A Revolução Francesa vista de dentro do processo revolucionário I

1. O Processo Revolucionário na obra Revolução e Contra-Revolução.

Diante destes sucessivos pronunciamentos da Cátedra de Pedro, surge a questão: O que têm eles em comum? Se nos evidencia, à primeira vista, que todos se referem a uma constante luta entre a Luz e as trevas, entre a cidade de Deus e a de Satanás.

No entanto, podemos responder melhor a esta pergunta reportando-nos à profunda acuidade do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, que em sua obra “Revolução e Contra Revolução”, analisa a natureza, as causas, e o fim destes constantes assaltos dos inimigos da Civilização Cristã, objeto de viva preocupação de tantos Sumos Pontífices. Considera o autor que a sucessão histórica de ataques e perseguições, violentas ou não, à Igreja constituem única investida contra o Corpo Místico de Cristo e observa que tudo faz parte de um único plano, cujo objetivo é a destruição da Cristandade[1].

Por esta clave, percebe-se quanto de unidade há nas várias declarações pontifícias, pois, por mais que cada Papa tenha se pronunciado em sua época, todos se referem às acometidas dos inimigos da Cristandade, que, no fundo, provém da mesma causa, que age sempre sob a mesma inspiração.

A fim de melhor abarcar o que se exporá na seqüência deste trabalho, é de suma importância determo-nos na obra do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Com seu subtil discernimento, procura mostrar ao leitor a unidade da crise do mundo moderno e suas profundas raízes antropológicas[2]: “As muitas crises que abalam o mundo hodierno — do Estado, da família, da economia, da cultura, etc. — não constituem senão múltiplos aspectos de uma só crise fundamental, que tem como campo de ação o próprio homem. Em outros termos, essas crises têm sua raiz nos problemas de alma mais profundos, de onde se estendem para todos os aspectos da personalidade do homem contemporâneo e todas as suas atividades[3]”.

O autor especifica cinco características nesta crise[4]:

1 – UNIVERSAL: pois em grau maior ou menor, atinge a todos os povos.

2- UNA: não vê ele um conjunto de crises, porém uma única crise com vários aspectos.

3- TOTAL: visto que se desenvolve em todas as ações do homem.

4- DOMINANTE: se verifica uma conjunção de forças em delírio que vai, gradualmente, impelindo as nações ocidentais ao caos e à ruína moral, para torná-las o oposto do ideal de Civilização Cristã.

5- PROCESSIVA: É uma crise multissecular que vem produzindo, desde o século XV sucessivas convulsões.

Na apresentação de sua obra, o autor logo denuncia este inimigo do Reino de Deus, objeto de reiteradas advertências dos Santos Padres, denominando-o de: “Revolução”. E nos indica que sua causa mais profunda “é uma explosão de orgulho e sensualidade que inspirou, não […] um sistema, mas toda uma cadeia de sistemas ideológicos[5]”. Desta explosão decorreram as três grandes revoluções na história do Ocidente: “a Pseudo-Reforma, a Revolução Francesa e o Comunismo[6]”.

Como vemos, este inimigo, chamado “Revolução”, tem duas molas propulsoras: o orgulho e a sensualidade, e é de se notar sua evolução ao longo de séculos, caminhando passo a passo, sempre com a meta clara da destruição do Reino de Deus, e a implantação da cidade terrestre de que nos fala Santo Agostinho. Pelo fato de se alastrar pela história – especifica o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira – trata-se propriamente de um “processo revolucionário”, cuja profundidade, envergadura e duração desenvolve-se abrangendo todos os domínios das atividades do homem: a cultura, as leis, os costumes e as instituições[7].

Em sua análise histórica, o autor indica que esta “explosão de orgulho e sensualidade” eclodiu quando, em fins do século XIV, observou-se o início de profundas metamorfoses nas mentalidades: “o apetite dos prazeres terrenos se vai transformando em ânsia. As diversões se vão tornando mais freqüentes e mais suntuosas. Os homens se preocupam sempre mais com elas[8]”; e tais mudanças se alastraram séculos adentro, avolumando-se sempre mais.

