Jesus Cristo, Homem e Deus verdadeiro

001Introdução

 

Muitas vezes por não termos um adequado conhecimento da doutrina católica, reduzimos a nossa piedade e o nosso enlevo pela vida sobrenatural, quando o não, pela própria Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, pois não damos o verdadeiro valor ao mistério de sua Encarnação. E se não tomamos cuidado nos deixamos levar por doutrinas enganosas que procuram tirar a visão grandiosa que todo católico deve ter da Pessoa do nosso Redentor. É esse o motivo deste artigo, ajudar a tomarmos conhecimento da Grandeza de Nosso Senhor Jesus Cristo e por meio disso aumentarmos a nossa piedade, como também podermos defender a nossa fé.

Mais cedo ou mais tarde a todo católico se põem algumas perguntas. A natureza humana de Nosso Senhor Jesus Cristo, é adorável? Isto é, por exemplo, posso eu voltar-me a Ele e sobrenaturalmente oscular os seus pés e adorá-los, como os pés de Deus? Qual a relação que devo ter eu com Ele? Qual o ato de reverência que devo demonstrar-lhe e prestar-lhe? Qual a relação, portanto, que tem o Santíssimo Sacramento do Altar e eu?

Alguns fiéis por não conhecerem adequadamente a doutrina sobre a Graça de União que Cristo possui, têm uma fé incompleta e não fazem, por isso, progressos de amor e adoração em relação à Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Essas perguntas hoje em dia podem ser vistas com repulsa para muitos, ou o que é pior, vistas com indagações de uma fé primária que não evoluiu nos “conhecimentos” teológicos, e que por sua vez tais perguntas não são dignas de crédito. Porém ao responde-las mostraremos que não só são elas cabíveis, como também solucionando-as cai por terra a doutrina naturalista, igualitária e reducionista, que hoje em dia muitos teólogos sustentam, considerando Jesus apenas como um revolucionário social que veio a este mundo só para salvar os oprimidos e marginalizados.[1]

 

  1. O exemplo de uma heresia: O Adocionismo

A primeira sentença que devemos rejeitar é que a Nosso Senhor deve-se atribuir uma dupla filiação; a primeira como Deus, Filho Natural, e a segunda como homem, filho adotivo. Tal heresia foi apregoada em fins do século VIII por Elipando de Toledo (+ 802) e por Felix de Urgel (+ 816). Essa heresia se intitula adocionismo, e foi combatida sobretudo pelo teólogo franco Alcuino.

Ela foi condenada com a própria censura de uma antiga heresia já existente, o nestorianismo. O papa Adriano I (772-795) condena o adocionismo numa de suas cartas doutrinais, acusando-a de uma renovação dos erros nestorianos, o que foi confirmado no Concílio plenário de Frankfurt (794) em presença do Imperador Carlos Magno, tendo como texto do Concílio esta sentença: “o filho nascido da Virgem era verdadeiro Deus e não podia ser considerado, portanto, como filho adotivo.” (D 615)

“Esta seita se levantou baixo o império de Carlos Magno, pelo ano 778. Com este motivo, Elipando, arcebispo de Toledo, consultou a Félix, bispo de Urgel, acerca da filiação de Jesus Cristo, e este bispo o contestou, que enquanto Deus, era verdadeira e propriamente Filho de Deus, gerado naturalmente pelo Pai; mas que Jesus Cristo enquanto homem ou filho de Maria, não era senão adotivo de Deus, decisão a que subscreveu Elipando. O papa Adriano, advertido deste erro, o condenou em uma carta dogmática dirigida aos bispos de Espanha.

[…] Félix se retratou, e depois voltou aos seus erros; Elipando, por sua vez, tendo enviado a Carlos Magno uma profissão de Fé que não era ortodoxa, fez esse príncipe reunir um Concílio em Frankfurt, em 794, no qual se condenou a doutrina de Félix e Elipando, o mesmo que no Concílio de Forli no ano de 795, e pouco tempo depois no Concílio celebrado em Roma sob o pontificado de Leão III.” (MORENO CEBADA, 1892, p.103, 104)

 

  1. O culto a Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo

Outra conclusão que a teologia chegou é que: o culto que se deve ao Homem-Deus, é o de látria absoluto que corresponde unicamente a Deus:

“A humanidade de Cristo veio a ser, pela união hipostática uma parte, em certo modo da pessoa do Logos e, por Ele, é adorada em e com o Logos. Ela é em si mesma objeto de adoração.” (OTT, 1997, p.253)

Uma prova do que acima ficou dito é que Nosso Senhor consentiu que as pessoas lhe prestassem tal culto, como O vemos na Sagrada Escritura aceitar as prosternações de joelho, que tinham um caráter de culto de adoração. (cf. Mt 28,9 e 17) Em São João 5, 23, Jesus reclama para si o culto que é devido ao Pai ao dizer “para que todos honrem ao Filho como honram ao Pai.” São Paulo também dá o mesmo testemunho ao afirmar em Filipenses 2, 10 “para que ao nome de Jesus se dobrem todos os joelhos” e na carta ao Hebreus 1, 6 testifica “Adorando-o todos os Anjos de Deus.”

E São Tomás o explica de forma caracteristicamente clara e brilhante:

“A adoração da carne de Cristo não significa senão a adoração do Verbo encarnado, assim como a reverência que se tributa às vestes reais não significa senão o respeito e submissão devidos ao rei que se veste das mesmas.” (S. Th. III, q.25, a. 2)

Alguns teólogos, dentre eles o Pe. Royo Marín, ao tratarem dessa adorabilidade do Homem-Deus denominam essa união intrínseca, que provem da união hipostática, de Graça de União. Essa graça existe pelo fato de que a união sobrenatural com Deus decorre da graça santificante. E os seres serão mais santos na medida que se unam mais com Deus, estabelecendo uma regra de três: maior graça, maior santidade, e vice e versa. Essa graça constitui a própria santidade substancial da humanidade de Cristo.

