São Basílio Magno, o maior defensor da divindade do Espírito Santo

1. Vida

São Basílio é o único dos Padres capadócios distinguido com o sobrenome de Grande. O título é justificado por suas extraordinárias qualidades como estadista e organizador eclesiástico, como expoente egrégio da doutrina católica e como um segundo Atanásio na defesa da ortodoxia. Além de ser considerado como o Pai do monaquismo oriental e reformador da liturgia.[1]

 São Basílio nasceu cerca de 330, de pais nobres, ricos e piedosos, em Cesareia da Capadócia. A quantidade de santos existentes em sua família é impressionante: seu pai e sua mãe são santos; seu avô foi mártir, sua avó é Santa Macrina a Anciã; seus bisavós eram São Basílio o Ancião, e Santa Emélia; além de três irmãos: Santa Macrina a Jovem, São Pedro, Bispo de Sebaste, e São Gregório, Bispo de Nissa, do qual trataremos mais adiante.[2]

Realizou seus primeiros estudos em Cesareia, com seu pai, seguindo depois para Constantinopla e Atenas, onde encontra São Gregório Nazianzeno, com o qual se unirá em amizade estreita durante os difíceis combates do tempo. Um de seus companheiros de estudo chamava-se Juliano, ao qual, mais tarde, a História dará o triste epíteto de “Apóstata”.

Quando Basílio voltou a Cesaréia, em 356, recebeu o Batismo e o leitorado. Após isto, decidiu vender os seus bens – uma boa quantidade – a fim de levar uma vida solitária. Pouco durou sua solidão, pois um grande número de pessoas se lhe juntaram, a fim de levarem vida monástica. Daí surgiu a instituição monacal basiliana, para qual, junto com São Gregório Nazianzeno, São Basílio comporá duas regras que, juntamente com a de São Pacômio será a base da vida monástica do oriente, como a de São Bento será para o ocidente.

Para tal institucionalização da vida monacal, empreendeu longas viagens: Síria, Palestina, Mesopotâmia, Egito, visitando cenóbios, mosteiros, a fim de deles colher inspiração.

Sua vida monacal, continuada depois destas viagens, foi interrompida em 364 pelo apelo de Eusébio, bispo de Cesaréia, que o chamou para colaborador e conselheiro. Em 370 sucede a Eusébio, tornando-se o exarca da importante diocese do Ponto.[3]

Nesta função procurou de todos os modos, acabar com o arianismo, que vivia uma época de prestigio, graças ao imperador Valente. Este, tomando conhecimento da posição de São Basílio, procurou de todas as formas amedrontá-lo, mas em vão. Primeiro, enviou o prefeito Modesto para ameaçá-lo. Este, após as firmes e inflexíveis respostas de São Basílio, exclamou com arrogância: “Nunca ninguém me falou desta maneira!” Ao que retrucou Basílio: “É porque ainda não te havias confrontado com um bispo!”

Após este fracasso de Modesto, Valente procurou ser mais violento: dividiu a diocese de São Basílio, aumentando o poder dos arianos. Porém, mais que Valente para o mal, o santo bispo de Cesaréia era infatigável para a causa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Neste tempo, as coisas estavam de tal forma no oriente que pouquíssimos bispos ainda se mantinham unidos a Roma. União com Roma: eis uma das grandes missões de São Basílio. Tentou-a através do grande Santo Atanásio, que o ajudou durante pouco tempo, pois sua missão na terra já se realizara sendo chamado à glória de Cristo cuja divindade defendeu durante toda sua vida. Não desistiu o Santo exarca, enviando homens de confiança a um sem número de lugares. Obteve êxito extraordinário, como se verificou no sínodo de Ilíara do ano 375, onde, na presença de Valentiniano, se juntaram muitos bispos ocidentais e tomaram o partido de São Basílio. A partir de então seu prestígio não fez senão crescer, sendo a ocasião perfeita para combater o apolinarismo, o macedonianismo, e o arianismo – este último, segundo a visão de Eunômio.

