Mãe do Bom Conselho

A pintura, aplicada sobre delgada crosta de reboco, de trin­te e um centímetros de largura por quarenta e dois centímetros e meio de altura,[1] retrata Maria Santíssima com inefável e materna ternura, amparando em seus braços o Menino Jesus, ambos enci­mados por um singelo arco-íris. As cores do afresco são suaves, e finos os traços dos admiráveis semblantes.

Capela onde se encontra o afresco da Mãe do Bom conselho, Genazzano, Itália

Capela onde se encontra o afresco da Mãe do Bom conselho, Genazzano, Itália

“O magnum Mysterium!” — canta a Igreja no responsório das Matinas de Natal. Deus e Homem, hipostaticamente uni­dos! Seriedade e doçura, majestade e candura maravilhosamen­te expressas na fisionomia de uma criança.

Analise-se mais detidamente este quadro do Divino Infan­te. O nariz sem sinuosidades lembra a suprema retidão d’Aquele que é o Sol de Justiça. Seus olhos comunicativos, ligeiramente amendoados, de um castanho suave e luminoso, com certo matiz de verde, irradiam paz, ilimitada bondade, infinita sabedoria.

Detalhe dos olhos do Menino Jesus

Detalhe dos olhos e do nariz do Menino Jesus

Atrai agradavelmente a vista sua túnica vermelho-ocre, em cuja gola se destacam bordados harmoniosos e enigmáticos. Me­ro ornato? Ou quiçá alguma palavra em idioma desconhecido, alusiva à sua missão?

Num gesto de intenso afeto, transbordante de amor, Ele envolve com a mão direita o nobre e delicado pescoço de sua Mãe, enquanto com a esquerda segura energicamente a parte superior do vestido d’Ela, como a dizer: “Sois toda minha!” É tão categórico esse comovedor e divino amplexo, que sua vista direita parece levemente desviada da linha normal, pela ênfase com que Ele estreita sua face à de sua Mãe Santíssima.

Detalhe da mão do Menino Jesus

Detalhe da mão do Menino Jesus

Sem deixar de exprimir em nada a fisionomia própria de uma criança, o Divino Infante não denota, entretanto, a me­nor superficialidade, tão característica dessa fase da vida. Pelo contrário, como um oceano de seriedade, transparece n’Ele to­da a profundidade e amplitude do entendimento, toda a força da vontade, toda a elevação e nobreza do sentir. E tem a mais alta consciência do que representa sua Mãe, do paraíso inte­rior que Ela Lhe oferece.

Jesus Menino contempla, num olhar abarcativo, o passado, o presente e o futuro. Analisa toda a obra da criação, em toda a sua variedade e esplendor. Vê a revolta de Lúcifer e o proelium magnum — a grande peleja na qual São Miguel precipita no inferno satanás e os outros espíritos rebeldes.

"Jesus Menino contempla, num olhar abarcativo, o passado, o presente e o futuro"

“Jesus Menino contempla, num olhar abarcativo, o passado, o presente e o futuro”

Depois da prova dos Anjos, considera a prova dos homens. Pondera o pecado de Adão e Eva, com todas as suas consequên­cias: a ruptura da aliança entre o Criador e a criatura, a necessi­dade da redenção do gênero humano. A desobediência ofende­ra a Deus em sua majestade infinita. Era preciso que o resgate fosse feito por quem tivesse mérito igualmente infinito. Eis aí a divina missão do Menino Jesus: redimir a humanidade, estabe­lecer a Nova Aliança, em perfeita conformidade com os desíg­nios do Padre Eterno: “Eu desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou” (Jo 6, 38).

Qual novo Isaac, Jesus deseja ardente e plenamente obe­decer — não foi o pecado de nossos primeiros pais precisamen­te a desobediência? Resoluto e amoroso, assume o holocaus­to, apesar da dolorosa antevisão da pergunta que Lhe poderia aflorar aos lábios no Horto das Oliveiras, repetindo as palavras proféticas do salmista: “Quæ utilitas in sanguine meo?” — Que vantagem virá do meu sangue?” (Sl 29, 10).

Não obstante essas considerações, o Divino Infante quer manifestar aqui todo o seu comprazimento, toda a sua felicidade em estar no colo de sua Mãe Santíssima, como a indicar a ne­cessidade de recorrer a Ela em todas as borrascas e sofrimentos desta vida, a fim de haurir a força e a coragem indispensáveis para seguir “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6).

Por sua atitude, o Menino Deus parece dizer a cada um: “Se queres algo de Mim, pede-o por meio de minha Mãe e se­rás atendido”. O quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano bem poderia estar aureolado com as palavras “Mediação Universal de Maria”, pois o próprio Deus humanado quis encontrar proteção e amparo nos braços virginais de sua Mãe Santíssima.

O Menino pressiona levemente sua face contra o rosto de sua Mãe, e d’Ela recebe inefável manifestação de afeto, vene­ração e ternura, representada com especial acerto pelo grau de inclinação de ambas as cabeças, pelo modo como se olham.

"O Menino pressiona levemente sua face contra o rosto de sua Mãe"

“O Menino pressiona levemente sua face contra o rosto de sua Mãe”

Ó mistérios dessa união, que fizeram exclamar a São Ber­nardo: “Maravilha-te com estas duas coisas e considera qual é causa de maior admiração: se a benigníssima mercê do Filho ou a excelentíssima dignidade de tal Mãe. De ambos os lados está o pasmo, de ambos o prodígio. Que Deus obedeça a uma Mulher, é humildade sem igual, e que uma Mulher tenha autoridade para mandar em Deus, é excelência sem igual”. [2]

Seria intenção do artista simbolizar a grandeza e a profun­didade da misteriosa união entre Mãe e Filho — união arque­típica neles, Maria e Jesus — pintando as faces tão juntas? Ao analisar os traços fisionômicos da Senhora do Bom Conselho — o rosado da face, a configuração retilínea do nariz, a inclinação do pescoço, a cor dos cabelos tendente ao dourado, o arqueado das sobrancelhas — percebe-se que Ela é a Mãe de um Filho que fisicamente muito se Lhe assemelha.

Então, por que pintar tão juntos Maria e Jesus Menino? É porque o Filho é o próprio Criador da excelsa Mãe. E a Mãe — a mais perfeita das criaturas — levou nas suas entranhas vir­ginais o Divino Infante.

A Mãe, em altíssimo ato de adoração ao Filho, procuran­do como que adivinhar o que se passa em seu interior, considera ao mesmo tempo o fiel que a seus pés se ajoelha e, como Media­neira de todas as graças, acolhe sua prece e a apresenta a Deus Nosso Senhor.

Jamais teve alguém em seus braços tesouro de igual valor: infinito…! Entretanto, quem foi mais desejosa do que Nossa Se­nhora de atrair outros para compartilharem de seu tesouro?

É infinito o caleidoscópio de paradoxos que a considera­ção do relacionamento entre Nossa Senhora e seu Divino Filho, nesse afresco, sugere.

Há nessa união de Mãe e Filho uma intimidade e uma profundidade que surpreendem e atraem. A união de alma, re­fletida no olhar que um e outro trocam entre si, gera em ambos uma tranquilidade e uma imobilidade no afeto que Lhes parece fazer sentir a bem-aventurada delícia desse mútuo entendimen­to, desse mútuo estar juntos!

Mas, ao mesmo tempo, esse profundo, calmo, sério e ín­timo olhar não é excludente. O fiel sente-se atraído a entrar no aconchego e na serenidade desse olhar. Mãe e Filho se dispõem a receber com bondade o fiel devoto à procura de socorro, mi­sericórdia ou amparo. O aconchego sacral que ambas as fisiono­mias irradiam faz com que o fiel se sinta entendido e amado nos aspectos mais nobres e elevados de sua alma.

Leitor, abandona por um momento o texto e contempla uma vez mais — e agora detidamente — a foto do afresco, e deixa-te penetrar pela celestial atmosfera que Mãe e Filho criam.