“Em virtude da união hipostática foi comunicada à humanidade de Jesus Cristo a santidade mesma do Verbo e é, por conseguinte, infinitamente santa, mesmo que prescindido da graça habitual ou santificante. […] A graça de união se estende a toda a humanidade de Cristo, ou seja, à alma e ao corpo.” (1961, p.70,72)

Dizendo de outra maneira, ao unir-se hipostaticamente com o Verbo de Deus, a humanidade Santíssima de Cristo (corpo e alma) ficou incorporada à mesma santidade do Verbo, não por uma informação do Verbo a humanidade de Cristo, mas sim em virtude do caráter substancial dessa união, isto recebe o nome de Graça de União. É por essa razão que a Igreja definiu que a própria carne de Cristo é Vivificante (D 123).

Porém um fato decorre disso. É que essa graça é única, e só existe na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, como nos diz o piedoso doutor Sauvé:

002“As coisas preciosas em si mesmas o são mais quando são raras. A graça de união é não tão somente rara, senão única […] esta graça é singular e incomunicável. […] A graça de união se estende a toda humanidade de Jesus. […] Do ato mais ordinário, por exemplo, do ato pelo qual cortava e ajustava em Nazaré um pedaço de madeira, devo crer que agradava soberanamente a Deus e que era infinitamente meritório. […] Cada contato de seu corpo era infinitamente santo. […] Cada um de seus movimentos era infinitamente santo. […] Cada gota de seu sangue é infinitamente santa. […] Cada um de seus sofrimentos ou de suas alegrias era infinitamente santo e capaz de santificar as alegrias ou os sofrimentos do mundo inteiro.” ( apud ROYO MARÍN, 1961, p.72-73)

Partindo dessas considerações teológicas, a piedade cristã foi com o passar do tempo, prestando cada vez mais o culto de latría à Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, sendo uns, desde a Idade Média, mais salientados do que outros, como por exemplo a devoção às cinco chagas, ao preciosissímo sangue, à santa face, à cabeça dolorida do Redentor e sobretudo ao seu Sagrado Coração.

Porém a Igreja, para evitar abusos e extremos que poderiam ridicularizar a Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo – como por exemplo o culto as sobrancelhas de Nosso Senhor – não permite o culto público de cada uma das distintas partes da humanidade de Cristo, senão que unicamente as que se relacionam diretamente com a sua Pessoa e com os mistérios da encarnação. (cf. De Guibert, Documenta ecclesiastica christianae perfectionis apud ROYO MARÍN,1967)

O fundamento dogmático de tal adoração – sobretudo ao Sagrado Coração – teve sua origem numa mística alemã da Idade Média, e se baseia no dogma da união hipostática. O papa Pio VI assim declarou: que o Coração de Jesus era adorado, não separadamente ou desligado da divindade senão como o Coração da Pessoa do Verbo, com a qual se acha inseparavelmente unido. (Dz 1563)

Tal devoção encontrou seu maior realce após as revelações feitas pelo próprio Sagrado Coração a Santa Margarida Maria Alacoque, e foi ainda mais propagada após as encíclicas Miserentissimus Redemptor (1928) e Caritate Christi compulsi (1932), de Pio XI, e Haurietis aquas (1956), de Pio XII.

 

Conclusão

Acabamos por ver brevemente qual o culto e a devoção que devemos ter à Pessoa adorável de Nosso Senhor Jesus Cristo, esperando que este artigo mais do que um mero acréscimo intelectual, produza isto sim um maior desejo de entrega a esse Coração que tanto amou o mundo, como Ele mesmo disse a Santa Margarida Maria Alacoque, e que robusteça a nossa fé ao culto de adoração que se deve ao Homem-Deus.

 

Pe. Millon Barros, EP

Bibliografia

 

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Tradução de Alexandre CORREIA. São Paulo: Faculdade de Filosofia “Sedes Sapientiae”, 1954.

BÍBLIA Sagrada. Tradução de Antonio Pereira de FIGUEIREDO. Lisboa: Great Britain, 1931.

MARÍN, Antonio Royo. Jesucristo y la Vida Cristiana. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1961.

MORENO CEBADA, Emilio D. Historia de las herejías. Barcelona: Imprenta de Ramón Inglanda, 1892.

OTTO, Ludwig. Manual de Teología Dogmática. 7.ed. Barcelona: Herder, 1997.

 

______________________

[1] v. gr. BOFF, Leonardo. Igreja: carisma e poder, 3ª ed., Petrópolis: Vozes, 1982.

FEBRIS, Reginaldo. A opção pelos pobres na Bíblia, São Paulo: Ed. Paulinas, 1991.

MATEOS, Juan. A utopia de Jesus, São Paulo: Paulus,1994.

NEUTZLING, Inácio. O reino de Deus e os pobres, São Paulo: Ed. Loyola, 1986.

PIXLEY, Jorge & BOFF, C. Opção pelos pobres, Petrópolis: Vozes, 1986.

VIGIL, José Maria (Org.). Opção pelos pobres hoje, São Paulo: Ed. Paulinas, 1992.

FERREIRA, Francisco A. As bem – aventuranças de Jesus. São Paulo: Santuário, 1999.

O Mistério do Natal: a Encarnação do Verbo

“Nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado. O poder de governar está nos seus ombros. Seu nome será Conselheiro Admirável, Deus Forte, Pai para sempre, Príncipe da paz” (Is 9, 5).

