DOGMAS MARIANOS – I

A Maternidade Divina

Pela devoção popular sabemos, como toda a Igreja desde seus primórdios, que Nossa Senhora é a Mãe de Deus, entretanto, como pode dar-se isso sendo Ela puramente humana?

Fra Angelico, The Annunciation

Em meio a terríveis discussões, diversas dificuldades e uma verdadeira luta entre anjos e demônios, é proclamado, então, o Dogma da Maternidade Divina de Maria Santíssima.

No concílio de Nicéia (325) já havia sido proclamada a consubstancialidade de Deus Pai e Deus Filho. Posteriormente, no concílio de Constantinopla (381) a discussão girava em torno da divindade do Espírito Santo, a qual foi belamente defendida pelos três Padres Capadócios. Já por volta do ano 431, os debates eram sobre outra questão: tratava-se de definir, uma vez que Nosso Senhor Jesus Cristo era Deus, mas também se fez homem, como se dava a união entre o Divino e o Humano, o Infinito com o finito.[1]

Estamos ainda nos primórdios da Santa Igreja. Há poucos séculos o próprio Deus fundou-a morrendo na cruz, vertendo de seu lado aberto as últimas gotas de sangue e água sacratíssimos que lhe restavam. Não tinham, pois, sido proclamadas solenemente todas as verdades, hauridas da Revelação. A partir daí, a Divina Providência suscitou os chamados Padres da Igreja, que inspirados pelo Divino Espírito Santo, pregavam e escreviam seus ensinamentos, transmitindo assim a doutrina da Igreja, cumprindo o mandato da Sagrada Escritura[2] e, além de tudo, defendiam a Fé Cristã.

Um deles foi o grande São Cirilo de Alexandria, o qual foi incumbido pelo Sumo Pontífice de preparar o Concílio em Éfeso, no qual se definiria de aí por diante o Dogma Mater Dei. Tratava-se a princípio de um projeto fácil, uma vez que, como consta em inúmeras obras, essa devoção já estava espalhada por todo o povo. Ao serem convocados os bispos para participarem das decisões, era comum, entre os fiéis, alguns se apresentarem nas casas destes a fim de receber explicações a respeito do problema o qual estava sendo posto sobre Maria Santíssima e sua Divina Maternidade.

No ano de 428, Nestório toma conta do patriarcado de Constantinopla e, do púlpito, explica sua doutrina sobre a maternidade de Nossa Senhora. Dizia que era mãe efetiva de Nosso Senhor Jesus Cristo, de seu corpo, que realmente o levou em seu seio, no entanto não era mãe de Deus, de sua divindade, ou seja, se em Cristo havia duas naturezas (divina e humana), Ela seria mãe apenas da natureza humana, não podendo, desta forma, ser Mãe de Deus. A esta proposição os bispos e, sobretudo, São Cirilo, levantaram-se com enorme ímpeto e propuseram ser definida a questão por todo o sempre.

Leonardo da Vinci, Annunciation

Ora, é bem verdade o trecho da Sagrada Escritura “O Anjo, porém, acrescentou: “Não temas, Maria! Encontraste graça junto de Deus. Eis que conceberás no teu seio e darás à luz um filho, e o chamarás com o nome de Jesus.”[3] Entretanto, é certo dizer que Nossa Senhora é Mãe de Jesus, mas não de Deus?

Ao contemplar a Encarnação do Verbo enunciado nos Evangelhos, fica-se admirado, pois quão enorme foi o fato do próprio Deus ter-se feito carne e habitado entre nós[4], a fim de remir-nos da Culpa Original e conceder que recebamos a Natureza Divina por meio do Santo Batismo. Aquele mesmo Deus, criador de todas as coisas, a quem céus não bastavam, que fez o universo inteiro para si, pôs-se num presépio, fazendo-se um de nós, com todas as contingências de uma criança. O Nazareno, que não permitiu aos participantes ficarem sem vinho[5]; o Filho de Davi, que curava, falava com autoridade e era obedecido pelos espíritos malignos; Este ter-se feito filho de uma mulher puramente humana e mera criatura?

Sim. Deus o quis. E como uma mãe ao conceber um filho não é mãe somente do corpo, mas de sua alma, ou seja, é mãe inteira do filho por completo, assim Maria Santíssima, ao ser Mãe de Jesus, nascido num presépio, formado em Nazaré, morto numa cruz, era Mãe não somente do Corpo sacrossanto de Cristo, mas Mãe do Verbo Encarnado e, portanto, do próprio Deus.

É de se admirar que Nestório tenha posto tal dúvida num ambiente onde muitos criam o contrário, onde a maioria já propugnava o dogma que seria instituído posteriormente. Entretanto, foi convocado o Concílio de Éfeso por São Cirilo de Alexandria. Conta-nos a história que este deveria esperar os legados pontifícios que chegariam em breve, entretanto, ainda com o atraso destes e de inúmeros outros bispos, o santo deu início ao Concílio. Convocou Nestório para um debate, contudo este não compareceu e, ao mesmo dia, São Cirilo, com os demais príncipes da Santa Igreja, declararam a grande verdade, já contida no coração dos fiéis e que deveria permanecer per omnia saecula saeculorum: Maria Santíssima não era somente anthropothokos (mãe do homem), mas a theothokos, ou seja, a Mãe de Deus.

Em princípio, esse dogma foi considerado apenas com o caráter Cristológico, mas com o avanço da piedade católica e, sobretudo no que diz respeito à mariologia, é natural ter-se constituído como o principal dogma mariano.[6]

Esse deve ser o princípio de todo o estudo sobre a Santíssima Virgem e começo de toda verdadeira devoção à Mãe de Deus, pois:

da verdade fundamental da maternidade divina de Maria, segue‑se todo o demais. Por causa de sua maternidade divina é a nova Eva, é sócia do Redentor, [Corredentora] e Medianeira de todas as graças, Mãe do Corpo místico, Mãe universal, arquétipo da Igreja, novo paraíso, a cheia de graça, a redimida com redenção perfeita, a Rainha do céu e da terra e todo o demais que dela se pode dizer. Nenhuma dessas consequências, reveladas ou deduzidas por meio de procedimentos inferidos dos raciocínios anteriores, pode ser o princípio primário da mariologia; todas procedem, pela ordenação da sabedoria de Deus, da predestinação da Santíssima Virgem para ser Mãe do Redentor, inseparavelmente unida com seu Filho em um só decreto eterno. A maternidade divina é a base da relação de Maria com Cristo, com o Cristo total, com toda a teologia e o cristianismo; é, portanto, o princípio fundamental de toda a mariologia.”[7]

Pe. Pedro Faustino Braga, EP


[1] Cf. PAREDES, José C. R. García. Mariología. 3. ed. Madrid: BAC, 2009, p. 246.

[2] Cf. Mt 28, 19.

[3] Lc 1, 30-31.

[4] Cf. Jo 1, 14.

[5] Cf. Jo 2, 1-12.

[6]Cf. MARÍN, Antonio Royo. La Virgen Maria: Teologia y espiritualidad marianas. Madrid: BAC, 1968, p. 44-62.

[7] VOLLERT, Cyril. Mariología. Madrid: BAC, 1964, p. 487.

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