A virtude da Fortaleza em Nosso Senhor Jesus Cristo

001É comum nos depararmos com uma visão reducionista de Nosso Senhor Jesus Cristo. Muitos ao tentarem encontrar uma desculpa para justificar suas doutrinas miserabilistas, ou conformadoras com os defeitos e pecados do “próximo”, tentam transmitir uma visão apoucada e muitas vezes deturpada do Nosso Redentor.

É por causa disso que muitos defendem a “necessidade de perdoar” como sendo a única obrigatória; nunca recriminar, sempre ser condescendente com os defeitos do próximo. Porém não foi esse o ensinamento que o Divino Mestre deixou àqueles que com Ele conviveram, e, para perpétua memória, escreveram os Santos Evangelhos.

Por isso, pareceu-nos oportuno ressaltar através dessas linhas um aspecto do resplendor divino que brilhou na pessoa do Homem-Deus, e que hoje está posto de lado: a virtude da fortaleza. E a fim de silenciarmos o “romantismo religioso” que invade os meios católicos em nossos dias, trazemos a lume as palavras do grande líder católico brasileiro, o Professor Plinio Corrêa de Oliveira, que afirma:

“Fazemos a apologia de doutrinas de luta e de força, luta pelo bem é certo, e força a serviço da verdade. Mas o romantismo religioso do século passado desfigurou de tal maneira em muitos ambientes a verdadeira noção de Catolicismo, que este aparece aos olhos de um grande número de pessoas, ainda em nossos dias, como uma doutrina muito mais própria ‘do meigo Rabi da Galileia’ de que nos falava Renan – do taumaturgo um tanto rotariano por seu espírito e por suas obras, com que o positivismo pinta blasfemamente Nosso Senhor, parecendo ao mesmo tempo enaltecê-Lo – do que do Homem Deus que nos apresentam os Santos Evangelhos.” (1983, p. 283)

Para introduzir melhor o leitor no tema, colocamos uma breve descrição teórica da virtude da fortaleza, segundo o grande teólogo, Pe. Antônio Royo Marín, O.P.: “[a virtude da fortaleza é] uma virtude cardeal infundida com a Graça Santificante que inflama o apetite irascível e a vontade para que não desistam de conseguir o bem árduo ou difícil nem sequer pelo máximo perigo da vida corporal.” (1968, p. 588)

Em outras palavras, a virtude da fortaleza nos dá a força e a coragem necessárias para cumprirmos nosso dever, mesmo que isso seja muito difícil ou até mesmo que ponha em risco a vida material do homem, desde que o motivo seja sobrenatural. É o caso dos mártires, que preferiram morrer a renegar sua Fé.

Seria necessária uma explicação muito longa e detalhada para conhecermos todos os seus efeitos e virtudes derivadas. Mas para o efeito que nos propomos neste artigo, faremos menção apenas de duas virtudes, que são mais salientadas nos Evangelhos. Elas são a Paciência e Magnanimidade.

“A Magnanimidade é uma virtude que inclina a empreender obras grandes, esplêndidas e dignas de honra em todo gênero de virtudes.” (ROYO MARÍN, 1968. p. 590) Como sabemos, não foi outra coisa a vida do Verbo Encarnado nessa terra, realizar grandes obras.

Já a virtude da Paciência tem como objetivo inclinar a suportar sem tristeza de espírito nem abatimento de coração os padecimentos físicos e morais, e o principal motivo da paciência cristã é a conformidade com a vontade Divina, que sabe muito mais do que o homem. (cf. ROYO MARÍN, 1968, p. 592)

Agora, cabe-nos saber se o Bom Pastor possuiu e praticou essa virtude? Vejamos como o Pe. Anton Koch, S.I., nos descreve a cena da expulsão dos vendilhões do Templo:

“Duas vezes vemos relampejar de ira os olhos do Rei que havia de vir com mansidão (Mt 21, 5); duas vezes o doce Jesus descarrega o raio de uma cólera divina; mas duas vezes para purificar a casa de seu Pai […] Jesus acaba de inaugurar sua atividade pública com o milagre feito em Caná, no circulo familiar de umas bodas. Estando próxima a Páscoa, sobe a Jerusalém. E entra no Templo. E vê toda aquela profanação do lugar sagrado; O que veio para dar glória ao Pai se sente consumido pelo zelo de sua casa, e colhe umas cordas, as primeiras que encontra, forma com elas um açoite, e o faz relampejar no meio de toda aquela gente; expulsa do Templo os vendedores juntamente com seus animais, derrama o dinheiro dos cambistas, derruba as mesas e com voz de trovão, com voz de santa indignação clama ‘retirai isso daqui, e não façais da casa do meu Pai um covil de ladrões’.” (1954, p. 561-562)

