Paz interior

“Estando os discípulos reunidos, Jesus apareceu no meio deles e disse-lhes: A paz seja convosco!” Assim fala o Evangelho. A paz, que o Salvador desejou tantas vezes aos seus, é um bem inestimável. 1º Meditaremos a sua natureza e as suas vantagens; 2º Veremos como adquiri-la. A seguir tomaremos a resolução de acautelar-nos contra a perturbação e a impaciência; pois, diz o Espírito Santo: Procurai a paz, procurai-a sem tréguas. Inquire pacem et persequere eam (Sl (34 (33),15).

Natureza e vantagens da paz

            Há duas espécies de paz, a dos pecadores e a dos justos. A primeira consiste em contentar as inclinações viciosas, em nada recusar ao coração e aos sentidos. É uma espécie de paz, porque quem nela vive não tem luta, nem combate, nem fadigas, mas essa paz é a de um rei arrastado por seus vassalos, curvando-se-lhe aos caprichos e sancionando todas as suas vontades; é a de uma água parada ou de um cadáver no túmulo: termina com a corrupção, com a perda da alma e do corpo. Essa paz é apenas superficial: a alma, feita para dominar os sentidos, só com pesar e humilhada se submete ao seu jugo. Assim os mais depravados procuram as trevas para praticar o mal.

            Bem diferente é a paz dos justos, a qual consiste na ordem e na tranquilidade que dela resultam. Nele a alma está em seu lugar, entre os sentidos e Deus; subjuga a carne, obriga-a a permanecer submissa à razão, e ela mesma submete a razão à Lei divina. É certo que, para a sujeição das paixões e dos sentidos, ela não pode jamais depor as armas. Mas as expedições que um rei faz nas fronteiras do seu reino, a fim de afastar os inimigos, não o impedem de gozar profunda paz na capital e no seu palácio; assim o justo permanece em paz na sua inteligência e na sua vontade, a despeito das revoltas das más inclinações e dos ataques do inferno.

            Jesus ressuscitado, quantos bens não nos proporciona essa paz inefável de que sois manancial fecundo! Ela faz-nos gozar aquela suave doçura de que fala o Apóstolo: “[…] e que supera todos os prazeres dos sentidos” (Fp 4,7). O Espírito Santo compara-a a um festim permanente (Pv 15,15) no qual a inteligência e a vontade, nutridas das verdades da fé, fortificadas por uma graça abundante, experimentam as mais puras delícias, contentando-se com o soberano bem. Prova disso é o Santo Job no meio das suas provações, e São Paulo, apesar de todas as suas tribulações.

            Meu Deus dai que eu, a seu exemplo, procure essa paz profunda que é um antegozo do Céu. Concedei-me a graça de encontrá-la: 1º em verdadeiro arrependimento e inteira obediência ao confessor, quanto aos pecados passados; 2º na abnegação própria e na pureza de consciência, quanto às agitações do presente; 3º no abandono à vontade divina e na confiança em Jesus e Maria quanto às apreensões do futuro. Inquire pacem et persequere eam.

Meios de adquirir a paz

            O primeiro meio para se obter a paz consiste no esforço onímodo de conservar a graça santificante ou a amizade divina. Quem tem por inimigo um homem poderoso não pode estar tranquilo; como se poderá ter paz quando se tem a Deus por adversário pelo pecado mortal? O Espírito Santo declara que uma consciência culpada não encontrará repouso (Is 48,22). Caim, tendo assassinado a seu irmão, pensava que todos o perseguiam, e fugia de um lugar para outro. David, depois do seu pecado, achava amargas todas as delícias da sua corte. É que o temor, a agitação, os remorsos atormentam o coração separado de seu Deus e criado para possuí-Lo. O pecado mortal é, pois, o maior obstáculo à paz interior, e a graça habitual é para ela a condição mais necessária.

            Para melhor sentir as doçuras, é necessário ainda levar vida fervorosa e evitar com cuidado as faltas veniais deliberadas. O hábito dessas faltas priva-nos das luzes, dos atrativos da graça, daquela providência especial de que Deus cerca os seus verdadeiros amigos e que lhe confere segurança no espírito, devoção no coração, prontidão na vontade para se curvar a todos os seus deveres. A alma tíbia, o contrário, não se lembra senão com amargura da felicidade que gozava quando servia a Deus generosamente. As exprobrações da consciência, que a exortam a mudar de vida, entristecem-na, tornando-a infeliz. Tanto é verdade que a tranquilidade e o repouso interiores nascem do sacrifício que alguém se impõe para ser fiel a Deus e constante no seu serviço. Esses sacrifícios devem, sobretudo, produzir em nós uma inteira conformidade à vontade divina; pois que sem essa conformidade bastará a multiplicidade das ocupações para perturbar-nos e agitar-nos; que será quando somos alvo de contradição, adversidade, injustiça e humilhação? É, pois, necessário, para se conservar a paz do coração, armar-se de coragem e paciência, encarando os acontecimentos como os santos os consideraram, isto é, com fé, submissão, confiança e abandono a Deus.

            Jesus, que sofrestes com tanta calma os tormentos da vossa Paixão, concedei-me, pela intercessão de vossa divina Mãe, aquela paz profunda e durável, que é o fruto da vossa Morte e da vossa Ressurreição. Comunicai-me, pois: 1º um vivo horror do pecado, embora venial; 2º a coragem de combater minhas más inclinações para, assim, Vos permanecer fiel; 3º renúncia completa à minha vontade própria, a fim de me conformar em tudo à vossa, que merece ser infinitamente amada.

BRONCHAIN, Pe. Luís. Meditações para todos os dias do ano, segundo a doutrina e o espírito de Santo Afonso Maria de Ligório. 3. ed. Petrópolis: Editora Vozes, l959, p. 295-298.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *