Lição de vida dadas por Jó, o sofredor

Per crucem ad lucem. Com esta frase São Bruno resumiu a vida dos Cartuchos. A partir dos sofrimentos aceitos por amor de Deus chegamos às glórias eternas. Contudo, esse inspirado lema se aplica não só aos religiosos da cartucha, mas a todo e qualquer homem. A veracidade cristalina que dele transparece nos afigura como de uma grande simplicidade, sobretudo se consideramos a vida humana a partir do prisma católico. No entanto não foi essa a opinião dos homens durante muitos séculos.

São Bruno. Paróquia São João Batista, Gran Canária, Espanha
São Bruno. Paróquia São João Batista, Gran Canária, Espanha

“Se sou justo serei prospero; se sobrevierem desgraças, é sinal que sou pecador.” Esse foi o principal pensamento que regeu a sociedade antiga, inclusive entre o povo eleito. (cf. Dt 11, 13 s.; Gn 12, 2; Ex 20, 12)

No entanto, com a Revelação trazida por Nosso Senhor Jesus Cristo esse pensamento simplista foi aos poucos mudando. E lendo-se o Livro de Jó podemos perceber a concretização de uma nova maneira de encarar o prêmio e o castigo.

O tema central do Livro é a tragédia de um justo, o qual era próspero e gozava de abundância de bens naturais. Entretanto, querendo Deus aquilatar o valor de sua virtude, permite que sobre ele caiam inúmeros castigos. Esse drama, que possui dois estilos – prosa e poema – nos traz uma verdadeira inovação teológica: o justo também pode sofrer.

Podemos encontrar nesse livro uma estrutura harmônica que se divide em: duas partes em prosa e um corpo central em poema. As partes em prosa são a introdução e o epílogo final, que narram respectivamente a vida de um justo prospero que é castigado por Deus e a recompensa recebida por Jó devido a sua fidelidade em todas as desgraças.

Já o corpo central do texto, que é redigido em estilo poético, se compõe da apresentação de três amigos que sabendo das desgraças sofridas por Jó, vão visitá-lo; a disputa desses três visitantes com Jó, querendo imputar-lhe alguma culpa, as respostas de Jó às acusações de seus companheiros; a apresentação de um novo personagem, Elius, que por sua vez também quer encontrar alguma causa a tais desgraças; e por fim a intervenção final de Deus, apresentando a solução final da discussão.

A crítica moderna veio ao encontro desse magnífico escrito, com o intuito de pôr o problema da existência e historicidade de Jó. Na tradição bíblica encontramos um justo com o nome de Jó, posto em equivalência a Noé e Daniel (Ez 14, 14 e Eclo 49, 9). No entanto o livro de Jó possui certos fatos que nos fazem entrever um certo caráter alegórico do texto bíblico, por exemplo a assistência de Satanás ao conselho de Deus. Assim nos diz Garcia Cordero de Perez Rodriguez: “Isto nos dá a entender o caráter convencional do relato, que se desenvolve essencialmente como uma composição dramática redigida em função da demonstração de uma tese: não há conexão necessária entre o pecado e o sofrimento.” (1967, p. 18)

Quanto à sua canonicidade, o livro de Jó já era muito utilizado pelos apóstolos em suas cartas como um escrito inspirado (cf. Tg 5, 11 e 1Cor 3, 19). Também os Santos Padres davam testemunho do caráter sagrado da história do justo de Hus. Apenas Teodóro de Mopsuestia (séc. VI) tentou negar a inspiração desse livro, e foi condenado pelo segundo Concílio de Constantinopla (553).

Apesar de este livro ter uma inovação teológica para a sua época, ainda falta-lhe um passo: é verdade que o justo também pode padecer, e ainda mais, o seu prêmio não se encontra nesta terra, e sim no post mortem. Essa nova visão começa a se desenvolver no séc. II a. C. no livro da Sabedoria. Entretanto, tal doutrina só atingirá sua plenitude com a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo.

É Nosso Senhor a causa exemplar de todo cristão, e tendo Ele sofrido, também nós devemos sofrer, mas não com amargura e tristeza, pois será Ele mesmo a nossa recompensa na eternidade.

Jó sendo questionado por seus amigos. Por Gaspard de Crayer - Museu dos Agustinianos - Toulouse, França
Jó sendo questionado por seus amigos. Por Gaspard de Crayer – Museu dos Agustinianos – Toulouse, França

Quão bom seria para a sociedade hodierna defrontar-se com a história de Jó. O mundo infelizmente esqueceu-se não só dos ensinamentos dados por esse livro Sapiencial, como também, e sobretudo, deu costas ao rico e eterno ensinamento dado pela Santa Igreja. Aí encontraríamos a solução para as maiores perguntas de nossos dias: porque estou sofrendo? É de Deus que vem esses males?

Essas perguntas bem poderiam ser respondidas por esta eloquente frase de Jó: “militia est vitam hominem super terram.” (Jo 7, 1) e a tal citação acrescentaria São Bruno e com ele a Santa Igreja: “Per crucem ad lucem.

 

Pe. Millon Barros, EP

O Segredo da Felicidade

Catedral de Santiago Menor en Liege. Por Genaro Perez Villaamil - Museu de Belas Artes - La Coruna - Espanha
Catedral de Santiago Menor en Liege. Por Genaro Perez Villaamil – Museu de Belas Artes – La Coruna – Espanha

Desde que Adão e Eva foram expulsos do paraíso, o homem vive sempre se perguntando: – Quem não ama sua vida procurando ser feliz todos os dias? (Cf. Sl 33, 13) De fato, no momento de sua concepção, Deus infunde na alma humana o desejo da felicidade. Como nos diz o grande Santo Agostinho, “todos os homens querem viver felizes, e não existe no gênero humano pessoa que não concorde com esta afirmação”.[1]

No paraíso Deus havia concedido ao homem o “dom de integridade”, o qual, juntamente com a Graça, lhe dava total alegria e plena felicidade. Esse dom proporcionava ao homem a completa ordenação: a fé iluminava sua inteligência, à qual estava subalterna a vontade, inibindo assim impulsos e ações meramente instintivas.

Com o pecado original, Adão e Eva perderam o dom de integridade, bem como seus descendentes. Assim, o homem vive numa constante luta, para controlar sua vontade, que sendo inferior a inteligência e a fé, não está mais a elas subjugada. A vontade que antes obedecia em tudo a sua inteligência, agora segue seus próprios caprichos.

O Criador ao dar uma ordem a Adão era prontamente obedecido, e este a executava com a maior docilidade. Mas então, por que Adão e Eva comeram do fruto que Deus havia proibido, uma vez que possuíam o dom de integridade?…

Deus ao proibir Adão e Eva de comerem do fruto, disse: “Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que deles comeres, morrerás indubitavelmente.” (Gen. 2,16-17). O demônio porém, em forma de serpente, enganou a mulher dizendo: – “Oh, não; vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.” (Gen. 3,4-5) Com isso, despertou a curiosidade em Eva: “A mulher, viu que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e muito apropriado para abrir a inteligência.” E assim continua: “tomou dele, comeu, e o apresentou ao marido que comeu igualmente.” (Cf. Gen. 3, 6) Neste instante, lhes “caem as escamas” dos olhos. Foram os primeiros a constatar que com o pecado, o demônio não dá o que promete.

Comendo o fruto, aderiram ao mal, abraçaram a malícia, fruto do pecado. Comeram para alargar sua inteligência, que se fechou a ponto de não conseguirem dominar mais sua própria vontade. Eram felizes no paraíso, pois cumpriam inteiramente com a finalidade para qual todo homem foi criado: conhecer, amar e servir a Deus.

Imaginemos um pássaro que possua uma asa torta. Se ele fosse inteligente, passaria sua existência na angustia de nunca ter voado. Poderia ter sido feliz? Não, pois não cumpriu com a sua finalidade que é voar. Isso foi o que ocorreu com os nossos primeiros pais. Eva ouvindo a voz da serpente insuflada pelo demônio, sucumbiu à tentação, certa de encontrar a felicidade no pecado. Foram então expulsos do paraíso tornando-se inclinados ao mal e sujeitos ao erro, passando a apresentar toda a sua vida como uma luta dramática entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas.

Fora de sua finalidade, o homem não têm felicidade, pois este desejo é de origem divina. Deus o colocou no coração humano, a fim de atraí-lo a si, pois só Ele pode satisfazer essa sede.[2] O demônio, sendo o pai da mentira, promete a felicidade com o pecado. Este entretanto, traz apenas uma fruição momentânea, e em seguida uma enorme frustração.

Desde então, o homem passou a tirar seu sustento da terra, com trabalhos penosos, todos os dias da sua vida. (Cf. Gn. 3, 17) Estabeleceu-se na alma humana uma necessidade de sofrer, pois sem isso o homem fecha-se em si mesmo, não lembrando mais da bondade e da dependência que tem em relação ao Criador. O sofrimento, então, assume um papel fundamental e insubstituível na vida humana depois do pecado original, pois nos coloca diante de Deus como seres contingentes, e nos faz recorrer a Ele.

Ao se tirar o gesso de um braço quebrado, é necessário submeter-se a uma série de seções de fisioterapia para voltar ao pleno funcionamento. Se o membro não se exercitar pode acabar definhando. porém, esse esforço nem sempre é agradável.

Se o exercício, o sofrimento, é necessário para um braço, quanto mais para a alma humana se desenvolver e recuperar aquilo que perdeu com o pecado! Quem foge do sofrimento, acaba sofrendo mais do que aquele que carrega sua Cruz. Existe na alma humana o que São Tomás denomina de “sofritiva”, que consiste numa necessidade de sofrimento, por uma finalidade sobrenatural, com vistas a purificar e santificar a alma.

O maior de todos os exemplos é o Homem Deus. Estando unido à Pessoa do Verbo e conhecendo tudo, viu num só relance todos os ultrajes e padecimentos pelos quais passaria durante sua Paixão, a ponto de dizer o evangelista que Nosso Senhor sentiu aversão, pavor, tristeza e abatimento. (Cf. Mt 26,38) Antes mesmo dos algozes O tocarem, após verter abundantemente seu preciosíssimo sangue adorável, diante do oceano de dores que o esperava, profere esta sublime súplica: -“Meu Pai, se for possível afaste-se de mim este cálice. Mas faça-se a Vossa vontade e não a minha.” (Mt 26,39)

Concluiríamos que o Redentor pede clemência a Deus Pai, para ajudá-Lo no caminho do Calvário a suportar a enormidade da Cruz que haveria de carregar. Mas “faça-se a Vossa vontade e não a minha”, pois uma coisa que Ele não faria, era abandonar a Cruz. Se for a vontade do Pai, pegaria a Cruz, oscularia e a levaria até o fim.