"É infinito o caleidoscópio de paradoxos entre Nossa Senhora e seu Divino Filho"

“É infinito o caleidoscópio de paradoxos entre Nossa Senhora e seu Divino Filho”

Por certo perceberás que, para além de suas qualida­des pictóricas e artísticas, dessas duas fisionomias como que se evolam certas graças de presença de Nossa Senhora e do Menino Jesus, às quais bem poucos conseguem resistir. Sen­tirás que graças sensíveis batem à porta de tua alma, ou já a adentram, trazendo consigo uma paz repousante e um repouso pacificador. Ora é a fisionomia da Mãe, ora o olhar do Filho, ora o afresco no seu conjunto que te dará ânimo em meio às situações difíceis, que te consolará durante os sofrimentos, que te acalmará nas aflições, que te dará confiança nas angústias, coragem na hora de avançar, prudência ao ter que recuar; que, por fim, fará descer do Céu o milagre até ti, quando todos os recursos humanos se tiverem esgotado.

Venerando a sagrada efígie, vêm-nos à mente as palavras de Santo Afonso de Ligório, grande devoto da Mãe do Bom Conselho, habituado a sempre trabalhar tendo diante de si, so­bre a mesa, uma estampa da Virgem de Genazzano:

“Ó soberana Princesa! Do imenso oceano de vossa bele­za, se originaram, como rios a partir de sua fonte, a beleza e a graça de todas as criaturas: o mar aprendeu a arredondar suas ondas e a fazer passear majestosamente suas vagas de cristal, vendo os vossos cabelos dourados, os quais, caracolados encan­tadoramente, caem sobre vossos ombros e sobre vosso pescoço de marfim. As fontes transparentes e seus claros reservatórios aprenderam o repouso e a calma, vendo a serenidade de vos­sa bela fronte e de vossa agradável fisionomia. O arco-íris, tão charmoso quando faz luzir suas mais belas cores, intuiu como se dobrar graciosamente para melhor dardejar os raios de sua luz, contemplando o contorno de vossas sobrancelhas. A estrela da manhã e a estrela vespertina são duas brilhantes faíscas de vos­sos belos olhos. O lírio radiante de alvura e a rosa avermelhada tomaram emprestadas suas vivas cores de vossa fisionomia. A púrpura e os corais parecem invejar o vivo colorido de vossos lábios. O leite mais saboroso e o mel mais doce procedem de vossa boca. O jasmim odorífero e a rosa perfumada de Damasco foram embalsamados pelo vosso sopro. […] Em uma palavra, ó Maria, todas as belezas criadas não são senão uma sombra e uma débil imagem de vossa beleza.

Portanto, eu não me espanto, ó soberana Princesa, de que a terra e o Céu se coloquem sob vossos pés; pois Vós sois tão grande que, pondo-Vos sobre eles, Vós os enriqueceis e eles se alegram em poder oscular a planta de vossos pés. […]

Ó Maria, belo céu resplandecente de graça e de beleza, sois firmamento mais vasto que o Céu Empíreo, pois o próprio Deus, cuja imensidade o universo não podia conter, escondeu-se em vos­so seio!” [3]

Beneficia-te dessas graças que são derramadas com maternal abundância, com magnificên­cia de Rainha, sobre todos aqueles que, piedosa e confiantemen­te, sabem pronunciar as excelsas palavras: Ó Mãe do Bom Conse­lho, rogai por nós!

Ó Mãe do Bom Conse­lho, rogai por nós!

Ó Mãe do Bom Conse­lho, rogai por nós!

Extratos do livro Mãe do Bom Conselho, escrito por Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, Fundador dos Arautos do Evangelho. (CLÁ DIAS, João S. Mãe do Bom Conselho. 3. ed. São Paulo: Lumen Sapientiae, 2016, p. 25-34).

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[1] ADDEO, Agostino Felice. Apparitionis Imaginis Beatae Mariae Virginis a Bono Consilio Documenta. Vaticanus: Typis Polyglottis Vaticanis, 1947. Excerptum ex Analecta Augustiniana, v.20, jan. 1945/dez. 1946, p. 118. Essas medidas referem-se à superfície visível do afresco, pois tanto a moldura quanto o altar cobrem a exten­são total da pintura.

[2] BERNARDO DE CLARAVAL, Santo. Sermones de Tempore: De laudibus Virginis Matris, Hom. I, n. 7 (PL 183, 60).

[3]   AFONSO MARIA DE LIGÓRIO, Santo. Acclamations à Marie: Gloires de Marie II. In: OEuvres Complètes. 2. ed. Tournai: Casterman, 1880, v. 8, p. 247-249.

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