Advento: Destinada para dar ao Senhor digna morada

Msgr Joao AUTHOR

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

O capítulo nono dos Provérbios se abre com este versículo: “A sabedoria edificou para si uma casa”. Qual é esta sabedoria e que morada construiu ela para seu uso? São Bernardo nos responde: “Esta sabedoria que era de Deus e que era Deus, vinda a nós do seio do Pai, construiu para si uma casa, e esta casa foi a Virgem Maria, sua Mãe”[1].

Casa ornada pelo Divino Arquiteto

Bernard de ClairvauxCorroborado pelas opiniões do santo Abade de Claraval e de outros eminentes varões da Igreja, escreve o Pe. Paulo Ségneri, afamado jesuíta e pregador na Corte Pontifícia, no séc. XVII:

“Segundo os santos doutores, a casa que a Sabedoria para si edificou, é a Virgem Santa que o Verbo escolheu desde toda a eternidade por Mãe. Ora, um rei poderoso e rico que deseje construir para si uma mansão, deseja, ao mesmo tempo, que nada se poupe para a regularidade, ornamento e magnificência do edifício.

“A Sabedoria Eterna faria menos por sua morada?

“Não. O Verbo, tendo resolvido tomar um corpo humano no seio de uma Virgem, e de nele permanecer nove meses, não negligenciou nada para adornar este templo de sua divindade, para enriquecê-lo de todos os seus dons, em uma palavra, para torná-lo digno de si. Deste modo a Escritura fala do Verbo sob o nome da Sabedoria, Sapientia ædificavit sibi domum, a fim de nos assinalar que é a sabedoria que Ele emprega, para escolher e formar uma criatura da qual jamais se envergonhará de ser o Filho.

“O Verbo, pois, como hábil arquiteto que nada deixa de irregular, nada de defeituoso, na obra-prima de sua arte, e que lhe dá, pelo contrário, toda a perfeição de que é capaz, o Verbo, disse, longe de suportar em sua Mãe qualquer desordem, qualquer defeito, tomará prazer em aperfeiçoá-La, como numa obra à qual preside sua sabedoria infinita.Annunciation

“Que prova nos é necessária, depois disso, das grandes prerrogativas da Santíssima Virgem? Pode alguém recusar-Lhe alguma, quando se faz a reflexão de que Ela é a casa que a Sabedoria edificou para si: Sapientia ædificavit sibi domum?”[2]

Na mesma linha seguem os comentários do Pe. Jourdain:

“Não a um homem, mas ao próprio Deus era mister preparar uma residência, a qual em tudo fosse digna do hóspede divino que a ocuparia, não por um dia, de passagem, mas para nela habitar e dela tomar os elementos de uma nova vida. […]

“Tal mansão está necessariamente ao abrigo de qualquer mácula. Ou seja, Maria, Mãe do Deus feito homem, criada e preparada por Ele para se encarnar em seu seio, foi necessariamente isenta de qualquer falta, seja atual, seja original. […] Isto não basta, acrescenta ainda Santo Agostinho; convinha que Ela fosse ornada e enriquecida de todas as virtudes: «O Filho de Deus não construiu jamais uma casa mais digna de Si do que Maria. Esta habitação nunca foi assaltada pelos ladrões, jamais atacada pelos inimigos, nunca despojada de seus ornamentos». […]

A mais ilustre habitação de Deus

“São Pedro Damião e São Jerônimo, assim entendem o capítulo III de Isaías: a Santíssima Virgem é verdadeiramente a casa de Deus, o palácio ou a corte real em que o Filho do Rei Eterno, revestido de nossa carne, fez sua entrada neste mundo. «O palácio sagrado do Rei, única habitação d’Aquele que nenhum lugar pôde conter», como diz Santo André de Creta. […]

“A Santíssima Virgem Maria é, portanto, a casa de Deus. Se, como diz o Apóstolo, «os que vivem castamente são o templo de Deus», a Virgem, a castíssima Mãe de Deus poderia não sê-lo? Sim, Ela o é, e jamais possuiu Deus moradia mais nobre e mais digna de Si. Por isto diz São Gregório: «Salve, templo vivo da Divindade! Salve, casa equivalente ao Céu e à Terra! Salve, templo digno de Deus!»”[3]

