituras com finíssima atenção, compreendendo amplamente seu significado. Antes de tudo, é conjecturável que procurasse Ela compor a fisionomia moral do Messias esperado. É essa a opinião de São Leão Magno: “Deus elege uma Virgem da descendência de Davi, e esta Virgem, destinada a levar no seio o fruto de uma sagrada fecundação, antes de conceber corporalmente a sua prole, divina e humana ao mesmo tempo, a concebeu em seu espírito”[2].

Lendo com Maria as profecias sobre a Encarnação

Certamente, da leitura dos pergaminhos contendo  os trechos das Escrituras, terá Ela se impressionado vivamente diante dos anúncios gloriosos dos profetas a respeito do Messias esperado, como por exemplo, ao ler estas palavras de Miquéias:

“Mas tu, Belém de Éfrata, pequenina entre as aldeias de Judá, de ti é que sairá para mim aquele que há de ser o governante de Israel. Sua origem é antiga, de épocas remotas. […] Ele se levantará para apascentar com a força do Senhor, com o esplendor do nome do Senhor seu Deus” (Mq 5, 1-3).

Também em Isaías encontraria Nossa Senhora trechos empolgantes e grandiosos: “Nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado. O poder de governar está nos seus ombros. Seu nome será Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai para sempre, Príncipe da paz” (Is 9, 5).

Porém, leitora atenta da Palavra de Deus, Maria Santíssima não deve ter deixado de considerar outros aspectos do anúncio profético do Messias. Aspectos esses quiçá não tão compreendidos no seu tempo, pois muitos esperavam sobretudo um Messias triunfador, um libertador político. Todavia, a Revelação era clara:

“[O meu servo] era o mais abandonado e desprezado de todos, homem do sofrimento, experimentado na dor, indivíduo de quem a gente desvia o olhar, repelente, dele nem tomamos conhecimento. Eram na verdade os nossos sofrimentos que ele carregava, eram as nossas dores, que levava às costas. E achávamos que ele era um castigado, alguém ferido e massacrado por Deus. Mas estava sendo traspassado por causa de nossas rebeldias, estava sendo esmagado por nossos pecados. O castigo que teríamos de pagar caiu sobre ele; com os seus ferimentos veio a cura para nós. Como ovelhas estávamos todos perdidos, cada qual ia em frente por seu caminho. Foi então que o Senhor fez cair sobre ele o peso dos pecados de todos nós” (Is 53, 1-6).

Diante desse panorama tão complexo, como seria então o Messias, o esperado das nações? Por um lado, grande e potente, chamado de “Deus Forte”, com mando e governo, mas, de outro lado, homem de dores, vítima de expiação dos pecados dos homens. Como se realizariam esses extremos, aparentemente contraditórios, na mesma pessoa?

No convívio com o Homem Jesus

Para Nossa Senhora esse enigma deve ter-se tornado paulatinamente mais claro depois de conceber o Deus humanado e conviver com Jesus. O Menino que “crescia e se fortalecia, cheio de sabedoria” (Lc 2, 40), dava provas irrefutáveis de ser homem verdadeiro, e, ao mesmo tempo, Deus verdadeiro. Assim, a mesma criança que se alimentava e dormia como todas as outras, ao ser interrogada por seus pais, no episódio da perda e do encontro no Templo de Jerusalém, por que havia se separado deles, responde de forma surpreendente: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo estar naquilo que é de meu Pai?” (Lc 1, 49). Nossa Senhora guardou essas palavras no seu coração (cf. Lc 1, 51).

E, durante os trinta anos de vida oculta, que conversas não terá havido, ao cair da tarde, entre São José, Nossa Senhora e Jesus, a respeito da Pessoa e da missão do Filho de Deus feito Homem? Todavia, as silenciosas paredes da Santa Casa de Narazé são as únicas testemunhas mudas desse convívio íntimo da Sagrada Família!

Na vida pública de Jesus – acompanhada com discrição por Nossa Senhora – Nosso Senhor revelou-se claramente diante dos apóstolos, dos discípulos e do povo enquanto Filho de Deus e Filho do Homem.

Com efeito, os Evangelhos nos narram que Jesus teve fome (cf. Mt 4, 2) e dormira (cf. MT 8, 24), que, no meio do caminho, sentiu cansaço (cf. Jo 4, 6), e diante do túmulo de Lázaro chorou de pena pela perda do amigo muito amado (cf. Jo 11, 35). E, no auge destas provas de sua humanidade, conta-nos São Mateus, como diante da sombria perspectiva da paixão, sua alma sentiu uma tristeza de morte (cf. Mt 26, 37-38). Atitudes e sentimentos esses que caracterizam a sua verdadeira e completa natureza humana.

E sua Divindade?

São prolixos também os testemunhos das Escrituras sobre a divindade de Jesus. No evangelho de São João, Cristo declara diante do povo reunido que Ele e o Pai são um (cf. Jo 10, 30). Em São Mateus encontramos a feliz declaração de Fé de Pedro, ratificada por Jesus:

E vós, retomou Jesus, quem dizeis que sou eu? Simão Pedro respondeu: tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Jesus então declarou: Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne e o sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”. (Mt 16, 16-17).

A essas afirmações claras deve-se juntar a consideração dos fatos de sua vida. Jesus demonstrou ser o Filho de Deus pelo poder e a autoridade própria com que realizou inúmeros milagres. Pôs em evidência ter um domínio absoluto sobre doenças, na época totalmente incuráveis, como a Lepra (cf. Lc 17, 11-19) e a paralisia (cf. Jo 5, 1-9), inclusive, sobre a mesma morte ressuscitando, por exemplo, o filho da viúva de Naim (cf. Lc 7, 11-17). Obedeciam-lhe as forças da natureza. Baste lembrar nesse sentido a multiplicação dos pães e dos peixes (cf. Mt 14, 13-21) e a furiosa tempestade acalmada a uma ordem sua (cf. Mt 8, 23-27).

Mas o evento no qual Ele mostra de forma mais patente sua divindade, foi na sua própria Ressurreição. Primeiro, profetizando-a (cf. Mt 20,19), e depois cumprindo à risca sua própria previsão: “Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por própria vontade. Eu tenho poder de dá-la, como tenho poder de recebê-la de novo. Tal é o encargo que recebi do meu Pai” (Jo 10, 18).

Depois da consideração atenta do testemunho infalível das Escrituras, ainda resta-nos a pergunta: Sim, cremos que Jesus é Deus e homem verdadeiro mas, como explicar essa realidade?

Como explicar o mistério da Encarnação

Sabemos, segundo nos ensina São Leão Magno, que “o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, sobrepuja toda inteligência e transcende todos os exemplos que poder-se-iam utilizar”[3]. Porém, graças à Divina Revelação e sob a direção do Espírito Santo, a Igreja, se não chega a compreender ou abarcar todo o mistério, tem-no formulado com precisão, longe de todo erro.

No início do cristianismo, quando a doutrina dos apóstolos foi recebida no mundo grego, iniciou-se a tentativa de traduzir para as categorias próprias da filosofia o conteúdo da Revelação. Neste processo, alguns desviaram-se da verdade, defendendo doutrinas errôneas, mediante as quais procuravam fazer encaixar dentro dos estreitos limites da razão humana o mistério de Deus humanado.

As dificuldades encontradas pelos estudiosos das Escrituras, a respeito da compreensão do mistério se cifravam, principalmente, em duas tendências opostas, descritas a seguir em grandes traços. Alguns, tendo dificuldade em compreender como em uma mesma pessoa pudessem coexistir duas realidades, tal como, Deus e o homem, quiseram propor, como resultado da Encarnação, uma única pessoa, na qual estariam misturadas qualidades divinas e humanas. Outros, distinguindo perfeitamente a humanidade de Cristo e sua Divindade, e não logrando explicar como essas duas naturezas poderiam coincidir na mesma pessoa, propuseram que Cristo era unido a Deus como todos os santos o são, mediante a graça e a inabitação. Concluindo erroneamente tratar-se de duas pessoas distintas, uma divina e outra humana, a qual seria adotada por Deus de forma especial.

A voz da Igreja através dos Papas e dos concílios

A Santa Igreja de Deus, situando-se no centro de ambas posições, através do V Concílio ecumênico, confessa a união de Deus Verbo com a carne, segundo a união de composição, ou seja, segundo a hipóstasis[4]. Hipóstasis é um termo grego que deriva do verbo sustentar, pois toda natureza racional não existe por si mesma senão sustentada por uma pessoa. Ora, a natureza humana de Cristo era sustentada pela segunda pessoa da Santíssima Trindade.

A Igreja convocou os concílios ecumênicos, nos quais foi declarada e explicitada, em termos cada vez mais precisos, a verdade sobre a encarnação do Filho de Deus. O primeiro destes grandes Concílios realizou-se em Nicéia (ano 325). Lá os padres compuseram o Credo que, com alguns detalhes acrescidos no Concílio de Constantinopla (ano 381), recita-se nas nossas missas dominicais. Eis um trecho significativo do credo niceno:

“… [Cremos] em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai, isto é, da substância do Pai, […] gerado não criado, consubstancial ao Pai, por Quem foram feitas todas as coisas […], que por nós homens e para nossa salvação, desceu dos céus e Se encarnou e Se fez homem, padeceu e ressuscitou …”[5].

Anos mais tarde, no Concílio de Éfeso (ano de 431), ficaria ainda mais clara a questão da Encarnação. Os padres conciliares esclarecem que em Cristo há duas naturezas – a divina e a humana – unidas, sem confusão, na Pessoa única e divina do Verbo. Na carta escrita por São Cirilo de Alexandria ao herege Nestório, lida e aprovada pelos padres conciliares, assim explicita o grande patriarca a doutrina cristã:

“E embora sejam distintas as naturezas, unidas porém por uma verdadeira união, dessa unidade resulta um só Cristo e Filho; não que se suprima, pela união, a diferença de naturezas, mas porque a divindade e a humanidade, nesta misteriosa e inefável união, constituem para nós, um só Senhor, e Cristo, e Filho”[6].

E o patriarca João de Antioquia, então pastor dessa cidade, assim formulou a mesma Fé em termos aceitos plenamente por São Cirilo e pela Igreja. Confessa ele que Cristo é, ao mesmo tempo, “perfeito Deus e perfeito homem”, gerado pelo Pai desde todos os séculos, isto é, desde a eternidade, antes do tempo, e “nos últimos tempos, por nós e por nossa salvação”, nascido da Virgem Maria segundo a humanidade. Desta confissão de Fé destaca-se uma afirmação belíssima: Jesus é “consubstancial ao Pai segundo a divindade e consubstancial a nós segundo a humanidade”[7]. Para o patriarca João, a união da divindade e da humanidade dá-se sem confusão, de forma que a divindade em nada fica diminuída pela humanidade, nem esta última absorvida pela divindade.

Mas foi no Concílio de Calcedônia (451), com a assistência de 600 bispos, onde, graças ao gênio do Papa São Leão Magno, a doutrina da Igreja atinge um auge de explicitação a respeito desse mistério, distinguindo claramente na Pessoa do Verbo encarnado duas naturezas intimamente unidas, mas sem confusão:

“Deve-se se reconhecer um só mesmo Cristo Senhor, Filho Unigênito, em duas naturezas, sem confusão, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis, de nenhum modo suprimida a diferença das naturezas por causa de sua união, mas salvaguardada a propriedade de cada natureza e confluindo numa só Pessoa, não separado ou dividido em duas pessoas, mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus-Verbo …”[8]

Portanto, Cristo é Deus, com o Pai e o Espírito Santo, desde toda a eternidade, e, homem verdadeiro, pois uniu à sua pessoa a natureza humana completa, capaz de conhecer e amar como homem, capaz de sentir e sofrer até a morte[9].

Encarnação, o amor pede o amor

Diante de tão grande mistério, os cristãos devem dar infinitas graças a Deus pela sua bondade. O Filho de Deus, desceu à terra, no seio puríssimo da sempre Virgem Maria, para salvar e resgatar o homem, abrindo-lhe as portas do paraíso fechado e fazendo-nos partícipes da família de Deus. É uma verdade altamente comovente! Como diria São Tomás: “Cristo assumiu um corpo animado, e dignou-se nascer da Virgem, para nos entregar sua divindade; fez-se homem, para fazer o homem Deus” [10].

Por isso, diante do mistério da Encarnação, devemos ter presente o grandíssimo amor de Deus para o gênero humano. Nesse sentido, nos exorta São Tomás:

“… nenhum indício é mais evidente da caridade divina que o de Deus, criador de todas as coisas, fazer-se criatura; o do Senhor nosso, fazer-se nosso irmão; o do Filho de Deus, fazer-se filho de homem. Lê-se em São João (Jo 3, 16): tanto Deus amou o mundo, que lhe deu o Seu Filho. Pela consideração dessa verdade, deve ser reacendido, e de novo em nós afervorado o nosso amor para com Deus”.[11]

Pe. Carlos Werner Benjumea, EP


[1] Beda, Homilías sobre los Evangelios, 1, 3. CCL 122, 16.

[2] São Leão Magno, Sermón 1, En la Natividad del Señor, 2. 3: PL 54, 191-192.

[3] São Leão Magno, Sermão, 30, 4, CCL 138, 155: BAC 291, 117.

[4] S. Th. 3, q. 2, a.6, resp.

[5] COLLANTES, Justo. A Fé Católica, Documentos do Magistério da Igreja, p. 284. Trad. Paulo Rodrigues. Rio de Janeiro: Lumen Christi, 2003.

[6] Ibidem.

[7] Ibidem.

[8] Ibidem.

[9] Cf. São Leão Magno, Sermão 1, en la Natividad del Señor, 2.3: PL 54, 191-192.

[10] São Tomás de Aquino. Exposição sobre o Credo. São Paulo: Loyola, 1981, p. 43.

[11] Ibidem.

Cristo: Deus ou homem?

1. Um misterioso personagem

Nascido na Síria de pais persas, quando menino foi para Antioquia, onde provavelmente teve por professor Teodoro de Mopsuéstia (um dos pioneiros da doutrina errônea da dupla personalidade de Cristo). Mais tarde sentiu vocação para a vida religiosa e entrou no convento de Euprepios, próximo de Antioquia. Dada a sua notável eloquência, chamaram-no de “segundo Crisóstomo”, e Teodósio II o enviou para a sede patriarcal de Constantinopla. Eleito patriarca de Constantinopla no ano de 428, redobrou desde então seu zelo na instrução do povo e na luta contra as diversas heresias. Apresentava-se sempre como homem religioso, reformador do povo e do clero. Com sua vida ascética e com o fogo de suas palavras encantava aos que lhe escutavam. Apesar de sentir-se seguro da ortodoxia e clareza de sua doutrina, encontrou dificuldades na Nova Roma por causa das suas expressões cristológicas, que estranhavam alguns ouvidos habituados a outras formas de pensamento. Seu nome era Nestório.

Certo dia, um sacerdote da sua confiança, chamado Anastásio negou publicamente, contra o beneplácito geral das pessoas, que Nossa Senhora era Mãe de Deus (Theotókos). Qual não foi a surpresa do povo ao verem que o arcebispo Nestório também defendia e começava a pregar esta doutrina. Afirmava que Maria é mãe da natureza humana de Cristo e por isso deve ser chamada Mãe de Cristo (Christotókos). Porém de nenhum modo pode uma mulher engendrar a Deus, portanto não é Mãe de Deus. Ela deu à luz o homem no qual habitou o Verbo, o Filho de Deus.

Formaram-se assim duas correntes: a que defendia a maternidade divina e a que a negava. Atentemo-nos ao seguinte fato:

“Numa ocasião em que Proclo, candidato sem êxito para a sede de Constantinopla, exaltava a Theotókos num sermão na presença do arcebispo de Constantinopla, tomando este em seguida a palavra, sentiu-se no dever de reprimir sua importuna distinção. Eis aqui quando se originam as duas facções.” (GER vol. XVI, p. 758. Madrid, 1973. Tradução minha) [1]

2. A doutrina herética

Inicia-se desta forma uma verdadeira guerra. Nestório promove uma reunião com os seus e condena aos defensores da Mãe de Deus. A resposta destes, não tarda, pois certo dia apareceu nas portas da Igreja de Santa Sofia um cartaz no qual estavam colocadas as afirmações do Patriarca herege condenando quem dissesse que: um é o do Pai gerado antes de todos os séculos, e outro é o que nasceu da Virgem Maria.

Esta nova doutrina apresentava uma série de consequências desastrosas para a Igreja, pois, segundo ela, a humanidade de Cristo, que foi a que sofreu as dores da paixão, não pôde redimir o mundo com uma redenção superabundante e infinita, porque era limitada, finita. A redenção ficava com isto destruída. E a religião católica perdia seu significado.

Desta forma, não se podia dizer Verbum caro factum est (o Verbo se fez carne), e muito menos aplicar-lhe certas expressões do Evangelho que aludem à sua divindade; pois por muito que se queira ponderar a união das supostas duas pessoas, divina e humana, em Cristo, não se conseguirá que as ações da pessoa humana se atribuam com propriedade à pessoa divina. Erro nefasto!

O primeiro a reagir com energia contra a campanha nestoriana foi Eusébio, sacerdote, e futuramente bispo, de Doriléia. Em seguida o seu amigo Proclo uniu-se a ele. Ambos tiveram eminente papel na defesa da ortodoxia, sobretudo no âmbito cristológico.

Nestório, porém, não demora em dar uma resposta à ofensiva Alexandrina. Acusou os religiosos que se opunham a suas idéias, de promoverem a desordem pública, e valendo-se de sua autoridade e influência conquistou o poder público, fazendo prender e maltratar os tais religiosos, já que não podia refutar seus argumentos. Inconformado com a situação Nestório teve a petulância de informar o Papa São Celestino I, o qual demorou em responder-lhe.

3. Intervenção de São Cirilo de Alexandria

Neste ínterim, a notícia da nova heresia chegou aos ouvidos de São Cirilo de Alexandria que tomou a decisão de combatê-la tenazmente. Escreveu aos religiosos explanando a doutrina verdadeira da Igreja sobre a Encarnação e a Theotókos (maternidade divina), sem fazer nenhuma menção a Nestório. No fim do ano 429, São Cirilo escreve por primeira vez a Nestório advertindo-o dos rumores que corriam na região acerca de suas doutrinas, e lhe pede explicações. Este contestou abertamente convidando o santo à moderação cristã. No início de 430, São Cirilo escreve sua famosa segunda carta a Nestório expondo a doutrina católica sobre a Encarnação. Destacamos aqui um trecho:

“Não dizemos, de fato, que a natureza do Verbo foi transformada e se fez carne, mas também não que foi transformada em um homem completo, composto de alma e corpo; antes, porém, que o Verbo uniu segundo a hipóstase a si mesmo uma carne animada por uma alma racional e veio a ser homem, de modo inefável e incompreensível, e foi chamado filho do homem, não só segundo a vontade ou o beneplácito, nem tampouco como assumindo somente a pessoa; e que <são> diversas as naturezas que se unem numa verdadeira unidade, mas só um Cristo e Filho <que resulta> de ambas; não porque a diferença das naturezas tivesse sido cancelada pela união, ao contrário, porque a divindade e a humanidade, mediante seu inefável e arcano encontro na unidade, formaram para nós um só Senhor e Cristo e Filho…” (D 250).

Além de explanar a doutrina da Encarnação não deixou de esclarecer a da Theotókos insistindo assim, em fazer o Patriarca de Constantinopla reconhecer a insuficiência de suas idéias e retornar ao caminho da sã doutrina. Eis o trecho que sustenta a doutrina da maternidade divina da Virgem Maria:

“Com efeito, não nasceu antes, da Santa Virgem, um homem qualquer, sobre o qual depois desceria o Verbo, mas se diz que <este>, unido desde o útero materno, assumiu o nascimento carnal, apropriando-se o nascimento de sua própria carne. (…) Por isso, [os santos Padres] não duvidaram chamar a santa Virgem de Deípara [que deu à luz Deus], não no sentido de que a natureza do Verbo ou sua divindade tenha tido origem da santa Virgem, mas no sentido de que, por ter sido dela o santo corpo dotado de alma racional ao qual estava unido segundo a hipóstase, o Verbo se diz nascido segundo a carne.” (D 251)

Nestório escreve também a São Cirilo uma carta, que se tornará famosa porque será lida e condenada publicamente no concílio de Éfeso. Nela afirma novamente que não se pode chamar Maria Mãe de Deus, mas apenas Mãe de Cristo:

“A divina Escritura, sempre que lembra a economia da senhorial salvação, atribui o nascimento e a paixão não à divindade mas à humanidade de Cristo, de modo que, em termos mais corretos, a santa Virgem é chamada Cristípara e não Deípara.” (D 251d)

Novamente insiste na distinção de duas naturezas em Cristo e acusa São Cirilo de apolinarista, fundamentando suas palavras numa má interpretação da tradição evangélica:

“É certo e conforme à tradição Evangélica confessar que o corpo é o templo da divindade do Filho, templo no sentido de uma e divina conjunção dos <elementos> unidos, de modo que a divina natureza se apropria aquilo que pertence a este <templo>. Mas quando ao termo apropriação se associam as propriedades da carne adjunta, quero dizer, o nascimento, a paixão e a morte, isso aí, ó irmão, é coisa de um pensamento errôneo, à moda dos gregos <=pagãos>, ou afetado pelo desvario de Apolinário, de Ario e de outras heresias…” (D 251e)

4. Sansão à heresia

Ao perceber que seus esforços eram nulos, São Cirilo escreve cartas a fim de conquistar partidários contra Nestório. Preocupa-se em fazer um dossiê com um florilégio de textos patrísticos. Finalmente apelou a Roma escrevendo ao Papa São Celestino I contando tudo que havia sucedido. Com a carta mandou textos das pregações de Nestório, uma síntese dos seus erros, os textos patrísticos que ele, São Cirilo, havia elaborado e a cópia de suas cartas ao herege.

Com isto o Sumo Pontífice ficou suficientemente informado sobre a situação da Igreja do Oriente, e logo tomou sérias medidas para frear os erros de Nestório. Em agosto de 430 convocou um sínodo em Roma para condenar a doutrina nestoriana. Enviou cartas aos principais bispos do Oriente, ao clero e ao povo de Constantinopla. Também Nestório recebeu uma carta na qual o Papa apoiava a cristologia ciriliana e dizia que se, em dez dias, ele não se retratasse por escrito de todos os seus erros e se unisse a Alexandria, seria excomungado.

São Cirilo foi nomeado como encarregado de levar a cabo a sentença contra Nestório em nome da Santa Sé. Convocou em novembro deste mesmo ano um sínodo em Alexandria, no qual renova a condenação de Nestório e escreve uma terceira carta expondo novamente os verdadeiros princípios sobre a Encarnação e enumera doze anátemas contra a doutrina nestoriana.

Enquanto isso, Nestório tentou conseguir apoio do Imperador. Este decidiu convocar um concílio. Teodósio II comunicou aos bispos do Oriente e ao Papa seu plano de celebrar um concílio ecumênico em Éfeso que foi o terceiro da cristandade. Neste concílio a doutrina nestoriana foi definitivamente condenada, e a salvaguardada a doutrina da unidade de Pessoa em Nosso Senhor Jesus Cristo, e como consequência a maternidade divina da Virgem Maria.

Por Luiz Carlos da Silva

BIBLIOGRAFIA

CAROL, Juniper B., O. F. M.. Mariologia. Trad. Maria Angeles G. Careaga. Madrid: B. A. C., 1964.

DENZINGER, Heinhich. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. Trad. José Mario Luz e Johan Konings. São Paulo: Paulinas, Loyola, 2007.

ENCICLOPEDIA MARIANA “THEOTÓKOS”. Trad. Dom Francisco Aparicio. Madrid: Studium, 1960.

GRAN ENCICLOPEDIA RIALP. Tomo VII e XVI. Madrid: Rialp, 1972.

LLORCA, Bernardino, S. I.. Historia de la Iglesia Católica. Vol. I, Edad Antigua. 8a edição. Madrid: B. A. C., 2001.

PIO XI. Lettera Enciclica Lux Veritatis. 25 de dezembro de 1931. Disponível em <www.vatican.va> acessado em 15 de maio de 2009.


[1] En una ocasión en que Proclo, candidato sin exito para la sede de Contantinopla, exaltaba la Theotókos en un sermón pronunciado en presencia del arzobispo de Constantinopla, tomando éste seguidamente la palabra se sentió en el deber de recalcar su inoportuna distinción. Es aquí cuando se originan las dos facciones.

Eucaristia: enorme prova do amor de Cristo

Nosso Senhor Jesus Cristo que curava, exorcizava ou ressuscitava quando via, diante de si, corações receptivos ao divino dom da Fé. Com toda glória que manifestou no Thabor, com toda a sublimidade da sua agonia no Gólgota, Ele vem hoje até nós e se faz realmente presente, oculto sob as espécies eucarísticas.

Pungente situação

Reportemo-nos às estepes de Jerusalém há mais de dois mil anos. Coloquemo-nos no lugar de um desses privilegiados homens que tiveram a oportunidade de ouvir algo acerca de Nosso Senhor Jesus Cristo: Mestre prodigioso em milagres, andava pelas estradas da Galiléia e da Judéia, curando leprosos, ressuscitando mortos, ensinando uma doutrina impregnada de paz e de amor ao próximo. Se um de nós fosse à sua procura, entrasse na cidade de Jerusalém, precisamente naquela histórica Quinta-Feira Santa à noitinha… Procurasse um albergue e fosse dormir na esperança de, no dia seguinte, encontrar pessoalmente esse Jesus, falar com Ele, fitar o seu olhar e, mais que tudo, ser olhado por Ele!

Inesperadamente, fosse acordado de madrugada com tumultos, correrias, agitações e, saindo à rua, visse esse Divino Homem ensanguentado, carregando uma imensa cruz, injuriado pelos soldados, pelos algozes, pelo populacho… Assistisse à sua Crucifixão, à sua Morte e, desolado, voltasse para a hospedagem pensando n’Ele, lembrando-se d’Ele, e horrorizado com tudo o que acabava de presenciar…  Tempo depois, quando já estivesse longe da Cidade Santa, ouvisse correr um rumor reconfortante: “Olhe, aquele Jesus de Nazaré ressuscitou! E, quarenta dias depois, subiu prodigiosamente aos Céus!”. Qual poderia ser a nossa atitude diante de uma situação dessas?

Não fomos abandonados

Um ilustre líder católico brasileiro respondia que se tivesse assistido a Morte de Nosso Senhor e depois soubesse da sua Ressurreição e Ascensão, ainda que não conhecesse a existência da Sagrada Eucaristia, começaria a procurar Jesus Cristo pela Terra, pois não conseguiria se convencer de que tão augusta presença tivesse deixado o convívio dos homens… Um Deus feito carne nunca mais poderia nos abandonar. Por isso, tudo clamava, tudo bradava, tudo suplicava para que esse convívio adorável não cessasse, ou seja, que Ele permanecesse de algum modo no mundo.

Em todos os sacrários da Terra, nos quais a hóstia consagra se encontra, tanto em magníficas catedrais quanto em minúsculas igrejinhas, a todo momento, Nosso Senhor Jesus Cristo está realmente presente, oculto sob a espécies eucarísticas, tal como nas ruas de Jerusalém, Nazaré, Cafarnaum, Belém. Esse mesmo Senhor que curava, exorcizava ou ressuscitava, quando via, diante de si, corações receptivos ao divino dom da Fé que vinha concedendo.

Realmente, o que seria de nós se o Filho de Deus não tivesse permanecido realmente presente, sob sagradas espécies? Se ouvíssemos relatar apenas uma recordação histórica: “Há mais de dois mil anos, houve uma época bem aventurada, na qual Deus habitou entre os homens, em corpo e alma verdadeiros, mas depois de ter sido morto e ressuscitar, subiu aos Céus e até hoje nunca mais retornou? Quando o fará? Não o sabemos…”. Entretanto, tendo Ele permanecido conosco “todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20), a Igreja, “pela transubstanciação do pão e do vinho no Corpo e no Sangue do Senhor, goza dessa presença com uma intensidade sem par”.[1]

Os motivos do Redentor

Quando estamos diante d’Ele ou recebemos a Comunhão, beneficiamo-nos de maneira inefável da sua sacrossanta presença. Mas, só isso não bastou ao infinito amor de Cristo. Ele não se conformou em apenas perpetuar o seu convívio conosco, pois, na celebração da Santa Missa, Nosso Senhor quer nos conceder as mesmas graças que poderíamos ter recebido se tivéssemos estado pessoalmente no Calvário, junto à Cruz. Se na hóstia, “Jesus Cristo se oferece à nossa adoração e como nutrição à nossa alma, durante a Missa, Ele se entrega a nós como nossa vítima”.[2] Assim, três são os principais motivos pelas quais Nosso Divino Redentor quis instituir o Santíssimo Sacramento do altar: para perpetuar a sua Presença Real entre nós; 2º para habitar nosso interior por meio da Comunhão; 3º para renovar incruentamente o seu Santo Sacrifício do Calvário.

Desde aquela sublime primeira Eucaristia, celebrada na Quinta-Feira Santa, até a última que tenha terminado, em algum lugar longínquo da Terra, há poucos segundos, ao operar-se o sublime milagre da Transubstanciação, pelo qual Cristo se faz realmente presente, outro mistério extraordinário se patenteia: “Sempre que no altar se celebra o sacrifício da Cruz, na qualCristo, nossa Páscoa, foi imolado’ (1 Cor 5, 7), realiza-se também a obra da nossa Redenção”.[3] Sim, renovam-se realmente, embora sem derramamento de sangue, a Paixão e a Morte de Nosso Senhor. Mesmo na Última Ceia, a própria “Instituição da Eucaristia antecipou, sacramentalmente, os acontecimentos que teriam lugar pouco depois”.[4]

As próprias palavras da Consagração o atestam. Com efeito, o celebrante “não diz somente: ‘Este é o cálice do meu Sangue’, mas ainda acrescenta: ‘derramado por vós e por muitos, para remissão dos pecados’. Ora, tendo sido infalivelmente cumpridas as primeiras palavras, também devem sê-lo as últimas”.[5] Assim, nesse extraordinário milagre eucarístico, por certo, quotidiano, opera-se uma efusão espiritual do preciosíssimo Sangue, sobre as almas dos fiéis, e “essa aspersão espiritual é infinitamente mais eficaz do que a material”.[6]

Que resposta daremos ao amor divino?