É difícil imaginar, caro leitor, o gáudio e a felicidade interior experimentada por Maria Santíssima, ao aceitar a proposta do Arcanjo São Gabriel, feita na Anunciação. Com efeito, a Virgem puríssima de Nazaré tornara-se a Mãe do Redentor, do “Salvador”, como o nome Jesus significa. Realizava-se em seu casto seio o sonho de toda mulher hebréia: ser a escolhida por Deus para dar à luz o Messias de Israel. Com um acréscimo: a sua tão amada virgindade permaneceria intacta. Seria Ela a primeira e única Virgem e Mãe na história da humanidade.

Por fim, o longo e penoso período de espera chegara ao seu termo: o povo eleito recebia, no silêncio da humilde casa de Maria, Aquele por quem os patriarcas suspiraram, e a quem os profetas anunciaram, prevendo inclusive, com luxo de detalhes, tantos aspectos e minúcias de sua vida, seus sofrimentos e sua glória.

Ocorreria assim o acontecimento central da história da humanidade: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14), pela ação do Espírito Santo (cf. Lc 1, 35) e pela plena aceitação amorosa e cheia de Fé de Maria. Entretanto, como explicar tão alto mistério? É possível que Deus se torne homem sem deixar de ser Deus?

Pode alguém ser Deus e homem ao mesmo tempo?

A primeira em receber a “boa notícia” do grandioso mistério da Encarnação do Verbo, foi Nossa Senhora. As palavras do Anjo foram explícitas e Ela, a “cheia de graça”, deve tê-las entendido com preclara inteligência. Por um lado, o mensageiro celeste lhe diz: “conceberás e darás à luz um filho” (Lc 1, 31), e, de outro lado, lhe anuncia: “será chamado Filho do Altíssimo” (Lc 1, 32). O que significa claramente, segundo nos explica São Beda[1], que o fruto das entranhas de Maria seria verdadeiro homem e verdadeiro Deus.

Mesmo antes de receber a visita do Arcanjo, Nossa Senhora, agraciada com a plenitude dos dons do Espírito Santo, devia perscrutar as Escrituras com finíssima atenção, compreendendo amplamente seu significado. Antes de tudo, é conjecturável que procurasse Ela compor a fisionomia moral do Messias esperado. É essa a opinião de São Leão Magno: “Deus elege uma Virgem da descendência de Davi, e esta Virgem, destinada a levar no seio o fruto de uma sagrada fecundação, antes de conceber corporalmente a sua prole, divina e humana ao mesmo tempo, a concebeu em seu espírito”[2].

Lendo com Maria as profecias sobre a Encarnação

Certamente, da leitura dos pergaminhos contendo  os trechos das Escrituras, terá Ela se impressionado vivamente diante dos anúncios gloriosos dos profetas a respeito do Messias esperado, como por exemplo, ao ler estas palavras de Miquéias:

“Mas tu, Belém de Éfrata, pequenina entre as aldeias de Judá, de ti é que sairá para mim aquele que há de ser o governante de Israel. Sua origem é antiga, de épocas remotas. […] Ele se levantará para apascentar com a força do Senhor, com o esplendor do nome do Senhor seu Deus” (Mq 5, 1-3).

Também em Isaías encontraria Nossa Senhora trechos empolgantes e grandiosos: “Nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado. O poder de governar está nos seus ombros. Seu nome será Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai para sempre, Príncipe da paz” (Is 9, 5).

Porém, leitora atenta da Palavra de Deus, Maria Santíssima não deve ter deixado de considerar outros aspectos do anúncio profético do Messias. Aspectos esses quiçá não tão compreendidos no seu tempo, pois muitos esperavam sobretudo um Messias triunfador, um libertador político. Todavia, a Revelação era clara:

“[O meu servo] era o mais abandonado e desprezado de todos, homem do sofrimento, experimentado na dor, indivíduo de quem a gente desvia o olhar, repelente, dele nem tomamos conhecimento. Eram na verdade os nossos sofrimentos que ele carregava, eram as nossas dores, que levava às costas. E achávamos que ele era um castigado, alguém ferido e massacrado por Deus. Mas estava sendo traspassado por causa de nossas rebeldias, estava sendo esmagado por nossos pecados. O castigo que teríamos de pagar caiu sobre ele; com os seus ferimentos veio a cura para nós. Como ovelhas estávamos todos perdidos, cada qual ia em frente por seu caminho. Foi então que o Senhor fez cair sobre ele o peso dos pecados de todos nós” (Is 53, 1-6).

Diante desse panorama tão complexo, como seria então o Messias, o esperado das nações? Por um lado, grande e potente, chamado de “Deus Forte”, com mando e governo, mas, de outro lado, homem de dores, vítima de expiação dos pecados dos homens. Como se realizariam esses extremos, aparentemente contraditórios, na mesma pessoa?

No convívio com o Homem Jesus

Para Nossa Senhora esse enigma deve ter-se tornado paulatinamente mais claro depois de conceber o Deus humanado e conviver com Jesus. O Menino que “crescia e se fortalecia, cheio de sabedoria” (Lc 2, 40), dava provas irrefutáveis de ser homem verdadeiro, e, ao mesmo tempo, Deus verdadeiro. Assim, a mesma criança que se alimentava e dormia como todas as outras, ao ser interrogada por seus pais, no episódio da perda e do encontro no Templo de Jerusalém, por que havia se separado deles, responde de forma surpreendente: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo estar naquilo que é de meu Pai?” (Lc 1, 49). Nossa Senhora guardou essas palavras no seu coração (cf. Lc 1, 51).