Habitação ornada com as mais belas prendas

São Alfonso Maria De LiguoriE Santo Afonso de Ligório, citando o Doutor Angélico, comenta:

“Devem ser santas e limpas todas as coisas destinadas para Deus. Por isso David, ao traçar o plano do templo de Jerusalém com a magnificência digna do Senhor, exclamou: Não se prepara a morada para algum homem, mas para Deus (IPar. XXIX, 1). Ora, o soberano Criador havia destinado Maria para Mãe de seu próprio Filho. Não devia, então, adornar-Lhe a alma com todas as mais belas prendas, tornando-A digna habitação de um Deus?

“Afirma o Beato Dionísio Cartuxo: O divino artífice do universo queria preparar para seu Filho uma digna habitação, e por isso ornou Maria com as mais encantadoras graças. Dessa verdade assegura-nos a própria Igreja. Na oração depois da Salve Rainha, atesta que Deus preparou o corpo e a alma da Santíssima Virgem, para serem na Terra digna habitação de seu Unigênito”[4].

A morada do Rei Crucificado

Finalmente, outro aspecto — talvez mais sublime que os demais — de Maria Santíssima enquanto casa de Deus, nos é apresentado por Santo Ambrósio, o pai da Mariologia ocidental. Comentando o Evangelho de São Lucas (XXIII, 33-49), designa ele a Nossa Senhora, junto à Cruz, como sendo “a morada do Rei”[5].

A isto observa, por sua vez, o beneditino D. Manuel Bonaño: “A Virgem é a corte, o palácio, a morada por excelência do grande Rei. Aos pés da Cruz, quando Nosso Senhor é por todos abandonado, Ela continua sendo sua morada, como o foi na Encarnação”[6].

Maria, templo onde Jesus quer ser invocado

Ó Jesus que viveis em Maria, vinde e vivei em vossos servos, no espírito de vossa santidade, diz a conhecida Oração a Jesus vivendo em Maria. Comentando esta passagem da mesma, assim se exprime o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:

“Jesus viveu em Maria, e, de Maria, Jesus se comunicou aos homens. Nossa Senhora é o sacrário onde está Nosso Senhor Jesus Cristo, e o santuário de dentro do qual todas as graças se difundem para o gênero humano.

“Por isso, devemos rezar a Jesus enquanto vivendo em Maria, porque Ele quer ser invocado dentro do seu templo, que é a Santíssima Virgem. Pedir a Ele o quê? Que Ele venha e viva em nós, como vivia n’Ela.

“Viver em nós, quer dizer, é ter o espírito da santidade de Jesus Cristo, que é o espírito da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. E é, portanto, o espírito «ultramontano», a expressão mais característica do espírito da Santa Igreja.

“Isto é o que devemos pedir a Jesus, por meio de Nossa Senhora, enquanto vivendo n’Ela.”

CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio.  Conferência em 23/5/1966. (Arquivo pessoal).

(Referência: CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. 2 ed. Vol. 1. São Paulo: Associação Católica Nossa Senhora de Fátima, 2010. p. 111-113)



[1] BERNARDO. Obras Completas. Madrid: BAC, 1953. Vol. I. p. 1070.

[2] SÉGNERI, Paulo. Meditações. Apud JOURDAIN, Z.-C. Somme des Grandeurs de Ma-

rie. Paris: Hippolyte Walzer, 1900. Vol. VIII. p. 1-2.

[3] JOURDAIN, Z.-C. Somme des Grandeurs de Marie. Paris: Hippolyte Walzer, 1900.

Vol. III. p. 247-248.

[4] LIGUORI, Afonso Maria de. Glórias de Maria Santíssima, 6. ed. Petrópolis: Vozes,

1964. p. 192.

[5] AMBROSIO. Obras de San Ambrosio: Tratado sobre el Evangelio de San Lucas. Ma-

drid: BAC, 1966. Vol. I. p. 612.

[6] BONAÑO, Manuel. In: AMBROSIO. Loc. cit.

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