Exegese do Antigo Testamento

INTRODUÇÃO

Em nome de toda a nação, da qual era chefe, escrevia Jônatas Macabeu ao rei de Esparta: “Nós não sentimos necessidade de apoios e alianças, tendo em mãos, para nosso conforto, os livros sagrados” (1Mac 12,9). Nessas suas palavras, já se apresenta a potência e o valor sobrenatural da Obra Magna da humanidade: a Bíblia.

É com este valor sobrenatural que a Bíblia recebe a sua dignidade de “livro por excelência”. Ela é, com efeito, o fundamento e o alimento da fé para todos os povos cristãos, e nenhum outro livro no mundo pode ser a ela comparado. Qualquer fiel sinceramente apegado à sua religião tem-na, por assim dizer, sempre a mão, como Jônatas o apontava, para nela encontrar conforto em todas as vicissitudes da vida.

Sem dúvida deve-se ter equilíbrio para não fazer única e exclusivamente valer a Bíblia como único meio de salvação, nem muito menos como o principal. Não é necessário citar exemplos de desvios nesta matéria por duas razões: primeiro, porque não cabe na brevidade e objetividade deste trabalho adentrar neste tema; segundo, porque inúmeros são os estultos que seguem de olhos vendados no mundo hodierno as sendas da má interpretação escriturística.

Este trabalho discorrerá de maneira geral sobre uma passagem bíblica que seja pré-figura de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mais especificamente, a do livro do Gênesis, que relata a visão da escada de Jacó.

A ESCADA DE JACÓ SIMBOLO DE JESUS CRISTO

1. A visão de Jacó.

Após receber a benção de Isaac, Jacó saiu de Bersabéia e se dirigiu para Haran, pondo em prática o conselho que seu pai lhe tinha dado. Chegando num certo lugar ao anoitecer, rendido pelo cansaço, tomou uma pedra para reclinar sua cabeça e dormiu. Então, viu em sonho uma escada que ia até o céu, cheia de anjos que subiam e desciam, e Deus que se encontrava apoiado nela.[1]

O que significa esta escada misteriosa indo de Jacó a Deus, de Deus a Jacó e unindo assim a terra ao céu? Sem dúvida ela representa os templos e santuários que nos colocam em comunicação íntima com os céus. Os anjos que vem recolher as orações e os votos dos fiéis para os levar aos pés do trono da Soberana Misericórdia.

Mas a escada de Jacó figura um outro templo do Senhor mais real, mais augusto, mais santo: o corpo sagrado do Verbo, a Santa humanidade do Cristo que deve nascer um dia de Jacó e descender pelos diversos degraus dos antepassados e das gerações.

O Apóstolo diz num sentido análogo que os corpos dos fiéis são os templos de Deus, os templos do Espírito Santo que os fiéis compõem o corpo místico de Cristo, no qual Ele morará durante todos os séculos como Ele morava antigamente em Betel, na arca, no tabernáculo de Silo, no templo de Jerusalém, como Ele mora hoje nos tabernáculos sagrados dos nossos santuários.

O templo espiritual que se constrói nos céus se chama igualmente na Escritura o corpo de Jesus Cristo, ou o templo celeste no qual a divindade habita corporalmente. Os templos não são chamados a casa de Deus só porque Deus mora de uma maneira particular, mas também espiritualmente e corporalmente como hoje nos nossos santuários, nas almas e nos corpos dos fiéis, ao menos espiritualmente e algumas vezes visivelmente, como outrora no tabernáculo e no templo de Sião e nas almas santas dos Patriarcas e dos antigos justos. Mas todos esses templos, esses tabernáculos, essas moradas sagradas do Verbo são no fundo e figuram um só templo: o corpo místico de Jesus Cristo no qual se consumarão todas as figuras[2].

É por isso que a misteriosa escada de Jacó, dando a este Patriarca a idéia de uma morada da divindade, nos representa principalmente a Encarnação, a carne do Verbo pela qual este Deus de glória e de bondade desceu do céu e voltou como Ele mesmo diz: Ninguém subiu ao céu, senão aquele que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu[3]. Ela nos representa esta humanidade santa na qual o filho de Deus morará como em um templo, como em uma arca de santidade. Ela marca a união da natureza divina e da natureza humana naquele que é o filho do Eterno e que será também o filho de Jacó, que na sua pessoa reconciliará o céu com a terra, que será nossa escada para subir a Deus.

