O conceito de alma

Todos os seres que estão no universo têm por característica a mobilidade. Mas há entre eles uma grande diferença que os subdivide em duas ordens diferentes: os inanimados e os animados.

Esta diferença não provém da matéria, que é idêntica, mas da forma, que é o princípio intrínseco do movimento vital. Este princípio de vida, precisamente, é a alma, que Aristóteles define como o “ato primeiro do corpo físico orgânico que tem a vida em potência”[1].

A alma segundo Aristóteles

Para os pré-socráticos, a psyché era identificada geralmente como um princípio físico, ou pelo menos reduzida a um aspecto deste.

A psyché platônica era considerada como uma substância distinta e até oposta ao corpo, unida violentamente numa composição temporal: a alma preexiste ao corpo, no qual se encontra encarcerada e em estado de expiação. No Fédon, Platão considera a alma como princípio de movimento, sem abandonar, porém, sua posição original. 

Aristóteles assume uma posição intermediária, unificando os dois pontos de vista anteriores. Com efeito, os pré-socráticos tiveram razão ao ver a alma como algo intrinsecamente unido ao corpo, mas também Platão ao considerá-la como uma natureza ideal. Porém, não se trata de uma realidade irreconciliável com o corpo; trata-se da forma, do ato ou da enteléquia do corpo, daquele princípio inteligível que, estruturando o corpo, o faz ser aquilo que deve ser.

Relação entre a alma e o corpo

Portanto, por meio da teoria hilemórfica, Aristóteles salva a unidade do ser vivo. Com efeito, a alma é o ato do corpo, com o qual se une como a forma com a matéria, de sorte que alma e corpo, embora distintos, constituem um único composto substancial do qual brotam todas as operações do ser vivo.

Logo, as operações do ente vivo não podem atribuir-se por separado nem ao corpo nem à alma, mas se atribui ao sujeito substancial que resulta de ambos: “Assim como o olho abarca a pupila e a vista, assim a alma e o corpo formam juntamente o ser vivente”[2].

A tripartição da alma

Platão, com base na análise do comportamento ético do homem, dividiu a alma em três partes ou funções: uma alma concupiscível, uma irascível e uma intelectiva.

  • A alma racional seria imortal e de natureza “divina”. Em virtude dela, é possível o conhecimento e a prática do bem e da justiça. Está localizada na cabeça.
  • A alma irascível seria mortal, fonte da vontade e de paixões nobres, como o valor e a fortaleza. Está situada fisicamente no tórax.
  • A alma apetitiva também seria mortal, a parte da alma mais relacionada com o corpo, e estaria vinculada aos apetites sensíveis e às paixões inferiores (fama, comida, riqueza). Por estar intimamente ligada ao corpo, é destruída quando este morre. Localizada no abdômen.

Contrariamente, a tripartição aristotélica nasceu da análise dos seres vivos e de suas funções essenciais. Dado que os fenômenos e as funções fundamentais da vida são de caráter vegetativo, como nascimento, nutrição e crescimento, de caráter sensitivo-motor, como sensação e movimento, e de caráter intelectivo, como conhecimento, deliberação e escolha, Aristóteles introduziu a distinção de alma vegetativa, alma sensitiva e alma racional.

Os graus superiores de almas contêm necessariamente como base os inferiores. Assim, as plantas possuem só a alma vegetativa, enquanto os animais a vegetativa e a sensitiva, e os homens a vegetativa, a sensitiva e a racional. Portanto, para possuir a alma racional o homem deve ter as outras duas; para possuir a alma sensitiva, o animal deve ter a vegetativa. Por fim, é possível ter a alma vegetativa sem as outras.  

A alma vegetativa

A alma vegetativa é o princípio mais elementar da existência, governando os fenômenos mais simples da vida: a nutrição, o crescimento e a geração. Os dois primeiros tendem à conservação do indivíduo, e o terceiro à da espécie.

Uma vez que os seres vivos não podem participar do eterno e do divino continuamente por serem corruptíveis e por estarem impossibilitados de permanecer idênticos e numericamente uno, cada um permanece ao gerar outro ser; permanece não ele, mas um outro semelhante a ele pela espécie. Assim, o mais modesto dos vegetais busca o eterno ao reproduzir-se, sendo a alma vegetativa o princípio que torna possível este meio de perpetuar-se eternamente. 

A alma sensitiva

A vida sensitiva marca um grau mais alto na escala dos seres viventes. Além das funções próprias da alma vegetativa, que consideramos anteriormente, os animais possuem sensações, apetite sensitivo e a potência locomotiva.