E, durante os trinta anos de vida oculta, que conversas não terá havido, ao cair da tarde, entre São José, Nossa Senhora e Jesus, a respeito da Pessoa e da missão do Filho de Deus feito Homem? Todavia, as silenciosas paredes da Santa Casa de Narazé são as únicas testemunhas mudas desse convívio íntimo da Sagrada Família!

Na vida pública de Jesus – acompanhada com discrição por Nossa Senhora – Nosso Senhor revelou-se claramente diante dos apóstolos, dos discípulos e do povo enquanto Filho de Deus e Filho do Homem.

Com efeito, os Evangelhos nos narram que Jesus teve fome (cf. Mt 4, 2) e dormira (cf. MT 8, 24), que, no meio do caminho, sentiu cansaço (cf. Jo 4, 6), e diante do túmulo de Lázaro chorou de pena pela perda do amigo muito amado (cf. Jo 11, 35). E, no auge destas provas de sua humanidade, conta-nos São Mateus, como diante da sombria perspectiva da paixão, sua alma sentiu uma tristeza de morte (cf. Mt 26, 37-38). Atitudes e sentimentos esses que caracterizam a sua verdadeira e completa natureza humana.

E sua Divindade?

São prolixos também os testemunhos das Escrituras sobre a divindade de Jesus. No evangelho de São João, Cristo declara diante do povo reunido que Ele e o Pai são um (cf. Jo 10, 30). Em São Mateus encontramos a feliz declaração de Fé de Pedro, ratificada por Jesus:

E vós, retomou Jesus, quem dizeis que sou eu? Simão Pedro respondeu: tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Jesus então declarou: Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne e o sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”. (Mt 16, 16-17).

A essas afirmações claras deve-se juntar a consideração dos fatos de sua vida. Jesus demonstrou ser o Filho de Deus pelo poder e a autoridade própria com que realizou inúmeros milagres. Pôs em evidência ter um domínio absoluto sobre doenças, na época totalmente incuráveis, como a Lepra (cf. Lc 17, 11-19) e a paralisia (cf. Jo 5, 1-9), inclusive, sobre a mesma morte ressuscitando, por exemplo, o filho da viúva de Naim (cf. Lc 7, 11-17). Obedeciam-lhe as forças da natureza. Baste lembrar nesse sentido a multiplicação dos pães e dos peixes (cf. Mt 14, 13-21) e a furiosa tempestade acalmada a uma ordem sua (cf. Mt 8, 23-27).

Mas o evento no qual Ele mostra de forma mais patente sua divindade, foi na sua própria Ressurreição. Primeiro, profetizando-a (cf. Mt 20,19), e depois cumprindo à risca sua própria previsão: “Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por própria vontade. Eu tenho poder de dá-la, como tenho poder de recebê-la de novo. Tal é o encargo que recebi do meu Pai” (Jo 10, 18).

Depois da consideração atenta do testemunho infalível das Escrituras, ainda resta-nos a pergunta: Sim, cremos que Jesus é Deus e homem verdadeiro mas, como explicar essa realidade?

Como explicar o mistério da Encarnação

Sabemos, segundo nos ensina São Leão Magno, que “o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, sobrepuja toda inteligência e transcende todos os exemplos que poder-se-iam utilizar”[3]. Porém, graças à Divina Revelação e sob a direção do Espírito Santo, a Igreja, se não chega a compreender ou abarcar todo o mistério, tem-no formulado com precisão, longe de todo erro.

No início do cristianismo, quando a doutrina dos apóstolos foi recebida no mundo grego, iniciou-se a tentativa de traduzir para as categorias próprias da filosofia o conteúdo da Revelação. Neste processo, alguns desviaram-se da verdade, defendendo doutrinas errôneas, mediante as quais procuravam fazer encaixar dentro dos estreitos limites da razão humana o mistério de Deus humanado.

As dificuldades encontradas pelos estudiosos das Escrituras, a respeito da compreensão do mistério se cifravam, principalmente, em duas tendências opostas, descritas a seguir em grandes traços. Alguns, tendo dificuldade em compreender como em uma mesma pessoa pudessem coexistir duas realidades, tal como, Deus e o homem, quiseram propor, como resultado da Encarnação, uma única pessoa, na qual estariam misturadas qualidades divinas e humanas. Outros, distinguindo perfeitamente a humanidade de Cristo e sua Divindade, e não logrando explicar como essas duas naturezas poderiam coincidir na mesma pessoa, propuseram que Cristo era unido a Deus como todos os santos o são, mediante a graça e a inabitação. Concluindo erroneamente tratar-se de duas pessoas distintas, uma divina e outra humana, a qual seria adotada por Deus de forma especial.

A voz da Igreja através dos Papas e dos concílios

A Santa Igreja de Deus, situando-se no centro de ambas posições, através do V Concílio ecumênico, confessa a união de Deus Verbo com a carne, segundo a união de composição, ou seja, segundo a hipóstasis[4]. Hipóstasis é um termo grego que deriva do verbo sustentar, pois toda natureza racional não existe por si mesma senão sustentada por uma pessoa. Ora, a natureza humana de Cristo era sustentada pela segunda pessoa da Santíssima Trindade.

A Igreja convocou os concílios ecumênicos, nos quais foi declarada e explicitada, em termos cada vez mais precisos, a verdade sobre a encarnação do Filho de Deus. O primeiro destes grandes Concílios realizou-se em Nicéia (ano 325). Lá os padres compuseram o Credo que, com alguns detalhes acrescidos no Concílio de Constantinopla (ano 381), recita-se nas nossas missas dominicais. Eis um trecho significativo do credo niceno:

“… [Cremos] em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai, isto é, da substância do Pai, […] gerado não criado, consubstancial ao Pai, por Quem foram feitas todas as coisas […], que por nós homens e para nossa salvação, desceu dos céus e Se encarnou e Se fez homem, padeceu e ressuscitou …”[5].