Entretanto, Deus, em seus insondáveis desígnios, chamou-o a si em 379, quando ele contava apenas 50 anos.[4]

Os frutos de seus esforços logo se fizeram sentir: poucos meses depois de sua morte, num Sínodo de Antioquia, se chegava a uma concórdia entre a Igreja Oriental e Ocidental.[5]

Ao Magno Capadócio, podem se aplicar suas próprias palavras a respeito de Jó: Campeão imbatível, que suportou violentos assaltos do demônio, semelhantes ao ímpeto de uma torrente, com ânimo imperturbável e com propósito irremovível; e nas tentações tanto se mostrou superior, quanto maiores e árduas apareciam as lutas que empreendeu com o adversário.”[6]

2. Obras

Suas obras são: Contra Eunomio; Sobre o Espírito Santo; Moralia (Τα ήθικά); duas regras monásticas; Ad adolescentes; Homilias e sermões; In Hexaemeron; Homilias sobre os salmos; Comentários sobre Isaías; Alguns outros sermões e um enorme número de cartas.

3. A teologia de São Basílio

 3.1. Doutrina Trinitária

Para os redatores do Credo de Niceia, entre os quais Santo Atanásio, não havia a distinção entre Ousía e Hypostasis, o que ocasionou muitas controvérsias. São Basílio foi o primeiro a fazer a distinção: em Deus há uma Ousía e três Hypostasis.

“Para ele ousía significa existência ou existência ou identidade substancial de Deus, enquanto que hipóstase quer dizer a existência de uma forma particular, a maneira de ser de cada uma das Pessoas.”[7]

Tudo isto, servirá de base para o Concílio de Calcedônia (451).

3.2 Cristologia

Quanto à cristologia, São Basílio não fez senão reafirmar e esclarecer o que fora definido em Nicéia. Assim afirmou ele: “Não podemos acrescentar nada ao Credo e Nicéia, nem sequer a coisa mais leve, fora a glorificação do Espírito Santo, e isto porque nossos pais mencionaram este tema incidentalmente.” (Ep. 258,2).[8]

A mesma distinção entre Hipóstases e Ousía, usada para a doutrina trinitária, servirá para a cristologia. Refutando aos partidários do Homoiousios, escreve: “Confesa uma só ousía nos dois [Pai e Filho] para não cair no politeísmo.”[9]

Entretanto, uma das mais importantes distinções que fez, foi sobre o conceito de Relação.

Na polêmica contra Eunômio, o qual afirmava que o caráter próprio da divindade é de ser “não gerado”, São Basílio explica que os nomes Pai e Filho, não definem a essência (Ousía), mas sim a ‘relação’ entre Eles. São Basílio emprega o termo ‘relação’ no sentido que Aristóteles dá em suas categorias. Assim, o nome de homem, mineral, animal, dizem respeito à essência do ser. Já Pai, esposo, escravo, dizem respeito à ‘relação’, pois nenhum homem seria pai sem ter filho, esposo sem esposa, ou escravo sem senhor. Desta forma, dizer que o Filho não é gerado, ou não é eterno, vale a dizer que o Pai nem sempre foi Pai, pois se não havia Filho, esta relação de paternidade, em algum momento não existiu. Cair-se-ia num ciclo vicioso…

Com esta explicitação, São Basílio iluminou toda a teologia trinitária e cristológica com um brilho difícil de ser superado, e desferiu o ‘golpe de misericórdia’ no arianismo.

3.3. A Divindade do Espírito Santo

O Concílio de Niceia, convocado para discutir a doutrina de Ario sobre a divindade do Filho, não enfrentara o problema da divindade do Espírito Santo.

São Basílio defendia a divindade do Espírito Santo de maneira firme, mas prudente. Para não criar rivalidades mais crônicas do que as já havidas com os arianos, e assim causar mais divisões na Igreja, ele afirmava a divindade da Terceira Hypóstasis, com argumentos cautelosos. Afirma que se o Batismo, cuja fórmula foi instituída pelo próprio Senhor Jesus, é realizado em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, significa que este último não é alheio à divindade das outras duas Pessoas. Portanto, o Espírito Santo não é criatura.

A partir desta afirmação, acusaram-lhe de dar ao Espírito Santo uma prerrogativa que é exclusiva do Pai:  a de “não gerado”. Isto ocasionou que – alguns afirmam que por primeira vez, antes mesmo de São Gregório Nazianzeno – São Basílio empregasse o termo “procede”, tirado do Evangelho de São João 15, 26, por primeira vez em sentido técnico.

Entretanto, o Espírito Santo não foi declarado explicitamente Deus, pois isto nas Sagradas Escrituras é apenas vislumbrado. Mas a doutrina de São Basílio e dos outros capadócios será a base para o Concílio de Constantinopla, onde a divindade do Espírito Santo será definitivamente expressada.