Analisando ainda o declínio medieval, Plinio Corrêa de Oliveira observa uma mudança nas aspirações humanas: Os trajes, a linguagem, a literatura e a arte começaram a espelhar o desejo de uma vida repleta de voluptuosidade e fantasia, fazendo penetrar cada vez mais a fundo nos espíritos a sensualidade e a moleza[9].

Nesse sentido confirma Huizinga esta visão Pliniana sobre o ocaso Medieval: “O final da Idade Média é um desses períodos em que a vida cultural dos círculos mais altos quase se transformou completamente em um teatro social. […] Em toda a cultura cavalheiresca do século XV há um equilíbrio precário entre a seriedade sentimental e a ironia jocosa[10]”, e aponta o autor na cavalaria, um típico exemplo da decadência dos fins da era medieval. Com o ambiente acima descrito, não é de se espantar que, uma vez abertas as comportas da sensualidade, siga-lhe de perto a soberba, pois “tal clima moral, penetrando nas esferas intelectuais, produziu claras manifestações de orgulho, como o gosto pelas disputas aparatosas e vazias, pelas argúcias inconsistentes, pelas exibições fátuas de erudição[11]”.

1.1. As três grandes revoluções da História do Ocidente.

O esfacelamento do verdadeiro espírito medieval preparou o terreno para a eclosão da primeira grande revolução da história do Ocidente: a Pseudo-Reforma e a Renascença. Observou-se então, na Cristandade medieval, uma crescente e exagerada admiração pelo mundo antigo, originando os movimentos do Humanismo e da Renascença. Estes tenderam a relegar a Igreja, o sobrenatural e os valores morais da Religião a um segundo plano[12], fomentaram ainda mais “o orgulho e a sensualidade, em cuja satisfação está o prazer da vida pagã, [suscitando, deste modo,] o protestantismo[13]”. Explica o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira que: “O orgulho deu origem ao espírito de dúvida, ao livre exame, à interpretação naturalista da Escritura. Produziu ele a insurreição contra a autoridade eclesiástica, expressa em todas as seitas pela negação do caráter monárquico da Igreja Universal, isto é, pela revolta contra o Papado. Algumas, mais radicais, negaram também o que se poderia chamar a alta aristocracia da Igreja, ou seja, os Bispos, seus Príncipes. Outras ainda negaram o próprio sacerdócio hierárquico, reduzindo-o a mera delegação do povo, único detentor verdadeiro do poder sacerdotal.

“No plano moral, o triunfo da sensualidade no protestantismo se afirmou pela supressão do celibato eclesiástico e pela introdução do divórcio[14]”.

O Humanismo e a Renascença se desenvolveram em toda a Europa, contudo, na França – onde a piedade já se enfraquecera com o jansenismo e outras investidas do protestantismo – “tal ação teve por efeito no século XVIII uma dissolução quase geral dos costumes, um modo frívolo e brilhante de considerar as coisas […] que preparou o campo para a vitória gradual da irreligião[15]”. É então que se desencadeia a Revolução Francesa –segunda grande revolução, profundamente afim com o protestantismo e o neopaganismo – que realizou, no domínio temporal, uma obra simétrica à que fizera a Pseudo-Reforma no campo espiritual[16].

Na exaltação do estouro protestante constatou-se que algumas seitas já tinham mesclado suas aspirações religiosas de um cunho político, como se deu, por exemplo, com os anabatistas, que “levados por seus sonhos apocalípticos e seus planos de formar uma nova sociedade, tendo por base uma espécie de comunismo libertário, se opunham à autoridade do Estado e causavam verdadeiras desordens públicas[17]”.

De modo similar, também a Revolução Francesa levou encubado em seu seio o comunismo e a partir dela sobreveio o marxismo, como nos faz notar o Prof. Plinio Correa de Oliveira: “Da Revolução Francesa nasceu o movimento comunista de Babeuf. E mais tarde, do espírito cada vez mais vivaz da Revolução, irromperam as escolas do comunismo utópico do século XIX e o comunismo dito científico de Marx[18]”, estes constituem a terceira revolução.