Anos mais tarde, no Concílio de Éfeso (ano de 431), ficaria ainda mais clara a questão da Encarnação. Os padres conciliares esclarecem que em Cristo há duas naturezas – a divina e a humana – unidas, sem confusão, na Pessoa única e divina do Verbo. Na carta escrita por São Cirilo de Alexandria ao herege Nestório, lida e aprovada pelos padres conciliares, assim explicita o grande patriarca a doutrina cristã:

“E embora sejam distintas as naturezas, unidas porém por uma verdadeira união, dessa unidade resulta um só Cristo e Filho; não que se suprima, pela união, a diferença de naturezas, mas porque a divindade e a humanidade, nesta misteriosa e inefável união, constituem para nós, um só Senhor, e Cristo, e Filho”[6].

E o patriarca João de Antioquia, então pastor dessa cidade, assim formulou a mesma Fé em termos aceitos plenamente por São Cirilo e pela Igreja. Confessa ele que Cristo é, ao mesmo tempo, “perfeito Deus e perfeito homem”, gerado pelo Pai desde todos os séculos, isto é, desde a eternidade, antes do tempo, e “nos últimos tempos, por nós e por nossa salvação”, nascido da Virgem Maria segundo a humanidade. Desta confissão de Fé destaca-se uma afirmação belíssima: Jesus é “consubstancial ao Pai segundo a divindade e consubstancial a nós segundo a humanidade”[7]. Para o patriarca João, a união da divindade e da humanidade dá-se sem confusão, de forma que a divindade em nada fica diminuída pela humanidade, nem esta última absorvida pela divindade.

Mas foi no Concílio de Calcedônia (451), com a assistência de 600 bispos, onde, graças ao gênio do Papa São Leão Magno, a doutrina da Igreja atinge um auge de explicitação a respeito desse mistério, distinguindo claramente na Pessoa do Verbo encarnado duas naturezas intimamente unidas, mas sem confusão:

“Deve-se se reconhecer um só mesmo Cristo Senhor, Filho Unigênito, em duas naturezas, sem confusão, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis, de nenhum modo suprimida a diferença das naturezas por causa de sua união, mas salvaguardada a propriedade de cada natureza e confluindo numa só Pessoa, não separado ou dividido em duas pessoas, mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus-Verbo …”[8]

Portanto, Cristo é Deus, com o Pai e o Espírito Santo, desde toda a eternidade, e, homem verdadeiro, pois uniu à sua pessoa a natureza humana completa, capaz de conhecer e amar como homem, capaz de sentir e sofrer até a morte[9].

Encarnação, o amor pede o amor

Diante de tão grande mistério, os cristãos devem dar infinitas graças a Deus pela sua bondade. O Filho de Deus, desceu à terra, no seio puríssimo da sempre Virgem Maria, para salvar e resgatar o homem, abrindo-lhe as portas do paraíso fechado e fazendo-nos partícipes da família de Deus. É uma verdade altamente comovente! Como diria São Tomás: “Cristo assumiu um corpo animado, e dignou-se nascer da Virgem, para nos entregar sua divindade; fez-se homem, para fazer o homem Deus” [10].

Por isso, diante do mistério da Encarnação, devemos ter presente o grandíssimo amor de Deus para o gênero humano. Nesse sentido, nos exorta São Tomás:

“… nenhum indício é mais evidente da caridade divina que o de Deus, criador de todas as coisas, fazer-se criatura; o do Senhor nosso, fazer-se nosso irmão; o do Filho de Deus, fazer-se filho de homem. Lê-se em São João (Jo 3, 16): tanto Deus amou o mundo, que lhe deu o Seu Filho. Pela consideração dessa verdade, deve ser reacendido, e de novo em nós afervorado o nosso amor para com Deus”.[11]

Pe. Carlos Werner Benjumea, EP


[1] Beda, Homilías sobre los Evangelios, 1, 3. CCL 122, 16.

[2] São Leão Magno, Sermón 1, En la Natividad del Señor, 2. 3: PL 54, 191-192.

[3] São Leão Magno, Sermão, 30, 4, CCL 138, 155: BAC 291, 117.

[4] S. Th. 3, q. 2, a.6, resp.

[5] COLLANTES, Justo. A Fé Católica, Documentos do Magistério da Igreja, p. 284. Trad. Paulo Rodrigues. Rio de Janeiro: Lumen Christi, 2003.

[6] Ibidem.

[7] Ibidem.

[8] Ibidem.

[9] Cf. São Leão Magno, Sermão 1, en la Natividad del Señor, 2.3: PL 54, 191-192.

[10] São Tomás de Aquino. Exposição sobre o Credo. São Paulo: Loyola, 1981, p. 43.

[11] Ibidem.

Monofisismo: a grande heresia

Início da heresia e seus personagens

Após o grande patriarcado de São Cirilo de Alexandria, sucedeu-lhe um homem chamado Dióscoro, ganancioso e oportunista. Foi um dos porta-vozes da heresia monofisista, como o teria sido de qualquer outra se lhe fosse mais vantajosa e oportuna.

A ele juntou-se Eutiques, discípulo e sucessor do santo abade Dalmácio, mas lhe sucedeu apenas no cargo e não na virtude. Eutiques era um homem orgulhoso e ferrenho batalhador contra a heresia de Nestório. Estava à cabeça de mais de trezentos monges, e caiu por sua vez, talvez devido a seu orgulho, na heresia monofisista, sendo o seu maior representante.