Semelhante atitude de ira foi necessária na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, como nos aponta Karl Adam: “Semelhante querer, tão extraordinariamente concentrado e disciplinado, semelhante força de alma devia irromper também no exterior por alguma palavra dura, por alguma ação ousada, quando forças inimigas ou malévolas se lhe opusessem. Em Jesus não havia somente uma força contida, uma vontade determinada, mas um ardor entusiasta e uma santa paixão. Basta notar a emoção que trazem algumas de suas palavras e de suas ações: ‘Retira-te Satanás’ – é assim que repele com horror a aparição tentadora. […] ‘Retirai-vos de mim, obreiros da iniqüidade, não vos conheço!’, dirá no dia do Juízo aos que não tiverem socorrido cá na terra os irmãos em necessidade.” (1997, p. 17)

O mesmo autor lembra o grande número de parábolas nas quais se ressalta a ira do Divino Redentor: “É o raio que fulgura, é o trovão que explode, como na parábola do joio: ‘O Filho do homem enviará os seus anjos, e eles tirarão do seu reino todos os escândalos e todos os que praticam a iniqüidade, e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes’.” (1997, p. 18)

Porém, mais do que uma simples ira, o Mestre experimentou também o sentimento da cólera: “Os evangelistas nos falam da ‘cólera’ de Cristo: […] sobretudo quando os fariseus, na ‘cegueira do seu coração’, reagem contra qualquer ensinamento e se fecham num silêncio obstinado e desdenhoso. A contrariedade interior que experimentará, o seu senso de lealdade e de verdade feridos, o seu sentimento moral magoado explodirão nesses momentos em palavras fortes, mesmo duras. Falará de hipócritas, de serpentes, de raça de víboras. Não terá receio de qualificar como ‘raposa’ o próprio Herodes.

“Quando se tratava de dar testemunho da verdade, Jesus não sabia tergiversar nem fraquejar por medo. Tinha um caráter de lutador. Não se esquece de quem é nem se deixa arrastar. A sua cólera é sempre a expressão da mais alta liberdade, a expressão de um homem que tem consciência de ‘não ter vindo ao mundo senão para dar testemunho da verdade’.” (1997, p. 20-21)

Porém a sua cólera é a mais alta expressão da Temperança Divina, pois sendo a ira um instrumento da fortaleza, deve ser temperada e controlada pela razão. (cf. ROYO MARÍN, p. 589)

Tendo assim feito um rápido apanhado sobre a virtude da fortaleza na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, percebemos que o Homem Deus é realmente o Bom Pastor, mas também sabe corrigir as suas ovelhas, e aquelas que não quiserem escutar a sua voz serão tratadas como cabritos no dia do Juízo Final. (cf. Mt 25, 41).

É isso que, em outras palavras, afirmou Plinio Corrêa de Oliveira: “[…] Nosso Senhor não foi um doutrinador sentimental mas o Mestre infalível que, se de um lado soube pregar o amor com palavras e exemplos de uma insuperável e adorável doçura, soube, também pela palavra e pelo exemplo, pregar com insuperável e não menos adorável severidade o dever da vigilância, da argúcia, da luta aberta e rija contra os inimigos da Santa Igreja, que a brandura não puder desarmar.” (1983, p. 287)

Pe. Millon Barros de Almeida, E.P.

 

Bibliografia

ADAM, Karl. Jesus Cristo. 2 ed. São Paulo: Quadrante, 1997.

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica – Nº 20 – 2ª da 2ª Parte: Questões 123 – 170 – Da Coragem – Da Temperança. Tradução de Alexandre CORREIA. São Paulo: Faculdade de Filosofia “Sedes Sapientiae”, 1958.

CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Em defesa da ação católica. 2 ed. São Paulo: Artpress, 1983.

FERNÁNDEZ, Aurélio. Diccionario de Teología Moral. Burgos: Monte Carmelo, 2005.

KOCH, Anton, Pe. S.J.; SANCHO, Antonio, Dr. Can. Mag. Docete – Formación Básica del Predicador y del Conferenciante – Tomo II: El Hombre – Dios. Barcelona; Buenos Aires; Santiago de Chile; São Paulo; Bogotá: Herder, 1953.

KOCH, Anton, Pe. S.J.; SANCHO, Antonio, Dr. Can. Mag. Docete – Formación Básica del Predicador y del Conferenciante – Tomo V: El Hombre y Dios. Barcelona; Buenos Aires; Santiago de Chile; São Paulo; Bogotá: Herder, 1954.

MARÍN, Antonio Royo. El Gran Desconocido: El Espíritu Santo y sus dones. 2 ed. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2004.

MARÍN, Antonio Royo. Teologia de la perfección cristiana. 5 ed. Madrid: La Editorial Catolica, 1968.

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