Por que chamamos a Igreja de Católica?

Introdução

Costumam dizer que toda comparação claudica. E é verdade. Sem embargo do que, com esta introdução não pretenderemos quebrar tal regra, mas pelo vivo e oportuno que é a comparação, arriscaremo-nos em fazê-la. Contudo, declaramos de antemão que não podemos nem de longe reduzir a Igreja a uma empresa.

Com efeito, no mundo globalizado de hoje, o que diríamos nós de uma empresa que estivesse em todos os continentes da terra? O que pensaríamos ainda se ela tivesse uma sede em praticamente todos os países do orbe terrestre? E ainda, se ela atuasse no mercado internacional a praticamente dois mil anos? Se todos os seus membros partilhassem de um mesmo ideal, numa união intrínseca muito acentuada? Certamente julgaríamos ser esta a maior multinacional do mundo, uma verdadeira superpotência. Entretanto sabe-se que é impossível tal situação de prosperidade para uma empresa. Não obstante, isto que é impossível no campo material e comercial é totalmente viável para a Santa Igreja, que é obra de Deus. De maneira que quase poderíamos aplicar os predicados desta promissora empresa à Igreja. Sim, quase, pois, se não fosse diminuí-La comparando-A a uma multinacional, o didático exemplo seria correntemente empregado. De fato, como constatamos, a Santa Igreja está espalhada por todos os continentes, está instalada em praticamente todos os países, em incontáveis cidades, ela atua a quase dois mil anos, ajudando as almas a rumarem ao Céu; somando tudo isso numa comunhão a um mesmo ideal de serviço ao Evangelho, sob os auspícios do Romano Pontífice. Justamente, quando dizemos que a Igreja é Católica, reconhecemos nela todas estas qualidades.

 

De onde vem que a Santa Igreja seja chamada de “Católica”?

Ensina-nos o catecismo que “a palavra ‘católico’ significa ‘universal’ no sentido de ‘segundo a totalidade’ ou ‘segundo a integridade’.”[1] O termo foi cunhado por Santo Inácio de Antioquia (por volta de 110), numa carta em que escrevia: “Onde está o bispo está também a assembléia dos fiéis, assim como a Igreja Católica está onde se encontra Cristo Jesus[2]”. Encontramos ainda outra fonte antiqüíssima do uso deste predicado aplicado à Igreja, nos atos do martírio de São Policarpo (156), que são destinados “à toda a Igreja Católica expandida por toda a terra”[3]. Como podemos logo perceber, se desde muito cedo, a Igreja fundada por Nosso Senhor, foi logo apelidada de ‘católica’, ou seja de ‘universal’, não o é sem razão. De fato, Nosso Senhor não fez distinção dentre os que deveriam pertencer ao seu rebanho, mas convocou os apóstolos exortando-os: “ide pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19).

Trata-se portanto de uma ordem do próprio Senhor Jesus que mandou que Sua Igreja fosse universal, que Ela se estendesse à todas as criaturas, e se Ela é católica, “é porque é enviada em missão por Cristo à universalidade do gênero humano”[4]. Ela é católica porque Nosso Senhor sofreu sua amarga Paixão pelos pecados do universo inteiro, indistintamente, para que a redenção resgatasse o mundo inteiro, como nos explica São João (1Jo 2,2) “Ele é a expiação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo”. E ainda, temos que o Evangelho é direcionado à toda criação, como nos ensina São Marcos “E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (16,15). Vemos nesta exortação de Cristo a natureza imperativamente evangelizadora da Igreja, que explica seu afã de catequizar a todos em todo lugar.

Todos são chamados a pertencer à Igreja

Como vimos, todos são chamados a serem evangelizados, ou seja, a pertencerem ao Povo de Deus que é a Igreja[5], como nos diz a Constituição Dogmática, Lumen Gentium: “Ao novo Povo de Deus todos os homens são chamados. Por isso, este Povo, permanecendo uno e único, deve estender-se a todo o mundo e por todos os séculos, para se cumprir o desígnio da vontade de Deus que, no princípio, criou uma só natureza humana e resolveu juntar em unidade todos os seus filhos que estavam dispersos”[6].

O que tão belamente definiu a Lumen Gentium é o que sempre procurou fazer a Santa Igreja em todas as épocas, e em todas as situações: procurar uma unidade de todos os homens e para todos os séculos, através da evangelização. Com efeito, a Santa Igreja, veio responder ao anelo de cada ser humano, de buscar A Verdade: Deus. Muito nos esclarece Sertillanges, explicando sobre a Igreja: “Nosso organismo religioso tem a virtude necessária para satisfazer às necessidades religiosas de todos os povos, de todas as raças, de todos os graus de civilização: pode responder a todos os estados de vida, a todas as disposições legítimas dos espíritos, dos corações, dos indivíduos e dos grupos”[7].

De fato vemos que esta magnífica obra de Cristo se expandiu por todo orbe da terra levando a Boa Nova de Cristo, sem distinção de povos ou raças, respeitando em cada um sua particularidade, trazendo a todos sua mensagem de salvação e humanidade. Foi o que Ela fez, logo em seu início, assimilando a religiosidade israelita, o pensamento grego, ou a organização romana. Até mesmo no emaranhado campo dos sistemas filosóficos soube a Santa Igreja fazer uma seleção, separando o que era verdadeiro, o que era bom, o que era belo, constituindo sua grande unidade. Temos, por exemplo, dois dos maiores doutores da Igreja, que são constantemente aconselhados como modelo de santidade e de intelectualidade: Santo Agostinho platônico convencido, e São Tomás de Aquino, aristotélico militante.

