Os entrechoques do Divino Apologeta

Jesus com os fariseus

Jesus com os fariseus – Catedral de Saint-Gatien, Tours (França)

Percorrendo o Evangelho salta-nos aos olhos constantemente, o entrechoque de duas mentalidades: a Divina com a humana, resultando daí uma verdadeira e Divina Apologia. Durante sua vida publica, o Divino Mestre teve que combater contra um terrível erro que se difundia e infiltrava entre o povo eleito, e talvez, poderíamos dizer que tenha sido este o paradigma da ação do mal: o farisaísmo. Entrechoque tal que, como sabemos, culminou na perseguição do Redentor, e por fim na sua própria morte.

Nos ensina a doutrina católica que estando o homem no Paraíso, sua inteligência era governada e iluminada pela graça, de tal modo que – se Adão permanecesse fiel – lhe seria impossível cair em qualquer erro, por pequeno que fosse. Porém, após haver cometido o pecado, tanto Adão, como toda sua posteridade, tornou-se propensa a toda espécie de desvios, criando assim doutrinas falsas que justificam seu modo errado de viver. Sendo esta uma das razões, pelas quais, Deus envia seus Servos e Profetas: para defenderem a sua Verdadeira Doutrina contra os erros que facilmente surgem nas mais variadas épocas históricas.

Se analisarmos o Antigo Testamento, nele veremos fatos que demonstram o quanto é necessário haver homens santos que guiem o povo no caminho da verdade e da retidão. Deste modo, por mais que a história da Apologética tenha seu início nos primeiros séculos do Cristianismo, bem poderíamos denominar esses varões Providenciais – enviados por Deus no Antigo Testamento – de “Proto-Apologetas”, título próprio àqueles que defendem a doutrina, contra as heresias e desvios de seu tempo.

Os Patriarcas, homens de virtude excelsa, personalidade robusta, Fé inquebrantável, autênticas imagens de Deus para aqueles rudes homens ainda não banhados pelo Preciosíssimo Sangue do Salvador, foram, à sua maneira, apologetas; posteriormente, Deus se faz representar pela linhagem espiritual dos doze Juízes, e a seguir, pelos homens da dinastia real que permaneceram fiéis. Todos eles tiveram de enfrentar a opinião pública dominante. Alguns como Josias, que “fez desaparecer as abominações da terra dos israelitas e impôs a todos que lá se encontravam que servissem o Senhor, seu Deus” (2Cr 34,33); e também Ezequias, o qual destruiu os lugares altos e fez cessar a idolatria que se alastrava no meio do Povo eleito (2Rs 18, 3-4). No entanto, “Deus se manifestou de maneira mais esplendorosa através dos Profetas, varões ígneos que invectivavam e ameaçavam aqueles dentre o povo que se desviavam da sã doutrina ou deturpavam a verdadeira Religião”. (CLÁ DIAS, 2005, p. 17-18) Sem embargo, Patriarcas, Juízes, Reis e Profetas não foram senão prefiguras d’Aquele que é o “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6): Jesus Cristo, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Segundo nos ensina São Paulo, Nosso Senhor veio ao mundo na “plenitude dos tempos”. (Gl 4, 4) Essa “plenitude” pode ser entendida de vários modos, um dos quais, o ápice da decadência da humanidade, mas sobretudo dentro do próprio Povo eleito. Assim sendo, “o Verbo se fez carne” (Jo 1, 14) essencialmente para redimir o gênero humano, reatando assim, os laços entre o Criador e a criatura, e ademais, fazendo extraordinárias revelações jamais imaginadas até então. Ora, Ele “veio para o que era seu, e os seus não o receberam”. (Jo 1, 11) Tais revelações foram rejeitadas por muitos de seus contemporâneos, dando origem a um entrechoque continuo de duas mentalidades: a da “graça e verdade” e o “seguimento deturpado da Lei de Moisés”, denominado por diversos autores como: farisaísmo.

Os fariseus dedicavam sua maior atenção às questões relativas à observância das leis de pureza ritual, aquelas estabelecidas para o culto, e passaram a marcar a vida em todas as ações quotidianas, tornando-as ritualizadas. Para o fariseu, “a justiça era mera aparência, e a limpeza ritual praticamente substituía a santidade interior” (HERRERA ORIA, 1959). Após recompilarem uma série de tradições e modos de se cumprir a lei, passaram a dar maior importância a esse “Torah oral”, do que propriamente à Lei verdadeira, ou seja, o Torah ou Pentateuco. Por este motivo, os fariseus tinham o delírio de serem meticulosos na observância das pequenas normas sociais e religiosas de maneira a criarem 613 preceitos (FRANZERO Apud HERRERA ORIA, 1954), que deveriam ser observados por todos. Normas muitas vezes ridículas, como por exemplo, se era lícito comer o ovo que uma galinha tinha posto em dia de sábado.