Ao contrário do que nosso caro leitor poderia esperar com o título desse artigo, não apresentamos uma fórmula mágica de ser feliz para sempre, o famoso “final feliz” que costumamos ver nos filmes, mas o segredo da verdadeira e única felicidade possível nesse vale de lágrimas: o sofrimento aceito por amor a Deus, e o cumprimento de sua divina vontade.

A vida nesta terra sem o sofrimento, é uma funesta ilusão que acaba com a morte, pois se Deus sofreu por nós, porque seríamos covardes e fugiríamos diante de nossas cruzes, tão menores que a d’Ele? Nossa Senhora de Lourdes disse a Santa Bernadete: “Te prometo felicidade, mas não nesta terra.”

Não temos o que temer, Deus conhece nossa fragilidade e olha as nossas aflições. Por isso deu-nos a melhor de todas Advogadas, sua própria Mãe! Peçamos a Nossa Senhora, Causa de nossa alegria, que nos dê coragem para responder “sim” como Nosso Senhor Jesus Cristo no Horto das Oliveiras, para galgar o nosso calvário e alcançarmos a felicidade eterna com Ele nos Céus.

 

Nossa Senhora da Vitória. Por Juan de Figueroa - Santuário de Santa Maria da Vitória - Málaga - Espanha
Nossa Senhora da Vitória. Por Juan de Figueroa – Santuário de Santa Maria da Vitória – Málaga – Espanha

 

Pe. Lucas Antonio Pinatti, EP

[1] Cf. AGOSTINHO, Mor. eccl. 1,3,4: PL 32, 1312.

[2] CATECISMO Igreja Católica: SP, Loyola, 2000. p. 469

O ideal, fundamento do verdadeiro heroísmo

Heroísmo. Palavra que faz-nos vibrar a alma! Palavra, que fez vibrar a alma dos bem-aventurados que se encontram no Céu! Com certeza, não é algo que se refira a coisas palpáveis, mas sim, a algo muito mais sublime, elevado e sereno.

Diz-nos Aristóteles que o homem é composto de corpo e alma, e a Santa doutrina da Igreja sublima isto quando deita sua luz, através das Sagradas Escrituras, afirmando que o homem é imagem e semelhança de Deus.

Sendo o homem dotado de inteligência, vontade e sensibilidade, ele deve utilizar estas faculdades que Deus lhe deu para atender às necessidades do corpo e, sobretudo da alma, uma vez que é esta que nos assemelha mais a Deus, por ser Ele imaterial.

Acontece que após o pecado original a integridade do homem foi perdida e consequentemente houve um desordenamento dos desejos do homem. A preocupação com o material sobrepujou o espiritual, basta ver que sentimos em nós constantemente inclinações ao mal e temos de lutar para poder evitá-las.

Uma vez que assim sucedeu, o homem passa a ter na terra uma luta contínua entre matéria e espírito, corpo e alma, daí as palavras de Jó: militia este vitam homini super terram; a vida do homem é uma luta sobre a terra. (Jo 5,16)

Ora, que é esta luta? Conservar a imagem de Deus na própria alma, sobretudo quando após a Redenção recebemos gratuitamente a própria vida divina em nossas almas, que é o estado de graça. Daí entendermos as palavras do Professor Plinio Corrêa de Oliveira:

O verdadeiro ideal é aquele que se prende ao Fim supremo, ao Ideal supremo, O Ideal supremo é fazer a vontade de Deus, porque Deus é que é santo, Deus é que é infinito. Deus é que é sábio, Deus é Quem sabe o que convém. O verdadeiro Ideal é fazer a vontade de Deus.[1]

E este é o significado do verdadeiro ideal, e com isso compreenderemos o que é um herói.

Para podermos entender, e ter o conceito certo do que é um herói de verdade, é muito simples, basta saber as características do verdadeiro heroísmo: o heroísmo é a atitude pela qual o homem enfrenta qualquer infortúnio ou um enorme sofrimento.

Quando se diz que alguém é um herói, como que reluz com uma “luminosidade” especial, algo sai da palavra e toca o fundo da alma.

O que é um herói? Herói é aquele que, colocado diante de um alto dever, o cumpre até o fim! As palavras herói e heroísmo não são tão fáceis de definir.

No fundo, o que vem a ser um santo?

É um herói! Herói de vitórias ganhas sobre si mesmo. O santo é o exemplo sublime e encorajante de quanto é capaz a vontade humana. É o selo posto em nossa Fé inabalável no alto destino moral da humanidade. É o modelo vivificante das grandes vitórias intimas e das altas tendências que inspiram as gerações através dos séculos. Santo é aquele que, com uma perseverança consequente e heroica, fortifica em si mesmo a aspiração para as alturas que existe, em germe, na alma de cada um de nós. O santo, animado de uma resolução ousada, reproduz em sua alma o retrato de Jesus Cristo.[2]

Mas, não podemos nos esquecer de que, sem a oração, não conseguimos nada. Por isso o Espírito Santo é quem nos torna heróis. Entretanto é preciso ter um ideal.