Mesmo na esfera temporal soube a Igreja conciliar em bom termo suas relações com as mais diversas formas de governos, com os mais diversos países, com as mentalidades mais divergentes.

Soube Ela ainda acolher à sua mesa tanto os ricos quanto os pobres, basta lermos as vidas dos santos. Encontramos grandes da terra como: São Luis Rei de França, Santa Isabel da Hungria; ou então, pequenos aos olhos do mundo, como: São Martinho de Porres ou Santa Bernadette Soubirous. A Igreja não procura favorecer em sua doutrina nem os ricos e nem os pobres, mas faz tudo para todos.

Mesmo nas diferenças fundamentais de sexo entre homens e mulheres, sempre, em todos os tempos, todos foram constantemente acolhidos no seio de tão boa Mãe. Até mesmo nos ensina a teologia a insuperável excelência de uma mulher sobre qualquer outra criatura: A Santíssima Virgem Maria que “foi enriquecida com a excelsa missão e dignidade de Mãe de Deus Filho; é, por isso, filha predilecta do Pai e templo do Espírito Santo, e, por este insigne dom da graça, leva vantagem à todas as demais criaturas do céu e da terra”[8].

Enfim, a noção de universalidade do anúncio sempre foi uma constante na doutrina da Igreja. Mesmo em seu início mais remoto, já tinha a Igreja em vista todas estas condições que acabamos de mencionar, como nos legou São Paulo: “Todos vós que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo. Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus[9]” ou ainda: “Vós vos despistes do homem velho com os seus vícios, e vos revestistes do novo, que se vai restaurando constantemente à imagem daquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento. Aí não haverá mais grego nem judeu, nem bárbaro nem cita, nem escravo nem livre, mas somente Cristo, que será tudo em todos”[10].

 

A Igreja e os não batizados

            Cumpre ressaltarmos que é pelo batismo que nos tornamos membros de Cristo e que somos incorporados à Igreja[11], porém pode acontecer que alguns batizados sejam praticantes somente exteriormente, mas aos quais falta a fé e a caridade, estes são membros paralisados do Corpo Místico de Cristo. Santo Agostinho já advertia: “todos os que não amam a Deus são estrangeiros para Ele; eles podem entrar nas basílicas, porém não se pode contá-los entre os filhos de Deus… Possuir o batismo, o mau também o pode; ter o dom da profecia e todos os sacramentos, o pode igualmente o mau… Mas não se pode ter a caridade e continuar mau.”[12] Paradoxalmente, para que uma pessoa obtenha a salvação eterna, não é sempre necessário que ela seja de fato incorporada à Igreja à título de membro, mas é preciso que ela esteja unida à Igreja pelo menos por desejo. Entretanto, não é sempre imperioso que este desejo seja explicito como nos catecúmenos. Quando alguém se encontra numa ignorância invencível, Deus aceita um desejo implícito, que assim é chamado, pois se encontra na boa disposição de alma pela qual se deseja conformar sua própria vontade à de Deus[13]. Todavia, vale recordar o que nos ensina a Constituição Lumen Gentium: “Não se salva, porém, embora incorporado à Igreja, quem não persevera na caridade: permanecendo na Igreja pelo «corpo», não está nela com o coração[14]”.

A Igreja, este “grãozinho de mostarda”

            Para concluirmos, proponho que nos reportemos à parábola de Nosso Senhor onde Ele nos ensina que o Reino dos Céus é como um grão de mostarda “que um homem toma e semeia em seu campo. É esta a menor de todas as sementes, mas, quando cresce, torna-se um arbusto maior que todas as hortaliças, de sorte que os pássaros vêm aninhar-se em seus ramos” (Mt 13,31-32). O mesmo poderíamos dizer da Santa Igreja. Ao brotar do costado de Cristo, no alto da Cruz, era ela, aos olhos dos homens, a menor de todas, era a menor das sementes. Porém, mesmo sendo tão pequena, no Cenáculo, no dia de Pentecostes, se podia dizer que ela já era católica[15], que já era universal, por mais que suas fronteiras fossem apenas os sagrados muros daquele edifício. Contudo, fortalecida pelo Espírito-Santo, tornou-se ela o maior de todos os arbustos, espalhando-se por todo mundo, tornando-se realmente universal, e realizando, deste modo, o plano salvífico de Deus para que todos os homens “sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste[16]”.

Pe. Michel Six, EP


[1] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 11ª ed. São Paulo: Loyola, 2001. Nº 830.

[2] Cf. Ad Esmirn. 8,2.

[3] Cf. Mart. Polic. 16,2.

[4] Cf. CIC, Nº 831.

[5] Cf. CIC N º 836.

[6] Constituição Dogmática Lumen Gentium N. 13. AAS 57 (1965) 17.

[7] SETILLANGES, A. D., O.P. La Iglesia – Vol. I. Buenos Aires: Editorial Difusión, 1946. P. 105.

[8] Constituição Dogmática Lumen Gentium 53. N. 13. AAS 57 (1965) 58.

[9] Gal. 3,27-28.

[10] Col. 3,9-11.

[11]  Cf. CIC. Nº 1213.

[12] Epistola, 70, P. L. 35, 2032.

[13]  Documenta Catholica, 2 nov. 1952, 1396-1397

[14] Constituição Dogmática Lumen Gentium 14. N. 13. AAS 57 (1965) 18.

[15] Cf. CIC 830.

[16] Jo 17,21.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *