A apreensão do belo

Há duas definições do belo em São Tomás:[1] a definição descritiva intrínseca (a beleza é o esplendor e a proporção das partes) e a definição descritiva do efeito, o qual é o prazer na apreensão (belo é aquilo que é visto, que agrada). A primeira consta das propriedades inerentes à beleza em si, enquanto a segunda exprime o efeito naquele que apreende.

A definição descritiva intrínseca do belo

No Escrito sobre os Livros das Sentenças, I, d. 3, q. 2, exp. 1ae, par. text., São Tomás de Aquino explica o que é a beleza, por meio de uma definição descritiva. Após haver indicado que o Filho, a segunda pessoa divina, é entendido como beleza mais perfeita, define a própria beleza pelo esplendor e proporção das partes. Em seguida, lembra que a verdade inclui a noção de esplendor e a igualdade decorre da proporção.

O esplendor, por seu lado, significa a manifestação da luz tanto nas coisas corporais como espirituais. Nas espirituais, significa não segundo a noção de luz corporal, mas sim segundo a noção de manifestação. A luz é uma qualidade visível por si, cujo esplendor num corpo causa a manifestação sensível da visão e, em consequência, a manifestação intelectiva. Da mesma forma que pela luz corporal conhece-se algo como claro (lucidum), conhece-se também como verdadeiro e relativo à manifestação da verdade nos sentidos e no intelecto. São Tomás de Aquino considera que a verdade tem fundamento na coisa, mas é completada pela manifestação do intelecto, o qual conhece como a verdade é: uma relação de igualdade (adaequatio).

São Tomás fala da verdade em termos de retidão, conformidade, adequação ou concordância, harmonia, comensuração, proporção e igualdade, que aqui expressam a relação da potência cognoscitiva para com o cognoscível.

Ele considera que os sentidos da visão e audição têm relação especialmente com o belo. Estes são os sentidos externos mais cognoscitivos e espirituais e que servem à razão. A visão é mais espiritual e tem precedência porque, na sua apreensão, faz conhecer mais as diferenças das coisas e de diversos modos, e o visível, da mesma maneira que o som, acha-se em todos os corpos.[2]

A cor é o sensível próprio da visão, e o som, da audição. É o sentido interno da cogitativa que discerne os sensíveis comuns que aparecem junto dos sensíveis próprios na apreensão do belo. Discerne a composição, ordem ou figura, em que consiste a unidade e a perfeição do todo, correlacionando as intenções individuais, assim como a razão correlaciona noções universais.[3]

A cogitativa é o sentido perfeito da sensibilidade. Participa da razão universal por refluxo do intelecto nos sentidos. Por analogia de operação, este sentido também é denominado “razão” e “intelecto”; especificamente, “razão particular” e “intelecto passivo”. É um “intelecto” porque está unido à parte intelectiva, e “passivo” porque obedece e é governado pela razão.[4] O intelecto ou razão universal conhece algo do belo porque, por meio da cogitativa, compreende a ordem que lhe é inerente. Trata-se de um conhecimento indireto, isto é, por certa reflexão sobre o universal, e completado pela cogitativa que percebe o individual sob o universal; percebe ambos imediatamente e correlaciona um e o outro.[5] Portanto, somente a visão, a audição e a cogitativa percebem diretamente o belo.

As potências da alma humana, segundo São Tomás de Aquino

A alma humana é uma forma espiritual essencialmente apta a unir-se a um corpo; ou, mais precisamente, é um princípio racional que necessita de um corpo para exercer suas funções.

São Tomás de Aquino, na Suma de Teologia Ia, q. 78, identifica três tipos de potências na alma humana: a vegetativa, a sensitiva, e a racional. É na potência sensitiva que está a cognoscitiva, a qual compreende os sentidos exteriores e os sentidos interiores. Os sentidos exteriores são a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato. Os sentidos interiores são o sentido comum, a cogitativa, a imaginação e a memória. O sentido comum é que reúne e ordena os dados fornecidos pelos sentidos externos. Na ordem da excelência, os sentidos internos são mais importantes que os externos, pois seu conhecimento é mais perfeito.

A cogitativa, também chamada de razão particular, por São Tomás, é o mais importante dos sentidos internos, pois é a ponte entre o material da sensação e o espiritual da intelecção. Por ela apreendemos as coisas sensíveis enquanto úteis ou nocivas para nós. Seu papel é fundamental na identificação, apreensão e seleção dos objetos passíveis de se tornarem símbolos.

É, porém, na potência racional que se faz a ligação inteira entre os símbolos e os objetos simbolizados. Esta potência é subdividida pelo Aquinate em cognoscitiva e apetitiva.

A cognoscitiva diz respeito à inteligência e compreende movimentos ativos e passivos; seu objeto é não apenas os corpos sensíveis, mas o ser em geral. Aqui começa a se manifestar uma certa independência das influências limitantes da matéria. O princípio básico que rege todo o processo cognoscitivo é a remoção da matéria. Quanto maior for o grau de imaterialidade, maior será a forma de conhecimento.

Assim explica o filósofo tomista Pe. Garrigou Lagrange (1959):

“Como a inteligência tem por objeto o ser, procura a razão de ser dos fatos e das coisas. As múltiplas razões de ser (final, moral e material) só são acessíveis à razão. […] Só a inteligência, que tem por objeto o ser inteligível, pode conhecer o fim, que é a razão de ser dos meios. A imagem contém apenas fenômenos sensíveis justapostos, por exemplo, a imagem de um relógio não representa senão aquilo que o animal pode ver nela: cor, resistência. Pelo contrário, a ideia do relógio contém a razão de ser que torna inteligíveis os seguintes fenômenos: um relógio é uma máquina que se move uniformemente e que serve para medir a hora solar. Esta razão de ser jamais poderá ser apreendida pelo animal; uma criança, porém, depressa a entenderá. A inteligência apreende os seres sensíveis como seres, apreende o que há neles de inteligível e, portanto, de universal, realizável em qualquer parte do espaço ou do tempo, ou seja, onde ou quando for. A inteligência não concebe apenas o Ser Supremo, que deve existir necessariamente. Não pode haver seres inteligentes no mundo sem uma primeira causa inteligente” (1959, p.19).

O intelecto humano, portanto, abstrai do concreto, extraindo conceitos universais dos dados fornecidos pelos sentidos, tendo a capacidade de conhecer, universalmente, ao generalizar esses dados.

Os sensos ou apetências da alma humana e a apreensão do belo

Diz São Tomás (Suma de Teologia Ia, q. 88, a. 2), que o ser é o objeto próprio do intelecto. O estudo do ser inclui diversos elementos, e dentre eles estão o estudo dos transcendentais do ser e dos princípios do ser. Neste último encontramos o estudo do senso do ser.

Genericamente falando, senso é uma propensão intelectual da inteligência a qual corresponde uma apetência na sensibilidade e na vontade. Senso e apetência são termos correlatos.

O senso do ser é o sentido que temos do que somos, de que existimos. Não exige raciocínio prévio. Nele sentimos nossas qualidades e defeitos.

Além do senso do ser, o homem possui muitos outros sensos. Dentre eles destacamos o senso do metafísico e o senso do maravilhoso, instrumentos muito úteis para a apreensão do belo e da criação artística.

O senso do metafísico

O senso do metafísico é a propensão da alma para perceber o que há além do físico, o que há além da realidade material, que é o espiritual, o divino. Então o senso do metafísico é a apetência de perceber o que há de transcendente nas coisas, por onde elas não são simplesmente o que são.

Por exemplo, uma criança que compra um passarinho porque, levantando suas asinhas, se encanta com o azul estupendo de suas penas. Ainda que os mais velhos não entendam, ela pensa: “há um valor que está nisso e que, independentemente do pensamento de todo mundo a esse respeito, ainda que todos os homens neguem esse valor, ele existe. Ainda que este passarinho morra, isto existiu”. O que é isso? É a convicção de haver uma realidade para além desse passarinho, eterna, imperecível, válida, de que esse passarinho é uma expressão. Essa realidade espiritual, atrás da qual está Deus, é indicada pela asa azul desse passarinho.

Essa criança, sem o saber, está fazendo uma meditação religiosa, baseada no senso do metafísico. Ela discerne algo de Deus ao “inalar” algo d’Ele no passarinho. Ela como que viu a Deus no passarinho.

O senso do maravilhoso

A criança, por não ter se corrompido com a vida e pelo efeito da graça batismal, tem uma propensão a crer e uma facilidade para admitir o maravilhoso. Ela tem uma tendência a conhecer as coisas sob a égide do maravilhoso. No adulto esta tendência vai se perdendo à medida que vai se apegando às coisas terrenas.