O que é o heroísmo? O heroísmo não é apenas o ato de estar com armas em mãos, ou um ato pelo qual se enfrenta o risco de perder a vida. Heroísmo é a disposição da alma de aguentar qualquer grande sofrimento, por amor a Nossa Senhora.

Para que o heroísmo se realize são necessários três pontos: o primeiro, é o ideal. Ideal não é qualquer ideia, mas é uma ideia movida pelo amor.

O segundo ponto, é o sofrimento, pelo qual toda pessoa passa neste vale de lágrimas, e que terá de superar, sem choramingo e fisionomia de que está passando por tribulações, nem uma fimbria de pena de si; tudo suportando com o olhar fixo no fim último, com a esperança da vitória, aguentando tudo o que der e vier, para a maior glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Quanto mais difícil é algo para fazer, tanto mais o heroísmo consiste em tomar o hábito de fazer, de maneira tal que, embora difícil, se transforme numa segunda natureza. Aí houve uma renúncia completa, houve dedicação inteira, houve heroísmo que se firmou. Para isto, é preciso que o hábito seja tal que nem o estranhe mais e o faça com toda a naturalidade. [3]

E o terceiro, é a sublimidade. Tem que ser por algo sublime, que esteja voltado para coisas elevadas, que faça bem às almas, levando-as para o Céu.

Podemos então concluir que há uma relação muito próxima, quase uma identidade entre amor à cruz, ou seja, santidade e heroísmo, o que por outras palavras afirma o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:

Não há coisa mais adequada para conferir nobreza à alma do que o sofrimento; e não pode haver nobreza para a alma sem sofrimentos.[4]

E com outra formulação expressa também o mesmo São Luís Grignion de Montfort:

Sem a cruz a alma se torna vagarosa, mole, covarde e sem coração. A cruz a torna fervorosa e cheia de vigor. Quando nada sofremos, na ignorância permanecemos. Temos inteligência quando bem sofremos.[5]

Por Gustavo Guedes


[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A Cavalaria. São Paulo, Apostila XV. p.1.

[2]TOHT, Tihamér. Segredo de heroísmos. Trad. Joaquim Maria Lourenço. 3 ed. Portugal: Coimbra, 1967, p.72.

[3]CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Caleidoscópio do Heroísmo. Conferência. São Paulo, 11novembro1989, p.2.

[4]CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A alegria do sofrimento. Conferência. São Paulo, 23maio 1964.

[5]MONTFORT DE, Luís Griognion. Cântico XlX, O triunfo da Cruz-18

 

Por que Maria é Mãe da Igreja? Parte III

Que maior prova de amor poderia nos oferecer Maria? Que dúvida poderia haver em ser Ela verdadeiramente nossa Mãe? Mas, Ela não fez uma entrega passiva de seu Filho. “Junto à Cruz de Jesus estava Maria, sua Mãe, participando dos sofrimentos de seu Divino Filho. E para que sua compaixão fosse completa, Ela também considerou a causa de todas aquelas dores, ou seja, os pecados dos homens, e já então começou a interceder pela humanidade culpada. Assim, enquanto o Verbo de Deus, pregado ao Madeiro, discernia a espantosa quantidade de pecados cometidos pelos homens ao longo dos séculos, Nossa Senhora Lhe pedia o perdão para cada um deles.”[1]

“Concebendo, gerando e alimentando a Cristo, apresentando-O ao Pai no Templo, padecendo com Ele quando agonizava na Cruz, cooperou de modo singular, com a sua fé, esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. É por esta razão nossa Mãe na ordem da graça”.[2]

Mãe do Homem-Deus, Ela foi Mãe de todos aqueles que nasceram para a graça através Nosso Senhor Jesus Cristo. Mãe do Redentor, Ela se tornou Mãe dos pecadores que, regenerados pelo Preciosíssimo Sangue de Cristo, foram resgatados por um preço tão alto, e que não custou apenas a seu Filho, mas também a Ela.

“Pior que a espada, transpassando a alma, não foi aquela palavra que atingiu até a divisão entre a alma e o espírito: ‘Mulher, eis aí o teu filho? (Jo 19,26). Oh! Que troca incrível! Mãe, João te é entregue em vez de Jesus, o servo no lugar do Senhor, o discípulo pelo Mestre, o filho de Zebedeu pelo Filho de Deus, o puro homem em vez do Deus verdadeiro. Como ouvir isso deixaria de transpassar tua alma tão afetuosa, se até a lembrança nos corta os corações, tão de pedra, tão de ferro?”[3]

Ao mesmo tempo que Nosso Senhor Jesus Cristo operava a redenção da humanidade, nascia a Santa Igreja de seu costado aberto. Desta dor participava Nossa Senhora. Por quê negar que Ela assim participava também do nascimento da Igreja como Mãe terníssima?

“Mãe de Cristo, Maria é também Mãe da Igreja. Maria é Mãe espiritual de toda a humanidade, porque Jesus derramou o seu Sangue na Cruz por todos, e a todos confiou da Cruz à sua solicitude materna”.[4]

Durante os três dias em que Nosso Senhor ficou no Santo Sepulcro, Maria sustentou misticamente em seus braços a recém nascida Igreja. Após a ressurreição do Senhor, Ela reuniu em torno de Si, no Cenáculo, os apóstolos, exercendo sua maternidade em relação à Igreja nascente (cf. At 1,14).

“No Cenáculo Ela aparece como Mãe do Corpo Místico de Cristo, Ela é Mãe da Cabeça no Calvário e Ela é Mãe do Corpo no Cenáculo. E essa junção entre Calvário e Cenáculo, é indispensável para nós termos uma visão ampla e profunda da nossa Fé em relação a Nossa Senhora. Ela é no Cenáculo Mãe do Corpo Místico e, portanto, Mãe da Igreja.”[5]

Mas sua maternidade não deixou de ser exercida com sua subida aos céus. “Nós acreditamos que a Santíssima Mãe de Deus e Mãe da Igreja, continua no Céu a sua função maternal em relação aos membros de Cristo, cooperando no nascimento e desenvolvimento da vida divina nas almas dos remidos”.[6]

“Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura sem interrupção, e mesmo depois de elevada ao céu, não abandonou esta missão salvadora, mas, com a sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna”.[7]

Foi pelo fecundo e ininterrupto “Fiat” de Maria, em estreita união com os méritos infinitos de seu divino Filho, que a Santa Igreja nasceu.

Nossa Senhora, que soube ser tão boa e misericordiosa com seus filhos, os terá abandonado? Porque duvidar de sua bondade ilimitada, da qual Ela deu tão grandes provas? “Por mais miserável, imundo e repelente que seja o filho pecador, a Mãe de misericórdia o perdoa e roga por ele ao Senhor, aplacando a justiça divina. Advogada supremamente boa, Nossa Senhora, em favor de cada um dos pecadores que a Ela recorre, dirige a Jesus Cristo esta súplica: ‘Meu Deus e meu Filho, pelo vosso dolorosíssimo sofrimento no Calvário, pela minha Imaculada Conceição, pela minha perpétua virgindade, pelo amor que Vós sabeis que Vos tenho, peço-Vos: perdoai-o!’.

Essa contínua e ilimitada intercessão de Maria pelos homens é, sem dúvida, o meio mais seguro que temos para alcançar o perdão divino”.[8]


[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Trecho sem data. Arquivo ITTA.

[2] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, 61.

[3] BERNARDO, São. Liturgia das Horas. Ed. Vozes/Paulinas/Paulus/Ave Maria, Vol. IV, São Paulo, 1999, p. 1281-1282.

[4] Homilia de Bento XVI em 1 de Janeiro de 2007.

[5] SCOGNAMIGLIO CLÁ DIAS. Primeira Homilia. 11 maio 2008. Arquivo ITTA.

[6] Encíclica Redemptoris Mater de João Paulo II.

[7] Cfr. Kleugten, texto reformado De mysterio Verbi incarnati, cap. IV: Mansi 53, 290. Cfr. S. André Cret., In nat. Mariae serm. 4: PG 97, 865 A. S. Germano de Constantin., In ann. Deiparae: PG 98, 321 BC; In dorm, Deiparae, III: col. 361 D.-S. João Damasceno, In dorm. B. V. Mariae, Hom. 1, 8: PG 96, 712 BC-713 A.

[8] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência para jovens. 04 abril 1980. Arquivo ITTA.

Correção: sabedoria ou castigo? Parte I

Necessidade da correção

Conta-se que na Idade Média um homem justo e temente a Deus, dono de uma fazenda, descobriu que seu filho mais velho tinha sido gravemente negligente no cumprir uma ordem sua, pondo em risco toda a família, e, sobretudo, a honra de seu pai e o respeito que lhe devia. Então, o pai o chamou, e interrogou-o sobre o referido, certificando-se de que era mesmo real.

Com dor no coração, o pai após uma grave e séria reprimenda, deu ao filho o castigo de arar todo um campo que fazia parte da imensa propriedade. O filho, com muito pesar, levantou-se bem cedo para iniciar o trabalho, que julgou demasiado grande para sua falta. Qual não foi sua surpresa quando do lado oposto do campo, onde ele se encontrava para começar o trabalho, vê seu pai que com outro arado inicia o cumprimento da pena que ele próprio impusera ao filho.

Este fato, real ou não, é muito eloqüente para compreendermos o seguinte provérbio: “Aquele que poupa a vara a seu filho o odeia; aquele que o ama, corrige-o continuamente.” (Pr 13, 24).

Correção: princípio de sabedoria

Este sábio provérbio praticado tão eficazmente outrora foi aos poucos sendo substituído pela máxima, helás, tão comumente aplicada em nossa civilização, de que a correção tolhe a liberdade da pessoa, provocando com isso sua falta de personalidade, e outros desvios congêneres.

Não é o que nos ensina o Divino Mestre: “Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir terás ganhado teu irmão” (MT 18,15).

Tanto crédito se tem dado a certos pensadores modernos, sobre seus métodos de ensino, educação e formação das crianças, e quão pouco caso se faz das divinas palavras do Salvador, Homem Deus, a própria Sabedoria eterna e encarnada.

