A Mãe de Deus deveria ter sido concebida com a plenitude de graças?

Nossa Senhora das Graças

Nossa Senhora das Graças, Basílica de Nossa Senhora de Fátima, Arautos do Evangelho. São Paulo – Brasil

Luz tênue, igreja praticamente vazia, poucos ruídos. É fim de tarde na católica cidade de Granada. No recinto sagrado, nota-se que ainda há um sacerdote no confessionário, à disposição de alguém desejoso de ver purificada sua alma.

Enquanto ele termina a última oração de seu breviário, um jovenzinho se acerca, e, como de costume naquela varonil nação, ajoelha-se cara-a-cara com o ministro de Deus. Não havia dúvida, o rapaz queria confessar-se.

Espanha foi um dos países que mais batalhou por defender a proclamação do Dogma da Imaculada Conceição, e, por isso, para o padre testificar a qualidade da devoção mariana na alma do penitente, logo que este se ajoelha, diz o sacerdote: “¡Ave María puríssima!” ao que se deve responder: “¡Sin pecado concebida!”.

Sabia o rapaz a bela resposta, e assim não hesitou em dizê-la… Mas o frade, olhando-o com exigência, afirmou: “¡No! Contésteme: ‘¡En Gracia concebida!’”.

Esse pequeno episódio revela uma grande verdade teológica: que Cristo tenha purificado sua Mãe Santíssima do Pecado Original, sabemos pelos lábios do Beato Pio IX, quando proclamou o Dogma da Imaculada Conceição, pela Bula Ineffabilis Deus, em 8 de Dezembro de 1854. Contudo, o “aspecto negativo” – por assim dizer – do Dogma é ter sido concebida sem pecado. Há o aspecto positivo do mesmo, ou seja, que Maria Santíssima foi concebida em Graça. De maneira que desde o primeiro instante de sua existência, o Espírito Santo escolheu Maria como Templo para habitar, enriquecendo-a com os seus dons, virtudes e carismas.

Entretanto, Cristo não Se contentou apenas com isso. Como se fosse pouco, fez com que Maria Santíssima tivesse tal plenitude de graças já no primeiro instante de sua concepção, que superasse a plenitude de graças de todos os Anjos e Santos reunidos. Essa doutrina, que o renomado dominicano espanhol Pe. Antonio Royo Marín qualifica como “completamente certa em Teologia”, tem suas provas nas Sagradas Escrituras, no Magistério e na especulação teológica. É seguindo os ensinamentos desse teólogo, o qual se apoia na doutrina de São Tomás, que contemplaremos essa bela verdade.[1]

Tal verdade é insinuada nas páginas sagradas quando o Arcanjo São Gabriel saúda a Virgem: “Ave Maria, cheia de Graça” (Lc 1,28). O ser “cheia”, “plena” de Graça, não admite restrição no tempo, de modo que o Anjo quisesse dizer que naquele momento estava Ela repleta de graças, mas não antes nem depois.

Se apelarmos ao Magistério, na mesma definição do Bem-aventurado Pio IX sobre a Imaculada Conceição, encontramos essas palavras tão significativas: “[Deus] tão maravilhosamente cumulou-A da abundância de todos os celestiais carismas, tirada do tesouro da divindade, muito acima dos anjos e santos, [que Ela] manifestasse tal plenitude de inocência e santidade que não se concebe de nenhum modo maior depois de Deus…”[2]

Mas, abeberando-nos das fontes escriturísticas, e das definições do Magistério, encontramos belíssimas razões teológicas de conveniência para que Maria Santíssima fosse cumulada de graças desde o primeiro instante.

Sede da Sabedoria

Nossa Senhora Sede da Sabedoria

São Tomás argumenta dizendo que quanto mais algo se aproxima do princípio de uma ordem, tanto mais terá uma participação e semelhança com aquele princípio. Exemplifiquemos: quanto mais nos aproximamos do fogo, princípio do calor, tanto mais nos esquentaremos. Assim também acontece com a ordem sobrenatural: quanto mais nos aproximemos de Deus, tanto mais participaremos de seus dons. Ora, quem mais próximo de Deus, que Aquela que foi Mãe de Deus, dando ao Verbo a natureza humana para que Ele se encarnasse? Ademais, Nossa Senhora portou em si a Cristo, o qual teve a plenitude de graças, pois era o próprio autor da Graça. Maria Santíssima foi a Mãe do Autor da Graça, e por isso Ela foi cumulada e cheia de Graça, cuja plenitude supera a de todas as demais criaturas.[3]

Caso alguém objetasse que Ela não esteve unida a Cristo desde seu primeiro instante de existência, alegaríamos que isso não importa quanto à posse de tal plenitude, pois a Virgem estava predestinada desde toda a eternidade para ser Mãe de Cristo.[4]

Por que podemos afirmar que a plenitude de Graça em Maria, é maior que a dos Anjos e dos Santos reunidos? A razão é simples: a Graça é feito do amor de Deus. Ora, Maria Santíssima foi amada desde o primeiro instante de sua concepção, mais que os Anjos e Santos, visto que só a Ela foi concedida a graça de ser Mãe de Deus. Logo, essa plenitude de Graça é maior que a de todas outras criaturas.

É evidente que a plenitude de Graça em Maria não foi idêntica à plenitude de Graça de seu Filho, pois Ele é o Autor da Graça. Cristo tinha a plenitude absoluta, e Maria a tinha de modo relativo, ou seja, por estar intimamente unida a seu Divino Filho. Destarte, a Santíssima Virgem sempre estava cheia de Graça, e sempre crescendo em Graça, pois Deus lhe aumentava a capacidade. Já sobre isso o Rei Davi profetizava acerca de sua Filha e de sua Mãe: “Seu vigor aumenta à medida que avançam…” (Sl 83,8). Dizem os teólogos, que inclusive durante o sono Maria Santíssima aumentava em Graça, pois possuía a ciência infusa, a qual, mesmo durante o repouso, trabalhava santamente.

O Doutor Angélico ao tratar da plenitude de Graça em Nossa Senhora, faz uma distinção esclarecedora: Maria teve uma plenitude inicial, no momento de sua concepção: era plena; teve a plenitude perfectiva, quando se operou n’Ela a Encarnação do Verbo, aumentando claramente a Graça Santificante; e por fim, tem Ela a plenitude final, na eternidade.[5] Cumpre dizer que esse privilégio de ter a plenitude inicial, com exceção de Cristo seu Filho, somente Ela teve.

Assim sendo, quão bela, santa e perfeita morada preparou Cristo Senhor para Si: impossível mais perfeita. Deus esgotou sua capacidade de perfeição em uma criatura, de maneira que Maria transcende os outros santos, como o Céu transcende a Terra. Maria Santíssima é a montanha preferida na qual Deus quis erigir sua habitação: “Montes escarpados, por que invejais a montanha que Deus escolheu para morar, para nela estabelecer uma habitação eterna?” (Sl 67).

 

Pe. Felipe Garcia Lopez Ria, EP

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[1] ROYO MARIN, Antonio. Jesucristo y la vida Cristiana. Madrid: BAC, 1960. p.224-227.

[2] PIO IX. Ineffabilis Deus. 8 de Dezembro de 1854. AAS 1/1,597s; (DH 2800).

[3] Cf. III, q.27, a.5. resp.

[4] “Deus inefável… elegeu e ordenou para seu Filho Unigênito, desde o princípio e antes de todos os séculos, uma Mãe…” (PIO IX. Ineffabilis Deus. Loc.cit.)

[5] S.Th. III, q.27. a.5. ad 2.

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