Digna de menção é esta da passagem de sua obra Sobre o Espírito Santo: “Substância inteligente, de poder infinito, grandeza ilimitada, fora do tempo e dos séculos, em nada ciosa de seus próprios bens. Para ele [Espírito Santo] voltam-se todos os que anseiam pela santificação, para ele se dirigem os anelos dos que vivem segundo a virtude, quantos recebem o refrigério de seu sopro, e são amparados para alcançar o fim adequado a sua natureza. Aperfeiçoa os outros, enquanto Ele mesmo de nada carece. Não é um ser vivo que precise se refazer; ao contrário é provedor de vida. Não aumenta progressivamente, mas logo possui a plenitude; é consistente por si mesmo, está em toda parte. Origem da santificação, luz inteligível, concede por si mesmo certa iluminação a toda faculdade racional, a fim de que descubra a verdade. Inacessível por sua natureza, faz-se, contudo, inteligível, por bondade.”[10]

3.4. Eucaristia

Além de seguir toda a doutrina tradicional da presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo nas espécies do pão e do vinho, São Basílio menciona o costume da comunhão diária e da reserva do Santíssimo Sacramento já naquela época.

3.5. Confissão

São Basílio parece ter sido o primeiro a instituir a confissão auricular. Aconselhava-a, sobretudo, aos monges em relação a seus superiores, ainda que não fossem sacerdotes. Evidentemente, neste caso não era sacramental, mas disciplinar.

Quanto aos que cometiam pecados graves e se preparavam para receber o Sacramento da Reconciliação, “na Epístola canônica (cf. vol.1 p.419s) menciona quatro graus: o estado ‘dos que choram’, cujo posto estava fora da igreja (προίσκλαυσις); o estado ‘dos escutam’, que estavam presentes para a leitura das Sagradas Escrituras e para o sermão (άκρόασης); o estado ‘dos que se prostram’ que assistiam de joelhos a oração (υπόσταση); por último, o estado ‘dos que estavam de pé’ durante todo o ofício, mas não participavam da comunhão (σύστασις).”[11]

Os três primeiros estados duravam três anos, e o último durava dois. Só após este período o pecador poderia ser readmitido na comunidade e na Eucaristia.

Como conclusão São Basílio nos anima a lutar pela fé nestes tempos laicizados: “Estão prontos os preparativos da guerra contra nós. Os espíritos estão aguçados contra nós, e as línguas caluniadoras lançam suas flechas com maior intensidade do que a empregada ao apedrejar Estêvão aqueles que odiavam os cristãos. Mas, não se escondam! Efetivamente, pretexto para a guerra somos nós, mas na verdade o alvo em mira está mais alto. Contra nós, de fato, se preparam os mecanismos de guerra e as ciladas, e estimulam-se mutuamente ao esforço de dar cada qual o que possui em experiência e coragem. Mas é a fé que é combatida. Meta comum de todos os adversários, inimigos da sã doutrina, é abalar o fundamento da fé em Cristo, arrasando, fazendo desaparecer a Tradição Apostólica.”[12]

Por Rodrigo Fujyama


[1] Cf. QUASTEN. Patrología II. p. 224.

[2] Cf. DROBNER. Manual de Patrologia. p. 276; MONDIN, Battista. Dizionario dei teologi. p. 99.

[3] Cf. ALTANER; STUIBER. Patrologia. p. 293.

[4] Cf. LLORCA; G.ªVILLOSLADA; LABOA. Historia de la Iglesia Católica: Edad Antigua. 7.ed. BAC: Madrid, 2005. p. 462.

[5] Idem.

[6] S. BASÍLIO MAGNO. Homilia sobre Lucas 12, Homilias sobre a origem do homem, Tratado sobre o Espírito Santo. Tradução de Roque Frangiotti e Monjas Beneditinas. 2.ed. São Paulo: Paulus, 2005. p. 25.

[7] Apud QUASTEN. Patrología II. p. 252.

[8] Idem, p. 251.

[9] Idem, p. 254.

[10] SÃO BASÍLIO MAGNO. Op. Cit. p. 115.

[11] QUASTEN. Patrología II. p. 259.

[12] SÃO BASÍLIO MAGNO. Op. Cit. p. 117-118.

Monofisismo: a grande heresia

Início da heresia e seus personagens

Após o grande patriarcado de São Cirilo de Alexandria, sucedeu-lhe um homem chamado Dióscoro, ganancioso e oportunista. Foi um dos porta-vozes da heresia monofisista, como o teria sido de qualquer outra se lhe fosse mais vantajosa e oportuna.

A ele juntou-se Eutiques, discípulo e sucessor do santo abade Dalmácio, mas lhe sucedeu apenas no cargo e não na virtude. Eutiques era um homem orgulhoso e ferrenho batalhador contra a heresia de Nestório. Estava à cabeça de mais de trezentos monges, e caiu por sua vez, talvez devido a seu orgulho, na heresia monofisista, sendo o seu maior representante.

Como se não bastasse juntaram-se a eles ainda dois personagens da corte. A imperatriz Eudoxia e o eunuco Crisáfio. Este último era um homem avarento e interesseiro, favoreceu a heresia sem escrúpulos, fazendo cair na heresia o próprio imperador, o “doce” Teodósio II.

Para fazer frente a esta corrente, a Providência suscitou grandes homens. Em primeiro lugar Teodoreto de Ciro, primeiro em atacar a heresia, o qual escreveu duas obras em oposição desta; em segundo lugar Eusébio de Doriléia, que já tinha sido ferrenho batalhador contra o nestorianismo até seu extermínio, agora se apresentava novamente como defensor da verdadeira doutrina. Por fim, à cabeça destes, representante e símbolo da ortodoxia, não tanto por seus conhecimentos teológicos, mas por sua autoridade e virtude, o patriarca de Constantinopla, São Flaviano.

Inicia-se a batalha

Durante um sínodo regional presidido pelo santo patriarca Flaviano, Eusébio de Doriléia acusou Eutiques de doutrinas heréticas. Este último foi convocado para proclamar sua fé na doutrina do concílio de Éfeso. Entretanto, Eutiques procurou esquivar-se e ganhar tempo e levantar em seu favor uma grande quantidade de monges.

Por fim, Eutiques apresentou-se, acompanhado de seus monges mais fortes e da guarda imperial. Negou-se rotundamente em aceitar a doutrina das duas naturezas na Pessoa do Verbo, aferrando-se nos escritos de São Cirilo, que ele interpretava num sentido claramente monofisista. Questionado sobre como se efetuava a união da natureza divina com a humana na Encarnação do Verbo, não teve resposta, afirmando mais tarde que se dava uma absorção, e posteriormente ainda uma fusão.

Este último fato faz surgir a suspeita de que Eutiques era como marionete nas mãos de outros, que sabiam melhor do que ele toda as resposta para as perguntas de São Flaviano, e que sabiam perfeitamente “como se dava esta união” entre as duas naturezas em Nosso Senhor. A história se repete… os fariseus são imortais.

Latrocínio de Éfeso

Eutiques percebendo-se em perigo, logo escreveu ao Papa, São Leão Magno, informando-lhe de todos os acontecimentos. Evidentemente o fez desde seu ponto de vista. Fez ainda com que Dióscoro e Crisáfio convencessem o Imperador de, por sua parte, escrever uma carta ao Santo Padre pedindo uma intervenção em seu favor. São Flaviano também acabava de descrever ao Romano Pontífice todo o ocorrido.

São Leão recebeu todas estas notícias com a mesma paz de alma com a qual enfrentou Átila às portas de Roma. Ele precisava ganhar tempo, e enquanto aguardava uma informação mais precisa de alguns de seus legados que tinham ido ter com São Flaviano e com Teodoreto de Ciro, escreveu uma carta muito amável ao imperador, agradecendo a preocupação com o bem e a unidade da Igreja e prometeu uma resposta definitiva tão logo obtivesse informações mais precisas sobre os acontecimentos. O grande Leão agiu como raposa, a espera de poder rugir novamente.

Tendo chegado todas as informações que São Leão esperava e vendo a verdadeira situação, escreveu a famosa epístola dogmática, na qual expunha a verdadeira doutrina sobre as duas naturezas de Cristo e sua união pessoal. Após a ter escrito foi ao túmulo de São Pedro e rogou-lhe que interviesse no caso e lhe ajudasse na luta, e deixando a epístola sobre o túmulo do Príncipe dos Apóstolos se retirou. Quarenta dias mais tarde São Pedro lhe apareceu e entregou a carta dizendo “li e corrigi”.

Esta carta foi enviada a todo o Oriente como um documento dogmático e infalível que todos tinham de acatar. São Leão escreveu também uma carta dirigida ao imperador e a Eutiques cheia de atenções, mas em tom firme e enérgico.

Nem Eutiques nem Dióscoro aceitaram as definições do Santo Padre e ainda tiveram o atrevimento de convocar um sínodo em Éfeso, no qual deveriam celebrar o maior dos “triunfos”. Tiveram a insolência de convidar o Papa para estar no sínodo. Este enviou três representantes, os bispos Julio e Renato e o diácono Hilário.

No sínodo, presidido por Dióscoro, os partidários do imperador tinham livre palavra, enquanto que os representantes do Papa estavam proibidos de falar. A Teodoreto de Ciro e Eusébio de Doriléia, nem se lhes permitiu assistir o sínodo.

O plano dos hereges era desfazer tudo o que São Flaviano tinha feito no sínodo de Constantinopla, em última análise, negar a epístola dogmática de São Leão Magno. Foi proposto imediatamente que se lessem as atas do sínodo de Constantinopla aos 135 bispos ali reunidos. Ante a ameaça de Dióscoro, o herege Eutiques foi absolvido, e foi anatematizada a doutrina das duas naturezas de Cristo.

Após uma intervenção dos legados pontifícios que diziam estarem sendo violados os direitos do Romano Pontífice, Dióscoro se tomou de cólera e, sob pretexto de ser agredido, deu ordem à guarda imperial e aos monges de Eutiques que expulsassem São Flaviano e os legados pontifícios. São Flaviano foi desterrado, mas tão grande foi o mau trato que lhe deram que morreu no caminho. Os legados pontifícios tiveram de fugir para não serem mortos. Ao ouvir isso tudo, São Leão disse: “Ephesium non iudicium, sed latrocinium.

Dióscoro chegou a excomungar e depor solenemente o Papa. O Oriente vivia dias de confusão e todos os olhos se voltavam para o Soberano Pontífice, de quem unicamente esperavam uma solução.

Concílio de Calcedônia

Neste momento, uma mudança rápida trouxe consigo o triunfo da ortodoxia. O eunuco Crisáfio caiu em desgraça e, com ele, a imperatriz Eudoxia, e foram ambos retirados da corte. Sem estes apoios tão indispensáveis os monofisistas ficavam em grande risco.

Mais ainda, o imperador Teodósio II morre numa queda do cavalo, e para desgraça dos monofisistas, sua irmã Santa Pulqueria assume o império e logo se casa com o grande general Marciano. Ambos partidários do Papa e da doutrina verdadeira, tiveram como primeiro ato enquanto imperadores trazerem os restos mortais de São Flaviano para Constantinopla e escreverem uma carta ao Santo Padre pedindo a convocação de um concílio para resolver definitivamente as questões doutrinárias em jogo.

O concílio se reuniu em outubro de 451 em Calcedônia – quarto ecumênico – no qual compareceram 600 prelados. Foi presidido pelo patriarca de Constantinopla, Anatólio, sucessor de São Flaviano, colocado neste cargo pelos próprios monofisistas, mas que acabou aderindo aos novos imperadores. As decisões foram rápidas, expulsaram Dióscoro das sessões do concílio, destituíram-no de seus cargos e o desterraram. Foram lidos os documentos do concílio de Éfeso de 431, os escritos de São Cirilo, do qual os hereges se utilizaram para basear sua doutrina, e no qual nenhum erro foi encontrado, a Epístola Dogmática de São Leão, ao que todos os presentes exclamaram: “Assim o cremos todos. Pedro falou pela boca de Leão”. A Epístola dogmática foi reconhecida como documento de fé.

Destes escritos, trazemos aqui uma pequena amostra. Eis um trecho de São Cirilo que torna patente a mentira dos monofisistas:

“Para tanto tornei-me semelhante a vós, um homem autêntico da descendência de Abraão, a fim de ser semelhante a meus irmãos. São Paulo compreendeu isto perfeitamente, ao dizer: ‘Visto que os filhos têm em comum a carne e o sangue, também Jesus participou da mesma condição, para assim destruir, com a sua morte, aquele que tinha o poder da morte, isto é, o demônio’ (Hb 2,14).

“Cristo, portanto, entregou seu corpo em sacrifício pela vida de todos e assim a vida nos foi dada de novo por meio d’Ele. Como isso se realizou, procurarei dizer na medida do possível.