Tendo Nosso Senhor Jesus Cristo pronunciado essas “palavras de vida eterna”, não se trata de comprovar sua eficácia, ou sua superioridade em relação a tantos dogmas hodiernos, pois para os que temos fé, isso seria uma discussão “bizantina”, ou seja, inútil. Evidentemente esse é o melhor método de educação dos filhos ou subalternos, melhor conselho aos irmãos e amigos e maior prova de caridade por todos quanto amamos.

Divinas correções: fonte de eterna salvação

Já no Antigo Testamento vemos essa divina maneira de Deus atuar. Encontramos no livro de Judite, sob inspiração do Espírito Santo: “Demos graças ao Senhor nosso Deus, que nos submete a provações, como fez a nossos pais. Lembrai-vos de tudo o que fez a Abraão, de como provou Isaac, de tudo o que aconteceu a Jacó. Assim como os provou pelo fogo para lhes experimentar o coração, assim também Ele não se está vingando de nós. É antes para advertência que o Senhor açoita os que dele se aproximam.” (Jt 8,25-26a.27)

Também contemplamos a mesma doutrina no Novo Testamento: “Sede perseverantes sob o castigo. Deus trata-vos como filhos. E qual é o filho a quem seu pai não corrige? Se, porém, estais isentos do castigo, do qual todos são participantes, então sois bastardos e não filhos legítimos” (Hb 12, 7-8).

Deus nos corrige através das tribulações

Quando vemos pesar sobre nós alguma provação ou castigo não devemos pensar que estamos sendo objetos da cólera divina. Pelo contrário, devemos nos alegrar, pois Deus não se esqueceu de nós.

Assim, podemos dizer que Deus é não apenas o Pai de toda consolação, mas também de toda tribulação, pois por meio desta, Ele nos corrige. Se nos castiga é com o fim de nos emendarmos, pois “não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e tenha vida”. (cf. Ez 33,11)

Depois do pecado original o sofrimento passou a fazer parte integrante, como um elemento fundamental, na vida dos homens. Como diz o Prof. Plinio Correa de Oliveira “Eu compreendi que só vale a alma que tem amor ao sofrimento. Por quê? Porque o sofrimento é desagradável, mas no contato com ele, no contato com a cruz de Nosso Senhor a alma se limpa, as molezas fogem e a retidão do juízo se restabelece. A pessoa passa a ter coragem e anda. A fonte de energia é a cruz.”

Em outra ocasião ele diria que Deus tinha dado a Adão no paraíso tudo. Adão tinha todas as regalias, os animais o serviam, ele não sofria fome, cansaço ou doenças, Deus descia todos os dias às tardes para conviver com ele. Mas no paraíso ainda faltava uma coisa, um herói! Deus queria que no paraíso tivesse um herói e por isso permitiu que Adão fosse tentado.

Ele não passou na prova, mas Deus não desistiu do plano de dar ao homem o dom de ser herói. Aqueles que passam pela vida sem contrariedades dificilmente vão para o céu. É mau sinal não ter sofrimentos nesta vida.

Todas estas provações que Deus permite ou envia para corrigir o homem não só são indispensáveis, mas trazem muitas alegrias. Tantas alegrias que provocam saudades, e doces recordações, além da gratidão a Deus por ter-nos corrigido e evitado que nos desviássemos do caminho do inferno.

Mas há ainda outra questão: os homens devem se corrigir uns aos outros?

Responderemos na próxima semana…

Por que Maria é Mãe da Igreja? Parte I

Dizem os franceses, com seu admirável espírito de síntese, que “a saúde é um estado precário que sempre termina mal”. Esta indiscutível realidade é uma triste consequência do pecado original, pois no paraíso o homem era dotado de dons que o livravam do sofrimento, e mais ainda da morte. Estes dons não faziam parte da natureza humana, já que lhe é inerente a dor, a corrupção e a morte, mas eram uma dádiva de Deus, que constituíam para o homem uma verdadeira preciosidade, dentro do equilíbrio de sua natureza inocente e pura.

Com o pecado cometido por Adão e Eva, a humanidade, constituída apenas por eles, perdeu estes dons. O homem passou a ganhar o pão de cada dia com o suor de seu rosto, o sofrimento passou a estar inerente à sua vida de todos os dias, a morte começou a imperar sobre o mundo. Muito pior do que isso, o homem ficou escravo do pecado e de suas próprias paixões e instintos desregrados. As portas do Céu se fecharam para a humanidade.

Entretanto, Deus que nos ama com infinito amor, prometera a Adão que uma mulher de sua descendência esmagaria a cabeça da serpente tentadora.[1]

“Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim a vossa palavra”. Foi, com efeito, por meio do “Fiat[2]” de Maria que Deus realizou esta promessa. O demônio foi derrotado, a humanidade foi libertada do triste julgo do pecado. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

No augusto momento da Encarnação começou a obra redentora da salvação da humanidade, que culminou na Paixão e Morte de Jesus. Na Cruz, Jesus nos obteve a reconciliação com Deus, livrou-nos da escravidão ao pecado, abriu-nos as portas do céu, e deixou-nos a Santa Igreja Católica. Tudo isso começou com o “Fiat” de Maria.

Que Maria é Mãe de Deus, não cabe dúvida. Cremos firmemente que Jesus é Deus e homem, pois possui a natureza divina e a humana ao mesmo tempo, e uma única Pessoa, a divina. Ele é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Maria sendo mãe de Jesus, é Mãe de Deus, pois é mãe da Pessoa inteira e não apenas do corpo de Jesus.