Como se não bastasse juntaram-se a eles ainda dois personagens da corte. A imperatriz Eudoxia e o eunuco Crisáfio. Este último era um homem avarento e interesseiro, favoreceu a heresia sem escrúpulos, fazendo cair na heresia o próprio imperador, o “doce” Teodósio II.

Para fazer frente a esta corrente, a Providência suscitou grandes homens. Em primeiro lugar Teodoreto de Ciro, primeiro em atacar a heresia, o qual escreveu duas obras em oposição desta; em segundo lugar Eusébio de Doriléia, que já tinha sido ferrenho batalhador contra o nestorianismo até seu extermínio, agora se apresentava novamente como defensor da verdadeira doutrina. Por fim, à cabeça destes, representante e símbolo da ortodoxia, não tanto por seus conhecimentos teológicos, mas por sua autoridade e virtude, o patriarca de Constantinopla, São Flaviano.

Inicia-se a batalha

Durante um sínodo regional presidido pelo santo patriarca Flaviano, Eusébio de Doriléia acusou Eutiques de doutrinas heréticas. Este último foi convocado para proclamar sua fé na doutrina do concílio de Éfeso. Entretanto, Eutiques procurou esquivar-se e ganhar tempo e levantar em seu favor uma grande quantidade de monges.

Por fim, Eutiques apresentou-se, acompanhado de seus monges mais fortes e da guarda imperial. Negou-se rotundamente em aceitar a doutrina das duas naturezas na Pessoa do Verbo, aferrando-se nos escritos de São Cirilo, que ele interpretava num sentido claramente monofisista. Questionado sobre como se efetuava a união da natureza divina com a humana na Encarnação do Verbo, não teve resposta, afirmando mais tarde que se dava uma absorção, e posteriormente ainda uma fusão.

Este último fato faz surgir a suspeita de que Eutiques era como marionete nas mãos de outros, que sabiam melhor do que ele toda as resposta para as perguntas de São Flaviano, e que sabiam perfeitamente “como se dava esta união” entre as duas naturezas em Nosso Senhor. A história se repete… os fariseus são imortais.

Latrocínio de Éfeso

Eutiques percebendo-se em perigo, logo escreveu ao Papa, São Leão Magno, informando-lhe de todos os acontecimentos. Evidentemente o fez desde seu ponto de vista. Fez ainda com que Dióscoro e Crisáfio convencessem o Imperador de, por sua parte, escrever uma carta ao Santo Padre pedindo uma intervenção em seu favor. São Flaviano também acabava de descrever ao Romano Pontífice todo o ocorrido.

São Leão recebeu todas estas notícias com a mesma paz de alma com a qual enfrentou Átila às portas de Roma. Ele precisava ganhar tempo, e enquanto aguardava uma informação mais precisa de alguns de seus legados que tinham ido ter com São Flaviano e com Teodoreto de Ciro, escreveu uma carta muito amável ao imperador, agradecendo a preocupação com o bem e a unidade da Igreja e prometeu uma resposta definitiva tão logo obtivesse informações mais precisas sobre os acontecimentos. O grande Leão agiu como raposa, a espera de poder rugir novamente.

Tendo chegado todas as informações que São Leão esperava e vendo a verdadeira situação, escreveu a famosa epístola dogmática, na qual expunha a verdadeira doutrina sobre as duas naturezas de Cristo e sua união pessoal. Após a ter escrito foi ao túmulo de São Pedro e rogou-lhe que interviesse no caso e lhe ajudasse na luta, e deixando a epístola sobre o túmulo do Príncipe dos Apóstolos se retirou. Quarenta dias mais tarde São Pedro lhe apareceu e entregou a carta dizendo “li e corrigi”.

Esta carta foi enviada a todo o Oriente como um documento dogmático e infalível que todos tinham de acatar. São Leão escreveu também uma carta dirigida ao imperador e a Eutiques cheia de atenções, mas em tom firme e enérgico.

Nem Eutiques nem Dióscoro aceitaram as definições do Santo Padre e ainda tiveram o atrevimento de convocar um sínodo em Éfeso, no qual deveriam celebrar o maior dos “triunfos”. Tiveram a insolência de convidar o Papa para estar no sínodo. Este enviou três representantes, os bispos Julio e Renato e o diácono Hilário.

No sínodo, presidido por Dióscoro, os partidários do imperador tinham livre palavra, enquanto que os representantes do Papa estavam proibidos de falar. A Teodoreto de Ciro e Eusébio de Doriléia, nem se lhes permitiu assistir o sínodo.

O plano dos hereges era desfazer tudo o que São Flaviano tinha feito no sínodo de Constantinopla, em última análise, negar a epístola dogmática de São Leão Magno. Foi proposto imediatamente que se lessem as atas do sínodo de Constantinopla aos 135 bispos ali reunidos. Ante a ameaça de Dióscoro, o herege Eutiques foi absolvido, e foi anatematizada a doutrina das duas naturezas de Cristo.

Após uma intervenção dos legados pontifícios que diziam estarem sendo violados os direitos do Romano Pontífice, Dióscoro se tomou de cólera e, sob pretexto de ser agredido, deu ordem à guarda imperial e aos monges de Eutiques que expulsassem São Flaviano e os legados pontifícios. São Flaviano foi desterrado, mas tão grande foi o mau trato que lhe deram que morreu no caminho. Os legados pontifícios tiveram de fugir para não serem mortos. Ao ouvir isso tudo, São Leão disse: “Ephesium non iudicium, sed latrocinium.

Dióscoro chegou a excomungar e depor solenemente o Papa. O Oriente vivia dias de confusão e todos os olhos se voltavam para o Soberano Pontífice, de quem unicamente esperavam uma solução.

Concílio de Calcedônia

Neste momento, uma mudança rápida trouxe consigo o triunfo da ortodoxia. O eunuco Crisáfio caiu em desgraça e, com ele, a imperatriz Eudoxia, e foram ambos retirados da corte. Sem estes apoios tão indispensáveis os monofisistas ficavam em grande risco.

Mais ainda, o imperador Teodósio II morre numa queda do cavalo, e para desgraça dos monofisistas, sua irmã Santa Pulqueria assume o império e logo se casa com o grande general Marciano. Ambos partidários do Papa e da doutrina verdadeira, tiveram como primeiro ato enquanto imperadores trazerem os restos mortais de São Flaviano para Constantinopla e escreverem uma carta ao Santo Padre pedindo a convocação de um concílio para resolver definitivamente as questões doutrinárias em jogo.

O concílio se reuniu em outubro de 451 em Calcedônia – quarto ecumênico – no qual compareceram 600 prelados. Foi presidido pelo patriarca de Constantinopla, Anatólio, sucessor de São Flaviano, colocado neste cargo pelos próprios monofisistas, mas que acabou aderindo aos novos imperadores. As decisões foram rápidas, expulsaram Dióscoro das sessões do concílio, destituíram-no de seus cargos e o desterraram. Foram lidos os documentos do concílio de Éfeso de 431, os escritos de São Cirilo, do qual os hereges se utilizaram para basear sua doutrina, e no qual nenhum erro foi encontrado, a Epístola Dogmática de São Leão, ao que todos os presentes exclamaram: “Assim o cremos todos. Pedro falou pela boca de Leão”. A Epístola dogmática foi reconhecida como documento de fé.

Destes escritos, trazemos aqui uma pequena amostra. Eis um trecho de São Cirilo que torna patente a mentira dos monofisistas:

“Para tanto tornei-me semelhante a vós, um homem autêntico da descendência de Abraão, a fim de ser semelhante a meus irmãos. São Paulo compreendeu isto perfeitamente, ao dizer: ‘Visto que os filhos têm em comum a carne e o sangue, também Jesus participou da mesma condição, para assim destruir, com a sua morte, aquele que tinha o poder da morte, isto é, o demônio’ (Hb 2,14).

“Cristo, portanto, entregou seu corpo em sacrifício pela vida de todos e assim a vida nos foi dada de novo por meio d’Ele. Como isso se realizou, procurarei dizer na medida do possível.

“Depois que o Verbo de Deus, que tudo vivifica, assumiu a carne, restituiu à carne o seu próprio bem, isto é, a vida. Estabeleceu com ela uma comunhão inefável, e tornou-a fonte de vida, como Ele mesmo o é por natureza.

“Por conseguinte, o corpo de Cristo dá a vida a todos os que dele participam; repele a morte dos que a ela estão sujeitos e os libertará da corrupção, porque possui em si mesmo a força que a elimina plenamente.”[1]

Eis um trecho da carta de São Leão Magno a São Flaviano: “As duas naturezas guardam o que é próprio a cada uma e se unem numa só Pessoa. A humanidade é assumida pela majestade, a debilidade pela força, a mortalidade pela eternidade. Para saldar a dívida de nossa condição humana, a natureza invulnerável se uniu à natureza capaz de padecer, de modo que o mesmo e único Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, tal com convinha à nossa restauração, pudesse morrer, por um lado, e não morrer, por outro. Isto quer dizer: o verdadeiro Deus nasceu em natureza de verdadeiro homem plena e perfeita, completo no que é seu, e completo no que é nosso. Entendemos por ‘nosso’ aquilo que desde o princípio o Criador colocou em nós e que Ele assumiu para nos restaurar…

“Cada natureza realiza, em comunhão com a outra, o que lhe é próprio, a saber: o Verbo realiza o que é próprio do Verbo, e a carne o que é próprio da carne. Deste modo, enquanto o Verbo brilha por seus milagres, a carne se submete aos seus ultrajes; e, assim como o Verbo não perdeu a glória que Ele tem igual com o Pai, assim também a carne não abandonou a natureza própria da nossa linhagem.”[2]

E por último um trecho do documento do concílio de Calcedônia: “Seguindo os Santos Padres, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, Senhor nosso. O mesmo perfeito no tocante à Divindade e no tocante à humanidade: Deus verdadeiro e homem verdadeiro em corpo e alma, consubstancial ao Pai quanto à Divindade e consubstancial conosco quanto humanidade; semelhante em tudo a nós exceto no pecado; gerado pelo Pai segundo a Divindade desde todos os séculos, e nos últimos tempos gerado de Maria Virgem Theotókos (Mãe de Deus), por causa de nós e da nossa salvação. O mesmo e único Cristo, Senhor e Filho Unigênito em duas naturezas sem confusão, nem divisão, nem mudança, nem separação, há de ser o termo de nosso reconhecimento, sem que de algum modo desapareça a diferença de naturezas por causa da união, antes salvando-se as propriedades de cada natureza, embora as duas se encontrem numa única pessoa e subsistência. Não separado nem dividido em duas pessoas, mas uma só Pessoa, que é o único e mesmo Verbo, Deus, Filho Unigênito e Senhor Jesus Cristo, como em outros tempos nos ensinavam os profetas a respeito dele, e o próprio Jesus Cristo ensinou a respeito de Si mesmo, e como nos transmitiu o símbolo de fé dos Padres.”[3]

Foram elaborados alguns cânones importantes ao final do concílio, mas um deles, o último, equiparava a Sede de Constantinopla à de Roma. Isso foi feito após a partida dos legados pontifícios. Tendo estes recebido a notícia ainda a caminho de Roma, protestaram contra este cânon. São Leão aprovou apenas as conclusões doutrinárias.

Doutrina monofisista

É-nos, contudo, necessário conhecer essa doutrina tão perniciosa quanto sutil. Mono em grego quer dizer uma, phisys quer dizer natureza. Após a derrota, em 431 no concílio de Éfeso, do nestorianismo, que afirmava que em Nosso Senhor existiam duas naturezas, mas também duas pessoas, alguns alexandrinos, querendo humilhar os derrotados nestorianos antioquinos, começaram a afirmar que em Nosso Senhor existia uma pessoa, mas também uma única natureza.

Diziam estes que antes da Encarnação se podia falar em duas naturezas distintas, divina e humana, mas que depois da Encarnação as duas naturezas teriam se fundido.

“Cristo procederia ex duabus naturis, mas não estaria subsistindo in duabus naturis: teria uma só natureza composta das duas, mas que na realidade a humana teria sido absorvida pela infinita pessoa do Verbo de Deus”. (FERRER, p. 60)

Isto é perfeitamente incoerente, pois como se poderia falar em duas naturezas antes da Encarnação se a humana ainda não existia?

Todos nós sabemos, e é matéria de fé, que em Nosso Senhor Jesus Cristo existem duas naturezas, perfeitamente distintas, unidas hipostaticamente na Pessoa do Verbo. Nosso Senhor Jesus Cristo não é uma mescla intermediária de duas naturezas, pois não pode existir uma natureza composta de uma divina e outra humana.

“Os teólogos posteriores explicam que resultaria impossível a união da divindade e da humanidade numa única natureza mesclada de ambas, pois a divina é imutável e absolutamente simples, e não pode deixar de ser o que era e passar a ser outra coisa, nem pode ser parte de uma natureza composta. Ademais, tal união iria contra a fé, pois Cristo já não seria Deus, e tampouco seria verdadeiro homem, mas sim outra coisa.”[4]

Alguém poderia perguntar “qual a importância de afirmar uma ou outra doutrina? Basta ter fé em Deus. Afinal, que consequências podem trazer estas doutrinas?”

Dizer que em Nosso Senhor existiam duas naturezas e duas pessoas, erro nestoriano, significa nada mais nada menos afirmar que Jesus não é Deus, mas apenas um homem intimamente unido a Deus, e disso poderíamos concluir que o gênero humano não teria sido redimido, que a Santíssima Virgem não é Mãe de Deus, mas apenas do homem Jesus, que o Verbo não se tinha feito carne e habitado entre nós, que morreu na Cruz apenas um grande homem, mas não um Deus, que a Igreja fundada por Ele não é nem divina nem a única verdadeira, etc.

Entretanto, um erro pior e muito mais sutil era o do monofisismo, que afirmava ter em Nosso Senhor apenas uma pessoa, mas também só uma natureza. As consequências que se pode tirar disso são ainda piores do que as do nestorianos. Dizer que Nosso Senhor tinha apenas uma natureza é afirmar que ele não era nem inteiramente homem, nem inteiramente Deus, mas que tinha havido uma espécie de fusão entre as duas naturezas, humana e divina, na Pessoa do Verbo, ou seja, Ele seria uma terceira coisa que não era nem homem nem Deus, mas uma espécie de semi-deus, constituindo uma terceira espécie ou gênero meio centáurica.

Todos nós sabemos que natureza não é o mesmo que pessoa. Quando se fala em natureza, entende-se a essência da coisa de que se fala e que seria equivalente à pergunta “o que é?” à resposta “uma pedra, uma árvore, um homem, etc.”. Quando se fala em pessoa se propõe a pergunta “quem é?” à resposta “Pedro, João, Maria, etc.”

“A natureza humana de Cristo, ainda que real, criada, individual e concreta, não é uma hipóstase ou uma pessoa humana, pois não é subsistente, não é um todo completo em si mesmo que exista independentemente de outro, já que pertence propriamente ao Verbo que a assumiu, e foi levada de modo inefável à união do Ser pessoal do Filho de Deus, que é o único subsistente, sujeito ou pessoa, em sua natureza divina e em sua natureza humana.”[5]

Afirmar que a natureza humana de Nosso Senhor não é uma pessoa não significa Lhe diminuir ou tirar nada da verdadeira e real índole humana, já que essa natureza é completa e perfeita, e não falta nada que seja próprio dela. E tampouco rebaixa sua condição e dignidade o fato de ela não existir por si mesma e não constituir uma pessoa humana, mas pelo contrário, “a natureza humana é em Cristo mais digna do que em nós, porque em nosso caso ao existir por si mesma tem sua própria personalidade, e em Cristo essa natureza existe na Pessoa adorável do Verbo” (S.Th. III, 2,2, ad 2)

A Encarnação não supôs mudança alguma no Verbo de Deus. Somente se dá a mudança na natureza humana; esta mudança consiste no fato de começar a existir elevada à união pessoal com o Verbo. A Pessoa divina não adquiriu nenhuma perfeição nova, porque possui todas as perfeições em substância.


[1] LITURGIA DAS HORAS, São Paulo: Vozes; Paulinas; Paulus; Ave Maria, vol. II, 2000. vol II.

[2] BETTENCOURT, Estevão Tavares. Curso de cristologia. Rio de Janeiro. p. 82.

[3] BETTENCOURT, Estevão Tavares. Curso de cristologia. Rio de Janeiro. p. 82.

[4] FERRER, Vicente Barriendos. Jesucristo, nuestro Salvador. 4. Ed. Madrid: Rialp, 2005. p. 61.

[5] FERRER, Vicente Barriendos. Jesucristo, nuestro Salvador. 4. Ed. Madrid: Rialp, 2005. p. 65.