O conhecimento sensitivo

O Estagirita explica o conhecimento com base em sua doutrina metafísica do ato e da potência. O conhecimento sensitivo se caracteriza por estar em potência de receber sensações de um objeto que está em ato: “A faculdade sensitiva é, em potência, o que o sensível já é em ato”[3].  Todo conhecimento provém primariamente dos sentidos. O sentido, ao conhecer, recebe a forma do objeto sem a matéria dele, da mesma forma como a cera recebe a marca do anel sem o ferro ou o ouro.

Aristóteles estabeleceu a distinção entre os sentidos externos e internos. Esta distinção não provém meramente da exterioridade ou interioridade dos órgãos respectivos, mas do modo com que os objetos atuam sobre eles.

Os sentidos externos precisam da presença atual e imediata do objeto. Quando um dos cinco sentidos capta o sensível próprio, a sensação é infalível; quando captam os sensíveis comuns, que não são percebidos por nenhum dos cinco sentidos em particular, mas podem ser percebidos por todos, o sentido pode enganar-se. Assim o expõe Aristóteles: “A percepção dos sensíveis próprios é verdadeira, ou comporta um erro mínimo. Em segundo lugar, vem a percepção do objeto ao qual são inerentes essas qualidades sensíveis: nesse caso já é possível enganar-se” [4].

Os sentidos internos se caracterizam por ter a capacidade de realizar as suas funções na ausência de seus objetos. Os quatro sentidos internos são: o sentido comum, que todos os animais possuem e que é a faculdade centralizadora de toda a rede de percepções sensíveis; a imaginação, que somente os animais mais perfeitos possuem, e cuja função é perceber, guardar e reproduzir as impressões sensíveis que são captadas por meio dos sentidos; a estimativa, mediante a qual os animais percebem o que é nocivo ou útil ao sujeito na sua totalidade; e a memória, que ordena no tempo e no espaço as impressões sensíveis estabelecidas pela estimativa.

O apetite sensitivo

O apetite nasce como consequência da sensação. Em virtude dos conhecimentos recebidos dos sentidos, o animal deseja ou aborrece, busca ou foge; apetece os objetos que lhe causam sensações agradáveis e foge das coisas que lhe causam sensações dolorosas ou desagradáveis. Suas reações, portanto, são determinadas pelo prazer ou pela dor, que para eles constituem o bem e o mal.

A potência locomotiva

Unido ao apetite está a faculdade locomotiva, pela qual os animais podem mover-se de um local a outro para procurar o bem ou fugir do mal. Assim, o desejo, produzido pela faculdade apetitiva e pela sensação, é a causa do movimento dos animais.

A alma racional

No grau superior da vida encontramos uma modalidade dupla, cognoscitiva e apetitiva, correspondentes a duas faculdades distintas: a inteligência e a vontade.

O conhecimento intelectivo

A alma humana, que é a forma mais perfeita de todos os seres do mundo corpóreo, possui uma faculdade intelectiva pela qual se distingue de todos os seres pertencentes aos graus inferiores de vida.

Esta atividade intelectual não pode ser realizada sem a atividade sensitiva, como suposto prévio e indispensável. Porém, o conhecimento sensitivo não transcende da ordem do particular, enquanto o intelectivo tem a capacidade de atingir conceitos universais.

De um lado, o entendimento se encontra em potência para conhecer todas as coisas; neste sentido, o entendimento é fundamentalmente passivo. Por outro lado, contrariamente de Platão, Aristóteles não admite a existência de formas inteligíveis em ato; logo, a primeira atividade da função intelectiva é precisamente a de elaborar seus próprios objetos de conhecimento, exercendo uma função ativa sobre as imagens fornecidas pela sensibilidade.

Assim sendo, é necessário admitir uma dupla modalidade dentro do entendimento: o entendimento passivo e o entendimento ativo. Não são dois entendimentos substancialmente distintos, mas uma só alma realizando duas funções diferentes por meio de suas potências: uma passiva, que consiste na percepção das imagens sensíveis, e outra ativa, que eleva essas imagens à categoria de conceitos inteligíveis.

A vontade

Além do apetite sensitivo, causa do movimento na parte sensível dos animais e dos homens, o Estagirita admite outro apetite correspondente à vida intelectual: a vontade.

A vontade encontra-se em estreita conexão com o entendimento prático. Com efeito, no conhecimento sensitivo, o apetecível move imediatamente o sujeito, enquanto que no conhecimento intelectivo a vontade está sob o influxo do entendimento.

Portanto, o apetite intelectivo depende do entendimento prático e da vontade. Enquanto que a vontade quer o fim, a deliberação a respeito dos meios para conseguir este fim depende do entendimento prático. Por este motivo, Aristóteles admite planamente a liberdade e a responsabilidade moral do homem: “Em nosso poder encontra-se a virtude e o vício”.

Rodrigo Solera


[1] De anima II, I,412b4

[2] De anima II, I,412b6-8

[3] De anima II, 5,417 a 17-20

[4] De anima II, 3,428 b 18-25

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