Os carrascos que torturaram nosso Divino Redentor seguramente viram os seus corpos tintos pelo adorável Sangue e, contudo, parece não terem se beneficiado dele. Apenas o soldado que lhe atravessou o lado, segundo uma antiga tradição, foi curado do defeito de um dos seus olhos, quando o precioso líquido tocou-lhe a pálpebra e, graças a esse milagre, passou a seguir aquele Crucificado que, mesmo quando era ferido, retribuía o bem.

Sem dúvida, o poder ter sido irrigado pelo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, teria sido um privilégio extraordinário, se essa altíssima dádiva fosse acolhida com verdadeira Fé. Mas, talvez ela pudesse apenas ficar na superfície dos nossos corpos, sem causar algum efeito interior. No Santo Sacrifício da Missa, porém, “a aspersão espiritual desse Sangue adorável, purifica, santifica e adorna as nossas almas”,[7] alcança-nos profundo arrependimento para confessar as faltas  cometidas, aumenta a Graça Santificante de quem já a possui e cumula de méritos e de forças o cristão fiel, a fim de enfrentar todos os obstáculos que visam afastá-lo do caminho da sua eterna salvação. Quanto amor devemos, pois, “Àquele que nos ama e  que nos lavou de nossos pecados no seu Sangue (Ap 1, 5)!

Por Sebastián Correa Velásquez


[1] João Paulo II. Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia. n. 1.

[2] Cochem, Martin von. Explicação da Santa Missa. 2 ed. Bahia: São Francisco, 1914, p. 66. (Os trechos citados deste autor foram  adaptados da gramática do português antiga para a atual).

[3] Conc. Vaticano II. Constituição dogmática Lumen gentium. n. 3.

[4] João Paulo II. Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, n. 3.

[5] Cochem, Martin von. Op. Cit., p. 138.

[6] Id. ibid., p. 143.

[7] Loc. Cit.

Por que Maria é Mãe da Igreja? Parte II

Continuação…

Sim! Há uma outra razão. Aquele seu primeiro “Fiat” não foi apenas uma resposta momentânea. Ao longo da vida de Nosso Senhor, Maria foi acompanhando sua existência com um longo e ininterrupto “Fiat”.

Vemos a cena do nascimento do Divino Menino Jesus, acontecimento passado, que está presente a brilhar em nossos presépios, constituindo os momentos mais felizes e inocentes de nossa vida nesta vale de lágrimas. Podemos imaginar com que cuidados, com que desvelo a melhor de todas as mães protegia seu Filho adorável contra as intempéries do clima agreste daquelas regiões do Oriente Médio, procurando dar-Lhe tudo o que seu Coração Imaculado e Maternal discernia em sua Face Sagrada.

Apesar do amor materno ser profundo, forte e caloroso, o de Nossa Senhora é muito maior que todos os que possam ter existido: “Maria era Mãe. Porém, que Mãe, e de que Filho! Era a Mãe mais perfeita, mais pura, mais fiel, mais terna, mais mãe, e do Filho melhor, mais perfeito, mais amável e mais filho.

“Era Mãe; porém, Mãe Virgem. Aqui se perde e se confunde o pensamento. (…) Quem pode compreender a riqueza de tal coração, em que os afetos contrários se multiplicam para produzir um amor supremo?

“Era Mãe, e Mãe de Deus: que novo abismo! (…) O amor materno e o amor divino reciprocamente se penetravam n’Ela, para formar o amor mais excelente, mais forte, mais justo, mais sagrado, mais natural, mais sobrenatural, o mais absoluto, em uma palavra, o mais maravilhoso de todos os amores.”[1]

Qual não terá sido sua aflição quando o Anjo aparece a São José num sonho dizendo que eles precisavam fugir para o Egito? Aquela Mãe tão carinhosa ver seu Filho em tão tenra idade objeto do ódio e da perseguição. Que dor não lhe terá assaltado quando tomou conhecimento do criminoso morticínio das crianças menores de dois anos por causa de seu Filho. Quanta dor! Isso não era senão um pálido prenúncio de tudo quanto Ela ainda teria de sofrer. Maria não titubeia, e não retira o seu “Fiat”.

Quando Maria vai ao Templo para apresentar seu Filho diante do sacerdote e escuta Simeão profetizar que o Ele viria a ser sinal de contradição e que uma espada trespassaria o Coração de tão terna Mãe[2], Ela entrevê o martírio horroroso pelo qual seu Divino Filho iria passar, e mais uma vez pronuncia o seu “Fiat”.