“Depois que o Verbo de Deus, que tudo vivifica, assumiu a carne, restituiu à carne o seu próprio bem, isto é, a vida. Estabeleceu com ela uma comunhão inefável, e tornou-a fonte de vida, como Ele mesmo o é por natureza.

“Por conseguinte, o corpo de Cristo dá a vida a todos os que dele participam; repele a morte dos que a ela estão sujeitos e os libertará da corrupção, porque possui em si mesmo a força que a elimina plenamente.”[1]

Eis um trecho da carta de São Leão Magno a São Flaviano: “As duas naturezas guardam o que é próprio a cada uma e se unem numa só Pessoa. A humanidade é assumida pela majestade, a debilidade pela força, a mortalidade pela eternidade. Para saldar a dívida de nossa condição humana, a natureza invulnerável se uniu à natureza capaz de padecer, de modo que o mesmo e único Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, tal com convinha à nossa restauração, pudesse morrer, por um lado, e não morrer, por outro. Isto quer dizer: o verdadeiro Deus nasceu em natureza de verdadeiro homem plena e perfeita, completo no que é seu, e completo no que é nosso. Entendemos por ‘nosso’ aquilo que desde o princípio o Criador colocou em nós e que Ele assumiu para nos restaurar…

“Cada natureza realiza, em comunhão com a outra, o que lhe é próprio, a saber: o Verbo realiza o que é próprio do Verbo, e a carne o que é próprio da carne. Deste modo, enquanto o Verbo brilha por seus milagres, a carne se submete aos seus ultrajes; e, assim como o Verbo não perdeu a glória que Ele tem igual com o Pai, assim também a carne não abandonou a natureza própria da nossa linhagem.”[2]

E por último um trecho do documento do concílio de Calcedônia: “Seguindo os Santos Padres, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, Senhor nosso. O mesmo perfeito no tocante à Divindade e no tocante à humanidade: Deus verdadeiro e homem verdadeiro em corpo e alma, consubstancial ao Pai quanto à Divindade e consubstancial conosco quanto humanidade; semelhante em tudo a nós exceto no pecado; gerado pelo Pai segundo a Divindade desde todos os séculos, e nos últimos tempos gerado de Maria Virgem Theotókos (Mãe de Deus), por causa de nós e da nossa salvação. O mesmo e único Cristo, Senhor e Filho Unigênito em duas naturezas sem confusão, nem divisão, nem mudança, nem separação, há de ser o termo de nosso reconhecimento, sem que de algum modo desapareça a diferença de naturezas por causa da união, antes salvando-se as propriedades de cada natureza, embora as duas se encontrem numa única pessoa e subsistência. Não separado nem dividido em duas pessoas, mas uma só Pessoa, que é o único e mesmo Verbo, Deus, Filho Unigênito e Senhor Jesus Cristo, como em outros tempos nos ensinavam os profetas a respeito dele, e o próprio Jesus Cristo ensinou a respeito de Si mesmo, e como nos transmitiu o símbolo de fé dos Padres.”[3]

Foram elaborados alguns cânones importantes ao final do concílio, mas um deles, o último, equiparava a Sede de Constantinopla à de Roma. Isso foi feito após a partida dos legados pontifícios. Tendo estes recebido a notícia ainda a caminho de Roma, protestaram contra este cânon. São Leão aprovou apenas as conclusões doutrinárias.

Doutrina monofisista

É-nos, contudo, necessário conhecer essa doutrina tão perniciosa quanto sutil. Mono em grego quer dizer uma, phisys quer dizer natureza. Após a derrota, em 431 no concílio de Éfeso, do nestorianismo, que afirmava que em Nosso Senhor existiam duas naturezas, mas também duas pessoas, alguns alexandrinos, querendo humilhar os derrotados nestorianos antioquinos, começaram a afirmar que em Nosso Senhor existia uma pessoa, mas também uma única natureza.

Diziam estes que antes da Encarnação se podia falar em duas naturezas distintas, divina e humana, mas que depois da Encarnação as duas naturezas teriam se fundido.

“Cristo procederia ex duabus naturis, mas não estaria subsistindo in duabus naturis: teria uma só natureza composta das duas, mas que na realidade a humana teria sido absorvida pela infinita pessoa do Verbo de Deus”. (FERRER, p. 60)

Isto é perfeitamente incoerente, pois como se poderia falar em duas naturezas antes da Encarnação se a humana ainda não existia?

Todos nós sabemos, e é matéria de fé, que em Nosso Senhor Jesus Cristo existem duas naturezas, perfeitamente distintas, unidas hipostaticamente na Pessoa do Verbo. Nosso Senhor Jesus Cristo não é uma mescla intermediária de duas naturezas, pois não pode existir uma natureza composta de uma divina e outra humana.

“Os teólogos posteriores explicam que resultaria impossível a união da divindade e da humanidade numa única natureza mesclada de ambas, pois a divina é imutável e absolutamente simples, e não pode deixar de ser o que era e passar a ser outra coisa, nem pode ser parte de uma natureza composta. Ademais, tal união iria contra a fé, pois Cristo já não seria Deus, e tampouco seria verdadeiro homem, mas sim outra coisa.”[4]

Alguém poderia perguntar “qual a importância de afirmar uma ou outra doutrina? Basta ter fé em Deus. Afinal, que consequências podem trazer estas doutrinas?”

Dizer que em Nosso Senhor existiam duas naturezas e duas pessoas, erro nestoriano, significa nada mais nada menos afirmar que Jesus não é Deus, mas apenas um homem intimamente unido a Deus, e disso poderíamos concluir que o gênero humano não teria sido redimido, que a Santíssima Virgem não é Mãe de Deus, mas apenas do homem Jesus, que o Verbo não se tinha feito carne e habitado entre nós, que morreu na Cruz apenas um grande homem, mas não um Deus, que a Igreja fundada por Ele não é nem divina nem a única verdadeira, etc.

Entretanto, um erro pior e muito mais sutil era o do monofisismo, que afirmava ter em Nosso Senhor apenas uma pessoa, mas também só uma natureza. As consequências que se pode tirar disso são ainda piores do que as do nestorianos. Dizer que Nosso Senhor tinha apenas uma natureza é afirmar que ele não era nem inteiramente homem, nem inteiramente Deus, mas que tinha havido uma espécie de fusão entre as duas naturezas, humana e divina, na Pessoa do Verbo, ou seja, Ele seria uma terceira coisa que não era nem homem nem Deus, mas uma espécie de semi-deus, constituindo uma terceira espécie ou gênero meio centáurica.

Todos nós sabemos que natureza não é o mesmo que pessoa. Quando se fala em natureza, entende-se a essência da coisa de que se fala e que seria equivalente à pergunta “o que é?” à resposta “uma pedra, uma árvore, um homem, etc.”. Quando se fala em pessoa se propõe a pergunta “quem é?” à resposta “Pedro, João, Maria, etc.”

“A natureza humana de Cristo, ainda que real, criada, individual e concreta, não é uma hipóstase ou uma pessoa humana, pois não é subsistente, não é um todo completo em si mesmo que exista independentemente de outro, já que pertence propriamente ao Verbo que a assumiu, e foi levada de modo inefável à união do Ser pessoal do Filho de Deus, que é o único subsistente, sujeito ou pessoa, em sua natureza divina e em sua natureza humana.”[5]

Afirmar que a natureza humana de Nosso Senhor não é uma pessoa não significa Lhe diminuir ou tirar nada da verdadeira e real índole humana, já que essa natureza é completa e perfeita, e não falta nada que seja próprio dela. E tampouco rebaixa sua condição e dignidade o fato de ela não existir por si mesma e não constituir uma pessoa humana, mas pelo contrário, “a natureza humana é em Cristo mais digna do que em nós, porque em nosso caso ao existir por si mesma tem sua própria personalidade, e em Cristo essa natureza existe na Pessoa adorável do Verbo” (S.Th. III, 2,2, ad 2)

A Encarnação não supôs mudança alguma no Verbo de Deus. Somente se dá a mudança na natureza humana; esta mudança consiste no fato de começar a existir elevada à união pessoal com o Verbo. A Pessoa divina não adquiriu nenhuma perfeição nova, porque possui todas as perfeições em substância.


[1] LITURGIA DAS HORAS, São Paulo: Vozes; Paulinas; Paulus; Ave Maria, vol. II, 2000. vol II.

[2] BETTENCOURT, Estevão Tavares. Curso de cristologia. Rio de Janeiro. p. 82.

