Lumen Veritatis – Editorial de Setembro

Uma abordagem sintética acerca da pessoa e da obra de Joseph Ratzinger enquanto intelectual, teólogo e pontífice é certamente delicada e complexa. Vida, amor, verdade e teologia são os traços marcantes que, para Pablo Blanco, identificam Bento XVI: “Nele a vida se funde com a busca da verdade e do amor que levam de modo inevitável a Cristo”.[1] E se algo há de constante na reflexão de Ratzinger, é esta aproximação de Jesus aos homens, tornando-Se não só mais acessível na sua humanidade e realidade histórica, mas também apontando para a visibilidade de seu rosto, mormente por meio da liturgia, daquilo que se pode chamar “o poder dos sinais”.[2] Com efeito, quis o Salvador fazer-Se carne e habitar entre nós (cf. Jo 1, 14). E, ao tornar-Se semelhante a nós em tudo, exceto no pecado (cf. Hb 4, 15), entra na história concreta dos homens, revelando-Se e dirigindo “palavras de vida eterna” (Jo 6, 68). É justamente esse o objetivo da reflexão do teólogo alemão: “compreender a figura de Jesus, a sua palavra e seu agir”.[3]

Além disso, a beleza e a verdade são dois elementos recorrentes no pensamento ratzingeriano. A verdade da beleza e a beleza da verdade têm a sua referência em Cristo, pois é Ele ao mesmo tempo a Verdade (Jo 14, 6) e a Beleza que salva.[4] Ambas vertentes se impõem naturalmente e conduzem à adesão e ao testemunho. Pois quem contempla e se encontra com Cristo, fato constitutivo do ser cristão (cf. Deus caritas est, n. 1), não pode senão comunicar esta experiência.[5] A flecha da beleza que nos atinge tem sua origem no mais belo entre os filhos dos homens (Sl 44, 3): Jesus Cristo.[6] É d’Ele que provém e é para Ele que somos atraídos. Do mesmo modo, dentro do contexto do diálogo, é na verdade que este deve se fundamentar e é ela que deve ser o seu escopo.[7]

Outro tema frequente no conjunto de seu pensamento é o relativismo, “problema central para a fé do nosso tempo”,[8] o qual decorre de uma determinação de valores adversa à existência de uma verdade universalmente válida. Ora, isto está intrinsecamente relacionado com uma concepção distorcida acerca da liberdade, ao propor o questionamento de qualquer vínculo e autoridade, e reivindicando a total flexibilização das ações humanas.[9] No entanto, como salienta Bento XVI, é somente no Salvador que o homem pode encontrar a verdadeira liberdade10, capaz de resgatar o espírito da escravidão do pecado, de falsas ideologias e da arbitrariedade subjetivista.

Em contraste com essa concepção, Ratzinger alertava na Missa Pro Eligendo Pontifice a respeito da “ditadura do relativismo”, cuja medida é o próprio eu e a própria vontade, não reconhecendo, em última análise, nada de definitivo. No entanto, “nós, — asseverava o então Cardeal — temos outra medida: o Filho de Deus, o verdadeiro homem”. O Conclave que se seguiu terminou por elegê-lo Sumo Pontífice.

Como sucessor de São Pedro, pôde dar uma resposta emanada do Magistério a muitos desafios e tendências da atualidade. Seus escritos e pronunciamentos trazem o selo e a autoridade de um Papa-teólogo, que deixa um luminoso legado à Igreja, a qual com tanta dedicação se entregou. Na encíclica Deus caritas est distingue e precisa, com grande atualidade, o verdadeiro amor em contraste com desvirtuadas concepções. Mais tarde, sai a lume a Spe salvi, sobre a esperança, virtude premente para o desfalecido homem hodierno. Por fim, a Caritas in veritate pondera a ação social da Igreja numa clave eminente, distinguindo-a de filantropias, ONGs, ou mesmo de uma concepção da Igreja voltada para caridade, sem a verdade e a exigência evangélica a ela inerentes.

Uma vez abordadas a esperança e a caridade, faltava algo sobre a fé, a fim de completar a trilogia das virtudes teologais. A proclamação do Ano da Fé e a elaboração da Encíclica Lumen fidei, em estreita colaboração com Francisco, encerrou sob o signo dessa virtude um pontificado surpreendente em todos os sentidos — até mesmo na renúncia —, que provavelmente oferecerá muitos anos de estudo e aprofundamento intelectual. Seu pensamento e simplicidade ainda moverão, certamente, a pluma de muitos estudiosos. Seja este um manancial que, à semelhança das virtudes teologais, conduza sempre a Deus.

Pe. José Manuel Victorino de Andrade, EP


[1] BLANCO, Pablo. Joseph Ratzinger: Vida y Teología. Madrid: Rialp, 2006, p. 20: “En él la vida se funde con la búsqueda de la verdad y del amor que llevan de modo inevitable a Cristo” (tradução nossa).

[2] Cf. BENTO XVI. Il potere dei segni. A cura di Leonardo Sapienza. Città del Vaticano: LEV, 2011, passim.

[3] BENTO XVI. Gesù di Nazaret: Dall’ingresso in Gerusalemme fino alla risurrezione. Città del Vaticano: LEV-Bur, 2012, p. 9.

[4] Quanto à beleza, encontra-se um excelente texto em: RATZINGER, Joseph. A Caminho de Jesus Cristo. Coimbra: Tenacitas, 2006.

[5] O paradigma do testemunho da verdade e a missão enquanto imposições não de uma religião particular ou de uma cultura arrogante que se julga superior, mas de algo que se impõe por si, e que é Cristo, encontra-se em RATZINGER, Joseph. Fé, Verdade, Tolerância. Lisboa: UCP, 2007.

[6] Ibid.

[7] Sobre o diálogo e a verdade, ver a informal conversa entre Habermas e Ratzinger no final do encontro de ambos na Academia Católica da Baviera, no dia 19 de Janeiro 2004, que se encontra no prefácio da tradução espanhola: HABERMAS, Jürgen; RATZINGER, Joseph. Dialéctica de la secularización. Madrid: Encuentro, 2006.

[8] RATZINGER, Joseph. Fé, Verdade, Tolerância. Lisboa: UCP, 2007, p. 107.

[9] Um excelente texto sobre Igreja e Política, onde este assunto é abordado, encontra-se no terceiro capítulo da obra RATZINGER, Joseph. Iglesia, ecumenismo y política. Madrid: BAC, 2005. 10) BENTO XVI. Homilia na Praça da Revolução José Martí. Havana, Cuba. 28 mar. 2012.

 

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