Não é concebível que Nossa Senhora ignorasse o que aconteceria com seu Filho. Ela conhecia todos os sofrimentos pelos quais, com sua aceitação, Ele iria passar. Entretanto, Maria não duvidou. Por amor a Deus e aos homens consentiu – em união com o Pai Celeste –  em entregar seu Filho para resgatar a humanidade pecadora. E durante toda a vida Maria pronunciou claro e forte o “Fiat” que salvaria a humanidade.

Chega o momento bendito, glorioso e terrível. “Quando estava ao pé da Cruz, o Padre Eterno pediu-Lhe consentimento para que Nosso Senhor Jesus Cristo fosse morto. Ela que poderia ter dito não — o Padre Eterno estava querendo pôr nas mãos d’Ela o destino de seu Filho — disse sim. Disse sim para salvar as almas dos homens. Se Ele não morresse, não haveria Céu para nós.

Nessa hora em que Ela disse sim, Ele ficou entregue aos horrores da morte. Ela viu seu Filho dizer ao Padre Eterno: ‘Meu Pai, meu Pai, por que me abandonastes?’ O que tinha um pouco o sentido: ‘Minha Mãe, minha Mãe, por que consentistes?’ Mas Ela quis. E quando Ele expirou, o gênero humano estava redimido.”[3]

Maria demonstrou assim seu amor por nós quando aceitou entregar seu Filho Unigênito à ignominiosa morte na Cruz. “No altar do Gólgota, podemos observar três amores participando do mesmo sacrifício. Para a salvação do mundo, o Padre Eterno entregou seu Unigênito Filho, o Verbo Encarnado sua própria vida, e a Virgem seu Filho adorado. Não temos senão um único Redentor, o Cordeiro imolado sobre a Cruz; é justo. Mas, a Mãe admirável que O educou para o Calvário e que, chegado o momento, formada e preparada por Ele, O ofereceu por nosso resgate, num mesmo ideal de amor esta Mãe não tem direito ao título de Co-redentora?”[4]

Continua na próxima semana…


[1] NICOLAS, Auguste. La Virgen María y el plan de Divino. T. II. Barcelona: Librería Religiosa, 1866. p. 349 e ss.

[2] cfr. Luc. 2, 34-35

[3] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência para jovens. 21 out. 1989. Arquivo ITTA.

[4] BOULLAYE. H. Pinard de La. Marie, Chef-d’Oeuvre de Dieu. Paris: Spes, 1948. p. 115-116.

Saudade de Jesus e Assunção de Maria

Nossa Senhora do Brasil, São Paulo
Nossa Senhora do Brasil, São Paulo

No Céu, em meio à felicidade suprema, aguardam todas as almas fiéis e amantes de Deus, o grande dia da Ressurreição, a fim de recuperarem seus corpos, dos quais a morte as separou como um dos trágicos efeitos do Pecado Original. O próprio Jesus quis passar por esse transe, a fim de realizar a Redenção através do sofrimento perfeito.
Maria Santíssima, por ser Co-redentora, teria experimentado as dores do falecimento? A esse respeito assim se expressou o nosso atual Papa, João Paulo II: “Esse final da vida que para todos os homens é a morte, no caso de Maria, a Tradição mais bem o chama de Dormição” (Homilia de 15/8/1979, em Castelgandolfo).
Morte ou Dormição, a Santíssima Virgem terá passado para a eternidade com santa sofreguidão, em busca de seu Divino Filho, pois ambos haviam vivido na mais perfeita harmonia e relacionamento familiar ao longo de trinta anos, nesta terra. Compreenderemos melhor a força da união estabelecida entre ambos, ao longo daquelas três décadas de vida oculta, quando a Providência nos fizer conhecer os mistérios da pequena — e quão grande! — história do dia-a-dia da Sagrada Família. Um único episódio nos permite fazer uma pálida idéia sobre o universo de amor havido entre Eles, inclusive com São José: a Perda e o Encontro. O entranhamento de mútua compreensão e benquerença era tal, que Maria ficou perplexa diante daquela atitude praticada por um Menino tão afetuoso, reto e submisso.
Sim, Eles três na intimidade se admiravam mutuamente, transcendendo os aspectos comuns e correntes da existência de todos os dias, à espera da plenitude perpétua da caridade. Nazaré, nas vinte e quatro horas, comportava o sono, trabalho e demais ocupações que conduziam a uma forçosa e ao mesmo tempo dolorosa separação. Acrescentemos os quinze anos de exílio nos quais viveu Nossa Senhora nesta terra, depois de ter visto seu Filho desaparecer entre as nuvens da Ascensão.
Foi a saudade desse convívio e o ardor de o reaver na totalidade de sua intensidade e perfeição, que levou Maria a subir ao Céu de corpo e alma.
“Com a Assunção da Virgem Maria começou a glorificação de toda a Igreja de Cristo, que terá seu cumprimento no dia final da História” (João Paulo II, Ângelus 21/8/1983), no qual todos os justos, de corpo e alma, viverão com a Sagrada Família no Céu.

(Editorial. Revista Arautos do Evangelho. Agosto de 2004. p. 5)