Como interpretar a Bíblia? (parte II)

Ítalo Santana Nascimento

Em consonância com a Igreja

Tendo visto uma porção de pequenas regras, resta-nos o último e essencial.  A Palavra de Deus, como é toda inspirada pelo Divino Espírito Santo, para ser compreendida em seu verdadeiro sentido e servir para o crescimento espiritual, requer um princípio maior e mestre: ser lida e interpretada com a ajuda daquele mesmo Espírito em que foi escrita.[1]

E como podemos fazer isso? Lemos, pois, e interpretamos autenticamente a Bíblia, no Espírito em que foi escrita, unicamente quando o fazemos por mediação da Igreja e em consonância com a Igreja, que é a intérprete oficial da Sagrada Escritura. Nela, através do Magistério, Nosso Senhor vem em auxílio de nossa humana fragilidade, dando-nos os meios de evitar perigosos descaminhos. “Quem vos ouve, a Mim ouve” (Lc 10,16), disse Jesus a seus apóstolos expressando esta ilustre verdade.[2]

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Se tudo fizermos unidos à Igreja, que na pessoa do Papa é infalível, estaremos apoiados sobre a rocha firme da inerrância. Se, pelo contrário, desejarmos seguir os nossos próprios critérios cairemos nos erros mais funestos. Ninguém tem o direito de abandonar a autoridade da Igreja para interpretar “livremente” qualquer trecho da Escritura, porque “nenhuma profecia — ou seja, nenhuma passagem bíblica — é de interpretação pessoal” (2Pd 1,20); por isso, a palavra final em matéria de interpretação cabe sempre à Igreja. A interpretação sadia só se faz levando-se em conta, em larga medida, a Tradição dos apóstolos comunicada de geração em geração até nós[3], e testemunhada pelos Padres.[4]

A história não nos pode esconder aquela parcela de homens que tomando a própria consciência como lei, e não se submetendo às determinações e conselhos da Esposa de Cristo, receberam o nome nefando de “hereges”. Lutero, para dar um exemplo entre outros, afirmava que: “Muito embora a Igreja, Agostinho e os outros doutores, Pedro e Paulo, e até um anjo do céu ensinem o contrário, minha doutrina é tal que só ela engrandece a graça e a glória de Deus e condena a justiça de todos os homens na sua sabedoria”[5]; ou ainda, “quem não crê como eu é destinado ao inferno. Minha doutrina e a doutrina de Deus são a mesma coisa. Meu juízo é o juízo de Deus”[6]. Não é de espantar que alguém, de tal modo apegado a sua ciência, fosse o autor da doutrina do livre exame, ou seja, daquela enganosa doutrina que ensina a se interpretar a Bíblia segundo os próprios conceitos, sem levar em conta o que diz a Igreja. As interpretações que se fazem desta maneira são meramente subjetivas, produtos da imaginação e desprovidas de relações reais com a Revelação.

Quão diferente é a mentalidade daqueles que, inteiramente fiéis à Igreja, foram após a morte, constituídos por Deus como colunas e sustentáculos da verdade, como foi o grande Padre Santo Agostinho. Dele é a magnífica frase, resumo magistral deste espírito de submissão: “Eu não creria no Evangelho, se a isto não me levasse a autoridade da Igreja Católica”.[7] Conformados com este princípio e cheios de humildade, poderá o Salvador outras vezes cantar ao Padre Eterno em celestiais louvores: “Eu te louvo ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque revelaste os mistérios de teu reino aos pequeninos, escondendo-os aos doutores” (Lc 10, 21). Que maior norma pode haver? Sejamos assim, pois unidos com a Igreja; não só enxergaremos com maior clareza as maravilhas de Deus nos escritos sagrados, mas veremos que Ele mesmo escreve em nós, quais livros em branco, as maravilhas indizíveis de sua graça.

Revisão: Tiago Geraldo (Mestre em Teologia Bíblica)/Guy de Ridder


[1] Cf. PAULO VI, Constituição Dogmática Dei Verbum. Disponível em << www.vatican.va.>> Acesso em 26 nov. 2010, n. 12: “As verdades reveladas por Deus, que estão contidas ou expressas nos livros da Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo”; e, portanto, a Sagrada Escritura deve ser “lida e interpretada com o auxílio do mesmo Espírito, mediante o qual foi escrita”.

[2] Cf. Idem. n. 10: “Tudo quanto diz respeito à interpretação da Escritura, está sujeito ao juízo último da Igreja, que tem o divino mandato e o ministério de guardar e interpretar a palavra de Deus”.

[3] Conferir artigos: O que é a Tradição? e, O que é a Revelação?

[4] Conferir próximo artigo: Qual a importância dos Padres na interpretação da Bíblia?

[5] WEIMAR apud CLÁ, João S. Dias. Como Ruiu a Cristandade Medieval: Humanismo, Renascença e Protestantismo. São Paulo: Artpress, [s. d.]. pag. 207.

[6] Idem.

[7] AGUSTIN, San. Obras completas. Escritos antimaniqueos I. Réplica a la carta llamada “del Fundamento”. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1986. P. 391. “Yo, en verdad, no creería en el Evangelio si no me impulsase a ello la autoridad de la Iglesia Católica” (Tradução pessoal).

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