 

1.2. As três profundidades da Revolução.

Como vimos, historicamente, a Revolução é um processo que se faz e continua a se fazer aos poucos, por etapas. Afirma Plinio Corrêa de Oliveira que ela procura desenvolver no homem certas tendências desregradas, as quais, em cada etapa revolucionária, ostentam um aspecto próprio, fazendo-a, deste modo, avançar ao longo da História por meio de metamorfoses[19]; é o que constatamos, por exemplo, com o fim da Idade Média, segundo o que explicamos acima. Analisa ainda o autor, que, neste processo, a Revolução se utiliza destas “tendências desordenadas que lhe servem de alma e de força propulsora mais íntima[20]”. Distingue ele, na Revolução, três profundidades que marcam o dinamismo de seu andamento: “A primeira, isto é, a mais profunda, consiste em uma crise nas tendências[21]”. Semelhante crise, segundo o prisma Pliniano, dá-se quando se introduz modificações nas mentalidades, nos modos de ser, nas artes e nos costumes, a fim de desordená-los. No primeiro passo limita-se a Revolução a uma ação apenas tendencial, um confronto no terreno das idéias é astutamente evitado[22].

Efetivamente, somente depois de ter desordenado as tendências é que a Revolução se aventura no lance seguinte: influenciar o campo ideológico. Uma vez “inspiradas pelo desregramento das tendências profundas, doutrinas novas eclodem[23]”, bem entendido, estas doutrinas vão sempre além de onde foram as anteriores, sobrepassando-as assim, em influência revolucionária.

Uma vez que tenha desgovernado as tendências e desmandado as ideologias, a Revolução se traduz para o âmbito dos fatos: “Essa transformação das idéias estende-se, por sua vez, ao terreno dos fatos, onde passa a operar, por meios cruentos ou incruentos, a transformação das instituições, das leis e dos costumes, tanto na esfera religiosa quanto na sociedade temporal. É uma terceira crise, já toda ela na ordem dos fatos[24]”.

Em linhas gerais, este é o processo revolucionário, suas três grandes revoluções na história do Ocidente, e sua tríplice profundidade[25].

Pe. Michel Six, EP. Extrato da monografia “A perseguição à Igreja durante a Revolução Francesa: aspecto desconhecido de uma etapa do processo revolucionário”


[1] Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra Revolução. 5. ed. São Paulo: Retornarei, 2002. p. 59-60.

[2] Note-se que o autor considera esta crise mais especificamente no homem ocidental e cristão, e seus descendentes, a saber: o europeu, o americano e o australiano. As demais famílias de povos do globo terrestre não é que estejam isentas desta crise, porém apenas entram em consideração, na medida em que estas se abriram à civilização ocidental. (Cf. ibid p. 21-22).

[3] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra Revolução. 5. ed. São Paulo: Retornarei, 2002. p. 21.

[4] Cf. Ibid. p. 22-26.

[5] Ibid. p. 14 (Introdução).

[6] Loc. cit.

[7] Cf. Ibid. p. 15-16.

[8]Ibid. p. 26.

[9] Ibid. p. 27.

[10] HUIZINGA, Johan. O Outono da Idade Média. Trad. Francis Petra Janssen. São Paulo: Cosac Naify, 2010 p. 119.

[11] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra Revolução. 5. ed. São Paulo: Retornarei, 2002. p. 27.

[12] Ibid. p. 28.

[13] Ibid. p. 29.

[14] Loc. cit.

[15] Ibid p. 30.

[16] Loc. cit.

[17]Llevados de sus sueños apocalípticos y sus planes de formar una nueva sociedad sobre la base de una especie da comunismo libertario, se oponían a la autoridad del Estado y causaban verdaderos desórdenes público” LLORCA, Bernardino; García-Villoslada, Ricardo; MONTALBAN, F. J. Historia de la Iglesia Católica: Edad Nueva – La Iglesia en la época del Renacimiento y de la Reforma Católica. 5. ed. Madrid: BAC, 2005. Vol. III. p. 687. (Tradução do autor).

[18] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra Revolução. 5. ed. São Paulo: Retornarei, 2002. p. 31.

[19] Ibid. p. 38-39.

[20] Ibid. p. 40-41.

[21] Ibid. p. 41.

[22] Ibid. p. 41.

[23] Loc. cit.

[24] Ibid. p. 42.

[25] Dada a complexidade do tema, haveria ainda muitos outros pormenores e matizes a serem tratados; estes, entretanto, estenderiam em demasia o trabalho cujo espaço é limitado, portanto, a eles nos reportaremos, na medida em que se associem ao tema.

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