[3] BETTENCOURT, Estevão Tavares. Curso de cristologia. Rio de Janeiro. p. 82.

[4] FERRER, Vicente Barriendos. Jesucristo, nuestro Salvador. 4. Ed. Madrid: Rialp, 2005. p. 61.

[5] FERRER, Vicente Barriendos. Jesucristo, nuestro Salvador. 4. Ed. Madrid: Rialp, 2005. p. 65.

Cristo está realmente presente na Eucaristia?

EucaristiaJosé Luís de Melo Aquino – 3º ano Teologia

Como falar de um mistério, daquilo que a nossa razão não consegue penetrar? Somente fazendo curvar a razão e dando vazão à Fé. Assim, podemos destilar da doutrina Católica o princípio de que, para estudar teologia, devemos sempre partir da Fé, para depois aplicar o nosso intelecto e concluir sempre com um novo ato de Fé, pois, melhor parece ser amar aquilo que nos excede e compreender o que nos é inferior.

Sendo o mistério algo insondável para o nosso intelecto devemos crer, celebrá-lo, e dele viver considerando-o com os olhos da fé; fazendo dela e da razão, uma unidade. Ao longo do estudo, a Fé auxiliar-nos-á naquilo que a razão não alcança, no entanto, sem excluí-la.

Entre os mistérios que a Igreja Católica prega, um dos mais augustos e admiráveis é o da Transubstanciação, pois nele “está contido o Cristo inteiro sob cada espécie e sob cada parte de cada espécie”.[1] Mas como? Somente é explicável por um milagre: toda a substância do pão se converte na substância do Corpo de Nosso Senhor e toda a substância do vinho na substância do Seu Preciosíssimo Sangue.

Pronunciadas as palavras da consagração – Isto é o meu Corpo; Este é o cálice do meu sangue – Nosso Senhor Jesus Cristo passa a estar presente instantaneamente[2] em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, sob as espécies do pão e do vinho. O que quer dizer “sob as espécies”? Nada mais, nada menos, opera-se o milagre da transubstanciação, a substância do pão e do vinho deixam de estar presentes dando lugar à substância do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, mas mantendo os acidentes do pão e do vinho, o que naturalmente é impossível, pois o que sustenta os acidentes é a substância. Uma vez que a substância do pão ou do vinho deixam de estar presentes os acidentes também deveriam desaparecer, mas na Eucaristia não se dá isso; os acidentes permanecem (cor, odor, etc.) e a substância muda,[3] “porque a Deus tudo é possível” (Mt 19,26).

Na Eucaristia, essa presença se dá de duas formas. Em primeiro lugar por força do sacramento, por outras palavras, na consagração da espécie do pão é dito: “Isto é o meu Corpo;” por virtude do sacramento ali está exclusivamente presente a substância do Corpo de Cristo. Da mesma forma em relação à espécie do vinho, é dito: “Este é o cálice do meu sangue…” sob essa espécie está presente exclusivamente a substância do Sangue de Cristo. Por outro lado, por razão de concomitância, ou seja, onde está presente um, está presente o outro, sob a espécie do pão está presente a substância do Corpo, como foi mostrado, mas também o Sangue a Alma e a Divindade, uma vez que não é possível separá-los.[4]

Portanto, quando recebemos a Eucaristia, é a Ele próprio que recebemos. Aquele mesmo que nas ruas da Galiléia curava os doentes, os coxos, os paralíticos… Aquele mesmo que Se deixou crucificar, “o Justo pelos injustos” (1Pedro 3, 18) a fim de salvar-nos; “Só” isso? Não! O próprio Deus Uno e Trino vem habitar-nos, mas este, será tema para um nova artigo.[5]

Tão grandioso mistério, não podemos compreender, mas nossa Fé nos assegura. “Quod non cápis, quod non vídes, animósa fírmat fídes, praetes rérum órdinem”.[6]

 


[1] DS 1653.

[2] Cf. S.Th. III q.75,  a.7.

[3] Cf. S. Th. III q.77, a.1.

[4] Cf. Contra Gentiles, 4, 64; III, q. 76, a. 1.

[5] Cf. VVAA. Lexicon dicionário teológico enciclopédico. Trad. João Paixão Netto; Alda da Anunciação Machado. São Paulo: Edições Loyola, 2003. Pág. 108-110.

[6] Cf. Missal Romano: I lecionário dominical. São Paulo: Edições Loyola, 2003. Pág. 985.