Mas porque dizemos que Ela é também Mãe da Igreja? Alguém pode ser mãe de uma instituição? Podemos dizer que a mãe do dono de uma empresa é mãe da empresa?

A resposta é muito simples. A Igreja é o Corpo Místico de Cristo, tal como diz o Apóstolo quando fala de nossa incorporação mística em Cristo, por força da qual todos os homens batizados constituem com Ele um só Corpo, do qual Ele é a Cabeça, de onde a vida sobrenatural flui para os membros.[3]

Sendo a Igreja realmente o Corpo de Cristo, Maria “é verdadeiramente Mãe dos membros que constituem este Corpo, porque cooperou com o seu amor para que na Igreja nascessem os fiéis, membros daquela Cabeça”.[4]

“Aquela que é Mãe de Cristo, pertence Ela mesma à Igreja como seu membro eminente e inteiramente singular sendo, ao mesmo tempo, a ‘Mãe da Igreja’. Como tal, ‘gera’ continuamente filhos para o Corpo místico do Filho”.[5]

Mas de que modo a Igreja é o Corpo de Cristo? “Por meio do Espírito, Cristo morto e ressuscitado une intimamente a Si os seus fiéis. Deste modo, os crentes em Cristo, enquanto unidos estreitamente a Ele, sobretudo na Eucaristia, são unidos entre si na caridade, formando um só corpo, a Igreja, cuja unidade se realiza na diversidade dos membros e das funções.

“Cristo ‘é a Cabeça do corpo, que é a Igreja’ (Col 1,18). A Igreja vive d’Ele, n’Ele e para Ele. Cristo e a Igreja formam o ‘Cristo total’ (S. Agostinho); ‘Cabeça e membros são, por assim dizer, uma só pessoa mística’ (S. Tomás de Aquino).”[6]

Ela é Corpo Místico de Cristo fundada pelo próprio Cristo com vistas a que todos fossem um com Ele: “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviastes. Dei-lhes a glória que me destes, para que sejam um, como nós somos um: eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que me enviaste e os amastes, como amaste a mim.”. (Jo 17, 21-23)

A Igreja é, como encontramos descrita na liturgia, o “povo de Deus”, o “Templo eterno de Deus edificado com pedras vivas e escolhidas”, “a unidade do Corpo de Cristo”, “Esposa de Cristo e Mãe exultante de muitos filhos”.[7] Lex orandi, lex credendi[8], a liturgia é um elemento constitutivo da santa e viva Tradição da Igreja, e como tal tem força de lei e de doutrina por Ela professada.[9]

Vemos assim, como o “Fiat” pronunciado por Maria na Anunciação deu início a todas estas maravilhas da graça. No momento, feliz entre todos, da Encarnação, Maria passou a ser Mãe de Deus e dos homens. “Concebeu-nos em Nazaré e nos deu à luz no Calvário. ‘Com o seu consentimento para tornar-se Mãe de Deus, escreve São Bernardino de Siena, trouxe a salvação e a vida eterna a todos os eleitos, de sorte que se pode dizer que, naquele instante, os acolheu em seu seio, conjuntamente com o Filho de Deus’.”[10]

Em termos correntes, são considerados pais de alguém aqueles que transmitiram a este alguém a sua própria natureza. Ora, isso que se dá na ordem natural, portanto numa geração física, dá-se também na ordem sobrenatural, numa geração espiritual. Assim, aqueles que fazem nascer para a vida da graça uma pessoa, ou que por desígnio de Deus são chamado a representa-Lo para outros – como é o caso dos profetas ou dos fundadores – estes podem ser chamados a justo título pais ou mães. E sob algum aspecto com mais propriedade do que os pais e mães naturais, pois que a vida sobrenatural vale mais que a vida natural.

Mas será apenas por este motivo que Ela é Mãe da Igreja? Haverá algum outro fator que a constitua Mãe espiritual dos homens?

Continua na próxima semana…


[1] Cf. Gn 3, 15.

[2] “Faça-se”, em latim.

[3] Cf. Ef 1, 22-23; Cf. 1Cor 6, 15a; Cf. Rom 6, 4-6; Cf. Col 1, 18

[4] Cf. S. Agostinho, De S. Virginitate, 6: PL 40, 399.

[5] Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae de João Paulo II.

[6] Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, Ed. Loyola, São Paulo, 2005, p. 156 e 157.

[7] Missal Romano. Comum da dedicação de uma Igreja. Ed. Paulus, 12 ed., São Paulo, 2008, 731-732.

[8] “A lei da oração é a lei da fé”.

[9] CIC, 1124.

[10] Pe. Gabriel Roschini, Instruções Marianas, Ed. Paulinas, São Paulo, 1960, p. 78-79.