Eis porque Nosso Senhor os repreende, afirmando que eles “impunham pesados fardos nas costas dos outros sem que eles os movessem nem com um só dedo” (Mt 23, 4), e os censurava, como nos relata São Marcos: “Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens. […] Na realidade, invalidais o mandamento de Deus para estabelecer a vossa tradição”. (Mc 7, 7-8)

Segue o Divino Mestre com outra repreensão: “Ai de vós, guias cegos!” (Mt 23, 16) Isso por quê? Porque foram eles os mais ferrenhos opositores do Reino de Deus trazido pelo Salvador. Devido à grande influência que exerciam sobre o povo, haviam incutido neste uma mentalidade errada a respeito do Messias, apresentando-O como implantador de um reino estável para os judeus, e que os elevaria à supremacia sobre os demais povos. Idéia esta, triunfalista e de cunho marcadamente político e que, infelizmente, desenvolvera-se entre o Povo eleito durante séculos por influências farisaicas. (CLÁ DIAS, 2005)

No entanto, a fama de Jesus se propagava rapidamente, devido à magnitude dos numerosos milagres que realizava. Por esta razão, os fariseus imploravam ao Divino Mestre uma declaração taxativa se era ou não o Messias. Pergunta de si razoável porém, cheia de maldade, porque mesmo que Jesus lhes respondesse de forma afirmativa, eles não acreditariam, pois sua Divina figura contrariava a concepção errada que eles haviam criado para si. No fundo, isso era feito para apanhá-Lo em algum dito supostamente blásfemo, para assim terem oportunidade de prendê-Lo, “entretanto, ao Salvador ninguém engana. Quantas vezes, ao longo da História da Igreja, ímpios e hereges se serviriam dos mesmos pretextos daqueles fariseus”. (CLÁ DIAS, 2007, p.13) Pelo fato de não quererem entendê-Lo, não se deixaram enlevar pelo Messias como Ele realmente é; pois, desejavam que o Messias se adaptasse a eles como eram, com seus caprichos e delírios. “De nada adiantaram todos os milagres, pregações, nem mesmo a manifestação das virtudes de Jesus para dissolver o egoísmo pétreo daqueles incrédulos fariseus!” (CLÁ DIAS, 2007, p 13)

Como se explica a sanha de ódio contra o Divino Salvador? Teria Ele cometido algum delito? Será que Ele veio abolir a Lei de Moisés?

Não! Jesus mesmo declara, após o Sermão da Montanha, o qual segundo Santo Agostinho contém a síntese das doutrinas e estilo de vida trazidos por Nosso Senhor: “não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas. Não vim para os abolir, mas sim para levá-los à perfeição”. (Mt 5, 17) No entanto, os fariseus rejeitaram este convite ad maiorem, preferindo permanecer aferrados aos conceitos antigos.

Mesmo diante da dolorosa caminhada rumo ao Calvário, Jesus não hesita. Toma sua cruz e vai ao encontro da morte como “manso cordeiro levado ao matadouro”. (Is 53,7) Não houve e não haverá na História martírio que possa igualar-se ao que se submeteu Nosso Senhor Jesus Cristo. Sendo “Mártir dos mártires, Mártir por excelência, comprou com seu Sangue adorável a perseverança de todos aqueles que, nos séculos futuros, haveriam de trilhar as vias do holocausto, entregando suas vidas em defesa da Verdade.” (CORREA DE OLIVEIRA, 1977)

E assim, o Divino Apologeta testemunhou com seu próprio Sangue a Verdade que durante toda sua vida terrena ensinou e defendeu.

Cristo Crucificado

Cristo Crucificado. Igreja dos Arautos do Evangelho, São Paulo.

 

REFERÊNCIAS

BIBLIA SAGRADA. Tradução dos Monges de Maredsous. 36. ed. São Paulo: Ave-Maria, 2002.

CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A imagem sacra pode expressar muito mais que as palavras. Arautos do Evangelho. São Paulo: Agosto,n 44, p.16-19, 2005.

______. O fariseu e a pecadora. Arautos do Evangelho. São Paulo: Junho, n 30, p.6-11, 2004.

______. Joio, mostarda, fermento e o Reino. Arautos do Evangelho. São Paulo: Julho,n 43, p.6-11, 2005.

______. Somos todos ovelhas de Jesus? Arautos do Evangelho. São Paulo: Abril,n 64, 10-17, 2007.

FLÁVIO JOSEFO. História dos Hebreus. Tradução do Pe. Vicente Pedroso. São Paulo: Américas, 1956, v 7.

HERRERA ORIA, A. La palabra de Cristo. 2. ed. Madrid: BAC, 1959, v 6.

______. La palabra de Cristo. Madrid: BAC, 1954, v 3.

CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferencia sobre a Paixão de Jesus. São Paulo: Auditório São Miguel, 16 mar 1977.

SANTO AGOSTINHO. Sobre o sermão do Senhor na Montanha. Campo Grande: Edições Santo Tomás, 2003.

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