Excelência da obediência

1 – Excelência da obediência em si mesma

Essa excelência tem sua fonte na vontade divina, cujo cumprimento é a obediência. Ora, a vontade divina, infinitamente perfeita em si mesma, é a regra suprema de todo o bem. Nada mais apreciável, com efeito, do que a meditação, a Missa, a comunhão e todos os exercícios de piedade. Entretanto, quanto praticados contra a vontade de Deus ou contra a obediência, não só perdem o seu valor, mas tornam‑se ainda ocasião de faltas dignas de reprimenda.

Saul ofereceu a Deus um sacrifício que a Lei proibia aos leigos, levando-o a ouvir uma repreensão de Samuel: “Rei, disse ele, procedeste como insensato; por isso o Senhor escolheu um outro Rei, que execute a sua santa vontade” (I Samuel 13, 13-14). E, noutra ocasião em que o mesmo rei Saul havia desobedecido, Deus mandou dizer‑lhe: “Porventura o Senhor quer holocaustos e vítimas e não quer antes que se obedeça à Sua voz? A obediência vale mais do que o sacrifício; desobedecer é como um pecado de feitiçaria; e não querer submeter‑se é como um crime de idolatria; porque, pois, tu rejeitaste a palavra do Senhor, Deus te rejeitou a ti, para que não sejas rei” (I Samuel 15, 22-23). Assim falou Samuel sob a inspiração do Espírito Santo.

A doutrina sagrada ensina‑nos que o Senhor detesta a desobediência, considera‑a como homenagem prestada ao demônio e à vontade própria, à nequice contra o culto de adoração e submissão que Lhe é devido. Ao contrário, grande valor liga Ele à obediência; prefere‑a em lugar dos sacrifícios, por ser ela um altruísmo que sobrepuja o da esmola, da penitência e da oração. Nestes, damos apenas os nossos bens, o nosso corpo e as nossas obras, mas pela obediência consagramos a Deus a nossa alma e tudo o que é nosso, isto é, não só os frutos da árvore, mas a árvore com todos os seus frutos.

Ó virtude sublime, que identificas a nossa vontade vil e abjeta contra a vontade do Altíssimo! Não quero mais subtrair‑me ao teu império! Os teus pensamentos serão os meus, os teus desejos os meus e o meu livre arbítrio não seguirá outra direção senão a tua, fonte da verdadeira liberdade. Jesus, obediente até à morte da Cruz, adentra-me do vosso espírito, espírito de humildade, submissão e dependência em todas as coisas.

2 – Excelência da obediência em seus efeitos

A santidade consiste na renúncia própria em seguimento de Jesus Cristo, na destruição dos nossos vícios para o exercício das virtudes. Ora, ninguém melhor renuncia a si próprio e às suas inclinações do que quando combate a vontade própria, que é a fonte de todos os defeitos; ninguém segue melhor o Salvador na prática das virtudes do que quando obedece fielmente aos que o dirigem em nome de Deus. “A obediência – dizia São Felipe Neri – é o caminho mais curto para se chegar à perfeição; os que em comunidade levam vida dirigida por outrem, santificam‑se mais depressa do que os que de motu proprio praticam grandes macerações do corpo”. Todos os santos são unânimes nesses sentimentos.

A razão é simples: nenhuma virtude pode subsistir fora da vontade divina, que é a única regra da santidade. O mandamento é a sua expressão mais certa e fiel. Por isso, não podemos santificar‑nos e unir‑nos a Deus de modo mais eficaz do que conformando‑nos às Suas intenções. Perguntaram a São Basílio em que consiste o perfeito amor e ele respondeu: “Na união perfeita da nossa vontade à de Deus pela obediência”. Nada, pois, é melhor nem mais importante para nós do que obedecer com perfeição, mormente quanto à direção da nossa alma.

Despertemos amiúde a nossa fé sobre essa verdade. Teremos assim o mérito de todas as virtudes, pois que estaremos sempre prontos a praticá‑las.

Meu Deus, renuncio desde já aos meus projetos, desejos e apegos que não estiverem de acordo com os vossos desígnios a meu respeito. Elimine do meu espírito os pensamentos pouco conformes à perfeição da obediência, os sentimentos que obstarem à submissão da minha parte à Vossa vontade. Pelos méritos de Jesus e Maria, inspirai‑me às resoluções: de ser sempre dócil aos pareceres de meus confessores, mormente nas perturbações da consciência, na luta contra mim mesmo e no exercício da vida interior; de não me queixar quando a autoridade legítima me privar de alguma satisfação, de algum descanso, de algum estudo predileto, trabalho preferido, para me impor trabalhos contrários aos meus gostos e inclinações do momento, desde que em consonância com a Sua vontade. Quia placita sunt Ei, facio semper.

Pe. Luís Bronchain

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