Onde está, ó morte, a tua vitória

Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?. Fazendo eco a essas palavras de São Paulo na primeira Epístola aos coríntios, a liturgia da Semana Santa se refere à Paixão do Senhor, proclamando que os tormentos por Ele sofridos transformaram-se em glória e esplendor. Ao triunfar sobre a morte e o pecado, Cristo Jesus comprou nossa salvação, abrindo-nos de par em par as portas do Céu. Foi esse, entretanto, o único objetivo do Salvador com seu supremo martírio? Não. Além de reparar as ofensas feitas ao Pai pelos pecados cometidos por suas criaturas humanas, e de redimi-las, quis Jesus nos ensinar um novo caminho de amor a Deus: o oferecimento irrestrito das próprias dores, chegando até ao sacrifício da própria vida.718px-Fra_Angelico_073

Após o pecado original, afirma São Tomás, estabeleceu-se na alma humana a necessidade do sofrimento para facilitar-lhe a aceitação de seu estado de contingência e, assim, ser levada a recorrer ao auxílio sobrenatural. Esta é a razão pela qual muitos autores católicos têm comparado a dor a uma espécie de oitavo sacramento. Sem esse poderoso meio, acentuar-se-ia no homem a tendência de fechar-se sobre si mesmo e constituir-se em centro do universo. A dor o obriga a juntar as mãos em atitude de oração e a implorar a proteção de Deus e dos santos. Jesus, ao submeter-se a dores atrozes, físicas e morais, deu-nos o exemplo e a lição de quanto a dor é eficaz para conquistarmos a vida eterna. Visto na perspectiva da Cruz de Cristo, o sofrimento é suportado com paz e serenidade e se torna insubstituível instrumento de conversão e progresso espiritual.

A Semana Santa nos traz excelente ocasião para reflectirmos a respeito dos benefícios da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aproveitemos para pedir a nosso Redentor, por intercessão de Nossa Senhora das Dores, que os méritos do seu preciosíssimo sangue derramado desçam sobre nós, de modo que, ao enfrentarmos nossas dores quotidianas, tenhamos as mesmas forças com que Ele enfrentou as dores da Paixão.

De onde nasce a glória da Igreja?

   Cúpula Anderson Fernandes – Teologia I

            Quem não se encanta ao visitar ou conhecer as maravilhosas riquezas da Santa Igreja? A alguns, tocará de maneira toda especial a imponência de suas construções, que refletindo a alma dos que as idealizaram, parecem convidar aos que as contemplam a elevarem-se com suas torres, que por vezes parecem tocar o céu. Outros se enlevarão com os interiores das catedrais com suas paredes pintadas pelos raios de sol que, atravessando os vitrais, formam uma harmonia encantadora de luzes e cores. A outros ainda, estará impressa na alma, a recordação de alguma grande e solene celebração numa idéia de conjunto formada pela beleza do templo, a solenidade da liturgia, o perfume do incenso e os acordes do órgão que lhes fizeram viver alguns instantes que mais pareceram celestes do que terrenos.

            Alguém poderia levantar o seguinte problema: “É indiscutível que tudo isso é muito bonito; porém, por que tanta grandeza e de onde vem toda esta majestade, toda esta glória manifestada pela Igreja?”

            Em sua infinita sabedoria, Deus colocou na criação certas coisas que pareceriam muito contraditórias à primeira vista, mas na verdade constituem uma perfeita harmonia e muitas vezes se completam. Por exemplo, quando Nosso Senhor nos convida a sermos simples como as pombas, entretanto, astutos como as serpentes (Cf. Mt 10, 16)

            Assim, Deus dá à sua Igreja dias de uma glória admirável, contudo, essa glória nasce de outra face muitas vezes oculta aos olhos de muitos, que é a dor.

            Pensemos nos primeiros séculos de fundação da Igreja, em que só pelo fato de serem cristãos, milhares de homens, mulheres e crianças suportavam terríveis e atrozes torturas que culminavam com a morte, por amor ao Santíssimo nome de Jesus e de sua Santa Igreja.

            Pensemos nos sofrimentos dos Papas ao longo da história que, recebendo a missão de dirigir o rebanho de Cristo em meio a perseguições, divisões, e tantas formas de perigos pelas quais passou a Santa Igreja, fizeram de seu dever, um altar em que eles próprios imolaram suas próprias vidas a serviço de Deus e do próximo.

            Pensemos nos religiosos e religiosas de todas as épocas, cada um tendo que enfrentar as mais duras provações interiores características a este gênero de vida, e que sofrendo tudo no silêncio de seu recolhimento, sobre eles se debruçavam os próprios anjos e atraiam as bênçãos de Deus.

            E assim, se percorrêssemos toda a história da Santa Igreja, desde o seu nascedouro até os dias de hoje, nos encantaríamos com páginas de glórias imortais vividas por ela, entretanto, quantas páginas de dor e de sofrimento… Caro leitor, esta não parece também um pouco a sua história? É bem verdade que temos em nossas vidas momentos de grandes alegrias, mas, quantas aflições, dúvidas e dificuldades. Diante de cada sofrimento que nos depararmos ao longo de nossa vida, saibamos ver no fim, a glória que nos está reservada por Deus no Céu, se soubermos com serenidade, paciência e confiança, levar a cruz de todos os dias; e ao contemplarmos as grandezas e esplendores da Santa Igreja, aprendamos a olhar a fundo a raiz desta glória que nasceu principalmente do Sangue Preciosíssimo de Nosso Senhor Jesus Cristo, das lágrimas de Maria Santíssima, e também da dor e do sofrimento de um número incontável de almas generosas que souberam atender ao convite de Nosso Senhor: “Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34).