Quando a criança contempla uma árvore de Natal, embora saiba que não há árvore como aquela na natureza, com bolas coloridas, estrelas e outros objetos, ela se encanta com a árvore e a aceita. Nem lhe passa pela cabeça fazer uma análise científica da árvore e rejeitá-la por não corresponder à realidade. Isto se explica porque, por detrás desse maravilhamento, há um desejo de algo extraterreno, desejo confuso, mas ardente. É um desejo de uma coisa que é “transfísica”, de um impulso que, em si, pede Deus.

 Os demais sensos da alma

São Tomás apresenta outros sensos ou apetências ontológicas da alma, como o senso do divino, o senso da ordem, o senso moral, o senso do absoluto e o senso da perfeição. Essas são tendências da natureza sobrenatural do homem e fazem parte do conjunto de instrumentos extremamente eficazes de que ele se utiliza para conhecer, interpretar e atuar na ordem do universo criado.

Esse instrumental colocado na alma humana faz parte de sua natureza espiritual, tem uma extrema analogia com a ordem natural e constitui, portanto, a ponte entre a ordem natural e a sobrenatural, pois a graça não veio destruir a natureza, mas, pelo contrário, aperfeiçoá-la.

“Todo efecto representa algo de su causa, aunque de diversa manera. Pues algún efecto representa sólo la causalidad de la causa y no su forma. Ejemplo: El humo al fuego. Tal representación se llama representación del vestigio; pues el vestigio evoca el paso de algo transeúnte, sin especificar cuál es. Por otra parte, otro efecto representa a la causa en cuanto a la semejanza de su forma. Ejemplo: Un fuego a otro fuego; a Mercurio, su estatua. Esta es la representación de la imagen. Así, pues, en las criaturas racionales, con entendimiento y voluntad, se encuentra la representación de la Trinidad a modo de imagen, en cuanto que se encuentra en ellas la palabra concebida y el amor. Pero en todas las criaturas se encuentra la representación de la Trinidad a  modo de vestigio, en cuanto que en cada una de ellas hay algo que es necesario reducir a las personas divinas como a su causa. Pues cada criatura subsiste en su ser y tiene la forma con la que está determinada en una especie y tiene alguna relación con algo”  (Suma Ia, q. 45. a. 7).

Cada criatura tem, portanto, segundo Santo Tomás, um vestígio da Trindade; assim, compreendendo esta ideia, o homem possui a chave da interpretação do universo e é possível a ele conhecer a Deus ainda nesta terra, sem vê-lo, contudo, com os olhos da carne.

Em todos os homens, mesmo nos não-batizados, já ao nascer, encontra-se o senso do ser, uma espécie de matriz para conhecimento do universo, do relacionamento, dos principais conceitos que constituirão a rede de certezas que todo homem traz no mais profundo de seu espírito. Ninguém tem necessidade de ensinar a uma criança que a pessoa que a amamenta é sua mãe. Como, mais tarde, ninguém precisa lhe dizer que não deve mentir. Quando surpreendida em uma mentira, a criança, por si só, fica corada de vergonha. Ora, é o senso do ser que lhe diz que não pode mentir.

Daqui entendemos facilmente como o homem distanciado de Deus, voltado para si próprio e para o gozo material da vida, degenere em um ser meio cego, meio surdo, incapaz de ver com clareza o mundo e os outros homens.

Bibliografia

CLÁ DIAS, Mons. João S. A fidelidade ao primeiro olhar. São Paulo: Unítalo, 2008.

IVANOV, Andrey. A noção do Belo em Tomás de Aquino. Tese de doutorado – PUC. São Paulo, 2006.

TOMÉ, A.M. O símbolo como instrumento eficaz na formação da juventude. Tese de mestrado – UMA: Funchal, 2009.


[1] A terminologia “definição descritiva intrínseca” e “definição descritiva do efeito” não é usada por São Tomás de Aquino.

[2] In II De an., lec. 14, n. 417-418; In I Cor 12; In De sensu, lec. 2, n. 7-11 e 14-15; S. Th. IaIIae, q. 79, a. 3.

[3] De ver., q. 1, a. 11; S. Th. Ia, q. 17, a. 2, ad 1; In II De an., lec. 13, n. 384-388; S. Th. IIIa, q. 92, a. 2.

[4] De ver., q. 14, a. 1, ad 9; q. 15, a. 1; S. Th. Ia, q. 78, a. 4; In II De an., lec. 13, n. 388; III, lec. 10, n. 74.

[5]  De ver., q. 2, a. 6; q. 10, a. 5; De anima, a. 20, ad 1; In III De an., lec. 8, n. 712-713.

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