Cristo nos ensina que Ele é a via pela qual nós podemos ir ao Pai. Ele faz alusão a esta visão de Jacó quando Ele diz aos seus discípulos: Vós vereis os céus abertos e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o filho do homem[4]. Este Deus encarnado que tocava ao céu por sua divindade, a terra pela sua humanidade e que os uniam em sua pessoa, teve sob suas ordens os anjos que anunciaram aos homens os mistérios de sua encarnação, que o serviam nos dias de sua vida temporal. São estes mesmos espíritos que para Jesus Cristo levam aos pés de Deus os ardentes desejos dos justos e as orações dos santos[5].

Nosso Senhor Jesus Cristo é a verdadeira escada que faz ligação entre o céu e a terra, o ponto de união entre os homens e Deus. Esta afirmação não encontrou seu significado apenas com a vinda do Messias, pois segundo as visões da piedosa Beata Catarina Emmérich, a profecia messiânica que há na visão de Jacó era do conhecimento dos doutores do povo hebreu[6].

CONCLUSÃO

Por meio da Sagrada Escritura, quis Deus se comunicar com homens, usando a escrita humana para revelar os seus augustos mistérios e assemelhar, cada vez mais, a natureza divina da humana. Isto se comprova, por exemplo, no cumprimento das profecias que fazem menção à Encarnação da segunda Pessoa da santíssima Trindade. A este propósito, é oportuno lembrar as palavras da Constituição Dogmática sobre a revelação:

Na Sagrada Escritura, salvas sempre a verdade e a santidade de Deus, manifesta-se a admirável “condescendência” da eterna sabedoria, “para conhecermos a inefável benignidade de Deus e com quanta acomodação Ele falou, tomando providência e cuidado da nossa natureza”. As palavras de Deus, com efeito, expressas por línguas humanas, tornaram-se intimamente semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do eterno Pai se assemelhou aos homens tomando a carne da fraqueza humana. (DEI VERBUM 13,11).

É em Cristo que a Bíblia encontra seu significado; Ele é o ponto de união do Antigo e do Novo Testamento. Pois Deus, inspirador e autor dos livros dos dois Testamentos, dispôs tão sabiamente as coisas, que o Novo Testamento está latente no Antigo, e o Antigo está patente no Novo. Pois, apesar de Cristo ter alicerçado à nova Aliança no seu sangue, os livros do Antigo Testamento, ao serem integralmente assumidos na pregação evangélica, adquirem e manifestam a sua plena significação no Novo Testamento.

Desta forma, foi possível contemplar neste trabalho um fato do Antigo Testamento que tanto caracteriza o Novo: a visão da escada de Jacó. É impressionante notar quão imbuídos de significados estão os mais simples fatos, como, por exemplo, este supracitado; Jacó que após a fadiga de uma longa viagem reclina sua cabeça sobre uma pedra e ao dormir tem um sonho, talvez não possa haver algo de tão natural, de tão humano quanto isto. Porém, estava deitado um Patriarca da humanidade, aquele de cuja descendência viria o Messias, aquele que foi digno de ouvir do próprio Deus a promessa da salvação: a Encarnação do Verbo.

Luiz Carlos da Silva Júnior

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Bíblia Sagrada. Trad. da Vulgata pelo Pe. Matos Soares. 37. ed. São Paulo: Paulinas, 1980.

COLUNGA, Alberto; CORDEIRO, Maximiliano Garcia. Bíblia Comentada. 3. ed. Madrid: BAC, 1967, v. 1.

MAISTRE, M. L’abbe. Le Livre des Figures Prophétiques. Paris: Wattelier, 1873.

SHERIDAN, Mark. La bíblia comentada por los Padres de la Iglesia. Trad. Marcelo Merino Rodríguez. Madrid: Ciudad Nueva, 2005.

PAULO VI. Constituição Apostólica Dei Verbum. 18 de novembro de 1965. Disponível em <www.vatican.va>. Acessado em: 15 mai. 2009.


[1] Cf. Gen. 28,10-13.

[2] Cf. MAISTRE, 1873, p. 118.

[3] Jo 3,13.

[4] Jo 16,10.

[5] Cf. COLUNGA, 1967, p. 266.

[6] Cf. MAISTRE, 1873, p. 119.

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